Dossiê
Recepção: 08 Fevereiro 2022
Aprovação: 02 Junho 2022
Resumo: o presente artigo realiza uma breve análise sobre a presença de teorias conspiratórias entre organizações e adeptos de ideias políticas de extrema-direita. Veremos como desde a emergência dos fascismos na primeira metade do século XX até a consolidação de grupos extremistas nos dias de hoje, teorias da conspiração mantém- se como parte fundamental de uma narrativa ideológica embasada no medo dos inimigos pré-determinados. Assim, poderemos perceber a historicidade dessa prática, suas reminiscências e as transformações pelas quais passou para manter-se útil à extrema- direita no presente. Por meio desse percurso, poderemos também verificar as mudanças pelas quais comportamentos políticos de extrema-direita passaram e quais são suas singularidades nos dias atuais.
Palavras-chave: conspiracionismo, extrema- direita, neofascismos.
Abstract: This article seeks to analyze the presence of conspiracy theories among organizations and supporters of political ideas located on the extreme right of the traditional political spectrum. We will see how, from the emergence of fascism in the first half of the 20th century to extremist groups today, conspiracy theories remain a fundamental part of an ideological narrative based on the fear of predetermined enemies. Thus, we will be able to perceive the historicity of this practice, its reminiscences and the transformations it has undergone to remain useful to the extreme right in the present. Through this route, we will also be able to verify the changes that extreme right- wing political behaviors have undergone and what are their singularities today.
Keywords: conspiracy, far right, neo- fascism.
Introdução
De acordo com Carlo Ginzburg (2006), o conspiracionismo é parte intrínseca da genética dos fascismos. Trata-se da constante ideia de que um inimigo está sempre à espreita, planejando um ataque contra a nação, contra o “corpo homogêneo” formado pela comunidade de iguais ou contra aqueles que representam regimes e organizações fascistas. Para os fascistas italianos, comunistas e liberais, adoradores da modernidade herdada do Iluminismo, trabalhavam em conluio para enfraquecer os pilares que soerguiam a histórica e tradicional cultura herdada do Império Romano, por isso precisavam ser destruídos. Os nazistas, por sua vez, concordavam com as fantasias de Benito Mussolini e incorporavam a elas a ideia de que os judeus planejavam o domínio mundial a partir da destruição da cultura europeia. Discursos que, mesmo sem qualquer embasamento na realidade ou qualquer comprovação, nortearam o comportamento fascista tradicional – e foram solidamente aceitos socialmente.
Teorias conspiratórias são hipóteses especulativas, sem bases ou evidências concretas, de que alguém ou algum grupo de pessoas intenciona perpetrar algum tipo de mal contra um indivíduo ou população específica. De modo geral, contrariam a compreensão de fatos solidamente comprovados e os atacam, acusando-os de defender os supostos conspiradores. Elas surgem não necessariamente para convencer as pessoas de que algo terrível está para acontecer, ou já aconteceu: sua faceta psicológica pode levar as pessoas a crerem que algo é possível com base na índole dos possíveis perpetradores. Portanto, as teorias da conspiração não operam para apresentar uma realidade oculta, mas para sugerir que os inimigos daqueles que formulam tais conspirações são capazes de um determinado mal (PIDGEN, 2007).
Vejamos um exemplo: durante a pandemia da SarsCov-19 que acomete nosso planeta desde 2020, surgiram notícias falsas sobre o uso de vacinas chinesas para exercer controle humano. Segundo os relatos, a vacina traria fragmentos de chips capazes de rastrear as pessoas e, por isso, deveriam ser evitadas. Os grupos anti-vacina fizeram amplo uso dessa teoria – que não só não possui qualquer base científica de comprovação, mas já foi cientificamente desmentida – não porque necessariamente acreditavam que as pessoas pudessem crer nisso (embora muitas tenham acreditado) e assim deixassem de se vacinar, mas porque tinham fé na desconfiança das pessoas em relação à China, um país que se diz socialista e, portanto, é reconhecido como uma ameaça aos sistemas capitalistas.
Nos anos que precederam a ascensão de Benito Mussolini ao poder na Itália, em 1922, e de Adolf Hitler na Alemanha, em 1933, a Europa vivia o temor constante de uma revolução como a que recentemente derrubara o czarismo na Rússia. Hitler acreditava que a União Soviética era resultado de uma conspiração judaica internacional para tomar o poder global. E utilizou esse discurso conspiracionista para ganhar força num país em crise, onde se proliferava o desejo por revanche em relação aos armistícios da Grande Guerra (que submeteram a Alemanha a uma derrota cujos impactos foram dramáticos) e a vontade de encontrar culpados para a situação alemã. O nazismo canalizou toda essa revolta e direcionou o ressentimento dos alemães aos judeus, acusados de conspiração para o domínio mundial.
Os fascismos não morreram com seus pioneiros no ocaso da Segunda Guerra Mundial, como muitos gostariam. Como comportamentos políticos, fenômenos culturais e visões de mundo, foram reformulados para continuarem atuantes no presente. Após o imediato pós-guerra, arrefeceram em decorrência das investidas de tribunais internacionais engajados na criminalização dos regimes fascistas, um esforço para evitar que as ideias responsáveis por motorizar o Holocausto e os diversos crimes de guerra, especialmente os perpetrados pelo nazismo, pudessem se repetir. Theodor Adorno (2004) já alertava para o fato de que evitar os terrores de Auschwitz era uma obrigação para os educadores, enfatizando o clima que se seguia a 1945. Nos anos 1960 e 70, organizações neofascistas ganharam novo fôlego após uma complexa “cirurgia cosmética” (COPSEY, 2004), uma manobra para esconderem sua aparência mais radical e assumissem uma postura mais moderada, almejando a penetração nas instituições democráticas da Europa pelas vias eleitorais.
Os anos 1970 foram de profunda crise para o capitalismo moderno, colocando em xeque os sistemas liberais vigentes, os modelos social-democráticos e impulsionando o ímpeto da esquerda em disputar o poder. Organizações como a National Front, no Reino Unido, consubstanciavam os esforços para apresentar grupos políticos infestados de ex- militantes neofascistas como uma alternativa à dicotômica disputa entre esquerda e direita. Ao mesmo tempo, skinheads se aliavam a estas organizações servindo como militância entre os jovens, depois rompendo com os partidos e líderes políticos em nome de uma ação mais radical (OLIVEIRA, 2018). Se os neofascismos são a versão atualizada de um comportamento político originado nos anos 1920, embora empreendam alguns
rompimentos com o passado, mantem significativa parte da estrutura dos fascismos históricos.
