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“TRABALHEI COMO UMA MULHER!”: O LABOR DAS MULHERES IMPRESSO NAS PÁGINAS DO JORNAL DAS SENHORAS (RIO DE JANEIRO, 1852-1855)
Bárbara Figueiredo Souto
Bárbara Figueiredo Souto
“TRABALHEI COMO UMA MULHER!”: O LABOR DAS MULHERES IMPRESSO NAS PÁGINAS DO JORNAL DAS SENHORAS (RIO DE JANEIRO, 1852-1855)
“I WORKED LIKE A WOMAN!”: THE LABOR OF WOMEN PRINTED IN THE PAGES OF THE JORNAL DAS SENHORAS (RIO DE JANEIRO, 1852-1855)
“¡TRABAJÉ COMO MUJER!": TRABAJO DE MUJER IMPRESO EN LAS PÁGINAS DEL JORNAL DAS SENHORAS (RÍO DE JANEIRO, 1852-1855)
Caminhos da História, vol. 30, núm. 1, pp. 11-37, 2025
Universidade Estadual de Montes Claros
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Resumo: Com o intuito de abrir outro prisma interpretativo a respeito da atuação das mulheres letradas no século XIX, neste artigo me propus a enveredar pelo trabalho intelectual de autoria feminina impresso no Jornal das Senhoras, trazendo à tona o perfil letrado – ou as singulares expressões – das mulheres que ousaram divulgar suas ideias. Para tanto, realizei um minucioso levantamento das publicações veiculadas no impresso, durante todo seu período de circulação – entre 1852 e 1855 –, colocando em voga os tipos textuais e as ideias construídas pelas mulheres de letras, bem como a maneira de se identificarem no espaço público, seja através do nome, das iniciais ou de pseudônimo. A partir da perspectiva das epistemologias feministas, problematizei a tentativa de apagamento – ou “memoricídio” – do labor feminino na imprensa, na memória social e na historiografia brasileira e busquei contribuir para o (re)conhecimento das mulheres enquanto sujeitos ativos na história.

Palavras-chave: História das Mulheres,Imprensa,Jornal das Senhoras,Século XIX,Brasil.

Abstract: In order to open another interpretative prism regarding the work of literate women in the 19th century, in this article I have proposed to delve into the intellectual work of female authors printed in the Jornal das Senhoras, bringing to light the literate profile – or the unique expressions – of women who dared to disseminate their ideas. To this end, I conducted a detailed survey of the publications published in the newspaper throughout its period of circulation – between 1852 and 1855 –, highlighting the textual types and ideas constructed by women of letters, as well as the way they identified themselves in the public space, whether through their name, initials or pseudonym. From the perspective of feminist epistemologies, I problematized the attempt to erase – or “memoricide” – women’s work in the press, in social memory and in Brazilian historiography and sought to contribute to the (re)cognition of women as active subjects in history.

Keywords: History of Women, Press, Jornal das Senhoras, 19th Century, Brazil.

Resumen: Con el objetivo de abrir otra perspectiva interpretativa sobre la actuación de las mujeres alfabetizadas en el siglo XIX, en este artículo me propuse explorar el trabajo intelectual de autoría femenina impreso en el Jornal das Senhoras, sacando a la luz el perfil alfabetizado – o las expresiones singulares – de mujeres que se atrevieron a dar a conocer sus ideas. Para ello, realicé un estudio detallado de las publicaciones impresas a lo largo de su período de circulación –entre 1852 y 1855–, poniendo en boga los tipos textuales y las ideas construidas por las mujeres de letras, así como la forma en que se identificaban en ellas, el espacio, ya sea a través de nombre, siglas o seudónimo. Desde la perspectiva de las epistemologías feministas, problematicé el intento de borrar – o “memoricidio” – el trabajo femenino en la prensa, la memoria social y la historiografía brasileña y busqué contribuir al (re)conocimiento de las mujeres como sujetos activos en la historia.

Palabras clave: Historia de la Mujer, Prensa, Jornal das Senhoras, siglo XIX, Brasil.

Carátula del artículo

Dossiê

“TRABALHEI COMO UMA MULHER!”: O LABOR DAS MULHERES IMPRESSO NAS PÁGINAS DO JORNAL DAS SENHORAS (RIO DE JANEIRO, 1852-1855)

“I WORKED LIKE A WOMAN!”: THE LABOR OF WOMEN PRINTED IN THE PAGES OF THE JORNAL DAS SENHORAS (RIO DE JANEIRO, 1852-1855)

“¡TRABAJÉ COMO MUJER!": TRABAJO DE MUJER IMPRESO EN LAS PÁGINAS DEL JORNAL DAS SENHORAS (RÍO DE JANEIRO, 1852-1855)

Bárbara Figueiredo Soutoi
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil
Caminhos da História
Universidade Estadual de Montes Claros, Brasil
ISSN: 1517-3771
ISSN-e: 2317-0875
Periodicidade: Semestral
vol. 30, núm. 1, 2025

Recepção: 27 Janeiro 2025

Aprovação: 26 Fevereiro 2025


Introdução

Ter acesso ao labor das mulheres, ou seja, ao trabalho intenso que exerceram na imprensa oitocentista brasileira não é fácil. No entanto, as páginas dos periódicos que foram preservados nos propicia essa importante releitura da história através das impressões que registraram a atuação feminina no espaço público.[1] (Re)conhecer o papel ativo das mulheres e suas produções intelectuais é uma tarefa que desafia historiadoras e historiadores. Apesar do ímpeto observado no campo de pesquisa História das Mulheres e nas epistemologias feministas, ainda é possível afirmar que temos mais perguntas do que respostas no que diz respeito ao universo das letras femininas. Como bem alertou Zahidé Muzart, há mais de duas décadas, “o resgate de textos do século XIX obedece a uma dinâmica que exige acima de tudo paciência e tenacidade.” Afinal, o volume de produção de livros de autoria de mulheres ainda desaparecido não é desprezível (Muzart, 2000, p. 18-20).

Este cenário é resultado de um processo de apagamento da atuação das mulheres que reflete – e também é consequência – nas/das construções sociais da memória e nas/das elaborações historiográficas. Como bem elucidou Constância Lima Duarte, houve evidente interesse em enquadrar as mulheres da elite no “círculo vicioso” das atividades do lar e de submissão aos interesses patriarcais, limitando a expressão dos seus desejos de independência. Apesar dessas investidas, algumas jovens e senhoras conseguiram escapar das amarras sociais e publicaram suas produções intelectuais, mesmo sendo ignoradas pelo cânone. Nesse sentido, a autora afirmou:

[...] aquelas que ousaram exibir o brilho de seu intelecto e romperam limites impostos pelo poder patriarcal, publicando livros e fundando jornais, tornaram-se depois ilustres desconhecidas porque foram sistematicamente alijadas da memória e do arquivo oficial. Foram – em outras palavras – vítimas de memoricídio, conceito que designa o assassinato da memória e de uma cultura[2] (Duarte, 2022, p. 16).

