Dossiê
Recepção: 30 Maio 2025
Aprovação: 25 Junho 2025

Resumo: O presente texto faz uma resenha do livro Lima Barreto Versus Coelho Neto: um Fla-Flu literário (2010) escrito por Mauro Rosso, que apresenta um conjunto de textos de Coelho Neto e de Lima Barreto, publicados nos jornais cariocas entre 1904 e 1922. Neles, podemos perceber como Coelho Neto é entusiasta do esporte, igualando a atividade esportiva às grandes práticas de esporte do mundo grego antigo, e como Lima Barreto é avesso à prática, tanto no que diz respeito à sua leitura eletista da prática nos primeiros anos do século passado, quanto no que diz respeito ao tipo de violência que ela passa a gerar dentro e fora de campo. Além disso, este trabalho verifica como Lima Barreto, também nas suas crônicas, pensa o papel de escritor e como as crônicas esportivas apresentadas no livro podem funcionar como base de pesquisa na área dos estudos literários que esteja ligada à literatura e ao futebol.
Palavras-chave: Lima Barreto, Coelho Neto, Mauro Rosso, Crônica Literária, Literatura e Futebol.
Abstract: This text reviews the book Lima Barreto Versus Coelho Neto: um Fla-Flu literatura (2010) written by Mauro Rosso, which presents a set of texts by Coelho Neto and Lima Barreto, published in Rio de Janeiro newspapers between 1904 and 1922. In them, we can see how Coelho Neto is an enthusiast of sports, equating the sporting activity with the great sports practices of the ancient Greek world, and how Lima Barreto is averse to the practice, both with regard to his elitist reading of the practice in the early years of the last century, and with regard to the type of violence it generates on and off the field. In addition, this work examines how Lima Barreto, also in his chronicles, thinks about the role of a writer and how the sports chronicles presented in the book can function as a basis for research in the area of literary studies that is linked to literature and football.
Keywords: Lima Barreto, Coelho Neto, Mauro Rosso, Literary Chronicle, Literature and Football..
Resumen: Este texto revisa el libro Lima Barreto Versus Coelho Neto: um Fla-Flu literatura (2010) escrito por Mauro Rosso, que presenta un conjunto de textos de Coelho Neto y Lima Barreto, publicados en periódicos de Rio de Janeiro entre 1904 y 1922. En ellos, podemos ver cómo Coelho Neto es un entusiasta del deporte, equiparando la actividad deportiva a las grandes prácticas deportivas del mundo griego antiguo, y cómo Lima Barreto es reacio a la práctica, tanto en lo que respecta a su lectura elitista de la práctica en los primeros años del siglo pasado, como en lo que respecta al tipo de violencia que genera dentro y fuera del campo. Además, este trabajo verifica cómo Lima Barreto, también en sus crónicas, piensa el papel del escritor y cómo las crónicas deportivas presentadas en el libro pueden funcionar como base para investigaciones en el área de estudios literarios que está vinculada a la literatura y al fútbol.
Palabras clave: Lima Barreto, Coelho Neto, Mauro Rosso, Crónica literaria, Literatura y Fútbol.
Introdução
Durante parte significativa do século XIX e ao longo do século XX, os jornais foram espaços de destaque para que os escritores pudessem exercitar seu olhar crítico e atento aos acontecimentos que acompanhavam, de forma mais ou menos própria. A crônica tornou-se o espaço ideal no qual poderia ser conjugado o exercício atento de escrita e o cuidado especial com o texto, seus aspectos literários, pensando a dimensão do leitor de jornal como alvo do que se escreve.
A crônica publicada nos jornais estabeleceu um contato frutífero entre leitor e autor, sem igual na história da literatura dos séculos XIX e XX, de forma muito mais direta e dinâmica do que aquele estabelecido pelo contato com os livros. A velocidade de consumo de um texto de crônica do jornal alterou, em certa medida, a experiência de leitura, visto que, como já é lugar comum dizer, o jornal de hoje embrulha a mercadoria de amanhã. O texto precisa ser lido ainda quente, visto que o descarte do meio impresso do jornal é parte da dinâmica de seu consumo enquanto produto. Além disso, há na crônica um tom coloquial que por vezes não encontramos em outros textos literários. Acerca disso, Davi Arrigucci Jr., em pequeno trabalho intitulado “Fragmentos sobre a crônica” (2001), apresenta brevemente o gênero literário em questão e explica sua relação com os jornais e sua grande aceitação no Brasil.
