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Geografia e arte originária: aproximações entre os discursos artísticos indígenas e o lugar
Geography and Indigenous Art: Approximations Between Indigenous Artistic Discourses and Place
Geografía y arte originario: aproximaciones entre los discursos artísticos indígenas y el lugar
Revista Presença Geográfica, vol. 13, núm. 1, 2026
Fundação Universidade Federal de Rondônia

Revista Presença Geográfica
Fundação Universidade Federal de Rondônia, Brasil
ISSN-e: 2446-6646
Periodicidade: Frecuencia continua
vol. 13, núm. 1, 2026

Recepção: 04 Junho 2025

Aprovação: 06 Fevereiro 2026

Resumo: A geografia humanista tem ínfimo trabalho na arte originária, embora tenha realizado relevantes pesquisas direcionadas ao diálogo geografia e arte. A partir disso, este artigo tem como objetivo interpretar os discursos da arte indígena no contexto da geografia tendo como pano de fundo o conceito de lugar. A possibilidade de desvelar novos meios de interpretações da realidade geográfica a partir de pinturas, performances, danças, literatura, entre outras expressões artísticas indígenas são outros motivadores para este trabalho. Trabalhamos com a pesquisa qualitativa, observando o limite teórico metodológico da geografia humanista neste campo, chegamos a trabalhos recentes de autores como Lima (2021), Dozena (2020) que estudam os diálogos da arte e geografia humanista. Para interpretar as entrevistas sob o prisma geográfico humanista utilizamos o conceito de lugar sob a perspectiva de Tuan (2013). Como material utilizado, utilizamos entrevistas concedidas por Juliana Gomes e Denilson Baniwa a site especializados que tratam do tema “arte indígena”. Como resultado, notou-se que os discursos dos entrevistados têm semelhanças no que tange ao objetivo da arte indígena: arte enquanto peça fundamental na luta pela (re) existência dos povos e suas culturas, bem como representações de suas respectivas realidades, sensibilidades, visões de mundo e objetivos.

Palavras-chave: Arte originária, Lugar originário, Ciência, Emoção.

Abstract: Humanist geography has devoted minimal attention to Indigenous art, despite having conducted significant research focused on the dialogue between geography and art. Based on this, the aim of this article is to interpret the discourses of Indigenous art within the context of geography, using the concept of place as a backdrop. The possibility of revealing new ways of interpreting geographical reality through Indigenous artistic expressions, such as painting, performance, dance, literature, among others, is another motivating factor for this work. We adopt a qualitative research approach, observing the theoretical and methodological limitations of humanistic geography in this field. We draw on recent works by authors such as Lima (2021) and Dozena (2020), who explore the dialogues between art and humanistic geography. To interpret the interviews from a humanistic geographical perspective, we employ the concept of place as proposed by Tuan (2013). The material analyzed consists of interviews given by Juliana Gomes and Denilson Baniwa to specialized websites that address the theme of "Indigenous art." As a result, it was observed that the interviewees' discourses share similarities regarding the purpose of Indigenous art: art as a fundamental element in the struggle for the (re)existence of Indigenous peoples and their cultures, as well as a means of representing their respective realities, sensitivities, worldviews, and aspirations.

Keywords: Indigenous Art, Indigenous Place, Science, Emotion.

Resumen: La geografía humanista ha trabajado muy poco con el arte originario, a pesar de haber desarrollado investigaciones relevantes orientadas al diálogo entre geografía y arte. A partir de ello, este artículo tiene como objetivo interpretar los discursos del arte indígena en el contexto de la geografía, teniendo como telón de fondo el concepto de lugar. La posibilidad de revelar nuevas formas de interpretación de la realidad geográfica a través de pinturas, performances, danzas, literatura, entre otras expresiones artísticas indígenas, es otro de los motores de este trabajo. Se adopta una investigación cualitativa, observando los límites teóricos y metodológicos de la geografía humanista en este campo. Para ello, se consideran trabajos recientes de autores como Lima (2021) y Dozena (2020), quienes estudian los diálogos entre el arte y la geografía humanista. Para interpretar las entrevistas desde el prisma de la geografía humanista, se utiliza el concepto de lugar desde la perspectiva de Tuan (2013). Como material, se emplean entrevistas concedidas por Juliana Gomes y Denilson Baniwa a sitios especializados en el tema del “arte indígena”. Como resultado, se observó que los discursos de los entrevistados presentan similitudes en cuanto al objetivo del arte indígena: el arte como elemento fundamental en la lucha por la (re)existencia de los pueblos y sus culturas, así como representaciones de sus respectivas realidades, sensibilidades, cosmovisiones y propósitos.

Palabras clave: Arte originario, Lugar originario, Ciencia, Emoción.

INTRODUÇÃO

Os estudos da arte no contexto da geografia humanista tem se intensificado nos últimos anos, é possível observar o aumento de debates através dos eventos como o Simpósio Internacional de Geografia, Literatura, Arte e Turismo que teve sua última edição em 2024, no Rio de Janeiro e São Gonçalo, ambos no Estado do Rio de Janeiro e através do maior evento de pós-graduação no Brasil o Encontro Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia que teve sua última edição em 2025, na cidade de Macapá-Amapá.

