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Espaço de Memória: A casa de Chico Mendes
Ememory space: Chico Mendes' House
Espacio de Memória: Casa de Chico Mendes
Revista Presença Geográfica, vol. 13, núm. 1, 2026
Fundação Universidade Federal de Rondônia

Revista Presença Geográfica
Fundação Universidade Federal de Rondônia, Brasil
ISSN-e: 2446-6646
Periodicidade: Frecuencia continua
vol. 13, núm. 1, 2026

Recepção: 17 Outubro 2025

Aprovação: 26 Janeiro 2026

Resumo: Este artigo analisa a Casa de Chico Mendes como espaço de memória, resistência e identidade dos povos das florestas no Acre. Partindo do conceito de memória coletiva e do direito à memória, discute-se o papel social desses espaços na preservação das narrativas de luta dos seringueiros e na valorização do patrimônio cultural material e imaterial. Apesar do tombamento federal pelo IPHAN, a Casa de Chico Mendes enfrenta processos de abandono e sucateamento, evidenciando fragilidades nas políticas públicas de preservação e gestão dos espaços de memória. A pesquisa adota abordagem fenomenológica e metodologia de estudo de caso, buscando compreender o significado simbólico, social e cultural da casa para as comunidades locais. A análise é orientada pelos conceitos de Stuart Hall sobre memórias do passado, desejo por viver em conjunto e perpetuação da herança, permitindo compreender a Casa de Chico Mendes como paisagem cultural viva e multissensorial. Os resultados indicam que a negligência na preservação compromete não apenas o patrimônio físico, mas também a memória coletiva e as possibilidades de fortalecimento do turismo cultural e educacional. Defende-se a necessidade de políticas públicas contínuas, gestão participativa e envolvimento das comunidades da floresta na preservação do espaço, de modo a garantir a continuidade do legado de Chico Mendes e das lutas socioambientais na Amazônia.

Palavras-chave: Espaços de memória, Casa de Chico Mendes, Povos da floresta, Patrimônio cultural, Turismo cultural..

Abstract: This article analyzes the Casa de Chico Mendes as a space of memory, resistance and identity of forest peoples in Acre. Based on the concept of collective memory and the right to memory, the social role of these spaces in the preservation of the narratives of the struggle of rubber tappers and in the appreciation of material and immaterial cultural heritage is discussed. Despite the federal listing by IPHAN, the Casa de Chico Mendes faces processes of abandonment and scrapping, evidencing weaknesses in public policies for the preservation and management of memory spaces. The research adopts a phenomenological approach and case study methodology, seeking to understand the symbolic, social and cultural meaning of the house for local communities. The analysis is guided by Stuart Hall's concepts of memories of the past, desire to live together and perpetuation of heritage, allowing us to understand the Casa de Chico Mendes as a living and multisensory cultural landscape. The results indicate that negligence in preservation compromises not only the physical heritage, but also the collective memory and the possibilities of strengthening cultural and educational tourism. It defends the need for continuous public policies, participatory management and involvement of forest communities in the preservation of space, in order to ensure the continuity of the legacy of Chico Mendes and the socio-environmental struggles in the Amazon.

Keywords: Memory spaces, Chico Mendes House, Forest peoples, Cultural heritage, Cultural tourism..

Resumen: Este artículo analiza la Casa de Chico Mendes como un espacio de memoria, resistencia e identidad de los pueblos del bosque en Acre. Basándose en el concepto de memoria colectiva y el derecho a la memoria, se discute el papel social de estos espacios en la preservación de las narrativas de la lucha de los recolectores de caucho y en la apreciación del patrimonio cultural material e inmaterial. A pesar de la inclusión en la lista federal por parte de IPHAN, la Casa de Chico Mendes se enfrenta a procesos de abandono y desmantelamiento, lo que evidencia debilidades en las políticas públicas para la preservación y gestión de los espacios de memoria. La investigación adopta un enfoque fenomenológico y una metodología de estudio de caso, buscando comprender el significado simbólico, social y cultural de la casa para las comunidades locales. El análisis está guiado por los conceptos de Stuart Hall sobre los recuerdos del pasado, el deseo de convivir y la perpetuación del patrimonio, lo que nos permite entender la Casa de Chico Mendes como un paisaje cultural vivo y multisensorial. Los resultados indican que la negligencia en la preservación compromete no solo el patrimonio físico, sino también la memoria colectiva y las posibilidades de fortalecer el turismo cultural y educativo. Defiende la necesidad de políticas públicas continuas, gestión participativa y la participación de las comunidades forestales en la preservación del espacio, con el fin de garantizar la continuidad del legado de Chico Mendes y las luchas socioambientales en la Amazonia.

