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A dinâmica da cafeicultura familiar no município de Primavera de Rondônia/RO
The dynamics of family coffee growing in the municipality of Primavera de Rondônia, Rondônia State, Brazil
La dinámica del cultivo familiar del café en el municipio de Primavera de Rondônia, Estado de Rondônia, Brasil
Revista Presença Geográfica, vol. 13, núm. 1, 2026
Fundação Universidade Federal de Rondônia

Revista Presença Geográfica
Fundação Universidade Federal de Rondônia, Brasil
ISSN-e: 2446-6646
Periodicidade: Frecuencia continua
vol. 13, núm. 1, 2026

Recepção: 27 Setembro 2025

Aprovação: 10 Fevereiro 2026

Resumo: O objetivo deste artigo é compreender as formas de organização social e econômica dos produtores e da produção de café em Primavera de Rondônia-RO, considerando a modernização técnico-científica da cafeicultura na região da Indicação Geográfica (IG) Matas de Rondônia. Os procedimentos metodológicos para o desenvolvimento da pesquisa foram revisão de literatura; levantamento de dados secundários em bases de dados digitais de órgãos públicos; realização de entrevistas com cafeicultores por meio de questionários estruturados; e organização e tabulação dos dados em planilhas eletrônicas para análise e discussão dos resultados. A cafeicultura no município é desenvolvida predominantemente por agricultores familiares, e, considerando os participantes da pesquisa, a área média destinada ao plantio de café é de 2,8 hectares. Mesmo com a grande capacidade da cafeicultura em gerar renda em pequenas áreas, os agricultores procuram diversificar suas fontes de renda com outras atividades agrícolas e não agrícolas. A partir do incentivo ao incremento técnico-científico, os produtores passaram a cultivar o café clonal, que exige a adoção de sistema de irrigação e outras técnicas de manejo. Face às dificuldades de obtenção de crédito rural e à escassez de mão de obra para a colheita, grande parte dos cafeicultores se organizam coletivamente em associações rurais para facilitar o acesso a colheitadeiras semimecanizadas. A modernização da cafeicultura rondoniense possibilitou a criação da IG Matas de Rondônia, oferecendo aos agricultores familiares uma oportunidade de valorização do seu produto. Contudo, observou-se que a IG ainda é desconhecida pelos cafeicultores do município.

Palavras-chave: Agricultura familiar, Pequeno produtor, Café robusta, Indicação geográfica.

Abstract: The aim of this paper is to understand the social and economic organization of coffee producers and their production in Primavera de Rondônia municipality, in Rondônia State, Brazil, considering the technical and scientific modernization of coffee growing in the Matas de Rondônia Geographical Indication (GI). The methodological procedures included a literature review; collecting secondary data from public agency digital databases; conducting interviews with coffee farmers using structured questionnaires; and organizing and tabulating the data in electronic spreadsheets for analysis and discussion of the results. Coffee farming in Primavera de Rondônia is predominantly carried out by family farmers, and, according to the study participants, the average area allocated to coffee cultivation is 2.8 hectares. Even with coffee farming's great capacity to generate income in small areas, farmers seek to diversify their sources of income with other agricultural and non-agricultural activities. With the encouragement of technical and scientific development, producers began cultivating clonal coffee, which requires the adoption of an irrigation system and other management techniques. Faced with difficulties in obtaining rural credit lines and the shortage of labor for harvesting, many coffee growers have organized themselves into rural associations to facilitate access to semi-mechanized harvesters. The modernization of Rondônia's coffee industry has enabled the creation of the Matas de Rondônia GI, offering family farmers an opportunity to increase the value of their product. However, it was observed that the GI is still unknown to coffee growers in Primavera de Rondônia.

Keywords: Family farming, Small producer, Robusta coffee, Geographical indication.

Resumen: El objetivo de este artículo es comprender la organización socioeconómica de los productores de café y la producción en Primavera de Rondônia, Estado de Rondônia, Brasil, considerando la modernización técnica y científica de la caficultura en la región de la Indicación Geográfica (IG) Matas de Rondônia. Los procedimientos metodológicos para el desarrollo de la investigación incluyeron una revisión bibliográfica; la recopilación de datos secundarios de bases de datos digitales de organismos públicos; la realización de entrevistas con caficultores mediante cuestionarios estructurados; y la organización y tabulación de los datos en hojas de cálculo electrónicas para el análisis y la discusión de los resultados. La caficultura en el municipio es predominantemente realizada por agricultores familiares y, considerando los participantes del estudio, la superficie promedio destinada al cultivo de café es de 2,8 hectáreas. A pesar del importante potencial de generación de ingresos de la caficultura en pequeñas parcelas, los caficultores buscan diversificar sus fuentes de ingresos con otras actividades agrícolas y no agrícolas. Con el fomento del desarrollo técnico y científico, los productores comenzaron a cultivar café clonal, lo que requiere la adopción de un sistema de riego y otras técnicas de manejo. Ante las dificultades para obtener crédito rural y la escasez de mano de obra para la cosecha, muchos caficultores se han organizado en asociaciones rurales para facilitar el acceso a cosechadoras semimecanizadas. La modernización de la industria cafetalera de Rondônia ha permitido la creación de la IG Matas de Rondônia, que ofrece a los agricultores familiares la oportunidad de aumentar el valor de su producto. Sin embargo, se ha observado que la IG aún es desconocida para los caficultores del municipio.