Apesar do elevado número de trabalhos sobre o tema recentemente, ainda é incipiente o estudo da geografia e arte originária, se considerarmos o universo desta área. Nesse sentido, este artigo tem como objetivo ensaiar uma discussão em volta da temática artística originária, observando, principalmente, o contexto em que ela é (re) produzida.

O tema da arte indígena inclui pinturas, literaturas, performance, danças etc. São temas sensíveis que guardam histórias, memórias, experiências, visões de mundos que tem muitas semelhanças e diferenças. Os artistas indígenas têm um jeito particular de realizarem suas obras, apesar das dificuldades de financiamentos, de publicações, visibilidades, eles conseguem realizar seus trabalhos que desvelam vidas, modos de vida, a política, a lista é grande, pois a arte indígena não tem uma delimitação estética, ela não segue uma escola de arte, ela é o que acontece, é o agora, como afirma Denilson Baniwa.

O contexto em que as obras artísticas indígenas estão inseridas é uma cadeia de acontecimentos socioculturais, econômicas e políticas dinâmicos. No decorrer do artigo, percebe-se que a construção da arte e do artista é moldada pela capacidade dele (a) absorver e expor os acontecimentos. De fato, as circunstâncias que levam os povos originário a produzirem suas artes é a manifestação de suas indignações, mas também, de demonstrar a beleza que há na vida.

O discurso artístico indígena pode ser analisado no contexto interdisciplinar pela dinâmica apresentada e refletida em muitas obras artísticas. Dessa maneira, não se pode trabalhar com tais falas de modo único, sem margem para outras interpretações científicas. Um único depoimento artístico originário é carregado de complexidades pessoais e profissionais que são reflexos de seus espaços. Desta maneira, este trabalho é cauteloso ao interpretar tais falas que serão demonstradas no decorrer do texto.

Nesse sentido, a geografia entra como um elemento de compreensão desses trabalhos. A ciência (geografia) e a emoção (arte) buscam atravessamentos, pontes para um bem comum, calcados, principalmente, em pensamentos comuns: as experiências com o lugar baseado em uma dinâmica de equilíbrio. O modo de pensar originário associado a interpretações humanista da geografia podem resultar em escalas maiores para a academia e para o povo indígena.

Destarte, o procedimento metodológico é caracterizado pela pesquisa no banco de teses e dissertações do Brasil sobre os temas em questão, além de consultas no periódico da CAPES, onde obtivemos resultados considerados negativos numericamente quanto ao tema da geografia e a arte indígena, a exceção foi a dissertação de Silva (2022) que trata superficialmente da geografia e arte visual indígena. Esse resultado nos levou a considerar trabalhar apenas com as bases teóricas da geografia e a arte produzidas por não indígenas.

O suscinto referencial teórico atendeu a necessidade de discussão que propusemos apresentar neste artigo. Para isso, contamos com os trabalhos de Lima (2021), Silva (2022), Marandola Jr. (2010), Dozena (2020) onde correlacionam os estudos da geografia enquanto uma ciência que dialoga com a arte para a compreensão das diversas realidade existentes no contexto espacial do lugar. O conceito geográfico de lugar é abordado segundo as concepções de Tuan (2013) que fala que o lugar é o espaço de afeto, de segurança. Dessa maneira, podemos dizer que o presente artigo utiliza como método a fenomenologia de Tuan, onde as experiências dos artistas são postas como fenômenos.

Como material utilizado para a discussão deste artigo, consideramos trabalhar com entrevistas de dois artistas indígenas disponível na internet, em sites especializados: Juliana Gomes e Denilson Baniwa. Cada um com suas especificidades. Juliana pertence ao povo Xokleng, originário do atual Estado de Santa Catarina. Ela tem 25 anos, é palestrante e artista visual autodidata, trabalhando com arte digital, construção de identidade visual, ilustrações de livros, muralismo, óleo e acrílica sobre tela, entre outros. Aborda em suas obras questões como anticolonialidade e ancestralidade a partir de técnicas diversas e interdisciplinares. Assina seus trabalhos como Jaguatirika, apelido pelo qual seu avô a chamava[1].

Já Denilson Baniwa é Vencedor do Prêmio Pipa Online em 2019. Denilson Baniwa se descreve como um artista indígena, que é indígena e é artista. Nascido em uma comunidade do povo Baniwa no Rio Negro, no estado do Amazonas, o artista fala em entrevista à ARTE! BRASILEIROS sobre a sua inserção no circuito das artes, sobre decolonialidade, apropriação cultural e o sagrado[2]. Os dois artistas tem trabalhos com relevância nacional e internacional. O acesso aos artistas é bastante burocrático devido à suas agendas, logísticas e limitações geográficas, apesar de eles terem contatos públicos através das redes sociais, ainda assim, é contato pessoal e presencial é difícil. Desta maneira, não podemos entrevistá-los diretamente.

Após, a confecção da parte teórica e metodológica, organizamos as falas dos artistas em destaque e procuramos associar com os estudos geográficos, dentro de um contexto específico, a geografia humanista. Nesta parte, que configura os resultados e discussões, notamos que os discursos dos entrevistados têm semelhanças de ideias, de objetivos, de representações, da importância de seus trabalhos para a comunidade e para si.

