Recepção: 28 Agosto 2025
Aprovação: 03 Setembro 2025
Resumo: O espaço é um conceito generalizado em muitas disciplinas, particularmente na geografia da qual representa um tema fundamental. No entanto, as definições expressas por esta ciência nem sempre são claras e demoraram a se estabelecer. Este trabalho tem como objetivo abordar a ideia de espaço e a mudança de significado que o termo assumiu em diferentes momentos do desenvolvimento da disciplina. Em particular, o estudo investiga sua atual concepção emocional que, oriunda de paradigmas perceptuais e culturais, focaliza os valores espirituais, inspirando espaços afetivos. São áreas espaciais que, para além dos elementos naturais e objetivos que as caracterizam, estimulam percepções íntimas e subjetivas, acentuando os seus tons e momentos. A visão emocional investiga a estrutura dessas realidades, vivenciando-as com o envolvimento da polifonia dos sentimentos e sentidos. O que significa reunir toda a gama daqueles momentos do espírito que, dependendo dos casos, podem de tempos em tempos ser definidos como intuições, emoções, sentimentos, sensações, nostalgia, sensibilidade, curiosidade, sonhos e fantasias ou - negativamente - repulsões, desconfortos, aversões, medos. A evidência interna resultante leva a uma compreensão mais completa e profunda do mundo.
Palavras-chave: Geografia, Emoções, Fenomenologia, Géographie, Émotions, Phénoménologie..
Abstract: Space is a widespread concept in many disciplines, particularly in geography, of which it represents a main theme. Yet, the definitions expressed by this science are not always clear and have been slow to establish themselves. This paper aims to deal with the idea of space and the change in meaning that the term has taken on at different stages in the development of the discipline. In particular, the study investigates its current emotional conception which, originating from perceptual and cultural paradigms, focuses on spiritual valences, inspiring affective spaces. These are spatial areas that, beyond the natural and objective elements that characterize them, stimulate intimate, subjective perceptions, accentuating their tones and moments. The emotional vision investigates the structure of these realities, experiencing it with the involvement of the polyphony of feelings and senses. Which means convening the entire range of those moments of the spirit which, depending on the case, can be defined as intuitions, emotions, feelings, sensations, nostalgia, sensitivity, curiosity, dreams and fantasies or — negatively — repulsions, discomforts, aversions, fears. The resulting internal evidence leads to a more complete and profound understanding of the world.
Keywords: Geography, Emotions, Phenomenology.
Résumé: L’espace est un concept répandu dans de nombreuses disciplines, en particulier la géographie dont il représente un thème fondamental. Pourtant, les définitions exprimées par cette science ne sont pas toujours claires et ont tardé à s’affirmer. Cette contribution vise à traiter l’idée d’espace et le changement de sens que le terme a pris dans les différents moments de développement de la discipline. En particulier, l’étude explore la conception émotionnelle actuelle qui, provenant de paradigmes perceptifs et culturels, se concentre sur les valences spirituelles, inspirant des espaces affectifs. Il s’agit de domaines spatiaux qui, au-delà des éléments naturels et objectifs qui les caractérisent, stimulent des perceptions intimes et subjectives en accentuant leurs tons et moments. La vision émotionnelle explore la structure de ces réalités, l’expérimentant avec l’implication de la polyphonie des sentiments et des sens. Ce qui signifie convoquer toute la gamme de ces moments de l’esprit qui, selon les cas, peuvent être définis intuitions, émotions, sentiments, sensations, nostalgie, sensibilité, curiosité, rêves et fantasmes ou - au négatif - répulsions, désagréments, aversions, peurs. Les preuves intérieures qui en résultent conduisent à une compréhension plus complète et plus profonde du monde.
INTRODUÇÃO
A ideia de espaço, embora fundamental na geografia, conheceu um longo e incerto caminho na história da disciplina. Depois de ter tomado vários significados, o conceito chegou à noção de espaço emocional.
Os espaços emocionais, ou espaços de emoções, são extensões, vastidão, que não possuem apenas dimensões materiais, topográficas, mas são realidades conhecidas em sua natureza menos óbvia através do envolvimento da sensibilidade humana, entonações e cores da alma. São mundos de existência cujo interesse envolve o sujeito e a subjetividade. Contrastam com os campos da geometria que propõem uma distância entre o sujeito e o objeto do conhecimento, orientando-se para estruturas racionais rigorosas e excluindo a percepção e a afetividade.
A fascinante direção emocional da geografia humanística, em sua perspectiva cultural, lida com extensões semelhantes, internas e profundas, que concentram forças espirituais e reações afetivas.
Este endereço representa o momento mais íntimo da geografia: uma geografia do espírito, atenta às experiências subjetivas, definíveis como sentimentos ou sensações, se eles vêm dos sentidos. Trata-se de detectar as características perceptivas, os fenômenos afetivos que distinguem as reações psíquicas do indivíduo e integram sua experiência do mundo, permitindo-lhe captar a centelha, a essência que anima as coisas.
Com a configuração emocional, a disciplina tenta responder à necessidade de reentrar na realidade com todo o sentimento. Convida-nos, portanto, a compreender espaços, territórios e lugares, e a penetrar na sua interioridade, no ruído de fundo que ali se esconde. É uma visão que questiona a realidade em busca de sua álgebra invisível, em reconhecimento de sua cifra. É a inclinação para examinar a infinidade de imagens e mensagens que surgem dela e as impressões que são projetadas sobre os indivíduos e depois estratificadas nos próprios espaços.
Considera-se toda a gama desses momentos do espírito que podem, de tempos em tempos, ser definidos como intuições, emoções, saudades, sensibilidade, curiosidade, sonhos e fantasias ou — negativamente — repulsões, desconfortos, aversões, medos.
O estudo das reações afetivas pode ser rastreado até a perspectiva psicológica já presente na geografia muito antes da virada cultural. É a orientação que promove um projeto de psicogeografia: uma aliança entre psique e geografia que sugere viver a realidade mais consciente e profundamente e inspira a geografia emocional.
Em 2006, o Atlas das Emoções (Atlante delle emozioni) foi publicado na Itália. Trata-se de um volume de Giuliana Bruno, professora de Visual and Environmental Studies na Universidade de Harvard. O texto original apareceu em 2002 nos Estados Unidos, onde foi recebido com grande apreço. A ressonância da publicação, cujo título chama a atenção para o atlas, ferramenta pedagógica por excelência do conhecimento geográfico, contribuiu para popularizar a definição de “geografia emocional”. A autora nomeou assim uma série de imagens mentais — produto direto da imaginação e dos mundos interiores — geradas pela emocionalidade despertada por estímulos físicos e intelectuais.
A obra, uma refundação do pensamento cinético-emocional ocidental, atribui à tradição das emoções geográficas, cartográficas e veduísticas o mérito de ter dado origem ao cinema. Este último, um veículo de emoções e maravilhas, teria superado a capacidade perceptiva usual de tornar os lugares visíveis, sentidos e representados.
Se Giuliana Bruno difundiu uma expressão e um tema, aliás já relevantes sobretudo no âmbito anglo-saxão e emergentes no italiano e no francês, a dimensão afetiva da geografia certamente não nasceu com sua obra, mas teve pressupostos preciosos desde os séculos XIX e XX. Há muitos precedentes ilustres, não apenas na Itália, mas também nos mundos alemão, francês e anglo-saxão.
Geografia emocional. Os precursores
Entre os precursores da geografia emocional, um exemplo bem conhecido é Alexander von Humboldt, pai da geografia moderna[1], considerado o homem mais conhecido do seu tempo depois de Napoleão ou mesmo o Aristóteles dos tempos modernos. Foi a sua associação com Goethe, cuja influência ele passou, que o fez combinar sentimento e arte com sua paixão por ciências naturais e estudos científicos.
No prefácio das várias edições do Ansichten, aparece o seu desejo de ligar o conhecimento científico com os sentimentos originados de uma experiência hedonista, pictórica e contemplativa. Eis o que emerge do prefácio à primeira edição da obra (1808; 1998, 3): “Uma visão geral da natureza, a verificação da ação combinada de suas forças, o prazer que dá ao homem sensato a visão dos países tropicais: estes são os objetivos que tenho perseguido.”
Nos prefácios subsequentes (segunda e terceira edições), Humboldt retorna às intenções iniciais de sua reflexão geográfica (ibid., 5):
Descrever a natureza de modo a devolver o máximo possível o prazer imediato da visão e, ao mesmo tempo, contribuir, com base no estado atual da ciência, para uma maior compreensão do elo harmônico que rege a ação das forças naturais. Já então (no prefácio da primeira edição, n. d. a.) foram apontados os muitos obstáculos que se interpõem no caminho de um tratamento estético dos grandes cenários da natureza. A união de uma intenção literária com uma puramente científica, o desejo de acender a imaginação e ao mesmo tempo enriquecer a vida das ideias através do crescimento do conhecimento - tudo isso determina a ordem das partes individuais e dificulta a unidade da composição.
