Dossier
Recepção: 23 Outubro 2024
Aprovação: 11 Março 2025

Resumo: O presente artigo pretende analisar a atuação da comunidade teuto-brasileira do Rio de Janeiro na articulação da narrativa pró-Alemanha ao longo da Primeira Guerra Mundial. A então capital federal abrigava a mais antiga comunidade teuto-brasileira em zona urbana, formada a partir de 1808. Detentora de alto poder econômico, seus membros, conhecidos como Rio-Deutsche, integravam as elites culturais e políticas da República. Quando deflagrada a beligerância, fizeram uso destas redes de contato visando encampar iniciativas para a conquista da opinião pública em direção aos Impérios Centrais. Propõe-se, assim, identificar e examinar brevemente os principais representantes dos Rio-Deutsche nos espaços políticos e culturais, seus interlocutores e estratégias para conquistarem a simpatia da sociedade brasileira para a campanha germânica ao longo da Grande Guerra, compreendida como uma guerra global.
Resumen: Este artículo tiene como objetivo analizar la actuación de la comunidad germano-brasileña de Río de Janeiro en la articulación de la narrativa pro-alemana a lo largo de la Primera Guerra Mundial. La entonces capital federal albergaba la comunidad germano-brasileña urbana más antigua, formada a partir de 1808. Con un alto poder económico, sus miembros, conocidos como Rio-Deutsche, formaban parte de las élites culturales y políticas de la República. Al estallar la guerra, utilizaron estas redes de contacto para emprender iniciativas destinadas a ganar la opinión pública en favor de las Potencias Centrales. Se propone, así, identificar y examinar brevemente a los principales representantes de los Rio-Deutsche en los espacios políticos y culturales, sus interlocutores y estrategias para ganar la simpatía de la sociedad brasileña para la campaña alemana a lo largo de la Gran Guerra, entendida como una guerra global.
Abstract: This article aims to analyze the role of the German-Brazilian community in Rio de Janeiro in articulating the pro-German narrative throughout World War I. The then federal capital housed the oldest urban German-Brazilian community, formed in 1808. With high economic power, its members, known as Rio-Deutsche, were part of the cultural and political elites of the Republic. When the belligerence broke out, they made use of these networks of contacts to undertake initiatives to win over public opinion in favor of the Central Powers. Thus, it is proposed to identify and briefly examine the main representatives of the Rio-Deutsche in the political and cultural spheres, their interlocutors, and strategies to gain the sympathy of Brazilian society for the German campaign throughout the Great War, understood as a global war.
Os imigrantes alemães no Brasil no contexto do conflito mundial
Apesar da condição de país neutro, o Brasil esteve inserido nas dinâmicas político-econômicas da conflagração desde o seu início. Seu envolvimento e reações atravessaram diversas fases à medida que os cenários do conflito se transformaram ao longo do quadriênio de 1914-1918. O estado de beligerância entre três de seus principais parceiros econômicos - França, Grã-Bretanha e Império Alemão - fez com que os choques entre esses combatentes reverberassem sobre o comércio internacional, e, por conseguinte, sobre a sociedade, a economia interna, e as relações políticas dentro da República.
Tais impactos podem ser compreendidos como um reflexo dos processos de totalização e globalização da Primeira Guerra Mundial (Audoin-Rouzeau, Becker, 1998). As relações diplomáticas e a política internacional concentraram seus esforços no estrangulamento econômico e político do inimigo, e na mobilização da opinião pública, inclusive a dos países neutros, em favor das campanhas de guerra. O objetivo era a aniquilação completa do oponente e, para isso, desenhou-se uma guerra econômica. Na América Latina, de acordo com Stefan Rinke, a manutenção e a prática da neutralidade pelos latino-americanos foi obstruída, acima de tudo, pelas pressões comerciais e financeiras dos combatentes, acompanhadas por ações de propaganda (2017: 61).
Nessa conjuntura, a estratégia britânica foi determinante. Em 1914, foi aprovada pelo parlamento a Trading with the Enemy Act, legislação que proibia o comércio entre cidadãos britânicos e inimigos do reino. Em dezembro de 1915, como reação à guerra submarina irrestrita anunciada pelo Estado Maior alemão, houve a ampliação da Trading … e a criação do Departamento de Comércio Estrangeiro (Foreign Trade Department) junto ao ministério de relações exteriores, responsável pela sistematização das Black Lists (Rinke, 2017: 74-76). Publicadas a cada duas semanas, as listas discriminavam as firmas de propriedade alemã ou de descendentes de alemães, de várias partes do globo, coibindo suas transações comerciais e financeiras.
De maneira subsidiária à guerra econômica, estavam as estratégias da propaganda aliada. Estas pretendiam convencer os países neutros da assertividade das suas restrições, impostas por uma “causa justa”. Tencionavam, assim, atrair seu suporte material e simbólico. Nesse cenário, segundo Stefan Rinke, a América Latina foi campo de disputa entre as potências beligerantes, em função do grande número de estados neutros e pelos interesses resguardados na região (2015: 1). Por várias razões, prevaleceu a propaganda aliada entre os latino-americanos. Em setembro de 1914, a Grã-Bretanha cortou os cabos telegráficos submarinos que permitiam a comunicação da Alemanha com as Américas, dificultando que notícias sobre a campanha da Vierbund chegassem àqueles continentes. Somado a esse fato, estava o favoritismo expresso pelas elites culturais daqueles países aos Aliados, o que as tornavam mais sensíveis às narrativas da guerra emitidas pelo bloco.1
Da mesma forma que a guerra econômica aliada mirava as empresas de capital germânico, a sua máquina de propaganda tinha os alemães como principal alvo. Tais materiais os traziam como uma população degenerada biologicamente, com tendência à violência e ao autoritarismo, cuja cultura era uma demonstração da barbárie inerente àquelas pessoas (Arouca, 2023: 233). A desumanização do inimigo foi estendida aos agrupamentos de imigrantes teutos localizados fora do Velho Continente (Horne, 2002: 3-4). Panikos Panayi afirmou que o caso de perseguição aos alemães entre 1914 e 1918 se destaca frente aos demais grupos étnicos que sofreram violências semelhantes por ter ocorrido simultaneamente e em escala global em várias partes do mundo (Panayi, 2014: 3). Entre britânicos, russos e estadunidenses, a germanofobia foi insuflada por teorias conspiratórias, questionamentos ao patriotismo de cidadãos de origem alemã e acusações de espionagem (Panayi, 2014: 137-139). Segundo Panikos Panayi, abriu-se entre as nações neutras, uma espécie de guerra fria contra os agrupamentos germânicos dentro de seus territórios (Panayi, 2014: 10).