Por fim, nas considerações finais retomamos o tema em questão de reafirmamos a importância de nos envolvermos sobre os estudos da arte e da geografia humanista, ainda há muito o que se discutir, principalmente na parte teórica metodológica.

METODOLOGIA

Este artigo apresenta uma abordagem qualitativa, pois entendemos que a geografia é uma ciência que apresenta características que se contrapõem ao método dominante que é caracterizado principalmente pela abordagem quantitativa. A pesquisa qualitativa é importante para a ciência geográfica porque proporciona uma interação e expande a compreensão sobre os fenômenos sociais e individuais em conjunto com suas experiências. De acordo com Godoy (1995), a abordagem qualitativa na geografia permite o tensionamento com o paradigma dominante, além disso, proporciona aberturas para diversas interpretações sobre o fenômeno, dessa maneira, evitando reducionismos. Destarte, a abordagem qualitativa é coerente com o que propomos neste trabalho, que é verificar as visões de mundo dos artistas originários.

Em relação ao procedimento técnico, podemos dizer que este trabalho é de caráter bibliográfico, uma vez que utilizamos trabalhos já publicados como material de pesquisa. Neste sentido, consultamos fontes online como a plataforma de artigos da CAPES, banco de dissertações e teses do Brasil e entrevistas publicadas na internet dos sujeitos aqui apresentados (Juliana e Denilson). Para a pesquisa nas plataformas utilizamos as palavras-chaves “arte indígena e geografia humanista” consultando os 10 últimos anos. O resultado desta consulta é considerado ínfimo, uma vez que não tem mais de 5 trabalhos especificamente nestes campos nas duas plataformas.

Optamos pela análise e interpretação das entrevistas publicadas na internet devido ao contratempo que se seguiu para contactar os artistas Denilson Baniwa e Juliana Gomes. Por terem agendas cheias e termos que falar com seus agentes, ficou inviável o tempo entre a construção desse trabalho e a espera em nos encaixarmos em suas agendas. Como as perguntas nas entrevistas online correspondiam com os objetivos e aspectos desta pesquisa optamos por trabalhar com elas.

Outro aspecto na escolha destes artistas está em sua origem. Denilson é do norte brasileiro, enquanto Juliana é do sul. Este contraste geográfico é essencial para responder perguntas como: “o objetivo dos artistas originários é semelhante ou diferente em diversas partes do país?”. Além disso, a experiência foi levada em consideração: Denilson é mais experiente, tem mais anos de carreira, enquanto Juliana é mais nova.

Com esses aspectos, consideramos trabalhar e identificar, neste artigo, as seguintes questões norteadoras em relação aos dois artistas: o que é a arte? para que serve a arte que eles produzem? qual o papel da arte para o povo originário? Os trabalhos produzidos desvelam suas experiências e vivências?

Quanto ao método, utilizamos a fenomenologia a partir de Eric Dardel (2011) que apresenta a relação do homem com a terra, em alguns momentos num sentido visceral. Como o contexto de produção dos artistas originários envolve a sua experiência com a sua terra natal, entendemos o uso de Dardel como coerente.

A GEOGRAFIA E ARTE

Holzer (2020) em seu artigo Geografia humanista e as humanidades: por uma epistemologia fenomenológica discute a possibilidade da ciência integra-se à arte (vice-versa). Certamente a proposta é ousada, visto que os dois campos do conhecimento têm suas particularidades, no entanto, há semelhanças, principalmente das (re) produções que a arte apresenta: expressões a partir da realidade humana. Segundo Holzer (2020, p. 144), “A literatura e as artes não são meros instrumentos de apoio para o estudo e o conhecimento geográfico, na verdade fundamentam o conhecimento do ser-no-mundo, ou seja, do que trata em essência a geografia.”

De acordo com Lima (2021), a relação entre a geografia e a arte remontam ao período pré-histórico, utilizando aqui as informações da História, as pinturas rupestres onde os humanos ancestrais registraram parte dos seus cotidianos. Através desta afirmação notamos que a arte é um reflexo de um contexto específico no tempo e no espaço. A geografia enquanto uma ciência que estuda as diversas manifestações humanas ao longo do tempo destaca que a arte é essencial para a compreensão de diversas sociedades.

Souza Junior (2024) afirma que a aproximação das duas áreas vem com um conjunto de processos inacabados e com um horizonte de perspectivas ainda inexploradas, pois a cada novo contexto, há uma nova manifestação artística. Segundo o autor, “trata-se de praticar as artes da geografia para semear novos mundos (im)possíveis que estão para além das possibilidades das linguagens que com as quais muitas(os) geográfas(os) estão acostumadas(os) (Souza Junior, 2024, p. 22).

Os autores Lima (2021) e Souza Junior (2024) constroem seus trabalhos no contexto teórico metodológico humanista. O primeiro elabora o trabalho baseado no cotidiano das pessoas amazônicas através de anos de observação, nas peculiaridades das moradias (urbana e rural) amazônicas e os seus habitantes no seu contexto de vivências. Lima elabora estas obras em categorias geográficas específicas: lugar e paisagem na perspectiva da geografia humanista. Já Souza Junior elabora uma análise de muitas expressões artísticas (performance, dança, pintura, dança etc.) e conclui que tais expressões são em sua maioria propensas a novos caminhos metodológicos, teóricos e linguísticos nos estudos geoartísticos humanistas.

