Recepção: 20 Novembro 2025
Aprovação: 22 Março 2026
Resumo: Este artigo realiza discussões acerca do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), elaborado durante a pandemia por COVID-19, entre 2020 e 2022, no município de Porto Velho, a partir de uma coleta realizada virtualmente por meio do Google Docs e WhatsApp, cujos dados foram compilados e posteriormente traduzidos em nuvens de palavras por meio do Wordcloud.com. A partir da coleta de dados socioeconômicos, buscou-se espacializar, na área urbana, os indivíduos entrevistados, como forma de entender a abrangência das opiniões relatadas, bem como utilizar as nuvens de palavras para evidenciar e dar maior destaque às palavras que mais representaram os sentimentos atribuídos aos espaços públicos. O olhar fenomenológico aplicado ao DSC permitiu compreender melhor as diferentes percepções sobre o bem viver, as experiências urbanas e as situações de insegurança durante a pandemia, bem como seus impactos psicológicos e emocionais decorrentes do isolamento social. Além disso, como a percepção de um mesmo lugar varia de pessoa para pessoa, a abordagem fenomenológica contribui para interpretar a relação dos indivíduos com os espaços públicos, identificando os fenômenos culturais que orientam seu uso e os efeitos da ausência de contato físico entre as pessoas e com o meio ambiente nesse período nebuloso em que vivemos.
Palavras-chave: Geografia, DSC, Fenomenologia, Espaço sentimental, Espaço Público.
Abstract: This article discusses the Collective Subject Discourse (CSD) developed during the COVID-19 pandemic, between 2020 and 2022, in the municipality of Porto Velho, Rondônia, Brazil. Data were collected virtually through Google Forms, WhatsApp, and Instagram Direct, involving 102 respondents, and subsequently translated into word clouds using Wordclouds.com. Socioeconomic data were used to spatially map respondents within the urban area, enabling an understanding of the geographic distribution of the reported perceptions. The phenomenological perspective applied to the CSD allowed a deeper comprehension of the different perceptions regarding well-being, urban experiences, and feelings of insecurity during the pandemic, as well as the psychological and emotional impacts resulting from social isolation. Since the perception of a given place varies from person to person, the phenomenological approach contributed to interpreting the relationship between individuals and public spaces, identifying the cultural phenomena that shape their use and the effects of the absence of physical contact — both between people and with the surrounding environment — during this period. The results indicate that the use of public spaces in Porto Velho is driven by environmental potential, infrastructure quality, and feelings of safety, which are directly associated with topophilic or topophobic experiences of place.
Keywords: Geography, CSD, Phenomenology, Sentimental space, Public space.
INTRODUÇÃO
Na Geografia, o espaço é, antes de mais nada, o espaço disponível fisicamente, que somente pelo olhar do homem pode se tornar um lugar, uma referência, a partir da importância que se atribui ao espaço. Em Relph (1976), o espaço ganha diversos extratores com significados distintos, mas, ainda assim, o homem está presente e, junto dele, seus sentimentos, que moldam o nível de apego que se tem sobre esses espaços, assim como o lugar especial do sentimento. Compreendido como espaço simbólico, palco para ressignificações constantes a partir das emoções vivenciadas no cotidiano, o espaço público ganha maior importância durante a pandemia por COVID-19, aumentando as discussões sobre lugar, o lugar de fé, de moradia, de sociabilidade, dentre outras, que mudaram a nossa visão de mundo a partir dos sentimentos, principalmente o do medo.
A pesquisa interage com as visões epistemológicas de Relph (1976) e Tuan (1982, 2003, 2005, 2012, 2013) sobre o lugar, somadas às do sociólogo Bauman (2009) sobre as relações do medo e as relações sentimentais que moldam a interação da sociedade com os espaços públicos, ajudando a compreender essas relações no município de Porto Velho durante a pandemia entre 2020 e 2022, a partir do desenvolvimento do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC).
