Apresentação
Recepção: 20 Dezembro 2023
Aprovação: 25 Dezembro 2023

Resumo: O presente Dossiê objetiva apresentar pesquisas que têm como campo problemático diferentes processos de criação do aprenderensinar, destacando as experimentações estéticas que irrompem com os acontecimentos, com os encontros e com os fazeressaberes, em meio aos espaçostempos praticados nos múltiplos cotidianos das escolas. Trata-se de uma aposta ético-estético-política na potência das práticasteorias cotidianas que combatem determinismos, opressões, exclusões, entre outros tantos mecanismos de diminuição das vidas, produzindo, assim, outros sentidos de educação e de sociedade. Partimos da força da arte como um ato de resistência, como uma linguagem das sensações que nos força a pensar o mundo de outros modos e a experimentar outros possíveis de vida. Só com a arte podemos viver outros mundos que não o nosso. Como defendia Nietzsche, “temos a arte para não morrer da verdade”.
Palavras-chave: Cotidiano, Escola, Aprenderensinar, Estética, Arte, Resistência.
Abstract: The Dossier aims to present research studies that have different learning-teaching creation processes as their problematic field, highlighting the aesthetic experiments that erupt with events, with encounters and with knowledge-actions, amidst the spacetime practiced in the multiple school everyday lives. It is an ethical-aesthetic-political bet on the power of everyday practices-theories crossed by art, which fight determinism, authoritarianism, oppression, exclusion, among many other mechanisms of diminishing lives, thus producing new meanings of education and society. We start from the strength of art as an act of resistance, as a language of sensations that forces us to think about the world in different ways and to experience other possibilities of life. Only with art can we experience worlds other than our own. As Nietzsche defended, “we have the art not to die from the truth”.
Keywords: Everyday life, School, Learning-teaching, Aesthetics, Art, Resistance.
Resumen: El Dosier objetiva presentar estudios que tienen como campo problemático diferentes procesos de creación delaprender/enseñar, destacando las experimentaciones estéticas que irrumpen conlos acontecimientos, conlos encuentros y conlos haceres/saberes,en medio a los espacios/tiempos practicados en los múltiples cotidianos de las escuelas. Se trata de una apuesta ético-estético-política en la potencia de las practicas/teorías cotidianas atravesadas por el arte, que combaten determinismos, autoritarismos, opresiones, exclusiones, entre otros tantos mecanismos de disminución de las vidas, produciendo, así, nuevos sentidos de educacióny de sociedad. Partimos de la fuerza del arte como un acto de resistencia, como un lenguaje de las sensaciones que nos fuerza a pensar el mundo de diferentes modos y a experimentar otros posibles de vida. Sólo conel arte podemos vivir otros mundos que no son nuestros. Como defendía Nietzsche, “tenemos el arte para no morir de la verdad”.
A arte existe
porque a vida não basta
Fonte: Ferreira Gular
O mundo da Educação e as formas de vida democráticas que tecem as redes de sentidos que lhe fornecem orientação e sustento têm sido um alvo sucessivo de ataques materializados nas formulações neoliberais que, em aliança com a extrema-direita, movimentam um falso discurso de liberdade para justificar suas exclusões, não poucas vezes violentas, visando a “reassegurar a hegemonia branca, masculina e cristã, e não apenas expandir o poder do capital” (BROWN, 2019, p. 20). Não por acaso, a cientista política Wendy Brown, pesquisadora da Universidade de Califórnia, tomou como ponto de partida o olhar das ruínas para analisar a cultura política e a subjetividade neoliberais na contemporaneidade.
Esse modo de olhar, como sabemos, esteve presente em diferentes áreas do conhecimento, tanto em autores clássicos como contemporâneos, toda vez que o horizonte aberto pelo discurso hegemônico da modernidade parecia apontar para a sua própria autodestruição. Ou seja, quando a história parece se fragmentar em estilhaços sentimos a urgência em escavar as ruínas contidas seja no inconsciente seja na dialética dos processos sociais, a fim de problematizar as categorias com as quais cultivamos o hábito, na verdade o péssimo hábito, de nos reconhecermos apenas no espelho narcísico-colonial-imperialista do chamado progresso moderno.
O mesmo progresso que se encontra na raiz de inúmeros desastres sociais, políticos e ambientais, assim como da destruição programada das diferentes culturas e das múltiplas formas de vida disseminadas em nosso planeta. Mais recentemente, a antropóloga Anna Tsing (2019, p. 218) nos convocou a ocupar as ruínas como uma primeira forma de combate aos excessos provocados pela violência que “os herdeiros do Homem iluminista e seus Outros não conseguem explicar e pelo qual nem mesmo se responsabilizam.