Esse gênero de literatura ligado ao jornal está entre nós há mais de um século e se aclimatou com tal naturalidade, que parece nosso. Despretensiosa, próxima da conversa e da vida de todo dia, a crônica tem sido, salvo alguma infidelidade mútua, companheira quase que diária do leitor brasileiro. No entanto, apesar de aparentemente fácil quanto aos temas e à linguagem coloquial, é difícil de definir como tantas coisas simples. São vários os significados da palavra crônica. Todos, porém, implicam a noção de tempo, presente no próprio termo, que procede do grego chronos. Um leitor atual pode não se dar conta desse vínculo de origem que faz dela uma forma do tempo e da memória, um meio de representação temporal dos eventos passados, um registro da vida escoada. Mas a crônica sempre tece a continuidade do gesto humano na tela do tempo. (Arrigucci Jr., 2001, p.51)
Dado ao seu grau de simplicidade e de contato com o público, da sua íntima relação com o tempo presente a que se vincula, em especial com a publicação de determinado número e edição de jornal, a crônica se coloca como uma importante fonte de pesquisa de literatura. Primeiramente porque permite àquele que quiser se enveredar pela pesquisa literária um contato com um tipo muito particular de linguagem, propiciando a exploração por parte do pesquisador de uma língua que é ao mesmo tempo literária e coloquial, diversa da que por muitas vezes encontramos em romances, contos, novelas e outras formas mais tradicionais de narrativa. A segunda é a possibilidade de ver o que o autor/a autora pensava no contexto histórico em que estava inserido. A relação indissociável com o tempo faz com que esse gênero literário apresente uma chave de leitura para o entendimento da obra de determinado autor/ autora e sua relação com o tempo histórico de sua produção. Isso porque
o cronista é um narrador da História. Como notou Benjamin, o historiador escreve os fatos, buscando-lhes uma explicação, enquanto que o cronista, que o precedeu, se limitava a narrá-los, de uma perspectiva religiosa, tomando-os como modelos da história do mundo e deixando toda explicação na sombra da divindade, com seus desígnios insondáveis. Mas ao narrar os acontecimentos, assemelhava-se ao seu duplo secular, o narrador popular de casos tradicionais que, pela memória, resgata a experiência vivida nas narrativas que integram a tradição oral e às vezes se incorporam também à chamada literatura culta. Como este, o cronista era um hábil artesão da experiência, transformador da matéria-prima do vivido em narração, mestre na arte de contar histórias. Hoje, porém, quando se fala em crônica, logo se pensa num gênero muito diferente da crônica histórica. Agora se trata simplesmente de um relato ou comentário de fatos corriqueiros do dia-a-dia, dos faits divers, fatos de atualidade que alimentam o noticiário dos jornais desde que estes se tornaram instrumentos de informação de grande tiragem, no século passado [o século XIX]. A crônica virou uma seção do jornal ou da revista. Para que se possa compreendê-la adequadamente, em seu modo de ser e significação, deve ser pensada, sem dúvida, em relação com a imprensa, a que esteve sempre vinculada sua produção. Mas seria injusto reduzi-la a um apêndice do jornal, pelo menos no Brasil, onde dependeu na origem da influência européia, alcançando logo, porém, um desenvolvimento próprio extremamente significativo. (Arrigucci Jr, 2001, p. 52)
O gênero crônica, então, é um gênero que está ligado não só a uma mídia específica – o jornal ou a magazine –, mas que está intimamente ligado a uma experiência de leitura vinculada que está à experiência da leitura do jornal. Roger Chartier, em texto sobre a história da escrita, explica, quando compara a pintura e a fotografia, que a mesma relação se dá quando comparamos o livro e o jornal. Em seu livro A aventura do livro: do leitor ao navegador (1999), encontramos uma longa entrevista de Chartier fazendo comparações sobre as mudanças cruciais pelas quais passam o exercício de leitura. Em determinado momento do texto, o autor dá ao formato do papel do jornal a dimensão que acaba por explicar a nova relação que o texto ganha no exercício da leitura:
[…] Quando o jornal adquire um grande formato e uma distribuição ampla, quando ele é vendido na rua a cada número, aí ocorre […] uma atitude mais livre: o jornal é carregado, dobrado, rasgado, lido por muitos. (Chartier, 1999, p. 82)
Essa transitoriedade do jornal dá à crônica outro tom. Coloca-a, então, sob o desafio de ser lida em uma mídia que será, muito rapidamente, descartada. Isso dá ao escritor / à escritora outra dinâmica de escrita: é preciso agarrar o leitor, prendê-lo ao texto para que o que se escreve não seja descartado, não lido. Isso faz da crônica faz um gênero muito particular para se pensar não só as possibilidades de escrita literária, bem como os artifícios utilizados pelos escritores / pelas escritoras para manterem seus leitores fiéis às leituras de seus textos. Isso porque “O cronista recolhe os fragmentos do cotidiano e os transforma em matéria literária, recriando personagens, intrigas, empregando linguagem simbólica que é, ao mesmo tempo, acessível e sedutora para o público” (Oliveira, 2017, p. 33).