Nas intenções expressas, Humboldt prova ser talvez mais romântico do que iluminista.
Em Kosmos, sua famosa obra em cinco volumes (1845-1962), ressurge o desejo de descrever a natureza para difundir seu amor pelo estudo, conhecê-la e senti-la mais profundamente. Ele quer assegurar ao leitor o prazer, a fruição (der Genuss) da natureza (Humboldt, 1845, 4). A este respeito elabora uma escala do gozo da natureza pelo homem que parte de um sentimento obscuro de harmonia, para alcançar a dimensão fisionômica através da percepção sensorial, até chegar à compreensão racional dentro do fenômeno, entendido como a totalidade harmoniosamente ordenada através da qual o prazer atinge seu ápice supremo (ibid., 4-9).
Depois dele, também autores do início do século XX, inspirados pela Gestalttheorie, referem-se à percepção da realidade em que a vivência de fenômenos contempla, entre outras coisas, uma psicologia do espaço ligada à experiência vivida.
Willy Hellpach é lembrado por ter antecipado muitos aspectos dos estudos de psicologia ambiental por mais de cinquenta anos. Em Geopsyche (1911; 1967), Hellpach trata das impressões sensíveis decorrentes da experiência do ambiente e considera as influências que modificam nosso ser e nossa vida psíquica. Muitas das suas observações e interpretações estão agora ultrapassadas, mas a perspectiva oferecida e a atenção dada a toda a gama de sensações permanece cruciais.
Também na área alemã, mais tarde, durante o mesmo século XX, Herbert Lehmann (1986; Andreotti, 1994; 1996; 2024) está ciente da experiência particular do espaço e dos processos psicológicos complexos, composto de momentos emocionais que afundam suas raízes nas profundezas da alma humana e até mesmo no subconsciente. Não foi por acaso que ele imaginou publicar uma Psychologie der Landschaft. O projeto não foi realizado apenas por causa de sua morte. É notável, no entanto, que ele desenvolveu as premissas.
Na França, também há um forte foco no fator psicológico.
Jean Brunhes (1910, 785) defende que "o elemento psicológico humano está [...] na origem do fato geográfico, o intermediário obrigatório entre a natureza e o homem". A mesma linguagem geográfica afeta o estado psíquico emocional porque é através das emoções. Eric Dardel (1952, 15; 1986, 19) recorda[2]:
A linguagem geográfica transmite […] as maravilhas, as privações, os sofrimentos ou as alegrias relacionadas às regiões. Norte não é apenas uma direção como qualquer outra, é uma região da nossa imaginação ou memória. É a nortada, o frio, a geada, os mares hostis, os solos pobres. Sul significa sol, céu ardente, manchas pedregosas ou huertas fertilizadas pela água. As cores afetivas tingem palavras que deveriam simplesmente ser gravadas [...].
No entanto, apesar dos pioneiros e das antecipações, antes da mudança cultural na geografia era dada pouca importância às emoções, muitas vezes ignoradas ou consideradas irrelevantes. Isso se deveu principalmente a mal-entendidos e questões metodológicas. Considerou-se, em particular, que uma investigação racional e objetiva não deveria ter em conta estes.
A mudança de paradigma e metodologia da pesquisa ocorreu com a consciência de que cada Entre os precursores da geografia emocional, um exemplo bem conhecido é Alexander von Humboldt, pai da geografia moderna, considerado o homem mais conhecido do seu tempo depois de Napoleão ou mesmo o Aristóteles dos tempos modernos. também foi influenciada pelos impulsos emocionais daqueles que a praticaram. Uma crença realçada pela geografia da percepção, desenvolvida durante o século XX especialmente nos Estados Unidos, "com uma presença limitada de obras provenientes de outras regiões geográficas (ou culturais), que se restringiam, no entanto, à área dos chamados países industriais avançados" (Bianchi, Perussia 1987, 32-33).
Os espaços das emoções contrastam com aqueles da experiência transformada em números, um domínio da geografia positivista e racionalista para o qual os fenômenos são analisados e ilustrados usando dados quantitativos em vez de qualitativos.
Números e medidas moldaram o mundo proposto pela revolução quantitativa. Uma revolução que já tinha "completado seu curso" na década de 1970, como admitiu David Harvey (1978, 160).
MÉTODOS DA PESQUISA
A pesquisa exigiu mais de um método. Em primeiro lugar, recorremos a experiências diretas do espaço através do encontro com situações representativas que uniram o mundo através dos sentidos e deram suporte aos sentimentos. A polifonia dos sentidos abriu-se à participação emocional.
Foram consideradas áreas espaciais de longa permanência, de interesse afetivo, ambiental e cultural.
Perceber a sua aura, os seus silêncios, ruídos, vozes, cheiros ou odores, ligando-os aos gostos, era tão importante como a sua aparência ao olho, um sentido que não quisemos desvalorizar, mesmo tendo em conta o seu domínio hegemónico na cultura ocidental.
A pesquisa sempre vem de outras pesquisas. Além de experimentos diretos, também houve publicações de estudiosos nacionais e estrangeiros: geógrafos, filósofos, fenomenologistas, escritores, arquitetos.
Valiosas contribuições têm sido oferecidas pela geografia da percepção que, após o início dos anos noventa, se fundiu com a geografia cultural e emocional.
Numerosos volumes e artigos de mestres eminentes facilitaram a interpretação do espaço geográfico. As pesquisas epistemológicas de geografia cultural e emocional propostas por eles têm orientado a reflexão e direcionado para a realização do presente trabalho. Buscaram esclarecer ideias básicas, como o espaço, cuja evolução conceitual investigaram. Além disso, propuseram representações da realidade em que a valorização dos sentidos e sentimentos é indispensável para compreender e descrever o mundo.
Alguns textos têm considerado a relação entre espaços e cheiros e o conceito de espaço olfativo. Um primeiro estudo foi publicado em 1985 por John Douglas Porteus. Outros seguiram. Por exemplo, a Géographie des odeurs, editado por Robert Dulau e Jean-Robert Pitte (1998). Os autores demonstraram a importância na análise da realidade de um sentido incomum em estudos geográficos como o cheiro e, portanto, cheiros e fragrâncias. Os smellscapes — odores espaciais relacionados a lugares — provaram ser importantes razões de conhecimento (Henshaw, 2013. Young, 2020. Edler, Kūhne, 2024).
Também o sentido do gosto, em relação às motivações territoriais e à alegria de viver, tem sido há muito considerado por Jean-Robert Pitte. Algumas passagens originais da obra Beautés de la géographie (2023b, 37-55) são mencionadas.
As emoções, porque elas não surgem apenas de impulsos internos, mas também de solicitações externas, que foram aprendidas, descansam, entre outras coisas, na cultura e na civilização. O foco foi, portanto, nos aspectos da cultura material (manufatura, objetos, atividades produtivas) e imaterial (linguagem, religião, costumes sociais, ideias e valores), que também foram abordados por um número da revista francesa La Géographie ("Patrimoines", 2023, n. 1589).
O interesse pela complexidade psíquica, ligado a conotações históricas e geográficas precisas, levou-nos a prestar atenção às obras de James Hillman, um psicólogo americano que se move sobre as percepções de Carl Gustav Jung em termos de significado e emoções.
O valor das emoções e dos sentidos a elas associados — do táto, em particular — levou ao caminho das intuições da antropóloga americana Ashley Montagu (2021; 1a edição, 1978) e do arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa (2007).
Para abordar o interior do espaço, sua estética, emoções e sensações que vêm de lugares e coisas, recorremos também a testemunhos e representações literárias, poéticas, figurativas e artísticas em geral. Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu), obra de Marcel Proust escrita entre 1908-1909 e 1922, publicada entre 1913 e 1927, foi um exemplo denso e luminoso disso.
Afinal de contas, foi apenas ouvir as palavras de Gaston Bachelard quando em La poétique de l'espace (1957; 1975, 228; 2015, 243) convida os estudiosos a ler os poetas dos quais eles teriam muito a aprender.
Armand Frémont é da mesma opinião. A conclusion de La Région, espace vécu (1976; 1990, 195) tratta de l'art de l'espace. Depois de observar que nenhum geógrafo jamais alcançou a fama reservada aos artistas, ele argumenta que "a geografia escolar é uma escola de tédio". É "a disciplina mais irritante, enumerativa, monótona e entediante". Espera, portanto, por uma arte do espaço. Para despertá-la, segundo ele, só pode ser a familiaridade com os poetas, romancistas, pintores ou cineastas que evocaram o espaço dos homens melhor do que as descrições dos geógrafos.