A intenção dos Aliados era aumentar a desconfiança local com os imigrantes alemães para, assim, cercear o poder econômico e a influência daquelas comunidades em várias partes do mundo. Segundo Fernanda Bana Arouca, desmantelar financeiramente teutos e descendentes estava entre os principais objetivos da máquina de propaganda britânica direcionada para o Brasil e para a América Latina (2023: 187). No caso brasileiro, embora a maioria dos núcleos proviessem das classes médias, e uma parte deles estivesse nas áreas rurais, sem manifestar preocupação com os rumos do conflito mundial, suas elites econômicas demonstraram especial interesse no que se passava no Velho Continente (Luebke, 1987: 175).
A imprensa e organizações germanófobas locais ajudaram a disseminar tais estereótipos. Foi o caso da Liga Brasileira pelos Aliados, um dos vetores da propaganda aliada no Brasil (Arouca, 2023: 229). A associação foi oficialmente apresentada ao público em março de 1915, como uma iniciativa do capitão do Exército e jornalista Eliseu Montarroyos, do professor Antônio Reis Carvalho e de Augusto de Araújo Gonçalves. José Veríssimo e o escritor Graça Aranha, por seu prestígio junto à classe intelectual fluminense, foram convidados posteriormente por Reis Carvalho para se somarem aos esforços de criação da Liga, com o objetivo principal de organizar as manifestações brasileiras em favor dos Aliados. Mais do que isso, o grupo cavaria no Rio de Janeiro a sua própria trincheira, à medida que propôs lutar na guerra da civilização contra a Kultur, do embate derradeiro da herança latina contra a barbárie germânica. Dessa forma, acreditavam estar defendendo não apenas os seus favoritos na contenda, mas o próprio futuro brasileiro, uma vez reconhecendo-se como parte da civilização latina ameaçada pelos “boches” (Pires, 2019).
Inclusive, a campanha anti-germânica dos Aliados encontrou eco entre os receios brasileiros sobre o perigo alemão. Esta seria uma suposta ameaça de anexação de parte do centro-sul do Brasil ao Império Alemão, ou, ainda, da criação de um Estado independente dentro do território brasileiro (Seyfert, 1989, p. 119). Segundo Giralda Seyfert, o temor da existência do perigo alemão se disseminou entre a intelectualidade brasileira desde meados do século XIX, anterior, portanto, à unificação da Alemanha e à sua política imperialista (Seyfert, 1989: 118). Contudo, o estabelecimento de ambos após a Guerra Franco-Prussiana, e a consolidação do imperialismo no pensamento nacionalista alemão, traduzido em especial na ação da Liga Pangermânica, contribuiu para disseminar o sentimento de desconfiança direcionado especificamente a esses imigrantes. Isto, somada à exposição à propaganda aliada, ajudaram a compor uma mobilização contrária aos alemães entre os brasileiros durante a Grande Guerra.
Dessa forma, o presente artigo se propõe a investigar os mecanismos utilizados e agentes representantes dos chamados Rio-Deutsche na intenção de formar uma opinião pública brasileira em favor da campanha alemã. Instados pelas intempéries econômicas e hostilidades frutos do contexto da conflagração, deduz-se que o grupo empreendeu uma disputa pelas narrativas sobre a Primeira Guerra Mundial com setores pró-Aliados da sociedade brasileira, em uma ação coordenada junto aos representantes diplomáticos do Reich no país, e que se assemelha à prática de outras comunidades teutônicas na América Latina. Para atingir seus objetivos e resguardar tanto seus negócios, quanto seus valores étnicos - ambos sob ataque naquele momento - os Rio-Deutsche fizeram uso, sobretudo, da imprensa local. Por essa razão, esta investigação se debruça sobre o jornal A Tribuna e sobre a revista Vozes de Petrópolis, principais plataformas de divulgação de uma narrativa germanófila da guerra no Rio de Janeiro. Além disso, os Rio-Deutsche se valeram de suas conexões fora dos limites do grupo, buscando emissores em tese isentos para o convencimento do seu interlocutor. Assim, trouxemos para o escopo de análise a atuação do deputado federal João Dunshee de Abranches, que empreendeu ampla atuação da Câmara dos Deputados em favor dos interesses do grupo. Através da análise qualitativa tanto dos periódicos mencionados, quanto da bibliografia produzida pelo parlamentar brasileiro, buscou-se identificar elementos no discurso, na organização e na produção que os conectassem àquele grupo de imigrantes e sua forma de atuação durante a conflagração.
A relevância dos Rio-Deutsche para o entendimento da mobilização dos imigrantes alemães no Brasil se deve pela importância econômica e política do núcleo, que detinha alto poder financeiro e se encontrava próximo da esfera de poder federal. Apesar disso, não há estudos de fôlego sobre sua atuação diante do Primeira Guerra Mundial, sendo que a historiografia atual incide majoritariamente sobre as comunidades baseadas ao sul do Brasil. Isso se percebe tanto na historiografia específica sobre a imigração teuta no Brasil entre os anos de 1914 e 1918, como as produções de Frederik C. Luebke e de Stefan Chamorro Bonow, quanto em obras mais generalistas a respeito do impacto da Grande Guerra sobre a América Latina, como as análises de Olivier Compagnon e de Stefan Rinke.
Os Rio Deutsche
De acordo com Frederick Luebke, “a estrutura social desenvolvida entre os teuto-brasileiros ao longo do século XIX e no início do século XX foi o produto da adaptação da cultura dos imigrantes germânicos com o ambiente social do Brasil” (Luebke, 1989: 60). Tal afirmação contraria uma interpretação tradicional, que credita a esses grupos a homogeneidade e o isolamento. Assim, é possível compreender que a comunidade de alemães e teuto-brasileiros presente no Rio de Janeiro vivenciou experiências que resultaram na construção de características que a diferenciam dos núcleos de imigrantes de outras partes do país.