Em uma organização tardia das crônicas, publicadas posteriormente em formatto de livro, perdemos o primeiro aspecto que é o da leitura que será descartada. Em livro, a crônica ganha outra dimensão, e, portanto, outra temporalidade. Nela, não mais experienciamos o presente dos acontecimentos e nem dividimos a conversa coloquial do cotidiano com o autor / a autora do texto, que fez com que o gênero, como salientou Arrigucci Jr., caísse no gosto popular do brasileiro, tornando-se cada vez mais frequentes nos jornais. No livro, as crônicas “ganham nova significação. É como se o cotidiano se atemporalizasse, fazendo com que os fatos passados pertençam também ao presente, criando novos liames com o espaço geográfico do leitor, qualquer que seja a época em que esteja” (Oliveira, 2017, p. 34).
Por isso, o contato com uma recolha de crônicas, como a que faz Mauro Rosso com os textos de Lima Barreto e de Coelho Neto sobre o futebol, livro do qual trataremos nesta resenha, permite com que conheçamos um outro lado dos autores em questão, mesmo que praticamente cem anos depois da produção de tais textos e que nos faz voltar o olhar para os autores com outras perspectivas de pesquisa. Não estamos mais naquele tempo dos primeiros anos do futebol no Brasil e, exatamente por isso, fica difícil pensar um momento em que o esporte não era popular e, muito menos, rechaçado pelos intelectuais. Pensar em debates nos quais o futebol aparece associado a guerras, causa de violência e de crítica feroz por um dos escritores mais importantes de nossa literatura é ainda mais complicado hoje, tempo em que o futebol ultrapassa e muito sua condição de esporte.
Ainda pensando a crônica como fonte de pesquisa, é preciso ressaltar que só é possível hoje reuni-las em livros graças aos arquivos e à manutenção da memória dos impressos no Brasil. Em razão do descarte rápido a que os jornais estão fadados, se não fosse a prática arquivística, não teríamos acesso a tais textos e nem poderíamos ter com eles esse contato diverso de temporalidade a que faz menção Aciomar de Oliveira em citação anterior, em seu texto de abertura do livro Entre o dilema e o silenciamento: etnicidade, memória e poder nas crônicas de Lima Barreto e João do Rio (2017). No espaço específico da pesquisa acadêmica, tais arquivos permitem ao pesquisador ou à pesquisadora de literatura um conjunto de material rico de um determinado tempo.
