Dossiê
Recepção: 29 Maio 2025
Aprovação: 30 Junho 2025

Resumo: Este artigo busca elaborar uma breve análise sobre o lugar ocupado pelo futebol enquanto objeto de estudo da historiografía brasileira. Para tanto, organizamos um estado da arte, selecionando trabalhos acadêmicos apresentados e publicados pelo Simpósio Nacional de História, principal evento científico da Associação Nacional dos Professores Universitários de História (ANPUH), apontando reflexões necessárias a melhor compreensão deste conjunto discursivo que se construiu na relação entre futebol e História ao longo do tempo. Por óbvio, esta decisão metodológica se fez necessária em função das muitas possibilidades que se apresentam para a consecução de uma proposta dessa monta, pois a escrita histórica sobre o futebol escapa ao limite da episteme histórica. No entanto, observar o espaço destinado ao futebol nos Anais da ANPUH permite uma apreensão dos avanços e recuos deste objeto produzidos pelo campo mais estrito da historiografia. Vale ressaltar que essa opção não torna mais legítimos os trabalhos aqui analisados, ou que por outro lado os estudos não visibilizados pela ANPUH tenham menor importância. Este é apenas um exercício de entendimento dado por um prisma, dentre os muitos possíveis. Além disto, objetivamos também aqui apresentar a organização do Dossiê “História Social do Futebol”, contextualizando os demais artigos que compõem este documento, descrevendo o eixo central de cada um deles, e ainda as suas demais seções, a saber, uma entrevista e uma resenha.
Palavras-chave: Dossiê, História Social, Futebol, Torcer.
Abstract: This article sought to develop a brief analysis of the place occupied by soccer as an object of study in Brazilian historiography. To this end, we organized a state of the art, selecting academic papers presented and published by the National History Symposium, the main scientific event of the National History Association (ANPUH), pointing out the reflections needed to better understand this discursive set that has been built up in the relationship between soccer and history over time. Obviously, this methodological decision was necessary due to the many possibilities available for the achievement of a proposal of this magnitude, since historical writing about soccer escapes the limits of the historical episteme. However, observing the space dedicated to soccer in the Annals of ANPUH allows us to grasp the advances and setbacks of this object produced by the stricter field of historiographical science. It is worth noting that this option does not make the works analyzed here more legitimate, nor does it make, on the other hand, the studies not made visible by ANPUH less important. This is merely an exercise of understanding from one perspective, among many possibilities. In addition, we also aim to present the organization of the “Social History of Football” Dossier, contextualizing the other articles that make up this document, describing the central axis of each one of them, and also its other sections, namely an interview and a review.
Keywords: Dossier, Social History, Football, Fans.
Resumen: Este artículo buscó desarrollar un breve análisis del lugar que ocupa el fútbol como objeto de estudio en la historiografía brasileña. Para ello, organizamos un estado del arte, seleccionando trabajos académicos presentados y publicados por el Simposio Nacional de Historia, principal evento científico de la Asociación Nacional de Historia (ANPUH), apuntando reflexiones necesarias para una mejor comprensión de ese conjunto discursivo que se construyó en la relación entre fútbol e Historia a lo largo del tiempo. Obviamente, esta decisión metodológica fue necesaria debido a las muchas posibilidades que surgen para la consecución de una propuesta de esta magnitud, ya que la escritura histórica sobre el fútbol escapa a los límites de la episteme histórica. Sin embargo, observar el espacio dedicado al fútbol en los Anales de la ANPUH permite comprender los avances y retrocesos de este objeto producidos por el campo más estricto de la ciencia historiográfica. Vale la pena señalar que esta opción no hace más legítimos los trabajos aquí analizados, o que, por el contrario, los estudios no visibilizados por la ANPUH tengan menor importancia. Este es sólo un ejercicio de comprensión dado desde una perspectiva, entre muchas posibles. Además, también pretendemos presentar la organización del Dossier “Historia Social del Fútbol”, contextualizando los demás artículos que componen este documento, describiendo el eje central de cada uno de ellos, y también sus otros apartados, a saber, una entrevista y una reseña.