Constância Lima Duarte argumentou que, para o caso das mulheres, o memoricídio “pode também designar o processo de opressão e negação da sua participação ao longo da história, pois, ao eliminar a memória de luta e resistência ao patriarcado, a História impôs o silêncio e a invisibilidade às pioneiras.” Desta forma, o que, em geral, ficou registrado foi “a timidez e o confinamento das jovens oitocentistas ao lar, como a sugerir que as mulheres brancas não tiveram vida pública antes do século XX” (Duarte, 2022, loc. cit.).

Com o intuito de abrir outro prisma interpretativo a respeito da atuação das mulheres letradas no século XIX, neste artigo proponho enveredar pelo trabalho intelectual de autoria feminina impresso no Jornal das Senhoras, trazendo à tona o perfil letrado – ou as singulares expressões – das mulheres que ousaram colocar suas ideias em circulação no espaço público. A propósito, sobre o que as mulheres de letras escreviam? Quais gêneros textuais produziam? Elas assinavam suas produções? Qual a relevância em conhecer os trabalhos intelectuais femininos? Além dos questionamentos anteriores, vale indagar: que impresso foi o Jornal das Senhoras? Quem o fundou? Quem o manteve em circulação?

Vou começar pelo fim. Eis a imagem da primeira edição do Jornal das Senhoras.


Imagem 1
O Jornal das Senhoras, Rio de Janeiro, 01 de janeiro de 1852
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Disponível em: https://hemeroteca-pdf.bn.gov.br/700096/per700096_1852_00001.pdf. Acessado em 04 de outubro de 2024.

Foi neste impresso de 8 páginas, organizado em duas colunas e com diminutos recursos tipográficos, veiculado aos domingos,[3] de 1 de janeiro de 1852 a 30 de dezembro de 1855, que algumas mulheres ousaram exprimir seus pensamentos. É notório seu caráter didático: com letras grandes e pouco texto por página. Certamente, esse aspecto tinha o intuito de facilitar o acesso ao conteúdo pelo público-alvo – as mulheres –, para o qual o universo das letras era restrito e árduo.

Durante os quatro anos que manteve-se em circulação, o impresso teve três redatoras “em chefe”, em momentos distintos: a fundadora foi Juana Paula Manso de Noronha;[4] a segunda foi Violante Atabalipa Ximenes de Bivar e Velasco; e a última, Gervasia Nunézia Pires dos Santos Neves. Estas três mulheres optaram por organizar as publicações em tomos, conforme tabela abaixo:

Tabela 1
Organização do Jornal das Senhoras

(Souto, 2019, p. 92).

Uma particularidade do Jornal das Senhoras era a presença de inúmeros anexos. Em seus 209 números, apareciam oito páginas de textos, além de anexos – os quais não contabilizavam na paginação –, que podiam ser figurinos, partituras, composições musicais, literatura etc. Durante sua trajetória, o jornal publicou 1.680 páginas de textos, excluídos os anexos.

A argentina Juana Manso fundou o Jornal das Senhoras num momento em que vivia o exílio no Brasil. Após a queda da ditadura de Rosas, a redatora retornou para Buenos Aires, onde fundou outro periódico, o Album de Señoritas. Neste impresso, publicou uma nota em que relatou sua experiência na imprensa. Segue o trecho:

Toda minha ambição era fundar um periódico dedicado inteiramente às senhoras, e cuja única missão fosse ilustrá-las. Eu tinha conseguido assim no Rio de Janeiro, onde “O Jornal das Senhoras” está no terceiro ano de sua publicação. As simpatias que mereci naquela Corte, os testemunhos todos de deferência e de apoio, com que me favoreceram, me induziram a esperar outro tanto em meu país... Infelizmente, minhas esperanças foram flores passageiras, que o vento do desengano arrancou suas folhas quando quis abrir... (Manso de Noronha, 29/01/1854, p. 40. Minha tradução)

Como podemos notar, manter um periódico feminino e feminista[6] em circulação não era tarefa simples. Diante das recorrentes súplicas de apoio financeiro encontradas nas páginas dos impressos, percebi o quão importante e, até mesmo, determinante foi o acesso a recursos básicos para a manutenção dos periódicos. Ana Luiza Martins afirmou que as “assinaturas sustentavam parte das publicações, mas o aporte de capitais era fundamental para a manutenção do impresso, alimentando uma imprensa política desde então comprometida com seus financiadores.” (Martins, 2008, p. 57). Essa realidade não condizia com a experiência da imprensa feminina e feminista no Brasil. Ainda assim, as mulheres se empenharam para manter suas ideias em circulação. Para tanto, foi preciso construir uma rede de leitoras e colaboradoras do Jornal das Senhoras, fomentando a escrita feminina e angariando recursos com as assinaturas.

A paginação do impresso é um indício elucidativo da preocupação com o tempo futuro e com a permanência do periódico na arena pública. A paginação do Jornal das Senhoras era contínua, ou seja, a cada nova publicação a página não iniciava no numeral um, ela seguia a sequência da edição anterior. Na segunda publicação, percebi a preocupação de Joanna Manso em incentivar as leitoras a arquivarem os números do periódico para leituras futuras. Nas palavras da redatora: “pedir às minhas assinantes de fazerem encadernar este Jornal, bem encadernadinho” (Manso de Noronha, 11/01/1852, p. 11). No mesmo sentido, encontrei um aviso da redação – sob chefia de Gervasia Nunézia – a respeito de um intervalo que a publicação faria, no dia 30 de dezembro de 1855:

Nem tão pouco nós esmorecemos, Senhoras. Não esmoreceremos jamais. Fazemos apenas uma parada, que julgamos necessária, no próximo ano de 1856; e com favor de Deus o JORNAL DAS SENHORAS reaparecerá em 1857, para prosseguirmos ao honroso fim a que nos propusemos [...] – adeus – até o ano de 1857 (A Redação, 30/12/1855, p. 409).

Infelizmente, não tenho vestígios do retorno da publicação. Entretanto, não posso deixar de considerar o desejo das redatoras em manter o periódico em circulação. O ato de encadernar os jornais feministas oitocentistas fazia sentido devido ao caráter reflexivo dos textos veiculados. Além dos artigos, tais periódicos veiculavam poesia, romance, conto, biografia, figurino, charadas, receitas domésticas etc., ou seja, elementos duradouros, que faziam jus a serem arquivados ou colecionados para consulta posterior.

Após traçar um breve panorama do Jornal das Senhoras, analisando seu formato, propósitos e como se manteve na arena pública, coloco em cena as pessoas e ideias que constituíam o impresso.