Segundo Marina Michahelles, os teutos assentados no Rio de Janeiro não pretendiam trabalhar ou adquirir uma propriedade rural, mas exercerem atividades comerciais e industriais.2 Para a cidade se dirigiram não grupos subvencionados pelo Estado brasileiro, mas indivíduos que escolheram migrar por iniciativa própria, e retornar à Europa tão logo alcançassem a fortuna desejada. O retorno à terra natal não se concretizou para todos esses empreendedores, uma vez que muitos estabeleceram-se em definitivo no Rio de Janeiro e nos municípios próximos. De acordo com Michahelles, esses sujeitos atuaram no ramo de importação de produtos europeus e exportação de produtos brasileiros, fundando firmas voltadas para essa atividade.3
Por sua atuação nos setores da indústria e do comércio exterior, os Rio Deutsche eram, em geral, um núcleo abastado, de significativo poder econômico, articulado com diferentes setores da sociedade fluminense.4 O movimento de integração dos colonos com a cidade se comprova na presença de seus integrantes em lugares como o Instituto Histórico-Geográfico Brasileiro, a Associação Comercial, a Escola Militar da Praia Vermelha, o Colégio Pedro II e o Jardim Botânico, numa ação de ocupação dos espaços físicos e simbólicos da capital da República (Lenz, S/D: 8-9). Circulavam, dessa forma, em locais reservados à elite política, econômica e intelectual da cidade. A proximidade entre o grupo e os círculos de poder se comprova, por exemplo, pelo casamento de Hermes da Fonseca, presidente da República em 1914, com Nair de Teffé von Hoonholtz, filha de Antônio Luís von Hoonholtz, o Barão de Teffé e membro da comunidade. Outra demonstração seria a filiação de Lauro Müller, ministro das Relações Exteriores entre 1912 e 1917, à Sociedade Germania.5
O contato com o restante da sociedade fluminense foi um elemento definidor da sua identidade. Para Michahelles, a identidade dos Rio-Deutsche era baseada “no contato interétnico entre ‘alemães’ e brasileiros, tendo como referência a nação alemã e a participação política e econômica desses imigrantes no Brasil” (Michahelles, 2003: 18). A afirmação da historiadora indica que, apesar desse convívio, os Rio Deutsche vinculavam sua identidade cultural à Alemanha, através da afirmação do Deutschtum.
O Deutschtum era um elemento fundamental na composição e entendimento da identidade étnica alemã dos teuto-brasileiros, sobretudo entre os grupos urbanizados.6 Michahelles o define como “categoria que engloba não somente as tradições e costumes alemães, mas preponderantemente um vínculo com a Alemanha” (Michahelles, 2003: 59). Do mesmo modo, para René Gértz, a ideia de Deutschtum pode ser traduzida por germanismo e possui duas acepções possíveis. A primeira, de fundo demográfico, diria respeito ao conjunto da população alemã e seus descendentes, enquanto a segunda, cultural, seria a defesa da “germanidade” (Gértz, 1998, p. 43). Esta é uma concepção que vai ao encontro daquela trazida por Carla Russ, onde Deutschtum é apreendido como um “termo nacionalista que se refere à nação alemã em conceitos culturais e étnicos” (Russ, 2019: 10).
No entanto, o que se desenhou entre as comunidades de imigrantes germânicos no Brasil foi o Deutschtumbrasilianertum - o Deutschtum teuto-brasileiro - colocando-os como uma categoria distinta dentro da etnia alemã. O Deutschtumbrasilianertum consistia em afirmar o pertencimento à nação alemã enquanto grupo étnico, ou seja, a adoção e o direito de manutenção da língua, dos valores e tudo aquilo compreendido como expressões da cultura alemã. Contudo, o conceito certificava também o direito desses grupos de participação ativa no Estado, reconhecendo-se, dessa forma, como cidadãos brasileiros. Foi através dessa dupla acepção, como alemães, mas também como brasileiros, que os Rio Deutsche se articularam para defender seus interesses – materiais e simbólicos – no curso da Primeira Guerra Mundial (Seyfert, 1989: 27).
A Primeira Guerra Mundial
Na literatura tradicional sobre a imigração alemã no Brasil, conclui-se que a campanha teuta na Grande Guerra não foi uma preocupação dividida pela totalidade do contingente de alemães e teuto-brasileiros residentes no Brasil.7 Tal conclusão não se aplica às elites econômicas e urbanas dessa comunidade, que se mostraram mais atentas e ansiosas no que concerne à conflagração mundial. Para Luebke, os capitalistas alemães, financiados pelos bancos de sua terra natal, assim como clérigos, jornalistas, técnicos e empreendedores, tinham “fortes laços econômicos ou psicológicos com os europeus”, vendo-se afetados diretamente pela conflagração em seus interesses materiais e/ou ideológicos (1987: 176). Os comportamentos das comunidades teuto-brasileiras, portanto, podem ser interpretadas à luz de seus interesses econômicos e políticos, afetados pelo conflito, assim como em função das críticas contumazes feitas aos valores que compunham sua identidade étnica, pela intensificação dos conflitos entre concepções da identidade nacional brasileira e como essa comunidade compreendia a si própria (Luebke, 1989: 5). Por essa razão, as reações da comunidade alemã e teuto-brasileira ao conflito podem ser melhor observadas entre os grupos mais abastados e instruídos presentes nas capitais.
Os Rio-Deutsche durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto grupo de alto poder financeiro, composto por comerciantes e industriais, tiveram seus interesses atingidos diretamente pela conflagração. A Black List britânica foi um duro golpe contra seus dividendos financeiro. Mercadorias foram confiscadas em trânsito, encomendas de insumos foram negadas, contratos foram encerrados, tanto com negociantes estrangeiros, quanto dentro do Brasil, por receio de retaliações. Sobre esse período, o memorialista da Sociedade Germania, o engenheiro Heinrich Hinden, escreveu que comerciantes e proprietários germânicos tiveram que concentrar “todo seu poder intelectual na sua profissão para não serem derrotados” (Hinden, 1922, p. 486). Isto posto, Hinden afirmou que algumas firmas alemãs conseguiram contornar as interferências da Black List e dos agentes consulares britânicos até o final de 1916, contando com mudanças de nomes, abertura de sociedade com brasileiros, dentre outras estratégias que o próprio autor nomeou como arriscadas, devido à ameaça de serem descobertos pelos agentes britânicos, ou ludibriados pelos sócios escolhidos (Hinden, 1922: 488).