Entendemos a importância dos arquivos aqui como pensa Jaques Derrida em Mal de arquivo (2001). Em seu livro, o pensador discute a origem do termo arquivo em grego – oriunda de arkhé, que significa princípio – e do papel dos arcontes: sujeitos da sociedade grega que guardavam em suas residências volumes de referências daquilo que julgavam importante de ser preservado. Derrida, então, comenta que os arquivos modernos mantêm, em certa medida, esse poder arcôntico. A esse respeito, comenta:
É preciso que o poder arcôntico, que concentra também as funções de unificação, identificação, classificação caminhe junto com o que chamaremos o poder de consignação. Por consignação não entendemos apenas, no sentido corrente desta palavra, o fato de designar uma residência ou confiar, pondo em reserva, em um lugar e sobre um suporte, mas o ato de consignar reunindo os signos. Não apenas é consignatio tradicional, a saber, a prova escrita, mas aquilo que toda e qualquer consignatio supõe de entrada. A consignação tende a coordenar um único corpus em um sistema ou uma sincronia na qual todos os elementos articulam a unidade de uma configuração ideal. Num arquivo, não deve haver dissociação absoluta, heterogeneidade ou segredo que viesse a separar (secernere), compartimentar de modo absoluto. O princípio arcôntico do arquivo é também um princípio de consignação, isto é, de reunião. (Derrida, 2001, p. 13-14)
A partir de tal percepção é que entendemos a recolha das crônicas arquivadas, para depois serem publicadas no formato de livro, uma nova consignação. O livro se apresenta, quando organizado a partir de um conjunto de crônicas, como uma nova forma de arquivo, podendo assim oferecer material de relevância. Tal discussão se coloca porque, é tradição nos espaços de pesquisa em literatura, a busca por fontes literárias majoritariamente em livros, visto que o livro acabou se tornando, para a literatura, o objeto fim da produção literária. É bastante superior o número de pesquisas de autores e autoras que se fazem tendo por base um livro ou um conjunto de livros, ficando, dessa forma, o texto de jornal ou fora do campo da pesquisa literária ou utilizado como fonte correlata e acessória, poucas vezes sendo o foco central de um trabalho de pesquisa stricto sensu nos estudos literários.
Entretanto, voltar aos arquivos e analisar os textos publicados no calor da hora dos jornais é exercício fundamental para aqueles que pretendem pesquisar literatura, visto que os jornais são fonte plural de percepção do exercício de escrita de dado escritor/escritora no momento histórico de sua produção. É um texto que permite conhecer melhor as ideias e os projetos literários, a complexidade das escritas e de suas diferenças em diferentes mídias e a necessidade de comunicação dos que se dedicam à escrita com o público mais amplo e geral dos jornais, na disputa que há pela atenção de um/uma leitor/leitora em meio impresso de variados temas e de variados interesses. Dessa forma, quando encontramos tais textos reunidos e publicados em livro, trazemos a fonte ao contato de um público e de uma tradição de pesquisa que, por variado conjunto de razões, não se volta aos arquivos com a mesma frequência que o fazem os historiadores.
É a partir desse prisma que primeiramente entenderemos o livro Lima Barreto versus Coelho Neto: um Fla-Flu literário, de Mauro Rosso. O livro, de saída, tem grande relevância aos estudos literários porque apresenta, já a partir de cuidadosa curadoria, a pesquisa em arquivo que comumente o pesquisador em literatura não têm hábito de fazer. A recolha que faz das crônicas de Lima Barreto e Coelho Neto, como veremos a seguir, colocam a crônica no centro da cena da pesquisa e permitem que os pesquisadores de literatura e futebol utilizem o trabalho como base para outras pesquisas sobre o tema.
A crônica, o ofício de escrita e o futebol
Não são poucos os escritores/escritoras que tiveram com o jornal uma relação profissional de escrita, tornando-se o jornal, em muitos casos, a fonte primeira de sua subsistência. No que diz respeito à escrita da crônica, o número é ainda mais interessante, incluindo-se aí nomes como José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo e Machado de Assis, na segunda metade do século XIX, e Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Roberto Drummond, ao longo do século XX, para citar alguns. Não só é prática regular no campo da literatura a escrita de crônicas em jornais como o exercício de escrita do gênero é relevante para alguns dos nomes mais importantes da literatura. Como um exemplo, assim descreveu Carlos Drummond de Andrade em entrevista dada na rádio sobre a importância de o escritor se dedicar aos jornais e sua importância para a sua formação do escritor.:
O jornalismo é escola de formação e de aperfeiçoamento para o escritor, isto é, para o indivíduo que sinta a compulsão de ser escritor. Ele ensina a concisão, a escolha de palavras, dá noção do tamanho do texto, que não pode ser nem muito curto nem muito espichado. Em suma, o jornalismo é uma escola da clareza de linguagem, que exige antes clareza de pensamento. E proporciona o treino diário, a aprendizagem continuamente verificada. Não admite preguiça, que é o mal do literato entregue a si mesmo. O texto precisa saltar do papel, não pode ser um texto qualquer. Há paginas de jornal que são dos mais belos textos literários. E o escritor dificilmente faria se não tivesse a obrigação jornalística. (Andrade, 2008, p. 37).