No intuito de construir o perfil letrado das mulheres, realizei um levantamento minucioso das produções veiculadas no Jornal das Senhoras, que foram assinadas com nomes no gênero feminino.[7] Além de identificar a assinatura, registrei a data da publicação, o título e a ideia central das produções. Abordarei os perfis letrados em ordem alfabética.

No dia 4 de abril de 1852, o texto “Amor e a ortografia”, assinado por Adelaide,[8] narrava um fato ocorrido em Itaguaí, no ano de 1827, cujo objetivo era argumentar a respeito da importância da educação para as mulheres. Adelaide afirmou que foi convidada pela redação a escrever, mesmo assim se mostrava inibida com a pena: “Sei que os nossos escritos não merecerão das minhas patrícias as mesmas atenções, que os publicados neste interessante Jornal.” (Adelaide, 04/04/1852, p. 106). Por sua vez, Adelaide P. de L. contribuiu publicando logogrifos[9] nos dias 19 de setembro e 17 de outubro de 1852, bem como nos dias 22 de maio e 26 de junho do ano seguinte.

Em fevereiro de 1853, foi veiculado um artigo intitulado “Marido e mulher”, de autoria de Adelaide P., em que criticava a vivência dos casais após o casamento. Segue um fragmento para apreciação:

Vendo-se uma senhora, cujas qualidades e prendas encantam a todos geralmente, exceto a um único homem, o qual pouco sensível aos elogios que ouve prodigalizar-lhe, fala dela secamente, tenha-se por certo que são marido e mulher (Adelaide P., 06/02/1853, p. 208).

O talento de Juana Paula Manso foi inspiração para Adèle Toussaint, que colaborou com o Jornal das Senhoras uma única vez. Seguem os primeiros versos do poema elogioso:

Juana! Para você esses versos que minha mão fraca traça;



Juana! Para você esses versos que minha mão fraca traça;
Para você, cujo talento, prisma de mil cores
Às vezes orgulhoso e ousado, às vezes cheio de graça,
Fala a todas as mentes, responde a todos os corações (Toussaint, 25/09/1853, p. 312. Minha tradução.)

Outras mulheres também veicularam apenas uma publicação no Jornal das Senhoras, como A indígena do Ypiranga. Entre os dias 16 de julho e 6 de agosto de 1854, foi publicado o texto “Minhas distrações”, uma fábula inspirada na sagacidade dos ratos em fugirem das armadilhas montadas para matá-los. A fábula findou com a seguinte lição: “Só pelo trabalho e aplicação se pode gozar de verdadeira felicidade na vida!” (Ypiranga, 06/08/1854, p. 255).

Se algumas colaboradoras escondiam suas identidades por meio de pseudônimos – como a anteriormente citada –, outras usavam as iniciais de seus nomes. Foi o caso de A. J. P. C., que publicou o poema “Aos meus anos”, no qual refletiu sobre seu aniversário e sobre o sofrimento de ser órfã. Seguem alguns trechos:



Oh! quatorze infeliz de fevereiro,
Aniversário do natal saudoso
Daquela que se enluta pra saudar-te!
Tu excitas nesta alma reminiscências
De um pretérito cheio de venturas
Que contrasta com o meu fatal presente!

Saudosa e triste sofrendo
Meu presente angustiado,
Eu daria o meu futuro
Por uma hora do passado! (A.J.P.C., 11/04/1852, p. 113-114)

Diferentemente das colaboradoras até aqui mencionadas, Alina foi uma articulista com intensa colaboração no Jornal das Senhoras. Sua primeira publicação no periódico ocorreu no dia 26 de fevereiro de 1854, quando escreveu um artigo exaltando as festas do carnaval. Após 14 dias, ela publicou um comentário sobre homenagens feitas à memória de D. Maria Segunda. Tais colaborações foram suficientes para Alina ser convidada a escrever a seção “Boletim Musical”, na qual comentava eventos ocorridos no universo musical e defendia os artistas nacionais. Nas palavras da articulista: “O desprezo pelos artistas nacionais mata completamente as belas artes que ainda agora começam a florescer entre nós [...]” (Alina, 19/03/1854, p. 95). No mês de outubro de 1854, Alina mudou de seção passando a escrever no espaço dedicado à “Crônica dos Salões”, em que discutia moda, comentava eventos sociais e figurinos. Em sua totalidade, Alina publicou 78 artigos no periódico, permanecendo à frente da seção “Crônica dos Salões” até o último número veiculado do Jornal das Senhoras, momento em que inseriu em seus escritos uma reflexão sobre a educação:

A educação bem dirigida, como sabeis, é um famoso corretivo das índoles e inclinações individuais, e por conseguinte habilita o homem ou a mulher a viver na sociedade comme il faut: é verdade que não é a educação quem cria os gênios, porque estes existem na natureza em bruto, e para se mostrarem resplandecentes são como diamante que há mister ser lapidado; – os mestres pois, são os verdadeiros artistas que adornam, limpam e dão uma forma conveniente ao talento caracterizado por um gênio que tem depois de figurar mais tarde na vasta cena social (Alina, 30/12/1855, p. 411. Grifos no original).

Duas colaboradoras com o primeiro nome Amália tiveram suas produções registradas nas páginas do Jornal das Senhoras. Amália escreveu quatro poesias, as quais versavam sobre o amor, a vida, Deus e o aniversário de uma amiga. Seguem alguns versos da poesia intitulada “Esperança e ilusão”:



Oh! Que prazer! Que ventura
Eu gozo neste momento!
Suaves são meus suspiros,
É de amor meu sentimento!



Eu já não posso, meu Deus,
Ocultar minha alegria;
Chega o tempo da ventura
Vai-se o da melancolia!... (Amália, 01/01/1853, p. 5)

Amália C. T. C. nos legou a poesia “Ao faustoso natalício de sua Majestade a Imperatriz”, na qual prestou homenagens à Teresa Cristina. Segue o verso quatro vezes escrito pela poetisa:



Brasil exulta!
Que em tua história,
THEREZA é excelso
Padrão e glória. (C. T. C., 14/03/1852, s/p.)

A aclamação à família real brasileira era conteúdo frequente nas produções das colaboradoras do Jornal das Senhoras. Na mesma data, a jovem fluminense Amélia F. C. T. também deixou versos para a Imperatriz. Segue um pequeno trecho:



Salve IMPERATRIZ EXCELSA,
A quem gosto de adorar,
Por ser MÃE tão extremosa,
A quem me ensina amar.



Dai-lhe oh meu Deus
Longevidade,
Goze ELA sempre
Felicidade. (F. C. T., 14/03/1852, s/p.)

