

Artigo
Ser ou se fazer tutor(a): a gestão dentro do Programa de Educação Tutorial ( PET/UERN/UFERSA)
Práticas Educativas, Memórias e Oralidades
Universidade Estadual do Ceará, Brasil
ISSN-e: 2675-519X
Periodicidade: Frecuencia continua
vol. 4, núm. 1, 2022
Resumo: O presente artigo analisa a gestão dos tutores(as) dentro dos Programas de Educação Tutorial (PET), na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), como algo pronto/acabado ou processual. A metodologia é de cunho quanti-qualitativo, exploratório, fazendo uso da revisão bibliográfica, documental e entrevistas com tutores(as). Para fundamentação teórica, utilizamos Tosta et al. (2003); Müller (2003); Freire (1996); Brasil (2006), dentre outros. A pesquisa nos direcionou a perceber que o tutor PET se constrói de forma empática contemplando não apenas os aspectos acadêmicos, técnicos, mas o lado humanista, não de forma invasiva nas questões pessoais, mas devido ao estreitamento das relações construídas dentro do programa, existe uma sensibilidade no cuidar e de se importar com o outro. Nessas vivências, há momentos que são partilhados saberes, conhecimentos e experiências de ensino aprendizagem, desenvolvimento de laços formativos e fraternos.
Palavras-chave: Tutoria, Gestão, Atividades extracurriculares, Extensão.
Abstract: This article analyzes the management of tutors within the Tutorial Education Programs (PET), at the State University of Rio Grande do Norte (UERN) and at the Federal Rural University of the Semi-Arid (UFERSA), as something ready/ finished or procedural. The methodology is quantitative-qualitative, exploratory, making use of literature review, document and interviews with tutors. For theoretical foundation, we used Tosta et al. (2003); Müller (2003); Freire (1996); Brasil (2006), among others. The research led us to realize that the PET tutor is built in an empathetic way, contemplating not only the academic and technical aspects, but the humanist side, not in an invasive way in personal issues, but due to the closer relationships built within the program, there is a sensitivity in caring and caring for the other. In these experiences, there are moments when knowledge, knowledge and experiences of teaching learning, development of formative and fraternal bonds are shared.
Keywords: Tutoring, Management, Extracurricular activities, Extension.
Introdução
Na década de 1970, deu-se início a implementação do Programa Especial de Treinamento (PET) em algumas Instituições de Ensino Superior (IES). Inicialmente, foi criado como programa piloto nos cursos de “Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e da Universidade de Brasília (UnB) e na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP)” (MÜLLER, 2003, p. 23), sua administração geral tinha como coordenador o professor Cláudio de Moura Castro, diretor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (CAPES).
Após um longo período de teste e de observação, no ano de 1997 há uma “[...] ampliação e consolidação, o Programa se encontrava inserido em 59 Instituições de Ensino Superior (IES), tendo 317 grupos e tutores, 3.556 bolsistas de graduação e 157 bolsas PET de pós-graduação” (TOSTA et al., 2006, p. 03). E, nesse mesmo recorte temporal, acontece uma averiguação minuciosa sobre “O Impacto do Programa Especial de Treinamento – PET na Graduação, sob a coordenação da Profa. Dra. Elizabeth Balbachevsky” (TOSTA et al., 2006, p. 03). Esse averiguar contou com posicionamentos de tutores(a), discentes e docentes envolvidos ou não com o programa. Essa ação foi realizada pelo Núcleo de Pesquisa de Ensino Superior (NUPES) – Universidade de São Paulo (USP), centro temático dedicado à pesquisa sobre o Ensino Superior (TOSTA et al, 2006).
A avaliação da CAPES considerou positiva a sua implementação para beneficência da comunidade acadêmica. No entanto, considerava insuficiente para a defesa de sua permanência. Em ofício circular DPR 020/1997 de 22 de dezembro de 1997, é ratificado que os grupos que são formados por 1 professor(a) Doutor(a) Tutor(a) e são compostos por um percentual discente de no máximo 12 estudantes bolsistas e 6 voluntários, que deveriam se reduzir a apenas 6 bolsistas, “[...] além da perda total das taxas acadêmicas, das bolsas de pós-graduação e das bolsas para pagamento de professores – visitantes” (TOSTA et al., 2006, p. 03). Foram longos anos de lutas pela permanência do programa, ao mesmo tempo em que eram vivenciados tantos ataques sem explicações plausíveis, o PET estava se consolidando enquanto grupo e, de forma política, ganhou visibilidade nas mídias e apoio nesse período.
No ano de 2000, sua administração é transferida para a Secretaria de Educação Superior (SESu) do Ministério da Educação (MEC) e se estende até o atual ano dessa pesquisa (2021). Em 2004, o Programa Especial de Treinamento (PET) passa a se chamar Programa de Educação Tutorial (PET) e no ano posterior, 2005, é “regulamentado pela Lei Nº 11.180, de 23 de setembro de 2005, e pelas Portarias MEC Nº 3.385, de 29 de setembro de 2005, e Nº 1.632, de 25 de setembro de 2006” (BRASIL, 2006, p. 04). Com essa regulamentação, o Manual de Orientações Básicas está na sua terceira reorganização. Tivemos o de 1995, o 2002 e o vigente de 2006. Este último “[...] foi elaborado com a finalidade de orientar o funcionamento do programa além de garantir a sua unidade nacional. Portanto, as orientações nele contidas devem ser interpretadas seguindo esse princípio” (BRASIL, 2006, p. 05).
Atualmente, existem 842 grupos em instituições de ensino superior públicas e privadas de todo o país. São 4.274 alunos bolsistas e 842 tutores(as), um para cada grupo de pesquisa[1]. Esses grupos têm como objetivo comum a formação que está sendo ampliada de forma que reflita na “[...] qualidade acadêmicas dos alunos de graduação envolvidos direta ou indiretamente com o programa, estimulando a fixação de valores que reforcem a cidadania e a consciência social de todos os participantes e a melhoria dos cursos de graduação” (BRASIL, 2006, p 07).