Palabras clave: Agricultura familiar, Pequeño productor, Café robusta, Indicación geográfica.

INTRODUÇÃO

A cafeicultura ocupa lugar de destaque no setor agrícola brasileiro, tanto em termos econômicos, sendo o país o maior produtor e exportador mundial de café, quanto em termos históricos e sociais, pois trata-se de uma atividade presente na organização territorial do Brasil desde o final do século XVIII.

O café, embora seja uma planta exótica no Brasil, encontrou plenas condições para o seu desenvolvimento no país. As espécies que são produzidas em escala global são Coffea arabica e Coffea canephora. A primeira tem origem etíope e apresenta maior aptidão para se desenvolver em regiões de altas altitudes e climas amenos, enquanto que a espécie canéfora é originária da Guiné, na Bacia do Congo, tendo se adaptado às baixas altitudes e temperaturas mais elevadas (Embrapa, 2023).

Historicamente, a Amazônia foi a região pioneira no cultivo de café no Brasil, pois as primeiras sementes e mudas da espécie arábica foram introduzidas no Pará, no ano de 1727. De lá, migraram para a região Sudeste, onde se adaptaram melhor aos fatores ambientais, resultando na concentração espacial produtiva nos estados da região e também no Paraná. Mas há relatos que, antes dessa migração, mudas e sementes de café arábica chegaram ao estado de Rondônia e foram cultivadas próximo ao Forte Príncipe da Beira, no município de Costa Marques (Embrapa, 2023).

A cafeicultura no bioma amazônico, particularmente em Rondônia, começou a ter maior expressão econômica e social somente a partir da década de 1970, ainda que se caracterizasse pelo extrativismo e pouca eficiência no uso da terra (Ronquim; Rocha; Alves, 2024). Nessa época, o governo militar deu início aos projetos de colonização agrária na Amazônia, sendo o café uma das culturas agrícolas introduzidas na região, contribuindo para a territorialização do migrante agricultor em suas novas terras. Desse modo, o processo de evolução dos cafés amazônicos guarda estreita relação com a formação socioespacial do próprio estado rondoniense, quando cafeicultores paranaenses, paulistas, mineiros e capixabas migraram para Rondônia (Espindula et al., 2022; Santos, 2021).

O cafezal, por ser uma lavoura perene, representava o real interesse do agricultor migrante e sua família em se fixar na nova terra. Isto facilitava ao colonizador o recebimento do título de posse do lote expedido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra. Consequentemente, a cafeicultura gerava empregos diretos e indiretos nas pequenas e médias propriedades rurais do estado (Ramalho et al., 2019).

A princípio, eram cultivados cafeeiros da espécie arábica. Posteriormente, cafeicultores vindos do Espírito Santo introduziram sementes da espécie canéfora, variedade conilon, que apresentaram maior produtividade e melhor adaptação às condições edafoclimáticas da região amazônica. Além disso, o trabalho de pesquisa da Embrapa também foi importante para o estabelecimento dos cafezais em Rondônia, introduzindo sementes da espécie canéfora, tanto da variedade conilon quanto da robusta, oriundas do Instituto Agronômico de Campinas – IAC (Espindula et al., 2022).

Na década de 1990, os produtores de café conheceram a técnica de clonagem, por meio da qual foi possível selecionar as características positivas de ambas as variedades, criando as plantas denominadas híbridas. O uso de clones de alto desempenho associado a outras práticas de manejo possibilitou que o estado de Rondônia tivesse aumento de produtividade das lavouras de café canéfora desde o início dos anos 2000 (Espindula et al., 2022; Santos, 2021).

O cruzamento entre as variedades conilon e robusta, selecionadas ao longo dos anos pelos produtores locais, resultou em um café diferenciado, que passou a ser denominado de "robustas amazônicos". A evolução da cafeicultura rondoniense pode ser atestada com a concessão da Indicação Geográfica – IG, do tipo Denominação de Origem, para o café das Matas de Rondônia, que engloba 15 municípios na região centro-sul do estado (Inpi, 2021). Segundo Agnoletti et al. (2024), este reconhecimento reflete a valorização do café canéfora, que tem sido catalisador de mudanças no cenário global de produção e consumo, oferecendo oportunidades para a inclusão dos robustas amazônicos de alta qualidade no mercado de cafés especiais.