Nesse contexto, as ruínas emergem como espaços-tempos que demandam cuidado e atenção, o que implica o exercício de desnaturalização dos cânones que têm sustentado as ciências humanas, incluindo a Educação, a fim de que seja possível fazer florescer outros olhares orientados para o bem comum. Por isso, um olhar das ruínas pode ser também o lugar não comum, quer dizer, incomum, onde diferentes pontos de vista, atuais ou virtuais, podem se encontrar, uma vez que paisagens arruinadas, quase sempre, carregam consigo margens, frestas e fendas por onde brotam tudo o que insiste e resiste.
Na mesma direção, os cotidianos escolares, assim apostamos, rompem com os regimes de visibilidade e vivibilidade que nos têm sido impostos, engendrando com suas experimentações estéticas outros regimes do sensível capazes de mover e se mover em um plano intensivo constituído pelas potencialidades ingovernáveis da vida em seus múltiplos modos de existência. Uma vez liberados do papel subordinado de meros contextos descritivos ou de simples locais de aplicação das normas e seus dispositivos, os cotidianos escolares prosseguem em busca dos seus próprios limites: as relações entre a comunidade escolar e seus vários atores, as cidades, as paixões, os corpos, as vidas, as mutações imperceptíveis produzidas pelos encontros e, por fim, a produção de mundos.
Dessa ótica, os cotidianos escolares são absolutamente vitais no combate à destemporalização crescente do mundo da vida e à dessincronização das práticas que historicamente constituíram o mundo da educação. Isso sem falar na luta contra a expansão da razão utilitarista encarnada no princípio do desempenho e que tem afetado de forma profunda as condições socialmente mediadas de nossa presentificação nas instituições escolares.
Dentre outros, o filósofo político Axel Honneth no seu livro, Luta por reconhecimento, demonstrou como os sujeitos desenvolvem suas capacidades a partir das relações de reconhecimento socialmente mediadas pelas relações afetivas, pelos direitos ou pelas práticas de solidariedade. Mas, quando essas mediações não são articuladas, os sujeitos se veem atravessados por experiências de desrespeito que desdobram múltiplas formas de reificação como a invisibilidade, o silenciamento e, no limite, a destruição pura e simples de determinados corpos ou vidas. Na atualidade, esse processo vem colocando em risco as próprias condições para a manutenção da vida coletiva; e uma das faces mais perversas desse processo ocorre justamente quando há uma redução da esfera de ação na qual os sujeitos criam suas relações de confiança.
No âmago mesmo desse processo, sabemos, está o modo como nos relacionamos e incorporamos as estruturas temporais em nossos cotidianos. Ora, se com Marx, por um lado, havíamos aprendido acerca da mercantilização do tempo de trabalho, por outro lado, tudo indica que ainda não nos demos conta de que a relação mesma com o mundo está padecendo com uma mutação nas estruturas de temporalização da experiência com consequências ainda imprevisíveis. Em um nível fático, tornou-se comum constatar a sensação difusa de que o tempo tem transcorrido de forma cada vez mais acelerada. Essa sensação contribui para disseminar um sentido de pressa que se desdobra na generalização dos sentimentos de estresse e ansiedade.
Isso ocorre, paradoxalmente, a despeito de as tecnologias desenvolvidas para economizar tempo nos levarem à percepção concreta de que dispomos cada vez mais de menos tempo. Dizendo de outro modo, a escassez de tempo está se tornando uma espécie de habitus disposicional inseparável de nossas práticas culturais, sociais e educacionais. Hartmut Rosa, em sua obra monumental Aceleração: a transformação das estruturas temporais na Modernidade, lembra-nos o efeito potencialmente disruptivo da aceleração social moderna.
Rosa (2019) divide o fenômeno aceleratório em três categorias: a aceleração técnica, que compreende a utilização de aparatos tecnológicos para encurtar o tempo gasto em determinadas atividades; a aceleração das transformações sociais, que compreende o aumento do ritmo de mudanças nas estruturas políticas, culturais, científicas; e a aceleração do ritmo de vida, que concerne ao aumento da frequência de ações e vivências, gerador da sensação de falta de tempo.
Ele conclui constatando que a aceleração, na atualidade, apresenta características de uma sofisticada e pervertida forma de dominação, tendo em vista que a estrutura da lógica aceleratória, própria das políticas neoliberais, passou a ser considerada um elemento naturalizado, ou seja, os sujeitos interpretam a exigência de urgência temporal como sendo fruto de sua própria incapacidade de gerenciar melhor seu tempo. Como consequência, os sujeitos sociais passam a perseguir atividades, metas e comportamentos que na realidade não julgam de fato positivos ou coerentes com os seus próprios anseios reais.
Do ponto de vista da Educação, importa apontar principalmente para as chamadas patologias de dessincronização que têm alterado os modos de estar presente no mundo da Educação, impactando diretamente na formação ético-estética e política dos sujeitos aí envolvidos. Sintomaticamente, as patologias de dessincronização emergem em processos que não são passíveis de aceleração. Um exemplo banal: quando pegamos um resfriado, não importa quantos comprimidos tomemos, teremos de aguardar alguns dias para termos a nossa saúde restabelecida. Nessa mesma direção, existem práticas e saberes articulados de forma imanente aos ritmos e ciclos da vida que não conseguem acelerar senão ao custo de danificarem sua própria integridade vital.