Organizações contemporâneas como os Proud Boys, nos Estados Unidos, ganharam notoriedade nos anos do governo Donald Trump (2017-2021) sobretudo pelos acenos do então presidente ao grupo, surgido no seio da chamada alternative right, corrente da extrema-direita cujo protagonismo na campanha de Trump à Casa Branca é marcante. O grupo ficou famoso por ações violentas como o atendado a igrejas frequentadas por pessoas negras em Washington., planos para assassinar inimigos políticos a pedido de membros honorários. e até mesmo a participação na invasão ao Capitólio em janeiro de 2021.. Em um dos últimos debates presidenciais antes da derrota de Trump para Joe Biden nas eleições presidenciais de 2020, o então presidente acenou aos Proud Boys em transmissão nacional ao vivo.
O grupo reúne diferentes elementos dos fascismos clássicos, dentre eles o ódio à modernidade e à inserção das mulheres no mercado de trabalho – que seria resultado direto de uma sociedade corrompida pelo liberalismo e por ideias comunistas -, mas adota novos procedimentos. Liderado por descendentes de latino-americanos, apaga de suas frentes o racismo contra estes indivíduos – tão comum entre neofascistas estadunidenses – e adotam o “ocidentalismo” como parâmetro de raça ou cultura ideais, transformando todas as outras em inferiores, ameaçadoras e energizadas por uma conspiração internacional cujo desfecho será a destruição da cultura ocidental, descendente da europeia (STERN, 2020). Novamente, o conspiracionismo está presente.
Tendo surgido em micro organizações embrionadas em fóruns anônimos como o 4Chan e o Reddit, os Proud Boys compartilham de uma manobra frequentemente pensada em espaços como estes: difundir teorias da conspiração que prejudicam a imagem de seus inimigos e, consequentemente, favorecem eles mesmos, suas ideias e aqueles que lhes representam. Exemplos como o Pizzagate e o Q-Anon, sobre os quais falaremos mais detidamente em seguida, foram peças criadas pela extrema-direita estadunidense na internet para impulsionar as campanhas presidenciais de Trump e, ao mesmo tempo,
promover a revolta de cidadãos comuns contra os alvos de ataques conspiracionistas, sobretudo o Partido Democrata, a esquerda ou qualquer movimento progressista que ameaçasse o trajeto da extrema-direita ao poder (HERMANSSON; LAWRENCE; MULHALL; MURDOCH, 2020). Com isso, estreitavam a linha entre as pessoas comuns e grupos com tendências neofascistas.
Nosso propósito neste artigo é analisar as semelhanças e diferenças, permanências e rupturas, entre o conspiracionismo presente entre os fascismos clássicos nos anos 1920-30 e aquele adotado por organizações neofascistas ou de extrema-direita no presente. Com isso, pretendemos contribuir para o debate sobre o conhecimento em torno da emergência dos neofascismos e de como ideias extremistas são preservadas em nosso tempo, o que exprime um esforço coletivo para tanto. Por fim, buscamos contribuir também para os candentes debates em torno do conspiracionismo.
O medo da Revolução Bolchevique e o incêndio do Reichstag: conspiracionismo nas raízes dos fascismos
Como já foi exaustivamente explicado pela historiografia sobre o tema, os fascismos (no plural, entendendo que há especificidades em cada caso) surgiram e ganharam força durante a crise do liberalismo que aplacou a Europa desde o fim da Primeira Guerra Mundial. Por um lado, os políticos conservadores acusavam a modernidade, resultante do Iluminismo, havia corrompido a humanidade a tal ponto que esta agora se encontrava em permanente instabilidade. Por outro, o sucesso da Revolução Bolchevique de 1917 inaugurava um novo regime que negava o capitalismo liberal, bem como as reminiscências dos regimes aristocráticos. No período que vai de 1914 até o final da Segunda Guerra Mundial, as democracias liberais foram reduzidas vertiginosamente. Estas eram responsabilizadas pela flexibilização das relações e, portanto, o caos social a partir de fortes perdas de referências (HOBSBAWM, 2015).
O movimento criado por Benito Mussolini por volta de 1919 se apresentava como alternativa à dita fragilidade liberal-democrática e à “ameaça socialista”. Mussolini argumentava, em crítica à ortodoxia marxista, que a luta de classes na Itália não era suficientemente forte para impulsionar uma revolução. O desejo pela guerra como motor nacionalista, tendo como norte o fortalecimento do tardio império italiano, era, para ele, a mola propulsora de uma revolução social. Por isso Mussolini, ao ser expulso do Partido
Comunista Italiano, se cercou de veteranos da guerra incomodados com a posição secundária da Itália entre os vencedores, deixando de participar da partilha das conquistas efetivadas. Também acionou políticos conservadores que atacavam a modernidade frontalmente e recebeu grande atenção de empresários do capital financeiro, preocupados com a revolução socialista. Além disso, Mussolini apelava aos seus compatriotas flagelados pela crise econômica, especialmente a classe média, sinalizando para os perigos do comunismo e do liberalismo que, segundo a retórica fascista, protegia apenas os privilégios dos mais ricos. O conceito de fascismo surge da união destes grupos e de seus ressentimentos e preocupações: o fascio, arma usada durante o antigo Império Romano, era um machado fortalecido pela união de diversos feixes de varas, simbolizando a força por meio da união (PAXTON, 2007).
Por sua aproximação com o conservadorismo, seu flerte com costumes tradicionais, seu perfil abertamente reacionário e antiprogressista, o fascismo que surge na Itália, bem como suas ramificações – o nazismo na Alemanha, o integralismo no Brasil, o nacional- sindicalismo em Portugal, entre outros -, está posicionado à direita do espectro político tradicional. Portanto, “a direita é o gênero [político] de que o fascismo é uma espécie” (KONDER, 2009, p. 28). Dotado de um pragmatismo radical, o fascismo não se valia de teorias políticas ou filosofias definidas, preferindo o que Umberto Eco (2018) chamou de “ação pela ação”, ou seja, a política por meio da violência. Devido ao seu comportamento violento e radical, que guia a confrontação física como forma de conquista do poder, o fascismo se situa na extrema-direita.