Palabras clave: espacios de memoria, Casa Chico Mendes, Pueblos del bosque, patrimonio cultural, Turismo cultural..

INTRODUÇÃO

Os espaços de memória desempenham um papel social fundamental ao sinalizarem os processos históricos e cotidianos das comunidades, além de destacarem as dinâmicas de resistência e as lutas locais. A Casa de Chico Mendes é um exemplo emblemático desse tipo de espaço, representa a mobilização social dos trabalhadores da floresta, que conseguiram articular uma resistência significativa para defender seu direito à terra.

No entanto, mesmo após a Portaria nº 134 de abril de 2016, que trata do entorno e da Casa de Chico Mendes, e do processo de tombamento federal realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o local ainda enfrenta dificuldades para se manter preservado e acessível ao público. A casa segue como um símbolo da luta pelas florestas e das vozes que continuam sendo silenciadas.

A etimologia da palavra “memória” remete ao grego mnêmēn, relacionado à deusa Mnemosyne, que presidia a função de preservar o passado. A memória, nesse contexto, serve para manter viva a história, como o poço de Mnemosyne, que trazia os mortos de volta à lembrança de suas vidas, em oposição ao poço de Lethe, que os fazia esquecer (Silva, 2006). Este conceito de memória é essencial em diversas abordagens cotidianas, incluindo questões de direitos humanos e saúde, e se torna ainda mais relevante quando se trata da memória coletiva de grupos marginalizados.

O direito à memória, tanto individual quanto coletivo, é um princípio fundamental para grupos que sofreram violência. Ao relembrar os fatos históricos, esses grupos reivindicam não apenas o reconhecimento do sofrimento passado, mas também a implementação de ações que evitem novas violações. Os espaços de memória são locais de resistência, onde as narrativas dos que foram silenciados podem ser resgatadas e compartilhadas com as futuras gerações. A preservação desses locais é crucial para manter vivas essas histórias e fortalecer a identidade coletiva (Freire-Medeiros & Lages, 2020).

Contudo, muitos desses espaços enfrentam o risco do sucateamento, o que pode ser visto como uma forma de silenciamento das vozes que representam lutas sociais, como é o caso da Casa de Chico Mendes. A preservação de espaços como esse não apenas reforça a memória histórica, mas também serve como um alerta contra o esquecimento e o apagamento dessas narrativas de resistência.

Este artigo pretende discutir as dificuldades enfrentadas na preservação da Casa de Chico Mendes. O principal foco da análise será entender se essa dificuldade está relacionada à falta de políticas públicas eficazes, à desvalorização dos espaços de memória ou ao próprio sucateamento desses locais. Para isso, será importante refletir sobre quem se beneficia da manutenção ou destruição desses espaços e quais os entraves que impedem a preservação de narrativas de movimentos sociais e de lutas de classe.

A CASA DE CHICO MENDES

O Acre faz parte da Amazônia Legal e é um estado brasileiro que faz fronteira com a Bolívia e o Peru. A região possui a Estrada do Pacífico, que conecta o Brasil a esses dois países, e foi vista por algum tempo como uma rota importante para integrar e atrair turistas internacionais. Apesar do potencial, a oferta turística no Acre ainda é limitada e, quando existente, não atende ao público que busca uma experiência genuína na Amazônia acreana. Essa região, marcada pela luta e mobilização dos povos das florestas, possui um grande valor histórico e cultural, mas ainda carece de uma infraestrutura adequada.

O turismo, antes de ser uma atividade econômica, tem um compromisso social com as comunidades locais. Quanto mais se investiga os fenômenos sociais, culturais e ambientais, mais próximo se chega da construção de um turismo saudável, que respeite os direitos das comunidades receptoras (Panosso & Trigo, 2009). No entanto, no Brasil, o turismo pode ser estruturado por qualquer pessoa, sem o devido rigor e sem considerar os impactos ambientais, sociais e culturais que a atividade pode causar. Esse descompasso tem gerado danos em várias regiões, incluindo o Acre.

