Demanda Contínua
Recepção: 15 Julho 2024
Aprovação: 06 Dezembro 2024

Resumo: A pós-modernidade é um movimento cultural e intelectual que abrange vários setores. Uma de suas principais influências de origem foi a crise da modernidade perante os avanços sociais que ocorreram na segunda metade do século XX. O presente ensaio possui como objetivo a discussão sobre o uso da literatura pós-moderna de Lyotard para compreensão teórica de um currículo pós-moderno brasileiro. Neste contexto, foram utilizadas, para discussão, as seguintes produções de Lyotard: “Discurso da Figura” (2012); “Economia Libidinal” (1993); “Fenomenologia” (2004); “A condição pós-moderna” (1998); "O Inumano: Considerações sobre o Tempo" (1993); "O Diferendo" (2011) e “Lições sobre a Analítica do Sublime" (1993). Em suma, em uma visão lyotardiana, podemos compreender que a pós-modernidade exige uma reavaliação da educação e da formação de currículos, levando em conta a diversidade, tecnologia e a fragmentação da sociedade contemporânea e dos saberes. Na ótica lyotardiana, o currículo deve ser construído de forma a permitir a coexistência de diferentes narrativas e perspectivas. Compreende-se a ideia de uma "educação para a incerteza", que leve em conta a diversidade e a complexidade da realidade e que ajude os discentes a desenvolverem a capacidade de lidar com a incerteza e a ambiguidade, valorizando a diversidade, a pluralidade e a autonomia.
Palavras-chave: currículo, pós-modernidade, educação.
Abstract: Postmodernity is a cultural and intellectual movement that spans various sectors. One of its primary influences originates from the crisis of modernity in the face of social advancements that occurred in the second half of the 20th century. This essay aims to discuss the use of Lyotard's postmodern literature for the theoretical understanding of a postmodern curriculum. To this end, the following works of Lyotard were utilized: "Discourse Figure" (2012); "Libidinal Economy" (1993); "Phenomenology" (2004); "The Postmodern Condition" (1998); "The Inhuman: Reflections on Time" (1993); "The Differend" (2011); and "Lessons on the Analytic of the Sublime" (1993). In summary, from a Lyotardian perspective, we can understand that postmodernity demands a reevaluation of education and curriculum formation, considering the diversity, technology, and fragmentation of contemporary society and knowledge. The idea of an "education for uncertainty" is understood, which considers the diversity and complexity of reality and helps students develop the ability to deal with uncertainty and ambiguity, valuing diversity, plurality and autonomy.
Keywords: curriculum, postmodernism, education.
Resumen: La posmodernidad es un movimiento cultural e intelectual que abarca varios sectores. Una de sus principales influencias se origina en la crisis de la modernidad frente a los avances sociales que ocurrieron en la segunda mitad del siglo XX. Este ensayo tiene como objetivo discutir el uso de la literatura posmoderna de Lyotard para la comprensión teórica de un currículo posmoderno. Con este fin, se utilizaron las siguientes obras de Lyotard: "Discurso Figura" (2012); "Economía Libidinal" (1993); "Fenomenología" (2004); "La Condición Posmoderna" (1998); "Lo Inhumano: Reflexiones sobre el Tiempo" (1993); "El Diferendo" (2011); y "Lecciones sobre la Analítica de lo Sublime" (1993). En resumen, desde una perspectiva lyotardiana, podemos entender que la posmodernidad exige una reevaluación de la educación y la formación de currículos, teniendo en cuenta la diversidad, la tecnología y la fragmentación de la sociedad contemporánea y del conocimiento. Se entiende la idea de una “educación para la incertidumbre”, que tenga en cuenta la diversidad y complejidad de la realidad y ayude a los estudiantes a desarrollar la capacidad de afrontar la incertidumbre y la ambigüedad, valorando la diversidad, la pluralidad y la autonomía.
Palabras clave: currículo, postmodernidad, educación.
Pós-modernidade: origem, sociedade e ciência
A pós-modernidade surgiu em meio a questionamentos sobre os pressupostos da razão moderna. Este movimento cultural rejeitava as certezas do Iluminismo e sua fé no progresso linear, impulsionado por avanços científicos. A multifacetada origem da pós-modernidade resultou do confluir de diversas correntes que viam o mundo de forma diferente, segundo Hall (2023). Uma das maiores influências para o surgimento deste paradigma foi a crise da própria modernidade. Após duas guerras mundiais, ficou evidente que a razão não trouxera a utopia prometida de prosperidade para todos. Em lugar disso, a ciência fora usada para justificar horrores como o genocídio (Henning, 2021). Assim, a pós-modernidade colocou em xeque a confiança no poder iluminista da razão e no discurso do progresso contínuo, questionando os grandes relatos que davam sentido à existência humana. O século XX marcado por guerras, genocídios, crises econômicas e desigualdades sociais crescentes, levou ao questionamento sobre a validade e a eficácia dos ideais modernos (Barros, 2019).
Outra influência importante foi a cultura popular, que passou a ser valorizada pela pós-modernidade em contraposição à modernidade que privilegiava a arte e a cultura de elite (Hall, 2023). As teorias filosóficas e literárias do estruturalismo e do pós-estruturalismo também contribuíram para a formação da pós-modernidade. Estas teorias questionaram a capacidade da linguagem e do pensamento humano para representar o mundo de forma objetiva e universal, argumentando que a linguagem é socialmente construída, enquanto as diferenças históricas culturais tornam impossível uma compreensão universal da realidade (Dugnani, 2021). Além disso, a pós-modernidade abraça a diversidade de perspectivas e narrativas, ao invés da ideia de uma única explicação ou verdade que possa ser aplicada em todos os aspectos da vida humana. Isso resulta na rejeição das metanarrativas universais como outra característica significativa do movimento (Barros, 2019).