A partir do referencial teórico e do DSC coletados sobre a percepção dos espaços públicos de Porto Velho durante a pandemia por COVID-19, este artigo busca compreender o que se pensava sobre os sentimentos latentes acerca dos espaços públicos durante esse período.
Diante do exposto, este artigo tem como objetivo compreender os sentimentos atribuídos aos espaços públicos pela população de Porto Velho durante a pandemia por COVID-19, entre 2020 e 2022, a partir da aplicação do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) sob uma perspectiva fenomenológica, identificando os elementos que despertam sentimentos topofílicos ou topofóbicos em relação aos lugares e analisando os impactos do isolamento social sobre a percepção e o uso desses espaços.
MATERIAIS E MÉTODOS
A pandemia por COVID-19 dificultou a aplicação de questionário de forma presencial; contudo, o desenvolvimento de um formulário semiestruturado no Google Forms, bem como a utilização do WhatsApp e do Direct do Instagram, que foram os principais instrumentos de pesquisa possíveis, permitiram uma abordagem diversificada e confortável para os 102 entrevistados em Porto Velho, possibilitando a transmissão de um relato mais detalhado e organizado das percepções que se tinha à época sobre os espaços públicos.
O procedimento adotado para o estudo foi a aplicação do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), que permite, por meio de um discurso — modo como as pessoas naturalmente pensam —, o acesso a dados da realidade de caráter subjetivo, isto é, ideias, crenças, maneiras de pensar, opiniões e emoções, ao mesmo tempo em que valoriza a presença do investigador, permitindo que o entrevistado alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, o que enriquece a investigação.
No processo de análise do DSC, foram consideradas apenas as perguntas abertas que possibilitassem a seleção e a separação de ideias centrais sobre um determinado assunto ou termo, a fim de estabelecer o senso comum dos sujeitos sociais acerca dos aspectos que envolvem a utilização, a vivência e os sentimentos atribuídos aos espaços públicos. Como técnica complementar ao DSC, foram elaboradas nuvens de palavras, também conhecidas como “tag cloud”, em um aplicativo gratuito disponível on-line no Wordclouds.com. Essa ferramenta de análise consiste em destacar, por meio de um filtro de palavras, os termos recorrentes entre os citados pelos entrevistados, produzindo uma imagem que realça o tamanho da fonte e a cor em virtude de sua importância no texto.
Autores que se debruçaram sobre a vertente da Geografia Humanista e Cultural, como Relph 1976) e Tuan (1982, 2003, 2005, 2012, 2013), ajudaram na interpretação dos DSC por um viés epistemológico da geografia do espaço e da percepção, nos diversos extratos do espaço e seus significados, assim como o lugar dos sentimentos que foram essenciais para o desenvolvimento deste artigo.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Ao realizar a espacialização geográfica de onde os sujeitos sociais residem, observou-se que, apesar de haver uma boa distribuição dentro da malha urbana (Figura 1), 46% dos entrevistados são residentes da Zona Leste, 23% da Zona Sul, 20% do Centro e apenas 11% da Zona Norte.
Sobre a existência não de espaços públicos no bairro onde residem, 59,4% afirmam existir ao menos uma praça ou parque, sendo que 62,7% dos entrevistados afirmam não usufruírem ou raramente usufruírem desses lugares. Fato esse que revela pouca ou nenhuma interação com os espaços públicos do bairro, enfraquecendo as relações comunitárias e a sensação de pertencimento.
Levanta-se aqui a possibilidade dos espaços públicos estarem em ruína, que segundo Bauman (2005) é quando o espaço físico compartilhado (praças, ruas) perde sua função de congregação social em detrimento dos espaços de consumo, onde a interação é superficial esse processo é muitas vezes associadas à negligência estatal no cuidado com os espaços públicos dentre outros aspectos sociais à eles vinculados. Contudo, considerando a conjuntura do momento, Há uma drástica reconfiguração de nossas bolhas sensoriais, onde à luz da teoria da proxêmica de Hall (1989), as praças públicas durante o confinamento da COVID-19 deixaram de ser meros espaços de passagem para se tornarem extensões vitais do "espaço pessoal" e "social" que foram subitamente atrofiados pelas paredes domésticas.