Silva (2022) elaborou uma abordagem geoartística especificamente sobre o povo indígena, na ocasião, utilizou como referência trabalhos do artista macuxi Jaider Esbell, onde fez interpretações de pinturas relacionando a conceitos trabalhados pela geografia humanista: sonho, devaneio, imaginário, o telúrico (este último abordado indiretamente). Este trabalho destacou a importância das expressões indígenas enquanto representatividade dos modos de vida e do cotidiano do povo macuxi. Além disso, outra expressão artística retratada no trabalho deste autor é a literatura, onde, mais uma vez, é posto a vida do líder yanomami Davi Kopenawa Yanomami enquanto reflexo do contexto que experiencia.

Desta maneira, Silva (2022) defende e demonstra que as expressões artísticas indígenas desvelam experiências, memórias, histórias que são resultados de contextos próprios, cabendo (em parte) à geografia humanista fazer uso, (res)guardar e estudar tais expressões como legítimas geografias para a compreensão dos diversos lugares e paisagens.

Para Marandola Jr. (2010), a arte e a geografia dialogam de forma bastante colaborativa. Uma obra de arte é um pensamento de pensamento e liberdade. As obras de artes são dotadas de significados. Desta maneira, constatamos que a arte fala por si só. Ela vai evoluindo à medida que influências externas vão se agregando a ela. “A Geografia tem aprendido muito nos últimos anos com escritores, com artistas plásticos, com cineastas e principalmente com aqueles que possuem o conhecimento geográfico experiencial, vivido” (Marandola Jr., 2010, p. 23).

Os exemplos apresentados confluem com o discurso demonstrado por Dozena (2020) ao apresentar o Antes arte do que nunca, que apresenta sensibilidade de uma geografia (sensível) às expressões artísticas que desvelam os lugares, as paisagens acompanhadas de suas memórias, experiências, sonhos, sentimentos, valores, entre outros exemplos da condição de existência humana.

O sentido da arte originária na/para Geografia

Silva (2022), em sua dissertação destacou que a arte indígena na geografia tem um viés diversificado. O tema varia de sonhos, representação do modo de vida, flora, fauna a denúncias de crimes ambientais. Para Silva (2022), os artistas originários buscam, através de suas experiências pessoais adquiridas ao longo dos anos, retratar os seus sentimentos e visão de mundo.

Nas pinturas, o autor em questão demonstrou que os retratos de artistas como Jaider Esbell em sua maioria eram reflexos de uma memória recheada de história do seu Estado de origem, Roraima. Como exemplo, ele retratou em uma de suas obras o período em que o povo macuxi recebeu o gado bovino como forma de proteger e ocupar suas terras. No mesmo tema, ele retratou o que a chegada desses gados bovinos trouxe para o povo macuxi: disputa territoriais e crimes graves como o homicídio, resultado de conflitos com fazendeiros e outros não indígenas da época.

Além do plano material, há o sensorial, o abstrato. O sonho é amplamente trabalhado por Jaider Esbell e Silva (2022) o discutiu através da poética bachelardiana. Através da interpretação, notou-se que Esbell retratava o plano cosmogônico originário e que esses sonhos tinham ligações diretas com a sua própria realidade e a de outros povos originários e mais, de todo um povo, visto que as interferências humanas no meio ambiente de forma agressiva colaboram para o desiquilíbrio ecológico que afeta o modo de viver da sociedade em geral.

Silva (2022) demonstrou, também, que as pinturas são mais que uma representação. O autor demonstra que esses trabalhos são maneiras de interpretar os múltiplos lugares e paisagens de muitos povos indígenas, afinal, cada povo tem suas particularidades. Com essa discussão, percebe-se que temos um núcleo geográfico presente: a geograficidade. A geograficidade dardeliana é considerada neste contexto, pois evoca o sentido literal do ser humano à sua terra, há uma relação visceral com o solo natal.

Esta característica dardeliana é presente nas artes originárias. O sentido de pertencer a terra é vista em Jaider Esbell através de suas pinturas. Até mesmo nas performances que ele apresentava tinha este apego ao solo natal. Logo, podemos dizer que o trabalho de Silva (2022) tem a característica de introdução aos estudos das artes visuais indígenas no contexto da geografia.

A ARTE ORIGINÁRIA

O caso de Juliana Gomes

Segundo a artista Juliana Gomes, a arte é inerente à vida humana, desse modo, todos podem ser considerados artistas deste ponto de vista, e para ela, a arte sempre foi importante.