O CONCEITO DE ESPAÇO
O espaço tem um grande número de definições e expressões, comuns também a outras ciências que não a geografia[3]. Nesta contribuição, como já mencionado, o espaço é considerado em sua manifestação geográfica e emocional. Qual é a ideia de espaço? Qual é a sua essência?
Num texto publicado em 2016, Antoine Bailly, Hubert Beguin e Renato Scariati dedicam um capítulo ao tema (IV; 61-71), bem como páginas dispersas. Eles afirmam apresentar uma tentativa de definir o espaço por geógrafos, mas revelam sua dificuldade em interpretá-lo (ibid., 619): Os geógrafos usam o conceito de espaço extensivamente, mas nem sempre são claros sobre seu significado[4].
Eles continuam, então, citando David Harvey (1969, 206-207) que em um trabalho apontou este ponto fraco da disciplina, destacando que: Há pouco debate sobre a natureza do espaço como um conceito de organização[5].
Esses autores apontam que o termo não foi sequer definido nas primeiras edições dos antigos dicionários geográficos de Pierre George (2013; 1a ed. 1970). É também o que afirma André Dauphiné (1989, 42) sobre a primeira edição do Dictionnaire de la géographie de Pierre George.
O próprio Dauphiné (ibid.) questiona o termo, distinguindo entre os conceitos de espaço terrestre e geográfico.
Este último, segundo ele, um tema de destaque da geografia, que permaneceu sem uso até as últimas décadas do século passado, se tornaria em poucos anos o principal conceito de nossa ciência. Para o estudioso francês é uma construção abstrata feita pelo geógrafo: um espaço formal elaborado para descrever e explicar um objeto real e concreto — o espaço terrestre — que é uma parcela limitada da superfície da Terra.
Para encontrar uma primeira definição do conceito de espaço é preciso voltar no tempo ao geógrafo norte-americano Richard Hartshorne e sua obra The nature of geography, publicada em 1939. Influenciado pelas ideias dos geógrafos alemães, em particular por Alfred Hettner, que também inspirou Carl O. Sauer, ele se dedicou aos problemas de definição e método.
Hartshorne retoma o conceito de geografia como uma ciência do espaço em um artigo nos Annals of the Association of American Geographers (1958, 97-108).
Para Hartshorne, o espaço é uma porção da superfície terrestre caracterizada por elementos físicos e humanos que estão relacionados e destinados a evoluir ao longo do tempo. Em suma, é uma estrutura diferente de qualquer outra que compõe a epiderme do planeta. E exatamente o geomorfológo francês Jean Tricart (1962)[6] refere-se à epiderme do planeta Terra para definir o espaço geográfico em seu sentido mais amplo: como "sistema de espaço ou posição" e como "sistema ambiental ou ecologia".
Não há dúvida de que o espaço tout court é um conceito fundamental da geografia, uma das suas principais constantes. Contudo, sua definição, como mencionado, é muitas vezes controversa, variando de acordo com diferentes perspectivas e declarações. Não é fácil descrevê-lo porque na geografia há muitas vezes incerteza terminológica e conceitual no uso de palavras como espaço, território e lugar.
Espaço e território, em particular, podem parecer sinônimos. Mas, o primeiro refere-se principalmente a uma realidade abstrata e o segundo a uma porção material e concreta da superfície da terra.
É devido a um grande mestre da geografia italiana que facilitou a interpretação da superfície da terra, Adalberto Vallega, a tentativa de esclarecer. Aborda a questão das categorias de conhecimento em duas publicações sobre geografia humana: 1989 e 2004.
Aqui estão suas palavras (1989, 10): O uso do termo "espaço" implica uma dose de abstração. No foco da atenção não há características concretas, mas apenas superfícies, distâncias.
E, novamente (2004, 88):
À primeira vista os dois termos (espaço e território, n. d.a) parecem sinônimos, mas, quando pensamos nisso, "espaço" parece indicar uma realidade abstrata, enquanto "território" parece referir-se à superfície da terra na sua materialidade, nos seus aspectos concretos. As dúvidas sobre o significado destas palavras crescem quando nos movemos da língua italiana para outras línguas.
Depois de alguns exemplos, também referindo-se a termos estrangeiros (espace, space), Vallega acrescenta que seria um erro de subestimação considerar essas incertezas terminológicas simplesmente uma questão de linguagem porque (ibid.): “na verdade, estas são devidas a razões mais profundas, enraizadas nas bases teóricas com que a superfície da terra é concebida.”
A referência às diferentes perspectivas e as duas direções fundamentais da pesquisa é clara. Trata-se da visão positivista e racionalista e a humanista, cultural e emocional.
A primeira visa chegar a princípios gerais, enunciar leis geográficas. Tende, portanto, a abordar o espaço, tanto tangível como virtual, estudado em termos de superfícies e distâncias com procedimentos lógicos e representado por uma linguagem formalizada.
Pode-se dizer que esta orientação fala de um mundo sem lugares, um mundo transformado em números: uma catástrofe para a geografia e nosso planeta, segundo James Hillman que ataca a ideia do espaço das ciências positivas (2004, 25):
A ideia de espaço derivada de Newton e do modo de pensar do século XVII abandonou assim o mundo, os lugares reais do mundo, transformando-o em medida. Esta é uma catástrofe para a geografia e o nosso planeta. Estamos vivendo as consequências dessa forma de pensar [...].
E ele insiste na acusação de que não se limita à geografia, mas envolve a arquitetura, que também permaneceu "sem lugar”(ibid., 89): “Newton e depois Descartes empurraram o mundo numa direção errada, contribuindo para a perda de lugares na uniformidade ilimitada da res extensa, e para a falta de alma da arquitetura que é sem lugar.”
No nosso caso pensamos na abstração dos modelos de difusão espacial da geografia quantitativa.
A segunda visão a que Vallega se refere é humanística, cultural e emocional, atraída por características específicas da Terra que ele tende a considerar concretamente.
Os estudos de Vallega distinguem diferentes tipos de espaço de acordo com diferentes pontos de vista. Em primeiro lugar, há o espaço funcional, moldado por um conjunto de elementos e relações (1989, 284-285). É uma visão objetivista que contrasta com a behaviorista, subjetivista (ibid., 329-331), cujos motivos inspiradores são o sentimento de pertença e os valores psicológicos. Espaço de vida, espaço social e espaço vivido são suas coordenadas.
No caso da visão subjetivista, a ideia de espaço parece ser semelhante à do lugar e da paisagem. Não foi por acaso que, no início da década de 1970, o geógrafo francês Armand Frémont (1972, 663-678) desenvolveu o conceito de espaço vivido (espace vécu), que também inclui as práticas cotidianas, ou seja, o espaço da vida (espace de vie).
A EVOLUÇÃO DO CONCEITO
Precisamente por sua relevância, a ideia de espaço tem sido considerada há muito tempo por Paul Claval (1997, 89-144). Ele reflete sobre o conceito, o papel que desempenhou na geografia e o lugar que ocupou nos diferentes momentos do desenvolvimento da disciplina até a afirmação do paradigma cultural.
Segue-se o estudioso para quem o caminho tomado pela noção começa no final do século XVIII, quando a geografia tenta se desapegar da cartografia, e termina nos últimos anos do século XX, quando surgem novas formas de conceber a disciplina.
Antes do final do século XVIII, os geógrafos eram cartógrafos, engenheiros e desenhadores. Eles trabalharam principalmente na fabricação de mapas nos quais colocaram, com sinais abstratos, lugares, povos e nomes, e traçaram limites administrativos e políticos. Eram homens de escritório e de laboratório, dedicados a um travail de cabinet.
Sua atividade explica a concepção do espaço como uma expansão geométrica e geometrizável, ainda que regionalmente diferenciada (ibid, 90).
Esses técnicos não lidavam com problemas espaciais que não eram estudados por geógrafos, mas por filósofos como Kant e por naturalistas — mineralogistas, geólogos, botânicos e outros -— que se empenhavam em apresentar inventários ordenados da natureza.
O espaço foi o suporte da diferenciação da natureza, a estrutura de configurações regionais distintas. O interesse centrou-se em fenômenos naturalistas, sua distribuição no espaço e sucessão no tempo.
