Secciones
Referencias
Resumen
Servicios
Buscar
Fuente


“MAIS UM CASO ISOLADO”: DE GEORGE FLOYD A VINICIUS JÚNIOR, VIOLÊNCIA POLICIAL E RACISMO ESTRUTURAL NO ESPORTE
Caminhos da História, vol. 30, núm. 02, pp. 244-249, 2025
Universidade Estadual de Montes Claros

Resenha

Caminhos da História
Universidade Estadual de Montes Claros, Brasil
ISSN: 1517-3771
ISSN-e: 2317-0875
Periodicidade: Semestral
vol. 30, núm. 02, 2025

Recepção: 04 Abril 2025

Aprovação: 31 Maio 2025


Este trabalho está sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-Não Derivada 4.0 Internacional.

FLORENZANO Gianluca. O jogo das ruas: movimento de atletas contra o racismo. 2023. Curitiba. Appris. 247pp.

Resenha do livro: FLORENZANO, Gianluca. O jogo das ruas: movimento de atletas contra o racismo. 1 ed., Curitiba: Appris, 2023.

O livro “O jogo das ruas: movimento de atletas contra o racismo” é fruto da pesquisa de mestrado em Ciências Sociais do escritor, jornalista e pesquisador Gianluca Florenzando, defendido em 2023. A dissertação ganhou forma de livro no mesmo ano. A pesquisa de Florenzano tem como recorte temporal o assassinato de George Floyd em maio de 2020, ocorrido em Minnesota, EUA, em meio à pandemia de COVID-19, e como a luta antirracista desencadeada por Floyd ganhou espaço no campo esportivo.

Um homem negro, acusado de tentar usar uma nota falsa em um mercado, foi abordado pela polícia. Imobilizado no chão pelo policial Derek Chauvin, ele ficou cerca de 10 minutos com o joelho sob o pescoço de Floyd. Mesmo com Floyd pedindo por ajuda e dizendo ao policial “I can't breathe!” (“Não consigo respirar!”). A forma como Floyd foi abordado e assassinado desencadeou uma onda de protestos antirracistas naquele país. O episódio reacendeu um debate histórico, e escancarou um passado mal resolvido dos EUA sobre a discriminação racial.

A morte de Floyd demonstrou, não só que a violência policial contra a população negra é uma realidade ainda constante nos EUA, mas também como o racismo é estrutural e molda aquele país. Os protestos antirracistas desencadeados após a morte de Floyd, relembraram a luta histórica do movimento negro, como o Movimento Pelos Direitos Civis dos anos 1950, liderado por Martin Luther King Jr., as lutas de Malcolm X, e o surgimento do movimento Black Panther; e o movimento Black Lives Matter.

Apesar dos movimentos conservadores e de extrema-direita afirmarem que a morte de Floyd havia sido um caso isolado, e em alguns setores ainda buscaram justificativas para criminalizá-lo, e legitimar a violência policial, a sua morte ganhou proporções globais. O mundo todo estava fragilizado pela pandemia de COVID-19, principalmente as classes mais excluídas que experienciavam uma crise econômica, na qual os mais ricos não estavam dispostos a assumir o ônus de parar a produção e buscar alternativas para conter a pandemia e salvar vidas.

Também foi nesse contexto pandêmico que as redes sociais ganharam ainda mais importância na vida cotidiana de boa parte da população global. De videoaulas, a trabalho remoto, passando por dancinhas nas redes sociais, a lives, a vida cotidiana passou a ser majoritariamente online. E foi impulsionado pelas redes sociais, que as manifestações antirracistas começaram a ganhar forma. Em um primeiro momento com a mobilização e denúncia, e posterior mente com a tomada das ruas. As manifestações extrapolaram os limites territoriais dos EUA, e tanto os países do Norte global, quanto do Sul, vivenciaram ondas de protestos antirracistas, sob o lema #BlackLivesMatter. Essa onda de manifestações chegou ao mundo dos esportes, com o posicionamento de diversos atletas somando a luta antirracista e denunciando a violência policial e o racismo estrutural, que também atingia o mundo dos esportes.