Os fascismos são comportamentos políticos. Como tais, almejam a construção de um novo mundo no qual a diferença, a alteridade e a discordância deverão ser estripadas e somente os iguais – “nós” – poderão desfrutar das benesses da comunidade ou da nação ideal. Com frequência, os fascistas entendem que esta comunidade está em decadência ou foi humilhada por “eles”, os “outros”, aqueles que desconhecem o sentimento nacionalista que norteia uma multidão na direção do corporativismo, da narrativa de que cada sujeito é parte de um corpo e, tal qual seus membros e órgãos, possuem funções hierarquizadas e específicas. “Eles” geralmente são os culpados por qualquer problema que afeta o grupo pretensamente coeso, justamente por ser diferente (PAXTON, 2007). Mas, quem são os “outros”? Para o fascismo italiano, que emerge em 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial, são principalmente os comunistas que, após o sucesso da Revolução
Bolchevique, estariam pretendendo espalhar as sementes do comunismo por toda a Europa, destruir a nação e os valores tradicionais.
Como já mencionamos, a Itália estava arrasada após a Grande Guerra. Os militares veteranos sentiam que o país havia sido preterido entre os vencedores, sendo relegado a uma segunda categoria entre os membros da Aliança. Crises econômicas, sociais e políticas tomaram a Itália - tudo isso já estamos cansados de saber. Benito Mussolini, pai do fascismo, canalizou todas as frustrações e ressentimentos dos italianos na direção daqueles que ele considerava culpados pela situação italiana: os liberais no poder e os comunistas que, supostamente aproveitando-se das crises para ganhar espaço, desejavam assaltar o poder. Por meio de uma violência redentora, Mussolini e seus fascistas desejavam expurgar os inimigos, chegar ao poder e instituir um Estado regulador que promovesse a ação brutal como base e o nacionalismo como motor de seu progresso (KONDER, 2009). Para isso, era necessário convencer os altos escalões da sociedade italiana – capitalistas da indústria internacional, especialmente – de que o comunismo era uma ameaça contra a qual somente o fascismo poderia ser eficaz.
Para Mussolini, os socialistas que ocupavam cadeiras parlamentares na Itália aguardavam e se esforçavam para acelerar os processos históricos necessários para que o capitalismo se tornasse obsoleto e, enfim, o comunismo pudesse prevalecer, segundo os desdobramentos profetizados por Karl Marx (PAXTON, 2007). Embora não possamos desmentir esse fato, sem dúvidas o fascismo italiano intensificou a ideia de que uma conspiração comunista agia nos subterrâneos da política nacional a fim de implodir o sistema existente e implantar um regime aos moldes do soviético. A narrativa do “perigo comunista”, aquele que rastejava no escuro e estava à espreita, aguardando uma oportunidade para destruir famílias e corroer os alicerces da nação, foi amplamente utilizada pelo fascismo para ganhar força e imprimir contra seus inimigos todo tipo de violência (TEIXEIRA DA SILVA, 2004).
Devemos notar que o ódio dos fascistas a liberais e comunistas é parte da ideia de que a modernidade havia destruído as tradições e criado um novo mundo onde as pessoas não conseguiam se encontrar. O mundo moderno derrubava comportamentos tradicionais e permitia novos, como, por exemplo, o acesso das mulheres ao mercado de trabalho e a expansão da ciência como forma de organizar o mundo, o que causava a fúria daqueles que viriam a ser chamados de fascistas. Para eles, liberalismo e comunismo eram ambos advindos do mesmo lugar: o Iluminismo, catapulta da modernidade. Por isso a violenta
reação dos fascistas a tudo que é moderno e minimamente progressista e seu forte vínculo com o tradicionalismo (TEIXEIRA DA SILVA, 2004).
O ódio ao comunismo foi uma das pontes usadas por nazistas para chegar ao poder. Em fevereiro de 1933 (pouco menos de um mês da ascensão de Adolf Hitler ao cargo de chanceler), os nazistas buscavam consolidar o controle na Alemanha. O país vivia uma situação parecida com a da Itália no pós-guerra, mas ainda pior: responsabilizados pelo conflito, s alemães sofreram sanções pesadas e por muitos consideradas humilhantes. O nazismo foi uma profunda reação a isso, tendo galvanizado o revanchismo alemão contra os responsáveis pelos armistícios afrontosos: liberais e comunistas. Somava-se a eles um outro elemento, os judeus, vistos por Hitler como uma ameaça à pureza da raça ariana que, segundo seu livro-manifesto, Mein Kampf, deveria caminhar soberana sobre a Europa. Visto que, para os nazistas, o mal que representava os judeus estava em seu sangue, uma genética que supostamente impedia laços com a nação (TEIXEIRA DA SILVA, 2014), herdada dos eslavos, o antissemitismo dos nazistas era francamente racista. Naquele fevereiro, o incêndio do Reichstag em Berlim selou a consolidação dos nazistas no poder.
Ocorre que, segundo suspeitas nunca comprovadas, o responsável pelo incêndio, um jovem holandês chamado Marinus van der Lubbe, era um militante comunista. A suspeita de que o crime havia sido perpetrado em nome do comunismo, ideologia odiada por Hitler desde antes de sua chegada ao poder, foi amplamente explorada pelos nazistas como uma forma de espalhar o medo de uma conspiração revolucionária internacional e a narrativa de que somente os nazistas, dotados de seu aberto desejo pela luta armada, fossem capazes de conter a ameaça. Hitler insistia na ideia de que, devido ao fato, os comunistas precisavam ser exterminados tal qual uma peste, recebendo consistente adesão da sociedade civil e garantindo seu poder através do medo. Os nazistas conseguiram, por meio da legislação, acionar dispositivos anticonspiratórios que lhes permitiam prender arbitrariamente qualquer inimigo (TOBIAS, 1964).
Embora não seja equívoco dizer que militantes comunistas se organizavam para dar início a processos revolucionários em uma Europa fragilizada após a guerra, não restam dúvidas de que os fascistas, tanto italianos quanto alemães, criaram a sombra de um monstro na parede, desproporcional ao que realmente existia. Antes da União Soviética, que somente se formalizaria em 1922, não havia qualquer apoio sólido dos revolucionários russos a organizações no oeste da Europa (HOBSBAWM, 1995). Além do mais, os movimentos organizados também se encontravam entravados pela penúria que se seguiu à
guerra, motivo pelos quais os revolucionários retiraram a Rússia do confronto. É inegável haver uma cristalina oportunidade para levantes comunistas na Itália e mais ainda na Alemanha, mas fascistas e nazistas certamente inflamaram as expectativas.