Para efetivação desse objetivo no grupo, temos a mediação de um(a) tutor(a). É nessa perspectiva da tutoria, dentro do programa, que o presente artigo[2] está construído. O interesse pela temática parte das vivências e experiências, durante quatro anos, de um dos autores do texto, no PET do curso de Licenciatura em Pedagogia da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Campus Central - Mossoró, além da necessidade perene de reiterar as beneficências que são de conhecimento e demonstrar novas contribuições deste, o seu funcionamento, perpetuando esse entendimento sobre as práticas desempenhadas dentro e em consequência do PET. Podendo servir de modelo para implementação em novos cursos e na metodologia de algumas instituições.
Nosso objetivo é analisar a gestão dos tutores(as) dentro dos PET, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), se essa condução é algo pronto/acabado ou processual. Trabalharemos com ambas as universidades para conseguirmos uma amplitude maior para nosso objetivo. Além disso, tendo em vista que as duas IES possuem o programa em alguns dos seus cursos, não poderíamos deixar essa oportunidade de realizar essa pesquisa contemplando estes grupos.
Sabe-se que toda pesquisa para se tornar o que é, ou para alcançar as suas respostas, ou novas inferências, possui uma trajetória, e esta se configura como necessária a ser demonstrada, tanto para entender o percurso como a chegada, resultados. Além disso, poderá ser norteadora para outras pesquisas. Nesse sentido, com a finalidade de discorrer sobre o perfil da gestão tutorial, nosso percurso metodológico se caracteriza como pesquisa de abordagem quanti-qualitativo.
A pesquisa é de cunho exploratório, uma vez que “[...] o tema escolhido é bastante genérico, tornam-se necessários seu esclarecimento e delimitação, o que exige revisão da literatura, discussão com especialistas e outros procedimentos” (GIL, 2008, p. 21). Nessa perspectiva, é bastante relevante falar que “O produto final deste processo passa a ser um estudo mais esclarecido, passível de investigação mediante procedimentos mais sistematizados” (GIL, 2008, p. 21).
Com isso, realizamos uma revisão bibliográfica, que “[...] é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos” (GIL, 2002, p. 44). Esta é tanto utilizada para a fundamentação do que é contemplado neste trabalho, além da compreensão e da contextualização do programa e de sua história. E, nessa perspectiva de conhecer o PET a partir do que se tem escrito, como também aprofundar esse conhecimento histórico sobre este, selecionamos e realizamos as leituras do livro de Müller (2003); artigos como o de Tosta et al. (2003). Além do que foi exposto, foram feitas reflexões em teóricos como Freire (1996), Morgado (2011), Pádua (2012) e Zabalza (2004).
Utilizamos da análise documental, a qual se fez a partir do Manual de Orientações Básicas do PET do ano de 2006, que nos aproxima do programa em seu caráter administrativo, abordando a tutoria como propiciador de “[...] desenvolvimento de habilidades de resolução de problemas e pensamento crítico entre os bolsistas, [...] e oportuniza aos estudantes tornarem-se cada vez mais independentes em relação a administração de suas necessidades de aprendizagem (BRASIL, 2006, p. 06).
Tomando como referencial Gil (2002, p. 47), “[...] é importante que o pesquisador considere as mais diversas implicações relativas aos documentos antes de formular uma conclusão definitiva.” Nesse sentido, a partir do perfil explanado no documento e o objetivo deste trabalho, a ideia inicial era realizar as entrevistas estruturadas com todo(as) os(as) professores(as) tutores(as) dos PET da UERN, PET Pedagogia, PET Ciências Sociais, PET Enfermagem e PET Ciências da Computação; e com os seis grupos da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), o PET Conexões – Comunidade do Campo, PET Gestão Social, PET Engenharia Mecânica e Energia, PET Engenharia da Pesca, PET Produção Animal e o PET de Zootecnia. No total, entre UERN e UFERSA, são dez programas.
A entrevista emerge da necessidade de perceber a tutoria além dos documentos, como os Manuais de Orientações Básicas, de identificar a partir do “jogo de espelhos”, o olhar do tutor sobre o eu tutor. Gil (2008, p. 109), afirma que a entrevista vem sendo considerada “[...] como a técnica por excelência na investigação social, atribuindo-lhe valor semelhante ao tubo de ensaio na Química e ao microscópio na Microbiologia.”. Além disso, “Por sua flexibilidade é adotada como técnica fundamental de investigação nos mais diversos campos e pode-se afirmar que parte importante do desenvolvimento das ciências sociais nas últimas décadas foi obtida graças à sua aplicação” (GIL, 2008, p.109).
Como Gil (2008) aponta, as entrevistas foram fundamentais no propósito investigativo ao qual o trabalho se propõe. Vale salientar que foram realizadas com os professores tutores(as), egressos(as) e com os que estão na gestão atual, da UERN e UFERSA, no ano de 2020, contabilizando assim 18 participantes. Entretanto, o retorno com as respostas foi correspondente a 9. Para nos referirmos aos entrevistados, foram usados nomes fictícios, com o objetivo de preservar a identidade do autor de cada resposta. Para isso, colocaremos a nomenclatura ‘Tutor(a)’ mais uma letra, sempre seguindo a ordem alfabética para diferenciar os(as) participantes.
Como nos encontrávamos em um período extremamente caótico da nossa sociedade, com a pandemia da COVID-19 perpassando todo o mundo com extrema intensidade, neste recorte temporal de isolamento, adaptações nas formas do fazer foram necessárias para conservar o bem-estar social. Com isso, as autorizações, as entrevistas e toda a comunicação foram realizadas com os(as) tutores(as) por aplicativos como WhatsApp e via Gmail. A partir das entrevistas, utilizamos como inspiração a análise de conteúdo de Bardin (1977, p. 153), pois embora, “[...] mais antiga; na prática é a mais utilizada. Funciona por operações de desmembramento do texto em unidades, em categorias segundo reagrupamento analógico”. Quando falamos que é inspirado, decorre de entendermos que a autora utiliza uma divisão mais minuciosa de categorias durante a construção de suas pesquisas, já nesta investigação utilizamos uma categorização mais simples, sendo que a primeira aborda a função dos tutores(as), prescrita nos manuais e a segunda é abordada as suas vivências, o que os próprios consideram ser a tutoria.