Assim, exatamente no final do século XVIII formou-se um novo espírito geográfico, menos geométrico e sobretudo de inspiração naturalista. A geografia se aproximou da filosofia da natureza, na fronteira com a geologia (ibid., 95-96). Os geógrafos procuraram descrever os diferentes componentes dos espaços e elaborar um sistema do mundo observável. Eles listaram lugares habitados, estados e distritos administrativos. A nova curiosidade foi dirigida aos campos, prados, estradas, aldeias e cidades, descritas com precisão. O objetivo era apenas fazer classificações racionais, questionar seu significado e impacto sobre o homem.
No final do século XIX, as concepções cartográficas do espaço como uma extensão geométrica e geometrizável ainda estavam vivas, mas elas apareceram apenas como dados adquiridos: o geógrafo na imaginação popular permaneceu um homme de cabinet (ibid.).
A concepção naturalista do espaço como uma realidade fisionômica era igualmente viva: o geógrafo identificava e classificava formas visíveis. A harmonia da natureza já não o encantava, mas preocupava-se com os processos que aí decorriam. Estudando as formas terrestres do relevo, ele estava interessado em sua gênese. O conhecimento colocou ênfase no papel da erosão, sedimentação, estágios de ondulação ou atividade vulcânica.
As últimas décadas do século abriram-se a uma grande inovação: o nascimento de uma nova ciência, fundada por Haekel que lhe deu o nome de ecologia (1872). Foi uma tentativa de compreender os seres vivos e as relações que eles tinham com o seu ambiente de vida (ibid., 97).
Foram ideias que também transformaram a geografia que depois se tornou uma ciência social. A disciplina começou a esclarecer as relações do homem com o meio ambiente, começando com Friedrich Ratzel, fundador da geografia humana na virada do século.
Duas configurações caracterizaram o estudo: a das relações verticais específicas de cada ambiente e a das relações horizontais que permitiram os ambientes entrarem em relação uns com os outros.
O espaço foi assim estruturado por traços naturais do ambiente e por fatos de circulação. A ideia de ambiente era dominante; complementar era aquela da circulação que foi tratada pelos emuladores franceses de Ratzel, em particular Vidal de La Blache.
A importância dos nós e das localizações centrais cresceu e nasceu a economia espacial, que suprimiu aspectos do espaço geográfico. Na verdade, imaginava o espaço como uma extensão uniforme: uma superfície plana e indiferenciada. A única diversificação veio da distância que separa os locais (ibid, 97-98).
A visão geométrica do espaço continuou em 1900. No período entre as duas grandes guerras, os geógrafos favoreceram pontos de vista ecológicos, atentos às realidades locais. Mais tarde descobriram as desigualdades de crescimento e se preocuparam com a injustiça que as representava e com a diversidade dos espaços regionais.
O espaço foi concebido sobretudo como sede da atividade produtiva dos homens. Atravessado por fluxos de bens, pessoas e informações. Hierarquizado e estruturado, foi assim percebido em termos de redes, organizadas segundo sistemas de transporte e comunicação. Os obstáculos e custos também foram considerados. Muitos conceitos foram inferidos da economia espacial.
A partir dos anos sessenta do século XX, a geografia tornou-se uma ciência social, destinada a compreender a inscrição no espaço da vida relacional, partindo das noções de espaço e rede. Trocas e deslocamentos geraram a geografia regional com as categorias de região polarizada, especializada e complexa (ibid., 113-114).
Armand Frémont fez análises aprofundadas das áreas económica (1976; 1990, 54-74) e social (1976; 1990, 116-128).
Nos últimos vinte anos do século, as escolhas da problemática positivista que até então dominava a disciplinaram afastadas. Os geógrafos foram atraídos pela forma como o espaço e a natureza eram carregados de significado pelos homens. Os geógrafos foram atraídos pela forma como o espaço e a natureza eram carregados de significado pelos homens. O território tornou-se um conceito chave sobre o qual a análise regional e espacial se baseou. Através da paisagem, concebida como um teatro ou uma arena, realizou-se a análise dos valores com que o espaço foi investido, em torno dos quais as identidades foram estruturadas e os conflitos desencadeados. Nova era a atenção às escalas, da vida cotidiana à nação, como a concepção que as diferentes culturas tinham do meio ambiente.
A geografia clássica só se interessou pelo espaço material do ponto de vista naturalista. Ela classificou objetos visíveis e se recusou a ficar com representações (Claval, 1997, 121). A geografia cultural moderna, em vez disso (ibid., 140):
Focou-se na forma como os grupos percebem a natureza e a sociedade, desenvolvem grades de representação e interpretação, e associam o espaço à sua maneira de ser, sentir e pensar. A geografia cultural ganha uma parte de sua fecundidade no espaço de apreensão como palco onde se jogam destinos individuais e coletivos, na concepção da paisagem como cenário, e na extensão como simples intertextualidade.[7]
ESPAÇOS SEM LIMETE, ESCRÍNIO DE PAIXÕES
Os espaços de emoções desenham uma geografia que pinta imagens. Deve-se reconhecer que é complicado lembrá-los porque potencialmente cada espaço pode ser uma emoção. Qualquer realidade, de fato, tem uma medida material e uma espiritual. E os fatores que as conotam são infinitos.
Estes não são apenas aspectos contingentes, mas todas as marcas estampadas no mundo real que atuam como um catalisador com a psique do homem. Importa a complexidade da objetividade à qual se acrescenta a igual, senão maior, complexidade do espírito e da personalidade do observador. Nosso caráter, nossa cultura e nossas experiências reagem aos estímulos dos espaços atribuindo-lhes valores emocionais subjetivos, que variam de pessoa a pessoa justamente pelas diferentes especificidades individuais.
Há muitas facetas dos espaços emocionais em relação às suas fisionomias individuais. Cada um deles requer uma abordagem diferente porque sempre sugere algo a alguém, como acontece na interpretação de uma obra artística. As direções de pesquisa podem referir-se a propriedades quantitativas — como, por exemplo, extensão, tamanho, proporções — mas especialmente a a caracteres qualitativos decorrentes da história, cultura, arte, religião ou outros.
Espaços indefinidos e ilimitados são, entre outros, os da noite, que fazem cair em uma interminável interioridade.
Quais são as emoções despertadas por eles?
Não há dúvida de que eles vêm das inúmeras formas em que a noite se apresenta, do vigor de suas particularidades e das múltiplas maneiras de experimentá-la individualmente, com lirismo ou com angústia.
O espaço da noite, especialmente quando é brilhante com estrelas, se reveste de uma aura fascinante que expressa a poesia do céu de onde filtra a luz do infinito. A noite estrelada faz você sonhar e move você para intimidade e romance. Cria atmosferas doces e ternas e incita paixões e saudades.
A noite fala e estimula a força arquetípica da imaginação. As imagens saem do espaço escuro, tácito e emergem com a capacidade de representar a alma. A imaginação supera a conotação física da realidade para se tornar espaço íntimo, domínio da alma. Este é o caso quando a noite é vivida como plenitude, serenidade e lirismo. A imersão na escuridão instila a ideia de estar envolvido por um manto protetor, uma capa defensiva que protege contra dificuldades e perigos. E sente-se uma sensação de conexão com o todo, um sentimento de fusão com o mundo, de comunhão com o infinito, que nos torna participantes da existência cósmica. Associando-nos com o sopro da vida universal, avançamos em direção ao sobrenatural.
A realidade física, sensorial do mundo da noite, sua vastidão e silêncio, relacionam o observador com uma dimensão transcendental, metafísica. O imenso incompreensível, absoluto e único, convida à meditação em que tudo é internalizado, torna-se parte do espírito.
Mas toda noite, especialmente se negra, também pode despertar sentimentos contrários: medo, ansiedade, receio e desespero, estados emocionais que surgem da escuridão e a ideia de vazio, negação e ausência. O mundo envolto em trevas inspira o elusivo que, evasivo e incompreensível, desanima e faz e estremecer. A imperscrutabilidade gera um senso de destino que instila pensamentos perturbadores e produz sentimentos de angústia e desorientação. Aumenta o sentimento de vulnerabilidade.
O fenômeno noturno possui o misterioso poder de aumentar o efeito da perda da realidade e transmitir a percepção de profundidade, solidão e insegurança. O domínio das trevas isola os que nela estão imersos, obscurece a figura e as formas do mundo fazendo-os aparecer como sonhos, fantasmas, alucinações. O silêncio, além da sensação de paz e tranquilidade, também evoca melancolia. Pode estimular a imaginação e a criatividade, bem como levar pensamentos e sentimentos ao extremo. Além da escuridão e do silêncio, é a vastidão e imensidão deste espaço-tempo que desorienta. No entanto, a ideia de um exterminado que se expande em todas as direções, sem fim ou conclusão, é em grande parte razão para o charme e sugestividade do fenômeno.