Percebemos então, no que nos mostra Drummond – que ainda na mesma entrevista lamenta não ter sido jornalista profissional – que a escrita que torna urgente a leitura, ao ponto de o texto carecer “saltar da página”, faz do material que encontramos nos arquivos de jornal fonte rica de pesquisa. Se circunscrevermos a sua importância à pesquisa da crônica enquanto gênero, ampliamos muito a percepção de aspectos literários de determinado autor/autora no contato direto com seu público leitor mais próximo, apresentado, dessa forma, um panorama importante da relação autor-obra-leitor em movimentação diversa daquela que experienciamos no contato estético vivenciado com a leitura de um livro, mídia que possibilita um contato mais lento e distanciado do leitor, propondo outra noção de recepção.
A crônica de jornal, além de proporcionar ao pesquisador/pesquisadora de literatura um contato mais amplo com o escritor/a escritora de sua predileção ou de sua base de pesquisa, também é excelente fonte de para quem pretende estudar a relação de um dado escritor com um tema específico: a política, a economia, os fatos e acontecimentos da semana ou do dia, a depender da pauta de cada jornal. Dentre os temas, o futebol também passa a ser importante elemento tratado nas crônicas, de forma direta ou indireta, pelos escritores em dado tempo. É o caso, por exemplo, de quem se dedicar à pesquisa das crônicas esportivas assinadas por Roberto Drummond nos anos em que se dedicou a escrever no Estado de Minas, de Nelson Rodrigues publicando crônicas esportivas no jornal O Globo e de Carlos Drummond de Andrade, em especial no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil.
O livro Lima Barreto versus Coelho Neto: um Fla-Flu literário, de autoria de Mauro Rosso, publicado em 2010, é um desses achados literários com excelente fonte de pesquisa, visto que apresenta um importante panorama da produção das crônicas e de alguns contos de Lima Barreto e de discursos e crônicas jornalísticas de Coelho Neto em torno do futebol nos primeiros anos do século passado na cidade do Rio de Janeiro. No livro, encontramos trabalho de fôlego de pesquisa nos periódicos em que ambos os autores publicaram seus textos, sem contar um direcionamento crítico da leitura feito com elegância e segurança.
Ao longo da leitura, fica evidente a maneira como Lima Barreto se coloca avesso ao futebol. Inicialmente criticando-o por se tratar de uma prática esportiva elitista e que excluía a população mais pobre de suas práticas, chegando ao fim por criticá-lo pela violência por ele gerada dentro e fora de campo. Já Coelho Neto, em posição oposta a de Lima Barreto, era bastante entusiasta do esporte bretão, da importância do esporte para a formação humanística do brasileiro, comparando a prática à do culto ao corpo feito pelos gregos clássicos.
A oposição, então, entre ambos, é a tensão que norteia a organização dos trabalhos, cronologicamente dispostos entre 1904 e 1922, datas respectivamente da primeira e da última crônicas assinadas por Lima Barreto que abordam o tema, o que nos apresenta um recorte temporal importante, visto que em praticamente dezoito anos, a visão de Lima Barreto vai se tornando cada vez mais dura e mais incisiva contra o futebol.
Uma das características que saltam aos olhos na organização dos textos de Lima Barreto e de Coelho Neto feitas por Mauro Rosso em seu livro é a liberdade que dá para que as fontes falem por si. Mauro Rosso faz poucos apontamentos críticos que tentem, em certa medida, a calar as fontes, ou a falar por elas. Em sua organização, apresenta em seu texto mais uma preocupação na contextualização histórica dos fatos e da rivalidade jornalística entre os escritores, preocupando-se menos com a carga de uma análise literária fina dos autores, considerando-se nisso uma leitura pautada pelos aspectos estéticos do texto, as escolhas de escrita ou análises literárias mais profundas. Há uma relação estrita em mostrar, de forma direta e clara, como cada um dos autores se relacionava com o futebol e como alguns acontecimentos carregavam de sofisticação a resposta dada por cada autor. Tal escolha permite que tenhamos, ao lermos o livro, um contato menos direcionado com a fonte, o que nos dá mais liberdade interpretativa dos textos de Coelho Neto e de Lima Barreto.