Em Rio Branco, a capital do estado, houve um foco em reformas e na recuperação de prédios públicos com fins turísticos, incluindo a criação de pousadas temáticas que destacam a identidade acreana, seringueira e indígena. Além disso, o Acre foi o único estado da região Norte a ser incluído no programa de roteirização do Ministério do Turismo. Contudo, muitos desses projetos são planos políticos, que mudam conforme as gestões, sem continuidade ou comprometimento com políticas públicas eficazes. O que vemos, na prática, é o sucateamento de espaços de memória, como a Casa de Chico Mendes.

A Casa de Chico Mendes, uma propriedade dos herdeiros de Chico Mendes, sua esposa e filhos, enfrenta dificuldades financeiras para se manter aberta ao público. Recentemente, a estrutura da casa foi reparada, mas ela continua a ser vulnerável às forças da natureza, especialmente em períodos de alagação, devido à sua localização às margens do Rio Acre. Esse cenário de abandono e sucateamento dos espaços de memória levanta questões cruciais: o que significa esse descaso para os povos das florestas? E como o turismo cultural e educacional, que poderia ser uma ferramenta poderosa para preservar a memória e identidade local, se vê impactado por essa negligência?

Ao refletirmos sobre a importância da preservação desses espaços de memória, é útil recorrer aos conceitos de Stuart Hall (2006), que exploram a relação entre a memória coletiva e a identidade. Hall, em sua análise, nos fala sobre três aspectos essenciais para compreender o papel da memória na sociedade: as memórias do passado, o desejo por viver em conjunto e a perpetuação da herança. Esses conceitos ajudam a entender por que a Casa de Chico Mendes, como espaço de memória, é essencial para a construção de uma identidade coletiva da região.

As memórias do passado, no caso da Casa de Chico Mendes, não são apenas lembranças de um líder ambientalista, mas representam a luta contínua das comunidades das florestas pela preservação de seus direitos territoriais e pela valorização de suas culturas. Essa luta, que vem de gerações passadas e se estende ao presente, é parte integrante da identidade não apenas dos povos da floresta, mas também dos citadinos que, de alguma forma, compartilham dessa história.

O desejo por viver em conjunto, presente no trabalho coletivo, nas manifestações sindicais e nas formas de organização social das comunidades, se reflete também na maneira como o turismo pode ser uma ferramenta de integração. A valorização de espaços como a Casa de Chico Mendes poderia não só preservar essa memória, mas também proporcionar uma forma de diálogo entre as diversas partes da sociedade, promovendo o entendimento mútuo e a cooperação para que o turismo se torne uma prática respeitosa e verdadeiramente integrada. Para isso, é necessário que ele seja conduzido de maneira que priorize os direitos das comunidades locais, em vez de contribuir para o seu esvaziamento ou silenciamento.

Por fim, a perpetuação da herança de Chico Mendes não se limita à preservação física de sua casa, mas ao legado de sua luta e dos povos da floresta. A preservação da Casa de Chico Mendes é, portanto, uma forma de garantir que as gerações futuras possam continuar a contar e ouvir as histórias dessa luta. Essa perpetuação depende não só da manutenção do espaço físico, mas também de uma ação contínua e coordenada de políticas públicas, da sociedade civil e dos gestores locais, que precisam reconhecer a importância dessa herança para o fortalecimento da identidade coletiva da região.

Para enfrentar esse problema, é essencial que as políticas públicas se comprometam com a preservação desses espaços. Isso inclui não apenas a recuperação física da casa, mas também a implementação de uma gestão contínua que envolva as comunidades locais e a sociedade civil. A criação de um programa de turismo cultural que respeite e valorize a história da região poderia ser uma forma de garantir que a Casa de Chico Mendes seja mantida aberta e acessível. Além disso, a participação ativa das gestões locais e regionais, junto com o apoio da sociedade civil, é crucial para que esse patrimônio seja protegido e valorizado de forma sustentável.