Nesse cenário, diversas pesquisas sobre os robustas amazônicos da IG Matas de Rondônia têm sido desenvolvidos. Ronquim, Rocha e Alves (2024) realizaram o mapeamento das lavouras cafeeiras da IG, determinando o tamanho, distribuição e sustentabilidade dessas áreas. Agnoletti et al. (2024) avaliaram os aspectos relacionados ao terroir do café, como a origem geográfica e as características genéticas. Baqueta et al. (2023) aplicaram a técnica de espectroscopia do infravermelho próximo para a classificação de origem do café, a fim de autenticar se o café é realmente produzido por povos indígenas, uma vez que, na IG Matas de Rondônia, produtores indígenas e não indígenas se encontram geograficamente próximos uns dos outros.

Sob a ótica geográfica, Santos (2021) analisou a organização do circuito espacial resultante do processo de modernização técnica da cafeicultura rondoniense, além da atuação de diversos agentes do círculo de cooperação, com enfoque no município de Cacoal, que também faz parte da IG. O autor propôs uma periodização da cafeicultura em Rondônia, considerando as rupturas técnicas no processo histórico dessa atividade e a temporalidade na análise espacial, sendo ela: 1) 1970 a 1990: formação socioespacial de Rondônia e territorialização do migrante; 2) 1990 a 2001: afirmação da cafeicultura rondoniense; 3) 2002 a 2010: desaceleração da produção de café; e 4) a partir de 2010: modernização e incremento técnico-científico à produção.

Dessa forma, no período atual, o crescimento da atividade cafeeira no estado e a modernização técnica dos estabelecimentos familiares são voltados para atender aos interesses do mercado, de modo que os agricultores familiares estejam subordinados à dinâmica do capital industrial. Isso faz com que, embora a cafeicultura seja uma atividade desenvolvida por famílias, o poder público trate-a como agronegócio, favorecendo o uso corporativo do espaço rondoniense (Santos, 2021).

Observa-se que as publicações voltadas aos aspectos socioeconômicos dos cafeicultores e seus estabelecimentos rurais familiares das Matas de Rondônia ainda são escassas. Estudos com tal enfoque são fundamentais para subsidiar o poder público na formulação de políticas públicas direcionadas para a agricultura familiar.

Sachs (2001) considera a agricultura familiar como uma peça-chave, embora não exclusiva, do desenvolvimento integrado e sustentável, a ser definido em escala local, tomando-se como unidade territorial o município ou, eventualmente, consórcios de municípios. É importante ressaltar que a agricultura de base familiar, enquanto modo de vida e de produção no meio rural, tem um papel crucial na promoção de um desenvolvimento rural orientado para a sustentabilidade, na garantia da segurança alimentar global, no enfrentamento à pobreza, desigualdades sociais e problemas migratórios, e na conservação da biodiversidade (Silva; Nunes, 2023).

Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo compreender as formas de organização social e econômica dos produtores e da produção de café no contexto da modernização técnico-científica da cafeicultura na região da Indicação Geográfica Matas de Rondônia, tomando como estudo de caso o município de Primavera de Rondônia.

CONTEXTUALIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

O município de Primavera de Rondônia, daqui por diante chamado de Primavera, situa-se na região centro-sul do estado de Rondônia, distante 528 km da capital Porto Velho. Seu atual território fazia parte do município de Pimenta Bueno, do qual se desmembrou no ano de 1994. Originou-se de um Núcleo Urbano de Apoio Rural, conhecido como Primavera, no âmbito do Projeto Integrado de Colonização Ji-Paraná, setor Abaitará, implantado pelo Incra no ano de 1972 (Cunha; Moser, 2010; IBGE, 2025). Atualmente, o município possui 3.076 habitantes e sua economia concentra-se no setor primário (IBGE, 2025).

Primavera compõe a IG Matas de Rondônia, junto de Alta Floresta D’Oeste, Alto Alegre dos Parecis, Alvorada D’Oeste, Cacoal, Castanheiras, Espigão D’Oeste, Ministro Andreazza, Nova Brasilândia D’Oeste, Novo Horizonte do Oeste, Rolim de Moura, Santa Luzia D’Oeste, São Felipe D’Oeste, São Miguel do Guaporé e Seringueiras (Figura 1). Estes municípios foram responsáveis por 74,7% da área colhida de café no estado de Rondônia e por 77,6% da produção estadual em 2023 (IBGE, 2023).


Figura 1
Municípios pertencentes à Indicação Geográfica Matas de Rondônia, com destaque para Primavera de Rondônia
Fonte: Elaboração própria

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Este trabalho se desenvolveu a partir de uma pesquisa qualiquantitativa, de caráter descritivo por amostragem. Segundo Gil (1999, p. 44), as pesquisas descritivas “têm como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis”.

Inicialmente, realizou-se uma revisão bibliográfica sobre temas como desenvolvimento e importância da cafeicultura no Brasil e no Estado de Rondônia; meio rural; agricultura familiar e suas estratégias de reprodução social e econômica; associativismo e cooperativismo; indicação geográfica; entre outros. Também foi feito um levantamento de dados de fontes secundárias sobre a área de estudo, por meio da recuperação de dados do Censo Agropecuário e de Produção Agrícola Municipal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, disponibilizados pelo Sistema IBGE de Recuperação Automática – SIDRA (https://sidra.ibge.gov.br/). Estes dados foram posteriormente organizados em gráficos e tabelas.