No campo educacional, essa situação tem sido agravada pela implementação de uma nova gestão semiótico-técnico-digital. O conceito escolhido por Mbembe (2021, p. 13) para expor as implicações desse fenômeno não deixa margem a dúvidas: brutalismo. O brutalismo sinaliza uma política marcada por três questões centrais: a economia em sua forma neurobiológica, a matéria viva assujeitada a processos de carbonização e o cálculo em sua forma computacional e digital. Nessa última dimensão, o chamado extrativismo digital, opera algo misterioso, mais denso e mais sombrio. Por um lado, ocorre uma modificação efetiva daquilo que, nos últimos dois séculos, nos acostumamos a chamar de esfera pública política.
Por outro lado, como sinalizado, ocorre uma mutação nos regimes de temporalidade que redefine bruscamente as coordenadas doadoras de sentido ao que se passa no mundo da Educação que se vê mediado pelos suportes cibernéticos. Assim, com a migração forçada, durante a pandemia de Covid19, para as plataformas, obviamente por razões sanitárias, não pode nos fazer esquecer a ampliação massiva dos processos de exclusão social no ensino. Ao mesmo tempo, em que foi desvelada a ponta de um gigantesco iceberg que são os interesses das novas corporações monopolizadoras de tecnologias e suas influências para a educação pública.
Além de uma modificação nos modos de desdobrar didaticamente os currículos e as práticas pedagógicas, bem como constituir os processos de presença em meio às telas, o processo de plataformização tornou os cotidianos escolares cada vez mais permeáveis aos interesses gestionários e empresariais. Portanto, apesar de a tecnologia possibilitar certa mediação entre professores e estudantes, ela não se fez acompanhar de uma política curricular capaz de abarcar a complexidade inerente ao ensino e á aprendizagem. Isso sem mencionar que ficou ao encargo das trabalhadoras e trabalhadores em educação usarem seus recursos próprios para darem conta de um planejamento improvisado, oferecendo apoio, não apenas pedagógico, às comunidades escolares. Com efeito, a plataformização das relações pedagógicas tornou ainda mais aguda a destemporalização das práticas educativas nos cotidianos escolares, gerando uma ampla e difusa sensação de dessincronização vivida pelos sujeitos que aí atuam.
É com esse horizonte em vista que apresentamos o presente Dossiê que faz confluir pesquisas cujo campo problemático ancora nos diferentes processos de criação do aprenderensinar, com destaque para as experimentações estéticas que irrompem com os acontecimentos, com os encontros e com a multiplicidade de fazeressaberes, em meio aos espaçostempos praticados nos cotidianos das nossas escolas. Importa dizer, trata-se, sem dúvidas, de uma aposta ético-estético-política nas potências das práticasteorias cotidianas que combatem de forma, às vezes visceral, os determinismos vigentes com suas cargas de opressões e de exclusões, entre outros tantos mecanismos de despotencialização das vidas.
Os textos acolhidos, cada qual à sua maneira, percebem nos cotidianos escolares uma potência de antídoto contra as formas de vida asfixiantes que segmentam, homogeneízam, violentam e excluem. Mais que isso: as autoras e autores atribuem um valor singular às experimentações estéticas enquanto vetores de contágio nas relações que estabelecemos com as diferenças e as alteridades. As experimentações estéticas, aqui compartilhadas de forma rigorosa e, sobretudo, generosa, visam a expandir nossas sensibilidades e, como ressalta Ailton Krenak (2020), lembrar que a produção de mundos, sua instauração ou mesmo o adiamento de seu fim, está irremediavelmente atrelado ao poder que precisamos guardar e resguardar de contar mais uma história. Assim, ao longo dos artigos somos incitados a reaprender a ver a arte como uma volta das potências indomáveis da vida do seu exílio. Arte e vida, sendo as fontes mesmas da educação como resistência e criação de novas políticas curriculares pensadas e vividas nos cotidianos das escolas.
É nessa direção que o primeiro artigo, intitulado “MOVIMENTOS DE TRADUÇÃO DAS POLÍTICAS-PRÁTICAS CURRICULARES DOCENTES NO AGRESTE PERNAMBUCANO”, das autoras Maria Angélica da Silva, Lucinalva Andrade Ataíde de Almeida e Carlinda Leite ensaia movimentos de tradução das políticas curriculares mobilizados por professoras dos anos iniciais do ensino fundamental na cidade de Caruaru, situada na região do Agreste do Estado de Pernambuco. Articulando a ideia de tradução em Derrida com a teoria do discurso de Laclau, interpela-se como as demandas políticas atravessam as práticas curriculares sem, contudo, controlar e fixar prescritivamente os sentidos de currículo, posto que nos cotidianos há uma relação de fidelidade infiel com os textos políticos, uma vez que as professoras traduzem a si mesmas e às suas práticas, abrindo acontecimentos inauditos.