A pós-modernidade desafia a ideia de verdade absoluta na filosofia, destacando a multiplicidade de perspectivas e a natureza construída socialmente da realidade. Na cultura, o estilo da pós-modernidade é caracterizado pela fusão de referências diversas e ironias irreverentes. Já na arte, apreciam-se os elementos desconstrutivos que mesclam diferentes tipos de mídias e linguagens por meio da utilização arbitrária entre colagem-apropriação (Dugnani, 2021). A sociedade pós-moderna é caracterizada pela coexistência e mistura de complexos valores, perspectivas e modos de vida em um cenário marcado por mudanças constantes (Lyotard, 1998). Além disso, a tecnologia exerce grande influência na rotina diária das pessoas e na organização social. As novas ferramentas digitais permitiram o surgimento de redes globais que têm impacto profundo nas interações humanas cotidianas (Henning, 2021).
Outro traço que pode ser atribuído à sociedade pós-moderna é a importância do consumo e da cultura de massa. Seixos (2020) afirma que as pessoas são constantemente encorajadas a consumir para adquirir “um grande número de produtos e serviços como símbolos de status e identidade social”. Ao mesmo tempo, o consumo é uma maneira de construir por si um verdadeiro “eu” e tornar-se membro de diferentes grupos. Ademais, os indivíduos consomem mercadorias e marcas para se identificarem com estilos de vida ou 'tribos urbanas', agrupamentos culturais e comunidades virtuais. Ou seja, eles utilizam o consumo para manifestar suas idiossincrasias e formas de atividades, bem como para discernir e estabelecer conexões com outros que partilham a mesma orientação (Seixos, 2020).
Outro ponto a ser destacado é a relação de consumo com a satisfação pessoal e a felicidade. Na contemporaneidade, o ideal de vida é a valorização da conquista material, da posse de bens e da aquisição de serviços como meio de alcançar a totalidade e a plenitude do indivíduo. Frequentemente, apresentando-se como refúgio para a falta, o ser humano busca a felicidade e a plenitude no consumir desses bens (Batista et al., 2020).
A ciência na pós-modernidade, é um tema controverso e muito discutido na filosofia da ciência. Algumas abordagens pós-modernas enfatizam as limitações e críticas à ciência moderna, enquanto outras defendem uma abordagem mais integrada e crítica à ciência e à tecnologia (Daltro; Faria, 2019). De acordo com Henning (2021), uma das principais críticas à ciência moderna na pós-modernidade é a noção de que a ciência não é neutra ou objetiva, mas sim uma construção social. Segundo essa visão, a ciência é influenciada por valores culturais, políticos e econômicos, e suas conclusões são baseadas em perspectivas e interesses específicos. Logo, os interesses específicos na construção dos saberes científicos são banhados por narrativas hegemônicas, como por exemplo o empresariado e as classes dominantes culturais e econômicas do planeta (Henning, 2021).
Destarte, questionar-se-á a pós-modernidade de que a ciência é capaz de fornecer respostas definitivas e universais para os problemas do mundo. A ciência é vista como um discurso entre outros, que deve ser avaliado em relação aos seus efeitos sociais, políticos e éticos. Um discurso criticado da ciência moderna pela filosofia pós-moderna é frase “Tudo pela Ciência” que atuou como opressora nas pesquisas científicas dos séculos XIX e XX (Veiga-Neto, 1998). No entanto, algumas abordagens pós-modernas reconhecem que a ciência pode ser um instrumento importante para a compreensão do mundo e para a resolução de problemas globais. Essas abordagens enfatizam a importância de uma abordagem crítica e reflexiva à ciência, que leve em conta a diversidade de perspectivas e aborde questões éticas e políticas.
A relação entre currículo, ciência e pós-modernidade é complexa e multifacetada, uma vez que, a pós-modernidade é um termo que surgiu na filosofia e nas ciências sociais. Ou seja, para descrever uma série de mudanças culturais, sociais e intelectuais que ocorreram a partir do final do século XX, caracterizadas pela fragmentação, pluralidade, relativismo e desconstrução das grandes narrativas e metanarrativas (Pacheco, 2006).
Currículo e Pós-modernidade
A história do currículo remonta ao início da educação formal, quando as escolas se tornaram instituições dedicadas à transmissão de conhecimento organizado europeu. No entanto, a forma como o currículo foi concebido e implementado evoluiu significativamente ao longo do tempo, de acordo com as mudanças nas demandas sociais e nas teorias educacionais (Popkewitz, 2020).
O currículo, como um conceito educacional no século XXI, tem sido influenciado pelas rupturas na sociedade pós-moderna. Essas mudanças têm levado a uma reavaliação do papel da educação e do currículo. O currículo pós-moderno é visto como algo dinâmico e em constante mudança, que reflete as necessidades e desafios atuais da sociedade. Ele enfatiza a construção do conhecimento e o desenvolvimento de habilidades práticas e críticas, em vez de uma simples transmissão de informações (Silva, 2006). Além disso, o currículo assume, em seu contexto pós-moderno, abrangências de discussões de impacto direto na sociedade, como pautas ambientais (Ramos; Azevedo; Silva, 2022). No entanto, o conceito de pós-modernidade para o currículo é frequentemente criticado por sua falta de clareza e coerência. Alguns argumentam que o relativismo cultural e a ênfase na subjetividade podem levar a uma falta de valores compartilhados e de um senso de unidade na sociedade (Silva, 2006).