O periódico contou com a contribuição de mais uma Amélia, a qual escreveu uma poesia, refletindo sobre o amor não correspondido, e duas charadas. Segue um jogo de adivinhação publicado:



Quando é bem inspirado
Com um – X – fazeis meu nome,
E como alegre ele está!
E zangado, ei-lo assim,
Nunca rir se lhe verá. (Amélia, 06/05/1855, p. 144)

No dia 18 de maio de 1854, em São Cristovão (RJ), Amitié escreveu um logogrifo com o nome Adelaide, trazendo à tona aspectos como a beleza, o amor e a virgindade. Por sua vez, Anália tornou poesia seus sentimentos vivenciados em “Uma manhã no Cosme Velho”, rimando: “Quanto é belo o sorriso da Natura!/ Que enlevo de prazer meu peito sente/ Contemplando do prado a formosura!” (Anália, 15/02/1852, p. 55). Ana Maria Clarisse registrou em versos sua admiração pelos homens gordos: “Se eu fosse legisladora/ Proibiria o casar/ A todo o homem magriço./ Você quer? Vá engordar” (Clarisse, 13/06/1852, p. 189-190). Antônia escreveu sua “Ode” à Imperatriz, argumentando que ela trouxe alegria para a vida do Imperador e do povo: “Tudo então se mudou: já prazenteira/ Vê Pedro se escoar Sua existência;/ E o povo amante faz soar em coro/ Um hino de alegria!” (Antônia, 14/03/1852, s/p.).

Em setembro de 1854, a Sra. Dona Augusta M. de O. publicou a seguinte charada no Jornal das Senhoras: “Quiseram que eu fosse um X,/ Que ao soldado pertencesse,/ Que ficasse solitário,/ Que de Osmindo o recebesse!” (M. de O., 03/07/1854, p. 288). Por sua vez, Dona Augusta de S. P. escreveu uma poesia refletindo sobre a tristeza:



Atento à negra fereza
Do destino desabrido,
Sinto no peito oprimido,
Minha pálida tristeza:
Ausência – fatal crueza,
Mortes mil, mil agonias,
Me priva das regalias
De te ver sempre ao meu lado...
Tal rigor do ímpio fado
Consome meus tristes dias (S. P., 01/10/1854, p. 318. Grifos no original).

Entre os dias 28 de janeiro e 04 de março de 1855, foi veiculado um artigo intitulado “Educação do sexo feminino”, de autoria da Baronesa de ***. Trata-se de um único texto, mas o mesmo foi publicado em três partes, possivelmente, devido à sua extensão. As primeiras frases da Baronesa resumem o objetivo dos seus escritos:

Parece-me oportuna a ocasião para oferecer à reflexão das senhoras fluminenses algumas ligeiras considerações sobre a necessidade de exigir para as nossas filhas o ensino de instrução mais variada e séria do que a que até hoje aprendem nos colégios à que as confiamos, de alguns dos quais as próprias diretoras não têm as necessárias habilitações, porque o seu dever não se limita somente ao ensino da simples leitura e de trabalhos de agulha (Baronesa de ***, 28/01/1855, p. 31-32).

O Jornal das Senhoras contou com a colaboração intensa de uma cronista, Belona, que iniciou sua participação no periódico escrevendo na seção “Crônica da Semana”, entre 11 de abril e 06 de junho de 1852. A articulista refletiu sobre assuntos variados como: a necessidade de modificações em ritos da Igreja Católica; a formatura de mulheres francesas no curso de medicina; os insultos que o Jornal das Senhoras sofria pelo fato das mulheres nele se expressarem; e a saúde do Imperador. Posteriormente, a seção escrita por Belona passou a se chamar “Crônica da Quinzena”, cujo objetivo permaneceu o mesmo, modificando apenas a frequência das publicações, as quais saíram entre 11 de julho e 26 de dezembro de 1852. Na seção quinzenal, Belona refletiu sobre temas como: o direito das mulheres discutirem qualquer tipo de assunto; os posicionamentos retrógrados daqueles que censuraram as mulheres nos temas políticos; festas e teatros; a extinção do Conservatório de dança e música; e atividades de lazer do Imperador. Ao findar o ano de 1852, a colaboração de Belona com o periódico também foi finalizada. Há registros de que a cronista ficou fatigada com o trabalho na imprensa e que se retirou no campo para gozar as “delícias da estação”.

Belmira, Cândida, Candília e D. Carolina deixaram suas assinaturas uma única vez nas páginas do Jornal das Senhoras. Belmira traduziu um texto, publicado em 08 de janeiro de 1854, intitulado “A obra- prima anônima”, cuja trama girava em torno de uma importante pintura que não teve seu autor revelado. A redatora Gervasia Nunézia demonstrou grande contentamento com o texto enviado pela nova colaboradora, criando a expectativa de novas colaborações: “Agradecemos vivamente à nova colaboradora o mimo que nos fez do presente artigo, cuja escolha nos dá as melhores esperanças de possuirmos ao nosso lado mais uma inteligente Senhora, a quem abraçamos cordialmente.” (Redatora em chefe, 08/01/1854, p. 14). No entanto, Belmira não manteve sua colaboração para com o periódico.

Cândida também enviou uma tradução para o Jornal das Senhoras, a qual exaltava o dia de domingo:

É o dia consagrado ao descanso e às diversões. É o dia em que cada um se procura e acha a si mesmo, em que dispõe do seu ser, e voluntariamente se esquece do trabalho, de obrigações e negócios.

Visto-me saio sem determinação, sem objetivo. Saio por sair, para usar da minha independência, para ser livre: é domingo.

Hoje não curvarei diante do homem soberbo, desse homem, de quem a precisão me obriga a sofrer-lhe os desprezos [...] (Cândida, 12/12/1852, p. 188).

Após ler uma tradução tão significativa para a emancipação das mulheres, foi lamentável não encontrar mais colaborações de Cândida. Se o teor do texto veiculado pela colaboradora era colocado em prática pelas cariocas, não havia dia melhor para a circulação do Jornal das Senhoras: domingo!

Candília colaborou com suas divagações sobre o amor: “Eis a hora da meditação e melancolia! [...] hora enfim em que a alma cheia de inspirações começa a exalar-se suavemente em cânticos de amor!” (Candília, 11/04/1852, p. 113). Já D. Carolina deixou vestígios de sua existência através da seguinte Charada:



As moças trazem-me todas
Muito bem escondidinho;
Fui dança de tua avó,
Suplantou-me o Mindinho.
Junto a mim chega-se a bela,
A velha, moça, ou taful;
Não há casa que não tenha
Desde o Norte até ao Sul (Carolina, 18/12/1853, p. 408).[10]

Contrastando com as últimas colaboradoras mencionadas, Cristina teve 81 publicações assinadas nas páginas do Jornal das Senhoras, sendo a pessoa que mais veiculou produções no periódico. Cristina superou, inclusive, a quantidade de textos escritos pela redação do Jornal das Senhoras[11] e pelas próprias redatoras Juana Paula Manso de Noronha,[12] Violante Atabalipa Ximenes de Bivar e Velasco[13] e Gervasia Nunézia Pires dos Santos Neves.[14]