A reação mais significativa dos Rio Deutsche no campo econômico veio na forma da Associação das Companhias Teuto-Brasileiras, criada em agosto de 1916. A organização da entidade coube a alguns capitalistas germânicos e teuto-brasileiros, como Hugo Ornstein, liderados por Christian Hechler. O objetivo desta entidade era proteger os negócios de seus participantes, coletando, por exemplo, provas dos abusos britânicos para serem entregues ao governo brasileiro (Hinden, 1922: 490). A Associação das Companhias Teuto-Brasileiras se articulou com núcleos de outros estados brasileiros, como São Paulo, Pernambuco, Bahia e Porto Alegre, e de países das Américas, como Argentina, Uruguai, Chile e Estados Unidos, demonstrando haver uma cooperação transnacional dos agrupamentos de imigrantes teutos nos assuntos concernentes à conflagração mundial (Hinden, 1922: 491).
Esta não foi a única tática perpetrada pelos Rio-Deutsche, afetados material e simbolicamente pelas dinâmicas da guerra. Promover a campanha alemã entre os brasileiros visava não apenas defender a terra natal de seus antepassados, mas proteger a si mesmos enquanto cidadãos contra as investidas sofridas dos oponentes do Império Alemão nas zonas de guerra, e dos aliadófilos locais. Assim como comunidades de imigrantes teutos em outras partes do mundo, os Rio-Deutsche traçaram uma série de estratégias para atingir seus objetivos entre 1914 e 1917, ano em que o Brasil rompeu as relações com o Reich. Atuar como disseminador do material de propaganda bélica adotado pelo Reich, e, por conseguinte, da sua narrativa da guerra, foi uma das principais ações do grupo. Em consonância, se utilizar das conexões previamente elaboradas com elementos externos à comunidade foi um procedimento recorrente e imprescindível para o alcance dos seus objetivos.
A defesa da campanha alemã
De acordo com Carla Russ (2019), a tarefa de disseminar a propaganda alemã na América Latina coube sobretudo às comunidades de imigrantes.8 A atuação destas foi dotada de uma articulação inter-regional, organizada entre os núcleos e setores financeiros e comerciais alemães, e transnacional, em conjunto com os representantes diplomáticos do Reich localizados na região. Conectados tanto àqueles grupos, quanto à sociedade local e ao governo de Berlim, esses agentes consulares representavam um ponto de intersecção de uma estratégia transnacional de propaganda, que transpassava diferentes países da Europa e das Américas.
Notas na imprensa fluminense, dentre outros registros, expõem as conexões entre os Rio-Deutsche e a legação diplomática germânica. Adolf Pauli era o chefe da legação diplomática alemã no país. O enviado de Berlim demonstrava proximidade com os capitalistas da Sociedade Germania. Na primeira semana de agosto, portanto, no início do conflito, o jornal Correio da Manhã deu uma nota sobre a reunião ocorrida na Sociedade Germania, entre Pauli, sócios da entidade e representantes de associações beneficentes do grupo para “trocar ideias a respeito da grave situação que está atravessando a sua pátria”.9 Com residência em Petrópolis, Pauli demonstrou estar integrado também ao núcleo alemão da serra fluminense. Em ofício encaminhado a Lauro Müller, o diplomata dizia ter se aconselhado junto ao Barão de Teffé - proeminente teuto-brasileiro e sogro do presidente da República – para protestar junto ao chanceler em vista dos discursos pró-Aliados ocorridos na Câmara dos Deputados.10 Outra evidência do convívio do corpo diplomático alemão com os Rio Deutsche foi apresentada anos mais tarde, por Heinrich Hinden. No livro de memórias da Sociedade Germania, o engenheiro registrava o envio do novo embaixador da República da Alemanha no Brasil, George Plehn, em 1920, após restaurada as relações entre os dois países. O representante alemão foi apresentado ao leitor como “o homem que precisou de nós em seu trabalho prévio como cônsul geral na Espanha” (Hinden, 1922: 523). A observação do memorialista faz referência, possivelmente, ao envio de propaganda alemã a América Latina, uma vez que Plehn foi apontado como um intermediador desse material para a região, através de Barcelona, local em que atuara durante os anos da guerra (Carden, 2014).
O envolvimento dos Rio-Deutsche na disseminação da propaganda alemã pode ser comprovado através da análise da imprensa fluminense entre 1914 e 1917. Durante os anos da guerra, houve a preocupação em traduzir para o português o periódico da comunidade Deutsche Tageblatt, que circulou sob o nome Diário do Rio, entre os anos de 1915 e 1917, trazendo informações sobre a campanha germânica. O exemplo mais evidente, contudo, da utilização da imprensa local para a disseminação de uma imagem pró-Alemanha foi o jornal A Tribuna.
O jornal tem suas origens no A Tribuna Liberal, fundado nos primeiros anos da República brasileira pelo monarquista - e futuro germanófilo - Carlos de Laet. Seu compromisso era fazer oposição ao regime recém-instaurado. A primeira versão teve vida curta, e em 1890, foi resgatado por Antônio de Medeiros, já sob o título de A Tribuna. O caráter opinativo no que tangia à política brasileira o fez ser empastelado no governo de Floriano Peixoto. O jornal foi reinaugurado anos mais tarde, como parte da Sociedade Anônima O Malho, fundada em conjunto pelo deputado Luiz Bartholomeu de Souza e Silva, e pelo senador pelo estado de Mato-Grosso Antônio Azeredo.11
Até meados de outubro de 1914, cobriu a beligerância tal qual os demais periódicos da cidade. Nos dois primeiros meses, o tema da guerra ocupou, de forma irregular, parte da primeira página; posteriormente, o assunto foi restrito aos espaços criados para abordá-lo exclusivamente. O ângulo da notícia também era o mesmo, ou seja, pró-Aliado. Estampavam a capa do jornal gravuras mostrando o avanço das tropas de França e Inglaterra, e as derrotas dos alemães em suas empreitadas. Quando da invasão do reino da Bélgica pelo exército do Kaiser, o A Tribuna abraçou a narrativa aliada, relatando os maus-tratos aos civis, baseados em textos da imprensa francesa e inglesa, que circulavam traduzidos em suas páginas.