Vale ressaltar que os nazistas eram reativos ao comunismo não apenas por sua narrativa ideológica, mas também por entender o marxismo como uma herança da modernidade que ecoou o Iluminismo, base do pensamento liberal. Para Hitler, liberalismo e comunismo eram duas faces de uma mesma moeda, assim como pensava Mussolini e os fascistas italianos. Havia ainda o fato de Karl Marx, pai fundador do comunismo moderno, ser descendente de judeus. Portanto, isso engrossava o coro do antissemitismo radical no nazismo. Um dos sustentáculos desse antissemitismo era um documento falso vigorosamente disseminado em boa parte da Europa. É sobre ele que falaremos agora.
Os Protocolos dos Sábios de Sião: antissemitismo, ódio racial e conspiracionismo
No limiar do século XX, o czar russo Nicolau II teve em mãos um documento substancialmente favorável ao seu poder contra seus inimigos: uma espécie de ata, que registrava uma série de decisões tomadas em um congresso realizado por judeus no final do século XIX. As decisões se referiam a procedimentos necessários para um longo processo de domínio mundial, que por meio da destruição da cultura ocidental instauraria um regime global de controle judaico. Os chamados Protocolos dos Sábios de Sião, nome dado ao documento, desencadeou o medo de uma conspiração internacional por toda a Europa e se tornaria a catapulta para o antissemitismo contemporâneo (GINZBURG, 2006). O documento, contudo, era falso.
Por volta de 1921, o jornal britânico The Times já havia apresentado provas suficientes de que o tal documento era, na verdade, uma farsa: tratava-se de uma falsificação com objetivos utilitários, a fim de criar uma mobilização antissemita de proporções inimagináveis. Porém, até aquele momento os Protocolos já haviam sido traduzidos para diversas línguas e sua suspeição não era aceita por muitos. Era, em larga escala, a justificativa perfeita para uma aguardada reconfiguração do antissemitismo. Nos anos 1970, o livro foi traduzido para o português pela Editora Revisão, dedicada a publicações que contestam a comprovada veracidade do holocausto. Nos anos iniciais do nazismo, o documento falso impulsionou o antissemitismo hitlerista.
Antes mesmo dos nazistas chegarem ao poder na Alemanha, os Protocolos dos Sábios de Sião foram mencionados incontáveis vezes por Hitler como comprovação de que para evitar um domínio global judaico – que comprometeria, segundo a retórica nazista, as conquistas da raça ariana -, era necessário exterminar os judeus. A “solução final”, levada a cabo por Adolf Eichmann, era a consubstanciação desse pensamento. A propaganda nazista se fez ferozmente do falso documento para espalhar medo entre os alemães e buscar uma justificativa para a perseguição aos judeus. Muitos foram acusados de estarem enriquecendo em meio à crise do pós-1918, o que seria um indício de que os Protocolos estavam corretos (BEN-ITTO, 2005).
No Brasil dos anos 1930, a Ação Integralista Brasileira, movimento que emulava com detalhes o fascismo italiano, adaptando-o à realidade nacional, estava cheio de líderes abertamente antissemitas. Gustavo Barroso é o maior exemplo disso: escreveu inúmeros ensaios e alguns livros nos quais se amparava nos Protocolos para atacar judeus. Foi um dos primeiros a traduzir o falso documento para a língua portuguesa, sendo um dos pioneiros em estudos pseudocientíficos sobre o racismo direcionado aos judeus. Embora o antissemitismo não fosse uma das marcas mais emblemáticas do integralismo, seu cristianismo radical acabou evocando esta linha de pensamento entre seus quadros (BERTONHA, 2014).
É interessante observar que, ainda hoje, os Protocolos e seus resíduos são utilizados para questionar a existência do holocausto judeu durante o nazismo, como se ele fosse uma invenção judaica não apenas para criminalizar os nazistas, mas para conseguirem robustas reparações como a criação do Estado de Israel. Organizações como o Nueva Ordem (Espanha), Frente Orden Nacional (Chile), Frente Integralista Brasileira (Brasil), Aryan Nations(Estados Unidos), entre muitas outras, creem que o holocausto é uma mentira prevista nos Protocolos, mais uma manobra do “sionismo” para fortalecer sua posição e dar mais um passo no controle mundial. As mesmas organizações acreditam, baseadas nessas mentiras, que os bancos, os meios de comunicação, as instituições políticas, entre outras instâncias da vida social, estão tomadas por judeus que, por meio desses mecanismos, atraem as civilizações contemporâneas em direção ao colo de sua cultura (PAXTON, 2007).
Mais recentemente, organizações como os Proud Boys tem retomado as propostas dos Protocolos dos Sábios de Sião e de outros livros que remontam o racismo antissemita e a ideia de uma ameaça oriental à cultura ocidental. The passing of the great race, de
Madison Grant, foi lançado em 1915 como um verdadeiro manifesto estadunidense à eugenia, fortalecendo ideias de limpeza étnica a partir da repressão a judeus. Lothrop Stoddard foi outro pseudocientista defensor da eugenia que ganhou popularidade entre os entusiastas desta corrente racista àquela época. Seu livro The revolt Against civilization, de 1922, irrompe como uma obra referencial para os que buscavam respaldo para a manutenção de práticas racistas no país. The Rising Tide of Color Against White World Supremacy, lançado dois anos antes, também discorre sobre uma possível guerra racial futura para a qual os brancos necessitavam estar preparados, do contrário perderiam o espaço vital do que chamava de raça superior. Todas essas obras tem sido recuperadas pelos Proud Boys e seus aliados nos últimos anos (STERN, 2020).
No comício da Unite the Right, em Charlottesville, na Virginia, ocorrido em 2017, diversos manifestantes de alinhamento neonazista gritavam que os judeus não iriam substituí-los. Esse discurso pressupõe uma suposta ameaça judaica contra os brancos, uma constante entre os nazistas de ontem e de hoje. No caso dos EUA, uma identidade teológica vem impregnando normas neonazistas desde muito cedo. Embora os neonazistas estadunidenses prefiram, com maior entusiasmo, religiões pagãs, protestantes ou nenhuma religião, há fortes vestígios de elementos culturais religiosos fundamentalistas nos discursos de ódio neonazistas contra os judeus. Não é incomum que muitos deles se amparem nas cláusulas falsificadas de domínio religioso dos Protocolos para respaldar seu ódio, encontrando amparo em parte de uma sociedade inflamadamente protestante (MARTINEZ JR.; SELEPAK, 2013).