Dados socioeconômicos apontam que 79,4% dos entrevistados, está entre os 20 e 45 anos sendo 41,2% na faixa entre 30 e 45 anos (Figura 2), revelando uma população majoritariamente jovem.

As questões de identidade de gênero foram contempladas e demonstraram que 56% dos entrevistados se identificam com o gênero feminino. Observou-se, ainda, que, nos discursos femininos, os relatos são mais detalhados acerca dos momentos vivenciados em praças e parques do que os dos homens, que apresentaram maior objetividade em suas respostas. Nesse sentido, os relatos colhidos junto às mulheres ajudaram a compreender melhor a percepção feminina, seus medos e anseios, contribuindo para uma melhor apreensão do espaço público.
Desde muito cedo, agregamos simbolismos às coisas. Segundo Tuan (2012), os significados de muitos símbolos são orientados pela cultura, na qual o ser humano estrutura, na maioria das vezes, categorias carregadas de substâncias, cores, direções etc. Contudo, a ordenação detalhada desses componentes varia muito de cultura para cultura, como claro e escuro, branco e preto, frente e fundo, centro e periferia, dentro e fora, aberto e fechado. Aberto e fechado, por exemplo, são categorias espaciais significativas para muitas pessoas e descrevem, inclusive, estados patológicos como agorafobia e claustrofobia, mas também estimulam sentimentos topofílicos. O espaço aberto significa liberdade, promessa de aventura, luz, domínio público, beleza formal e imutável; o espaço fechado significa a segurança aconchegante do útero, privacidade, escuridão e vida biológica (TUAN, 2012).
Ao investigar o que seriam os espaços públicos para os sujeitos sociais, a nuvem de palavras aponta maior recorrência nas expressões “uso comum”, “população”, “espaço”, “local”, “público”, “lazer”, “livre”, “praças”, “lugar” e “comunidade”, dentre outras. A recorrência é percebida pelo maior destaque visual das palavras, como pode ser observado na Figura 3.

De forma pragmática, nota-se que as palavras-chave, em relação à ideia que se tem sobre os espaços públicos, estão relacionadas a um local de uso comum, livre para o público, como praças e parques. Desse modo, o aspecto físico constitui o senso comum mais presente entre os sujeitos sociais.
Um espaço é “público” à medida que permite o acesso de todos, sem que precisem ser previamente selecionados, nem que haja registro de entrada ou saída. A presença nesses locais se dá de forma anônima, sendo destinados ao encontro de estrangeiros, onde a vida urbana e tudo aquilo que a distingue das outras formas de convivência humana atingem sua mais completa expressão, com alegrias, dores, esperanças e pressentimentos que lhe são característicos (BAUMAN, 2005).
Sendo assim, a análise dos discursos, em relação ao significado ou à representatividade do que seria espaço público (Quadro 1), é entendida pelos entrevistados como sendo um lugar de responsabilidade do poder público, que deve ser convidativo ao convívio social e à contemplação da natureza.

O espaço público é constituído pelos sujeitos sociais como um lugar de grande importância para a cidade (Figura 4). A palavra em maior destaque, “interação social”, indica que o espaço público possui papel preponderante no estímulo à convivência e ao contato com o desconhecido, dinâmicas que, por vezes, foram abandonadas nos grandes centros urbanos. Há, ainda, ênfase em termos que remetem diretamente à saúde mental, como “bem-estar”, “saúde”, “descanso”, “lazer” e “qualidade de vida”. Essas falas são indícios de uma população que compreende o espaço público como uma cura para a velocidade do dia a dia, uma terapia para a pressão que o concreto impõe às pessoas.