As características da pós-modernidade nos currículos brasileiros podem variar de acordo com as diferentes abordagens educacionais e filosóficas adotadas pelas escolas e instituições de ensino. Algumas características comuns são valorizadas, como a flexibilidade, a interdisciplinaridade, contextualização, inovação, valorização da diversidade e a ênfase na aprendizagem significativa (Ferraro, 2009).
A flexibilidade é vista como uma forma de adaptar o currículo de acordo com as necessidades e demandas da sociedade, permitindo a inclusão de novos temas e abordagens. Já a abordagem interdisciplinar valoriza a integração de diferentes áreas do conhecimento, permitindo a construção de saberes mais amplos e complexos. A contextualização do conhecimento é valorizada no currículo pós-moderno, relacionando os temas estudados com a realidade dos estudantes e com as questões sociais, políticas e econômicas do mundo contemporâneo. A inovação e a criatividade são estimuladas para que os discentes possam desenvolver soluções criativas para problemas complexos e explorar novas formas de pensar e agir (Green, 2017).
A valorização da diversidade cultural e da pluralidade de perspectivas busca promover a inclusão e o respeito à diferença, e a ênfase na aprendizagem significativa leva em consideração as experiências e vivências dos discentes, relacionando os conteúdos estudados com suas demandas e interesses (Silva, 2006; Ferraro, 2009).
Oliveira e Lopes (2023) discutem que nos últimos anos, tem-se observado uma proliferação significativa do conjunto de investigações em políticas curriculares, embasadas em uma perspectiva pós-estrutural, ancorada na teoria do discurso de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, frequentemente em confluência com a hermenêutica derridiana. Ainda para os autores, tal movimento na perspectiva pós-estrutural gerou uma tendência em não incorporar a pós-modernidade de Lyotard nos estudos curriculares.
Jean-François Lyotard
Jean-François Lyotard (1924-1998) foi um filósofo e teórico cultural francês conhecido por suas contribuições para a filosofia pós-moderna. Ele foi uma figura importante no movimento intelectual conhecido como pós-modernidade, que desafiou as crenças modernistas no progresso, razão e grandes narrativas.
Ele nasceu em 1924, em Versalhes, e estudou Filosofia na Universidade de Paris. Durante sua vida, Lyotard trabalhou como professor em várias universidades francesas e em outros países, e escreveu uma série de obras que influenciaram profundamente o pensamento filosófico contemporâneo. Lyotard faleceu em 1998, em Paris, vítima de uma leucemia. Sua morte foi lamentada por muitos filósofos e intelectuais que reconheciam a importância de suas contribuições para o pensamento crítico e a filosofia (Fortes, 2014).
As obras de Lyotard são marcadas por uma preocupação constante com a vida e a morte, tanto no sentido existencial quanto no político. Em seus escritos, ele explorou temas como a linguagem, a tecnologia, a arte e a cultura, sempre questionando os valores e as estruturas que sustentam a sociedade contemporânea.
As pesquisas filosóficas de Lyotard foram influenciadas pela fenomenologia, pelo marxismo e pela psicanálise. Ele foi particularmente interessado em explorar a natureza da experiência humana e sua relação com a linguagem, o conhecimento e a política (Damião, 2019). Por sua vez, Gargano (2013) alega que a política constitui a essência das discussões estéticas do filósofo. Ao apresentar o marxismo como mais uma grande narrativa entre outras. Lyotard (1998) não estava estetizando a política, como leituras rasas podem sugerir. Ele invocava na política uma força mobilizadora, com o propósito de revelar aquilo que escapa à percepção sensorial, mas cuja ausência inviabiliza a ocorrência dos movimentos e essa força está presente de maneira latente, sem manifestar-se explicitamente (Oliveira; Lopes, 2023).
Além disso, Lyotard foi um crítico ferrenho das grandes narrativas da modernidade, que buscavam fornecer um sentido universal e absoluto para a vida humana. Em vez disso, ele defendeu uma abordagem mais fragmentária e descentralizada, que valoriza a diversidade e a multiplicidade de perspectivas. O filósofo acreditava que a linguagem não era apenas uma ferramenta para expressar ideias, mas também uma forma de construir e moldar a realidade. Ele argumentava que as narrativas e os discursos utilizados para descrever o mundo são socialmente construídos e, portanto, podem ser manipulados para controlar e oprimir certos grupos sociais (Júnior, 2015). Lyotard também se interessou pela relação entre conhecimento e poder. Ele argumentou que as instituições de poder, como o Estado ou as grandes empresas, utilizam o conhecimento como uma forma de legitimar sua autoridade e perpetuar sua dominação sobre os grupos marginalizados.
De acordo com Lyotard, na era pós-moderna, o conhecimento não é mais definido por grandes narrativas ou metanarrativas, mas por narrativas menores, localizadas e muitas vezes em competição, ou "jogos de linguagem" (Correa, 2012). As metanarrativas seriam os discursos hegemônicos, e a queda da mesma promoveu um reflexo social centrado no cotidiano, narrativas menores e sem perspectivas nos saberes modernistas, agora são alvo de pesquisas e de construções identitárias (Lyotard, 1998).
Diante do explicitado, o presente artigo possui como objetivo a discussão do uso da literatura pós-moderna de Lyotard para a compreensão teórica de um currículo pós-moderno. Portanto, para a construção do ligante pós-moderno de Lyotard com o conceito de currículo, fez-se um levantamento de suas obras, que de acordo com Rodrigues (2007), é a recuperação do conhecimento científico em frente a um problema ou discussão. Sendo assim, foi proposta uma revisão das produções pós-modernas de Lyotard.