Os EUA possuem uma extrema-direita tão vasta quanto complexa. O nazismo teve grande aceitação no país não apenas entre organizações supremacistas como a Ku Klux Klan, atuante desde o século XIX, mas também entre nacionalistas e antissemitas como os da German American Bund, criada para apoiar a união entre nacionalismo estadunidense e nazismo. O antissemitismo intrínseco ao nazismo tinha adeptos fervorosos, como Henry Ford, precursor do modo de produção serial que transformaria para sempre a indústria. George Lincoln Rockwell e outros nazistas assumidos ajudaram o nazismo a crescer nos EUA, sempre aliando nacionalismo a racismo e antissemitismo, com base num forte discurso cristão fundamentalista (PAXTON, 2007). No país onde a internet se tornou meio de comunicação doméstico mais rapidamente, não é surpresa que a persistência destas visões de mundo tenha logo ganhado a rede.
As organizações neofascistas ou mesmo grupos que orbitam o espectro político da extrema-direita contemporâneos têm buscado na internet um novo espaço não apenas para difusão de ideias políticas, mas também de teorias da conspiração que, por um lado, espalham sua visão de mundo para o restante da sociedade e, por outro, favorecem representantes políticos consonantes com suas visões de mundo. Procedem dessa maneira buscando legitimidade a partir da desonra e da destruição da reputação dos inimigos, atualizando mecanismos como os Protocolos. O Pizzagate e o Q-Anon são exemplos disso.
Pizzagate . Q-Anon: atualizando o conspiracionismo frente à modernização da extrema-direita
Até aqui temos falado sobre como o conspiracionismo é parte essencial dos fascismos, sejam eles do passado ou do presente. Contudo, outros grupos de extrema- direita, não necessariamente perfilados aos fascismos, se fazem de teorias da conspiração como arma política. Sendo os fascismos comportamentos políticos reconhecidamente de extrema-direita, é possível encontrarmos uma relação entre eles e movimentos reacionários, por exemplo, inclusive a opção pelo conspiracionismo, a frequente ideia de que os inimigos estão engajados em destruir o mundo que querem construir e assim por diante. O próprio Getúlio Vargas, nos anos 1930, deu um golpe de Estado motivado, dentre muitas coisas, por um certo Plano Cohen, criado pelos seus aliados para, falsamente, apresentar um mentiroso planejamento dos comunistas para a tomada do poder. A conspiração, que jamais existiu, serviu para justificar a permanência de Vargas e a criação do Estado Novo, que suspendia diversos direitos da população e impunha uma nova Constituição, favorável ao governo e a seu perfil reacionário (SKIDMORE, 1982).
No final da ditadura militar brasileira, seus beneficiários desejaram esticar o regime e controlar a imagem de seus antagonistas que, para evitar dúvidas sobre a idoneidade militar na caça aos “inimigos do Estado”, deveria ser engessada como a imagem de terroristas revolucionários. O atentado do Riocentro, em 1981, tinha como objetivo demonstrar a insatisfação de setores do exército com a abertura à democracia, iniciada pouco antes. Por meio da explosão de bombas, alguns militares desejaram ferir seus companheiros que estavam engajados no fim da ditadura. Frustrado, o plano acabou ferindo os responsáveis e desencadeou uma crise na instituição capaz de acelerar a reabertura. Procurando esconder o caso, a inteligência militar culpou uma conspiração de
esquerda há muito interessada em atingir militares e forçar o fim do regime (McCANN, 2011).
Nos últimos anos, temos acompanhado o crescimento vertiginoso de grupos ou “lobos solitários” de extrema-direita que reúnem características em comum: forte desprezo pela democracia, ressentimento contra minorias que ganharam espaço socialmente (negros, LGBTQI+, classe trabalhadora) a partir de políticas afirmativas ou de Estado, frustração sexual (embasada na ideia de que o feminismo impede relações amorosas tradicionais) e ódio pelo “politicamente correto” (a ideia genérica de que não é mais aceitável discursar livremente contra grupos vulneráveis), bem como pelo mundo moderno, entre outras coisas. Os chamados celibatários involuntários, ou incels, criaram uma tendência cada vez mais conhecida: o agrupamento de homens que, incapazes de lidar com as transformações de comportamento decorrentes de uma aceleração de políticas mais progressistas no Ocidente, culpam as mulheres por sua incapacidade de se relacionar com elas. Como outros grupos semelhantes, os incels se reúnem majoritariamente em plataformas virtuais como o 4Chan e o Reddit. Mesmos espaços onde a nova extrema-direita, incluindo organizações neofascistas, têm ganhado força (TUTERS, 2018).
A linha que separa os incelsde grupos neofascistas na internet é tênue. Desde os anos 1970, quando movimentos neofascistas buscavam militantes jovens para as suas frentes, a busca incidia justamente nas frustrações de adolescentes ou jovens adultos com a modernidade. Os “rejeitados” acabam encontrando espaço e acolhida nesses grupos, interessados em recrutá-los. Ainda há muito que se pesquisar sobre essa relação no século XXI, mas é sabido que fóruns online e comunidades virtuais têm sido o epicentro das construções políticas de extrema-direita por parte de um público que não necessariamente está afiliado a partidos ou movimentos (MOSKALENKO; McCAULEY, 2021).
A internet, além de espaço no qual registramos a todo momento comportamentos e processos históricos, serve como palco de disputas políticas. Não pretendemos discutir isso com detalhes, visto que não é o objetivo deste artigo. Mas é importante nós observarmos, por exemplo, como a internet tem sido um espaço de embates pelo poder não apenas em campanhas eleitorais, mas também entre pessoas que defendem um ou outro ponto de vista, uma ou outra visão de mundo. Apesar de parecer, pois agora estamos vivendo isso de forma mais candente, essa não é uma novidade trazida pela internet, pois esse meio de comunicação favorece a compreensão de que temos, em nossas mãos, uma ferramenta política capaz de nos tornar sujeitos ativos (MAYNARD, 2011). Por isso, redes sociais,
aplicativos de mensagens instantâneas e outras plataformas têm sido intensamente utilizados para disputar o poder: de narrativa, de construção de notícias, de analisar processos.