A primeira vez que o nome de Cristina apareceu no periódico foi no dia 27 de março de 1852, quando escreveu um artigo exaltando as composições musicais conhecidas como modinhas brasileiras. Certamente, a reflexão de Cristina agradou à redação do Jornal das Senhoras, pois em menos de um mês ela tornou-se a escritora da seção de destaque do periódico: Modas. A colaboradora permaneceu à frente da seção até 17 de setembro de 1854, na qual analisava figurinos vindos de Paris; sugeria modelos de roupas para diversas ocasiões; comentava eventos ocorridos na Corte; refletia sobre a importância da moda na vida das mulheres; discutia as variações da moda conforme as estações do ano; comentava sobre os tecidos vendidos na rua do Ouvidor; dentre outros assuntos do universo da moda. Em meio aos escritos sobre moda, Cristina registrava suas críticas sociais e defendia ideais. A título de exemplo, pode-se citar: em agosto de 1852, a articulista criticou os “linguarudos” que comentavam que a linguagem do Jornal das Senhoras não era feminina, os quais questionavam, então, a capacidade das mulheres se expressarem através da imprensa; em outubro do mesmo ano, Cristina defendeu a importância das mães na educação dos filhos e clamou por respeito às mulheres; em janeiro de 1853, a colaboradora enfatizou que era uma mulher, e não um homem, como andavam dizendo e lançou uma crítica sutil à desigualdade social em Paris; em abril de 1853, elogiou a educação dada às crianças na Europa; em maio de 1854, defendeu o sentimento patriótico e parabenizou o Barão de Mauá pelas instalações das estradas de ferro em território brasileiro.

A articulista da seção “Modas” tinha ciência das responsabilidades assumidas ao aceitar a tarefa de escrever para um periódico semanal: “Já lá vão dois anos de trabalhos de uma pontualidade militar, que a vossa humilde Cristina, quer boa ou doente, triste ou alegre, tem vos dado um artigo de modas cada semana”. Ela também sabia o quão árduo era o ofício na imprensa, por isso era preciso determinação e ousadia para cumpri-lo: “Trabalhei como um homem! costumam eles a dizer; e eu digo – trabalhei como uma mulher! Incansável [...]” (Cristina, 01/01/1854, p. 1-2).

Outras mulheres dedicaram menos tempo às publicações no Jornal das Senhoras, como Clarinha, que apresentou uma escrita tímida e delicada, recheando sua narrativa amorosa de palavras no diminutivo:

Um priminho dançou três contradanças com a amável priminha, e como, era provável, dizia estar cansado, e dirigiu-se no seu passeio para o jardim. Mas o meu jovem era ciumento, e embirrou com um bouquet de violetas que trazia a priminha. Como é lindo uns ciumezinhos entre dois corações que se amam! (Clarinha, 21/05/1854, p. 163).

A colaboradora que também assinou sua publicação no diminutivo findou a história com o casamento dos “priminhos” e não mais escreveu para o periódico. Cleomenenes Messeide também deixou apenas uma colaboração, escrevendo um “Hino à Santa Virgem” oferecido à D. Maria Adelaide Jardim, o qual foi publicado em 27 de março de 1852. Por sua vez, Constança escreveu uma anedota criticando a vaidade feminina e a seguinte charada:



Dois nomes tem o meu nome,
E feliz da humanidade
Enferma que os alcança
Antes de ir pra eternidade.



Porém quem sou? Avezinha
Bem modesta e elegante,
Vivo em casa bem mansinha
Ou vivo no brejo errante (Constança, 27/06/1852, p. 212).[15]

Em novembro de 1854, o periódico chefiado por Gervasia Nunézia recebeu a colaboração de Corina na seção “Boletim Teatral”. Neste caso, a articulista tornou-se colunista sem publicar qualquer artigo antecedente. Corina escreveu apenas um artigo sobre o mundo teatral e foi transferida para a seção “Boletim Musical”, na qual discutiu música sacra, noticiou avanços no ensino de música e comentou apresentações musicais realizadas na Corte. Nos termos da articulista:

Na segunda-feira teve lugar a primeira representação da opera – Luiza Miller – no teatro Provisório, cuja execução muito agradou. A música é excelente, e o quarteto do segundo ato foi repetido às instâncias do público, que o aplaudiu por sua beleza, originalidade e bom desempenho. A Sra. Zecchini foi justamente aplaudida nessa noite, em que sua voz estava tão bela e forte que nos fez recordar do tempo em que ela só quase que sustentou o teatro lírico, [...]” (Corina, 25/03/1855, p. 127).

Ao todo, foram 18 artigos escritos por Corina. As últimas linhas que ela escreveu sugeriam continuidade nas publicações, mas tal fato não se concretizou. Délia também se inseriu no periódico como colaboradora de uma seção específica. Ela relatou que foi convidada para substituir Belona e se apresentou de maneira humilde:

É com o maior acanhamento que vou apresentar-me perante às leitoras do JORNAL DAS SENHORAS para fazer a minha estreia no mundo literário [...].

A ilustre redatora da crônica da quinzena deixa um vácuo que dificilmente preencherei. Seus escritos, cheios de fragrância e suavidade, e ao mesmo tempo de vigor, serão toscamente substituídos por mal ataviadas linhas. [...].

Desculpe-nos a ilustre redatora do JORNAL a quem pedimos proteção, e a quem rogamos que haja de corrigir os nossos escritos todas as vezes que neles encontrar defeitos ou erros, muito palpáveis em quem pela primeira vez, e balda de suficiência, se apresenta nas colunas de um JORNAL ilustrado [...] (Délia, 09/01/1853, p. 15-16).

Apesar do acanhamento inicial, Délia escreveu 12 artigos para o Jornal das Senhoras, sendo, em sua maioria, veiculados na seção “Crônica da Quinzena”, nos quais refletiu sobre temas como: festas, peças teatrais, um naufrágio, a descoberta de um grande diamante por uma escrava, a morte de Marília de Dirceu e o falecimento da princesa D. Maria Amélia.

Algumas mulheres não registraram suas ideias nos periódicos, mas deixaram indícios de sua vida letrada através de traduções de pensamentos, romances, poesias e contos. Este foi o caso da Sra. D. J... B..., que traduziu uma produção italiana intitulada “Novela Moral: A verdade e a mentira”, a qual foi publicada em duas partes, sendo a primeira no dia 11 e a segunda no dia 18 de agosto de 1852. Através de metáforas, narrou a história de duas irmãs – verdade e mentira –, com o intuito de argumentar que a verdade sempre impera:

Vós, ó inocentes moradores do campo, sereis sempre os primeiros a descobrir com o meu auxílio a verdade que depois será contestada pelos partidários de minha irmã, os quais acostumados a mentir hão de sempre ser como as paredes, que são construídas em lugar aquoso, e que a pouco e pouco embebe-se a humidade por entre as juntas das pedras, até que por fim elas arruínam-se tornando a habitação doentia e pestifera (D. J... B..., 18/07/1852, p. 23).