“A arte sempre esteve presente na minha vida e sempre fui artista, desde que nasci. Todo mundo ou quase todo mundo sempre pintou quando criança, sempre fez experimentações ou ouviu e sentiu as músicas que a natureza faz, seja o som dos ventos, ou dos pássaros, ou do ruído das águas de um rio. Eu só nunca parei de fazer nada disso. E isso acontece para mim porque a arte enquanto uma instituição, isolada do que naturalmente é a vida, é uma invenção europeia. É a mania ocidental de desnaturalizar tudo aquilo que é natural e colocar em compartimentos em que só alguns teriam acesso e fariam parte.” (Gomes, 2022, online)

O fato de a arte integrar a vida do ser humano corrobora a reflexão de Holzer (2021), que a ciência enquanto promotora do saber, deve incluir em suas ações os sentimentos humanos, que neste caso, se expressa a partir da arte criação. Fica explícita, também, a materialização utilitarista das coisas, nos moldes eurocêntricos, que implicitamente é traduzida no sistema capitalista. A artista nos indica que fazer e saber-fazer a arte influi diretamente no sentido-existência. Deste ponto de vista, é importante registrar que a poética descrita por ela é quebrada ao tornarmos tudo uma coisa só: mercadoria.

Destarte, a artista indígena, ao falar sobre arte, destaca que sua arte é voltada para denúncia e educação. Ela destaca suas características e, também, as de sua arte. Ao ser questionada sobre o que a leva a pintar, ela responde:

“Meu trabalho é em sua maioria arte denúncia e arte educação. Meu objetivo a curto prazo é levar nossas narrativas e demandas a lugares que talvez não chegassem sem ela. Quando eu pinto eu consigo ampliar nossas vozes e cosmovisões que são silenciadas, é uma forma de nos verem e nos ouvirem. A mensagem que eu quero passar é que estamos vivos e lutando, que precisamos de aliados e que temos alternativas.” (Gomes, 2022, online)

A afirmação de Juliana demonstra uma característica de propagação de políticas públicas que ainda são incipientes quando falamos em políticas voltadas para os povos originários e mesmo as pessoas marginalizadas como um todo. A sua arte consegue alcançar muitas pessoas em pouco tempo se comparado com o trâmite político legal. Isto é, as redes são fortes colaboras de seus trabalhos. Essa é uma característica compartilhada por uma outra artista indígena, a Daiara Tukano. Segundo ela:

“Com certeza a obra de músicos, pintores e influencers indígenas alcança um público muito além do que os que já acompanham a pauta discutida no Congresso. Nossas expressões artísticas e nosso engajamento político são fundamentais para nossa luta e para envolver cada vez mais gente. No Enem, tinha uma questão sobre os povos tradicionais e recebemos um retorno incrível de alunos contando que citaram nossas obras. Muitos me contaram que conheceram meu trabalho no Cura [circuito de arte urbana de BH]. De outra maneira, talvez essas pautas demorariam a chegar a esses adolescentes — ou nunca chegariam.” (Tukano, 2023, online)

Este depoimento de Daiara reforça a importância e a característica da arte indígena: arte para além da estética. Apesar disso, ainda reforçamos a característica basilar da fala de Juliana: a denúncia através da experiência de vida. A característica dinâmica da geografia humanista deve se agregar ao conjunto de obras indígenas à medida que novas formas de interrelações são desveladas. A noção e a importância dos saberes indígenas expressas através das artes são propulsoras do avanço científico, conforme ressaltou Holzer (2021).

Juliana reforça que a arte indígena é uma arte milenar. A artista destaca a importância do ativismo junto à arte. A arte é essa luta, a luta cotidiana pela manutenção da vida originária, e destaca-se que essa é uma das muitas maneiras de lutar pela preservação da vida. Tal luta é pessoal e coletiva do ponto de vista dela. É pessoal quando se trata dela se permitir viver o processo e coletiva enquanto é parte integrante de um povo originário. Dessa maneira ela ressalta o que é necessário e importante: “para mim é fundamental me permitir ser artista, porque me permitir ser artista é me permitir ser. Nem sempre tive essa coragem. Mas não quero deixar mais nenhuma parte de mim para trás” (Gomes, 2022, online).

A contribuição de Juliana está no fato dela fazer o uso de sua percepção para expressar suas pinturas, suas ilustrações; da experiência, apesar de ser muito jovem, para desencadear formas de expressões a partir das leituras de mundo que ela tem acesso e da memória, que percebemos como a fonte maior de sua atividade, visto que ela diz que a arte indígena é milenar. Ela volta ao centro de sua existência, associando-se a muitos elementos constitutivos de sua vida.

O caso de Denilson Baniwa

O multiartista indígena Denilson Baniwa fala sobre a arte:

“Essa questão da arte indígena em contraste à arte “considerada arte” é uma coisa que já vem sendo discutida há bastante tempo. Acho que até antes de ter essa galera toda indígena trabalhando e circulando. Acho que o diferente agora é que tem esse tanto de artistas indígenas com um poder de aproximação e de voz bem marcante, que consegue conversar e dizer um ponto que não era visto antes, que é a partir dessas pessoas indígenas. Para a gente, não tem essa diferença entre arte e vida ou arte e resistência assim como tem no Ocidente, onde a arte é um instrumento de poder em relação a outros seres humanos. Mas quando esses artistas indígenas se propõem a circular de uma maneira que se utiliza de linguagens não indígenas também é uma estratégia de conversar por uma língua que seja entendido por quem não faz parte dessa cultura. Acho que se a gente começasse a trabalhar com códigos que só, por exemplo, os Baniwas entendessem ficaria difícil para o meu trabalho conversar com quem não é Baniwa.” (Baniwa, 2020, online)

Nesta fala, é importante notar que o Baniwa não delimita ao tempo e ao espaço o que seria a arte indígena. A noção que ele demonstra é que a arte indígena sempre esteve presente, no entanto, com pouca visibilidade. Tal afirmação é consoante às considerações de Lima (2021) e de maioria dos geógrafos que estudam a relação arte-geografia, um diálogo antigo. Ao considerarmos o tempo e os temas que a geografia tratou dessas interlocuções, podemos afirmar que o contexto social sempre esteve no foco de tais diálogos, e nesses casos, são variados.