Na sequência, o artigo “CURRÍCULOS E POÉTICAS COTIDIANAS: artes como criações de resistências e (re)existências ‘dentrofora’ das escolas” que tem a autoria de Noale Toja, Talita Malheiros e Júlia Lima abre uma potente conversaçãoreflexão acerca dos estudos com os cotidianos e seus encontros com as artes, mobilizando deslocamentos em torno de um ‘fazerpensar’ docente que ousa criar ao resistir, (re)existir e experimentar novas versões de mundo e outras configurações poético-curriculares. Com efeito, evidencia como o pensamento acerca das artes, das imagens e dos sons, apreendidos enquanto movimentos nômades, permite problematizar a estrutura disciplinar dos currículos com suas dicotomias e compartimentalizações. Como consequência, as criações curriculares com as artes parecem atravessar e sacudir os documentos normativos e suas linearidades duras e segmentadas.
O terceiro artigo das autoras Tamili Mardegan e Danielle Piontkovsky trata “A SOLIDÃO DE UMA EDUCAÇÃO COTIDIANA” no contexto da produção de uma tese que visava cartografar os processos de produção curricular. Nesse contexto, a potência da solidão é evocada como modo de afirmar uma vida inquieta, ou seja, uma vida atravessada pelos devires que forçam o pensamento em busca da não subordinação. Trata-se de um texto raro em que a vivência da solidão é pensada no contexto educacional, mas sem cair nos discursos medicalizantes que insistem em conferir um status intrinsecamente patológico à experiência da solidão. A partir de intercessores como Deleuze, Guattari e Nietzsche, a reflexão desdobra outras formas de considerar a solidão intimamente atrelada aos currículos que movemos e praticamos quando intentamos abandonar a lógica produtiva contemporânea.
Em ressonância com esse esforço de mostrar que a criação de novas formas de vida singulares nos currículos, apesar dos poderes que insistem em nos enclausurar, o artigo “BRINCANDO DE VIVER: quando um corpo esgotado cria modos de existências no currículo com festas”, das autoras Camila Amorim Campos e Maria Carolina da Silva Caldeira mobiliza um intercessor pedagógico inusitado. As festas enquanto espaço-tempo de abertura dos cotidianos escolares para o desejo de viver e a alegria de brincar. As festas aparecem tracejando linhas de fuga que permitem experimentar as potencialidades do corpo brincante no currículo. As festas agenciam um corpo esgotado no mundo da educação, um corpo muitas vezes silencioso e silenciado, mas que, ao entrar em um devir-criança, ensaia novos passos a serem dançados no currículo com festas, criando singularidades e espantando a tristeza dos poderes que expropriam nossos corpos e vidas de suas potências desejantes.
Por isso, os textos que se seguem clamam: é preciso dar língua aos afetos nas políticas e nas experimentações curriculares vividas nos cotidianos das escolas. Somos assim brindados com várias cartografias brincantes e suas invencionices curriculares. Primeiro, com a pergunta “O QUE PODE UM QUINTAL?”, somos apresentados a uma pesquisa com bebês de um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) no município de Vitória no Espírito Santo, de autoria de Fernanda Binda Alves Touret, Vivianne Flavia Cardoso e Sandra Kretli da Silva. Uma cartografia sensível acompanha os processos que se efetuam junto aos bebês e suas aprendizagens inventivas, focalizando o quintal como um plano imanente em que os agenciamentos dos/com os corpos dos bebês se intensificam por meio dos movimentos em que a vida pulsa e a potência dos saberes, propagados por contágio, fazem explodir multiplicidades junto à natureza que escapa e resiste aos endurecimentos cotidianos, movimentando as invenções curriculares.
Em seguida, o artigo “PRÁTICASPOLÍTICASINCLUSIVAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL: brincar como resistência e invenção de mundos”, das autoras Maria Riziane Costa Prates, Marcia Marques Teixeira e Camila Junca Stefenon, também ancorado em um Centro Municipal de Educação Infantil, dessa vez, da cidade de Serra no Espírito Santo, investiga a partir de redes de conversações e das pesquisas com os cotidianos, os processos inclusivos como modos de resistência e experimentação estética de viver as infâncias. Para tanto, aposta em composições afetivas, a partir de uma escuta atenta às infâncias e aos modos como elas inventam mundos possíveis frente às vulnerabilidades sociais.
Por sua vez, o texto “CURRÍCULOS, HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E INFÂNCIAS: movimentos aprendentes que dão língua aos afetos que pedem passagem”, de autoria de Tânia Mara Zanotti Guerra Frizzera Delboni por meio da cartografia convoca as crianças à fabulação. Uma aliança inventiva com as histórias em quadrinhos mostra a emergência de outros currículos nos encontros com as crianças de duas turmas do quarto ano de uma escola pública municipal. Signos, vibrações, intensidades e composições instigam os currículos e as docências em movimentos aprendentes, deslocando sentidos, significações e ressignificações para afirmar a vida em sua potência.