Palabras clave: Dossier, Historia Social, Fútbol, Torcer.
Notas Introdutórias
O futebol se constituiu, desde o dealbar do século XX até os dias atuais, em um dos mais expressivos fenômenos da cultura brasileira, contribuindo sobremaneira para a forja de uma identidade nacional e de um modo particular de pertencimento. Começaremos por discutir como entendemos cada um desses pontos, a saber, o que entendemos como identidade e, portanto, de que forma o futebol auxilia-nos a pensar as relações identitárias que cria para, em seguida, entendermos a noção de pertencimento a qual o futebol contribui.
Começaremos, dessa forma, discutindo como pensa Charles Taylor, em seu As fontes do self, sobre a identidade. Para o autor, em nosso tempo, é de fundamental importância discutir a constituição de uma identidade que acaba por interferir nas relações sociais de bem estar e, em consequência, nas relações de bem-estar social, política aventada pelos partidos progressistas desde a metade do século passado (Taylor, 1997). Isso porque criar relações identitária altera as noções políticas em estados democráticos que têm como base a democracia representativa. Reconhecer-se identitariamente altera, em certa medida, politicas públicas e criam políticas próprias de reconhecimento, como explica Axel Honneth (2009) em seu Luta por reconhecimento. A construção de uma identidade que se faz no âmbito da política de bem-estar social passa, necessariamente, pelas relações simbólicas que o self estabelece com o mundo circundante, a fim de pensar e problematizar o mundo para, com ele, estabelecer relações possíveis de reconhecimento.
O futebol, em certa medida, oferece-nos uma gama de possibilidades de problematizar as relações identitárias que os sujeitos e os selfs de nosso tempo estabelecem com o esporte para além das relações de lazer e de fruição. O futebol, em muitos casos, cria relações diretas de construção de noções comunitárias, num primeiro aspecto, e torna-se, muitas vezes, parte central das políticas públicas, ou mesmo das organizações sociais paralelas, para o desenvolvimento de uma noção comunitária, em pequenos e grandes grupos sociais, de bem-estar social, retomando, pois, à noção de self defendida por Taylor no texto apresentado.
Em segundo ponto, o futebol interfere diretamente nas relações de pertencimento, simbólico, linguístico e arquitetônico-urbano no espaço das comunidades brasileiras. Em “Construir, Habitar, Pensar”, o filósofo alemão Martin Heidegger (2008) nos explica a diferença que existe entre morra e habitar um lugar, dando ao habitar uma característica mais potente e relevante nas relações estabelecidas com os espaços que ocupamos. Habitar é, pois, estabelecer uma relação de pertencimento só possível dentro da potência poética existente na linguagem, capaz de criar com moradias, espaços e lugares relações subjetivas outras que as meramente dadas por seus usos. Nesse sentido, habitamos na medida em que estabelecemos com aquilo que habitamos uma relação de pertencimento sem par, sejam casas, clubes de futebol, estádios.
No caso do futebol em específico, a dupla que acima pontuamos como norteadora de nosso pensamento se faz central. O futebol, carregado de símbolos e de elementos coletivos que remetem a práticas coletivas plurais, mesmo que comuns em muitas culturas – a organização coletiva, a composição de hinos, a relação simbólica com territórios e bandeiras, com cores específicas, etc. –, dão ao self com ele em contato uma relação simbólica de identidade, fazendo-o se sentir parte, num micro espaço, a um grupo específico – de torcedores, de adeptos de determinado clube, etc. – como também, em muitos casos daquele que estão profundamente ligados ao esporte, estruturas de um calendário e um tempo que coordenam seu bem-estar social, sendo esse bem-estar mesmo a projeção social de aceitação coletiva a que faz menção Charles Taylor.