A partir de outubro de 1914, o jornal sofreria uma mudança radical em sua postura, quando a guerra passou a ser contada de forma favorável à Alemanha. Colocando-se na contramão da aliadofilia generalizada da imprensa brasileira, o periódico se manteve entrincheirado em favor da causa alemã. Pela maneira combativa com que assumiu a cobertura do conflito, tornou-se plataforma e elemento de mobilização para a parcela da intelectualidade fluminense que pôs sua pena a serviço do povo alemão, norteando seus discursos e direcionando ações.
Houve, dessa forma, uma restruturação do material apresentado aos leitores. As gravuras e fotografias veiculadas na página de rosto deixaram de retratar a rotina dos soldados da Entente e suas conquistas, e deram lugar a imagens do contingente militar dos Impérios Centrais e seus avanços nas frentes de batalha. Mapas mostrando as áreas que caíam sob o domínio das tropas alemãs, e tabelas comparativas entre o desempenho das forças do Kaiser e dos Aliados, também foram recursos largamente utilizados. A agência Havas e demais veículos da imprensa francesa e inglesa foram substituídos gradativamente por meios de comunicação alemães e austro-húngaros, como Berliner Tageblatt, Hamburger Fremdenblatt, Deutsches Handelstages, e Hamburger Nachrichten. A mera descrição dos acontecimentos militares também foi com maior regularidade guarnecida com textos analíticos, em geral traduções do que era publicado na imprensa alemã. Além dos veículos de comunicação dos Impérios Centrais, A Tribuna passou a traduzir material produzido pela mídia de países neutros, mas que tinham uma proeminente articulação pró-Alemanha, como Espanha e Argentina. Nesse sentido, os brasileiros conheceram as opiniões de intelectuais espanhóis, e os escritos do correspondente argentino em Berlim, Manuel Mateo Campos, que passou a assinar a seção “Cartas da Alemanha”.12
A atuação da gazeta em favor da Alemanha chamou a atenção dos governos aliados. Tanto representantes diplomáticos franceses quanto ingleses acusaram a folha de ter cedido ao dinheiro germânico. O dramaturgo Paul Claudel, percorrendo a América Latina em missão diplomática - afirmou ser o A Tribuna o “órgão oficial do ministro da Alemanha” (apud Compagnon, 2014: 108). Já os súditos do rei Jorge V constataram que o jornal e o seu editor recebiam, respectivamente, 60.000 e 1.000 a 1.500 francos por mês para manterem qualquer notícia contrária à causa alemã longe das vistas dos seus leitores.13 Cabe ressaltar que cooptar órgãos da imprensa para propagar a campanha germânica foi uma tática utilizada pelo Reich na América Latina. Carla Russ apontou o financiamento de jornais e mesmo a fundação de periódicos exclusivos para o fim de disseminar propaganda como uma prática comum do Estado germânico na região.14 Além d’A Tribuna, outros exemplos brasileiros podem ser apontados. De acordo com André Cândido da Silva, houve uma tentativa da representação alemã no Rio de Janeiro de comprar parte do Jornal do Commércio na esperança de cooptar a folha para o seu espectro (2015: 640).
O chefe da redação do A Tribuna à época da guerra era Lindolfo Boeckel Collor, genro de Luiz Bartholomeu. Além de redator-chefe, foi também um dos articulistas da folha. Collor era filho da primeira geração de imigrantes teutos ao Brasil. Dominava o idioma alemão quando migrou da cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, para o Rio de Janeiro em 1911, portando uma carta de recomendação ao redator-chefe do Jornal do Commércio, João Lage. Como jornalista, trabalhou em algumas das principais redações da capital federal, como O País, Em novembro de 1913, desligou-se de suas funções no Jornal do Commércio para trabalhar no gabinete do ministro da Agricultura de Hermes da Fonseca, Edwiges de Queirós. Em fevereiro de 1914, o jornalista casou-se dentro da alta sociedade fluminense, com a filha de Luiz Bartholomeu, Hermínia de Sousa e Silva.
Apesar do casamento fora do núcleo germânico, Lindolfo Collor demonstrava manter ligações com o grupo. Interesses econômicos e políticos pareciam nortear essas relações. Provavelmente, foi por seu intermédio que a redação do vespertino uniu-se aos esforços das sociedades de imigrantes e da legação diplomática do Reich no país, colocando suas páginas à disposição da campanha dos Impérios Centrais. Quando consolidada a alteração do enfoque sobre a guerra, aumentou no jornal o volume dos anúncios de casas de comércio, firmas e profissionais liberais germânicos e teuto-brasileiros. Na década de 20, findado o conflito, Collor lançou-se em carreira política, apadrinhado por Borges de Medeiros, presidente do Rio Grande do Sul e próximo às comunidades germânicas. O jornalista radicado no Rio de Janeiro buscou nos grupos de origem teuta respaldo para sua campanha para deputado federal, discursando no idioma dos seus pais para atrair votos e apresentar-se como um de seus quadros políticos.15
Outro título da imprensa fluminense que demonstrou amplo apoio aos alemães durante a guerra foi a revista católica Vozes de Petrópolis, fundada em 1907. Apesar de pertencer à Ordem de S. Francisco, era uma revista de variedades, como indica seu subtítulo: Revista quinzenal religiosa, científica e literária. O sumário expõe a ampla gama de assuntos abordados: contos e novelas de temática religiosa dividiam espaço com artigos de cunho político e social, críticas literárias, e notas sobre o cotidiano da política nacional e internacional. A revista foi direcionada também para a apresentação de aspectos culturais da Alemanha. Em julho de 1914, publicou a série “História moderna da sociedade hamburguesa”, e traduziu para o português textos em alemão e resenhas de publicações cuja autoria era teuto-brasileira.
A atenção dispensada à Alemanha se tornaria mais evidente a partir de julho de 1914. O conflito eminente não passou despercebido pelos editores da Vozes. Na seção “Dos nossos dias”, assinada pelo escritor e jornalista Júlio Tapajós, notas eram dando conta das movimentações diplomáticas das potências envolvidas. Com as primeiras declarações de guerra sendo anunciadas, a revista abriu uma seção para tratar exclusivamente do conflito: “A Guerra - Ecos e comentários”, onde as primeiras análises acerca dos acontecimentos, sob uma interpretação simpática, foram apresentadas aos leitores.