Neste contexto, foram selecionados os seguintes textos para compor o corpus de discussão do presente artigo: “Discurso da Figura” (2012); “Economia Libidinal” (1993); “Fenomenologia” (2004); “A condição pós-moderna” (1998), "O Inumano: Considerações sobre o Tempo" (1993); "O Diferendo" (2011) e “Lições sobre a Analítica do Sublime" (1993). Vale lembrar que os materiais supracitados são as versões traduzidas para a língua portuguesa.
Um Mergulho nas Obras
Em sua produção “Discurso da Figura” (2012), a linguagem e a imagem são dois sistemas de representação que operam de forma diferente, mas que estão intimamente ligados. Lyotard discute que a linguagem é um sistema de signos que se baseia na relação entre significante (palavras) e significado (ideias), enquanto a imagem é um sistema de figuras que se baseia na relação entre o material visual e o efeito visual que produz. Ele afirma que a imagem é capaz de produzir efeitos sensíveis que não podem ser reproduzidos pela linguagem, como a intensidade, a cor e a textura.
No entanto, Lyotard também afirma que a imagem não é uma representação direta da realidade, mas sim uma construção social e cultural que é moldada por convenções e valores estéticos. Ele argumenta que a imagem é um discurso visual que produz um efeito sensível, mas que esse efeito é sempre ambíguo e incerto, aberto a múltiplas interpretações.
Outra produção de grande impacto foi a “Economia Libidinal” (1993). Lyotard discute que a economia capitalista não é apenas uma questão de produção e distribuição de bens materiais, mas também envolve a produção e distribuição de prazeres e desejos. Ele usa o conceito de "libido" para descrever a energia psíquica que é investida em atividades e objetos que produzem prazer e satisfação.
Segundo Lyotard, a economia capitalista transformou a libidinalidade em uma força produtiva que é explorada e controlada pelo sistema econômico. Ele argumenta que a publicidade e os meios de comunicação de massa são os principais instrumentos utilizados para criar e manipular desejos e necessidades, de forma a manter o ciclo de produção e consumo.
Lyotard também se concentra na relação entre libido e trabalho, argumentando que o trabalho é uma forma de repressão da energia libidinal. Ele afirma que a atividade laboral é uma atividade que visa suprimir os desejos e impulsos naturais do indivíduo, a fim de torná-lo mais produtivo e útil para o sistema econômico.
Seu próximo livro é o “Fenomenologia” de 2004, na obra, Lyotard se concentra na fenomenologia de Edmund Husserl e em sua abordagem da percepção e da intencionalidade. É argumentado que a fenomenologia pode ser entendida como uma tentativa de descrever a experiência imediata da consciência, sem recorrer a conceitos abstratos ou pré-concebidos (Correa, 2012).
Lyotard também analisa a relação entre a fenomenologia e a linguagem, argumentando que a fenomenologia pode ajudar a entender a natureza da linguagem como um sistema de signos que medeia nossa experiência do mundo. Ele afirma que a linguagem é um meio de expressão que permite a comunicação e a intersubjetividade, mas que também pode ser uma fonte de incompreensão e conflito.
Além disso, Lyotard explora a relação entre a fenomenologia e a cultura, argumentando que a fenomenologia pode ajudar a entender a diversidade cultural e a multiplicidade de formas de experiência e percepção. Ele afirma que a fenomenologia pode ser uma ferramenta útil para analisar as diferenças culturais e as formas como diferentes grupos sociais constroem suas realidades (Lyotard, 2004).
Para Lyotard, a pós-modernidade é marcada pela diversidade e a multiplicidade de perspectivas, valores e modos de vida, em contraposição à homogeneização e padronização promovidas pelas narrativas hegemônicas. Nesse sentido, a condição pós-moderna é também uma condição estética, na qual a experiência sensível e a produção de elóquios ganham um papel central na construção da realidade.
Em “A condição pós-moderna” (1998), tal ponto de vista se traduz na famosa tese do fim das metanarrativas de legitimação do saber e da política, que significa a perda de atração pelos ideais altissonantes da modernidade clássica. A versão lyotardiana do pragmatismo contemporâneo, porém, nada tinha de conformista ou liberal. Ao propor o que chamou de uma agonística geral dos discursos, Lyotard permaneceu fiel a seu passado militante, tanto neste quanto em todos os seus livros.
A agônistica geral dos discursos de Lyotard refere-se à sua visão de que o conhecimento é construído por meio de lutas competitivas entre diferentes formas de saber. Lyotard argumenta que não há uma única narrativa que possa capturar toda a verdade ou fornecer uma explicação abrangente do mundo. Em vez disso, ele acredita que o conhecimento é fragmentado e é o resultado de uma variedade de elóquios e formas de saber.
Lyotard usa o termo "agonística" para se referir a esse processo competitivo de construção de conhecimento. Ele argumenta que diferentes discursos têm regras e objetivos distintos, o que significa que eles competem uns com os outros para estabelecer sua validade e autoridade. Em “A condição pós-moderna” também é argumentado que a agônica geral é influenciada por fatores políticos e econômicos, e a forma que as instituições educacionais são organizadas e financiadas. Lyotard acredita que a luta pelo conhecimento pode ser distorcida por esses fatores, o que pode levar a uma supressão de certos discursos e formas de saber.