O pesquisador Florenzano mergulhou no olho do furacão para entender como o racismo se estruturou nos EUA, como as manifestações ganharam proporções globais e como a luta antirracista se tornou pauta no campo esportivo. O livro de “O jogo das ruas” está divido em três capítulos. No Capítulo 1, intitulado “O começo de tudo”, o autor analisa a morte de George Floyd e demonstra como o racismo era estrutural na sociedade estado-unidense, e que fora agravado com a ascensão de Donald Trump ao poder, e em um segundo momento, mostra como as ondas de protestos escancararam que a violência policial contra a população negra era uma realidade constante naquele país, e que o caso de Floyd não era um caso isolado, mas um sintoma de um problema ainda maior.

No primeiro capítulo, Florenzano, utilizando jornais dos EUA como fonte, detalha como foi a morte de Floyd e como a opinião pública se posicionou. Constantemente o autor nos mostra que o caso de Floyd não foi um episódio isolado, pelo contrário, a partir de leituras como o trabalho de Silvio Luiz de Almeida (2019), o autor nos mostra como o racismo é constante na sociedade estado-unidense. A abordagem que Florenzano constrói neste capítulo está fortemente baseada no trabalho do sociólogo Loïc Wacquant (2008), principalmente para contextualizar os leitores sobre a estrutura racista da sociedade dos EUA.

É neste capítulo, que o autor trabalha com ideias chaves para pensar o racismo estrutural, como as leis de Jim Crow de segregação da população negra no pós-abolição, a política de encarceramento em massa da população, a marginalização da população negra e como os EUA, historicamente, institucionalizou políticas que limitavam o acesso da população negra a serviços públicos como educação e saúde. Florenzano também nos mostra como a população negra, devido a exclusão e perseguição, organizou-se em guetos, constituindo espaços segregados.

Aqui cabe um adendo, a leitura sobre esse processo histórico de consolidação do racismo estrutural nos EUA seria muito enriquecedora se o autor tivesse utilizado também o trabalho da advogada, pesquisadora e escritora Michelle Alexander, em especial o seu livro “A nova segregação: racismo e encarceramento em massa” (2018). A abordagem de Alexander dialoga muito com as ideias de Almeida e Wacquant, porém, a sua análise vai além. A pesquisadora mostra que desde a abolição dos escravos nos EUA, diversos mecanismos legais foram adotados pelos governos para evitar que os negros tivessem acesso a serviços públicos e direitos civis. Nesse sentido, a violência policial, a perseguição aos negros e encarceramento em massa são projetos de um sistema criado para excluir os negros da sociedade estado-unidense. Assim, para Alexander o racismo estrutural surge como elemento fundante da sociedade americana.

Em seu trabalho com as fontes – sobretudo periódicos – Florenzano nos mostra como a mídia reproduziu estereótipos raciais ao noticiarem o caso de Floyd, mesmo ele tendo sido morto de forma brutal, mesmo sendo inocente. Aqui, mais uma vez, o trabalho de Alexander ajudaria a pensar como a grande mídia contribui cotidianamente para legitimar a violência policial, consolidando o racismo estrutural.

Por outro lado, a mídia independente, ativistas e até mesmo pessoas comuns que se solidarizaram com a morte de Floyd, se mobilizaram para denunciar os abusos policiais que a população negra dos EUA sofria. De maneira orgânica, a população tomou as redes sociais, com o lema Black Lives Matter para prestar solidariedade a Floyd. Rapidamente, o movimento saiu do ambiente virtual e tomou as ruas, com a pauta antirracista que rememoravam as lutas por direitos civis.

Já no capítulo 2, “A luta conta o racismo no esporte”, Florenzano mostra como, dentro de um contexto pandêmico, as manifestações antirracistas ganharam lugar também no campo esportivo, em um primeiro momento nos EUA, e posteriormente no mundo. O autor demonstra como a atuação de atletas mundialmente reconhecidos se posicionaram contra o racismo.

Inicialmente, os protestos começaram com declarações públicas de figuras influentes do esporte, como os técnicos de basquete Doc Rivers e Gregg Popovich. Ambos denunciaram abertamente o racismo e criticaram a postura omissa do então presidente Donald Trump com relação aos casos de violência policial contra a população negra. Na esteira dos técnicos, outros nomes do basquete passaram a se posicionar, como o jogador LeBron James.