A tendência humana de viver em comunidade e de se relacionar com seus pares não é novidade. Os dados apresentados nos permitem engendrar que, mesmo diante da privatização do lazer em shoppings e condomínios, permanece a percepção de espaço público similar à Ágora Grega. Palavras como “pertencimento”, “direito” e “vivência” revelam como o uso do espaço público pode criar uma rede de apoio ao suporte social na comunidade, favorecendo sentimentos como o amor ao lugar.
Diversos autores, como Lee e Maheswaran (2011), apontaram, em seus estudos, a importância de áreas verdes no fomento ao relaxamento, na redução da ansiedade e no estímulo à prática de atividades físicas, o que oportuniza considerável coesão social. Corroborando resultados semelhantes, em nossa pesquisa foram destacados, pelos entrevistados, os termos “ambiental”, “preservação”, “diversão” e “descontração” (Quadro 2).

A utilização, ou não, de um espaço público muitas vezes está relacionada ao nível de sensação de conforto e segurança que uma pessoa tem ao experienciar o lugar. É nos lugares que se forma a experiência humana, acumulada e compartilhada; seu sentido é elaborado, assimilado e negociado (RELPH, 1976; BAUMAN, 2005). Segundo Bauman (2005), é graças aos lugares que os desejos se desenvolvem e ganham forma, alimentados pela esperança de se realizarem, mas também pelo risco da decepção e da alienação do espaço, o que acontece, de fato, na maioria das vezes.
Para Frémont (1980), a “alienação do espaço” ou a “inadaptação dos homens ao espaço” é um problema que reflete a falta de equilíbrio nas relações das pessoas com o espaço, pois a alienação esvazia progressivamente o espaço de seus valores, reduzindo-o a uma soma de lugares regulados pelos mecanismos da apropriação, do condicionamento e da reprodução social.
Segundo Tuan (2003), o conforto é, sem dúvida, um componente da boa vida, do bem viver. Para ele, o significado de conforto pode estar relacionado à facilidade, à satisfação, à segurança e, talvez, também a um toque de luxo. Contudo, a vida simples também pode fornecer imagens de conforto. Para os entrevistados, a sensação de conforto está diretamente ligada a um espaço organizado e arborizado, como pode ser observado na nuvem de palavras (Figura 5).

O senso comum, observado no DSC sobre o que desperta conforto:
Um lugar seguro e tranquilo, com boa infraestrutura, área verde com árvores para descansar sob a sombra, com paisagismo bem cuidado, limpo e organizado, com mobiliários conservados e adequados para sentar e interagir; um lugar agradável para ouvir música, comer ou fazer um piquenique.” (DSC, entrevistados)
Jane Jacobs (2011) ressalta o quanto as áreas verdes são perseguidas e veneradas por planejadores ortodoxos. Em comum, almejam mais áreas livres para melhorar um projeto na cidade, para avançar nos códigos de zoneamento progressistas e para revitalizar bairros desvitalizados. Contudo, não há sentido em ter mais áreas livres se não são utilizadas apenas por estarem disponíveis, ainda que essa seja a vontade dos planejadores. É preciso maior parcimônia, pois a distribuição não planejada de praças e parques pode criar áreas em desuso, além de onerar os cofres públicos com mais manutenção, em vez de revitalizar os espaços públicos existentes.
É necessário saber o que atrai as pessoas aos espaços públicos e o que as motiva a sair de casa para passear ou frequentar diversos lugares pela cidade, sendo o conforto a chave para a compreensão dessa motivação.
Em geral, o principal aspecto de atratividade está na arborização, no paisagismo ou em qualquer referência à natureza. É o que todos esperam de um parque, de uma praça ou mesmo da rua e o que desperta o sentimento de felicidade (Figura 6) nos sujeitos sociais ao experienciar um espaço público, seguido da manutenção, aspecto esse que lhes confere a percepção de cuidado, limpeza, segurança além de uma bela paisagem a ser contemplada.

O município de Porto Velho é quente e úmido e a consciência da necessidade de arborizar a cidade por parte da população é perceptível nas na intensidade das expressões-chaves coletadas sobre o que traz felicidade em um espaço público.
