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Recepção: 11 Julho 2023
Aprovação: 24 Agosto 2023

Resumo: Este ensaio busca pensar com o filme Corpo Elétrico (2017) de Marcelo Caetano o que chama de pedagogia queer. O texto se assume como um conjunto de notas biográficas extraídas relação dos autores como amigos e como professor e estudante. Assim, diferentes aspectos do filme são sobrepostos a diferentes recursos biográficos para situar aspectos que fogem à eficácia do tempo do discurso pedagógico. Formas alternativas de teorizar o tempo e a educação sentimental são propostas por meio de intensidades como a adesividade, as persistentes ambivalências dos encontros entre corpos e fricção erótica dos afetos que não fáceis de incluir ou reconhecer na história das ideias pedagógicas. Assim, o texto traça uma pedagogia queer como o nome para descrever uma modalidade de educação afetiva que faz tremer o domínio da subjetividade e contempla esteticamente a existência sem limitá-la a noções de belo, gosto e sublime. Conectando-se a irrazoabilidade do sensível, este ensaio apresentando os desafios que o filme faz pensar sobre os pressupostos crononormativos da educação que tendem a abundar quando se trata de projetos políticos e de formação de sujeitos.
Palavras-chave: Pedagogia Queer, Afetos, Futuro.
Abstract: This essay seeks to think about what it calls queer pedagogy with Marcelo Caetano's film Corpo Elétrico (2017). The text is presented as a series of biographical notes drawn from the authors' relationship as friends and as teacher and student. In this way, different aspects of the film are superimposed on different biographical resources in order to locate aspects that escape the efficacy of time in pedagogical discourse. Alternative ways of theorizing time and sentimental education are proposed through intensities such as adhesiveness, the persistent ambivalence of encounters between bodies, and the erotic friction of affections that are not easily included or recognized in the history of pedagogical ideas. Thus, the text outlines a queer pedagogy as a name to describe a modality of affective education that shakes the domain of subjectivity and aesthetically contemplates existence without limiting it to notions of beauty, taste and the sublime. Linking to the unreasonableness of the sensible, this essay presents the challenges that the film poses to the chrononormative assumptions of education that tend to abound when it comes to political projects and the formation of subjects.
Keywords: Queer Pedagogy, Affect, Future.
Resumen: Este ensayo busca pensar con la película Corpo Elétrico (2017) de Marcelo Caetano lo que él llama pedagogía queer. El texto se asume como un conjunto de notas biográficas extraídas de la relación de los autores como amigos y como maestro y alumno. Así, distintos aspectos de la película se superponen a distintos recursos biográficos para situar las dimensiones que escapan a la efectividad del tiempo del discurso pedagógico. Se proponen formas alternativas de teorizar el tiempo y la educación sentimental a través de intensidades como la adhesividad, las persistentes ambivalencias de los encuentros entre cuerpos y la fricción erótica de los afectos que no son fáciles de incluir o reconocer en la historia de las ideas pedagógicas. Así, el texto esboza una pedagogía queer como nombre para describir una modalidad de educación afectiva que sacude el dominio de la subjetividad y contempla estéticamente la existencia sin limitarla a nociones de belleza, gusto y lo sublime. Conectando con la irracionalidad de lo sensible, este ensayo presenta los desafíos que plantea la película para pensar en los supuestos crononormativos de la educación que tienden a abundar cuando se trata de proyectos políticos y formación de sujetos.
Palabras clave: Pedagogía queer, Afecto, Futuro.
Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste - e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade - de certa forma, também em nenhuma outra-, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro. (Aqueles Dois, Caio Fernando de Abreu, 2018, p. 405)
Eu
sei que lá no fundo
Há
tanta beleza no mundo
Eu
só queria enxergar
Fonte: (Dançando,
Pitty)
1 PEDAGOGIA QUEER: SOBRE O TEXTO
Em seu famoso ensaio sobre o camp, de 1964, Susan Sontag (2018) introduz o tema afirmando que muitas coisas foram nomeadas, mas não descritas. Este texto segue neste sentido: algo foi nomeado, mas não descrito, ao menos não inteiramente. Aprendemos, em algum momento, a chamá-lo de pedagogia queer. Para nós, esse termo encapsula uma ampla gama de orientações afetivas e modos experienciais de encontro e fricção de corpos que não encontramos na história das ideias pedagógicas[1]. De qualquer modo, o quer que venha a ser chamado de pedagogia queer não deve ser pensado essencialmente, como mais um capítulo da história da educação, nem situado em oposição ao que quer que seja. Ao articular pedagogia e queer, seguimos Judith Butler (1993) e tomamos o queer como um significante flutuante, variando de uma fenomenologia indisciplinada ao estado de êxtase ou qualquer sensação de diferença experimentada como efeito de viver dentro de configurações normativas. Ao mobilizar esse termo, trabalhamos para abrir espaço para a irrazoabilidade do sensível e do viver juntos e perturbar o discurso pedagógico.