ABORDAGEM METODOLÓGICA E O TURISMO

Este estudo se orienta pela fenomenologia, uma abordagem que busca compreender a essência das experiências vividas pelos indivíduos e coletividades, levando em consideração não apenas o espaço físico da Casa de Chico Mendes, mas também o uso simbólico e social que a comunidade atribui a esse local. A redução fenomenológica, conforme discutido por Bello (2004), é fundamental para penetrarmos na experiência e no sentimento dos envolvidos, permitindo uma compreensão mais profunda da interação entre a casa e a comunidade. Este processo de redução permite que possamos estudar o fenômeno de forma a entender o que ele significa para as pessoas que vivem a memória de Chico Mendes no cotidiano.

A pesquisa segue a metodologia do estudo de caso, como descrito por Marujo (2016, p. 124), que é amplamente utilizada no campo do turismo. O estudo de caso permite uma análise profunda e detalhada do fenômeno, permitindo compreender a sua evolução, os contextos que o envolvem e as suas implicações. Ao focar na Casa de Chico Mendes, a pesquisa não se limita ao espaço material, mas busca entender o significado social, cultural e histórico do local para as comunidades locais. O turismo, nesse caso, é compreendido como um fenômeno que vai além da mera atividade econômica, sendo também uma forma de expressar e preservar as vivências das comunidades que têm nesse espaço uma referência de luta e resistência.

A abordagem metodológica está dividida em três momentos, cada um apoiado nos conceitos de Hall (2006), que nos ajudam a entender melhor as dimensões simbólicas da Casa de Chico Mendes e sua relação com as comunidades. No primeiro momento, a pesquisa busca explorar as memórias do passado, levantando informações sobre o período anterior à morte de Chico Mendes e a organização social dos seringueiros. A Casa de Chico Mendes, enquanto espaço de memória, carrega consigo as vivências e as histórias dessas comunidades, que foram, e ainda são, protagonistas de uma luta constante por seus direitos territoriais e pela preservação da floresta.

O segundo momento foca no conceito de Hall de desejo por viver em conjunto, explorando como o processo de tombamento da casa, tanto em nível federal quanto estadual, pode facilitar o usufruto pelas comunidades locais. O tombamento representa um reconhecimento oficial do valor histórico e cultural da casa, mas sua implementação e as ações subsequentes devem considerar as necessidades das comunidades que lutam por sua preservação e pela utilização do espaço para fortalecer sua identidade e sua voz. A Casa de Chico Mendes, como um ponto de referência e resistência, deve ser acessível àqueles que precisam dela para fortalecer seus laços sociais, culturais e políticos.

O terceiro momento da pesquisa está centrado no conceito de Hall de perpetuação da herança, compreendendo que o patrimônio deve, em primeiro lugar, atender às necessidades das comunidades locais, funcionando como um espaço de voz para aqueles que historicamente foram silenciados. A Casa de Chico Mendes deve ser preservada não apenas como um objeto de memória material, mas como um elo entre o passado e o presente, que fortalece a identidade das comunidades que ainda hoje lutam pelos direitos da floresta e pela continuidade de suas tradições. Este espaço deve funcionar como um ponto de encontro para discutir questões sociais, culturais e ambientais que afetam diretamente essas comunidades, reforçando a importância da organização social e sindical dos povos das florestas.

Apesar da importância simbólica e social da Casa de Chico Mendes, o abandono e o sucateamento desse espaço de memória refletem a negligência em relação às demandas das comunidades locais. Esse abandono não só compromete a preservação de um patrimônio material, mas também enfraquece a memória coletiva dos povos tradicionais, que dependem desse espaço para afirmar sua identidade e fortalecer sua luta. O estado precário da Casa de Chico Mendes, evidenciado pela dificuldade de sua manutenção pelos herdeiros de Chico, representa uma falha nas políticas públicas de preservação, mas também uma falha na valorização do patrimônio imaterial e da memória dos povos da floresta.

A negligência em relação à Casa de Chico Mendes tem implicações profundas para o turismo cultural e educacional da região. A Casa, que poderia ser um ponto de visitação e educação para turistas e locais, é, na realidade, um espaço negligenciado e muitas vezes inacessível. O turismo cultural, que poderia ser uma forma de promover a história e a luta dos povos da floresta, acaba se tornando uma oportunidade perdida. A falta de políticas públicas eficazes para a manutenção do espaço de memória compromete não só o patrimônio histórico, mas também as possibilidades de fortalecimento da identidade cultural e social da região.