O artigo foi organizado em duas seções. Na primeira, ‘A tutoria nos manuais, nos manuais a tutoria’, no qual é abordado o que o manual de orientações básicas, do programa tem abordado sobre esses agentes; e na segunda seção, ‘Tutor(a) e tutoria’, são apresentadas reflexões a partir das falas dos(as) tutores(as) egressos(as) e os(as) que estão nas atuais gestões dos PET, no que diz respeito a esse ser tutor(a) ou se fazer tutor(a).
A tutoria nos manuais, nos manuais a tutoria
Como todo programa institucional, o PET também possui documentos que o rege, propiciando regulamentações do seu funcionamento. Um desses documentos é o Manual de Orientações Básicas. Neste, consta que o PET possui sua tríade formativa alicerçada no ensino, pesquisa e extensão, com atividades que acontecem no grupo, realizadas por seus participantes discentes, sejam eles bolsistas ou voluntários, através da coordenação de um(a) tutor(a).
Segundo o Manual, o programa tutorial
[...] busca propiciar aos alunos, sob a orientação de um professor tutor, condições para a realização de atividade extracurriculares, que complementem a sua formação acadêmica, procurando atender mais plenamente às necessidades do próprio curso de graduação e/ou ampliar e aprofundar os objetivos e os conteúdos programáticos que integram sua grade curricular (BRASIL, 2006, p. 04).
A orientação desenvolvida pelo(a) tutor(a) norteia para que o grupo venha entender sua função dentro do curso tanto enquanto estudante como também enquanto colaborador formativo, além de se reconhecerem enquanto seres com seus saberes individuais de vida e acadêmicos, porém ainda inacabados, mas que se potencializam a partir da coletividade e partilha de conhecimentos/experiências.
Freire (1996, p. 21), reflete que “[...] o inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há inacabamento. Mas só entre mulheres e homens o inacabamento se tornou consciente”. Nessas relações vão se construindo seres humanos concisos e sensíveis das particularidades e necessidades do eu, do curso e dos membros do PET.
Ainda segundo o Manual de Orientações Básicas do programa, “Um grupo tutorial se caracteriza pela presença de um tutor com a missão de estimular a aprendizagem ativa dos seus membros, através de vivência, reflexões e discussões, num clima de informalidade e cooperação” (BRASIL, 2006, p. 06). Nessa ocasião, o processo de ensino-aprendizagem se permeia na esfera do informal, mas isso não significa o desequilíbrio e o distanciamento da seriedade e do compromisso com o PET. A tutoria tem a clareza de que estar presente é facilitador e preponderante para conhecer e entender o grupo.
Vale salientar que para o professor chegar a participar da seleção de tutor(a) para algum grupo PET, são necessários requisitos como:
• pertencer ao quadro permanente da instituição, sob contrato de regime de tempo integral e dedicação exclusiva;
• ter título de doutor e, excepcionalmente, de mestre;
• não acumular qualquer outro tipo de bolsa;
• comprovar atuação efetiva em cursos e atividades da graduação nos três anos anteriores à solicitação de ingresso.
• comprovar atividades de pesquisa e extensão nos três anos anteriores à solicitação de ingresso.
• comprometer-se a dedicar carga horária semanal mínima de oito (08) horas às atividades dos do grupo, sem prejuízo das atividades de aula da graduação (BRASIL, 2006, p. 18).
Além desses requisitos, o professor que desejar fazer parte do programa deve possuir em sua trajetória a:
• vida acadêmica destacada, com experiência na orientação de alunos em diversos níveis;
• visão interdisciplinar e experiência em áreas que envolvam a tríade universitária: pesquisa, ensino e extensão;
• visão ampla do curso de graduação;
• desenvolvimento de atividades ligadas à melhoria da qualidade de ensino do curso;
• bom relacionamento com os corpos docente e discente;
• identificação com a filosofia e os objetivos do PET;
• desempenho satisfatório de acordo com os requisitos do programa, no item “avaliação do tutor”;
• assinar o Termo de Compromisso;
• atuação efetiva em cursos e atividades da graduação será aferida a partir de disciplinas oferecidas, orientação de iniciação científica ou de trabalhos de conclusão de curso e participação em conselhos acadêmicos (BRASIL, 2006, p. 18-19).
Devido a esses critérios, muitos professores não chegam a participar do processo seletivo. São requisitos necessários, contudo são iniciais. Esse comentário se dá a respeito das responsabilidades posteriores do(a) tutor(a) perante a IES e a SESu/MEC. A tutoria deve:
• planejar e supervisionar as atividades do grupo e dos alunos bolsistas e não bolsistas;
• coordenar a seleção dos bolsistas e não bolsistas;
• submeter a proposta de trabalho do grupo para aprovação pelo curso de graduação antes do envio à Pró-Reitoria de Graduação;
• organizar os dados e informações sobre as atividades do grupo para subsidiar a elaboração do relatório da IES e a avaliação de consultores e avaliadores;
• dedicar carga horária mínima de 8 horas semanais para orientação dos bolsistas e do grupo, sem prejuízo das atividades de sala de aula da graduação;
• atender, nos prazos estipulados, às demandas da instituição e da SESu;
• solicitar ao Comitê Local de Acompanhamento, por escrito, justificadamente, seu desligamento ou de aluno(s) bolsista(s);
• controlar a freqüência e a participação dos bolsistas;
• elaborar a prestação de contas da aplicação dos recursos recebidos, a ser encaminhada à SESu;
• fazer referência a sua condição de bolsistas do PET nas publicações e trabalhos apresentados;
• cumprir as exigências estabelecidas no Termo de Compromisso;
• não receber qualquer outro tipo de bolsa (BRASIL, 2006, p. 14).
Essas atribuições possuem um peso mais significativo ao(à) tutor(a). As relações e as escolhas que vão sendo tomadas dentro do programa farão toda a diferença no modo que o grupo trabalha e convive. Por isso, “Cabe a ele orientar os bolsistas no caminho de uma aprendizagem segura, relevante, ativa, planejada e adequada às necessidades do grupo e do curso como um todo” (BRASIL, 2006, p. 07). Isso não vai lhe tornar imune aos contratempos de relações difíceis com algum discente ou desvinculação destes, por exemplo, mas ajudará nas resoluções desses problemas, dentre outros, além de evitar que alguns até mesmo aconteçam.