Fechando esse bloco temático temos o texto intitulado “POR ENTRE LINHAS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS COM OS COTIDIANOS ESCOLARES: resistências e produções de mundos”, da autoria de César Donizetti Pereira Leite, que teve como proposta circular algumas experiências em torno dos cotidianos escolares, a partir de situações (experiências e imagens) vividas em escolas de Educação básica da Rede Pública, aliados a manifestações artísticas (músicas e poemas) do dia a dia. Os autores partiram de uma perspectiva em que forma e conteúdo se compõem no texto, sendo organizado a partir de ‘heterotopias escolares’ organizadas em quatro temas, a saber: cotidianos; experimentações estéticas; resistências e produções de mundos. Por sua vez, as referidas heterotopias foram compostas a partir de experimentações e estas por linhas e linhas de fuga que procuraram agenciar linhas de força, fazendo coro com perspectivas conceituais vinculadas à Filosofia da Diferença.
Em todas essas reflexões é possível vislumbrar como o tempo em que vivemos as políticas e as práticas curriculares é fundamentalmente regido pelos signos da metamorfose e, nesse sentido, é sempre acompanhado de um misto de apreensão e desassossego. Isso porque não temos como saber quando, onde, como o que ou quem pode se tornar outro. Mas, ao mesmo tempo, a inquietação provocada por esse tempo curricular singularizante pode revelar antigas feridas e fraturas que permanecem ainda drenando nossas energias de criação. Do que decorre a urgência de poéticas e políticas do desassossego voltadas para a decolonização das pesquisas com as crianças em nossos cotidianos. É dessa urgência que tratam vários que colaboram para a ressignificação das infâncias negras e queers e os desafios de pensar os pressupostos crononormativos da educação que tendem a abundar quando se trata da formação de sujeitos outros.
Assim, no artigo “DESASSOSSEGOS COTIDIANOS: como ‘aprenderensinar’ temas sensíveis na escola?”, da autora Maria Inês Rocha de Sá são narrados acontecimentos cotidianos na docência de uma professora no trabalho com textos literários em uma escola pública na cidade do Rio de Janeiro. A ideia é mostrar como ao serem abordados temas considerados “sensíveis” como laicidade, gênero e racismo, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, polêmicas e tensões podem produzir formas sofisticadas de autocensura pedagógica pelos próprios docentes que trabalham com as crianças. Dentre as principais conclusões apresentadas, destacamos a importância de se compreender o que é branquitude na luta contra as opressões e as mudanças que podem decorrer dos eventos vividos em sala de aula.
Já no artigo intitulado “AS CRIANÇAS PRETAS ME CONVIDARAM A OUVI-LAS: reencantando e reiventando o currículo a partir das histórias infantis”, de autoria de Daniela Coutinho Barreto Dias e Marco Antonio Leandro Barzano somos chamados a ouvir as possibilidades de encantamento e reencantamento que partem de vivências e conversas com crianças da pré-escola, tendo como fio condutor da análise como as crianças percebem os processos de construção de identidades a partir de Literaturas Infantis Pretas que abordam valores civilizatórios afro-brasileiros e/ou princípios de cosmovisão africana. A pesquisa foi realizada em um Centro de Educação Infantil de Feira de Santana no estado da Bahia, e são registradas as formas como as crianças apreendem as histórias e as imagens, relacionando-as com as suas vivências. Com isso, mostra-se como essas histórias rompem com o distanciamento das crianças diante de outras culturas.
Essa mesma potência é vista no artigo “DANÇANDO O CARIMBÓ NA ESCOLA: uma abordagem sobre cultura amazônica e Pedagogias Decoloniais em Dança”. Focalizando a Dança e sua presença no currículo formal da Educação Básica, o projeto interdisciplinar Carimbó, cultura regional e desenvolvimento sustentável desenvolvido com estudantes do quarto ano do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Roraima, o artigo de autoria de Verônica Teodora Pimenta e Julia Medeiros Dantas, reflete acerca de uma experiência interdisciplinar densamente descrita que toma o carimbó como ponto de partida para uma análise rigorosa dos modelos de inclusão do corpo no espaço escolar, abrindo caminhos para a decolonização de nossas práticas curriculares.
Essa questão prossegue no artigo “(DE)COLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO: o desafio de movimentar o magma das estruturas coloniais para possibilitar uma ecologia de saberes”, das autoras Beatriz Mendes Queiroz e Deise Guilhermina da Conceição, que articula decolonialidade, racismo, narrativas do cotidiano e infâncias a partir da temática do currículo e da educação. O foco visado também aponta para os processos de formação dos sujeitos escolares em diálogo com as narrativas infantis, desdobrando táticas e fazeres antirracistas. Assim, tematiza uma ecologia de saberes que se tece desde as microesferas da sala de aula, acionando metodologicamente narrativas autobiográficas.