Diante desse cenário, é necessário pensar em soluções práticas e viáveis para garantir que a Casa de Chico Mendes continue cumprindo seu papel de memória e resistência. Isso inclui a criação de políticas públicas específicas para a preservação de espaços de memória, o fortalecimento do turismo cultural com a participação das comunidades locais na gestão e a busca por parcerias que permitam a manutenção da casa de forma sustentável. A preservação da Casa de Chico Mendes não é apenas uma questão de conservação de um edifício histórico, mas de garantir que as vozes das comunidades da floresta continuem a ser ouvidas e valorizadas, não apenas no presente, mas também no futuro.

A CASA DE CHICO DE MARIA, RAIMUNDAS E RAIMUNDOS A CASA DA FLORESTA

A Casa de Chico Mendes é um espaço simbólico, erguido em madeira simples, com as margens do rio Acre a seus pés. Sua estrutura modesta, com piso de madeira encerado, uma janela na parte da frente e uma porta que dá acesso à sala, remete à vida cotidiana das famílias seringueiras. A casa, de tamanho pequeno, reflete a simplicidade da vida na floresta. Um detalhe interessante é o banheiro localizado fora da casa, acessado por uma escada na parte externa, algo muito comum nas casas daquela época, especialmente em zonas rurais. Esse ambiente simples, mas acolhedor, está imerso em uma memória histórica e social profunda.

Embora a casa de Chico Mendes seja um espaço físico, ela carrega consigo um significado muito além de suas paredes. Chico Mendes, embora não tenha nascido ali, representa, através de sua luta e vida, a resistência e a organização dos povos da floresta. Nascido seringueiro, Chico se engajou em um movimento de resistência em defesa dos direitos dos trabalhadores das florestas. Diante das adversidades enfrentadas por essas famílias e pela pressão sobre seus territórios, ele organizou a luta dos seringueiros e fundou a Aliança dos Povos da Floresta, um movimento que ganhou repercussão nacional e internacional (Stélia Castro, 2014; Alegretti, 2002). Sua morte, em 1988, não silenciou a sua voz, que continua a ecoar através das lutas pelas Reservas Extrativistas e pela preservação da floresta.

A casa de Chico, apesar de sua importância simbólica, tem enfrentado desafios significativos em termos de preservação. A família de Chico, embora recebendo apoio emocional de amigos e aliados, tem enfrentado dificuldades financeiras e logísticas para manter o espaço aberto ao público. A estrutura da casa está sujeita à constante deterioração, com danos causados pelas intempéries e pela falta de manutenção adequada. Sem políticas públicas eficazes para sua conservação, o espaço se vê ameaçado pelo abandono, o que compromete a continuidade do legado de Chico e o potencial da casa como um ponto de memória e resistência.

A relação entre a simplicidade da casa e a vida de luta dos povos da floresta é profundamente simbólica. Sua construção simples, com materiais locais, reflete a resistência e a adaptação ao meio ambiente, características centrais na vida dos seringueiros e das comunidades da floresta. Essa simplicidade, no entanto, não diminui a importância do espaço. Pelo contrário, ela reforça o significado da casa como um local de memória e como ponto de resistência cultural e política.

A preservação da casa de Chico Mendes oferece uma oportunidade única para o turismo cultural e de memória. Ela não é apenas um edifício histórico, mas um espaço que carrega as lutas e as histórias de um movimento social fundamental para a história da Amazônia. A Casa de Chico Mendes pode se tornar um centro de educação patrimonial, onde os visitantes podem aprender sobre a história do movimento seringueiro, a luta pela preservação da floresta e o impacto da morte de Chico na conscientização ambiental global. O turismo cultural poderia contribuir para a valorização da memória dos povos da floresta, ao mesmo tempo em que oferece aos visitantes uma experiência autêntica e educativa sobre a realidade local.

Entretanto, a falta de políticas públicas para garantir a preservação desse espaço tem sido um obstáculo significativo. A casa, embora simbólica, não recebe o apoio necessário para ser mantida aberta e em boas condições. Os herdeiros de Chico Mendes, sua esposa e filhos, enfrentam dificuldades financeiras para arcar com os custos de manutenção da casa, o que impede que o espaço seja usado de forma plena como um local de memória e resistência. A ausência de uma gestão pública eficiente e de investimentos adequados tem resultado em um ciclo de degradação do patrimônio.