Este texto também acompanha Janet Miller (2009), cujo conceito de autobiografia como uma prática curricular queer nomeia histórias que muitos de nós não gostaríamos de ouvir, histórias nas quais o conhecimento escolar oficial, identidades e mesmo visões de educação revolucionária são interrogadas por construções até então inimagináveis e desarticuladas, histórias que desmantelam a narrativa educacional na qual alguém passa da ignorância ao conhecimento sobre o eu e o outro. De fato, nas páginas que se seguem, lançamos mão de um conjunto de notas biográficas dispersas, extraídas de nossa relação como amigos e professor e estudante. Eventualmente, recorremos a diferentes recursos biográficos que, sobrepostos com diferentes elementos do filme, buscam situar aspectos que fogem à eficácia do tempo do discurso pedagógico. Essas notas embaralhadas, longe de serem explicações sociológicas ou incorporações analíticas, buscam apenas descrever o que podemos chamar de pedagogia queer de forma situada. Ao longo do texto, elas serão mescladas a nossa conversa com o filme Corpo Elétrico de Marcelo Caetano, lançado em 2017 e considerado um dos expoentes do que Lucas Murari e Matheus Nagime (2015) chamaram de novo cinema queer brasileiro para explorar os desafios de pensar sobre os pressupostos crononormativos da educação que tendem a abundar quando se trata de projetos políticos e de formação de sujeitos. O título pode soar, assim, evasivo ou pouco elucidativo, mas gostaríamos de contar com esta abertura, mesmo que reconhecidos os riscos, para evitar dirigir a leitura em demasia e deixá-la em aberto. Para além do compromisso de interrogar o discurso pedagógico, somamos um compromisso teórico de entrar e viver em uma esfera íntima ou afetiva associada ao contato de viver juntos que esfolia a pele individual.
2 PENSAR COM
Aracaju, estado de Sergipe. Porciúncula, estado do Rio de Janeiro. Um professor. Um aluno. Duas gerações de jovens gays imigrantes. Um do signo de áries, o outro de touro. Dois amigos, que se tornaram orientador e orientando, sem saber muito bem como se virariam para atender dois convites simultaneamente: realizar um comentário educacional acerca do filme Corpo Elétrico (2017) de Marcelo Caetano e escrever um artigo para um dossiê sobre educação e reencantamento do mundo. Não importa que narremos aqui os pormenores que nos levaram a suspeitar se tínhamos algo interessante a dizer sobre a convocação de Silvia Federici (2022, p. 220), em Reencantandoo mundo, “para tornar visível o modo como relações comunitárias estão enraizadas em nossa vida afetiva, [...] e como nos dão coragem e força para encarar o ataque mais brutal que o capitalismo já empreendeu a todas as formas de solidariedade social desde o auge da colonização”. O tempo dedicado às leituras e à escrita caminhou rapidamente para o silêncio. Talvez, por pensar que nós podíamos não interessar a ninguém. Talvez, por não querer incomodar. Não tanto porque se tratava de uma certa possibilidade impossível de dizer do acontecimento (DERRIDA, 2012), ainda que o seja, eventualmente, e em alguma medida, indizível – a pedagogia queer, tema em torno do qual girava a expectativa dos dois convites. Talvez, a pedagogia queer exija um outro tipo de aproximação para tornar visível formas de alianças que sustentam e permeiam nossa vida afetiva.
Talvez, quem sabe ainda, por se tratar de tédio e cansaço com a conversão do que quer que aprendemos a chamar de teoria queer em educação em peças de auto-ajuda. Talvez, por evitar que tudo se transformasse numa ladainha sem fim. Não seria hora de deixar o queer para trás (LEAL, 2021)? Talvez, tratasse-se de algo mais profundo. Não só da nossa incapacidade de escrever um argumento convincente, mas da própria sensação de esgotamento ou esfarelamento da crítica ou da analítica da normatividade e sua capacidade e confiança em explicitar fundamentos e intervir na vida social – algo que, certa vez, já havia perturbado Eve Sedgwick (2003) e seu apelo por uma leitura reparadora. Como se, ao menos para nós, expor, e até inventar e criar não fizesse mais tanto sentido. Não importa também que afirmemos, agora, que esse silêncio e esse cansaço nos impulsionaram a associar os dois textos –, um escrito para um livro sobre pedagogias do cinema, outro para um periódico acadêmico da área de currículo, esperando que quem os lesse, eventualmente separados, possa, algum dia, conectá-los. O que importa mesmo, nessas circunstâncias, é que confessemos logo que este texto não é nada mais do que aquilo que Alberto Giordano (2016) descreveu como a escrita do ensaio como ato biográfico, uma história pessoal emaranhada ou uma topografia autobiográfica, para tomar emprestado o termo de Kier La Janisse (2015).
Um de nós não tinha visto o filme até começar a escrever o texto, o outro assistiu três vezes – um no cinema, uma para uma conferência, outra no evento que proferiu a conferência que serviu de base para este texto. Nunca chegamos a assistir juntos. Nós, então, nos vimos (re)vendo Corpo Elétrico (2017), filme dirigido por Marcelo Caetano, para pensar a pedagogia queer e dar corpo ao nosso interesse em como encena “uma educação afetiva feita às margens de instituições, a partir de precariedades, mas nem por isto menos importantes”, a propósito do comentário de Denilson Lopes (2021) sobre a obra do diretor. Para tanto, seguimos Kathleen Stewart (2007, p. 6) e sua teorização dos afetos ordinários, apresentando este texto como uma “massa de ressonâncias” não coerente, um conjunto solto de notas, no qual ficará explícito um interesse em conjurar uma espécie de atmosfera antes ao invés de expor um argumento, explorar inquietações antes que realizar uma “crítica avaliativa” (STEWART, 2007, p. 4). Nem significado profundo ou intrínseco, nem explicação ou exegética. Assim como Jean Luc Nancy (2006, p. 20), desejamos pensar com o filme, “nem a partir de um, nem a partir do outro, nem a partir do seu todo, já compreendido ora como Uno, ora como Outro, mas pensar absolutamente e sem reservas a partir do ‘com’ [...]. Um/o outro, nem ‘por’, nem ‘para’, nem ‘em’, nem ‘apesar de’, mas sim ‘com’”. E Nancy (2006, p. 47) continua, “’com’ aponta menos para a participação em uma situação comum do que para a justaposição de puras exterioridades”. Como esperamos que ficará explícito, a nossa questão seja mais expressar no nosso encontro com o filme[2].