“Muita arborização, espaços com muitas sombras e lugares para sentar; Árvores, gramas, bancos para sentar, espaços para crianças brincar, lixeiras e banheiros disponíveis; Lugar agradável bem arborizado, onde pudesse caminhar em segurança, respirar uma brisa gostosa; Parques com bastante vegetação, área de caminhadas, espaços para pequenas refeições como piquenique; Árvores e plantas com flores coloridas e espaços adequados e limpos para sentar sozinho ou em grupo; Plantas, folhas e natureza para minimizar o calor.”(DSC entrevistados)
O DSC reflete o que Thompson (2002) já havia discutido, sobre o que se esperar dos espaços abertos no século XXI, sendo eles necessariamente diversos, multifuncionais, mas ao mesmo tempo servir como refugio e contato com a natureza, conectados a uma rede de espaços abertos pelas cidade, sendo necessário elaboração de planos para definir visões artísticas, espaços com funções específicas e parques organizados, seguros e decorativos que ofereçam igualdade de acesso para todos.
A busca pela natureza pode ser observada na praça do Cohab (figura 7), onde em plena às quinze horas grupos de jovens papeiam sob a sombra das árvores frondosas do tipo ficus, de raízes agressivas, mas de um sombreamento agradável.

No CEDEL - Centro de Desporto e Lazer do bairro Ulisses Guimarães, Dona Maria e Seu José (figura 8) descansam nas cadeiras que retiraram de suas casas em uma tarde ensolarada à sombra da Mangueira que fica logo em frente a sua residência, do outro lado da rua.

Conforme observado por Thompson (2002, p. 65), “para muitas pessoas em cidades, o parque é um lugar onde a natureza pode ter uma dimensão metafísica ou espiritual”. Nesse sentido, a atratividade de um lugar também pode ser atribuída, na opinião dos sujeitos sociais, aos mobiliários urbanos, pois são fatores que influenciam na permanência, em virtude da possibilidade de descanso, relaxamento, interação e, principalmente, no auxílio à manutenção da limpeza.
“Um local para sentar o apreciar o momento; Um espaço em que as pessoas possam fluir de forma tranquila e sem maiores problemas, que possua um esquema de organização das cores que me faça sentir relaxado e também um bom sistema de coleta e organização do lixo que é produzido ao longo da utilização daquele espaço; Bancos curvos para interação que transmite sensação de troca de olhares, quadras de esportes, arborização pivotante que não danifica a calçada, que aborde a acessibilidade; Segurança, espaço verde, animais livres, mobiliários urbanos acolhedores e estimulantes”(DSC entrevistados)
Segundo Jan Gehl (2013) o desenho das cadeiras e bancos urbanos também influem no conforto, assim como o material e suas propriedades de isolamento e impermeabilidade. Infelizmente ao ver uma praça de Porto velho saberá a configuração das demais, com mobiliários de mesmo material , mesmo desenho e mesma cor. A falta de identidade cultural da cidade, bairro ou de espaços públicos podem influenciar na falta de interesse em usufruí-los, não dando o destaque que merecem. No caso de parquinhos infantis, um dos aspectos que mais agrada o público feminino em termos de demanda são os aspectos de qualidade e segurança. Para as entrevistadas, a falta de ludicidade e manutenção tornam esses mobiliários alvos de depredação, tornando a praça, em um contexto familiar, menos atrativo, ampliando cada vez mais a sensação de abandono e insegurança em um espaço público (figura 9).

1. Praça do Cohab (2021); 2 – Campo do Abobrão (2021); 3 – Praça Mariana (2019); 4 – Praça do Ronaldo Aragão (2019)
Fonte: Mosaico de praças com parquinho e a ausência de identidade, Porto Velho-Rondônia, Acervo pessoal, outubro, 2020.Jan Gehl (2013), afirma que ficar parado em pé, é tipicamente uma atividade de curta duração, mas o que fazer quando se quer ficar em um espaço público mas não há onde se sentar? Na maioria das praças do município o cenário de depredação é o mesmo (figura 10). A falta de retorno do poder público em realizar os reparos, só aumenta a descredibilidade e a sensação de ineficiência em promover ações de revitalização física e cultural desses espaços de lazer.