Essa ênfase nos recursos biográficos e autobiográficos também ganha relevância em “NOTAS SOBRE PEDAGOGIA QUEER”, dos autores Thiago Ranniery e Victor Pereira de Sousa. Neste ensaio, busca-se pensar com o filme Corpo Elétrico de Marcelo Caetano, dimensões do cotidiano que fogem à eficácia do tempo do discurso pedagógico. Assim, formas alternativas de teorizar o tempo e a educação são dramatizadas por meio de intensidades geradas pelos encontros entre corpos e pela fricção erótica dos afetos que não fáceis de incluir ou reconhecer no campo pedagógico. O texto traça uma pedagogia queer como o nome para descrever uma modalidade de educação afetiva que faça tremer o domínio das subjetividades, contemplando esteticamente as existências sem limitá-las às noções de belo, gosto e sublime. O que nos conduz a uma interface cada vez mais acionada nos estudos dos cotidianos perspectivados pelas políticas curriculares cartografadas em sua condição de acontecimento estético criador de mundos outros: a esquizoanálise.
É com a esquizoanálise que conversam os dois textos subsequentes. O primeiro, “SO[M]BRAS, PÉROLAS E PORCOS: transgressão e experimentação na docência em artes visuais”, de autoria de André Luiz de Araújo Lima, Ana Lúcia Gomes da Silva e Antenor Rita Gomes, rastreia processos de criação na perspectiva de uma esquizoanálise de memórias, tensionandoa laicidade da escola pública. Trata-se de uma estetização do espaço escolar através do uso de fotografias que almeja dar a ver o jogo de sombras encharcado pelos acasos, pelas pequenas rachaduras produzidas por acontecimentos microfísicos, e onde a luz chega drenada pelo peso do ferro que morre, pela leveza do ar, tudo isso retornando como uma energia potencializada pelo fotográfico que, ao rearranjar esses vetores de força, produz existências outras na escola, existências artísticas.
O segundo texto de Roberta Carvalho Romagnoli e Eduardo Simonini, intitulado “A INVENÇÃO DA ESQUIZOANÁLISE POR GILLES DELEUZE E FÉLIX GUATTARI E ALGUMAS PROBLEMATIZAÇÕES PARA A EDUCAÇÃO”, se propõe pensar algumas contribuições da esquizoanálise para a Educação, priorizando os conceitos de máquinas desejantes e de Corpo Sem órgãos, presentes em O Anti Édipo escrito por Deleuze e Guattari. Com isso, a análise evidencia como o mundo da educação é atravessado por uma vitalidade intensiva e conectiva que sustenta a complexidade e a processualidade das suas práticas. Proposição que exige um deslocamento radical no currículo do domínio da representação para o domínio da experimentação, a fim de alterar, nesse processo, as formas de abordar as subjetividades nos cotidianos escolares. Ao final, discute-se como a esquizoanálise pode ser uma maneira de pensar a invenção e a resistência em diferentes processos de aprendizagem.
O que nos leva à discussão de temáticas ainda pouco dimensionadas, em seus efeitos, no campo das políticas e das poéticas curriculares como, por exemplo, os espaços de mediação como o podcast, o Tiktok, o Youtube, o Instagram, o Linkedin, os infográficos do Pinterest, o Whatsapp. Essa questão é refletida no artigode Cláudio Renato Zapalá Rabelo e Kezia Rodrigues Nunes, “TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO: cotidianos tecidos em/com as redes universitárias”, resultante de uma pesquisa pós-doutoral, que objetivou mapear as possibilidades de ampliação da educação em redes de saberesfazeres mediados por tecnologias comunicacionais, defendendo que os novos espaços de mediação, citados acima, assim como o livro impresso, as revistas, os museus e os eventos acadêmicos contribuem para ressignificar as práticas cotidianas, produzindo diferenças sobre as repetições, muitas vezes (des)aprendidas nas rotinas pedagógicas.
Já em “O DEBATE SOBRE O ESPAÇO GEOGRÁFICO: Composições curriculares para um novo velho mundo na educação básica”, os autores André Luís de Abreu, Raquel Falcão e Patrícia Raquel Baroni, com base no desenho de um currículo vivido em uma escola localizada no município de Nova Iguaçu no Rio de Janeiro, problematizam como são acionadas vozes e reflexões que colocam em cena táticas curriculares subversivas do corpo docente frente aos documentos norteadores que insistem em pensar a Geografia de forma estancada da realidade, através da mera memorização de conceitos.
Circunscrevendo o último, mas não menos importante, lance de dados do presente Dossiê, quase como que o coroando, o artigo de autoria de Tiago Amaral Sales, intitulado “A ESCRITA COMO MODO DE VIDA: potências contemporâneas para a (pesquisa em) educação”, questiona de que maneiras a escrita pode ser potente à educação e à pesquisa deste campo? Com essa pergunta-flecha são disparadas análises acerca das impossibilidades contemporâneas da escrita na tarefa de aprender, de ensinar e de pesquisar os acontecimentos que permeiam a educação. Para tanto, aciona e percorre cinco caminhos pós-críticos para problematizar a escrita: a cartografia, o ensaio, a autoficção, a escrita-oficina e a fabulação especulativa. Cada uma dessas trilhas, rizomaticamente compostas, permitem delinear os signos de uma escrita que acontece com o corpo todo. Uma escrita artesanal e poeticamente engajada com respons-habilidade de viver com o que se escreve.
