APRESENTAÇÃO
Geodiversidade e Geopatrimônio
É crescente o número de artigos científicos que se propõem a discutir e a apresentar resultados de estudos que abordam a diversidade abiótica ou geodiversidade e termos associados, tais como geoconservação, geossítios, geoturismo, geoprodutos, dentre outros, todos sob a ótica patrimonial. A ideia de olhar o meio abiótico pelo viés do Geopatrimônio abre novas perspectivas e abordagens nas geociências, nas quais se busca atribuir valores aos componentes do meio abiótico de modo que se tornem um bem passível de herança.
Estudos sobre a geodiversidade vêm ganhando impulso progressivamente no Brasil, seja pelo programa de Levantamento da Geodiversidade, iniciado pela CPRM em 2006, ou pelo Programa Geoparque da UNESCO. Muitas áreas estão sendo propostas como territórios de geoparques. Em sua grande maioria, os estudos de inventariação dos elementos da diversidade abiótica estão sendo realizados por pesquisadores vinculados às universidades. Os critérios para avaliação dos sítios do geopatrimônio, ou geossítios, são os valores que podem ser atribuídos aos elementos do geopatrimônio. Eles variam entre valores científicos, turísticos, educativos, culturais, econômicos e estéticos.
Este Dossiê reúne artigos de pesquisa que tratam da valorização e conservação da geodiversidade ou diversidade abiótica enquanto elemento da paisagem que compõe o patrimônio natural. Nesta edição estão presentes estudos que contemplam a abordagem patrimonial do meio abiótico, passando por inventariação e avaliação qualitativa e quantitativa de geossítios. Estão presentes, também, trabalhos que abordam os geoparques brasileiros já chancelados pela UNESCO, bem como os geoparques aspirantes. Por fim, são contemplados também estudos teóricos acerca dos conceitos de Patrimônio e Geopatrimônio.
No artigo Geoparque Quarta Colônia Aspirante UNESCO: uma proposta de desenvolvimento territorial baseada na geoconservação da paisagem e do patrimônio no centro do estado do Rio Grande do Sul (Brasil), os autores apresentam os aspectos geopatrimoniais e paisagísticos mais relevantes inventariados no território do Geoparque Aspirante Quarta Colônia (RS). Relatam também a trajetória de construção da proposta de geoparque até a submissão do dossiê de candidatura à Geoparque Mundial da UNESCO.
Estudos sobre geodiversidade e geopatrimônio ganham espaço em áreas protegidas. É o caso do artigo Geoturismo e patrimônio geomorfológico em trilhas: Castelos do Açu (Parque Nacional da Serra dos Órgãos). Nele, os autores exploram o patrimônio geomorfológico a partir da identificação e caracterização dos pontos de interesse da geodiversidade. O geoturismo é promovido por meio da sistematização das informações obtidas ao longo da trilha para os Castelos do Açu, com o auxílio de um aplicativo de navegação.
No trabalho Identificação de quedas d’água nos municípios de Pelotas e Arroio do Padre (Brasil) por meio da cartografia colaborativa: subsídios ao geoturismo, os autores subsidiam a proposição de roteiros geoturísticos para a divulgação dos elementos da geodiversidade. O uso de questionários serviu de base para aplicação da cartografia colaborativa, com a finalidade de registrar a ocorrência de quedas d’água nos dois municípios.
Os valores estético, ecológico, histórico-cultural e, principalmente, científicos são explorados para caracterizar os geossítios em Geomorfossítios: a singularidade do patrimônio abiótico do Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul, Sul do Brasil. Partindo do inventário realizado para a implantação do Geoparque, os autores selecionam os sítios de natureza geomorfológica e os agrupam em quatro categorias: cânions, cachoeiras, morros testemunhos e costeiros/marinhos.
Outro trabalho que aborda os geomorfossítios como objeto de estudo se intitula Análise do inventário e quantificação de geomorfossítios da Capadócia Piauiense. O artigo parte da inventariação e avaliação dos geossítios, considerando os valores: científico, turístico, estético, cultural, econômico e outros. Os autores destacam os locais de ocorrência dos geossítios, os valores existentes, condições de acessibilidade e visibilidade, indicação do uso atual e possíveis usos futuros, além da deterioração, da proteção do local e vulnerabilidades associadas, nos territórios dos municípios de São José do Piauí e São João da Canabrava, no Piauí.
As formas de relevo são o foco principal em Geodiversidade, geopatrimônio e geoturismo aplicado às formas de relevo da Microrregião de Pau dos Ferros (RN, Brasil). Os autores identificam as principais geoformas de relevo sob a ótica da geodiversidade, do geopatrimônio e com aplicação ao geoturismo nas unidades de relevo serranos dos municípios potiguares de Portalegre, Francisco Dantas, Marcelino Vieira e Alexandria.
A importância dos geoparques é destacada em Geodiversidade, Geoparques e Semiárido brasileiro: a valorização do ambiente para o desenvolvimento territorial. A análise parte da premissa que os geoparques, por meio da valorização da geodiversidade, podem fomentar o desenvolvimento territorial. Os autores destacam a importância dos Geoparques como alternativa para o desenvolvimento territorial do Semiárido brasileiro.
Com foco na configuração socioespacial, O Geoparque Caçapava Aspirante (RS) como ponto de partida aos termos sustentabilidade, desenvolvimento, território e o produto territorial do Alto Camaquã aborda os temas geodiversidade, sustentabilidade, desenvolvimento e território. A autora coloca em destaque na paisagem desse território a produção de cordeiros, que deve ser valorizada como um marco conhecido como “produto do terroir”.
Em Avaliação do geossítio da Praia do Atalaia (Pará, Brasil): proposta de sítio paleontológico na Amazônia Oriental é apresentada uma avaliação quantitativa dos valores do geopatrimônio da Praia do Atalaia. Por meio do Sistema de Cadastro e Quantificação de Geossítios e Sítios da Geodiversidade do Brasil, as autoras classificaram o sítio paleontológico como Sítio de Geodiversidade, com elevado potencial educativo e turístico.
Para finalizar, Geopatrimônio: por quê? Para quê? Para quem? analisa o geopatrimônio, através da (re)construção do conceito de patrimônio e da discussão de formas e espaços de aplicabilidade. Os autores partem da construção do conceito de patrimônio; em seguida tratam do advento do geopatrimônio e, por último, de sua aplicação. O trabalho é uma importante contribuição, enquanto pesquisa teórica, relacionada aos conceitos e aplicações do patrimônio, principalmente do geopatrimônio e das estratégias de geoconservação.
Nós, organizadores, agradecemos aos autores pela escolha em publicar neste Dossiê e desejamos aos leitores uma boa leitura dos artigos aqui apresentados e que eles possam servir de estímulo para novas pesquisas.