Não só a noite, mas também outros espaços imensos, como mares, desertos, florestas e certas planícies, provocam impressões contraditórias: sugestões muito exploradas e por vezes cantadas em formas de arte sublimes.
Os mares, por exemplo, são um mundo móvel e fantástico: matéria viva que se move sem descanso. Eles despertam doçura, maravilha, incógnitas, mas também podem impressionar com fúria, crueldade e poder assustador.
Alguns autores os celebram como símbolo de infinito e mistério indecifrável.
É o caso de Jorge, Luis Borges em "Singladura" (Luna de Enfrente 1925, 15)[8] que indica o mar como "uma língua antiga que não consigo decifrar".
Segundo os momentos, o mar é o espelho no qual se contempla a alma, portador de sonhos e vida pulsante, ou, pelo contrário, a morada de terríveis tempestades e perigos que assustam e fazem tremer.
Eric Dardel vê no oceano o espaço geográfico por excelência: "Uma imensidão que desafia as nossas medidas e os nossos limites" (1952, 15). Ele menciona Pierre Loti, seu compatriota, que exalta toda a magia colorista. O escritor celebra a luz ardente do equador, sob a qual a extensão oceânica é um deserto azul,
de um azul tão intenso que se diria... tingido com índigo.
E sobre este azul, profundo e imóvel, avança a lenta progressão de inúmeras velas rosa em miniatura.
Muito diferente é a imagem assustadora do mar tempestuoso oferecida por Joseph Conrad em Typhoon, um romance curto de 1902. Esta é uma experiência provavelmente vivida pelo próprio autor.
O navio mercante Nan-Shan, navegando em direção ao porto de Fu-chau, no sudeste da China, é atingido por um tufão cuja violência está além da imaginação. A tempestade uiva e sibila, poderosos trovões atravessam a escuridão, enquanto as rajadas de vento levantam ondas enormes que colidem contra o navio: fazem-no listar, bater, arrastá-lo, afundá-lo baixo e lançá-lo alto.
Conrad descreve magistralmente o desespero da tripulação e os tormentos físicos e psicológicos que o aterrorizam, confundem e desanimam-no.
Quanto aos desertos, estes representam a solidão, uma desolação por vezes sedutora, e imersão no desconhecido. Eles levam ao naufrágio no imenso, onde se fica entre a terra e o céu.
Uma das razões para o seu fascínio é a cúpula do firmamento que claramente os domina e parece desdobrar-se acima deles tão adjacente à terra que pode tocar e separar as estrelas.
No entanto, o deserto pode evocar visões de devastação, inhospitalidade e monotonia. Compreendê-lo e viver nele não é fácil. Talvez seja apenas adequado para as vidas dos beduínos e dos deuses. Lembramo-nos do que foi dito por Claude Rains no filme Lawrence of Arabia (1962). Ele interpreta o Sr. Dryden que se dirige a Lawrence, o agente secreto britânico, afirmando: "Lawrence, apenas dois tipos de seres estão bem no deserto: os beduínos e os deuses. E você não está entre eles".
Leone Caetani, um historiador orientalista que visitou o Sinai egípcio e o Saara argelino no final do século XIX (1907, 34-58), escreve:
assustador calor do verão, com suas imensas extensões de areia infocata, com suas colinas e planícies rochosas queimadas pelo sol implacável, onde no verão cada palmeira da terra queima a tal ponto que é difícil colocar sua mão lá. Quem não o experimentou nunca pode imaginar o brilho ofuscante do sol, do céu e da terra, queimados e ressecados pelo fogo celeste, que parece transformar o mundo num crematório.
Imensos são também certos espaços florestais que, devido à sua majestade, riqueza e variedade de árvores e flores, beleza e silêncio, fazem pensar em paraíso perdido. São o reino dos contos de fadas e da fantasia. Mas, da mesma forma que os desertos, eles também podem ser extensões inóspitas devido a plantas caídas, ramos longos, baixos e entrelaçados, emaranhado de vegetação.
Normalmente a escuridão e a humidade dominam, se mesmo alguns raios de luz penetrem entre os troncos. A escuridão e a falta de estradas muitas vezes os tornam lugares de perigo e medo. O desconhecido é temido, o medo de se perder é experimentado, a ansiedade e trepidação são sentidas imaginando possíveis encontros indesejados com seres humanos ou animais.
Voltamos a Alexander von Humboldt que em Ansichten der Natur (1998, 11-27) descreve desertos e estepes, mas também recorda florestas tropicais (1808; 1998, 161-162), como a da bacia do Orinoco, reavivada por sons e ruídos, após o silêncio do meio-dia. A experiência sensorial auditiva emerge na evocação do contraste violento entre a imobilidade e a ausência de ressonâncias diurnas e o ruído noturno incessante.
Exterminadas e muito diferentes em geografia e história são incontáveis planícies da Terra. Se lembram, entre todas, as Grandes Planícies da América do Norte, compostas por estepes e pradarias, que cobrem uma grande parte dos Estados Unidos centrais, estendendo-se desde o Canadá até o México. Foram uma vez o território escolhido do búfalo americano e de inúmeras tribos de índios nômades e semi-nômades, atravessado pelas trilhas dos pioneiros que colonizaram o West (Oeste) e escreveram sua história. Elas exercem no imaginário um fascínio sem fim, alimentada pelo gênero “western” (ocidental) que abrange quase todas as expressões artísticas, desde cinema, teatro, literatura, música, quadrinhos, desenhos animados, televisão e muito mais.
E o que dizer de planícies intermináveis que se estendem da Rússia europeia ao Extremo Oriente russo, atravessando toda a parte asiática do país mais extenso e complexo do mundo com as imensas terras baixas da Sibéria ocidental e oriental? Estas são áreas, especialmente a leste dos Urais, de grande desconforto e solidão devido a climas rigorosos, fortes excursões térmicas, correntes ventosas, imensos espaços vazios, ambientes glacializados, tundre, estepas, grandes florestas desabitadas de bétula e coníferas, rios que correm de sul para norte, zonas húmidas e enormes pântanos devido a problemas de drenagem. Este espaço infinito de 13,1 milhões de quilômetros quadrados cria consternação pela dureza da natureza, assusta e perturba por causa da fama da terra das deportações, segregação e trabalho forçado.
Contudo, tal extensão ilimitada não é apenas uma terra de tragédias humanas, mas também de lenda e sonho, quando se lembra da mítica ferrata — a Transiberiana — que, com um percurso de 9.288 km, 160 paragens e cruzando 7 fusos horários, liga Moscovo e os Urais a Vladivostòk, seu terminal no Oceano Pacífico (Andreotti, 2007, 77-100; Zanghi, 2012: Cuminatto, 2019; Roberti, 2020).
Uma fonte de interesse e fascínio são também os muitos grupos étnicos, culturas e religiões que compõem o mosaico de distritos escassamente povoados no vasto território da Federação Russa.
ESPAÇOS VIVIDOS E ESPAÇOS PARA VIVER
Ao lado de espaços de tamanho imenso há outros, menos infinitos, mas cheios de significados intrínsecos que influenciam as nossas vidas com toda a sua densidade. Lugares relevantes porque personificam nossas experiências mais íntimas e intensas.
São os espaços vividos, ligados à nossa existência, que criam o apego interior para sempre e influenciam nosso ser e nossos comportamentos: lugares de vida e memória, representados por percepções sensoriais e valores emocionais, afetivos e espirituais. Pela sua interioridade e subjetividade "fazem alma" (Hillman, 1983; 2004). Tocam os nossos sentimentos, humores e expectativas. Nós nos apaixonamos por eles como pessoas e ficamos com ciúmes e possessivas deles.
Poetas e escritores têm magnificamente evocado tais espaços (Andreotti, 2024, 11).
Apenas para citar alguns exemplos, lembre-se de James Joyce que nasceu e viveu sua juventude em Dublin, mas passou a maior parte de sua vida fora da Irlanda. No entanto, Dublin foi uma referência constante em sua vida e obras. Em uma carta de 1937 ele escreve que carrega a cidade fixada em seu coração: "Sempre e de qualquer maneira é lá que eu ando” (e) “ouço suas vozes”.
Lembramos também alguns grandes poetas italianos. Gabriele D'Annunzio refere-se a Pescara, que foi o seu local de nascimento: "Eu ainda quero me revelar para mim mesmo. Quero dizer como a marca da minha terra natal está impressa em mim e no melhor de mim" (1935; 1955; Andreoli, 2000, 14). Giosuè Carducci (1963) celebra o espaço espetacular de Bolgheri, enquanto Giovanni Pascoli (1939; 1981) exalta aquele de "Romagna solatìa, doce pais", uma 1979 Prêmio Nobel de literatura, terra única que é seu destino.