Outra etapa consistiu na pesquisa de campo em Primavera, em que foram realizadas entrevistas com cafeicultores do município entre maio e junho de 2025. De acordo com o Censo Agropecuário de 2017, havia 78 estabelecimentos rurais com lavouras de café canéfora no município (IBGE, 2017). O cálculo para definir o tamanho da amostra de entrevistados, para o caso de populações finitas desta pesquisa, foi feito conforme a Equação 1 (Gil, 1999). Considerou-se o tamanho da população como N = 78, nível de confiança de 99% (3 desvios-padrão) e erro máximo permitido de 5%.

[Equação 1]

Em que:

  1. n = tamanho da amostra;

    σ² = nível de confiança escolhido, expresso em número de desvios-padrão;

    p = porcentagem com a qual o fenômeno se verifica (= 100);

    q = porcentagem complementar (100 – p);

    N = tamanho da população;

    e² = erro máximo permitido.

Assim, obteve-se n = 25, ou seja, foram realizadas entrevistas com 25 produtores de café de Primavera, conduzidas presencialmente com a aplicação de um questionário estruturado, composto por perguntas abertas e fechadas que abordaram as características dos produtores, da produção de café e dos estabelecimentos rurais. Os produtores entrevistados localizam-se na porção sul do município, próximos ao distrito de Querência do Norte, onde se concentra a maior parte das lavouras de café, mostradas na Figura 2. As áreas de café foram mapeadas por meio de interpretação visual de imagens de satélite CBERS-4A, conforme Bispo et al. (2025).

Após o trabalho de campo com as entrevistas, os dados armazenados e tabulados em planilha eletrônica foram analisados e correlacionados para a compreensão dos resultados. As informações permitiram identificar o perfil socioeconômico dos produtores de café, a forma de organização interna de suas propriedades e características da produção de café.

Por se tratar de pesquisa que envolve seres humanos, o projeto que originou este trabalho foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Federal de Rondônia.


Figura 2
Localização das áreas de café e dos cafeicultores entrevistados em Primavera de Rondônia
Fonte: Elaboração própria

RESULTADOS E DISCUSSÕES

A cafeicultura em Primavera apresenta-se como uma atividade bem estabelecida entre os agricultores, sendo desenvolvida predominantemente em propriedades rurais familiares cujas áreas, em sua maioria, variam de quatro a menos de 50 hectares, como demonstrado na Tabela 1.

Tabela 1
Número de estabelecimentos agropecuários com café canephora em Primavera de Rondônia, por tipologia e grupos de área total - 2017

Fonte: IBGE – Censo Agropecuário (2017)

Em relação aos participantes desta pesquisa, a análise da Figura 3 mostra que suas propriedades rurais possuem área total entre 2,5 e 41,1 hectares, apresentando tamanho médio de 13,9 hectares. Já a área destinada ao plantio de café é de 2,8 hectares em média, variando de 0,8 a 7 hectares, o que corresponde a um mínimo de 4,4% da área total (propriedade “3”), máximo de 96,8% (propriedade “25”) e média de 34,9%.


Figura 3
Comparação entre a área total e a área plantada de café em cada estabelecimento rural
Fonte: Dados da pesquisa

Considerando-se ainda a perspectiva espacial, o café é uma cultura que apresenta grande capacidade de gerar renda em pequenas áreas, como mostra o estudo de Santos, Ribeiro e Rodrigues (2023). Ao contrário, as lavouras de soja, cada vez mais presentes em Rondônia, são cultivadas por grandes proprietários de terra capitalizados e, com isso, têm alta rentabilidade ao explorar extensas áreas. Então, apesar de a cafeicultura render economicamente mais por hectare do que a soja, esta pode vir a ocupar áreas da região Matas de Rondônia e até mesmo deslocar as lavouras de café. Desse modo, tais características da cafeicultura evidenciam a importância e viabilidade da agricultura familiar de pequena escala, além de representar menor pressão sobre a floresta amazônica (Ronquim; Rocha; Alves, 2024).

A maioria dos participantes deste estudo, 84%, é do sexo masculino, e 16% é do sexo feminino, embora algumas vezes as esposas estavam presentes no momento da entrevista, complementando as respostas. A idade média dos entrevistados está em torno de 48 anos, tendo o produtor mais jovem 26 anos e o mais idoso 66 anos. Quanto à escolaridade, 40% não concluíram o ensino fundamental, 20% possuem o ensino médio completo, 16% possuem ensino superior, 12% possuem o ensino médio incompleto, 8% são analfabetos e, por fim, 4% concluíram o ensino fundamental I por meio de alfabetização de jovens e adultos. Destaca-se que, embora uma parte dos cafeicultores tenham alcançado o ensino superior, a formação acadêmica não é na área das ciências agrárias, apesar de existirem instituições públicas de ensino na região, como a Universidade Federal de Rondônia e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia, que oferecem cursos técnicos e superiores e formação inicial e continuada na área.