Como os discentes, o(a) tutor(a) também pode ser desligado do exercício. Devido a:
• desistência do próprio professor tutor;
• avaliação contrária a sua permanência no grupo, conforme parecer da Comissão de Avaliação, devidamente homologada pelo Conselho Superior do PET;
• descumprimento do termo de compromisso e das atribuições contidas no artigo 11 da Portaria 3.385/2006. 1.4.1.2 (BRASIL, 2006, p. 20).
Essa desvinculação por descumprimento ou irregularidade não é muito comum, porém, deve-se ficar atento ao cumprimento das responsabilidades direcionadas. Os tutores têm seu tempo limite no programa. Caso aconteça de o professor querer a renovação ou o PET precise de um(a) novo(a) tutor(a), ocorre um processo seletivo para substituição, coordenado pelo Comitê Local de Acompanhamento e Avaliação (CLAA):
O edital do processo de seleção de professores tutores para composição do grupo PET deverá ser divulgado oficialmente, no âmbito do respectivo curso de graduação, com antecedência mínima de oito dias de sua realização, incluindo informações sobre data, local, horário, critérios e procedimentos de seleção. O resultado do processo seletivo será sistematizado e encaminhado pelo CLA à Pró-Reitoria de Graduação para homologação e encaminhamento a SESu/MEC (BRASIL, 2006, p. 20),
A finalização desse processo seletivo proporciona o início de uma jornada ou a continuidade desta no programa. Esses professores passam a assumir programas e com isso, atribuições de caráter pedagógico, educativo, formativo e acadêmico para com os(as) petianos(as). À luz dos documentos, percebemos essa intrínseca importância nas responsabilidades citadas, no que se refere a atuação do docente que além de ser professor se torna tutor(a).
Queremos deixar compreensível que ao dizer “Esses professores passam”, não estamos tentando insinuar que não possuem em seu âmbito profissional essas atribuições, mas estamos nos referindo ao processo de vivenciar uma nova atuação, de contato mais direto com os discentes, não tão distante do que se é vivenciado como docentes, já que todos os são, mas em um novo contexto acadêmico, agora enquanto tutores do Programa de Educação Tutorial.
Essa nova atribuição de se apresentar enquanto tutor(a) necessita de atenção, tanto que no Manual (BRASIL, 2006, p.14), já citado nesse texto, reitera a necessidade de estes(as), tutores(as) e estudantes, referenciarem sua condição como bolsista do programa, nas publicações, e trabalhos apresentados. Pode-se dizer que essa apresentação enquanto tutor(a) perpassa o manual, configura-se como reconhecimento de si enquanto tal. Na nossa próxima seção, trataremos a respeito desse perfil tutorial, os seus primeiros passos e continuação deste fazer tutorial tudo à luz dessa visão do(a) tutor(a) enquanto tutor(a).
Tutor(a) e tutoria
Essa seção contém dados que nos proporcionam conhecer a quantidade de tutores(as) participantes e não participantes da pesquisa e o tempo de vigência destes na tutoria. Além disso, apresentaremos aqui as análises a partir dos posicionamentos destacados nas entrevistas com os tutores sobre essa percepção do ser tutor(a) ou se fazer tutor(a). São dados significativos explanados pelos que colaboraram com a pesquisa.
Na construção do texto, os autores devem ser críticos ao olhar suas produções. Ação que os propicia perceber lacunas e assuntos que estão bem desenvolvidos, pontos positivos e negativos. Cientes disso, percebemos que a produção de conhecimento, reflete Pádua (2012, p. 30), “[...] é derivado da práxis humana e, por isso mesmo, não linear nem neutro [...]”. É nesse costurar que vamos dando pausas, modificando determinado assunto, dando sentido e refletindo sobre o texto.
A partir desse processo, achamos necessária a demonstração de dados quantitativos na pesquisa. De todo modo, entre egressos e atuais, até o ano de 2020, para ser mais preciso, estiveram na tutoria 18 professores(as). No que se refere a contribuição com a nossa pesquisa, 50% não puderam participar, alguns por motivos explanados e outros que não são do nosso conhecimento e tivemos o apoio e participação de 50%, os quais proporcionaram respostas que refletiremos aqui. Pretendíamos atingir um número mais significativo de participantes, entretanto, não é sempre possível alcançar todos os objetivos enquanto pesquisador. Estar consciente disso ajuda a movimentar a pesquisa para que não pare em sua totalidade, mas continue superando esses contratempos. Para iniciar a análise dos dados, começaremos a apresentar a nossa primeira pergunta da entrevista, que possui o intuito de conhecer, como foi a trajetória acadêmica dos(as) tutores(as). Constatamos as seguintes informações a respeito de suas titulações:
Gráfico 1: Titulação
Fonte: Elaborado pelos autores.
Além de sabermos as instituições, cursos e outras atuações profissionais dos entrevistados, constatamos que dos(as) 9 tutores(as) participantes da pesquisa, 30% possuem graduação, 30% mestrado e 30% doutorado, como solicitado para participação na seleção para o programa. Possuem formações diversas, já que estamos lidando com grupos PET de diferentes cursos e de diferentes Universidades, UERN e UFERSA. Além disso, percebemos que apenas 10% são pós-doutores, mas vale ressaltar que essa última porcentagem não é exigência do Manual de Orientações Básicas (BRASIL, 2006).
Na segunda questão da entrevista, questionamos aos participantes sobre o grupo PET que está ou estava tutor(a), qual a data inicial, se já foi tutor(a) alguma outra vez e, se sim, apresentasse a época/período. Como nos dados montamos no gráfico a seguir:
Gráfico 2: Participação no programa
Fonte: Elaborado pelos autores.