O grego Odisseas Elitis (1980), 1979 Prêmio Nobel de literatura, evoca líricamente a Grécia feita de mar e ilhas, rios secos, grandes cúpulas e casas brancas nas fronteiras do azul.
A escritora italiana Federica Marciano (2003) designou a região de Salento, em Puglia (Sul da Itália), como sua casa de eleição e espaço da sua imaginação. Esta terra, com a sua paisagem áspera e acidentada, primeiro visitada por acaso, imediatamente acendeu-a de paixão. Ela foi atingida por ele. Para ela:
Só na Puglia a luz salta de mar em mar, encontra-se ao meio e refrata novamente de maneira deslumbrante, luxuosa como o ouro.
Numa entrevista à jornalista Silvana Mazzocchi (2003) define a península salentina: Um pedaço de Puglia entre dois mares que tem a mesma luz dos desertos, claro e cristalino.
Infinito é o número de espaços vividos, assim como extenso é o número de outros espaços profundos e densos de significado: espaços de moradia, regiões e cidades, por vezes conhecidos de forma fugaz, mas capazes de impressionar porque têm caracteres específicos que os tornam peculiares e exclusivos.
Para dar um exemplo, pode-se pensar na Letónia.
No país báltico, um nomos — um destino, em vez de uma lei, foi cumprido, que combinou condições ambientais com a vontade do homem e as disposições da cultura e da história. O seu encanto manifesta-se que agarramos o fio comum que exalta a sucessão de situações diferentes, nem sempre fáceis de representar.
Uma corrida de estímulos múltiplos contribuiu para o estabelecimento e a restauração deste espaço e da sua atmosfera. Um quid geográfico, cultural e histórico, calibrou a medida interna que esta área detém em si. Conversa com a natureza e fala sobre sua cultura cosmopolita, multiétnica.
O país, uma faixa das planícies russas, tem vista para o Mar Báltico, curvando-se em torno do Golfo de Riga. O mar desenha o perímetro externo para o oeste: centenas de quilômetros de costa arenosa, delimitada por dunas e pontilhada com pântanos e lagos costeiros.
As qualidades ambientais da Letónia lembram a classificação de lugares arquetípicos proposta por Christian Norberg-Schulz (1979; 2000, 42-48). É fácil reconhecer os fenômenos que revelam um ambiente romântico, suavemente ondulado na extensão quase totalmente plana, coberto por um poderoso manto de depósitos glaciais que às vezes sobem em ondulações, às vezes afundam em depressões.
É um mundo caracterizado por uma multiplicidade de forças e espaços diferentes, um todo mutável e enigmático, sugestivo de experiências emocionais. Aqui as forças originais ainda podem ser claramente percebidas: a microestrutura complexa de um solo raramente contínuo, as florestas coníferas e de folhas largas[9], as águas da densa rede fluvial, dominada pelo Daugava (Dvina ocidental), os inúmeros lagos, o jogo de luz e sombra, a instabilidade do ar, variações atmosféricas. Homem, espaço, clima e inúmeros outros coeficientes, encontraram-se para resolver eventos particulares, de acordo com as circunstâncias, eras, costumes, mentalidade e a influência das tradições.
Devido à sua posição estratégica, o espaço letão foi anexado e ocupado por muitos países estrangeiros ao longo do tempo. As tradições locais combinaram-se, assim, com um grande número de influências provenientes do exterior.
Esse espaço pode ser idealmente descrito através dos sentidos: em primeiro lugar, a vista, induzida pelo rico património arquitetónico e as soluções surpreendentes relativas, em particular, à capital Riga. O centro histórico único e cativante — Vecriga —, edifícios medievais, arquitetura de madeira única e Art Nouveau, é um Patrimônio Mundial da Unesco.
Não só a vista. Também seduzem os outros sentidos: a audição, acariciada pelos sons da natureza; o gosto, estimulado pelas comidas oferecidas nos famosos restaurantes especialmente na capital, que se tornaram uma lenda; ainda o gosto estimulado por produtos típicos, como as sopas, carnes e pão; e então sempre o cheiro, solicitado pelos aromas das florestas que, como dissemos, cobrem uma grande parte do país; finalmente, o tato exercido sobre materiais naturais, produtos de alta qualidade do desenvolvimento industrial e tecnológico que fazem da Letónia a área mais importante no Báltico.
Movendo-se agora para o exterior, na América do Sul, olha-se para o Brasil e cita-se o caso da capital federal, Brasília, que suscita julgamentos e sentimentos mistos: é amada ou criticada e denigrada. A dissenção diz respeito ao crescimento irrefreável e anormal das dimensões espacial e populacional e às numerosas questões de natureza social, política e econômica.
A metrópole se oferece deixando-se alcançar pelo céu ou pelas ruas em forma de estrela que a conectam com o resto do país. É alcançado superando a solidão interminável do planalto brasileiro, destacado pela savana do cerrado, um dos seis biomas típicos do país.[10]
A cidade foi fundada na segunda metade do século XX, planejada e erguida com a intenção consciente de torná-la uma obra de arte. Além de qualquer propósito político, econômico e simbólico, nasceu como um ato de fé na beleza.
Os criadores foram impulsionados pelo desejo de inscrever emoções no projeto: escolha do lugar, nome da cidade, plano urbano e muito mais.
Juscelino Kubitschek, o presidente do Brasil que o quis fortemente durante seu mandato (1956-1961), imaginou fazer um modelo estético: ele estava constantemente preocupado em dar forma a um modelo de beleza.
Não diferentemente, Lúcio Costa, autor do plano urbano conhecido como Plano Piloto, e Oscar Niemeyer, o arquiteto que em Brasília realizou suas construções mais admiráveis, no projeto original concordaram na escolha de oferecer uma perspectiva urbana de maravilha, combinado com os temas de tamanho e surpresa (Balducci, 2010, p. 29).
Ao lado deles, Roberto Burle Marx, o paisagista que desenhou os jardins para o Eixo Monumental e o Palácio do Itamaraty — Ministério das Relações Exteriores -— foi inspirado pelo código artístico e pela dimensão estética do espaço (Rebollo Gonçalves, 2010, pp. 137-141).
Mas se a capital nasceu sob o signo da arte, os pressupostos programáticos e as condições iniciais do espaço e da população foram completamente traídos. A metrópole, projetada para 500.000 habitantes, ultrapassou os 3 milhões. Um grande número de assentamentos tem derrubado as intenções dos fundadores. Nas áreas periféricas, grandes cidades satélites, subúrbios-dormitórios, bairros extensos sem ordem e planos e favelas reais proliferaram. Não há como parar a especulação de construção e o desperdício.
No entanto, o núcleo original de Brasília, seu coração, satisfaz plenamente as necessidades do espírito. Muito na metrópole é símbolo, magia, emoção. A partir das origens míticas às quais se refere a forma de cruz, proposta pelo Plano Piloto que lembra conteúdos cosmológicos e sagrados tradicionais. E continuamos com as muitas referências ao mito fundador: a lenda de Dom Giovanni Bosco e seu sonho profético que imaginava uma capital, terra prometida na qual correriam rios de leite e mel.
Encontrar Brasília em seu centro significa mergulhar-se numa realidade fantasmagórica, atravessando um mundo correndo rumo ao futuro, que deslumbra e seduz. Um espaço de lenda faz com que pareça uma cidade de paixões, em vez de um fulcro de poder. O charme do surreal envolve e agarra. Um turbilhão de emoções acompanha sua espetacularidade urbana e monumental, em constante equilíbrio entre sonho, criação e abstração.
Ao primeiro contato, o espanto explode. Onde quer que olhes, os objetos são o que aparecem, mas também a emergência espontânea da sua essência, do seu carácter substancial. O factual confunde-se com o lírico, o natural com o metafísico, o real com o poético e simbólico.
Poderosos estão na capital os chamados simbólicos que lhe dizem respeito. Infiniti signos evocam o caráter excelso, criando identidades, valores compartilhados e atmosfera.
O núcleo original é espetacular do ponto de vista urbano e monumental, incorpora uma perspectiva de encantamento, combinada com os temas de dimensão, arquitetura futurista, grandes vazios e surpresa.
O desenho urbano cruza dois eixos perpendicularmente, como como acontecia com as cidades antigas. O principal, de leste a oeste, é a direção monumental (Eixo monumental), que reúne os edifícios públicos dos poderes institucionais do sistema estatal. Os edifícios estão isolados no grande espaço aberto da Praça dos Três Poderes. O vácuo realça o efeito tridimensional de suas massas, transfigurando-as em monumentos semelhantes a esculturas.