Afinal escrever essa apresentação, tentativa sinuosa de cartografar um conjunto multifacetado de reflexões em torno dos cotidianos escolares, suas experimentações estéticas, resistências e produções de mundo, não poderia deixar de ser um imenso desafio para a escritura: como dizer o presente de nossas políticas e de nossas poéticas, no mundo da educação, sem medo e com uma determinação em travessia, com seus trânsitos e transes, mas também com suas travessuras, na tensão das encruzilhadas que subvertem os roteiros dados.
Assim, na medida mesma que juntos editamos esse novo número da Revista Espaço do Currículo, ficava evidente que os próximos anos serão cruciais para o destino próximo das políticas curriculares, uma vez que as práticas que inspiram e conspiram sua efetivação é extremamente sensível aos processos de democratização social. Tudo indica que ainda estamos vivenciando uma batalha silenciosa na qual está em jogo o controle dos regimes de temporalização que abrem ou fecham os horizontes de sentido a partir dos quais lidamos com as experiências que visam a formação radicalmente inclusiva dos sujeitos.
O ronco surdo dessa batalha, para retomar uma expressão famosa do pensador francês Michel Foucault, traz à tona a tarefa coletiva de enfrentamento ao espectro de interesses corporativos que passam a confluir nas correlações entre instituições discursivas e práticas sociais, modificando as relações no campo educacional. Esperamos que a leitura dos textos desse Dossiê contribua para oferecer um diagrama crítico-analítico dos fenômenos educativos que se abrem no presente, expondo outras possibilidades de pensarmos também as resistências aos novos e velhos poderes instituídos pela escuta das vozes que emergem do murmúrio das lutas histórias que nos constituem.
Vale ressaltar, nesse contexto, que o presente Dossiê conta também com a publicação de artigos, em fluxo contínuo, que nos foram encaminhadas. Trata-se de reflexões de extrema qualidade e relevância no cenário atual, e, em estreita confluência com as proposições temáticas apresentadas acima.
Assim, em “HISTÓRIA E CULTURA INDÍGENA NA BNCC DO ENSINO FUNDAMENTAL: análise das concepções e propostas para o ensino”, os autores Laís Francine Weyh, Sidinei Pithan da Silva e Ivo dos Santos Canabarro convidam-nos a uma análise da Base Nacional Comum Curricular para o ensino e a aprendizagem da história e cultura indígena no componente curricular de História, nos anos finais do Ensino Fundamental. Uma análise documental extensiva e intensiva desvela como uma perspectiva tradicional ainda divide o ensino de História e coloca os povos europeus na centralidade da narrativa histórica.
Também fazendo uso de uma rigorosa análise documental, o artigo intitulado “A DISCIPLINA DE CIÊNCIAS NOS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: um parâmetro dos conteúdos físicos e astronômicos nas orientações dos documentos oficiais do estado do Paraná” dos autores Leonardo Deosti e Marcos Cesar Danhoni Neves, aborda o ensino de Física na Educação Básica, tematizando as mudanças curriculares, os conceitos incluídos e as metodologias recomendada sao longo dos anos.
Na sequência, em “CONHECIMENTO CIENTÍFICO E AS FAKE NEWS: um obstáculo epistemológico no ensino de ciências e biologia?”, de autoria de Edilce Maria Balbinot Borba e Marcos Antonio Florczak, temos uma análise teórico-crítica, fruto de uma pesquisa bibliográfica, que buscou esclarecer se e como as fakes news podem ser caracterizadas como um obstáculo epistemológico na aprendizagem do conhecimento científico, partindo tanto do contexto da pandemia da covid-19. Tomando a noção de obstáculo epistemológico, de Gaston Bachelard, indica caminhos para o conhecimento científico e as implicações das fake news no processo educacional. Trata-se de uma reflexão de extrema atualidade, extrapolando o interesse estrito das áreas de ensino tematizadas, pois como indica o próprio texto é na criticidade que o espírito científico se forma e sereforma, retificando saberes, e oferecendo resistência ao dogmatismo.
De algum modo, as discussões presentificadas acima apontam para as temáticas discutidas nos artigos subsequentes. No primeiro, “GLOBALIZAÇÃO E CURRÍCULO ESCOLAR: Tendências, Desafios e Oportunidades”, os autores Alexandre Junior de Souza Menezes, Mário de Miranda Vilas Boas Ramos Leitão e Lucia Marisy Souza Ribeiro de Oliveira, evidenciam como a globalização vem influenciando a educação, identificando especificamente as principais tendências internacionais que estão afetando os currículos escolares e suas formas de implementação. Nesse aspecto, aponta-se os elementos que têm ganhado centralidade: uma maior diversidade e inclusão nos currículos escolares, com uma ênfase crescente em temas como direitos humanos, sustentabilidade, diversidade cultural e linguística; e um avanço das tecnologias digitais que estão desempenhando um papel cada vez mais importante na elaboração e implementação dos currículos escolares.