A segunda é a de que o futebol é um fenômeno que estabelece relações de pertencimento típicas do habitar. Os torcedores “habitam” seus clubes de forma a se sentirem pertencentes a uma comunidade real, mas em muitas medidas imaginada, daqueles que também torcem por seus clubes, de forma a estabelecer novas e particulares relações humanas.
Embora o futebol seja, de saída, fonte bastante rica se nos centrarmos em apenas dois pontos como o acima descritos, apresentando-se como elemento constitutivo da dinâmica social do país, é legítimo pensá-lo na perspectiva de relevante objeto de análise no campo das ciências sociais e humanas em geral, e da historiografia em particular. Este artigo integra o conjunto de reflexões que organizam este documento, e se articula em duas frentes: uma, de pensar o lugar do futebol nos estudos históricos; outra, de apresentar a estrutura geral do Dossiê, explicitando seus autores e autoras, bem como destacando o eixo central de cada um dos textos que o compõe.
O futebol, pensado na lógica de uma experiência moderna, instituiu-se como um dos mais importantes fenômenos da coletividade humana, em função do seu espraiado alcance nos múltiplos espaços da vida social. Estabelecem, com isso, enraizadas relações com aspectos como economia, política, espaço urbano, grupos sociais, gênero, raça, ethos identitário, dentre outros. Não é exagerado tratar o futebol como um fato social[1], devido ao seu tentacular raio de penetração no cotidiano. Dessa forma, podemos compreendê-lo como um privilegiado objeto de chave de leitura para entendimento da realidade social brasileira. A partir desse apontamento, indagamos: que lugar ocupa o futebol na seara dos estudos históricos?
Para responder esta questão, uma série de possibilidades se apresenta. O alargamento de vieses complexifica a estratégia metodológica na construção de um estado da arte relacionado a esse objeto, limitado ao espaço restrito deste artigo. No conjunto desse cenário plural, optamos pelo recorte de análise da presença do futebol nos Anais dos Simpósios da Associação Nacional dos Professores Universitários de História (ANPUH)[2], principal evento da mais reconhecida instituição acadêmica da área.
O Futebol nos Anais da ANPUH: (in)visibilidade para além das quatro linhas
Como o campo da História se relaciona com o futebol enquanto objeto de estudo e reflexões? Partimos da presente pergunta-guia para orientarmo-nos na primeira parte do texto, apresentando muitas possibilidades para a construção de uma resposta. Nesse sentido, voltamos nosso olhar para o lugar ocupado pelo fenômeno esportivo em questão nos Anais do principal congresso científico da área.
De acordo com o próprio site da Instituição, a Associação Nacional dos Professores Universitários de História (ANPUH) foi fundada em 19 de outubro de 1961, na cidade de Marília, e “[...] trazia na sua fundação a aspiração da profissionalização do ensino e da pesquisa na área de história, opondo-se de certa forma à tradição de uma historiografia autodidata ainda amplamente majoritária à época”. Ao longo dos seus 64 anos de existência, a entidade tem contribuído sobremaneira para o desenvolvimento da área da História, notadamente no reconhecimento do seu valor científico. Para isto, a ANPUH organiza, a cada dois anos, o Simpósio Nacional de História, “o maior e mais importante evento da área de história no país e na América Latina”.[3]
Os Anais da ANPUH condensam os trabalhos expostos ao longo desse período, e representam/visibilizam, de certo modo, os objetos de interesse do campo historiográfico brasileiro. Dispostos e disponíveis no site da Instituição, os documentos podem ser acessados gratuitamente, contando com um mecanismo de busca para seleção dos trabalhos apresentados nos Simpósios. Dessa forma, refinamos nossa pesquisa utilizando as palavras-chaves “esporte”, “futebol”, “estádio” e “torcer”.