Os pedaços deste texto (re)compõem uma colcha de retalhos embaralhados para pensar comCorpo Elétrico a pedagogia queer, um prática de relação entre corpos que ora assume a forma de uma prática ativa e, outras vezes, surge em um momento de perturbação e desorientação. Seguindo Lisa Blackman (2018), a maioria dos cenários descritos estão relacionados com experiências anômalas ou fenômenos limiares, em que as distinções entre interior e exterior, próximo e distante, real e imaginário, material e imaterial são instáveis. Se tais experiências são espaços de incerteza epistêmica, como sugere Blackman (2018), esperamos sugerir que pedagogia queer é um modo de habitar tal indeterminação, talvez, quem sabe, até abraçá-la. Valeria enfatizar, assim, que, mesmo que escrito a dois, não falamos como um único ser. Lauren Fournier (2021, p. 319) lembra que “o singular pode ser uma porta de entrada para o múltiplo. E teorizando juntos podemos ouvir a nós mesmos”. Consideramos nosso texto escrito em conjunto um meio de sobrepor vozes. E, embora não possamos falar em nome de ninguém, esperamos envolver outras vozes críticas, acolher histórias, abrir espaço para discussões, questionar formas pelas quais produzimos o que a educação pode ser e desafiar os critérios pelos quais determinados tipos de conhecimento são considerados válidos. Ali onde Mel Y. Chen (2004, p. 173) define epistemologias crip como “maneiras seriamente distorcidas de conhecimento na atual ordem global”, nós encontramos um modo de desdobrar uma espécie de epistemologia distorcida ou transfigurada[3] de reencatamento do mundo, uma perspectiva parcial e provisória sobre a pedagogia queer e a educação do sensível.
3 TODOS OS CANTOS
Lançando mão de várias negativas, algumas afirmações e um número exagerado de dúvidas e desconfianças, este texto também não é um ensaio sobre se a pedagogia é ou pode ser uma coisa muito queer, como se perguntou, uma vez, Susanne Luhman (2009). Com sorte, é um mapa confuso de quem cresceu intelectualmente frequentando escolas públicas em cidades pequenas do menor estado do país e de uma das menores cidade do estado de onde escrevemos atualmente ao som Shimbalaiê, de Maria Gadú, e mais remotamente de Quando você passa, de Sandy e Júnior, assistindo Sessão da Tarde e Hora do Terror, escondido de nossas mães. Sem sorte nenhuma, é um fantasma do que restou no mundo a nos assombrar quando crescemos em um cenário que redimensionou a política de reconhecimento LGBTQIA+ no quadro mais amplo de “transformações do lugar social da homossexualidade na sociedade brasileira” (FRANÇA, 2012, p. 49) e mesmo das travestilidades e transgeneridades (BARBOSA, 2015). O que nós nos sentimos tentado a oferecer após assistir Corpo Elétrico é algo mais difícil e tateante do que quando aprendemos, certa vez, a interrogar as oclusões e obliterações de gênero, sexualidade e desejo nos currículos (BRITZMAN, 2010; LOURO, 2001), mas como torções queers desafiam lógicas de desenvolvimento, maioridade e responsabilidade (HALBERSTAM, 2005) e mesmo de inclusão nos currículos de gênero e sexualidade como sinais de progresso, liberdade e emancipação.
Em um comentário sobre o esquecimento da educação em listas que vai não vai retornam sobre intérpretes do Brasil, Marcos de Freitas e Luciano Faria Filho (2017, p. 361) questionam a ausência da escola para entender como nos constituímos e especulam as razões da “auto representação de nossa intelectualidade e de sua relação com aqueles ‘outros’ que frequentam a escola pública básica”. Chama atenção, contudo, que a enquete 200 anos da Independência, 200 livros sobre educação para entender o Brasil, organizada posteriormente por um dos autores para o Portal do Bicentenário da Independência não disponha de nenhuma obra sobre sexualidade entre os dez primeiros ou mesmo entre os cem primeiros livros da lista[4]. É como se a linguagem da educação fosse míope para abordar como o pensamento hétero[5] tem sido uma das chaves para descrever a sua capacidade de criação e obliteração de mundos que ainda está por ser mapeada: “[s]erá por que, uma vez mais, a escola pública é a escola dos outros já que a nossa escola, a dos nossos filhos e filhas, é a escola privada?” (FREITAS; FARIA FILHO, 2017, p. 362, gritos nossos). Onde classe social marcaria explicitamente uma distinção, a reprodução e a família heterossexual asseguram a sua continuidade, para não dizer que devem permanecer como fulcro nunca inteiramente obliterado do horizonte de interrogação[6]. A tarja de conforto no meu corpo diz/ Não recomendado à sociedade – cantada por Caio Padro ganha todo um outro tom[7].