O conhecimento circula, em grande medida, de maneira informal entre os próprios produtores ou por meio dos chamados “dia de campo”, organizados por instituições como a Embrapa e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – Senar para demonstrar práticas agrícolas nas propriedades rurais, sendo que 48% dos entrevistados já participaram deste tipo de evento. Outros 52% nunca tiveram alguma capacitação voltada para a produção de café.

Em relação ao estado de origem dos agricultores, 10 deles são paranaenses, dois são paulistas, outros dois são capixabas, e há ainda um catarinense, um baiano, um alagoano e um sul-mato-grossense. Esses imigrantes e seus familiares vieram para Rondônia entre os anos de 1974 e 1991, ou seja, no período de colonização agrícola dirigida e de estímulo aos fluxos migratórios para a Amazônia, sob a égide do Estado (Silva, 2012). Os demais sete entrevistados, mais jovens, já são rondonienses, naturais de Primavera, Pimenta Bueno e Cacoal, municípios vizinhos, fato que pode indicar um processo de renovação do campo, e, além disso, 56% dos produtores disseram que os filhos têm perspectiva de dar continuidade ao trabalho na cafeicultura.

Conforme a periodização proposta por Santos (2021), na década de 1990, quando o município de Primavera foi criado, a cafeicultura rondoniense se consolidou no cenário nacional, através do aumento da área plantada e da produção, com a substituição da espécie arábica pela canéfora (da variedade conilon e robusta), e da implementação de infraestruturas para compra e venda de café e de estabelecimentos agropecuários fornecedores de insumos à atividade. Contudo, a partir de 2002, o estado vivenciou uma desaceleração da produção de café, acompanhada pela diminuição da área plantada, devido à queda no preço, à concorrência no mercado mundial, além da baixa qualidade do produto rondoniense. Esse período perdurou até o ano de 2010, momento em que o governo estadual e o capital industrial incentivaram a modernização da cafeicultura, com a adoção do café clonal e o incremento técnico-científico na produção e na melhoria de sua qualidade. Segundo Lopes Junior et al. (2023), a retomada da cafeicultura em Rondônia deu-se a partir da introdução de lavouras por propagação vegetativa e um pacote tecnológico como podas, adubação, irrigação e novos arranjos espaciais, utilizando a técnica de clonagem através de tecidos vegetativos de uma planta matriz para regeneração de uma nova planta idêntica.

Tal fato possibilitou o restabelecimento da quantidade produzida de café, enquanto que a área continuou em queda, ou seja, houve um acréscimo significativo na produtividade das lavouras. Observa-se, na Figura 4, que a evolução da cafeicultura em Primavera também reflete esses períodos, tendo o rendimento médio da produção aumentado quatro vezes a partir de 2010.

Neste cenário de crescimento da cafeicultura em Rondônia, agricultores familiares de Primavera foram atraídos para essa atividade. Dos 25 cafeicultores entrevistados, 15 deles iniciaram o plantio de café depois de 2010, e outros dois que haviam abandonado a atividade durante o período de desaceleração da produção cafeeira retomaram suas lavouras. Desse modo, a cafeicultura se coloca como uma cultura permanente com alto rendimento, mesmo em pequenas áreas, proporcionando uma conjuntura de longevidade para a atividade no município.


Figura 4
Evolução da cafeicultura em Primavera de Rondônia
Fonte:IBGE – Produção Agrícola Municipal (2023)

Cabe destacar a atuação das instituições de assistência técnica e extensão rural em Primavera. Os dados desta pesquisa mostram que os cafeicultores recebem atendimento regular do Senar e da Emater – Entidade Autárquica de Assistência Técnica e Extensão Rural, com uma periodicidade de 60 dias. Entretanto, houve alguns relatos de que ocorre sobreposição de visitas nos estabelecimentos rurais de ambas as instituições, e isso já gerou situações de contradições nas orientações técnicas recebidas, o que pode causar dúvidas para os produtores e limitar a efetividade das ações de assistência técnica.

Considerando-se o aspecto econômico, a pesquisa apontou que a renda média mensal líquida das famílias é variada: 4% possuem renda de até um salário mínimo – SM, cujo valor em 2025 era de R$ 1.518,00; outros 4% têm renda de um a dois SM (de R$ 1.518,01 até R$ 3.036,00); 25% têm renda de dois a três SM (de R$ 3.036,01 até R$ 4.554,00); 21% de três a quatro SM (de R$ 4.554,01 até R$ 6.072,00); 25% de quatro a cinco SM (de R$ 6.072,01 até R$ 7.590,00); e por fim 21% possuem renda média mensal líquida de mais de cinco SM (R$ 7.590,00 ou mais).