D. Dorothéa e Dona S. J. R. F. colaboraram com o periódico escrevendo charadas, as quais foram publicadas, respectivamente, em 18 de fevereiro de 1855 e 28 de maio de 1854. Por sua vez, E. Adelaide da S. Pinto agraciou o Jornal das Senhoras com duas poesias. Conforme registros do periódico, uma das poesias foi escrita no Encanamento da Carioca,[16] às cinco da tarde, e refletia sobre a tristeza; a outra versou sobre o amor não correspondido, como pode-se observar nas linhas a seguir: “Como é triste a minha Lira!/ Seus acordes tristes são!/ Amo – sem ser amada,/ Dão-me só ingratidão!” (Pinto, 18/06/1854, p. 199).

Ao longo da vigência do Jornal das Senhoras, encontrei publicações assinadas por Elisa e Eliza. Trata-se, em grande parte, de textos traduzidos e extraídos; há apenas uma poesia autoral, publicada no último ano em que o periódico circulou. O traço marcante da tradução e da extração dos textos me faz questionar se não se tratava da mesma autora, sendo a permuta do “s” e do “z” um possível descuido da redação ou do(a) tipógrafo(a). Elisa extraiu um texto que narrava uma história passada em Londres, no século XVI, envolvendo um astrólogo misterioso e a vida conjugal da princesa Maria da Inglaterra. Na narrativa romanesca com final feliz há uma crítica à situação das mulheres pertencentes à Corte:

Não se atende nem às nossas pessoas nem aos nossos afetos. Províncias disputadas são os nossos dotes, nossos penhores de amor são ódios que devemos apagar, e, como escravos que só devem obedecer, lançam-nos sem remorso em braços estranhos...! (Elisa, 12/06/1853, p. 190).

O texto extraído por Elisa fez intensa crítica ao fato das mulheres não terem direito à escolha de seus maridos e de serem usadas para resolver questões políticas. Apesar do caráter crítico desse romance, Elisa traduziu outro que marcava o lugar das mulheres enquanto anjos do lar, que deveriam ser sempre subservientes aos maridos. A colaboradora publicou uma poesia autoral na qual refletiu sobre o amor.

Eliza extraiu um artigo que refletia sobre o amor que os árabes tinham pelas palmeiras de suas terras. Além disso, traduziu duas histórias que narravam trajetórias de mulheres batalhadoras: “Madame Guthier [...] aluga uma casa humilde em um dos bairros mais remotos da cidade; acomoda Sophia no armazém de uma modista, e procura, com sua agulha, o indispensável sustento para si e sua filha menor, à custa de uma incessante fadiga” (Eliza, 05/06/1853, p. 179).

“É uma graça ver um destes modestos velhos escreventes, de longa barba branca e enrugada figura” (Eloiza, 14/08/1853, p. 262). Foi assim que Eloiza descreveu os “escritores públicos”, que trabalhavam nas ruas italianas atendendo, principalmente, os pobres apaixonados. Eloiza enviou sua colaboração para o Jornal das Senhoras com o intuito de refletir se a profissão descrita teria futuro também no Brasil.

No dia 1º de fevereiro de 1852, Emília escreveu uma história de generosidade para ser publicada no Jornal das Senhoras. Em 14 de março, Emília C. F. L. publicou um soneto em homenagem à Imperatriz. No mês de junho, Emília Constança Ferreira de L. publicou um tributo à redatora. Segue um fragmento:



Juana Paula Manso de Noronha.
O mais nobre coração teu peito encerra.
Amizade, virtude, amor, constância.
Não posso resistir aos teus agrados.
Ninguém mais do que eu cultos te rende (Ferreira de L., 20/06/1852, p. 199)

Sugiro que as três produções mencionadas anteriormente foram elaboradas pela mesma mulher, a qual foi revelando sua identidade ao longo das publicações. Possivelmente, o periódico e a figura de Juana Paula Manso encorajaram Emília a se expressar e a assinar seus escritos.

“Eu amo o Sol nos teus olhos,/ Lindos raios dardejando,/ Amo a Lua no teu rosto/ Graciosa cintilando!” (Pinto, 26/08/1855, p. 268). Foi desta maneira que Emília A. da S. Pinto iniciou sua poesia que refletia sobre o amor. Num ato de compaixão, Emília C. escreveu versos para afagar uma mulher que sofria pelo fato do marido ter sido enviado para um conflito armado. Segue um fragmento:



Teu terno coração sangra é verdade
Pungido por cruel separação,
E não é por uma falsa ostentação
Que vimos pra te ver na soledade! (Emília C., 08/07/1855, p. 212)

Diferente de todas as publicações comentadas até o momento, Emília Dulce Moncorvo de Figueiredo colaborou com o Jornal das Senhoras compondo uma valsa e escrevendo pensamentos, que foram escritos três dias antes de sua morte e publicados postumamente pela redação, como o seguinte: “A humildade sendo uma virtude; é a pedra de toque, é a verdadeira prova das outras virtudes. Em quanto não fordes humildes, não vos reputeis virtuosos.” (Figueiredo, 18/04/1852, p. 121). Com o falecimento da amiga, a redação revelou que as publicações anteriores assinadas por E... pertenciam à Emília Figueiredo. Sendo assim, a colaboradora havia publicado duas traduções e uma reflexão autoral.

Escolástica P. de L. enviou sete produções para o Jornal das Senhoras, sendo quatro charadas e três histórias narrativas “verídicas”, que envolviam relacionamentos amorosos e um ato de bravura de ex-escravizado. Nas palavras da autora:

Um dia pegou fogo no novo pavilhão real, que a muitos pareceu ser a reprodução do fogo do palácio da Ajuda, em cujo lugar ardendo a casa real, outras casas refrescaram; quando, perdidos os recursos de evitar o incêndio e salvar as vidas comprometidas, aparece um homem armado de machado, e qual Hércules com a sua clava, derruba todos os obstáculos, corre, voa, salva as vidas comprometidas, evita o incêndio que fica circunscrito a pequeno espaço, e desaparece, sem esperar que o vejam (P. de L., 18/12/1853, p. 406).

Estrela deixou seus registros nas páginas do periódico como escritora das seções “Crônica dos Salões” e “Teatro Lírico”, além de veicular três artigos fora de seções. Estrela dedicava seus escritos à vida cultural da Corte, comentando bailes, teatros e atividades em sociedades filantrópicas. Estrela também fez proposições, como a criação de uma associação de bairro:

Há muito que o bairro do catete e os seus moradores já deviam ter cuidado de instituir um ponto geral de reunião, para certo e determinado número de sócios com suas famílias aí passarem algumas noites do mês, entre os prazeres de uma partida familiar, tão reclamada nos diversos pontos desta corte (Estrela, 07/03/1852, p. 79).