Embora nosso trabalho não seja uma tentativa de dar sentido às formas queers de criação de tempo e espaço na educação ou na escola à esteira do exercício que Jack Halberstam (2005) realiza, nosso encontro com Corpo Elétrico não deixa de realizar uma busca por categorias que não seja exatamente discursos, experiências ou representações para sustentar o salto imaginativo que a pedagogia queer realiza dentro do pensamento educacional. Nosso comentário não foca em declarações ou eventos que seriam imediatamente identificados como mecanismos de exclusão ou gestos que transmitem sentidos de hierarquia e privilégio. O que o filme nos inspira é como tende a carecer do que François Bonnet (2015, p. 140) chama de “matéria afetiva e estrutura significante”. Essa carência, que é, antes de tudo, uma recusa ou fuga permite pensar com o filme o exercício de mostrar e de tornar visível a deambulação, a desorientação que liga e fricciona corpos e vidas. Citando Sara Ahmed (2006, p. 163): “a desorientação poderia ser descrita aqui como o ‘tornar-se oblíquo’ do mundo, um tornar-se com que é ao mesmo tempo interior e exterior”. Ahmed (2006, p. 163) insiste que é ainda uma questão de tensão insolúvel saber se “a estranheza está no objeto ou no corpo que está próximo ao objeto”. Não surpreende que possamos pensar com o filme a exposição visual de uma conexão sensível que não restabelece o sujeito do conhecimento, um engajamento radical que sobrepõe aquilo que afeta um corpo ao material e ao físico, uma modalidade de educação afetiva que faz tremer o domínio da subjetividade e contempla esteticamente a existência sem limitá-la a noções de belo, gosto e sublime.
4 A PAIXÃO TEM MEMÓRIA
Walt Whitman, o visionário poeta da revolução americana. Assim Paulo Leminski (1986) descreveu aquele que elaborou uma das mais célebres obras da literatura dos Estados Unidos do século XIX. Tinha dezesseis anos, era começo dos anos 2000, e entrei num sebo perguntando por livros de literatura LGBT. O vendedor me recomendou ler Folhas de Relva, um exemplar que tenho até hoje, mas que demorei anos para entender a recomendação! - disse um de nós ao outro. – Eu não sei inglês. A prova de línguas é semana que vem e nem sei se vou passar! – disse o outro. Eu canto o corpo elétrico é o título e a primeira estrofe de um poema de Walt Whitman originalmente publicado na coletânea Leaves of Grass, de 1855, traduzida no Brasil pelo título Folhas de relva(WHITMAN, 2015). Gostamos de imaginar que Whitman teria se encantando com algumas das ressonâncias que se seguiram. Não sabemos se aquela que o levou ao grande público ao ter trechos de suas poesias inseridas em Sociedade dos Poetas Mortos, de 1989 com sua pedagogia do herói embebida de ares neoliberais[8]. Em 1969, Ray Bradbury, por exemplo, publicou uma coletânea de contos nomeada I Sing the Body Electric, declaradamente inspirada no poema de Whitman. O conto homônimo foi pouco tempo depois adaptado para a TV como um episódio da série Twilight Zone. E sim, I Sing the Body Electric também é um nome de uma canção da trilha do filme musical Fame. A propósito, é um poema de Whitman que aparece na epígrafe do conto de Caio Fernando de Abreu que usamos na abertura deste texto. Em um dos temas recorrentes de Whitman, So Long! diz em tradução livre: Eu anuncio a adesividade, eu digo que ela deve ser sem limites, livre/ Digo que você ainda encontrará o amigo que estava procurando.
É o poema de Whitman que é evocado no título do filme de Marcelo Caetano, um dos expoentes do que Lucas Murari e Matheus Nagime (2015) chamaram de novo cinema queer brasileiro. Em edição comemorativa dos 150 anos de Folhas de Relva, Ed Folsom (2007) comenta a atmosfera daquele que já não parece um tão longínquo ano de 1855. É uma longa citação, nós sabemos. Pedimos, contudo, licença para transcrevê-la quase que na íntegra por sua capacidade de conjurar uma certa atmosfera latente que a literatura e, em nosso caso, o cinema é capaz de radiografar[9].
Nenhum Bush, mas um Pierce, um dos “presidentes imundos” que levaram Whitman a observar que “[o] presidente come sujeira e excremento em suas refeições diárias, gosta e tenta forçar isso aos Estados Unidos”, uma presidência que Whitman disse que a história registraria como “até agora nossa principal advertência e vergonha”. Os debates sobre evolução estavam apenas começando a esquentar. Darwin tinha acabado de escrever sua teoria da seleção natural, mas não publicaria A Origem das Espécies por mais quatro anos. Ainda assim, a evolução permeia a primeira edição de Folhas com visões lamarckistas bem na cara, tingidas com as ideias geológicas uniformistas de Charles Lyell, que já haviam explodido a concepção bíblica restrita de tempo. [...] O primeiro fóssil de dinossauro na América do Norte foi descoberto apenas um ano antes do aparecimento de Folhas, mais ou menos na mesma época em que os primeiros modelos completos de dinossauros foram feitos e, com certeza, “monstruosos sauróides” aparecem no livro de Whitman [...]. Notícias raciais? Por onde começar? Kansas começou a sangrar naquele ano sobre se seria um estado livre ou um estado escravista; [...] Emerson propôs inutilmente acabar com a escravidão comprando todos os escravos pelo valor de mercado, um investimento de 200 milhões dólares em liberdade; A Lei do Escravo Fugitivo continuou a causar furor em todo o país, um ano depois que Anthony Burns foi preso em Boston. Notas médicas e dilemas éticos? O ano de 1855 viu a abertura do primeiro hospital governamental para loucos, fundado por Dorothea Dix, [...] uma tendência que no final do século resultaria na interpretação de muitos dos escritos de Whitman como patologia. Escândalo da família real britânica? Quando Folhas de Whitman foi publicado, dois ex-membros da equipe de servos da Rainha Vitória assassinaram várias crianças. A inteligência e a perspicácia da rainha foram questionadas. E outro casamento real britânico foi notícia. A princesa Vitória, a filha de quinze anos da rainha, ficou noiva do príncipe Frederico Guilherme da Prússia, para desgosto dos jornais americanos. Whitman, no entanto, foi fã das Victorias ao longo da vida, para consternação de seus amigos; como o poeta disse a Traubel: ‘Muitos anos atrás, na casa de Pfaff, eu me meti em uma briga ao defender a Rainha. [...] Mas [...] nos pano de fundo de Folhas de Relva - há muito espaço para todos. E eu, de minha parte, não apenas incluo anarquistas, socialistas, etc., mas rainhas, aristocratas’. (FOLSTOM, 2007, p. 28-29).