1 e 2 – Praça Campos Sales; 3 – Praça Ronaldo Aragão; 4 – Praça Marechal Rondon
Fonte: Acervo pessoal, outubro, 2020Para Bauman (2009), a insegurança moderna, em suas várias manifestações, é caracterizada como o medo do crime e dos criminosos, sendo consequência do individualismo moderno, no qual os enclaves fortificados ou guetos voluntários fortalecem a mixofobia, isto é, o medo do diferente e do contraditório, reforçando a necessidade de espaços segregados por classes sociais.
Nesse sentido, ao realizar a nuvem de palavras sobre “segurança” (Figura 11), observou-se que o policiamento é um dos principais fatores que motivam a utilização de um espaço e transmitem a sensação de segurança, afastando “estranhos”.

A cidade é um mundo de estranhos; contudo, é natural que as pessoas se associem com sua própria espécie: família, parentes e vizinhos. Ainda assim, ela também pode oferecer amigos, conhecidos e estranhos. Jane Jacobs (2011) afirma que, em geral, reforça-se o potencial para uma cidade segura quando mais pessoas se movimentam e permanecem nos espaços urbanos, o que também se constatou na nuvem de palavras.
Para ela, uma cidade que convida as pessoas a caminhar, por definição, deve ter uma estrutura razoavelmente coesa, que permita curtas distâncias a pé, espaços públicos atrativos e uma variedade de funções urbanas. Esses elementos contribuem para aumentar a atividade e o sentimento de segurança dentro e fora dos espaços urbanos. Sendo assim, a socióloga afirma que uma rua movimentada consegue garantir a segurança, mas uma rua deserta, não.
Nesse sentido, observou-se, na nuvem de palavras (Figura 12), que a violência urbana, a falta de iluminação, a má conservação e a existência de lugares ermos são os principais aspectos que contribuem para a sensação de medo em um espaço público.

O medo é sinônimo de insegurança e, em alguns relatos, o medo da violência urbana é relacionado à ausência de policiamento. A relação entre a presença de estranhos, furtos e drogas também é recorrente, uma vez que, na concepção dos entrevistados, a ausência de policiamento abre espaço para o surgimento de pontos de drogas e inibe a permanência ou a visitação de lugares na cidade, como descrito nos relatos abaixo.
“Homens se aproximando em lugar mais isolado, pois tem muito assalto; a falta de segurança pública, seguida do medo de roubo. Os espaços públicos sofrem pela falta de policiamento ostensivo, o que acaba por torná-los áreas de venda de drogas e outros problemas aos quais a violência traz; presença de usuários de drogas e lugares ermos; lugar muito isolado. Ausência de policiamento e/ou monitoramento; a falta de segurança, sentimento de estar alerta o tempo inteiro, esconder as coisas, não confiar em ninguém; a violência na cidade e, como não há seguranças próximos, não dá para ficar tão à vontade. Esse é um dos motivos pelos quais não gosto mais de ficar no centro da cidade.” (DSC, entrevistados)
Outro fator observado é a relação entre lugares isolados e a falta de iluminação, que geram sensação de insegurança e desconforto, pois a ausência de iluminação e de policiamento facilita as ações de violência urbana.