Os incels são apenas um dos grupos que seguem tendências semelhantes mesmo longe das superfícies da internet. Os próprios Proud Boys encontram eco nestes espaços. Correntes reacionárias como a do aceleracionismo – que, grosso modo, pensa a prática de ataques violentos como meio de espalhar o terror e abrir espaço para políticos autoritários -
, bem como expressões musicais como a fashwave– uma mistura de música eletrônica e estética dos anos 1980-90 com simbolismo apologético aos fascismos -, ganham corpo nas profundezas da internet de onde emergem para encontrar simpatizantes. Numa sociedade polarizada, como foi o caso dos EUA até as eleições de 2016, os adeptos destas correntes conseguiram intensificar um caos político que foi favorável à vitória de Trump. Este representava o sentimento nacionalista de diversos sujeitos, além de personificar o combate às estruturas que representavam derrotas a pensamentos mais conservadores (PHILLIPS, 2012).
A organização dos incelsse dá prioritariamente na internet. Esta é, portanto, um meio pelo qual teorias da conspiração se disseminam e o espaço preferido dos incels, os fóruns de comunidades sobre temas específicos, é onde elas são criadas. Não pelos próprios fóruns, mas pelos seus participantes que produzem discussões como a do Q-Anon, que ficou famosa nos EUA durante os últimos anos e sobre as quais falaremos mais detidamente a seguir. A internet possui uma importância inquestionável em uma sociedade cada vez mais informatizada, dentro da qual notícias e mensagens chegam nos nossos bolsos, em qualquer lugar, via aparelhos celulares. Esse poder de disseminação da rede é profícuo aos teóricos da conspiração, que fazem uso de sua amplitude para espalhar falsificações da realidade com objetivos políticos particulares.
A chamada alternative right, classificação genérica muito utilizada pela imprensa e especialistas para classificar a forma de agir dessa nova onda da extrema-direita nos EUA
– sendo uma de suas principais características o uso de mídias digitais para difundir ideias e recrutar militantes -, representa bem o resultado da união de diversos seguimentos reacionários ocidentais contra tudo que não lhes permitem se sentirem à vontade para defender abertamente o racismo, a homofobia, o machismo, etc. Foi na internet que a alt- right, como é chamada, ganhou espaço. Por meio de plataformas virtuais, a alt-right tem se
organizado e orquestrado ações de ataque a seus opositores com fins políticos claros (GIANOCELLI, 2021). O caso Pizzagate ilustra bem o que queremos dizer.
No início de 2016, meses antes das eleições presidenciais disputadas por Hillary Clinton e Donald Trump, a WikiLeaks vazou uma série de e-mails assinados por John Podesta, chefe da campanha da candidata democrata. Não havia qualquer traço de transações ilegais no e-mail, mas a repetição das palavras “pizza” e “queijo” chamaram a atenção de diversos ativistas reacionários. Em fóruns do 4Chan, uma investigação particular, sem qualquer respaldo em documentações válidas, afirmou que ao falar sobre cheese pizza (pizza de queijo) em seus e-mails, Podesta se referia a pornografia infantil. A palavra “molho”, também bastante presente nas mensagens, supostamente significava “orgia”. As orgias envolvendo menores, com as quais Podesta estaria envolvido, ocorreriam nos porões da pizzaria Comet Ping Pong, da qual Tony Podesta, irmão de John, era frequentador assíduo. Imediatamente, milhares de fake news acusando os irmãos de pedofilia foram disseminadas, colocando em xeque a campanha de Clinton (TUTERS, 2018).
Manipulando imagens, descontextualizando mensagens e decifrando códigos que não existiam, ativistas de extrema-direita criaram uma longa narrativa tentando comprovar a associação dos Podesta a crimes de pedofilia. Logo, a situação alcançou os noticiários e a opinião pública, causando certo dando à campanha democrata. As fake news normalmente apelam à ideia de que por mais absurda e mentirosa que seja a informação, ela resumiria o que algumas pessoas pensam sobre a moral e a dignidade (ou ausência delas) da pessoa que é alvo da notícia falsa. Os republicanos mais radicais, ou a extrema-direita em geral, poderia dizer: “mesmo que o democrata não tenha feito isso, é plausível que os democratas sejam assim”. Por mais que a ausência de provas pudesse comprometer as intenções da extrema-direita, o estrago já estava feito: espalhadas incansavelmente em redes sociais e aplicativos de mensagens, as mentiras sobre Hillary Clinton levantou dúvidas o suficiente para atrapalhar sua caminhada à Casa Branca, segundo atestam especialistas (TUTERS, 2018; STERN, 2020).
Algo muito parecido ocorreu em 2017, quando o Q-Anon (Q anônimo) se manifestou em um fórum do 4Chan. A mensagem, escrita em anonimato, se referia à existência de uma organização de pedofilia internacional, levada a cabo por liberais ligados ao Partido Democrata e à esquerda estadunidense, supostamente engajados na manutenção de um “Estado Profundo”, a funcionar alheiamente às vontades do então presidente Donald
Trump. A conspiração estaria se mobilizando para atacar Trump próximo das eleições de 2020, com o objetivo de inviabilizar sua reeleição (MOSKALENKO; McCAULEY, 2021). É interessante observar que as características da teoria conspiratória expõem sua dupla pretensão: caso Trump não fosse eleito, seus apoiadores saberiam de quem era a culpa; caso vencesse o pleito, demonstraria sua força perante seus inimigos. Notícias falsas sobre esta teoria foram intensamente disseminadas desde 2017.
Teorias da conspiração como a do Q-Anon buscam, por um lado, desqualificar inimigos políticos e abrir espaço para um representante ou grupos de representantes específicos e, por outro, mobilizar a sociedade civil em torno de uma possível ação radical, tal qual a invasão ao Capitólio em Washington, no dia 6 de janeiro de 2021. Esse tipo de recurso é mais do que uma forma de fazer política no século XXI, o século das fake news: é um instrumento de transformação cultural. Tal processo busca a reinvenção de valores e ícones nacionais, mitológicos e sociais, a fim de confrontar uma mentalidade progressista que tem, pouco a pouco, jogado o conservadorismo e visões reacionárias contra as cordas. As teorias da conspiração, por serem desprovidas de provas, é uma negação à ciência como baluarte da modernidade, recusada por organizações de extrema-direita geralmente inclinadas ao tradicionalismo. Ou seja, a uma visão de mundo que vê no passado, num tempo superado, a maior referência para o presente (MOSKALENKO; McCAULEY, 2021).