Diversos atletas, de diferentes modalidades usaram suas redes sociais e espaços na imprensa esportiva para denunciar o racismo estrutural e a violência policial. O posicionamento dos atletas não ficou restrito apenas às redes sociais, muitos foram às ruas nas manifestações antirracistas. Inspirados no jogador de futebol americano Colin Kaepernick – que para denunciar a violência policial ajoelhou durante o hino dos EUA em uma partida da National Football League (NFL), em 2016 –, outros atletas usaram as partidas para fazer gestos antirracistas, como o de Kaepernick, ou mesmo o punho cerrado no ar, rememorando um símbolo dos Black Panther.

O movimento de atletas na luta contra o racismo não se limitou apenas aos EUA. Os jogadores de basquete Patty Mills (Austrália) e Amanda Zahui (Suécia) mostrando sua solidariedade à causa, utilizaram suas redes com canais de difusão das pautas antirracistas e para mobilizar protestos em seus respectivos países. Dialogando com o pensamento do sociólogo Manuel Castells (2013), isto é, sobre globalização e sociedade em rede, Florenzano nos mostra como as manifestações dos atletas extrapolou as fronteiras dos EUA, e até mesmos do esporte, e se espalhou pelo mundo. Por outro lado, a globalização do esporte revelaria uma outra tensão. No contexto pandêmico, em que as atividades esportivas estavam suspensas, atletas sofriam a pressão dos dirigentes, da mídia e das corporações para que as competições retornassem. Mesmo com a criação da Bolha da NBA, uma zona de isolamento sanitário com regras restritas para que os jogos retornassem, a pauta da luta antirracista não passou despercebida. Diversos atletas denunciaram que, enquanto a população estava nas ruas protestando, eles estavam isolados e competindo.

Por fim, no capítulo 3, “Brasil: um paraíso tropical e racial”, Florenzano analisa como as manifestações antirracistas chegaram ao Brasil, em um contexto político e social conturbado sob o governo de Jair Bolsonaro. O autor nos mostra como a pauta antirracista foi incorporada nas manifestações antifascista e anti-Bolsonaro, e como vários atletas, principalmente jogadores de futebol, se posicionaram politicamente nesse momento.

O autor, utilizando de Wacquant, inicia este capítulo estabelecendo aproximações entre o processo de segregação em guetos nos EUA e a formação das favelas no Brasil. Ainda que os dois fenômenos resultem na segregação, e consequentemente, na consolidação do racismo estrutural, o processo de gueterização no EUA e a favelização no Brasil se desenvolvem de maneiras diferentes. Novamente, o trabalho de Alexander nos mostra que nos EUA houve um conjunto de leis e práticas para empurrar os negros para as margens da sociedade, negando serviços públicos básicos e direitos civis, ao passo que no Brasil, o processo se deu de forma diferente, como demonstra Lilia Schwarcz, no “O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930” (1993), no pós-abolição, diversas teorias higienistas foram introduzidas na sociedade brasileira com o objetivo de embranquecer a população. Essa leitura equivocada do autor não interfere a discussão central sobre o racismo estrutural nos EUA e no Brasil, porém, é importante destacar que apesar de semelhantes, são processos que possuem historicidades distintas e merecem atenção.

Retornando ao tema central do capítulo, Florenzano explora como as manifestações antirracistas que tomaram o mundo após o caso de Floyd chegaram ao Brasil, enquanto o país enfrentava uma crise sanitária devido a pandemia e uma crise política acirrada pelo governo de Jair Bolsonaro.

Com o avanço da pandemia do COVID-19 no Brasil, graças uma gestação desastrosa do governo federal para conter a crise, o país oferecia um ambiente adverso para organização de protestos nas ruas. Entretanto, os protestos antirracistas ocorreram em diversas cidades brasileiras. Aqui vale pontuar que os protestos foram liderados por coletivos do movimento negro, mas também pelos coletivos antifascistas ligados a torcidas organizadas. No Brasil, a pauta antirracista somou-se a defesa da democracia, haja vista as constantes ameaças de golpe de Estado e cortes de direitos promovidas pelo próprio presidente da República.