Observamos que 56% dos(as) tutores(as) estiveram na gestão do programa apenas uma vez ou estão em seu primeiro mandato. Já os 44% são de tutores(as) que estiveram/estão na gestão do programa mais de uma vez. O PET abre possibilidade de o(a) tutor(a) participar da seleção do programa mais de uma vez. Portanto, o docente tendo o desejo de continuar ou regressar ao grupo, submete-se ao processo seletivo para ser avaliado, junto aos demais participantes da seleção.
Na nossa terceira pergunta, abordamos os motivos que possibilitaram a conexão com Programa de Educação Tutorial (PET). Essas respostas foram organizadas no Quadro 1, inspirado na autora Bardin (1997).
| CONEXÕES | TUTORES(AS) | |
| 1 | Processo de fundação do PET no curso. | A, B e H |
| 2 | Participação no programa e o encantamento com a excelência e formação interdisciplinar. | C |
| 3 | As características de atividades extracurriculares. | D, E e F |
| 4 | Através de convites do Departamento do curso. | G e I |
Já na conexão de número dois 2, “Participação no programa e encantamento com a excelência e formação interdisciplinar”. Como é o caso do entrevistado Tutor(a) C (2020), que relata: “Minha própria trajetória no curso, pois fui bolsista da primeira turma do PET [...]”. Nessa fala, principalmente, chama-se atenção para esses momentos de regresso para onde um dia se esteve, que o entrevistado traz a vivência enquanto era petiano. E quando retorna como tutor(a), recordações importantes, momentos temporais que bem ajustados corroboram para o fazer tutorial não completo, mas com pressupostos para agregar as novas relações que vão ser construídas.
Na conexão 3, “As características de atividades extracurriculares”, é observado como um posicionamento que liga os(as) docentes ao programa, fazendo com que seja possível desempenhar atividades que não estejam engessadas ao currículo da sala de aula, dando margem a novas possibilidades. Segundo o Manual (BRASIL, 2006, p. 4), essas:
[...] atividades extracurriculares que compõem o Programa têm como objetivo garantir aos alunos do curso oportunidades de vivenciar experiências não presentes em estruturas curriculares convencionais, visando a sua formação global e favorecendo a formação acadêmica, tanto para a integração no mercado profissional quanto para o desenvolvimento de estudos em programas de pós-graduação.
Pelo encantamento decorrente da tríade, pesquisa, ensino e extensão, como também, a autonomia que esta “permite que se trabalhe com liberdade, o que fomenta a criatividade e organização dos alunos e do tutor” (TUTOR(A) D, 2020). Com isso, percebemos que não é algo que somente beneficia o discente ou docente, mas a ambos. Já na de número 4, o vínculo se desenvolve “Através de convites do Departamento dos cursos.”. Segundo os entrevistados, foram realizados a partir da fundação do programa no curso e um deles relata o seu ingresso como tutor(a) adjunto(a), uma ação voluntária que resultou em um longo tempo, “[...] por dois mandatos, num período de seis anos, no PET [...]” (TUTOR(A) I, 2020).
Na nossa quarta pergunta da entrevista realizada, tratamos sobre o posicionamento dos(as) participantes se esses/essas acham que o perfil de tutoria é algo pronto/acabado ou se esse se constrói durante o processo tutorial. Nessa perspectiva de compreensão sobre a questão, entre uma objeção por parte de um(a) tutor(a) em relação a pergunta, os demais corroboraram para o entendimento de uma visão da construção desse(a) tutor(a) em decorrência do processo tutorial. Entretanto, uma das respostas, posicionou-se sobre esse olhar de ser ou ser fazer tutor(a), refletindo que tanto a tutoria é como também se constrói. Ressaltando que:
Ambos. Faz-se necessário talento inato para motivar e formar graduandos através de uma estratégia petiana bem articulada. Por outro lado, a dedicação e compromisso com a educação e a formação de competências permitem aprender muito com os processos e experiências no contexto do PET, levando a uma construção e aquisição de habilidades fundamentais para o sucesso da tutoria e, consequentemente, dos petianos envolvidos (TUTOR(A) G, 2020).
Como o entrevistado apresenta, o PET busca uma construção coletiva. Mesmo o tutor(a) estando nesse processo como figura “maior” do ponto de vista acadêmico, este também aprende com essas experiências. Próximo a esse sentido Freire (1996, p. 41), reflete que:
Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos em suas relações uns com os outros e todos com o professor ou com a professora ensaiam a experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico-pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos [...]. A assunção de nós mesmos não significa a exclusão dos outros.
Portanto, a prática se estabelece com essas características de propiciar aos tutores e tutoras, mas também aos petianos e petianas essa vivência profunda de valorização e aperfeiçoamento do ser. Apesar de não invalidarmos e estarmos cientes sobre os critérios e demais atributos para o ingresso dos(as) tutores(as) no PET, que dizem respeito a currículo, trajetória acadêmica, percebe-se a partir de um olhar reflexivo que há contribuição decorrente da formação, possibilitadora e proporcionadora da concorrência da vaga enquanto tutor(a) e, deve e é atribuída enquanto conjunto, mas não podendo ser o essencial para a tutoria, pois as amplitudes e as subjetividades das relações são suscetíveis a novas questões e novos embates. Portanto, como fala o participante Tutor(a) A (2020):
Acredito que nunca é, pois no início não se tem ideia de como trabalhar ou como ser um tutor de um programa tão importante e necessário quanto este. É algo maior que o tutor ou os petianos, é um conjunto que tem que ser trabalhado. É algo que se constrói aos poucos, com confiança, muita participação, diálogo e compreensão. Ser tutor de um PET é saber ouvir e conversar, propor e ouvir propostas, sugerir e ouvir sugestões, mas também corrigir e indicar onde se pode melhorar. E um trabalho muito importante do tutor também é o de facilitador das atividades dos petianos. E nada disso está no Manual de Orientações do PET. É uma atividade mais humanística e de relacionamento pessoal com os petianos do que uma atividade simplesmente burocrática e administrativa.