Para evitar o abandono da Casa de Chico Mendes e garantir que ela continue a cumprir seu papel como um espaço de memória e educação, é essencial que se adotem medidas práticas de preservação. Uma alternativa seria a criação de parcerias entre o governo federal, estadual e organizações não governamentais (ONGs) para implementar programas de restauração e manutenção do espaço. Além disso, poderia ser estabelecido um programa de turismo comunitário, em que as comunidades locais participem da gestão do espaço, garantindo que os benefícios econômicos do turismo sejam reinvestidos na preservação do patrimônio.

Outras iniciativas, como a criação de um fundo específico para a manutenção de espaços de memória da luta ambiental, poderiam ser uma forma eficaz de garantir a sustentabilidade a longo prazo da Casa de Chico Mendes. Investir na preservação da casa também significaria valorizar o legado de Chico Mendes e os povos da floresta, garantindo que futuras gerações possam aprender com sua história e continuar a luta pela preservação da Amazônia.

AS MEMÓRIAS DO PASSADO E A CASA DE CHICO MENDES COMO PAISAGEM CULTURAL

A Casa de Chico Mendes não é apenas um espaço físico, mas um símbolo poderoso que representa as lutas e conquistas dos povos da floresta. Ao atravessar o Rio Acre e baixar o barranco aos fundos da casa de Chico, é possível fazer uma imersão profunda no significado desse símbolo. O ato de cruzar o rio e entrar nesse espaço que materializa a história da luta pela criação da Reserva Extrativista Chico Mendes, consolidando-se como um marco na defesa das florestas e na resistência dos povos que nelas vivem.

Esse percurso, carregado de simbolismo, proporciona uma experiência de conexão direta com as memórias do passado e o legado de Chico Mendes. A casa é um testemunho vivo da consolidação das reservas extrativistas, fruto da mobilização e da aliança entre seringueiros, indígenas e outras populações tradicionais que, juntos, transformaram o cenário da Amazônia ocidental. Assim, ao entrar nesse espaço, os visitantes são levados a refletir sobre o valor histórico e social da preservação dessas memórias, essenciais para entender a importância da luta socioambiental no Brasil e a materialização ali, presente é outro importante vínculo, pois o espaço de memória se amplia para a RESEX, proporcionando esse empoderamento social e a valorização das florestas.

A reflexão sobre paisagens e patrimônio cultural proposta por Maria Geralda de Almeida (2013) é fundamental para compreender a complexidade que envolve a Casa de Chico Mendes como espaço de memória. Segundo a autora, as paisagens culturais são carregadas de subjetividade e objetividade, e sua valoração é determinada pelas práticas sociais da sociedade ou pelo mercado. Nesse contexto, a Casa de Chico Mendes emerge não apenas como um bem material, mas também como um recurso cultural e simbólico, cujo valor está intrinsecamente ligado às experiências e às memórias dos povos das florestas.

Neste sentido que Almeida (2013) ressalta que o valor atribuído a bens culturais depende da interpretação e das práticas sociais que lhes conferem significado. A Casa de Chico Mendes, portanto, pode ser vista como uma paisagem cultural viva, que ativa memórias e define identidades. A travessia do Rio Acre para acessar a casa representa um ato de imersão nessa paisagem, onde os visitantes são levados a experienciar as dimensões subjetivas e sensoriais descritas por Almeida, como as paisagens sonoras, visuais e até mesmo olfativas, que evocam o cotidiano da vida nas florestas.

Além disso, a autora destaca a importância das paisagens noturnas e outras formas intangíveis de paisagens, sugerindo que nossas experiências se tornam mais completas quando envolvem todos os sentidos. Ao visitar a Casa de Chico Mendes, especialmente durante eventos e comemorações locais, é possível vivenciar uma "outra" paisagem, onde as cores, sons e texturas da noite transformam o espaço em um cenário dinâmico de memória e resistência.