No entanto, ao especificarmos, Baniwa fala diretamente sobre a percepção do ser no meio em que está, no caso indígena: a sobrevivência. A arte é uma linguagem, dessa maneira há motivos e objetivos para a sua existência. Quando ele fala que não há diferença entre a arte e vida, ele introduz a ideia de que o milenar conhecimento indígena é acessível a todos. Há um meio para esse diálogo, que a citação infere: tolerância e consensualidade. Os trabalhos artístico indígenas ao serem “aprovados” para exibição, por exemplo, abrem espaços democráticos, favorecendo dessa maneira a fluição da linguagem artística indígena, levando consigo toda uma especificidade de um povo.

Em outro momento, Baniwa diz que a comunicação foi fundamental para sua expressão artística. Contatos com a imprensa e círculos que tratavam de arte, de circuitos, enfim, de modos do fazer acontecer. Dessa maneira, o artista focou totalmente em ser artista.

“Tive um contato grande com esse grupo que trabalhava no MAR – Museo de Arte do Rio. Por acidente, eles conheceram alguns trabalhos meus e comecei a conversar com esses curadores sobre a presença indígena dentro desses espaços. Eu já tinha algumas discussões sobre comunicação, sobre acesso à informação e à mídia. E começamos a falar sobre isso a partir de uma perspectiva da história da arte. Acabou que me envolvi bastante com esse grupo e começamos a levar essa discussão a outros lugares, para algumas galerias e para as universidades. Aos poucos, as pessoas foram conhecendo alguns trabalhos meus. Na verdade, eu sempre trabalhei com visualidade. Não sei dizer uma data exata em que eu passei a me considerar artista, só sei que quando vi estava com meu tempo todo dedicado a isso e não conseguia mais sair. Foi quando notei que não conseguia dar conta de mais nada além de ser artista.” (Baniwa, 2020, online, grifo nosso)

É importante registrar que os contatos são importantes para um artista ganhar visibilidade. Baniwa relata um momento chave de sua carreira e do fazer artístico: a organização de seus trabalhos a partir de contatos. Tais contatos que é mencionado pelo artista estreitaram a linguagem artística originária com o universo não indígena. É a esse tipo de contato que o artista se referia. A arte não anda por si, precisa de um condutor. Apesar de pertencer a um contexto, ela se faz necessário a partir das produções humanas. Em outras palavras, o trabalho é feito, mas não significa, não tem o impacto se ficar num espaço restrito, ele tem de ser publicado e divulgado. E Baniwa conseguiu esse feito, é claro que tem as questões econômicas, políticas, espaciais, mas esses fatores tornam-se estimulantes a já sobrecarregada arte indígena.

Lima (2021) e Silva (2022) fazem referências a produções mais regionais quando destacam artistas que retratam enfaticamente a realidade em que vivem, isto é, um espaço mais íntimo que não é conhecido pela grande parcela da população. Lima destaca as pinturas regionais especificadas em ambientes como a floresta amazônica, a habitação, o modo de viver amazônico, enquanto Silva apresenta a pintura roraimense a partir de Jaider Esbell que retrata situações e ambientações mais locais, isso é claro, antes de ser amplamente divulgado no meio artístico. Esses exemplos são evidências de que, a exemplo, do Baniwa, o local se torna reconhecido nacionalmente, até mesmo internacionalmente, mas só a partir dos meios exatos. E isso significa não ficar restrito a um pensamento, tem de haver abertura linguística, de pensamento e política.

Além disso, podemos dizer que Baniwa, conectou-se a uma realidade que estava além de suas experiências, visto que o ser artista é uma construção. Apesar de toda a sua vivência, o fator “contatos” influenciou bastante a sua formação. Percebe-se, portanto, que a transformação ou processo do artista originário é um intenso atravessamento, concordando com Marandola Jr. (2010) ao mencionar que o fazer artístico é um processo dinâmico e a própria arte vai se revelando, modificando-se à medida que vai acontecendo a troca de experiências entre o artista e a sua linguagem.