No dia 20 de fevereiro de 1853, Eugênia publicou um artigo intitulado “O triunfo da natureza”, no qual relatou sua experiência de abandonar a família para viver com outro homem. A autora esclareceu que estava usando pseudônimo para não aumentar sua vergonha. Na narrativa, Eugênia se mostrou muito arrependida de seus atos e exaltou a virtude feminina, a maternidade e a família. O relato foi encerrado com uma expressão de remorso: “Todo o tempo que me restar de vida chorarei!” (Eugênia, 22/02/1853, p. 62-63).

Tal como Emília C., Eugênia de L. escreveu um poema para a mulher que se sentia desconsolada pelo envio do marido para uma batalha. Segue um curto fragmento: “A esposa! Amiga querida,/ Querida do coração,/ Deixa molesta saudosa,/ Em cruel separação./ Lá parte o bravo guerreiro/ Cumprir sua obrigação” (Eugênia de L., 08/07/1855, p. 212).

Eugenia Foa narrou a trajetória de Mozart, retomando fatos da sua infância e das dificuldades passadas por sua humilde família. A narrativa com final feliz e lições de moral teve desfecho com o reconhecimento do músico: “O filho pobre mestre da capela de Praga foi honrado por príncipes e imperadores. Qualquer que seja o estado do homem, ele gozará sempre de consideração na sociedade, se se esforçar por ser o primeiro na sua profissão, e tiver uma conduta honesta e virtuosa” (Foa, 02/07/1854, p. 215).

Em março de 1855, na região do Cajú (RJ), Eulália M. dos S. Pereira escreveu versos como quem sofria por amor: “As dores de uma saudade/ O passado e seu amor,/ Eis o que faz-me infeliz,/ Eis o que faz minha dor!” (Pereira, 27/03/1855, p. 164). Mais alegre e entusiasmada revelou-se Francina, que escreveu um artigo elencando os divertimentos disponíveis na Corte:

Quem disser que as semanas são tristes e macambuzias aqui na corte é um senhor herege que nunca comungou uma só vez em todos os dias da sua vida [...] temos três teatros em serviço ativo todas as semanas, onde há muito que ver, ouvir, e cantar; temos na rua do Lavradio um circo olímpico [...]; temos bailes [...]; temos aos domingos de manhã o Museu [...] temos depois a barca de banhos para purificar o corpo, e por fim o Passeio público para arejar os pulmões. [...]” (Francina, 08/02/1852, p. 45-46).

Outra Francina colaborou com o Jornal das Senhoras. A estreia se deu no dia 7 de maio de 1854:

Há muito tempo que desejávamos fazer parte dessa brilhante plêiade de jovens senhoras, que com seus escritos abrilhantam as colunas deste jornal; mas, conhecendo a incapacidade de nossa fraca inteligência, desistíamos deste nosso desejo, contentando apenas com deleitarmo-nos com a leitura sempre agradável que em todos os Domingos oferece-nos o Jornal que nos pertence, e que para mais brasão é em sua maior totalidade escrito por pessoas do nosso sexo (Oscenia, 07/05/1854, p. 146).

Assim como outras colaboradoras, Francina Oscenia iniciou seus escritos de maneira humilde e tímida, afirmando ter incapacidades intelectuais para o mundo das letras. A recorrência desse discurso nos leva a perceber o quanto a sociedade oitocentista incutia nas mulheres a concepção de que havia incompatibilidade do feminino com as habilidades intelectuais. Apesar das colaboradoras reproduzirem tal discurso, elas enfrentaram seus medos e se expressaram nas páginas dos periódicos. Francina Oscenia tornou-se articulista da seção “Crônica dos Salões”, na qual publicou 13 artigos, refletindo sobre bailes, figurinos e eventos culturais.

D. Francisca marcou sua presença no Jornal das Senhoras através da publicação de uma charada: “Usado pelos tropeiros/ Sou feito de um vegetal;/ Assim chamada por lei,/ Se cometi algum mal.” (Francisca, 30/10/1853, p. 352).[17]D. Francisca Luiza da Costa registrou versos elogiosos “À uma amiga”: “Quando vi-te a vez primeira/ Tão terna, tão bonitinha,/ Tão amável, feiticeira,/ Isabelinha.” (Costa, 10/12/1854, p. 396).

Gervasia Nunézia Pires dos Santos, redatora do Jornal das Senhoras entre 12 de junho de 1853 e 30 de dezembro de 1855, assinou seu nome em: agradecimentos às assinantes, homenagens à família Imperial, recebimento de colaborações textuais, anúncios de romances veiculados no periódico, louvor à sociedade beneficente, elogios às habilidades de uma menina sem braço, homenagem e anúncio de peça teatral de Juana Manso, louvor ao marinheiro que salvou mulheres náufragas, pesar pelo falecimento de D. Maria II e informes sobre atrasos e chegadas de figurinos de Paris, como no trecho a seguir: “felizmente chegarão ainda no mês de Junho, pelo vapor LUSITÂNIA, como tínhamos prometido [...]. De agora em diante, confiamos em Deus, não passaremos mais por uma tão desagradável crise; [...].” (A redatora em chefe, 02/07/1854, p. 1)

Sob o pseudônimo Gervina P., Gervasia Nunézia escreveu quatro textos, dos quais três foram veiculados na seção “Crônica da Quinzena”. O pseudônimo foi utilizado entre 17 de abril de 1853 e 5 de junho do mesmo ano. No dia 12 de junho de 1853, ao Gervasia assumir a redação do periódico, seu pseudônimo foi revelado: “A vossa Gervina P. congratula-se pois, aceitando a Redação em chefe do JORNAL DAS SENHORAS” (Gervina P., 12/06/1853, p. 185). Apesar da revelação, a articulista continuou utilizando pseudônimos para publicar artigos que não diziam respeito à redação, como se fosse uma colaboradora. Identifiquei dois artigos assinados por Gervina. A partir de 19 de junho do mesmo ano, ela acrescentou mais iniciais, assinando três textos como Gervina P. S. N.. De modo similar, entre 31 de julho e 6 de novembro de 1853, a “Crônica da Quinzena” passou a ser assinada com o pseudônimo Gervina N. P. dos S. N., sendo veiculados sete artigos.

Guilhermina Santos assinou apenas uma poesia, elogiando a singela ave. Assim iniciou seus versos: “Linda rola gemedora,/ Que suspiras noite e dia,/ Troca as notas da tristeza/ Pelos cantos da alegria.” Heloisa também deixou versos, brincando com o duplo sentido das palavras e registrou seus elogios “A uma linda menina chamada Rosa”: “Mas pura rosinha,/ Modesta – singela,/ É entre as mais flores/ A flor a mais bela!” (Heloisa, 25/07/1852, p. 30).