“Falta de segurança, iluminação e quando ele não é utilizado, porque se torna um local inseguro, com uso de drogas ilícitas e propenso à violência e a assaltos; falta de iluminação e poucas pessoas no local. Acho que o medo vem mais da atual sociedade em que vivemos, onde a desigualdade social gera marginalização e a criminalidade nos deixa inseguros em qualquer lugar público por onde passemos (seja ao andar na rua ou em uma praça); a falta de iluminação atrai pessoas que usam drogas à noite, e o uso da praça por essas pessoas torna o local inóspito, transformando-o futuramente em um espaço inseguro e despertando medo nas pessoas; falta de iluminação e segurança pública, por conta da criminalidade. Meu pai já foi assaltado caminhando na praça do skatepark à noite, antes de ela ser reformada e ficar bonita.” (DSC, entrevistados)
Há algumas características principais que contribuem para a redução do medo do crime e melhoram a sensação de segurança. Primeiro, é preciso haver uma separação clara entre o espaço público e o privado, o que afasta utilizadores ilegítimos; ter permeabilidade visual é importante para ampliar a percepção de que o indivíduo pode ser visto, estimulando os “olhos da rua” ou o “autopatrulhamento”; por último, é fundamental manter a conservação e uma imagem positiva do ambiente, emitindo sinais positivos aos cidadãos. Trata-se da teoria da janela quebrada, que sugere que a deterioração de uma área segue uma determinada sequência de eventos: ao se intervir menos na manutenção da ordem pública, o espaço torna-se mais suscetível ao vandalismo e ao medo. Por isso, manter um lugar sempre em bom estado é tão importante para a preservação da sensação de conforto e segurança (JACOBS, 2011; MOFFATT, 1983).
Por outro lado, o medo atribuído ao espaço público durante a pandemia ganhou outra perspectiva, o isolamento trouxe grandes consequências psicológicas para parte da população, como insônia, ansiedade, medo, estresse, depressão e angústia que, psicossomatizados, afetaram o bem-estar físico e aumentaram a sensação de insegurança. Alterações comportamentais ligadas ao medo, como o receio de ser contaminado, de morrer, de precisar de UTI ou de perder um amigo ou familiar, tornaram-se frequentes.
Para Hall (1989), o ser humano percebe o espaço através de uma síntese de receptores sensoriais, e o confinamento prolongado em ambientes residenciais saturou a distância íntima, gerando uma espécie de "fome sensorial" pela amplitude visual e olfativa que apenas o ambiente externo oferece. Nesse período, as praças funcionaram como pulmões antropológicos: elas permitiram que o indivíduo restabelecesse sua distância social e pública de forma segura, combatendo a desorientação espacial causada pelo isolamento e reafirmando que a experiência humana exige a interação, ainda que mediada pelo distanciamento físico, com o entorno construído e com o "outro" coletivo.
Tanto o isolamento voluntário quanto o involuntário despertaram sensações de sofrimento, solidão, tristeza e agonia, contribuindo para a piora de quadros depressivos. A necessidade de realizar atividades físicas em ambientes públicos, como academias, parques e praças, ou mesmo de ver pessoas diferentes, sair da rotina e poder tocar o outro — sentir o abraço e o aperto de mão, hábitos de proximidade, intimidade e confiança, respectivamente — abalou o emocional da maioria dos entrevistados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo buscou compreender os sentimentos atribuídos aos espaços públicos pela população de Porto Velho durante a pandemia por COVID-19, entre 2020 e 2022, revelando que a relação entre os sujeitos sociais e os lugares é profundamente marcada por dimensões afetivas, culturais e sensoriais que a crise sanitária tornou ainda mais evidentes.
A análise do Discurso do Sujeito Coletivo, articulada à perspectiva fenomenológica e às nuvens de palavras, permitiu identificar que os sentimentos topofílicos emergem, sobretudo, quando o espaço público oferece arborização, manutenção, iluminação, mobiliário urbano adequado e sensação de segurança. Em contrapartida, os sentimentos topofóbicos são despertados pela ausência de policiamento, pela precariedade da infraestrutura e pela presença de elementos associados à violência urbana e ao abandono do poder público. Essa dualidade revela que o espaço público em Porto Velho ocupa um lugar ambíguo no imaginário coletivo: desejado como extensão da vida social e do bem-estar, mas frequentemente experimentado como território de risco e insegurança.