Denilson Baniwa destaca, também, a influência que tem de seu povo na contínua formação que passa. Além do povo, há a contribuição de outros artistas indígenas, em especial Jaider Esbell. Para ele, o fazer artístico é instintivo e coletivo. A arte originária depende de pares para fazer a sua transformação. Sem esse elemento, a arte não tem sentido. Afinal, é uma luta entre o fazer e a prática. A arte originária é coletiva (Baniwa, 2020, online)

“As ações e o trabalho têm que ser maiores que a nossa vaidade, talvez essa fosse a melhor tradução. E outra coisa que me faz pensar sobre o que quero falar e o que posso falar, não que seja uma obrigação – mas é como eu entendo –, é você viver nesse mundo sem envergonhar o seu povo. E acho que isso é uma coisa que eu quero levar. Eu quero viver nesse mundo em que meu povo possa se orgulhar sabendo que não vou prejudicá-los, porque sei que o único lugar que eu posso voltar é para o meu povo. Eu posso fazer muito sucesso aqui, posso viajar muito, posso ganhar mil coisas onde estou neste momento. Mas, se um dia algo der errado, o único lugar que vai me aceitar é junto do meu povo.” (Baniwa, 2020, online)

O discurso artístico indígena e a geografia humanista

As falas da jovem artista Juliana Gomes e do renomado multiartista Denilson são importantes para este estudo, pois especificam uma característica já mencionada neste trabalho: o amor à terra, ao solo, à casa.

Para fundamentar esta afirmação, deve-se primeiramente apresentar o elemento centralizador desta discussão: o lugar. Na geografia, usando o conceito de Tuan (2013), o lugar é onde nos sentimos seguro, é a nossa casa e até mesmo a pátria. Nesse sentido, os artistas nos levam a entender, através de seus discursos, que todas as suas ações são inspiradas na defesa deste lar, a sua terra natal. Ao falarem sobre o seu povo, os seus parentes, estão evocando a memória coletiva e o modo de ser e estar, assim, podemos dizer que são elementos basilares da geografia humanista.

Outra característica identificada nas falas dos artistas se deve ao fator identidade. Apesar de não estar explícito, mas suas falas implicam sobre o conceito da identidade, de quem eu sou. A busca pelo eu, o retorno ao eu é uma discussão que a geografia humanista trata ao dialogar com a alteridade. Esta é uma característica descrita por Tuan (2013) ao falar que o lugar é dotado de pessoalidade, logo, de identidade única.

A experiência também é notória no discurso apresentado neste trabalho. Os artistas têm seus trabalhos pautados na busca pela preservação de sua origem, de sua identidade, de seus lugares. Essa busca é diretamente influenciada pela experiência de cada um dos artistas, confirmada a partir da fala como “a arte está sempre me acompanhou” ou “eu sempre trabalhei com a visualidade”. O geógrafo Tuan (2013) fala que a experiência é inerente ao ser humano, que o lugar é construído a partir deste elemento.

A valorização do lugar é vista na fala de Denilson ao mencionar “Mas, se um dia algo der errado, o único lugar que vai me aceitar é junto do meu povo.” Esta valorização muitas vezes é mencionada a partir da identificação do ser junto ao seu lugar de origem, é aquilo que nunca deixou de ser, é a essência da ligação entre o homem e o seu solo natal, conforme caracteriza Eric Dardel (2011), outro relevante geógrafo.

Os espaços descritos por Eric Dardel são costumeiramente inferidos no processo de construção das artes indígenas, em especial as pinturas, que enfatizamos neste texto. Um desses espaços que Dardel trata é o telúrico. Ao pensarmos as falas dos artistas originários, podemos alinhá-las com os exemplos dardelianos de espaço telúrico. É uma constatação geográfica humanista que utiliza os sentidos humanos junto ao espaço onde se cria a própria arte, isto é, as experiências dos artistas com o seu espaço através do tempo se tornam “matérias-primas” para os “seus produtos”.

Cabe destacar que os exemplos de Dardel para o espaço telúrico, embora em ambientes diferentes das realidades originárias brasileira, usam os mesmos elementos que há por aqui: os rios, as montanhas, o modo de viver junto ao meio. Esta realidade geográfica é, por si só, inspiração e reflexos artísticos, usados, claramente para um fim (olhando sob o prisma da geografia humanista): representar um determinado modo de vida. (Re) tirando o papel político destes artistas, o que notamos é uma expressão mais que artística.

Mais que artística, pois envolve diversos atores e camadas de contextos que não cabe discutirmos neste texto, como por exemplo: povos originários e lutas pelas demarcações de terras, preservação cultural, direitos enquanto cidadãos. O que os pensamentos dos artistas neste trabalho mencionados nos referenda é uma arte-denúncia e autoidentificação pessoal enquanto representantes de um povo. Neste sentido, a arte originária alcança ou busca uma autorrepresentação telúrica e ao mesmo tempo “serve” como contraponto a uma cultura de massa.

Quanto a esse contraponto, é oportuno destacar que Silva (2022) diz que não há motivos para tal situação ser necessariamente uma “rivalidade” entre o que é o “bom” e o que é o “mal”, muito além disso, ele se insere como uma discussão de complemento de conhecimentos. A cultura de massa, à medida que avança sobre os modos de vida originário, este se adapta e procura meios de sobressair. O autor usa como exemplo, a internet, onde esta poderia simplesmente modificar negativamente a vida dos povos originários, mas ela é como ferramenta de divulgação dos seus modos de vida.