Foram encontrados 86 trabalhos publicados pelos Anais da ANPUH que trataram do futebol em diferentes perspectivas. Chama-nos a atenção o fato de que apenas dois desses trabalhos se localizam no ano anterior a 2001, sendo que os outros 84 aparecem distribuídos a partir daquele ano. Nos Anais do VIII Simpósio (publicado em 1976, mas referente ao evento do ano de 1975), o texto do historiador J. S. Witter intitulado “As fontes para o estudo do esporte no Brasil, no século XX” surge como primeiro trabalho que toma para si o interesse em abordar o tema do esporte, mas especialmente do futebol, como deixa claro o próprio autor, ao afirmar que “[...] o centro de nossas atenções atuais é o estudo do Esporte no Brasil no decorrer do século XX. Parece-nos que estudar o esporte brasileiro, em especial o FUTEBOL, é estudar, de fato, o povo brasileiro” (WITTER, 1976, p.1089. Destaque do autor).
Com apenas dois trabalhos com essa temática entre os Simpósios de 1962 a 2001, é possível afirmarmos, com alguma segurança, que o futebol não despertou nesse período elã suficiente para ser apropriado como chave de leitura historiográfica. O propalado discurso de alargamento das fontes e dos objetos, herdado da Escola dos Annales, não alcança o futebol no desdobramento das muitas possibilidades abertas com o campo da História Cultural. Abaixo, apresentamos o quadro esquemático[4] com os 86 trabalhos encontrados:

Podemos perceber o interesse tardio da temática futebol entre os trabalhos publicados nos Simpósios da ANPUH, posto que somente a partir do ano de 2001 notamos alguma regularidade da presença desse objeto (antes de 2001 apenas um trabalho em 1975 e outro em 1999). Ou seja, dos 86 trabalhos localizados, 84 se encontram entre os anos de 2001 e 2023. Desses, 39 entre os Simpósios de 2011 (22) e 2013 (17), mostrando uma maior concentração temporal nesse período.
O anúncio oficial do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 pela FIFA foi feito no dia 30 de outubro de 2007. Nesse mesmo ano aconteceu, entre 15 e 20 de julho, na cidade de São Leopoldo/RS, a XXIV edição do Simpósio da ANPUH. Nesse evento, localizamos 4 trabalhos tematizando o futebol, mantendo uma média baixa iniciada em 2001 (4 trabalhos), 2003 (2 trabalhos) e 2005 (3 trabalhos). A partir do anúncio do sediamento da Copa do Mundo pelo Brasil, a quantidade de trabalho nos Simpósios pré-Copa e pós-Copa aumentam consideravelmente (9 trabalhos em 2009, 22 em 2011, 17 em 2013, 9 em 2015 e 8 em 2017). No entanto, um novo arrefecimento parece tomar conta da temática nos Simpósios seguintes, que contam com 4 trabalhos em 2019 e 2 trabalhos em 2021. Na edição do Simpósio de 2023 nenhum trabalho, dentre os 150 apresentados, tematizou o futebol.
Toda essa descrição aponta para um cenário esclarecedor: o futebol alcança um momento bastante específico de interesse, localizado no período que antecede e sucede a Copa do Mundo no país. Fora isso, volta a ser um objeto de menor valor no que diz respeito à sua presença nos Simpósios da ANPUH.
Por óbvio, o recorte estipulado por essa análise não corresponde ao esforço mais abrangente de produções historiográficas do futebol brasileiro, que se forjam para além desse contexto específico. No entanto, é preciso chamar a atenção para a construção epistemológica de um campo pouco explorado, ainda que crescente. No dizer de Novais (2005) apud Santos e Drumond (2012),
Nos últimos anos, tem acontecido um grande avanço no sentido da realização de pesquisas mais aprofundadas sobre os problemas relacionados ao passado do futebol no Brasil, apesar disso, são poucos os balanços de sua historiografia. Torna-se necessário um levantamento crítico de algumas das principais peças produzidas com a intenção de abordar questões da história de tal esporte, não apenas para avaliar-se o estado da arte de nossa produção historiográfica sobre o tema, mas também para estimular reflexões metodológicas e conceituais (Novais apud Santos, 2013, p. 20).