A pandemia aprofundou essa ambiguidade. O isolamento social imposto pela COVID-19 não apenas restringiu o acesso aos espaços públicos, mas também ressignificou sua importância: praças e parques, antes percebidos como insuficientes ou degradados, passaram a ser reconhecidos como espaços vitais para a saúde física, mental e emocional. A privação do contato com o ambiente externo e com o outro coletivo evidenciou o papel insubstituível dos espaços públicos na manutenção da sociabilidade urbana e do sentimento de pertencimento ao lugar.
Cabe reconhecer que esta pesquisa apresenta limitações inerentes ao seu percurso metodológico. A coleta virtual, imposta pelas restrições sanitárias, resultou em uma amostragem por conveniência com predominância de respondentes da Zona Leste de Porto Velho e do grupo etário entre 20 e 45 anos, o que limita a representatividade espacial e etária dos discursos coletados. Além disso, a subjetividade inerente ao DSC, embora metodologicamente controlada, não esgota a complexidade das experiências individuais com o espaço.
Ainda assim, os resultados aqui apresentados oferecem contribuições concretas ao planejamento urbano de Porto Velho. A demanda por arborização, por mobiliário funcional e por policiamento ostensivo, recorrente nos discursos coletados, aponta para a urgência de políticas públicas que não tratem os espaços de lazer como elementos acessórios da cidade, mas como infraestrutura essencial à qualidade de vida e à coesão social. Nesse sentido, a escuta dos sujeitos sociais — metodologia central deste trabalho — deve ser compreendida como etapa indispensável de qualquer processo de revitalização ou criação de espaços públicos.
Por fim, este estudo abre caminho para pesquisas futuras que aprofundem a análise comparativa entre zonas urbanas, que incorporem grupos etários sub-representados — como idosos e crianças — e que investiguem a permanência ou transformação dessas percepções no período pós-pandemia, quando a cidade retomou seu ritmo, mas os sentimentos centrifugados pelo isolamento continuam a moldar, silenciosamente, a forma como os habitantes de Porto Velho habitam e sentem seus lugares.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAUMAN, Zygmunt, Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
BAUMAN, Zygmunt, Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.
FRÉMONT, A. A região, espaço vivido. Coimbra: Livraria Almedina, 1980.
GEHL, J. Cidades para pessoas. São Paulo: Perspectiva, 2013.
HALL, E. T. A dimensão oculta. 3.ed. Rio de Janeiro: F. Alves, 1989.
JACOBS, J. Morte e vida de grandes cidades. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
LEE, A. C. K.; MAHESWARAN R. The health benefits of urban green spaces: a review of the evidence. J Public Health (Oxf). ;v. 33, n. 2, p. 212-222, 2011.
LEFÈVRE, F.; LEFÈVRE, A. M. C.; TEIXEIRA, J. J. V. O discurso do sujeito coletivo: uma nova abordagem metodológica em pesquisa qualitativa. Caxias do Sul: EDUCS, 2000.
MOFFATT, R. E. Crime prevention through environmental design: A management perspective. Canadian Journal of Criminology, 25(1), 19–31 (1983).
RELPH, E. Place and placelessness. London: Pion, 1976.
RELPH, E. Reflexões sobre a emergência, aspectos e essência de lugar. In: MARANDOLA JR, E.; HOLZER, W.; OLIVEIRA, L. (org.) Qual o espaço do lugar? Geografia, Epistemologia, Fenomenologia. São Paulo: Perspectiva, 2012. p. 17-32.
THOMPSON, C. W. Urban open space in the 21st century. Landscape and Urban. v. 60, n. 2, p. 59-72, July 2002. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0169204602000592. Acesso em: 15 nov. 2021.
TUAN, Yi-Fu. Geografia Humanística. In: CHRISTOFOLETTI, Antônio (Org.). Perspectivas da Geografia. São Paulo: Difel, 1982. p. 143-164.
TUAN, Yi-Fu. The good life. [s.l] University of Wisconsin Press, 2003
TUAN, Yi-Fu. Paisagens do Medo. São Paulo: UNESP, 2005.
TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Londrina: Eduel, 2012.
TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a Perspectiva da experiência. Londrina: Eduel, 2013.