Diferente do que ocorreu nos EUA – e até mesmo em outros países –, as manifestações no Brasil não eram diárias, ocorrendo nos finais de semana e com uma adesão popular menor. Uma explicação possível para isso era o medo do contágio da COVID-19, e até mesmo uma desmobilização social diante da pauta antirracista. Por outro lado, assim como foi nos EUA, os atletas brasileiros também se manifestaram em suas redes sociais, e alguns deles estiveram presentes nas manifestações de rua, como foi o caso do jogador de futebol Tchê Tchê. Nomes como Daiane dos Santos (ginásticas), Etiene Medeiros (natação) e Tifanny Abreu (vôlei) usaram suas plataformas para denunciar as injustiças raciais e chamar atenção para o racismo presente em seus respectivos esportes. Além dos atletas de esportes tradicionais, viu-se crescer um movimento de combate ao racismo e preconceito dentro do universo dos esportes eletrônicos (eSports), que até então eram vistos como “apolíticos”.

Por fim, Florenzano conclui o livro reafirmando que o assassinato de George Floyd foi um ponto de inflexão na luta global contra o racismo estrutural. E, a condenação do policial que matou Floyd, Derek Chauvin, foi uma vitória – ainda que legal – para a construção de uma sociedade mais justa e menos racista, porém a luta antirracista ainda deve ser constante.

Ao longo do livro, o pesquisador busca mostrar como casos de violência policial, como fora a morte de Floyd, estão longe de serem casos isolados e revelam uma complexidade de efeitos que constituem o racismo estrutural: exclusão, marginalização e violência. E esse fenômeno se complexificou com a convergência de racismo, pandemia, crise política e ascensão da extrema-direita. O autor também nos mostra como esporte teve um papel fundamental na luta antirracista. O ativismo de diversos atletas foi fundamental para mobilizar e pautar a luta antirracista também no campo esportivo. Assim, o esporte é entendido como um instrumento de mobilização e resistência.

Por fim, o livro encerra com um posfácio sobre a trajetória do jogador Vinícius Júnior, do Real Madrid (da Espanha) e os constantes casos de ataques racistas que vem sofrendo desde 2021. O fechamento do livro com o caso do Vini Júnior nos revela, que não se trata de mais um caso isolado, e sim, que o racismo é estrutural. Por outro lado, o posfácio também surge como um alerta para que a luta antirracista seja constante.

Em suma, o livro “O jogo das ruas: movimento de atletas contra o racismo”, constrói uma interpretação crítica do racismo estrutural a partir do assassinato de George Floyd, e como a pauta de combate ao racismo ganhou lugar nas ruas e no campo esportivo. Utilizando de fontes jornalísticas – tanto dos EUA, quanto do Brasil –, assim como de fontes digitais – redes sociais, por exemplo –, Florenzano traz uma abordagem contemporânea e atual para pensar as lutas antirracistas. Além disso, o livro também escancara um problema do campo esportivo: o racismo, que deve ser encarado como um problema estrutural não só do campo, mas também da sociedade. Além disso, Florenzano nos mostra que a resposta ao racismo, enquanto fenômeno global, deve ser uma luta global.

Referências bibliográficas

ALEXANDER, Michelle. A nova segregação: racismo e encarceramento em massa. São Paulo: Boitempo, 2018.

ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. ed. São Paulo: Feminismos Plurais, 2019.

CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

WACQUANT, Loïc. As duas faces do gueto. ed. São Paulo: Boitempo, 2008.

Autor notes

i Bolsista de Pós-doutorado Júnior do CNPq na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Doutor em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Editor e colunista do site Ludopédio (www.ludopedio.com.br). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3767-3909. E-mail: figolsvi@gmail.com.

Ligação alternative



Buscar:
Ir a la Página
IR
Modelo de publicação sem fins lucrativos para preservar a natureza acadêmica e aberta da comunicação científica
Visor de artigos científicos gerado a partir de XML JATS4R