Em 1993, denominada: "O Inumano: Considerações sobre o Tempo", Lyotard argumenta que na pós-modernidade, o tema tecnologia e a ciência têm transformado radicalmente a nossa compreensão do tempo, da história e da cultura. Ele argumenta que tal temática tem levado a uma fragmentação e descontinuidade do tempo, o que tem desafiado a nossa capacidade de criar narrativas coerentes e de dar sentido ao mundo.
Lyotard usa o conceito de "inumano" para descrever a maneira como a tecnologia e a ciência têm se tornado cada vez mais autônomas e independentes da humanidade. O autor argumenta que a tecnologia está cada vez mais assumindo o controle de nossas vidas, transformando a natureza humana e a nossa relação com o mundo. Também se concentra na relação entre a tecnologia e a cultura, argumentando que a cultura está cada vez mais sendo transformada pela tecnologia e que isso está levando a uma crise na arte e na estética. Ele afirma que a tecnologia tem levado a uma perda da sensibilidade estética e da capacidade de apreciar a beleza e a complexidade do mundo.
Sua próxima produção é "O Diferendo" (2011), que se refere a um tipo específico de conflito que surge quando duas partes têm visões incompatíveis sobre um mesmo evento ou situação. Segundo Lyotard, “O Diferendo” surge quando uma das partes envolvidas em um conflito tenta forçar a outra a aceitar sua visão do evento ou situação, e esta outra parte se recusa a fazê-lo. O diferendo não pode ser resolvido por meio de argumentação ou negociação, pois as partes têm pressupostos e formas de pensar tão distintas que não conseguem encontrar um terreno comum.
Lyotard argumenta que o diferendo é uma característica inerente às sociedades pós-modernas, marcadas pela fragmentação, diversidade e complexidade. Ele afirma que a pós-modernidade é marcada pela multiplicidade de jogos de linguagem e pelos conflitos que surgem entre eles.Ao introduzir o conceito de diferendo, Lyotard busca destacar a importância da ética e da justiça nas relações sociais. Portanto, ele argumenta que, em um mundo fragmentado e diverso, é importante reconhecer as diferenças e permitir que as diferentes perspectivas coexistam, sem tentar forçar uma única visão sobre as outras.
Sua obra “Lições sobre a Analítica do Sublime", traduzida em 1993 para língua portuguesa, Lyotard se concentra na análise de textos filosóficos e literários para desenvolver sua teoria do sublime. O autor destaca que o sublime não é apenas uma categoria estética, mas também uma categoria filosófica que nos permite entender a natureza da experiência humana.
Segundo Lyotard, o sublime é uma experiência que ocorre quando o sujeito é confrontado com algo que é maior do que ele, algo que é inominável e indescritível. É uma experiência que nos desafia, que nos faz sentir pequenos e insignificantes diante da grandeza do mundo. Lyotard argumenta que a experiência do sublime está intimamente ligada à ideia de limite. É uma experiência que ocorre quando nos deparamos com algo que está além dos nossos limites cognitivos e sensíveis. A experiência do sublime é uma experiência de desconforto e medo, mas também de admiração e respeito.
Ao analisar a obra de Kant e outros filósofos, Lyotard discute em 1993, que o sublime é uma categoria que nos permite entender a relação entre a razão e a sensibilidade. Ele afirma que é uma categoria que transcende a distinção entre o sujeito e o objeto, permitindo-nos compreender a unidade da experiência humana.
Os trabalhos de Lyotard tiveram um impacto profundo em campos como filosofia, teoria cultural, teoria da arte e teoria da literatura. Ele é frequentemente associado a outros pensadores pós-modernos importantes, como Jacques Derrida, Michel Foucault e Gilles Deleuze.
A compreensão de currículo com o uso da ótica lyotardiana
Nesse contexto, confere-se que a educação e a formação de currículos devem levar em conta a diversidade e a fragmentação da pós-modernidade. Logo, defende-se uma educação que seja crítica e reflexiva, capaz de lidar com a multiplicidade de discursos e de pontos de vista presentes na sociedade.
Na ótica lyotardiana, o currículo deve ser construído de forma a permitir a coexistência de diferentes narrativas e perspectivas. Compreende-se a ideia de uma "educação para a incerteza", que leve em conta a diversidade e a complexidade da realidade e que ajude os estudantes a desenvolverem a capacidade de lidar com a incerteza e a ambiguidade.
Além disso, Lyotard destaca a importância da tecnologia e da ciência na formação do conhecimento e da cultura contemporânea, mas alerta para os riscos da instrumentalização do conhecimento e da subordinação dos saberes às necessidades do mercado empresarial e do poder capitalista. Sendo assim, o currículo lyotardiano deve ser aberto para o mundo tecnológico, todavia, ser ciente de seus prós e contras.
Outro conceito importante desenvolvido por Lyotard, e que podemos utilizar para a compreensão do currículo, é o de "jogo de linguagem". Para ele, o conhecimento não é algo que possa ser objetivamente transmitido ou adquirido, mas é construído a partir de jogos de linguagem específicos que são influenciados pelas diversas formas de poder e de legitimação do conhecimento. Sendo o currículo um espaço o qual legitima e sistematiza o conhecimento, o “jogo de linguagem” de Lyotard é de suma importância para a compreensão das influências e tendências que o processo de construção do conhecimento científico pode ou não atender de acordo com sua relação entre os diversos poderes, como a política, economia, empresariado etc.
Ainda sobre a legitimação do conhecimento no currículo, podemos utilizar do conceito lyotardiano da “Agonística”, o qual é especialmente importante na pós-modernidade, em que a fragmentação e a diversidade de saberes tornam-se mais evidentes. Nesse contexto, o currículo deve ser visto como um espaço em que diferentes perspectivas são confrontadas e negociadas, e em que o conhecimento é construído a partir de um diálogo crítico e agonístico.