Como não estabelecer uma relação com o Brasil, com o Brasil de hoje, conosco? Como não sentir a repetição sobre a cena presidencial? O filme de Marcelo Caetano foi, de fato, lançado apenas um ano antes da fatídica eleição presidencial de 2018, cuja longa cena da Esplanada do Ministérios em celebração mortuária corta, por exemplo, Mato Seco em Chamas (2022), de Ardiley Queiróz e Joana Pimenta. O conto das gasolinerias dobra ficção e documentário em torno de três mulheres – uma delas lésbica, Lea –, recolhendo o petróleo que abunda no subsolo e comandando uma rede ilegal de comércio de gasolina, em Sol Nascente, periferia da capital federal. São histórias diferentes, por certo, mas repetem-se, como que ressonando, os flertes fortuitos homoeróticos, os encontros entre os corpos na festa, a dança no ônibus, a casa, a alegria, o final sem apoteose. Em um, a fábrica e os operários, no outro, os entregadores de aplicativos. E se lá está o poema de Whitman, aqui está o álbum de título homônimo da banda Muleka 100 Calcinha. Como não se interrogar sobre a aderência dos corpos após os efeitos deletérios da crise da Covid-19, isolamento físico e dos ataques às ciências? – e que, se note, Elias, o protagonista mantém uma relação erótica com um professor universitário e flana por seu universo simbólico – os livros e a leitura. Como não se perguntar sobre a relação que se pode traçar entre paixão (afeto), memória (tempo) e corpo (matéria)? “Talvez seja por aí que devemos por onde e quando começar. Whitman com seus anarquistas e rainhas e sabe se lá o que mais, em um tempo e um lugar onde todas as suas notas continuam a gerar nossas notas” (FOLSTOM, 2007, p. 29). Como não se perguntar sobre a paródia da festa ritual do casamento na casa de praia do professor e da (re)composição da família com os amigos?
Após retirar várias ilações para os estudos queers, Daniel Kveller (2022, p. 231-232) afirma como o investimento no que é considerado inútil e improdutivo em Corpo Elétrico é um gesto que desafia “a organização afetivo-temporal do capitalismo e da hetenormatividade [...] seu olhar sobre o êxtase, os prazeres e outras coisas efêmeras e desimportantes talvez possa nos ajudar a repensar os horizontes e os ritmos da política em tempos desorientação, desamparo e desesperança”. Pedagogia queer? Seria este o nome deste gesto de desafio e interrupção que o filme encena? Seria possível cantar uma pedagogia queer que possa nos ajudar a repensar os ritmos do horizonte educacional? Afinal, Whitman usa o verbo cantar. “Cantos, não contos”, também pedia Nestor Perlongher (1994, p. 101) em seu poema Cadáveres, escrito em 1981, quando, na viagem para São Paulo, escapava da ditadura militar argentina. Ao comentar a leitura gravada que Perlongher fez do poema um ano antes da sua morte, Tamara Kamenszain (2021, p. 20) diz “vou chamar [essa tonalidade] de marica, porque soa indiferente à falsa potência da voz, quase frívola, própria da mais autêntica desmistificação da masculinidade”. Pensando com o filme Corpo Elétrico, nós nos movemos dentro desta textura vocal – chamaríamos, hoje, no Brasil, de tonalidade viado, assim escrito com o i mesmo –, esperando que fricções e encontros de corpos, vozes, tons, tempos e espaços efêmeros, improdutivos e fugazes desmistifiquem a ordem masculina da luta política e da política como luta – o ethos da guerra, o manual para soldados, a virilidade do combate.
Este texto é, portanto, um de/composto sobre como fomos deixando de um lado uma visão da educação como restauradora de mundo melhor e sua dependência da “cordialidade enquanto mediação universal do país” (OLIVEIRA, 2019, p. 179) a fim de considerar uma queerização – se é que podemos escrever nesses termos – da educação sentimental. Se, no romance de Flaubert, cuja reedição no Brasil, também é de 2017 (FLAUBERT, 2017), do qual roubamos a expressão, o jovem Frédéric deambula, em certo momento, pelas barricadas da Paris de 1848, em Corpo Elétrico, Elias, o jovem operário, perambula por territórios do mundo do trabalho fabril e da intimidade, a casa, a festa, a praia. Se lá a bobeira e a frustração movem personagens, a frivolidade da dança e a alegria mobilizam Elias, Welligton e amigos. Se lá romance de formação, aqui, uma história sem drama ou conflito; se lá, desilusão de uma geração, aqui, o encontro friccional entre corpos, adesividade dos que dançam juntos, para nos levar a considerar as formas tênues e casuais de alianças afetivas. E, assim, seguimos a esperar que a pedagogia queer possa nos libertar do que Wiltod Gombrowicz (2015, p. 4) chamou de “excesso de poesia, excesso de palavras poéticas, excesso de metáforas, excesso de nobreza, excesso de depuração e de condensação que assemelham os versos a um produto químico”. Sem reclamar potência do que quer que seja ou acolhimento a quem quer seja – do corpo diferente, do corpo gay trabalhador, pobre, etc -, não esperemos consequências épicas da pedagogia queer para reencantar o mundo. Apenas, corpo e som, vibração, aderência e eletricidade.