Há que se pensar também que em um mundo cada vez mais conectado, o acesso à internet e às redes sociais cria novas formas de se comunicar. O virtual, que é o real em potencial (LÉVY, 1999), permite às pessoas criarem universos e discursos que se moldam à volatilidade do meio por onde são criados e transmitidos. Por isso, as pessoas podem se sentir donas de uma voz ativa que será ouvida por todos, quando na verdade impacta apenas alguns grupos. Por outro lado, algumas pessoas conseguem ser ouvidas por um número maior de usuários da rede e convencê-las de que sonhos e ilusões são reais. O tempo que se passa na internet hoje em dia é tão grande, que o virtual parece mais aceitável do que a vida fora da rede. Curioso é como tradicionalistas e conservadores, verdadeiros adoradores do passado, fazem amplo uso da internet.
O tradicionalismo é um movimento cujas origens nos remete a um período anterior à I Guerra Mundial. Se tornou bastante popular na Europa durante os anos 1930, especialmente em círculos restritos na Itália e Alemanha. A partir dos anos 1960, converteu-se em um movimento espiritualista. É um movimento reacionário, com duas
ideias centrais: antimodernismo, motor para a busca incessante de uma alternativa à modernidade. Modernidade é, para o tradicionalismo, o contrário de tudo que é bom. Tudo que representa a modernidade (liberdade, democracia, fraternidade) é abominado. A outra ideia central é a de que a alternativa à modernidade é algo que está no passado e deve ser resgatado: na Idade Média, na antiguidade clássica, etc. Esse pensamento é, em parte, a base da ideia fascista e nazista de retomada de seus antigos impérios (romano e germânico). A desinformação é uma forma de combater uma ciência supostamente tomada por universitários, que seriam representantes da esquerda e de um projeto de modernismo “putrefato”. O tradicionalismo é um movimento que faz parte de algo maior, que envolve religião, cultura, política, entre outros elementos. Certamente, uma reação ao perfil industrialista da época em que o tradicionalismo surgiu e que, hoje, reage contra a modernidade dos nossos tempos (SEDGWICK, 2004).
Investir na disseminação de teorias da conspiração e notícias falsas como forma de abrir brechas ao tradicionalismo é, segundo Francisco Carlos Teixeira da Silva (2014), uma estratégia metapolítica. Significa que para uma ideologia superar outra que é hegemônica, ou ao menos amplamente aceita, ela necessita modificar completamente as estruturas que viabilizam isso provocando incisões nas formas de pensar – essencialmente, na mentalidade e na cultura de uma determinada sociedade. É algo que busca conquistar o poder para além do que o Estado tem a oferecer, buscando o exercício desse poder de forma cotidiana, insistindo na ideia de que existe uma ameaça a determinada forma de pensar, que se encontra em crise, em declínio, pronta para ser assaltada.
Via de regra, a extrema-direita no presente é mobilizada por uma busca incessante em reforçar a ideia de que a desigualdade humana é algo natural, inevitável e deve ser desejada. Rejeitam o panorama político ocidental que, nas últimas décadas, abriu espaços para vozes mais destoantes das que tradicionalmente costumavam ser ouvidas. Existem, do ponto de vista desse espectro político, diferentes formas de desigualdade: racial, religiosa, de gênero, de nacionalidade, entre outras, que supostamente seriam capazes de definir os grupos humanos entre superiores e inferiores. Assim, a extrema-direita mantem uma relação contraditória com a ordem estabelecida: reforçam e intensificam alguns elementos presentes nela, como a hierarquia, mas querem mudanças dramáticas no cenário político que falha em proteger tradições políticas e culturais, segundo a retórica mais convencional. A ascensão de Trump nos EUA teve um impacto dramático para a extrema-direita no país, mais do que qualquer presidente anterior causou. Ele abriu uma porta de entrada, deu
espaço à extrema-direita como nunca antes havia ocorrido. Podemos dizer que Trump tornou o limite entre a política mainstream e a extrema-direita mais sensível (STERN, 2020).
Muitos dos apoiadores do ex-presidente estadunidense possuíam contas no 4Chan. É importante compreender como a estética da extrema-direita moderna, forjada principalmente na internet, tem se espalhado pela cultura popular e, com ela, muitas ideias reacionárias. Alguns símbolos, como os memes, por agirem de forma distinta em determinados indivíduos, acaba conquistando a simpatia de pessoas que, embora distantes de uma visão de mundo mais extremista, se identificam com a distinção social ocasionada pelo reconhecimento de determinados símbolos. Um jovem adulto que consegue identificar memes que seus pais não conhecem tende a ver nisso uma superação da geração anterior, ao público consumidor da internet comum – ou normies, como gostam de dizer no mundo dos fóruns virtuais -, sentindo-se mais à vontade com outras pessoas que se sentem da mesma maneira, mas instigadas por ideias de extrema-direita. (PHILLIPS, 2016)
A definição de tradicionalismo cerca bem a complexa teia de organizações, grupos e “lobos solitários” da extrema-direita. Os Proud Boys, por exemplo, argumentam que o feminismo é um dos tentáculos do comunismo para destruir a “família tradicional”. Para seus líderes, o papel da mulher na sociedade é procriar e cuidar da família, não devendo se inserir profundamente no mercado de trabalho e outros campos por eles considerados adequados apenas para homens (STERN, 2019). Os integralistas brasileiros dos anos 1930 pensavam de forma idêntica, em sintonia com os fascismos europeus da mesma época.
Para Mark Sedgwick (2004), o avanço de pautas progressistas no Ocidente ocorrido nas últimas décadas deu novo fôlego ao tradicionalismo, uma forma de pensamento reacionário. Engajados na disseminação de um falseamento da realidade, usam espaços virtuais onde esse tipo de atuação é mais eficaz. Esse falseamento busca não apenas estimular o caos social abrindo espaço a uma cultura política tradicionalista utilitária aos “rejeitados”, aqueles que se sentem lesados pelas conquistas de minorias e crescimento do perímetro democrático em diversos países, mas também idealizar uma sociedade inexistente. Ao introduzirem esse tipo de comportamento na sociedade em que estão inseridos, podem trazer para suas frentes pessoas com incômodos semelhantes, mas que não necessariamente atuam como militantes.