Assim, contribui para a compreensão do currículo ao enfatizar que o conhecimento não é uma verdade única e universal, mas é construído a partir de uma diversidade de perspectivas que competem entre si. Além disso, a agonísitca destaca a importância do diálogo e da negociação para a construção do conhecimento, e defende a pluralidade e a diversidade de saberes como condição para a autonomia e a liberdade dos indivíduos.
Ainda sobre a legitimação, podemos também usar a obra “O Diferendo” para o contexto do currículo. É destacado que não há uma única verdade ou perspectiva que possa ser considerada superior ou mais legítima do que as outras. Em vez disso, o conhecimento é construído a partir de uma multiplicidade de perspectivas que competem entre si. Isso significa que o currículo deve ser visto como um espaço de negociação e de conflito, onde as diferentes perspectivas podem ser apresentadas e discutidas para a construção e legitimação do conhecimento.
Sobre o conhecimento, podemos utilizar da obra “Economia libidinal”, com o embasamento da ótica lyotardiana para compreender o saber como um investimento de desejo nas formas de conhecimento e nas relações sociais que constituem o currículo. Isso significa que a transmissão e produção do conhecimento são permeadas por emoções, paixões, desejos e investimentos afetivos que influenciam as escolhas e as negociações em torno dos saberes.
Assim, a economia libidinal contribui para a compreensão do currículo ao enfatizar que o conhecimento não é uma construção puramente racional e objetiva, mas é permeado por emoções. Além disso, esta obra destaca a importância da dimensão afetiva na construção do conhecimento, e enfatiza que as emoções e os afetos desempenham um papel crucial na negociação e validação dos diferentes saberes e conhecimentos.
Por sua vez, também podemos fazer o uso da obra "O Inumano: Considerações sobre o Tempo". No contexto do currículo, essa transformação no conceito de tempo pode ser vista como uma mudança na forma como concebemos a sistematização e a aprendizagem. Na era da informação, a velocidade com que os dados e conhecimentos são produzidas e atualizados, torna-se uma questão central para a construção do conhecimento. Isso significa que o currículo precisa estar em constante atualização e reconfiguração, para acompanhar as transformações no conhecimento e nas práticas sociais. A ideia de "tempo acelerado" também tem implicações para a forma como concebemos a avaliação e o desempenho dos estudantes. Na medida em que o tempo se torna um recurso cada vez mais escasso, a pressão para avaliar e classificar os discentes de forma rápida e eficiente aumenta. Isso pode levar a uma ênfase excessiva nos resultados e na produtividade, em detrimento de uma reflexão mais profunda sobre os processos de aprendizagem e de construção do conhecimento no escopo curricular. Logo, podendo resultar em currículos tradicionais que visem medir erros e acertos do alunado, e não sua construção como cidadão ou para apropriação dos saberes científicos para interpretar o seu cotidiano. Tal perspectiva resulta em currículos e avaliações cada vez mais somativas e pouco formativas uma vez que, um currículo tradicional demanda menos tempo e criticidade para ser executado.
Dessa forma, a obra "O Inumano: Considerações sobre o Tempo" de Lyotard, contribui para a compreensão do currículo na pós-modernidade, destacando a importância de se considerar as transformações no conceito de tempo e sua influência nas práticas de ensino e aprendizagem.
O conceito de sublime, tal como trabalhado por Lyotard, pode ser uma metáfora potente para compreender as tensões presentes nas políticas curriculares contemporâneas que afetam os professores na educação brasileira. O sublime refere-se a experiências que transcendem nossa capacidade de compreender ou representar plenamente, gerando uma sensação de admiração, mas também de impotência diante do incomensurável. Esse conceito ilustra o impacto das políticas educacionais que demandam resultados mensuráveis e padronizados, muitas vezes desconectados das realidades do cotidiano escolar.
Como destacam Dametto e Esquinsani (2015), a avaliação educacional em larga escala e a performatividade promovem uma perversão da experiência educacional, ao priorizar o alcance de metas em detrimento do desenvolvimento pleno do estudante e da valorização do processo educativo. Os desafios contemporâneos no campo do currículo, envolvem romper com certos paradigmas que persistem como a padronização, o controle, o chamado accountability, e a ênfase nas pedagogias das competências, os quais refletem uma visão tecnicista da educação. A crítica de Lyotard às metanarrativas e sua defesa da multiplicidade de saberes oferecem uma perspectiva crítica sobre esses dilemas.
Schneider e Nardi (2014) analisam como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) constrói um modelo de accountability na educação básica brasileira, no qual os professores são responsabilizados por resultados que, muitas vezes, estão fora do seu alcance direto. De forma semelhante, Afonso (2009) critica a accountability baseada em testes estandardizados e rankings escolares, apontando que nem tudo o que importa em educação pode ser reduzido a métricas ou comparações simplistas. Essas análises reforçam o sentimento de impotência experimentado pelos professores ao tentar alcançar expectativas inalcançáveis impostas pelas políticas públicas. Tal modelo cria um horizonte de expectativas incompatível com a realidade concreta da sala de aula, exacerbando a frustração e o desgaste profissional.