A guerra foi um assunto em destaque no quinzenário, que não se restringiu a noticiar os seus principais eventos. Isto é, a revista conduziu uma narrativa da conflagração. Já em 1914, a publicação assumiu como missão ser “documento histórico em que se registra o que ocorre de mais importante [...]”.16 Isso porque reclamava da maneira como outros jornais traziam notícias da conflagração, sempre, em seu entendimento, de maneira desfavorável ao Império Alemão. “O telégrafo internacional está hoje nas mãos dos inimigos da Alemanha. Dizem que na Suíça são a Alemanha e a Áustria que propagam notícias falsas. Que os suíços se defendam e reajam!”, lia-se . Já “no Brasil, se dá o contrário, e é por isso que nos cumpre desfazer intrigas”.17 Assim a revista se manteve até a entrada do Brasil na guerra, em 1917. Sua atuação durante o conflito a transformou em alvo dos ataques contra o patrimônio alemão e teuto-brasileiro: em novembro de 1917, a gráfica da Ordem de Franciscanos em Petrópolis, responsável pela impressão das edições da Vozes de Petrópolis e do jornal Nachrichten, foi empastelada por populares (Luebke, 1987: 165).
Os franciscanos também são apontados pelo historiador francês Olivier Compagnon como importantes artífices da propaganda alemã no Rio de Janeiro (2014: 106). Isso pode ser explicado pelos elos existentes entre a ordem e a comunidade dos Rio-Deutsche. Uma destas ligações era o frei Pedro Sinzig. Nascido em Linz, na Alemanha, Sinzig transferira-se para o Brasil ainda jovem, aos 17 anos, como noviço. Em 1899, naturalizou-se brasileiro, dedicando-se à conformação de uma imprensa alinhada aos valores católicos. Em 1908, tornou-se o editor da Vozes de Petrópolis, a qual esteve à frente até 1920; em 1910, fundou o Centro da Boa Imprensa, cujo objetivo era coordenar os esforços para a construção de um jornalismo católico. Sua atuação na imprensa brasileira o notabilizou em sua terra natal: quando percorreu a Europa, ainda em 1910, para angariar fundos para a criação do Diário Católico, foi convidado pelo Reichstag para palestrar sobre sua atuação na imprensa brasileira.
Além de editor, Sinzig era articulista na Vozes. Sob o pseudônimo de Francisco de Lins, assinou artigos e a seção “A Guerra”. O franciscano publicou ainda o livro Em plena guerra, ainda em 1914. A atuação de Pedro Sinzig e da Ordem dos Franciscanos na defesa da campanha alemã durante a Primeira Guerra Mundial expõe a presença dos teuto-brasileiros entre a comunidade católica. Segundo Frederick Luebke, a integração dos católicos teutos às sociedades locais era maior do que a verificada entre os protestantes, em razão do caráter universalista do catolicismo e das liturgias serem executadas na língua local, o português (Luebke, 1987: 37-39). Contudo, alemães e teuto-brasileiros se organizavam dentro da Igreja de Roma a partir da sua identidade étnica germânica. No Rio de Janeiro, em 1912, foi criada a primeira paróquia em língua alemã da cidade a Comunidade Católica, pelo padre J. Pabst Jr. (Michahelles, 2003: 148).
Durante a Primeira Guerra Mundial, católicos brasileiros e teuto-brasileiros se articularam em prol da campanha alemã. Em 12 de janeiro de 1916, católicos apoiadores da Alemanha organizaram um evento público, no qual o acadêmico Franklin da Costa Parreiros fez a conferência A dissolução francesa e a virilidade germânica. O encontro foi finalizado com a execução do hino Deutschland über alles e do Hino Católico dos Brasileiros.18 Outro exemplo da interseção entre germanofilia e catolicismo nas reações à Primeira Guerra Mundial no Brasil é o jornalista Carlos de Laet. Atuante nas associações católicas, como o Círculo Católico da Mocidade, foi condecorado com o título de conde romano pelo Vaticano. O polemista utilizou ainda de seu lugar nos jornais fluminenses para afirmar posição favorável àquele país e as razões pelas quais os alemães tinham seu favoritismo. Carlos de Laet era um dos diretores e conferencistas da Liga Brasileira Pró-Germânia, entidade mantida por brasileiros e teuto-brasileiros para promover a causa germânica e fazer frente às ações da Liga Brasileira pelos Aliados (Pires, 2021).19
A ação conjunta de católicos brasileiros e teuto-brasileiros mostra as alianças étnicas feitas pelas comunidades alemãs com as sociedades locais durante a Primeira Guerra Mundial. O conceito foi inicialmente usado por Panikos Panayi para mencionar o movimento feito por imigrantes teutos e seus descendentes de apoiarem as campanhas militares dos países em que residiam, em detrimento daquelas do Império Alemão, como forma de conter os ataques que sofriam como “inimigos estrangeiros” (Panayi, 2014: 18). No exemplo brasileiro, porém, podemos afirmar que para evitar as hostilidades sofridas, as alianças étnicas serviram também para tentar cooptar a sociedade local para a causa germânica e disputar com os Aliados a narrativa do conflito. Esta parece ter sido uma estratégia seguida não apenas pelos núcleos germânicos no Brasil, mas também em outras partes da América Latina. Carla Russ atestou que alemães e descendentes contaram com a primordial adesão de pessoas externas aos círculos de imigrantes para disseminar a propaganda alemã (Russ, 2019: 3).
As negociações entre brasileiros e os Rio-Deutsche em prol do Reich e sua campanha na Grande Guerra pode ser expressa na figura do deputado federal João Dunshee de Abranches. O maranhense era advogado de formação, professor de física e ciências naturais, e jornalista experimentado.20 Dunshee foi um dos mais destacados intelectuais germanófilos do Brasil, durante a Primeira Guerra Mundial. Entre 1914 e 1917, usou seu lugar como parlamentar para protestar contra as interferências inglesas em assuntos internos do Brasil, defender a imigração alemã dos ataques sofridos à época e, por conseguinte, a Alemanha.