E nesse caráter mais humano, diferente do que alguns acham não quer dizer que esquece o caráter burocrático, vai sendo reconhecido que “Toda experiência é um aprendizado. O perfil dos(as) tutores(as) é bastante heterogêneo, dependendo da área de atuação o tutor pode ter um perfil mais técnico ou social” (TUTOR(A) E, 2020). É interessante perceber que esse modo de trabalhar vai dando características não definidoras de juízo de valor aos programas, mas de forma a atender as demandas do PET e do curso. “Se constrói de acordo com os interesses da Instituição e da região em que está inserido” (TUTOR(A) F, 2020).
Que esse perfil tutorial, de diferentes características, que vão se reconstruindo de conformidade aos aspectos mencionados pela fala anterior do(a) Tutor(a) F (2020), é um posicionamento de alguns(mas) tutores(as) que corroboraram durante a entrevista, pois:
Embora o MEC defina algumas exigências para ser tutor, basicamente o docente deve possuir uma vida acadêmica produtiva atuando no ensino, pesquisa e extensão, acredito que o perfil de tutor necessita muito mais do que um perfil acadêmico. Além de orientar os petianos no desenvolvimento de atividades que possam contribuir para o seu crescimento acadêmico e profissional, o tutor tem que ser um motivador, lidar com conflitos comuns da juventude e do ser humano. Claro que esse perfil é construído ao longo do processo, algo contínuo que vai sendo aprimorando com o tempo (TUTOR(A) B, 2020).
Portanto, esse perfil tutorial que é processual. Como tal, “[...] permite compreender que a identidade profissional se constrói e transforma num processo contínuo, podendo assumir características diferentes em distintos momentos da vida” (MORGADO, 2011, p. 798). Esse tutor(a), “constrói a medida em que o tutor ganha experiência e convivência com os alunos” (TUTOR(A) D, 2020). Decorrente de desenvolvimento “de maneira conjunta, todos têm direito a opinião em igualdade com o tutor, o que torna a experiência democrática e atribui maior sentimento de responsabilidade pelos alunos” (TUTOR(A) D, 2020). Pensando nesse olhar de igualdade de direitos, Freire (1996, p. 26), reflete que “Isto exige [...] uma reflexão crítica permanente sobre minha prática através da qual vou fazendo a avaliação do meu próprio fazer com os educandos”. É a possibilidade de autonomia construída e respeitada que decorre do olhar atento e democrático do(a) orientador(a).
O processo reflexivo também faz olhar para o que é considerado “erro” ou “acerto” nessa construção:
Ninguém nasce tutor, ninguém nasce sabendo o que é tutoria. A gente vai aprendendo, vai lendo o material, vai tentando atender às normas do manual. Na realidade, é um compromisso que você vai fazendo e, a medida de que faz isso, vai vendo o que acerta e o que erra e, vai tentando, no diálogo, construir essa ideia de tutoria. Que é uma ideia, no ponto de vista do fazer, até simples. Não é nada muito, muito difícil de se fazer, mas que você por tentativas de acerto e erro... às vezes acerta, muitas vezes erra (TUTOR(A) F, 2020).
Além dessa consideração sobre construir a partir do diálogo, do fazer, a reflexão que o participante nos apresenta abrange o manual também. Segundo o(a) tutor(a), mesmo não sendo “uma coisa muito simples, nesse ponto de vista do dia a dia. Mas a ideia toda é montada no manual dos PETs, que é dado pelo Ministério da Educação (MEC)” (TUTOR(A) F, 2020). Esse material que serve para orientar “o que deve fazer o tutor, o que deve fazer os petianos, quais as normas, o que define ser um petiano, o que define um grupo PET. Isso acaba dando um norte do que se deseja” (TUTOR(A) F, 2020), mas mesmo tendo esse manual que é direcionado a todos os PETs não impede que vá se “construindo com nossa própria experiência com os petianos. É um grande desafio, o PET, mas é uma grande ferramenta de construção de aprendizagem e de formação de recursos humanos” (TUTOR(A) F, 2020). Formação que “Você pode ver pelo resultado dos PETs hoje, onde os ex-petianos estão, nos deixam muito orgulhosos, só é fazer um levantamento de onde eles estão hoje” (TUTOR(A) F, 2020). E esse é um objetivo não só do programa, mas uma realização também construída pelos(as) tutores(as), de continuidade formativa e de atuação profissional.
As observações aqui explanadas, fazem-nos refletir que a construção da tutoria é contínua. Manifestam-se no processo de estar em prática. Pode ser percebido estando além de apenas uma nomenclatura, mas na relação que a tutoria tem com o fazer, o saber, o sentir e o exercer tutorial. É o se fazer durante processo e como processo se reinventar, adaptar-se e construir novamente a si junto ao seu grupo, os(as) petianos(as).
Na nossa quinta questão, indagamos aos participantes sobre qual o papel do/da tutor(a) no programa. Alguns termos utilizados para defini-lo, estiveram frequentes nas respostas dos docentes e quando no processo de análise foi comparado os posicionamentos entres as entrevistas. Segundo os(as) tutores(as), o papel é burocrático e administrativo; de supervisão, coordenação, organização e gestão do grupo; de contribuir, direcionar, orientar, incentivar, e criar condições; além de motivar, mobilizar, de principal articulador, ser presente, dinamizador, tutorear e ser um pai.
Interessante destacar que as falas vão desde um viés mais administrativo, como é o caso de descrever esse papel como sendo de supervisão, coordenação e “[...] facilitar as atividades nas tarefas burocráticas junto a Instituição, incentivar as ideias e propostas de projetos [...]” (TUTOR(A) A, 2020); até a vertente mais humanista, que é apresentada ao falar que tem o papel “[...] de pai, resolvendo conflitos e impondo disciplina e ordem no grupo.” (TUTOR(A) B, 2020), por exemplo.
No tocante, as respostas foram se configurando nessa perspectiva paralela que bem descreve as relações construídas no PET. Esse equilíbrio, tanto proporciona o olhar atento para o que está sendo executado no grupo, como também, propicia a autonomia desses petianos, quando o docente consegue dosar esse “ser muito presente”. O(A) tutor(a) “[...] tem que ser muito presente a ponto de ser articulador, mas não pode ser presente demais a ponto de as coisas só serem feitas se ele estiver. É necessário que ele sempre esteja orientando, mas é necessário que ele dê autonomia para que as coisas aconteçam.” Tutor(a) H (2020) pois, como reflete Freire (1996, p. 41), “A autonomia vai se constituindo na experiência de várias, inúmeras decisões, que vão sendo tomadas.”.