Lyotard associa o sublime a uma tensão entre o desejo de representar e a incapacidade de fazê-lo completamente. Essa tensão dialoga diretamente com os autores supracitados e com a experiência docente, em que o professor tenta “representar” um ideal educacional exigido pelas políticas públicas, mas enfrenta limites impostos por fatores como precariedade de recursos, desigualdades sociais e falta de autonomia pedagógica. Assim, as demandas das políticas educacionais, ao criarem objetivos percebidos como grandiosos e inalcançáveis, intensificam essa relação entre desejo e frustração, refletindo o confronto típico do sublime
Lyotard para os desafios contemporâneos do currículo
A padronização busca estabelecer critérios universais de ensino e aprendizagem, mas frequentemente negligência os contextos locais e subjetividades dos estudantes. Popkewitz, Franco e Wu (2011) argumentam que os currículos homogêneos desconsideram as diversidades culturais, sociais e individuais. Esse processo, muitas vezes imposto por políticas globais, cria um ambiente em que vozes minoritárias e epistemologias locais são marginalizadas. Tal crítica dialoga com a visão de Lyotard sobre as narrativas hegemônicas e a necessidade de valorizar perspectivas plurais no currículo.
Lyotard, ao discutir os impactos das narrativas dominantes em "O Diferendo", chama atenção para como perspectivas hegemônicas podem silenciar formas alternativas de saber. No contexto do currículo, isso significa que padrões globais podem apagar particularidades regionais e culturais, criando um espaço educacional onde a multiplicidade de vozes é desvalorizada. O controle, intensificado pelo uso de tecnologias de monitoramento, também exemplifica o que Lyotard aborda em "O Inumano: Considerações sobre o Tempo", alertando para os riscos de uma sociedade dominada pela lógica da eficiência e da produtividade.
O modelo de accountability, amplamente presente nas políticas educacionais contemporâneas, como já discutido, tem sido associado à mensuração e à prestação de contas, transformando a educação em um espaço orientado por métricas e resultados. Ball (2003) discute como essa lógica de performatividade converte o valor da educação em algo mensurável, subordinando o conhecimento a indicadores de eficiência. Esse fenômeno, que prioriza a obtenção de resultados quantificáveis, reflete as tensões presentes na condição pós-moderna da educação, conceito trabalhado por Lyotard, onde a busca por legitimidade e verdade se dá por meio de narrativas tecnocráticas e científicas, mas que muitas vezes não conseguem captar a complexidade e as especificidades do campo educacional.
Na condição pós-moderna, como Lyotard descreve, há uma desconfiança em relação às grandes narrativas explicativas, substituídas por pequenas narrativas locais que, embora legítimas em seus contextos, são constantemente desvalorizadas pela busca por um padrão universal. No campo educacional, isso se traduz em uma imposição de avaliações estandardizadas e rankings, que promovem um "saber único" sobre o desempenho escolar, muitas vezes desconsiderando as particularidades dos diferentes contextos educativos. A ideia de mensurar e comparar, conforme apontado por Afonso (2009) e Dametto e Esquinsani (2015), não apenas empobrece a experiência educacional, mas também ignora as múltiplas formas de aprender e ensinar que não podem ser capturadas por números e índices.
Essa imposição de metas elevadas e resultados homogêneos nos remete a um paradoxo pós-moderno: enquanto as políticas educacionais buscam legitimar-se por meio de indicadores e resultados universais, elas criam uma distância crescente entre a realidade concreta das escolas e as expectativas irreais impostas pelos órgãos reguladores. Isso se assemelha ao conceito de sublime de Lyotard, que descreve uma tensão entre o desejo de representar algo grandioso e a impossibilidade de alcançá-lo. Na educação brasileira, esse "sublime" se manifesta na tentativa de alcançar objetivos educacionais que, devido às desigualdades estruturais e à precariedade de recursos, se tornam inalcançáveis, gerando uma sensação de impotência diante de um sistema que se pretende eficaz, mas que fracassa em reconhecer as limitações do contexto.
Portanto, ao incorporar a lógica do "accountability", as políticas educacionais contemporâneas não só priorizam resultados mensuráveis, mas também desconsideram a multiplicidade de saberes e práticas pedagógicas que caracterizam a realidade das escolas brasileiras. Isso reflete a condição pós-moderna de Lyotard, que destaca a fragilidade das grandes narrativas e a incapacidade de representar plenamente as complexidades do mundo moderno, especialmente no campo da educação.
Essa lógica reduz o ensino a um modelo produtivista, alinhado a interesses mercadológicos, e ignora a complexidade e as particularidades dos contextos escolares. Portanto, o accountability privilegia o ranqueamento e classificações, reduzindo o valor do conhecimento à sua utilidade prática, conforme discutido por Lyotard em sua análise da sociedade pós-moderna. Em "A Condição Pós-Moderna", ele argumenta que o saber foi instrumentalizado, tornando-se um meio de alcançar resultados mensuráveis. Essa dinâmica é visível nas pedagogias das competências, onde a aprendizagem frequentemente se fragmenta em objetivos específicos e mensuráveis. Embora se proponha preparar os indivíduos para a complexidade do mundo contemporâneo, esse modelo muitas vezes reduz o processo educacional a índices e rankings, ignorando a diversidade epistemológica e cultural.
Além disso, o currículo contemporâneo reflete a fragmentação do saber, característica central da pós-modernidade discutida por Lyotard. Em o "Discurso da Figura", o filósofo diferencia linguagem e imagem como sistemas complementares de representação, sublinhando a impossibilidade de uma visão única e universal. Tal fragmentação, longe de ser um problema, pode ser uma oportunidade para explorar diferentes perspectivas. Entretanto, quando ocorre sem articulação crítica, tende a gerar alienação e superficialidade, o que é perceptível em abordagens que priorizam apenas resultados práticos e imediatos.