Verificou-se durante as entrevistas que os produtores tiveram dificuldade em definir a própria renda da família. Tanto que, ao serem perguntados se fazem a gestão administrativa de suas propriedades, 12 (48%) responderam que não e 13 (52%) responderam que sim, sendo que, dentre estes, 10 disseram que incluem a mão de obra familiar nos custos de produção, enquanto que o restante não o fazem. Esta ausência de gestão tem como consequência direta a falta de objetividade nas tomadas de decisão da propriedade e da produção.

Para 72% dos agricultores, sobretudo aqueles cuja área total da propriedade é menor, o café é a principal fonte de renda da família, enquanto que para 24% a maior parte da renda familiar é oriunda de outras atividades agropecuárias, como o cultivo de milho, a pecuária leiteira e de corte. Apenas 4% têm uma renda não agrícola como a principal. Ainda, 68% responderam que a família possui alguma outra atividade remunerada fora do estabelecimento agrícola, principalmente aposentadoria, trabalho no setor público ou na construção civil.

A combinação de atividades agrícolas e não agrícolas para a composição da renda familiar demonstra a busca por estratégias de reprodução social e econômica dos agricultores familiares, o que Santos e Hespanhol (2018) entendem como racionalidades adaptativas frente a um contexto socioeconômico específico, baseadas nas escolhas e decisões tomadas pela família. Para Schneider (2015), a pluriatividade é uma característica intrínseca dos agricultores familiares, que historicamente sempre tiveram múltiplas ocupações e múltiplas formas de rendimento. Assim, o autor defende a pluriatividade como uma maneira de favorecer estratégias sustentáveis de diversificação dos modos de vida das famílias rurais e melhorar suas condições de reprodução social e econômica.

A cafeicultura desenvolvida atualmente em Primavera está inserida no contexto da modernização técnico-científica do parque cafeeiro de Rondônia, representada, por exemplo, pela adoção do sistema clonal, que combina a união de diferentes mudas até chegar a uma planta com melhor produtividade e resistência, adaptada às características edafoclimáticas locais. Segundo Oliveira e Araújo (2015), em Rondônia, os sistemas de produção de café não tradicionais que fazem uso mais intensivo de tecnologia, de forma geral, são considerados mais sustentáveis que os tradicionais, visto que elevam a renda do produtor, melhoram suas condições sociais e contribuem para a redução dos impactos ambientais da produção agrícola.

Neste estudo, todos os produtores entrevistados cultivam o café clonal, e, consequentemente, precisam incorporar práticas de manejo necessárias para garantir a alta produtividade das lavouras. Eles utilizam sistemas de irrigação por microjet, que propicia uma distribuição de água mais eficiente e uniforme. Além disso, da amostra de 25 produtores, 23 fazem adubação das lavouras, 22 fazem poda e desbrota, 21 utilizam agrotóxicos, 17 realizam correção de solo e 15 deles fazem a análise de solo.

Conforme o estudo de Oliveira e Araújo (2015), embora os sistemas não tradicionais tenham apresentado desempenho superior ao tradicional sob a ótica ambiental, social e econômica, o uso intensivo de água no sistema irrigado representa uma preocupação. Em Primavera, alguns cafeicultores apontaram para o problema de acesso à água, principalmente na época da estiagem. Inclusive, um deles comentou que não é possível aumentar sua área de café devido à disponibilidade hídrica limitada, tendo cogitado iniciar o plantio de cacau, pois é uma cultura que exige menos água na produção.

A necessidade de incremento tecnológico para a produção do café clonal leva os produtores a terem que investir mais em suas lavouras. Entretanto, em relação ao crédito rural para a produção de café, verificou-se que apenas nove dos 25 entrevistados já acessaram financiamento bancário, sendo sete por meio de crédito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – Pronaf, um pelo Banco da Amazônia e outro por ambos. O destino dos financiamentos foi principalmente para a aquisição de insumos, mas também para iniciar o plantio de café clonal ou implantar um sistema de irrigação. Por outro lado, a maioria nunca fez financiamento. Esse dado vem acompanhado de relatos quanto à dificuldade de entendimento por parte dos produtores de como preparar a documentação e atender os critérios pertinentes às linhas de crédito destinadas à agricultura familiar. Para Melo, Redin e Barbé (2023), considerando especialmente o Pronaf, as exigências legais de tramitação são limitantes e fatores desmotivadores para acesso ao crédito rural, sendo que o não acesso acaba desencadeando um desconhecimento sobre os benefícios do Programa. Assim, as dificuldades de obtenção de crédito continuam sendo barreiras históricas para os pequenos produtores.

Diante desse quadro, como uma estratégia para minimizar a falta de acesso ao crédito rural e para ampliar a tecnificação dos estabelecimentos rurais, 68% dos cafeicultores de Primavera têm recorrido à organização coletiva através das associações rurais, especialmente para ter acesso a insumos e maquinários de alto custo, como trator, caminhão e colheitadeira, os quais seriam inacessíveis de forma individual.

Conforme apontam Lisboa e Alcantara (2019), o associativismo no meio rural permite que agricultores familiares superem as limitações de escala e alcancem o progresso técnico. Assim, a prática associativa atua como uma ferramenta de inclusão tecnológica, permitindo que agricultores familiares participem dos ciclos de modernização sem perder a autonomia sobre seus processos produtivos.