Como exemplo, segue a passagem em que Rosso apresenta o intervalo que vai do discurso de Coelho Neto (janeiro de 1919) proferido na inauguração da piscina do Fluminense F. C. e a resposta dada por Lima Barreto ao acontecimento carregada de ironia (“As letras na Bruzundanga”, O parafuso, 12/03/1919).
Cada vez mais requisitado para eventos esportivos e sociais, seria de Coelho Neto o discurso na abertura do campeonato sul-americano de futebol, entre seleções, em agosto de 1919, realizado no Rio de Janeiro: e, antes disso, o discurso de inauguração da piscina do Fluminense, em janeiro desse ano – que veio a incensar o espírito crítico de Lima Barreto e concretamente deflagar toda a sua ‘paladina’ carga combativa (Rosso, 2010, p. 69)
Esse é o tom das notas e dos comentários que encontramos de Rosso ao longo da apresentação das crônicas. Os parágrafos se colocam com pouquíssima interferência ou análise crítica aprofundada dos textos. O que encontramos, de forma muito mais frequente, são pequenos e pontuais comentários que, como dissemos, orientam o leitor a perceber os contextos das relações entre os autores e sua rivalidade nos jornais. Rosso, com exceção do que faz no prefácio, restringe-se a deixar os textos falarem por si, o que é uma contribuição positiva das crônicas como fontes outras de pesquisa.
No decorrer do texto, à medida que a rivalidade intelectual entre Lima Barreto e Coelho Neto se adensam, em especial no tema do futebol e na aversão que tem Barreto ao tom de escrita e à postura de Coelho Neto diante da literatura, Rosso vai diminuindo os comentários que faz dos textos, deixando assim com que o leitor possa, por si, construir seu olhar sobre o debate travado nos jornais. Dessa forma, o livro de Rosso tem duas vantagens frente a outros que abordam a temática entre literatura e futebol. A primeira, a de nos apresentar uma catalogação precisa e pontual dos textos tanto de Lima Barreto quanto de Coelho Neto sobre o tema, e a segunda, a liberdade de um futuro pesquisador de literatura e de futebol poder, por si, a partir das poucas intervenções e direcionamentos críticos feitos por Rosso, poder ele mesmo pensar as tensões e as abordagens que fará do corpo de fontes apresentadas no livro.
É importante destacar também certo desequilíbrio, visto que o número de textos de Lima Barreto é numericamente maior que o de textos de Coelho Neto, o que dá ao livro uma dinâmica interessante em duas frentes. A primeira é a de que a visão e a abordagem de Lima Barreto parece ser o foco mais específico pelo qual se baseia Rosso em sua organização, aparecendo Coelho Neto como opositor daquele e muitas vezes como tônica do debate. A leitura, então, é muito mais interessante ao pesquisador da obra de Lima Barreto que, como a própria história da literatura destacou, acabou por se tornar um escritor mais conhecido que Coelho Neto entre os leitores e pesquisadores de literatura na atualidade.
Na recolha proposta por Rosso, vemos um Lima Barreto mais coerente entre sua produção literária e seu exercício de escrita nos jornais. Isso porque, pontualmente, Rosso apresenta também contos do autor nos quais o futebol também aparece como tema, mesmo que de forma tangencial, mostrando que os prejuízos apresentados por Lima Barreto à prática do esporte e seus prejuízos para a sociedade não são só temas dos quais se ocupa nas crônicas, mas também são temas relevantes para sua produção literária. Além disso, há importante apresentação de como Lima Barreto entende seu lugar de escritor e assim se coloca na organização da obra, não se furtando, portanto, a um debate frutífero também do que significava ser escritor no Brasil daqueles primeiros vinte anos do século passado.