No entanto, também se constata os principais desafios a serem enfrentados como a necessidade de equilibrar as demandas do mercado de trabalho com a necessidade de promover a inclusão e a equidade nos currículos escolares, o que exige uma atenção por parte das pesquisas na área no atual contexto globalizado. Nesse mesmo contexto, o segundo artigo de autoria de Mariangela Deliberalli, Tiago Emanuel Klüber e Clodis Boscarioli, focaliza “UM OLHAR PARA AS NORMAS SOBRE COMPUTAÇÃO NA EDUCAÇÃO BÁSICA E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES”. Com base nas contribuições da hermenêutica é identificado o que se subentende nas normativas relativas à computação na Educação Básica e suas inferências na formação de professores. A análise efetivada prioriza os sentidos implicados nos verbos destacados ao longo das diretrizes normativas, bem como as competências e habilidades que têm sido sistematicamente ressaltadas, concluindo com um alerta sobre a profundidade das mudanças impulsionadas pelos significados presentificados nas competências expostas na normativa.
O terceiro artigo, dos autores Luiz Gustavo Bonatto Rufino e Samuel de Souza Neto, intitulado “INOVAÇÃO, CURRÍCULO E RESSIGNIFICAÇÃO: estratégias formativas e desafios curriculares na formação de professores de Educação Física”, discute as estratégias curriculares desenvolvidas por professores formadores em Educação Física de universidades, focalizando as iniciativas que almejam o desenvolvimento de inovações curriculares. No percurso da análise, destaca-se os desafios estruturais que dificultam que a formação inicial possa solidificar processos que possibilitem aos novos professores atuarem de modo mais adequado nos contextos profissionais atuais tendo em vista as demandas e contingências que afetam cotidianamente o trabalho docente.
Por fim, os dois últimos artigos de nossa demanda contínua abordam respectivamente, o “REENCANTAMENTO DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS: pensar, sentir e querer um currículo utópico” de autoria de Yuri Rodrigues da Cunha, e “OS CÍRCULOS DIALÓGICOS INVESTIGATIVO-FORMATIVOS COMO POSSIBILIDADE DE AUTO(TRANS)FORMAÇÃO DOCENTE E DO CONTEXTO PROFISSIONAL” de Rita de Cássia Borges, Tatiane Peixoto Isaia e Elisiane Machado Lunardi. No primeiro texto, o pensamento do filósofo Rudolf Steiner é retomado como um caminho para o reencantamento das práticas pedagógicas, apreendidas para além dos dilemas causados por uma visão do sujeito humano que leva em conta apenas o ponto de vista racional-cognitivo. Já no segundo texto, as autoras problematizam os objetivos da Educação Infantil, as concepções de criança, infância, inclusão e proposta pedagógica, bem como mapeia-se os principais processos de auto(trans)formação docente que ocorrem nesse âmbito.
Partimos, nesse Dossiê, da força da arte como um ato de resistência, como uma linguagem das sensações que nos força a pensar o mundo de outros modos e a experimentar outros possíveis de vida. Agora, ao final dessa apresentação, temos mais forte a convicção de que, sim, só com a arte podemos viver outros mundos que não o nosso. Como defendia Nietzsche, “temos a arte para não morrer da verdade”. As pesquisas nos estudos dos cotidianos e dos currículos são uma manifestação viva dessa compreensão. A própria organização do Dossiê se constituiu como uma experiência estético-política transformadora, pois a cada leitura dos textos que nos foram endereçados deparamos com contribuições singulares e deflagradoras de modos múltiplos e sensíveis de abordar os fenômenos cotejados em toda a sua variação e inventividade criativa.
Agora, queremos fazer um convite a vocês, leitoras e leitores: que se permitam também tocar pelos textos para que possamos continuar a pensar juntos. Com sorte, quem poderá saber, possamos continuar a contar histórias sobre as políticas e as poéticas curriculares, sobre suas experimentações, resistência e criações, e assim não apenas adiar o fim, mas dar vida a um novo recomeço, compartindo com mais gentileza e amorosidade nossa presença com as várias espécies com quem compartilhamos a vida e com quem podemos aprenderensinar a criar mundos outros, mundos que multipliquem a vida. Contra as políticas de morte que nos cerceiam que saibamos habitar bem as ruínas.
Referências
BROWN, W. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no ocidente. São Paulo: Editora Filosófica Politéia, 2019.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
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KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
MBEMBE, A. Brutalismo. São Paulo: n-1 Edições, 2021.
ROSA, H. Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 2019.
TSING, A. Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno. Brasília: IEB Mil Folhas, 2019.