É certo que um conjunto de trabalhos científicos que abordam o futebol na perspectiva historiográfica vem se efetivando, notadamente em dissertações e teses, livros e artigos. De todo modo, visibilizar essa produção no interior do mais importante evento científico da área contribui para uma percepção mais acurada do interesse pelo campo. Vale aqui retomar a fala do historiador José Sebastião Witter, que já em 1975 conclamava a classe de historiadores para a apropriação do futebol como objeto relevante de análise. Este, em artigo publicado pela Revista da USP em 2003 (portanto, quase três décadas depois do seu trabalho publicado no Simpósio da ANPUH), registra que:
Atualmente a bibliografia sobre o fenômeno do século XX – o futebol – é extensa, embora digam muitos que pouco se escreve sobre o tema. Escreve-se e muito e as obras publicadas são de valor e natureza vária, porém contribuem para que as questões referentes ao futebol ou ao “jogo da bola” (como gosto de o denominar) não se percam e a história, com muitas lacunas, é claro, possa ir sendo recuperada. Através das narrativas cuidadosas dos historiadores, das ponderações dos antro-pólogos, dos psicólogos, dos literatos, dos sociólogos e dos imprescindíveis jornalistas teremos, no correr dos tempos, uma visão bem clara do esporte que, nascido na elite, foi incorporado pelo povo e, ao evoluir no profissionalismo, foi nas malhas do capitalismo se transformando em grande negócio e acabou sendo um fenômeno universal (WITTER, 2003, p. 168).
Ironicamente, o historiador que foi pioneiro nos estudos da cultura do futebol como objeto acadêmico no Brasil morre durante a Copa do Mundo do Brasil, no dia 07 de julho de 2014, um dia antes do fatídico 7x1. Vivo estivesse, certamente estaria contribuindo para pensar o futebol brasileiro no contexto da atualidade, em que a hipermercantilização parece ter dominado a dinâmica espetacularizada desse esporte. De todo modo, segue a questão de um jogo que nunca acaba: qual o lugar do futebol no campo dos estudos históricos?
Sobre o Dossiê
Embora possa parecer uma questão irrespondível em um artigo, este Dossiê é uma possibilidade de ampliar nosso olhar para as muitas apropriações do fenômeno futebol pela História. Assim, apresentamos aos leitores e leitoras reflexões pertinentes a essas questões, produzidas por pesquisadores e pesquisadoras que vêm se debruçando sobre o tema nos últimos anos.
No primeiro artigo, apresentado pelo pesquisador Ildenilson Meireles, temos um diálogo promovido entre o pensamento do intelectual Darcy Ribeiro com o universo do fenômeno futebolístico. No texto Darcy Ribeiro: O Futebol "Nacional" e Outras Quinquilharias, o autor busca aproximações entre o ideário nacionalista no campo político e esportivo, estabelecendo uma crítica social a partir das ideias progressistas elaboradas por Darcy Ribeiro em sua vasta produção acadêmica e ensaística.
Logo depois temos o artigo, intitulado Dos Mares Aos Campos: encontros entre o remo e o futebol no Rio de Janeiro, em que o autor Victor Andrade de Melo discute a relação presente entre os primeiros movimentos do futebol na cidade do Rio de Janeiro com os clubes de remo já ali constituídos. Essa aproximação permite pensar o desenvolvimento do futebol não de maneira isolada, mas a partir das relações estabelecidas com outras importantes práticas esportivas da época, em especial o remo.
Em seguida, no artigo denominado “Associativismos efêmeros? Experiências associativas entre torcidas organizadas de futebol no Rio de Janeiro dos anos 1980 e 1990 – os casos da ASTORJ e da ATORFLA, os pesquisadores Bernardo Buarque de Hollanda e Juliana Nascimento da Silva elegem como tema a emergência de associações de torcedores de futebol, que surgiram no Rio de Janeiro no início dos anos 1980. Para tanto, o texto enfoca duas entidades formalizadas nesse período, mas que são efeito da multiplicação de torcidas organizadas por clube, não só na cidade como no país durante a década de 1970. Os casos examinados são os da ASTORJ – Associação das Torcidas Organizadas de Futebol do Rio – e da ATORFLA – Associação das Torcidas Organizadas do Flamengo.