Um segundo eixo, curvado de norte a sul, cruza o monumental. Trata-se de uma estrutura rodoviária complexa (Eixo rodoviário ou Eixão), pontuada pelo rigor geométrico de blocos residenciais, as superquadras, unidades habitacionais de elite, autônomas, com locais de encontro e natureza.
As referências simbólicas a respeito de Juscelino Kubitschek, O Fundador, são magníficas. Sua imagem, escritos e referências acompanham quem viaja pela cidade, desde os espaços e monumentos da zona central, até a grandiosa ponte que leva seu nome, lançada sobre o Lago Paranoá. Mas é especialmente o mausoléu de mármore branco do estadista, semelhante a um mastaba egípcio, que mergulha em uma atmosfera de sacralidade e forte sugestão. O sarcófago de granito é exibido sob um disco de cristal vermelho e imerso na escuridão mal iluminada pela luz rubi perturbadora.
Além de Brasília, outras cidades do Brasil também foram levadas em consideração pelos seus espaços emocionais. Na verdade, os exemplos que acabamos de mencionar são apenas alguns dos números infinitos que poderiam ser analisados. No passado, outros também foram considerados em relação a vários espaços emocionais (Andreotti, 2007, 2009a, 2009b, 2010, 2011, 2016, 2023).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo representa a tentativa de abordar um dos temas tradicionais da geografia — o espaço — avaliando seu percurso na evolução da disciplina, até chegar às mais recentes interpretações relativas à geografia emocional.
Na geografia tradicional, o termo espaço era considerado em referência a seções da superfície da terra cuja abstração deveria ser destacada. Não envolviam fisionomias concretas, mas sim superfícies vazias e uniformes das quais contavam medidas, distâncias e relações.
Foi uma atitude cultural que, a partir do pensamento de Descartes e Newton, teve suas raízes nas abstrações do racionalismo e na revolução científica do século XVII.
Tal geografia dividia as terras dos homens: de fato, não surgiram posições em que o homem fosse o centro da perspectiva da disciplina, mas importavam números, linhas e modelos teóricos, dos quais se pensava que a ciência era feita.
Quem aceitou a urgência de ligar a geografia com o homem foi um novo humanismo — desta vez verdadeiro humanismo — aquele inaugurado por Alexander von Humboldt, Carl Ritter, Friedrich Ratzel e Paul Vidal de La Blache que, além das ciências, trouxe o mesmo homem ao jogo porque a geografia foi explicada apenas através dele.
Após as sacudidas políticas e doutrinárias do século XX, das quais a geografia sofreu todas as repercussões tornando-se positivismo, estruturalismo, behaviorismo, pós-modernismo, a disciplina foi trazida de volta ao contexto de um humanismo mais moderno e atual.
É o humanismo que inspirou a geografia emocional, e este mesmo trabalho. O domínio da racionalidade, foco da cultura ocidental, é virado de cabeça para baixo para recuperar a ideia de uma realidade que absorve os pensamentos, imaginação, sentimentos e sensações dos homens. Os espaços são enriquecidos por entrar em relações com a alma humana no sentido de que haverá geógrafos que se infiltrarão neles com a chave da psique, das emoções e sensações, do fenomenalismo, ou através da estrada principal da história.
Temas da geografia da percepção e da geografia cultural são adotados em suas direções espiritualistas e semióticas. Assim, a realidade não é mais interpretada segundo medidas matemáticas — volumes, parâmetros, quocientes — que a empobrecem de significado.
Depois de ter reunido a urgência de conectar a geografia com o homem e levar seu espírito de volta em suas próprias mãos, não queremos mais sacrificar o espanto à racionalidade (Andreotti, 2013, 99).
Aqui então o espaço físico é um espaço vivido que transcende a geometria e a mensurabilidade (Pallasmaa, 2007, p. 81). A psicologia e a cor das emoções são as chaves certas para interpretá-la.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Andreoli, A. (2000). Il vivere inimitabile. Milano, Mondadori.
Andreotti, G. (1994). Riscontri di geograFia culturale. Trento, Colibrì-Artimedia, 1994 (últ. ed. 2008).
Andreotti, G. (1996). Paesaggi culturali. Teoria e casi di studio. Milano, Unicopli, 1996.
Andreotti, G. (2007). Transiberiana, pretesto per una psicologia di paesaggio. In Paesaggi in movimento, paesaggi in vendita, paesaggi rubati. Trento, Artimedia, 77-100.
Andreotti, G. (2009a). Geografia emozionale. Quale significato? In: Territori emotivi: geografie emozionali. Urbino, Università degli studi, 529-530.
Andreotti, G. (2009b). Geografia emozionale e Geografia spiritualista. In: Territori emotivi: geografie emozionali. Urbino, Università degli studi, 530-532.
Andreotti, G. (2010). Paisagens do espírito: a encenação da alma. Ateliê Geográfico, v. 4, n. 12, 264-281.
Andreotti G. (2011). Amazzonia emozionale. Bollettino della Società Geografica Italiana, s. XIII, v. 3, n. 2, 241-272.
Andreotti G. (2013a). Geografia emocional e cultural, em comparação com a racionalista. In: Á. L. Heidrich, B. Pinós da Costa, C. L. Zeferino Pires (org.), Maneiras de ler Geografia e Cultura. Porto Alegre (RS, Brasil), Compasso, 98-105.
Andreotti G. (2013b). Amazonie : une ville avant, après. Passage d’encres, n. s., Paris, v. 3, 87-93.
Andreotti, G. (2016). Brasília, capital de paixões antes que de poder. Revista Presença Geográfica, v. 3, n. 1, 50-75.
Andreotti, G. (2022a). Prefácio. In: Kozel, S., Torres, M., Gil Filho, Espaço e Representações. Porto Alegre (RS), Compasso, 5-19.
Andreotti, G. (2022b). Colette Jourdain-Annequin, Paul Claval, Penser la Méditerranée. Bollettino della Società Geografica Italiana, v. 5, n. 2, 129-130.
Andreotti, G. (2023). A infinita interioridade da noite. Ateliê Geográfico, v. 17, n. 3, 82–104.
Andreotti G. (2024; 1a ed. 2021). Nobiltà del paesaggio. Trento, Valentina Trentini-Artimedia.
Bachelard, G. (2000; 1a ed., 1938). La formation de l’esprit scientifique. Paris, Vrin. Bailly, A.,
Beguin, H. (1982). Introduction à la géographie humain. Paris, Masson.
Bailly, A., Beguin, H., Scariati, R. (2016). L’espace géographique. Introduction à la géographie humaine,. Paris, Armand Colin, IV, 61-71.
Bianchi, E., Perussia, F. (1987). Soggettività e ambiente: spunti per una riflessione critica. In Bianchi, E., Perussia, F., Rossi M. F. (a cura). Immagine soggettiva e ambiente. Milano, Unicopli.
Balducci, A. (2010). Brasilia, la città (non) pianificata, In: Balducci, A., Bruzzese, A., Drogati, R., (cur./eds), Brasilia. A utopia come true/Un’utopia realizzata 1960-2010. Milano, Electa Mondadori, 2010, pp.19-31.
Borges, J. L. (1925). Luna de enfrente. Buenos Aires, Editorial Proa, 15. Brunhes, J. (1910). La géographie humaine. Paris, Alcan.
Bruno, G. (2006). Atlante delle emozioni. Milano, Mondadori (1a ed. 2002).
Balducci, A., Bruzzese, A., Drogati, R. (cur./eds). (2010) Brasília i. A utopia come true/Un’utopia realizzata 1960-2010. Milano, Electa Mondadori.
Caetani, L. (1907). La psicologia delle grandi vittorie arabe. Rivista Intern. di Scienze Sociali e Discipline Ausiliarie, v. 43, n. 169, 34-58.
Carducci, G. (1963). Davanti San Guido. Poesie. Bologna, Zanichelli.
Cassirer, E. (2004). Filosofia delle forme simboliche, 1: il Linguaggio. Firenze, Sansoni.
Claval, P. (1997). L’évolution de quelques concepts de base de la Géographie. In: Jean-François Staszak, Les discours du géographe. Paris, L’Harmattan, 89-118.
Claval, P. (1997). La Géographie culturelle et l’espace. In Jean-François Staszak, Les discours du géographe. Paris, L’Harmattan, 119-144.
Conrad, J. (2018). Tifone. Torino, Einaudi. (1a ed. 1902).
Costa Silva, J. (2022). Amazônia, vivências e espaços emotivos. In: Kozel, S., Torres, M., Gil Filho, Espaço e Representações. Porto Alegre (RS), Compasso 317-336.