Vale ressaltar ainda que, além das estruturas formais, alguns cafeicultores estabelecem acordos coletivos informais, baseados em relações de confiança e reciprocidade. Por exemplo, nesse caso, na época da colheita de café os produtores revezam no uso da colheitadeira adquirida em sociedade e todos devem ajudar na colheita uns dos outros. Tais arranjos remetem ao conceito de capital social (Abramovay, 2000), em que há a transformação de laços de solidariedade em ativos econômicos que reduzem custos de transação e viabilizam a reprodução socioeconômica (Abramovay, 2000; Breda; Colares-Santos; Pereira, 2022).

A mobilização do capital social funciona também como uma maneira de lidar com a escassez de mão de obra no meio rural, configurando-se como uma estratégia de ação coletiva importante para a resiliência da cafeicultura local frente aos desafios da modernização. Dentre os entrevistados, 76% fazem a colheita manual do café, enquanto que 24% fazem a colheita semimecanizada. Já 32% não contratam mão de obra para o trabalho nos cafezais, mas, por sua vez, 68% contratam mão de obra temporária local para a colheita do café e relataram que há falta de trabalhadores, o que acarreta um custo de produção mais elevado. Então, a maioria (52%) dos cafeicultores demonstraram interesse em modernizar a produção através do uso de maquinários na etapa da colheita.

No contexto da modernização e incremento técnico-científico da cafeicultura de Rondônia, tem-se o registro da IG Matas de Rondônia no ano de 2021, que é a primeira denominação de origem da espécie Coffea canephora sustentável do mundo (Silva, 2024). Toledo (2023) coloca que a IG reconhece a relação do produto com seu espaço geográfico imediato, por meio da combinação de elementos naturais e antrópicos únicos. A princípio, a busca pela diferenciação diante de outros produtos visa agregar valor de singularidade e, assim, aumentar a possibilidade de gerar maiores ganhos e também criar um sentimento de pertencimento do produto com a comunidade envolvida. O autor lembra que, uma vez concedida a IG, todos os produtores do território delimitado podem utilizar a proteção e distinção obtidas, contanto que sigam os protocolos estabelecidos.

Apesar do município de Primavera fazer parte da IG Matas de Rondônia, apenas dois dos cafeicultores participantes da pesquisa já tinham ouvido falar sobre ela, mas sem conhecimento aprofundado acerca dos benefícios que poderiam obter com essa certificação. Percebe-se, então, que a difusão de informações sobre a IG Matas de Rondônia entre os cafeicultores é incipiente, evidenciando uma lacuna ainda a ser preenchida.

Toledo (2023) explica que o produtor que aceita participar da IG deve atender a uma série de requisitos e incorporá-los à prática cotidiana do trabalho. Em relação ao café, são necessários investimentos na melhoria dos grãos, em novos métodos de manejo da lavoura, na padronização do beneficiamento e na organização do processo produtivo da propriedade, dado que o café atrelado à IG é classificado como uma bebida de qualidade e também rastreado. Os efeitos imediatos da participação na IG são a agregação de valor e aumento da renda do produtor, com a possibilidade de acesso a novos mercados internos e externos. Além desses benefícios individuais, o envolvimento e fortalecimento dos atores no âmbito da IG propicia também a valorização social, política e cultural da comunidade, reunindo vantagens capazes de criar condições únicas para desenvolver novas fontes de renda, como o turismo local e regional, por exemplo (Toledo, 2023).

Mesmo com o potencial da IG Matas de Rondônia pouco explorado, os agricultores de Primavera se mostraram otimistas com a atividade cafeeira, apontando até o interesse em aumentar a produção, seja por meio do aumento da área ou da produtividade com o adensamento das lavouras. Estes relatos estão alicerçados na alta do preço do café robusta desde 2024 até o momento da pesquisa, em comparação aos dois anos anteriores, como pode ser observado na Figura 5. Em fevereiro de 2025, período de entressafra, a saca de 60 kg atingiu R$ 2.050,09, o triplo do valor no mesmo período de 2023. Foi a primeira vez que a saca de robusta encerrou um mês com a média mensal acima de dois mil reais (Cepea, 2025).


Figura 5
Evolução dos preços do café robusta entre os anos de 2022 e 2025
Fonte: Cepea-Esalq/USP

A maioria dos cafeicultores entrevistados revelou que acompanha a cotação do preço do café diariamente, através de recursos digitais. A comercialização do grão de 92% dos produtores é feita por meio da venda para armazéns localizados no próprio município de Primavera ou em outros municípios da IG, como Cacoal e Alto Alegre dos Parecis. Os 8% restantes disseram vender sua produção para atravessadores. De acordo com os entrevistados, alguns armazéns oferecem a possibilidade de deixar o café “depositado”, assim podem aguardar o melhor momento para vender sua produção, conforme a cotação do preço no mercado.