5 VOCÊ ME VIRA A CABEÇA
Elias abre o filme com peito desnudo, deitado na cama, contando um sonho recente. Há saudade da sua cidade natal na Paraíba. Nós também a sentimos. No sonho, Elias nadava em uma praia deserta, todo o corpo envolvido por uma onda de sargaço: Eu tenho uma coisa muito próxima ao mar. Como eu penso muito, às vezes, eu preciso descarregar um pouco, sabe? Desligar a máquina. Aí o mar era o lugar que eu conseguia fazer isso. Na cidade de Toritama, Pernambuco, considerada centro ativo nacional da fabricação de jeans, famílias, orgulhosas de serem chefes das próprias confecções, trabalham em suas casas sem parar. No documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar (2019), de Marcelo Gomes, quando chega a semana de folga, as famílias vendem tudo que acumularam durante o ano e seguem para descansar em praias paradisíacas do litoral pernambucano – algo que lembra as tramas vitais do neoliberalismo de baixo de Verônica Gago (2018) e suas economias barrocas, cruciais para entender o caldeirão, onde se cozinhou a guinada à direita. Com Elias, por outra via, nós percorremos cenas delicadas de festas após a saída do trabalho, de danças e encontros eróticos fortuitos e passageiros, na rua e no shopping - aqueles amores que não tem tempo para os quais “um ato, para o qual faltava tempo, ganha, assim, o tempo que não possuía” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2010, p. 46) e dos quais restam apenas signos, sinais, indícios – e até mesmo o pequeno saque com o amigo Wellington ao estoque da fábrica para pegar pedaços de tecido para costurar fantasias.
Longe de serem apenas momentos de lazer e descanso da exaustão, os encontros realizam algo mais ou até mesmo menos. São cenas transpassando, interrompendo e embaralhando intimidade e mundo do trabalho. Na cena final de Corpo Elétrico, o filme realiza o sonho de Elias: ao decidir não retornar ao emprego após um final de semana no litoral, ele aparece sozinho – já sabemos desempregado – flutuando no mar de uma praia – seria flanando? “Não exijo nenhum deleite maior que este – nado nele, como num mar” – escreve Whitman (2015, p. 94) em um dos poemas de Folhas de Relva. Fugir para o mar, retornar ao mar: uma imagem do corpo que, longe de pertencer a um indivíduo isolado e obstinado, é uma extensão e invaginação do próprio oceano. Nascido da água, transporte de água, dependente de uma ingestão constante de água: o corpo imerso em um mundo material, impactando e sendo impactado pela matéria ativa e física[10]. Freud (2010, p. 134), certa vez, fez notar como esse “eterno retorno do mesmo não nos surpreende muito, quando se trata de um comportamento ativo [...] Impressão bem mais forte nos produzem os casos em que o indivíduo parece vivenciar passivamente algo que está fora de sua influência”. Se, há um além do princípio de prazer, que Freud (2010) faz notar a partir da recorrência incansável de certos sonhos nas neuroses de guerra, a flutuação do corpo de Elias abre um tempo de dissociação do sublime, do belo e mesmo do prazer, um tempo que não designa mais o elã para o inefável que ultrapassa nossa compreensão humana, é um tempo por baixo, sem elevação nem gozo, fora de influência, um tempo exterior e interior, um tempo de adesividade e aderência.
Às vezes, alguns de nós também experimentam essa dissociação, esse corpo aberto, uma saída para fora de si mesmo que não leva ou não nos eleva a nenhuma transcendência. Toda essa conversa é para apontar uma reorientação queer no sentido de educação que nos obriga a dar preferência aquilo que resta – não tanto após Auschwitz, é bem verdade, mas de um holocausto muito mais sutil, a “tensão entre vida laborativa e vida erótica [que] está em plena reconfiguração” (BOURCIER, 2020, p. 119), diante do qual Corpo Elétrico traça toda uma cartografia[11]. Por esta razão, o que nos interessa é a visualidade de experiências liminares que não podem ser facilmente descritas. Nomear de pedagogia queer é, assim, imagear – no sentido de conferir materialidade, de dar corpo em imagem[12] – o problema das relações entre educação dos afetos e o campo do sensível, entre educação e estética, portanto, para abrir as histórias pedagógicas para o que é até inassimilável, isto é, a erótica afetiva entre corpos, o desejo e a fuga – “algum impulso de fuga, que estaria, de um modo ou de outro, no seu ponto de partida” (PERLONGHER, 2005, p. 287), pois “as fugas marginais são, então, fugas desejantes” (PERLONGHER, 2005, p. 280). E se tornar esse discurso visível em e através dos corpos que festejam em casas e ônibus pode envolver desorientação, descrever a pedagogia queer pede que nos afastemos da retórica da guerra. Não é tanto sobre boxe, mas dança. Não é tanto sobre sangue, mas sobre suor. Não é tanto dor, mas alegria. Não é tanto sobre embate, mas aliança.