Na crônica “Histrião ou literato?”, ainda sobre os polêmicos discursos de Coelho Neto na abertura do sul-americano de futebol e na inauguração da piscina do Fluminense, publicada no dia 15/02/1919 na Revista Contemporânea, diz Lima Barreto sobre o que significava, para ele, dedicar-se à literatura:
A missão da literatura é fazer comunicar umas almas com as outras, é dar-lhes um mais perfeito entendimento entre elas, é ligá-las mais fortemente, reforçando desse modo a solidariedade humana, tornando os homens mais capazes para a conquista do planeta e se entenderem melhor, no único intuito de sua felicidade.
Onde está isso na obra do senhor Neto? Onde está isto nos seus cinquenta e tantos volumes?
Viveu no interior e só sabe dar uma máscara de sertanejo. É homem da moda e não entende a alma de uma criada negra. Nos seus livros, não há um laivo de simpatia pelos humildes, a não ser quando se trata dos “caboclos” da nossa convenção literária. [...] Seria longo e, talvez, fastidioso alongar-me nestas considerações.
Elas me foram provocadas pelo discurso que o senhor Neto, da Academia de Letras, pronunciou por ocasião da inauguração de uma dependência de um clube de regatas ou coisa que o valha, nas Laranjeiras.
O senhor Coelho Neto esqueceu-se da dignidade do seu nome, da grandeza de sua missão de homem de letras, para ir discursar em semelhante futilidade.
Os literatos, os grandes, sempre souberam morrer de fome, mas não rebaixaram a sua arte para simples prazer dos ricos. Os que sabiam alguma coisa de letras, e tal faziam, eram histriões, e estes nunca se sentaram nas sociedades sábias… (Rosso, 2010, p. 75)
Fica nítida a discordância de Lima Barreto à postura de Coelho Neto. O fato de destacar o papel da literatura, papel esse que ele mesmo desempenhou em sua escrita, não deixando de lado seu olhar atento e preciso com relação aos humildes, é o que condena de negligente em Coelho Neto. A futilidade com que vê o discurso de Neto na inauguração na piscina de um clube de elite num bairro de elite do Rio de Janeiro aumenta consideravelmente seu olhar cáustico sobre a postura e o papel desempenhado pelo antagonista das letras. Lima Barreto, em poucas linhas, faz violento ataque a toda a obra de Coelho Neto, no meio de forte indignação que já vinha alimentando contra o futebol e seu elitismo nos primeiros anos do século passado.
Em outro momento, na crônica “Vantagens do futebol”, inicialmente irônica e depois denunciativa, publicada pela Careta em 19/06/1920, Lima Barreto começa dizendo da importância do futebol para a saúde dos atletas, cita a defesa de Coelho Neto à prática do futebol e passa a dizer sobre as notícias em que se relatavam acidentes pelos quais passavam os jogadores, tal como no excerto abaixo;
Meses antes, esse mesmo jornal [Jornal do Commercio], isto é, a 7 de julho, dava outra notícia que me vejo obrigado a transcrever aqui. Leiamo-la sob a epígrafe “A paixão do futebol”:
“O menino Waldemar Capelli, de 15 anos, filho de Taseo Capelli, orador da Vila Aliança, nas Laranjeiras, passou a tarde de ontem a jogar futebol num campo perto de casa.
Interrompeu o divertimento às seis horas para jantar às pressas e voltar ao mesmo exercício. Quando o reencetou, foi acometido de um ataque, e a Assistência Pública foi chamada para socorrê-lo. Esta chegou tarde, entretanto, porque Waldemar estava morto.”Etc., etc.
Não é só aqui no Rio que o maravilhoso jogo vai nos fazer derrotar todos os inimigos, inclusive a carestia da vida, manifesta a sua capacidade de dar saúde e robustez à nossa mocidade. (Rosso, 2010, p. 121)
O tom ferino que Lima Barreto vai dando ao seu combate ao futebol fica cada vez mais evidente no andamento das crônicas. À medida que seguimos com a leitura, seguindo a organização dos trabalhos proposta por Rosso, percebemos de forma cada vez mais evidente que o futebol não era uma questão supérflua para o autor. O que inicialmente era interpretado por ele como uma prática elitista de um esporte demasiada e desmedidamente defendido por Coelho Neto, à medida que vai se popularizando, torna-se um lugar de debate de sua violência dentro e fora de campo. A crônica acima deixa evidente que o futebol, para Lima Barreto, não trazia nenhum benefício social e, à medida que o governo dava ao esporte cada vez mais destaque, mais incisiva se tornavam as críticas de Lima Barreto a ele.