Até o ano de 1924, Dunshee publicou um total de 19 títulos, entre livros e livretos. Seus títulos circularam no Rio de Janeiro e outros estados da federação, como São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia, Pará e Maranhão. Alguns desses títulos foram: A Inglaterra e a soberania do Brasil, em 1915; A Black List e o Projeto Dunshee e Ainda a Black List: apelo ao presidente da República, em 1916; A Alemanha e a paz, A Ilusão Brasileira e Contra a guerra: declaração de voto sobre a quebra da neutralidade brasileira em 1917. O deputado manteve-se atento aos diferentes estágios de interação do Estado e da sociedade brasileira com a guerra e suas demandas. A maior parte da sua obra é composta por pronunciamentos e discursos feitos no Congresso Nacional ou textos endereçados a componentes do governo de Wenceslau Brás, demonstrando que mais do que conquistar simpatias à campanha alemã entre a sociedade civil, Dunshee, enquanto parlamentar, trabalhou para influenciar políticas estatais no que dizia respeito ao conflito.
Embora negasse o título de germanófilo que lhe era atribuído na imprensa e na Câmara dos Deputados, as afirmações de Dunshee de Abranches a respeito da guerra alinhavam-se aos interesses dos Rio-Deutsche.21 Em suas publicações e discurso, o deputado federal defendeu a contribuição dos imigrantes e seus descendentes para o desenvolvimento brasileiro, e acusou a perseguição que sofriam da parte dos defensores dos Aliados. Denunciava, também as arbitrariedades britânicas cometidas contra o comércio dos neutros. Em seus escritos, a Alemanha foi apontada como vítima de uma campanha difamatória orquestrada pelos Aliados ao mesmo tempo em que exaltava suas qualidades culturais, que a tornaria, no seu entendimento, a principal potência mundial do período. Já os ingleses eram o alvo maior das críticas de Dunshee, que os acusava de usar práticas imperialistas para atingir seus objetivos no conflito, violando a soberania nacional dos países neutros.
Um exemplo de sua mobilização na Câmara dos Deputados que favoreceu aos interesses dos Rio-Deutsche foi o Projeto Dunshee.22 O projeto de lei foi apresentado em agosto de 1916, visando coibir as ingerências dos beligerantes sobre o comércio internacional brasileiro. A proposta de legislação era composta de quatro parágrafos: o primeiro deles suspendia o exequatur de representantes diplomáticos localizados no Brasil, caso ficasse comprovada tentativas de restringir a liberdade comercial de brasileiros ou estrangeiros localizados em território nacional; o segundo parágrafo previa a anulação dos contratos firmados nesses termos, favorecidos por constrangimentos de qualquer natureza a outrem; o terceiro se ocupava da punição contra os que levantassem propagandas de difamação ou boicote contra qualquer companhia localizada no Brasil, enquanto o último revogava todas as disposições em contrário. Outros nove deputados assinaram a proposta, mas Dunshee de Abranches figurava como o seu principal redator.
No discurso de apresentação do projeto aos deputados, a guerra foi exposta como uma luta mercantil levada às últimas consequências, onde se disputavam com tanques, granadas e dreadnoughts fontes de matéria prima e consumidores. A peleja seria o prelúdio de outras batalhas ainda mais ferozes por mercados, e desdobrar-se-ia em uma nova conflagração global, embora sem o manejo das armas, um argumento já utilizado pelo parlamentar em falas anteriores. Segundo o raciocínio de Dunshee, era necessário preservar os povos isentos nas disputas atuais e vindouras de abusos e ataques à sua soberania, provenientes da Black List britânica. Para Abranches, havia de se considerar que “se há tentado aplicar aos países neutros, tão livres e soberanos quanto os mais livres e soberanos dos que ora pelejam, o decreto do governo britânico, instituindo a lista negra (black-list), e destinado naturalmente ao Reino Unido e suas colônias” (Annaes, 1916: 377). Daí a urgência de se apresentarem medidas efetivas contra ela, ou contra qualquer outra iniciativa de mesmo monte, “defendendo a toda transe o que de mais sagrado, nobre e melindrável existe na soberania nacional” (Annaes, 1916: 377). Na defesa do projeto perante seus colegas legisladores, Abranches apresentou os protestos que lhe haviam sido encaminhados por firmas de propriedade teuto-brasileira, como a Casa Hoepcke e a Fraeb e Cia., alegando terem sido prejudicadas pela Black List e pela interferência dos agentes consulares britânicos. Além disso, embora não mencionasse os alemães nominalmente, afirmou que no Brasil havia o desejo de preservar o bom trato com absolutamente todos os países beligerantes.
A alusão ao Império Alemão seria feita na carta ao presidente da República, em dezembro de 1916. A missiva era uma justificativa ao projeto Dunshee. Embora renovasse os votos de confiança nas decisões do mandatário, o remetente pretendia relembrá-lo da relevância dos germânicos - e dos teuto-brasileiros - para a vida comercial e financeira da República. Afirmou:
No Brasil, porém, que é o caso que particularmente nos interessa, o elemento germânico, como também o teuto-brasileiro, não representa apenas o comércio intermediário, não é só o grande comissário da importação, o maior exportador, o mais hábil banqueiro, o melhor cliente e o mais liberal dos credores mercantis. Negocia também com os gêneros do país, como acontecia com o antigo português. É industrial, é lavrador, e, acima de tudo, em largas zonas, já chega a ser o pequeno e precioso cultivador dos alimentos de primeira necessidade (Abranches, 1916: 8).
Outra demonstração do alinhamento entre os interesses dos Rio-Deutsche e o discurso de Dunshee de Abranches sobre a guerra está na campanha do deputado para a manutenção da neutralidade brasileira. Naquele momento, a neutralidade do país era posta em xeque por parcela considerável da sociedade diante dos ataques de submarinos alemães.23 O deputado manifestou-se publicamente contra ao que era, até então, uma possibilidade. Em A Ilusão Brasileira, escrito em 1916 e publicado em 1917, defendia que o Império Alemão era um imprescindível parceiro comercial da República, uma influência indispensável ao desenvolvimento intelectual da nação, além de mais igualitário e justo no trato com o governo brasileiro, quando comparado às ordens de Paris e Londres. Segundo Dunshee, o Brasil deveria mirar-se no “mais famoso monumento da civilização contemporânea” para conquistar sua independência, algo que, na sua interpretação, seria sacrificado em caso de alinhamento com a Entente (Abranches, 1924: 376-377).