Permita-nos oferecer um pequeno exemplo pessoal: nós, cada um separadamente, estamos entre um conjunto de pessoas com transtorno de ansiedade generalizada – o segundo autor – e o outro reconhecido com altas habilidades – o primeiro autor – que ainda que se afirme não ser um transtorno se vê, vai não vai, às voltas com as sombras do discurso médico. Sob ambos os termos, há uma tendência de se fixar o tempo de processos cognitivos. No caso das altas habilidades, em publicação organizada pelo Ministério da Educação sobre o tema para professores, durante o primeiro governo de Luís Inácio Lula da Silva, Eunice Alencar (2007, p. 22) assegura que o diagnóstico – em um inescapável retorno do léxico da medicina – inclui perceber de que modo “estes componentes estejam interagindo em algum grau, para que um alto nível de produtividade criativa possa emergir”. O chamado DSM V descreve, por sua vez, o transtorno de ansiedade generalizada como “ansiedade e preocupação excessivas (expectativa apreensiva) [...] com diversos eventos ou atividades (tais como desempenho escolar ou profissional)” (APA, 2014, p. 222). Sensíveis demais – diria o refrão da música de Jorge Vercilo que começa cantando o medo de acordar do sonho lindo –, ao tempo, quer por antecipação, quer por aceleração – um fracassa porque é rápido demais, chega antes, o outro porque o tempo se precipita, é o futuro que chega antes. Em qualquer caso, um fracasso do tempo e da capacidade de produção. Para frente e para trás, lá e aqui, ainda que fossemos crianças, receber essas duas tarjetas foi uma das nossas primeiras indicações que os horizontes temporais da educação não devem ser tomados como óbvios.
Corpo elétrico mudou nossa percepção de alguma forma, pois é a pós-datação de um futuro, ainda que tardio, geralmente identificado como um mundo melhor que é contestada aqui – aquilo que Elizabeth Macedo (2018) nomeou de acolher um tempo monstruoso que chega e que nós chamaríamos de encontrar e desenhar essa tonalidade viado na paisagem. Quando Erica Burman (2008) nos provocou a desconstruir a psicologia do desenvolvimento, expondo os modos de fazer do arsenal da racionalidade moderna que se transmutam em cognição e aprendizagem, somos apresentados aos mecanismos através dos quais distintos enquadramentos do pensamento educacional subordinam a subjetividade à probabilidade de ocorrência, algo que é verificável e evidenciável no espaço e no tempo. No vocabulário de Denise Ferreira da Silva (2022), é a oclusão do tempo tanto na eficacidade – a garantia de um efeito posterior de uma ação realizada agora – quanto na sequencialidade – uma tela de sucessão de efeitos resultado de associação de ações – que expõe como a coisa toda da reflexão e da subjetividade é construída para ser extraída como recurso pelo capitalismo.
Sem querer mapearmos uma vasta literatura sobre o tempo e o queer[13], nós voltamos a Corpo Elétrico. Denilson Lopes (2018) sinalizou para como o filme encena afetos que interrompem aquilo que Elizabeth Freeman (2006) chamou de crononormatividade, embaralhando tempos e espaços e abrindo um caminho para uma história queer das sensações, recolocando a festa no coração da política. Kveller (2022, p. 231), por sua vez, oscilando propositadamente – suplementando-os, por assim dizer – entre os projetos apenas aparentemente contraditórios de Lee Edelman (2004) e José Esteban Munõz (2009)[14], sinaliza para uma utopia não inscrita no telos, mas performada nas lacunas, pausas e “momentos de êxtase que desfazem a linearidade progressiva”. Esse delicado atravessamento liminar é um tom, uma tonalidade, que vem e vai em ondas. Às vezes, soa minúsculo e estridente e outras vezes, como um zumbido. Em todo, estampado pela placa viado. Em um só passo, o que estamos chamando de pedagogia queer chama atenção para como há um discurso de longa duração centrado na capacidade mental e cognitiva inscrito na produção do sujeito no tempo da educação, operando contra o improdutivo e o efêmero, o meramente desejante e erótico, que desde Georges Bataille (2014) sabemos que é aquilo que dissolve o sujeito, complexamente imbricado nas cenas cotidianas de subjetivação. Ao mesmo tempo, e mais primordialmente, é o um nome para descrever um foco nesses laços eróticos e de desejo como um ato político que atenta exatamente à deficiência do improdutivo e ao efêmero em ser desenvolvimentista.
Nick Walker (2021) cunhou o termo neuroqueer para identificar o ponto em que a neurodivergência e a experiência queer se encontram. Neuroqueerizar, escreve Walker (2021, p. 121), é torcer “os próprios processos neurocognitivos (e a incorporação externa e a expressão desses processos), alterando-os intencionalmente de maneira a criar um aumento significativo e duradouro da divergência de padrões culturais predominantes de neuronormatividade e heteronormatividade”. De acordo com Ahmed (2006, p.4), uma política queer de desorientação procura tornar o familiar estranho e “pode até encontrar alegria e emoção no horror” do desalinhamento. Como coloca Karoline Feyertag (2017, s/p), “no cerne da questão da vertigem e da queeridade encontramos problemas no que diz respeito a não nos sentirmos à vontade com ou em uma determinada situação, sentindo desconforto, desorientação e perturbação – e também sentindo um certo ‘problema de gênero’, um problema de saber a que lugar pertencer”. Estamos relacionando essa descrição composta à pedagogia queer para sinalizar como fenômenos temporais da educação são análogos aos problemas de gênero. Muitas vezes parecem confusos e opressores, mas também pode ser alegres e emocionantes. Dito de outro modo, a pedagogia pode ser jogada da mesma forma que o gênero. Além disso, relacionamos essa sensação de desorientação ao ver o filme Me chame pelo seu nome (2017), Luca Guadagnino, pela primeira vez e, mais tarde, ouvir a música Call Me By Your Name, de Lil Nas X. Quer melhor exemplo de pedagogia queer do que ser chamado pelo nome de outra pessoa e responder de acordo - e, nessa troca, deleitar-se com a desorientação?