Santos (2024) coloca que o estado de Rondônia está inserido no circuito espacial de produção do café através da produção agrícola do grão, que, após a modernização, ampliou sua abrangência estadual para uma escala nacional e até mesmo internacional. Após a colheita, a secagem dos grãos é feita nos estabelecimentos ou em associações e cooperativas, depois comercializados nos armazéns e posteriormente vendidos às principais torrefadoras nacionais, localizadas sobretudo na região centro-sul do país. Essa forma tradicional de comercialização do café rondoniense deixa o agricultor familiar subordinado às variações na cotação das sacas de café, embora ele seja o responsável por fornecer a matéria-prima que sustenta a existência desse circuito espacial (Santos, 2024).

Essa subordinação se dá porque o cafeicultor de Primavera vende sua safra de forma individualizada, reduzindo seu poder de negociação com outros compradores. No município, a forma de organização coletiva somente em associações rurais auxilia no acesso a maquinários, como mostrado, e as associações não interferem na comercialização da safra. Então, para Santos (2021), o maior protagonismo do agricultor familiar dentro do circuito espacial de produção do café poderia ser alcançado por meio da organização coletiva em cooperativas, que possibilita a agregação de valor ao produto, com as agroindústrias, e maior participação no mercado com a eliminação de intermediários entre a produção e o consumo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo teve como objetivo entender a organização social e econômica dos produtores e da produção de café no âmbito da modernização técnico-científica da cafeicultura no município de Primavera de Rondônia, que faz parte da Indicação Geográfica Matas de Rondônia.

Sabe-se que a cafeicultura rondoniense é predominantemente familiar e está atrelada ao processo de formação socioespacial do estado, incentivado pelos projetos de colonização agrícola dirigida do governo federal na década de 1970. O trabalho nas lavouras de café, uma cultura permanente, contribuiu para a fixação do agricultor migrante e sua família na nova terra. Desde então, a agricultura familiar é um importante agente produtor do espaço regional, apesar de ocupar menor área, e, no caso do café, tem mostrado dinamicidade ao incorporar inovações tecnológicas na produção.

Em relação à organização social dos cafeicultores de Primavera, comprovou-se que a força de trabalho se baseia essencialmente no núcleo familiar das propriedades rurais, e conta com trabalhadores temporários locais somente nos períodos de colheita. Entretanto, esta mão de obra temporária tem se tornado cada vez mais rara, segundo os relatos de vários produtores que não têm conseguido contratar e, quando conseguem, o preço da diária é elevado, acarretando aumento dos custos e menor lucratividade do café.

Nesse sentido, os produtores de café têm buscado alternativas para substituir a colheita manual pela semimecanizada, com a aquisição de colheitadeiras por meio das associações de produtores rurais. Verificou-se também a mobilização do capital social entre grupos de agricultores, que se unem para adquirir maquinários para uso comum e ajudar na colheita uns dos outros. Esta estratégia revela um espírito de cooperação e reciprocidade entre os agricultores familiares para enfrentar os desafios da modernização do campo.

Além disso, outra estratégia de reprodução social e econômica observada entre os cafeicultores de Primavera é a diversificação da renda, pois, apesar de o café constituir a principal fonte de renda para a maior parte deles, existem outras atividades agrícolas e não agrícolas que complementam a renda familiar.

Quanto aos aspectos produtivos, o estudo demonstrou a capacidade de adaptação técnica dos cafeicultores primaverenses, em que todos renovaram suas lavouras com café clonal, que apresenta alta produtividade e maior resistência. Essa cafeicultura clonal traz consigo um pacote tecnológico inerente ao seu processo produtivo, que demanda o uso de irrigação e outras técnicas de manejo.

No contexto da modernização da cafeicultura no estado, a criação da IG Matas de Rondônia para o café robusta amazônico representa uma oportunidade para agregar valor e acessar novos mercados internos e externos e, consequentemente, aumentar a renda do produtor, entre outros benefícios para toda a região. Contudo, observou-se que a IG ainda é desconhecida por parte dos cafeicultores de Primavera.

Por fim, esta pesquisa identificou que há um certo otimismo entre os produtores quanto à cultura do café, sobretudo pela revolução que os cafés clonais trouxeram, propiciando alto rendimento em pequenas áreas, junto a recente alta do preço das sacas de café.

O conhecimento do perfil socioeconômico dos produtores de café e a análise das formas de organização interna dos estabelecimentos rurais podem contribuir para um melhor direcionamento do planejamento estratégico e execução de políticas públicas e ações de extensão rural adequadas para o setor, além de também beneficiar as formas de organização coletiva dos produtores de café, não só de Primavera, mas de todo o estado de Rondônia, a partir das suas próprias demandas.

Agradecimentos

Ao Instituto Federal de Rondônia, por meio do Edital nº 10/2024/REIT - CGAB/IFRO, de 27 de maio de 2024.

Ao Sr. Yangson Fantini Vieira (Betinho), pelo apoio imprescindível na realização do trabalho de campo.

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