O ponto talvez mais alto das críticas de Lima Barreto ao futebol apresenta-se na leitura crítica que faz do livro Estudos, de Albertina Berta, publicada na Gazeta de Notícias, em 26/10/1920, na qual mostra sua opinião sobre os escritos de Nietzsche e da relação que estabelece entre a filosofia dele e a Primeira Guerra Mundial:
Ele [Nietzsche] inspirou essa guerra monstruosa de 1914 e o esporte a executou. Spencer, em 1902, no seu último livro, Fatos e comentários, no artigo “Regresso à Barbaria”, previa esse papel retrógrado que o atletismo havia de representar no mundo.
Condenando-os, sobretudo o futebol, o grande filósofo dizia muito bem que todo o espetáculo violento há de sugerir imagens violentas que determinarão sentimentos, dissecando a simpatia humana, enfraquecendo a solidariedade entre os homens. Nietzsche, catecismo da burguesia dirigente, combinando-se com uma massa habituada à luta ou a espetáculos de lutas, só podia dar em resultado essa guerra brutal, estúpida, cruel, de 1914, que continua ainda e não resolveu coisa alguma. (Rosso, 2010, p. 126)
No texto, Lima Barreto faz mais de uma vez menção do quanto não gosta de Nietzsche e do quanto critica os esportes, em especial o futebol. Chama a atenção a relação que estabelece entre ambos e a Guerra de 1914, como se as bases ideológicas da guerra fossem essas. A maneira como Lima Barreto entendida o futebol e sua violência, com o passar do tempo, aumenta a pontos muito delicados como o acima pensado.
Assim, ler o livro de Mauro Rosso permite que tenhamos um olhar mais amplo da produção literária de Coelho Neto e de Lima Barreto, em especial da relação deste e de seu desagrado diante do futebol. Mesmo Lima Barreto tendo perdido a briga, visto que o futebol se populariza e nada impede seu crescimento e sua institucionalização no Brasil, fica para nós, graças à recolha feita por Rosso em seu livro, o olhar desse escritor e de seu tempo. Mesmo se afastando dos helênicos, a contragosto de Coelho Neto que, com o crescimento da violência em torno do futebol, vai baixando de tom na suas defesas ao esporte, o futebol se torna, indiscutivelmente, no Brasil, o esporte mais popular do século passado. Ter um escritor como Lima Barreto contrário a ele é elemento riquíssimo, permitindo então uma discussão mais profunda de sua obra e de seu olhar social da literatura. Mesmo percebendo os males que o futebol traria aos pobres, por ser inicialmente uma prática das elites, Lima Barreto não conseguiu perceber a importância do esporte para as classes baixas do Brasil. Talvez porque não tenha tido tempo para ver o que se tornaria o futebol no país.
A leitura de Lima Barreto versus Coelho Neto: um Fla-Flu literário torna-se, pois, imprescindível para quem desejar estudar alguns temas que estão ligados à pesquisa da literatura e do futebol: o estudo da crônica enquanto gênero e sua importância para se pensar a prática de escrita, o papel do escritor nos jornais e o futebol, controverso e amado, mas pauta indispensável para se pensar a construção do Brasil, sua cultura e sua arte.
Referências Bibliográficas
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ARRIGUCCI JR., Davi. “Fragmentos sobre a crônica” in: Enigmas e comentários. 1.reimp. São Paulo, Companhia das Letras, 2001. p. 51-66.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Trad. Reginaldo Carmelo Corrêa de Moraes. São Paulo, Ed. Unesp, 1999.
DERRIDA, Jaques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Trad. Cláudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2001.
OLIVEIRA, Aciomar de. Entre o dilema e o silenciamento: etnicidade, memória e poder nas crônicas de Lima Barreto e João do Rio. Belo Horizonte: Poesias Escolhidas editora, 2017.
ROSSO, Mauro. Lima Barreto versus Coelho Neto: um Fla-Flu literário. Rio de Janeiro: Difel, 2010.
Autor notes
Ligação alternative
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/caminhosdahistoria/article/view/9186/8692 (pdf)