Considerações finais
Diversos adeptos de comportamentos políticos alinhados à extrema-direita se utilizam de discursos conspiracionistas para, primeiro, manterem a sensação de ameaça presente e, com ela, a ideia de que os grupos apoiados por esses sujeitos são a única resposta a essas ameaças; e, segundo, persistirem em um esforço para mudar o comportamento social a seu favor. É interessante observarmos como os fascismos, por exemplo, têm usado desde os anos 1920 um discurso conspiracionista para atacar seus inimigos, mas com frequência se veem escondidos em espaços subterrâneos (emergindo ocasionalmente), de onde organizam formas de penetrar mais profundamente nas sociedades e conspirar para tomar o poder. Hoje, com crescentes ondas de extrema-direita no Ocidente, se fazem notar com maior frequência e, sincronicamente, buscam ampliar as condições para manterem-se na superfície.
Subculturas, como muitas formadas por grupos de extrema-direita, geralmente estão engajadas em criticar os sistemas dominantes de poder. As subculturas que se sentem marginalizadas, por terem discursos reacionários que promovem a violência, possuem uma postura mais radical sobre essas críticas. Na internet, visões de mundo extremistas são gestadas para depois ganharem a superfície em forma de fake news e teorias conspiratórias. Num mundo cada vez mais conectado, onde recebemos notícias diariamente em nossos celulares, grupos de extrema-direita têm ganhado uma força renovada nas disputas pela crença popular e pela atenção da sociedade. Ganham também um grande aliado na disseminação de desinformações próprias ao conspiracionismo: o meio virtual.
No que se refere às teorias da conspiração, vemos a permanência de um recurso político cheio de singularidades próprias a seu tempo. Os judeus, antes centro do ódio conspiracionista do nazismo, hoje se encontram às sombras da cultura oriental, da religião islâmica e de tudo que “assombra” o Ocidente, segundo narrativas conspiracionistas recentes. Neste sentido, os neofascismos e a extrema-direita de um modo geral têm buscado numa pretensa identidade ocidental a homogeneização que antes era circunscrita pela noção de supremacia racial. A dita raça superior, ou a comunidade homogênea, estaria em constante ameaça por conspiradores dos mais variados tipos: feministas, comunistas, liberais, democratas e outros.
Os fascistas italianos eram circunscritos pelo ressentimento quanto ao fato de a Itália, um país unificado havia apenas pouco mais de quarenta anos, ter sido jogada para
escanteio como uma nação menos importante para a vitória da Aliança na Grande Guerra. Isso, por si só, cria uma espécie de guia para o conspiracionismo, a partir da ideia de que “conspiraram para nos preterir”. Os veteranos de guerra sentiam-se como se relegados a uma posição menos privilegiada em comparação à França e à Inglaterra, que desde o início haviam feito frente à Entente, da qual a Itália fez parte a princípio. Eram, igualmente, ressentidos com as forças políticas liberais responsabilizadas pela fraqueza internacional de um país que era herdeiro do grande Império Romano.
Estes mesmos liberais eram acusados de terem permitido a humilhação italiana no pós-guerra. Maior que o ódio fascista aos liberais parecia o ódio fascista aos comunistas, motorizado pela vitória da Revolução de Outubro de 1917 cuja influência era grande entre os militantes na Itália; e social-democratas, tidos como corruptela do comunismo. A maciça presença dos comunistas na Itália certamente foi uma das razões pelas quais, ao ser fundado, os membros do novo Partido Fascista celebraram o acontecimento se dirigindo à sede do Partido Comunista Italiano e destruindo-o por completo. Não raramente, os fascistas com suas Camisas Negras partiam em flancos ao encontro dos comunistas que, em frequentes ações manifestantes, que seriam conspiradores do marxismo internacional.
O ressentimento é a raiz do pensamento de extrema-direita também no presente. Basta observarmos os incel, os reacionários e conservadores que se ressentem contra a modernidade, contra processos complexos que comprometem a solidez das tradições e abrem espaço para um mundo diverso, onde nem tudo é preto ou branco, mas cheio de espaços cinzentos. Lidar com essas mudanças é, para muitos, um problema. Por isso, essas mudanças acabam sendo encaixadas no modelo de conspiração: “estão conspirando para destruir o mundo que nós conhecemos”. Um mundo centrado nas relações heteronormativas, de poder dos homens sobre as mulheres, dos brancos sobre os negros e do Ocidente sobre o Oriente; este mundo é, para muitos, sinônimo de segurança, e vê-lo deixando de existir torna-se, para estes muitos, motivo de medo. O medo é um sentimento essencial para os fascismos.
Justamente por isso o conspiracionismo é tão caro aos fascismos de ontem e de hoje. Ele aproxima as pessoas por meio da noção de existência de uma suposta ameaça. O conspiracionismo é uma das bases dos fascismos pois desenvolve o medo na sociedade e, consequentemente, apresenta os próprios fascismos como solução para o extermínio do motivo deste medo. Discutimos exaustivamente a este respeito ao nos debruçarmos sobre as práticas mais recentes de difusão e idealização fascista, como por meio da música, em
outros trabalhos. As músicas dos neofascistas estadunidenses, por exemplo, majoritariamente adeptos do nazismo, aprofundam este conspiracionismo antissemita e discursam no sentido de construir o judeu como intrinsecamente emaçador. Por outro lado, recorrem à fórmula de atacar o judeu por seu possível vínculo com a esquerda e o marxismo internacional. Por esta razão os neofascistas estadunidenses, da mesma forma que seus colegas do mundo inteiro, reconhecem em seus pensamentos políticos a verdadeira forma da direita.
Alguns dos estudos brasileiros mais consistentes em torno do uso de mídias contemporâneas por organizações neofascistas vêm dos grupos que orbitam o Laboratório de Estudos do Tempo Presente, cujo núcleo está na Universidade Federal do Rio de Janeiro e durante bastante tempo foi coordenado por Francisco Carlos Teixeira da Silva. Sua obra, que em muito se deteve sobre os fascismos, foi costumeiramente cautelosa em analisar tais fenômenos de forma interdisciplinar. Contudo, um outro colega seu, Dilton Maynard, junto ao Grupo de Estudos do Tempo Presente, da Universidade Federal de Sergipe, foi quem se dedicou com maior afinco a tratar do potencial marcante da internet para a sobrevida dos fascismos e dos conspiracionismos, presentes em organizações extremistas atuantes na internet.
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Notas