Àquela altura da guerra, a provável declaração de guerra do Brasil ao Império Alemão seria um revés aos interesses dos Rio-Deutsche. Haveria evidentes prejuízos materiais, com a adoção da Black List britânica como parâmetro pelo governo brasileiro, e as implicações sobre os seus negócios e firmas que tal determinação acarretaria. Além disso, o rompimento das relações teuto-brasileiras resultaria na adoção de medidas restritivas em relação às comunidades de imigrantes, tal qual acontecia em outras sociedades aliadas. A transformação do Brasil em um beligerante da Entente também iria de encontro aos interesses do Reich na região, uma vez que havia um esforço em manter os países latino-americanos neutros no conflito (Russ, 2019).
A conformidade de Dunshee de Abranches com os Rio Deutsche não se encontrava apenas no campo discursivo. A comunidade alemã fazia a impressão e distribuição das obras de Abranches sobre a guerra, como o discurso A conflagração europeia e suas causas. À época da guerra, era na redação do Deutsche Tageblatt que o deputado buscava informações sobre o conflito, e seus livros dão a entender que capitalistas teuto-brasileiros, não apenas do Rio de Janeiro, o viam como um intermediário de seus reclames.24 Além disso, antes de assumir a cadeira de parlamentar no Congresso Nacional, o intelectual fora diretor da Federação das Associações Comerciais do Brasil e delegado da Associação Comercial do Maranhão (Dunshee de Abranches, 1917: 19). Em 1917, ao fim do seu mandato, dedicou-se às atividades de consultor de empresas de capital alemão, e tomou parte em companhias de imigração. Tais dados foram trazidos no último livro de Dunshee publicado sobre a Primeira Guerra e seus efeitos, O Tratado de Versalhes e os alemães no Brasil, escrito em 1922, no qual tentava convencer seus leitores da impossibilidade do governo brasileiro em fazer valer as cláusulas do tratado de paz, em vista dos prejuízos à economia do país (Abranches, 1924).
Considerações finais
Os Rio Deutsche eram como se autodenominavam a comunidade de imigrantes assentada na capital da república brasileira. Diferentemente dos núcleos ao sul do país, eram formados por capitalistas, intelectuais e outros profissionais liberais, além de essencialmente urbanos. Outro aspecto que distinguia o grupo era o seu grau de interação com a sociedade local, circulando nos espaços de poder e integrando-se à elite política e cultural da cidade.
Apesar das divergências com as comunidades de imigrantes do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, os Rio Deutsche tinham na identidade étnica o elo que os unia. A afirmação do Deutschtum amalgamou o grupo e promoveu sua organização em torno de associações, cuja finalidade parecia ser a de promoção do semblante cultural específico daquele grupo. Quando a Primeira Guerra Mundial se concretizou, em agosto de 1914, os Rio-Deutsche se organizaram em prol da campanha alemã. Afinal, a conflagração representava uma dupla ameaça: à sua identidade étnica e aos seus interesses comerciais e financeiros, ambos atacados pelas ações de propaganda e pela guerra econômica dos Aliados.
A reação dos Rio Deutsche ao conflito foi uma demonstração do caráter global e transnacional do conflito. Afinal, as estratégias da qual lançaram mão entre agosto de 1914 e 1917 - ano em que o Brasil se declarou beligerante, ao lado da Entente - foram utilizadas em outras partes da América Latina, pelas comunidades de imigrantes germânicos da região. Por iniciativa daquele grupo, houve a cooptação de jornais e de personalidades fora da comunidade, para divulgarem a campanha e oferecer um contraponto à narrativa aliada disseminada por meio da propaganda e dos partidários locais daquele bloco de combatentes. Isso não era por acaso. Afinal, as representações diplomáticas do Reich agiam como intermediários não apenas da propaganda encaminhada à América Latina, como também das ações das comunidades alemãs, interligadas entre si. A ação dos Rio Deutsche, por fim, demonstra a complexidade dos desdobramentos da Primeira Guerra sobre os latino-americanos, interagindo com as demandas dos beligerantes e reagindo a partir dos seus próprios parâmetros, criando novos significados para a conflagração.
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Información adicional
Sobre o autor
Livia Claro Pires é Doutoranda no Programa de História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde desenvolve o projeto Invencível Alemanha: os discursos e ações germanófilas entre a intelectualidade brasileira durante a Primeira Guerra Mundial. Mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, grau obtido no ano de 2013 com a dissertação Intelectuais nas trincheiras: a Liga Brasileira pelos Aliados e o debate sobre a Primeira Guerra Mundial. A pesquisa deu origem ao livro Intelectuais nas trincheiras, lançado em 2019. Pesquisadora de Primeira Guerra Mundial, seus impactos e compreensões no Brasil.
Sobre el autor
Livia Claro Pires es doctoranda en el Programa de Historia Social de la Universidad Federal de Río de Janeiro, donde trabaja en el proyecto Invencível Alemanha: os discursos e ações germanófilas entre a intelectualidade brasileira durante a Primeira Guerra Mundial. Tiene una maestría en Historia Política por la Universidad Estatal de Río de Janeiro, que obtuvo en 2013 con su disertación Intelectuais nas trincheiras: a Liga Brasileira pelos Aliados e o debate sobre a Primeira Guerra Mundial. La investigación dio lugar al libro Intelectuais nas trincheiras, publicado en 2019. Es investigadora sobre la Primera Guerra Mundial, sus impactos y comprensiones en Brasil.
About the author
Livia Claro Pires is a PhD candidate in the Social History Program at the Federal University of Rio de Janeiro, where she is developing the project Invencível Alemanha: os discursos e ações germanófilas entre a intelectualidade brasileira durante a Primeira Guerra Mundial. She holds a Master's degree in Political History from the State University of Rio de Janeiro, which she obtained in 2013 with his dissertation Intelectuais nas trincheiras: a Liga Brasileira pelos Aliados e o debate sobre a Primeira Guerra Mundial. The research led to the book Intelectuais nas trincheiras, released in 2019. Researcher on the First World War, its impacts and understandings in Brazil.
Notas