Desconhecemos outro nome para esse curto-circuito que não seja corpo elétrico. Corpo Elétrico sustenta um modo de eletrocutar o tempo, cantar uma delicada perturbação ao que o compositor Peter Ablinger (2010, s/p) chama de “padrões alimentados com colherzinha na boca de percepção humana”. E, na medida que caminhamos para o fim, perguntas nos rondam sobre como repensamos o lugar do trabalho – aquilo ao qual Karl Marx (2011) atribuiu a capacidade humana de produzir; perguntas, quiçá exageradamente especulativas em torno de um “e se?”. E se ao invés da educação focar no trabalho ou dele e para ele partir, quer dizer, na capacidade humana de produzir a partir da matéria, mesmo que seja para “queerizar o trabalho e [encontrar] oportunidade de falar sobre o trabalho queer” (BOURCIER, 2020, p. 152), a descrição da pedagogia focasse na deriva afetiva da matéria carnal e física, para distorcer um pouco a expressão de Nestor Perlonger (1987)? O que acontece se ao invés de começar pela produção do sujeito, a descrição da educação começasse exatamente pelo improdutivo e pelo efêmero, pelo que, não dura no tempo, pelo que foge ou lhe é opaco e não se conforma a linearidade temporal da (re)produção e suas sobreposições? Citando Juana Maria Rodriguez (2014), Lopes (2018) se pergunta sobre o signo da festa no cinema de Marcelo Caetano em produzir uma espécie de estar juntos sem sermos os mesmos. Pois bem, e se as “conexões entre partes diferentes de nossos corpos” (RODRIGUEZ, 2014, p. 2), e não a produção de um sujeito humano fosse o lócus privilegiado da educação?
Quando fazemos essas perguntas, o que temos em mente é a figura do sujeito educado, uma subjetividade apresentada como resultado apoteótico do que Ferreira da Silva (2022) chamaria de um movimento reflexivo. E quando suspeitamos da capacidade do sujeito em criar e produzir – isto é, performar o tempo –, o que é a pedagogia queer se não um aderente desvio imperceptível? - um desvio que não se propõe a uma transformação, mesmo que precária e contingente; que não postula um projeto de formação capaz de transpor a ordem atual em uma forma representativa mais potente. Talvez venha daí a dificuldade com que começamos a escrever: o que quer que venhamos a chamar de pedagogia queer não se rende facilmente à grande revolução, a “fantasia difundida a partir de Stonewall” nos termos de Paola Bacchetta (2019, p. 174). Não há espaço na sagrada missão pedagógica[15] para o que quer que se venham chamar de queer, mesmo quando esta última se assume radical. Se nós temos a esperança de fazer do queer mais do que uma figura monstruosa ansiando por nosso desejo de liberdade e emancipação, nós não podemos perder de vista alianças delicadas e tênues nem a textura afetiva desse tecido imbricado de tramas vitais que dissolvem a subjetividade e a apreensão do tempo. Esta é uma luta intraduzível ao léxico político corrente – ela abre tanto e, no entanto, raramente prospera.
6 O AMOR E O PODER
Queremos terminar nossa tentativa descrever a pedagogia queer com Corpo Elétrico como o que vemos como um gesto, um movimento inicial de atender a possibilidade alojada na inacessibilidade de aprender com a teoria queer ou dela não ensinar nada, para seguir a provocação de Lee Edelman (2022). Isto é, tanto a adesividade e aderência são tomadas como sem eficácia e obliteradas pela sequencialidade do desenvolvimento e da crononormatividade da (re)produção quanto nos forçam a ir além da gramática e do léxico que herdamos do pensamento educacional – isto é, sem apelar para uma interioridade subjetiva. Esta é uma tarefa solicitada, nós gostamos de pensar, pelo trabalho de Edelman (2009) e na forma como queeridade confronta o futurismo reprodutivo – e nós acrescentaríamos, o melhorismo educacional. Dragões não vão ao paraíso, é o título do livro do qual tiramos a epígrafe de Caio Fernando de Abreu. Poderíamos seguir citando uma série de textos que carregam isso – a exemplo, de Rebekah Sheldon (2019) –, mas o próprio Corpo Elétrico faz uma indicação interessante. Pensando com o filme, enquanto Edelman (2022) parece preferir tomar o queer como imarcável, impossível, imponderável, arredio a estrutura psíquica cronormativa do tempo, Corpo Elétrico incorpora e materializa uma delicada presença tão fugidia quanto desejante, nunca em oposição frontal.
Essas alianças e texturas afetivas não estão abaixo, nem são a base do sujeito, muito menos são o horizonte a se chegar ou se construir. Essas alianças e texturas afetivas estão dentro e entre corpos diferentes, são meio de conexão e aderência, estão no e são meio, estão pelo meio. São formas de aliança que, longe de serem são exauridas pelo capitalismo, não podem ser assimiladas no modelo do sujeito educado, aquele produz, faz, realiza – cognitiva, mental, afetivamente –, do qual se pode extrair produção inteligível. A dança, a festa, a alegria, a fricção dos encontros do filme, encena uma história da matéria afetiva que a cronormatividade não antecipou nem podia impedir e sustenta uma atenção especial ao corpo que encena um gesto de aderência e adesividade entre corpos díspares que a violência não consegue rebater. Ao mesmo tempo, singular e plural, dentro e fora, tudo e nada, todo e as partes entre elas. É por isso que a pedagogia queer não confirma uma história ou um drama de formação e redenção. É por isso que é um canto. É um som que faz o meio (o corpo) vibrar, uma tonalidade que toca e move delicada e passivamente. Pedagogia queer é uma forma de cuidado com isso que resta inteligível no sensível, um ressoar corporalmente essa irrazoabilidade, permitindo que experimentemos que nos deleitemos com a desorientação e dissolução, com o fracasso do tempo, com o canto efêmero sem significado. Elias, nada mais que uma testemunha de vibrações corporais que excedem a razão, a distância e a probabilidade.
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Notas