Percebe-se, neste sentido, uma aproximação entre os artistas originários com as diversas realidades no contexto atual. Juliana, ao destacar que não quer deixar nenhuma de suas partes para trás, isto é, seu modo de vida como um todo, está num processo de transformação do mundo. O próprio Tuan indica que a arte é uma maneira de compreender e observar as mudanças no espaço, são expressões do lugar, são meios de compreender a experiência do lugar.

Sendo a arte uma expressão do lugar, podemos dizer que a geografia humanista pode intervir nos lugares, difundir conhecimentos e demonstrar novas formas de ensino. Muito além da representação, através de múltiplas dimensões, há, portanto, um encontro complexo de “sentimentos e afetividades que pode refletir e alterar a forma de ser-no-mundo” (Magalhães; Paiva; Brito-Henrique, 2024, p. 132)

Esta caracterização e reflexão exposta por Magalhães Paiva e Brito-Henrique (2024) pode ajudar a nos esclarecer o que seria ou é a expressão “mais que artística”, embora tenhamos elencado inicialmente a noção de ativismo. Parece-nos que esta noção se apresenta nessa reflexão como uma abordagem que passa os limites caracterizados pelo telúrico ou mesmo a noção de lugar, é claro que todos estão interligados, afinal, são conceitos que guiam esta discussão. Contudo, os autores apresentam a noção de uma arte imbricada com a filosofia, “estilo” este que conflui para a abordagem dos artistas originários, conforme vimos na seção anterior a esta.

Salvo as discussões mais aprofundadas da geografia com a filosofia caracterizada em seus trabalhos, Magalhães et al. (2024) apresentam a ideia de uma arte como lente de observação, representação e comunicação, dos lugares que em outros meios científicos convencionais não seria possível observar, há, portanto, uma geografia dos lugares nas pinturas e artes originárias como um todo.

Desta maneira, podemos dizer que o lugar e a geograficidade de Dardel como aparato conceitual são maneiras de chegarmos a uma experiência geográfica humanista dentro das artes originárias que, mais uma vez, são multidimensionais por si só. Os discursos de Juliana e Denilson sobre suas artes refletem o que há de maior no ser humano: a sua dependência e sintonia (ou não) com o meio em que vive.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As discussões entre a ciência geográfica e a linguagem artística, especificamente a arte originária demonstram que o saber originário pode e é valorizado através de suas expressões. A arte originária é dotada de profundidades que os artistas, via pinturas, performance, instalações etc., exibem em circuitos importantes no Brasil e no exterior.

Torna-se necessária a discussão integralizando o contexto geográfico humanista como um viés de compreensão dessas novas maneiras de expressão no espaço, na paisagem, no lugar, no território etc. Além disso, é uma maneira de exercitarmos as coletividades que tanto foi falado durante o texto para fins específicos: meio ambiente, por exemplo. Vimos que os artistas estão engajados para além da estética, o que eles querem é dizer que vemos o mundo sendo deteriorado e não fazemos nada, isto é, ocorre um processo predatório do meio e há, embora proibido, permissão para isso.

Tais permissões são de cunhos políticos que utilizam instrumentos jurídicos para realizar atividades que desarticula o meio ambiente e a sociedade indígena. É certo que o foco deste artigo não é tratar disso, mas é importante ressaltar que os discursos de Juliana e Denilson revelam uma profundidade relevante, pois seus trabalhos artísticos não são meramente estéticos. Conforme visto no texto, os lugares dos povos originários são estrategicamente afetados por motivos econômicos e políticos, embora haja territórios protegidos por lei.

Este trabalho demonstrou que a geografia do lugar é um instrumento crucial para o fortalecimento dos estudos humanistas dentro da relação arte e geografia. É uma maneira de (re) pensar o papel da ciência geográfica no cotidiano originários, é certo que este é um trabalho específico, mas serve como construção de uma geografia voltada para concepções originárias num espaço ainda pouco difundido: a geoarte indígena.

Além disso, a valorização dos artistas originários se torna essencial neste contexto de referências para a luta ambiental, cultural, a busca por uma convivência pacífica com o meio, a valorização dos seus lugares, dos seus espaços de memórias e dos seus conhecimentos. Torna-se necessária a abordagem geográfica artística para além das pinturas, é sobre um modo de viver que a sociedade capitalista nos priva, o da consciência de que pertencemos a este mundo e não somos “donos dele”.

Portanto, a geografia humanista e a arte indígena são essenciais para a construção de uma ciência democrática, ativista, onde a razão e a emoção se complementam desvelando conhecimentos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. Tradução: Lívia de Oliveira. Londrina: Eduel, 2013.

Notas

[1]I Informações retiradas sem modificações no sítio eletrônico disponível em: https://www.behance.net/jaguatirika?fbclid=PAZXh0bgNhZW0CMTEAAaevmMmOyKt9IuQq7g9_jTHBkyRxxxqNjt3UYScDtepihJG-sdCsGCwPjKzhbQ_aem_-VPGUWk_gDrQTmJMdl6R9Q . Acesso em: 18 jan. 2026.
[2] Informações retiradas sem modificações no sítio eletrônico disponível em: https://artebrasileiros.com.br/arte/entrevista/a-arte-nao-se-desliga-da-vida-baniwa/. Acesso em: 15 jan. 2026.


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