Esse tempo que os(as) tutores(as) podem passar na coordenação do Programa os leva a desenvolver vínculos e conhecimentos de grupo, humano e acadêmico. Portanto, as possibilidades de reflexões desses aspectos, vivências e experiências foram contemplados durante a entrevista. Acreditamos que “[...] escrever sobre o que estamos fazendo como profissional (em aula ou em outros contextos) é um procedimento excelente para nos conscientizarmos de nossos padrões de trabalho.” (ZABALZA, 2004, p. 10).
Nessa perspectiva de perceber esse modo particular, achamos importante deixar essas pequenas reflexões dos(as) tutores(as) sobre o programa. Essa ação não pretende retirar/anular a base teórica da escrita, mas apresentar o caráter relevante, transformador, humano, formativo e tantos outros do mesmo viés que o Programa de Educação Tutorial tem desempenhado na vida de discentes e de tutores(as). Além disso, essa é uma das perguntas, a última, que foi realizada durante a entrevista. Nesta questão, queríamos entender se “existia algo que desejava destacar sobre essas vivências e experiências na tutoria”.
Segundo os(as) tutores(as), essa vivência na tutoria é “[...] uma experiência muito gratificante, que nos faz crescer como tutor e profissional da educação” (TUTOR(A) A, 2020). Ademais, “A convivência diária com um grupo de jovens em formação é algo fascinante. Você perceber o seu crescimento intelectual, o seu amadurecimento é algo extremamente prazeroso e que recomendo para todo docente” (TUTOR(A) B, 2020). Nessa perspectiva, o(a) Tutor(a) relata que “É uma experiência de grande aprendizado para os bolsistas tanto quanto para o(a) tutor(a). Um exercício constante de escuta, diálogos, parcerias e apostas coletivas em cada um do grupo bem como no futuro de todos eles” (TUTOR(A) C, 2020).
Por esse exercício constante citado anteriormente:
Acredito que existe uma evolução clara dos alunos ao longo do tempo em que são bolsistas. Alunos mais calados passam a falar mais, alunos que escrevem mal melhoram sensivelmente sua escrita. Alunos com pouca iniciativa se tornam mais altivos. Vejo claramente a evolução dos alunos como futuros profissionais e minha própria evolução, como um professor cada vez mais humano e contente por estar ajudando os alunos com minha visão de mundo e experiências que tive ao longo da vida (TUTOR(A) D, 2020).
Esse olhar sensível voltado para evolução dos participantes do grupo, relatado pelo entrevistado, pode ser reconhecido pelo próprio discente olhando para si, para sua trajetória, mas cabe ao(à) tutor(a) perceber desde a fragilidade até a evolução de seus petianos. O PET tem esse objetivo do aperfeiçoamento, do crescimento em grupo, a ampliação da sua visão de mundo a partir de envolvimento do(a) tutor(a) com o grupo. Por essas demandas citadas é considerado que:
Estar tutor do PET é um desafio tanto pela necessidade de articular o ensino, pesquisa e extensão, como também por coordenar um grupo relativamente grande de discentes com interesses diferenciados. Identificar a vocação de cada petiano e incentivar que ele saia de sua zona de conforto também é um desafio. Nesse sentido diversidade, alteridade, heterogeneidade e complexidade, são palavras e perspectivas que todo tutor enfrenta no seu dia a dia (TUTOR(A) E, 2020).
Desafio esse, que pode ser mensurado a partir do que já se tem estabelecido no Manual regente do Programa, documento também discutido durante o dissertar desse trabalho. Contudo, já se é consciente dos posicionamentos expressados que só nesse dia a dia que se pode sentir a diversidade e complexidade existente no se fazer tutor(a). Por isso é necessário que o docente esteja sempre refletindo, pois, “É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática.” (FREIRE, 1996, p.17). Ainda nessa perspectiva do vivenciar, segundo um dos(as) tutores(as), essa:
[...] vivência com o grupo, a experiência de coordenar ensina muito para o tutor, ensina muito para os petianos. A experiência de viver um modelo de democracia em que a participação é direta nas iniciativas, nas ideias, tanto nos planejamentos quanto nas execuções. Embora o programa tenha um vínculo acadêmico com o MEC (Ministério da Educação) e com a universidade, junto ao grupo, o tutor tem essa liberdade de criar ações que possibilitem essas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Nesse sentido, é que pode haver, no dia a dia, a vivência da construção do trabalho coletivo, do trabalho em grupo (TUTOR(A) I, 2020).
É sempre importante ressaltar esse caráter democrático que é fomentado pelos(as) tutores(as) nas elaborações de atividades e no dia a dia do programa. Possibilidade de responsabilidade, ação e construção coletiva executando essa tríade formativa. Vivências que possibilitam a formação humana, que sensibiliza a considerar:
[...] muito gratificante observar o crescimento dos alunos, o interesse em áreas antes não desenvolvidas e a dedicação para permanecer no programa até a conclusão do curso. O empenho dos alunos pode ser observado pelas notas obtidas após ingresso no programa e a dedicação em outras áreas como pesquisa e extensão (TUTOR(A) F, 2020).
Dedicação que é demonstrada quando os(as) petianos(as) percebem que eles(as) também são formadores da sua própria história. Sem dúvida, o trabalho desempenhado em grupo é construtor do ser em muitos aspectos, mas existe sempre uma partilha entre tutor(a), grupo e posicionamento individualmente compartilhados por cada integrante. Todos têm a compartilhar. É só a partir desse processo de conhecimento e reconhecimento que todos do PET se encontram para contribuição decorrente da sua área de interesse, do seu processo de ser e fazer. Sabe-se, a partir dessa pesquisa que:
O Programa é de fato estratégico para a Graduação e contribui fortemente para a Pós-Graduação mediante a formação diferenciada dos graduandos. Durante os anos em que estive envolvido, foi possível adquirir novos conhecimentos e habilidades através das atividades desenvolvidas no PET [...]. Trata-se de um recurso de grande valia para o curso e seus graduandos, pois permite que avancem consistentemente em áreas onde o ensino de graduação possui limitações. Seria excelente se cada curso de graduação pudesse ter o seu Programa PET (TUTOR(A) G, 2020).