Cuminatto, A. (2019). Transiberiana. Faenza(RA), Polaris Guide.
D’Annunzio, G. (1995). Cento e cento e cento pagine del libro segreto di Gabriele D’Annunzio tentato di morire. Milano, A. Mondadori (1a ed. 1935).
Dardel E. (1952). L’Homme et la Terre. Nature de la realité géographique, Paris, Puf, (ed. ital., 1986. Milano, Unicopli).
Dauphiné, A. (1989). Spazio terrestre e spazio geografico. In Bailly, A. S. et al. I concetti della geografia umana, a cura di P. Dagradi. Bologna, Pàtron, 42.
De Andrade Mathieu, M. R., Costa Barbosa, I. F. (2005). Brasilia. Um patrimoine mondial en devenir local. Géographie et Cultures, v. 56, 111-126.
Dulau, R., Pitte, J.-R. (dir.). (1998). Géographie des odeurs. Paris, L’Harmattan. Edler, D.,
Kūhne, O. (2024). Nicht-visuelle Landschaften. In Kūhne, O., Weber, F., Berr, K., Jenal, C., (Hrsg.). Handbuch Landshaft, 937-950.
Elitis, O. (1979). Sole il Primo. Quaderni della Fenice. Milano, Guanda, 58.
Frémont, A. (1972). La région : essai sur l’espace vécu. Mélanges offerts à A. Meynier. Rennes, P.U.B. 663-678.
Frémont, A. (1974). Recherches sur l’espace vécu. L’Espace Géographique. 3-3, 231-238.
Frémont, A. (1976). La Région, espace vécu. Paris, Flammarion. (ed. ital. 1990. Milano, Franco Angeli).
Fumay, G. (2022). Alexande de Humboldt. L’eau et le feu. Genéve (Suisse), eds. Double Ligne. «Figure de l’itinérance ».
George, P. (2013; 1a ed., 1970). Dictionnaire de la géographie. Paris, Puf.
George, P., Verger, F. (2013). Dictionnaire de la géographie. Paris, Puf.
Hartshorne, R. (1939). The nature of Geography. A critical survey of current thought in the light of the past. Ann. Ass. Am. Geogr. Lancaster (Penn.), Assoc. Lancaster.
Hartshorne, R. (1958) The concept of geography as a science of space, from Kant and Humboldt to Hettner. Ann. Ass. Am. Geogr., 48 (2) 97–108.
Harvey, D. (1969). Explanation in Geography. London, Edward Arnold.
Harvey, D. (1978). Giustizia sociale e città. Milano, Feltrinelli, 160.
Hellpach W. (1911) Geopsyche. Die Menschenseele unter dem Einfluβ von Wetter und Klima, Boden und Landschaft, Leipzig, Engelmann, 1911 (ed. ital., 1967. Roma, Paoline).
Henshaw, V. (2013). Urban Smellscapes. New York, Routledge.
Hillman, J. (1983). Re-visione della psicologia. Milano, Adelphi. Hillman, J. (1999). Politica della bellezza. Bergamo, Moretti & Vitali. Hillman, J. (2001). Il piacere di pensare. Milano, Rizzoli.
Hillman, J. (2002). L’anima del mondo e il pensiero del cuore. Milano, Adelphi. (1a ed. 1974).
Hillman, J. (2004). L’anima dei luoghi. Milano, Rizzoli, 25.
Humboldt, A (von). (1808). Ansichten der Natur mit wissenschaftlichen Erläuterungen. Tübingen, Cotta (ed. ital., 1998, Quadri della natura. Scandicci (Fi), La Nuova Italia).
Humboldt, A (von). (1814). Relation historique du Voyage aux Régions équinoctiale du Nouveau Continent fait en 1799, 1800, 1801, 1802, 1803 et 1804 par A. de Humboldt et A. Bonpland, rédigé par Alexandre de Humboldt avec un atlas géographique et physique. I, Paris, Schoell.
Humboldt, A. (1945). Kosmos. Stuttgart und Tübingen, Cotta, 1.
Kaminski, W. (1905). Uber Immanuel Kant’s Schriften zur physischen Geographie. Eine Beitrag zur Methodik der Erdkunde. Königsberg, Hugo Jaeger.
Kozel, S., Torres, M., Gil Filho (org.). (2022). Espaço e Representações. Porto Alegre (RS) Compasso.
Kubitschek J. (1975). Por que construí Brasília, Rio de Janeiro, Bloch editores. Kubitschek
Lopes, M. E. (2010). Brasilia, la mia capitale, la mia sorella minore. In Balducci A. Bruzzese A., Dorigati R., (cur./eds), Brasilia i. A utopia come true/Un’utopia realizzata 1960-2010. Milano, Electa, 11-14.
Laboulais-Lesage, I. (2000-1). La géographie de Kant. Revue d’histoire des sciences humaines. 2, 147-153. La Géographie (2023). Patrimoines. Paris, Société de Géographie, 1589, 3-70.
Lehmann, H. (1986). Essays zur Physiognomie der Landschaft (Hrsg. von Anneliese Krenzlin u. Renate Müller), “Erdkundliches Wissen”, H. 83. Stuttgart, Franz Steiner Verlag Wiesbaden.
Lugo Hubp, J. (2003). Jean Tricart (1920-2003). Investigaciones geográficas, Ciudad de México. 51, 153-154.
Marciano, F. (2002). Casa Rossa. New York, Pantheon. (Milano, Longanesi, 2003).
Mazzocchi, S. (2003). Marciano: Aspro Salento lì è nata la mia Casa Rossa. La Repubblica, 28 luglio 2003.
Ministério do meio ambiente. (2012). Brasil, um País megadiverso e sociodivers. Brasília.
Montagu, A. (1978). Touching. The human significance of the skin. San Francisco (CA) Harper & Row. (ed. ital. 2021. Il linguaggio della pelle. Baiso (RE), Verdechiaro Ed.).
Noin, D. (1976). L’espace francais. Paris, Armand Colin (ed. ital. 1983, Milano, Franco Angeli).
Norberg-Schulz, Ch. (1979). Genius loci. Milano, Electa. (5a ed. 2000) Pallasmaa, J. (2007). Gli occhi della pelle. Milano, Jaka Book.
Pascoli, G. (1981). Poesie. Milano, A. Mondadori. (1a ed. 1939).
Petrarca, F. (2009). De remediis utriusque fortunae (Rimedi all’una e all’altra fortuna). Napoli, La scuola di Pitagora.
Pitte, J-R. (2023a). Éditorial. La Géographie. n. 1589, 3.
Pitte, J-R. (2023b). Beautés de la géographie. Paris, PUF.
Porteus, J. D. (1985). Smellscape. Progr. Physical Geography, n. 9, 356-378.
Quaini, M. (1992). Alexander von Humboldt cartografo e mitografo. In Claudio Greppi. Alexander von Humboldt. L’invenzione del Nuovo Mondo. Scandicci (Fi), La nuova italia, IX-XXIX.
Rebollo Gonçalves L. (2010). Roberto Burle Marx: l’estetica dello spazio. In: Balducci, A., Bruzzese, A., Drogati, R., (cur./eds). Brasília i. A utopia come true/Un’utopia realizzata 1960-2010. Milano, Electa Mondadori, 2010, 137-141.
Roberti , A. (2020). Lungo la Transiberiana da Mosca a Vladivostòk. Milano, Mursia.
Saadia, E. (1997). Tableaux géographiques d’Alexandre de Humboldt. In: Jean-François Staszak, Les discours du géographe. Paris, L’Harmattan, 69-86.
Sagaria Rossi, V. (2019). Un principe nel deserto. Roma, Bardi Edizioni. Sanguin, A.-L. (1994). Redecouvrir la pensée de Kant. Annales de Géographie, vol. 103, n. 576, 134-151.
Staszak, J.-F. (1997). Les discours du géographe. Paris, L’Harmattan.
Teilhard de Chardin, P. (1955). Le Phénomène humain. Paris, Éditions du Seuil, 241.
Vallega, A. (1989). Geografia umana. Milano, Mursia, 10.
Young B. D. (2020). Perceiving smellscapes. Pacific Philosophical Quarterly, vol. 101, n. 2, 203-223.
Zanghi, F. (2012). Oltre la Transiberiana. Libro pubblicato dall’autore.
Tricart, J. (1962). L’épiderme de la Terre, Paris, Masson et Cie.
Vallega, A. (2004). Geografia umana. Firenze, Le Monnier, 88, 89, 90-95.
Monkhouse, F. J. (1965). A dictionary of geography. London, Edward Arnold.
Notas