Por fim, a noção de sublime, na perspectiva apresentada por Lyotard, oferece uma chave interpretativa interessante para refletir sobre as contradições das atuais políticas curriculares que incidem sobre o trabalho docente no Brasil. O sublime remete a experiências que escapam à plena compreensão e à representação, despertando tanto fascínio quanto desconforto diante do inabarcável. De modo semelhante, as políticas educacionais que priorizam indicadores numéricos e padrões uniformes acabam por confrontar os professores com exigências descoladas da realidade concreta das escolas, gerando um sentimento de tensão e inadequação frente à complexidade do ato educativo.
Estudos como os de Freitas (2007) e Gatti (2010) destacam que as avaliações em larga escala frequentemente desconsideram as diferenças regionais e estruturais, impondo critérios homogêneos a um sistema educacional desigual.
As políticas curriculares, ao exigir metas elevadas e resultados semelhantes, frequentemente criam um cenário que, para o professor, se assemelha ao sentimento do sublime: as demandas são percebidas como grandiosas e inalcançáveis, gerando tanto admiração pela ambição quanto frustração pela sensação de insuficiência diante da tarefa. Ciervo e Silva (2019) argumentam que os sistemas avaliativos padronizados promovem uma visão mecanicista da educação, onde os docentes são responsabilizados por resultados que frequentemente escapam ao seu controle, devido a condições adversas e falta de suporte institucional.
Por outro lado, o currículo também é um espaço que pode servir à emancipação dos sujeitos, desde que seja tratado como um campo em permanente construção, aberto ao diálogo com as vivências e saberes dos estudantes (Monteiro; Santos, 2021). Os autores discutem a importância de se trabalhar com uma abordagem crítica, na qual as desigualdades sociais e as condições históricas de produção do conhecimento sejam tematizadas. Como Lopes e Macedo (2016) apontam, as reformas curriculares recentes muitas vezes priorizam competências técnicas em detrimento de uma formação integral. Por sua vez, Monteiro e Santos (2021) defendem que o currículo deve incluir práticas pedagógicas que questionem as tensões e desconstruam preconceitos.
Diante do supracitado, Lyotard associa o sublime a tensão entre o desejo de representar e a incapacidade de fazê-lo completamente. Essa ideia dialoga diretamente com a experiência docente nas escolas brasileiras, em que o professor, pressionado pelas políticas públicas, tenta "representar" um ideal educacional exigido, mas enfrenta limites impostos por fatores como a precariedade de recursos, desigualdades estruturais e falta de autonomia pedagógica. Afonso (2009) aponta que essas políticas frequentemente criam um horizonte de expectativas que parece estar além das possibilidades concretas da prática pedagógica, gerando um ciclo de frustração e desgaste para os profissionais da educação. Assim como no sublime, há um confronto entre o desejo de realização e o reconhecimento da impossibilidade de atingi-lo plenamente.
Considerações Finais
A contribuição de Jean-François Lyotard para a compreensão do currículo é profunda e multifacetada, destacando-se em sua defesa da autonomia, da diversidade e da pluralidade de saberes, assim como na sua crítica à instrumentalização do conhecimento. Ele entende o conhecimento como algo construído a partir de jogos de linguagem específicos, uma visão que tem influenciado significativamente a área da educação e do ensino. Esta abordagem valoriza a complexidade, a diversidade e a autonomia dos indivíduos no desenvolvimento de currículos.
Lyotard argumenta que na pós-modernidade, as metanarrativas — grandes relatos que anteriormente davam sentido e legitimidade ao conhecimento e às práticas sociais — perderam sua eficácia. Estas narrativas abrangentes não conseguem mais dar conta da complexidade e diversidade das sociedades contemporâneas. A pós-modernidade, segundo Lyotard, é marcada pela fragmentação, por um complexo de perspectivas e pela desconfiança em relação a qualquer narrativa universalizante e hegemônica.
Essa quebra das metanarrativas tem implicações significativas para o currículo educacional. Em um contexto pós-moderno, não há uma única história ou verdade que possa ser transmitida de forma objetiva e neutra. Em vez disso, o conhecimento é construído a partir de múltiplas perspectivas e narrativas que competem entre si, sem que uma seja considerada inerentemente superior ou mais legítima do que as outras. Isso desafia a concepção tradicional de currículo, que se baseia em uma visão homogênea, unificadora do conhecimento e da técnica.
Portanto, uma visão lyotardiana do currículo exige uma reavaliação radical da educação. Esta visão defende a criação de currículos que reconheçam e valorizem a diversidade cultural, social e individual dos estudantes em vez de currículos generalistas que desprezam a identidade regional, cultural e social do público-alvo. A abordagem pós-moderna proposta por Lyotard enfatiza a necessidade de incluir e respeitar as múltiplas identidades e experiências dos estudantes. Lyotard destaca também a importância de integrar a tecnologia na educação, reconhecendo seu papel central na sociedade contemporânea. A tecnologia não só transforma os métodos de ensino e aprendizagem, mas também afeta a forma como o conhecimento é produzido e disseminado. Nesse contexto, a educação deve preparar os indivíduos para navegar e criticar o vasto mar de informações e perspectivas que a tecnologia disponibiliza, com autonomia e apropriação.
Por fim, a contribuição pós-moderna de Lyotard para a compreensão do currículo reside em sua defesa de uma educação que valorize a diversidade, a pluralidade e a autonomia. Ele propõe uma visão de educação que se adapta à complexidade da sociedade contemporânea, rejeitando narrativas unificadoras em favor de um mosaico de saberes e perspectivas. Esta visão continua a ser influente e relevante, especialmente à medida que as sociedades se tornam cada vez mais diversas e tecnologicamente integradas.
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Notas
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