No terceiro artigo, os autores Gustavo Dal'Bó Pelegrini e Sérgio Settani Giglio analisam a relação indissociável entre o crescimento do campo esportivo brasileiro com o desenvolvimento da imprensa e de sua expansão no âmbito esportivo, durante a primeira metade do século XX. No texto intitulado “A Gazeta Esportiva e Jornal dos Sports: aproximações na primeira metade do século XX”, o trabalho explora a bibliografia existente referente A Gazeta Esportiva (SP) e o Jornal dos Sports (RJ), dois importantes e influentes periódicos dentro do recorte do período de seu surgimento (décadas de 1920 e 1930) até o início dos anos 1950, destacando possíveis aproximações em suas atuações como agentes de promoção e significação do esporte brasileiro no período.
Avançando, apresentamos o quarto texto: A dubiedade amadorismo-profissionalismo em Belo Horizonte na década de 1940: controles, mesclas e outras possibilidades. Nesse texto, a pesquisadora Sarah Teixeira Soutto Mayor elabora uma problematização do futebol na cidade de Belo Horizonte na década de 1940, demonstrando que longe de se pensar em uma transição, amadorismo e profissionalismo coexistiram de diversas formas, ora na tentativa amadora de moralizar o futebol, ora na mercantilização que envolvia cada vez mais o profissionalismo que avançava de forma avassaladora.
No artigo intitulado Arquibancadas gremistas: pensando a Coligay a partir do seu entorno, temos a pesquisadora Luiza Aguiar que apresenta e discute o contexto de surgimento e transformação das torcidas organizadas gremistas, com ênfase na compreensão do ambiente que possibilitou a criação e atuação da Coligay, torcida gay atuante na década de 1970.
O Dossiê ainda é composto pelas seções Entrevista e Resenha. Na primeira, trazemos a fala da historiadora Lívia Magalhães comentando sobre estudos históricos, problemas e ampliações do uso do futebol como fonte de pesquisa histórica numa perspectiva sincrônica e diacrônica, ressaltando entre outros pontos, a carência de estudos sobre futebol feminino, muito diminuto em área que, como apontamos, ainda não possui volume considerável de pesquisa na história.
Na segunda, há a resenha do livro Lima Barreto versus Coelho Neto: um Fla-Flu literário, de Maruro Rosso, feita por Danilo Barcelos, que apresenta a discussão e as percepções que têm os escritores Coelho Neto e Lima Barreto sobre o futebol em seus primeiros anos na cidade do Rio de Janeiro, em especial nos textos de jornal, apresentando o futebol como campo de pesquisa nos estudos literários e estudos históricos.
Referências Bibliográficas
HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2008.
HONNETH, A. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009.
SANTOS, João Manuel Casquinha Malaia; DRUMOND, Maurício. A construção de histórias do futebol no Brasil (1922 a 2000): reflexões. In: Revista Tempo, 2013, 17(34), 19-31.
TAYLOR, Charles. As fontes do self. Trad.Adail U. Sobral e Dinah de Azevedo de Abreu. São Paulo: Edições Loyola, 1997.
WITTER, José Sebastião. As fontes para o estudo do esporte no Brasil, no século XX. In: SIMPÓSIO NACIONAL DOS PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS DE HISTÓRIA, 8., 1975, Aracaju. Anais do VIII Simpósio Nacional dos Professores Universitários de História. A propriedade rural. São Paulo: FFLCH-USP, 1976. v.3, p. 1089-1091.
WITTER, José Sebastião. FUTEBOL - UM FENÔMENO UNIVERSAL DO SÉCULO XX. Revista USP, São Paulo, Brasil, n. 58, p. 161–168, 2003.
Notas
Acessado em: 02/04/2025
Ligação alternative
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/caminhosdahistoria/article/view/9198/8706 (pdf)