Entretanto, são poucos os cursos que o tem. Esse programa que o(a) tutor(a) deve considerar para além da perspectiva de formação dos(as) petianos(as), mas também dos(as) demais discentes que estão presentes no curso que o PET está em atividade. Ninguém ingressa no programa sem conhecimento, nem tão pouco o deixa sem bagagem de aprendizagem, mesmo sendo este um(a) tutor(a), já está bem explícito isso. É por isso que é repetido tantas vezes essa palavra: construção.
Entretanto, são poucos os cursos que o tem. Esse programa que o(a) tutor(a) deve considerar para além da perspectiva de formação dos(as) petianos(as), mas também dos(as) demais discentes que estão presentes no curso que o PET está em atividade. Ninguém ingressa no programa sem conhecimento, nem tão pouco o deixa sem bagagem de aprendizagem, mesmo sendo este um(a) tutor(a), já está bem explícito isso. É por isso que é repetido tantas vezes essa palavra: construção.
Nesse processo, temos tutores(as) que afirmam por estar a pouco tempo no programa:
[...] que está muito cedo para avaliar o passado. Eu estou ainda nesse processo de pensar o que é ser tutor. Mas, o mais importante para mim mesmo, é a própria existência. [...] E, mesmo só com dez anos, todo mundo que passou pelo PET tem uma história a ser contada, de vivência, de apoio, de mudança de vida, de mudança de formação. E isso, para mim, é a principal experiência. Os relatos dos ex-petianos é o que mais me anima, seja no meu tempo de tutor, seja em outros tempos. Sempre são relatos fortes, de pessoas que viram no PET uma importante ferramenta de construção da sua formação e da sua profissionalidade. Isso nos anima demais. Então, são essas experiências que sempre me deixam na expectativa de que foi um grande acerto ter investido tantas energias no PET Pedagogia (TUTOR(A) H, 2020).
Então, o que discorrer sobre essas falas tão significativas que mesmo falando de si não esquece dos(as) seus(as) petianos(as)? O construir do(a) tutor(a) também passa por esse perfil, de olhar o outro com amorosidade, de perceber e de buscar entender esses lados subjetivos, mas que são demostrados e respeitados. Esses perfis com habilidades que podem ser aperfeiçoadas em conjunto. Necessidade de adequação, de melhorias, de interação, de chamar atenção. Visões que pode e são percebidas pelo(a) tutor(a), que como eles mesmos ressaltam são adquiridas no processo, na convivência. Além disso, que ajudam nesse “caminhar” de construção profissional e pessoal. E é necessário deixar claro que é para ambos os perfis, o de caráter discente e o do docente também.
4 Considerações finais
A escrita deste artigo pode alcançar o seu objetivo de analisar a gestão dentro do Programa de Educação Tutorial (PET/UERN/UFERSA) se é algo pronto/acabado ou a tutoria é processual. Também identificando o processo de ingresso e as demandas da tutoria dentro do Programa, em que é possível nos inteirarmos do processo de ingresso desses(as) tutores(as) que precisam ter o título de doutor, serem academicamente ativos, pertencentes a projetos de pesquisa, ensino e extensão, contrato de regime de tempo integral, não ter outra bolsa, comprovar dedicação exclusiva, dentre outros atributos percebidos nas seções desse trabalho. Ademais, conhecemos algumas das demandas da tutoria a partir da perspectiva do Manual de Orientações Básicas. A necessidade de estar atento às demandas da instituição e da SESu, o acompanhamento dos(as) estudantes, nas faltas, nas atividades em grupo, ser orientador(a) e coordenador(a) e se dedicar a cumprir as exigências necessárias à tutoria.
Além dessas constatações anteriores, investigando sobre esse ser tutor(a) ou se fazer tutor(a), foi percebida em decorrência das falas dos nossos entrevistados, que o tutor PET se constrói de forma empática contemplando não apenas os aspectos acadêmicos, técnicos, mas o lado humanista, não de forma invasiva nas questões pessoais, mas devido ao estreitamento das relações construídas dentro do programa, existe uma sensibilidade no cuidar e de se importar com o outro. Nessas vivências, há momentos que são partilhados saberes, conhecimentos e experiências de ensino aprendizagem, desenvolvimento de laços formativos e fraternos.
Percebemos que os perfis tutorias vão se perpetuando em seus discentes, mas o perfil dos alunos também está colaborando para o ser enquanto tutor(a) e suas ações. A tutoria está sempre em um processo de construção e reconstrução, pois os alunos são vinculados e desvinculados com mais frequência do que os(as) tutores(as). Com isso, surgem novas demandas, novos integrantes, que carecem de novas formas de aprendizagem, trazem novos conhecimentos e novos conflitos. Nesse sentido, mesmo sendo repetitivo, o processo se torna contínuo e necessário para que os objetivos sejam alcançados no âmbito institucional, acadêmico e humano.
Acredita-se que a pesquisa propaga mais conhecimento sobre o PET. Esses grupos que permanecem ativos e que em meio a problemas administrativos, até mesmo falta de reconhecimento de alguns membros da própria academia, continuam desenvolvendo um grande trabalho a partir do esforço e dedicação de tutores e petianos que buscam melhorias para a sua formação, como também, aos demais discentes e docentes da universidade. Pensamos, que novas pesquisas possam surgir nessa perspectiva de perceber esse olhar tutor de maneira mais ampliada, com tutores(as) das Universidades de todo Rio Grande do Norte, por exemplo, ou até mesmo essa percepção da tutoria a partir da ótica dos petianos. Possibilidades de desenvolvimento de trabalhos voltados para o PET são inúmeras e sempre necessárias para reconhecimento da importância desse programa que, através da sua tríade formativa de ensino, pesquisa e extensão, além da formação humana vem propiciando a formação de discentes mais preparados para o campo de atuação profissional e para a convivência em sociedade.
Referências
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