Essa abordagem multissensorial permite que a Casa de Chico Mendes seja vista não apenas como um local físico, mas como uma paisagem cultural que reflete a trajetória dos povos da floresta, suas lutas e a perpetuação de seu legado. Conforme Almeida (2013) pontua, "a paisagem e o território são dimensões marcadas por elementos patrimoniais", e, no caso de Chico Mendes, esses elementos são carregados de significados históricos e sociais que moldam a identidade coletiva de gerações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Casa de Chico Mendes é mais do que um simples espaço físico; é um marco simbólico e multissensorial das lutas e conquistas dos povos da floresta, especialmente dos seringueiros e das comunidades acreanas. No entanto, a casa se encontra em um processo de abandono e sucateamento, o que reflete uma grave lacuna nas estratégias de manutenção e preservação desse patrimônio cultural. A ausência de ações para integrar as narrativas contemporâneas aos desafios vividos pelos povos da floresta, somada ao descaso institucional, configura uma forma silenciosa de apagamento da identidade desses povos.

A preservação da Casa de Chico Mendes é crucial não apenas para manter viva a memória das lutas de Chico e dos povos da floresta, mas também para garantir a continuidade da narrativa histórica e cultural dessas comunidades. Sem investimentos adequados em conservação, a história associada ao local corre o risco de ser perdida. A reabertura recente da casa não é garantia de sua preservação, uma vez que, com a mudança de governos, o abandono se torna uma constante. A falta de estratégias para preservar e promover a casa de Chico Mendes pode ser vista como um reflexo de um movimento maior de invisibilização das comunidades da floresta nos discursos políticos e culturais do país.

Além da preservação física do local, é essencial promover a participação das narrativas atuais dos povos das florestas. A Casa de Chico Mendes deve se tornar um ponto de encontro dinâmico, onde as vozes dessas comunidades possam ser ouvidas e respeitadas. Exposições, eventos educacionais e programas de envolvimento comunitário poderiam contribuir para garantir que as memórias dos povos da floresta não se percam com o tempo.

A preservação da memória dos seringueiros, suas práticas culturais e suas tradições também deve incluir a valorização do patrimônio imaterial. O patrimônio cultural imaterial, composto por saberes, festas, tradições de trabalho e narrativas de resistência, precisa ser integrado ao processo de preservação. Costa (2006) argumenta que a educação patrimonial é fundamental para envolver as comunidades na preservação do patrimônio cultural. No caso da Casa de Chico Mendes, ações educativas voltadas especialmente para os jovens das comunidades locais poderiam garantir que a casa se tornasse um espaço de aprendizado contínuo e não apenas um local de memória do passado.

Entretanto, é importante reconhecer que a pressão do turismo pode tanto representar uma oportunidade quanto um risco. Costa Filho (2012) destaca que é necessário equilibrar o desenvolvimento turístico com a preservação autêntica do patrimônio cultural, evitando que ele se torne uma mercadoria. O turismo de base comunitária, defendido por Ribeiro e Santos (2015), surge como uma alternativa para garantir que as comunidades locais participem ativamente da gestão do turismo, assegurando não apenas a preservação do patrimônio, mas também o empoderamento das populações locais, que podem compartilhar suas práticas culturais de forma autêntica e sustentável.

A gestão participativa, como sugerido por Castro e Silva (2016), é fundamental para o sucesso da preservação da Casa de Chico Mendes. A integração das comunidades locais no processo de gestão é essencial para que a preservação do patrimônio esteja alinhada com suas necessidades e interesses. Para isso, é necessário que políticas públicas efetivas sejam implementadas para garantir um modelo sustentável de preservação.

Uma proposta concreta para fortalecer a preservação da Casa de Chico Mendes seria a formalização da administração do espaço a cargo do Comitê Chico Mendes, em parceria com as associações de moradores da Reserva Extrativista (RESEX). O Comitê, criado inicialmente de forma informal, tem se dedicado à luta pela justiça no caso do assassinato de Chico Mendes e atualmente está formalizado como ONG, atuando ativamente com as comunidades de florestas. Anualmente, o Comitê organiza a Semana Chico Mendes, um evento de grande relevância que reúne moradores da RESEX e outras partes interessadas. Integrar o Comitê à gestão da Casa de Chico Mendes seria uma forma de garantir que o espaço seja administrado de forma participativa e com a devida atenção às necessidades da comunidade.

Além disso, o fortalecimento de ONGs locais e iniciativas de base comunitária pode ser decisivo para a continuidade da preservação da Casa de Chico Mendes. A colaboração entre o Comitê Chico Mendes, associações de moradores da RESEX e outras entidades pode criar um modelo de gestão participativa, que não apenas preserve a casa, mas também valorize as práticas culturais, as lutas ambientais e a identidade dos povos da floresta.

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