Joaninha – o nome seria uma homenagem à primeira redatora em chefe Juana Paula Manso? – se inseriu no Jornal das Senhoras através das publicações na seção “Boletim Musical”. A articulista escreveu sete artigos, entre os dias 21 de maio e 15 de outubro de 1854. A estreia de Joaninha se deu com um instigante texto em defesa da música nacional. Segundo ela, “os nossos patrícios e patrícias têm uma grande vocação para a sublime arte da música”, entretanto, “desprezamos tudo quanto é nosso, e só apreciamos o do estranho, embora isso nos custe milhares de contos de réis.” Indignada, Joaninha questionou: “mas o que há feito os nossos grandes maestros? Que proveito se tem colhido desse conservatório de música que dizem por aí existir? Nada, inteiramente nada.” Assim, ela concluiu seu argumento: “Um mal fado persegue a tudo o que é do país: não nos faltam talentos, não nos faltam sublimes produções, mas por infelicidade nossa existe muito e muito – indiferentismo!” (Joaninha, 21/05/1854, p. 168). Além do artigo de teor nacionalista, Joaninha comentou lançamentos musicais, recomendou músicas, analisou apresentações musicais, estimulou as mulheres a executarem composições lançadas e defendeu o universo musical.

A fundadora e primeira redatora em chefe do Jornal das Senhoras, Juana Paula Manso de Noronha produziu textos com claro caráter de emancipação das mulheres, além de romance histórico, agradecimentos pelo apoio das mulheres ao periódico e narração de passeios. Instigante observar que nos anos de 1853 e 1854, a ex-redatora enviou colaborações para o Jornal das Senhoras, assinando como Dona Juana de Noronha. No mesmo período, suas produções veiculadas em território argentino eram assinadas como Juana Paula Manso de Noronha. Sendo assim, questiono: Por que inserir “Dona” nas assinaturas das publicações veiculadas em território brasileiro? A partir de 1853, Juana Paula Manso não estava mais vivendo em matrimônio, mas as legislações que regulamentavam o divórcio e a consequente mudança de nome das mulheres foram conquistas ocorridas somente durante o século XX. Sendo assim, “Dona” seria uma maneira de Juana marcar essa nova etapa de sua vida? Se sim, por que não o fez também nas publicações em seu país natal? Talvez, pelo fato dela nunca ter vivido o matrimônio em território argentino, necessitando apresentar tal mudança apenas às leitoras brasileiras que tinham conhecimento da sua antiga condição de mulher casada.

Em outubro de 1854, Julieta apareceu nas páginas do Jornal das Senhoras ao registrar a autoria de quatro charadas, na mesma edição, dentre elas: “Acho-me em todo o bom dito,/ Sou a graça de quem fala;/ Com pano pertenço ao prelo;/ Sou bem preciso ao remeiro,/ E também ao marceneiro./ Afamado charlatão e bailarino,/ Nas praças fazer rir, pelotiqueiro.” (Julieta, 01/10/1854, p. 416). Julieta enviou charadas para mais quatro edições do periódico, até que o mesmo parou de ser publicado em dezembro do mesmo ano.

L. C., que se identificou como amiga de Anália, uma jovem de 20 anos que cometera suicídio devido ao amor não correspondido de um homem, enviou apenas uma colaboração para o Jornal das Senhoras, com o intuito de registrar a tragédia que ocorrera com a amiga e criticar a atitude do sujeito responsável pela morte da “vítima do amor”. O último parágrafo de L. C., com tom de alerta às mulheres, revelava o seguinte:

Nessa mesma noite, aquele homem rodeava e cumprimentava risonho e espirituoso um círculo de elegantes moças em um baile; alegre passeava com elas de braço, dirigia-lhes finezas, e prometia casamento a uma clara de olhos pretos, pensando bem pouco na infeliz que lhe sacrificara a existência, e cuja alma, morta para o mundo, mas viva para eterna dor, vagava pelo espaço sem encontrar o bem do Céu (L. C., 07/11/1852, p. 151).

Leonor G*** registrou seu nome nas páginas do Jornal das Senhoras, durante o ano de 1854, ao encaminhar a tradução de uma história envolvendo a intervenção do pintor Miguel Ângelo para a realização de um casamento, além de duas poesias, em uma das quais versou sobre a beleza e força das índias:



Lá no centro das florestas
Quando começo a cantar,
Vêm – jovens – lindos guerreiros
Junto a mim se ajoelhar;
Todos eles são vassalos
Que tem feito o meu olhar.



[...]
E se alguma inimiga tribo
Vier a minha ofender,
Hei de marchar à peleja,
Jamais me vereis correr;
Eu sou filha de guerreiros,
Hei de a pé firme morrer. (G***, 14/05/1854, p. 157)

Leontina também escreveu poesias para serem publicadas nas páginas do Jornal das Senhoras. Os versos foram intitulados “Ele! Somente ele!” e “Delírios”, os quais refletem sobre o amor. Nas palavras da colaboradora: “Amaste-me!! Morreremos juntos!/ Aos pés de Deus iremos confessar/ Este amor que na terra, como um crime,/ Não querem que possamos o gozar!!” (Leontina, 06/05/1855). Lina também produziu versos sobre o amor, mas foi além, escrevendo uma correspondência em que ressaltou a importância do periódico fundado por Joanna Paula Manso:

A senhora veio-nos abrir um campo de atividade, em que podemos exercitar as nossas forças, e sair do nosso estado de vegetação. Como lhe agradecemos?

Demais, que prazer o de escrever alguma coisa em letra redonda; saber que outras leem nossos pensamentos. Tanto que eu desejava isto, agora a senhora me oferece uma oportunidade (Lina, 08/02/1852, p. 44).

Apesar do entusiasmo demonstrado na carta de Lina para a redatora do Jornal das Senhoras, não encontrei mais colaborações da admiradora de Juana Paula Manso. Lina seria um pseudônimo? Lina teria tomado coragem para assinar seu verdadeiro nome em outras publicações? Ficam os questionamentos.

Muitas mulheres deixaram seus nomes/pseudônimos gravados apenas uma vez no Jornal das Senhoras. Mademoseille Brunet propôs um enigma em francês; D. Manuelita e Manoela E. de C. Peixoto escreveram uma charada; Maria F. de O. Barbosa publicou uma homenagem ao general José Ballivian; D. Maria J. S. C. produziu versos sobre a vida de Jesus; Mariquinhas narrou uma história sobre amantes recém-casados; D. M. C. de J. escreveu uma poesia sobre a dor; M. de Santa Rosa de Lima narrou uma história que envolvia o falecimento de uma jovem e as grandezas do cristianismo; e Mme. Laura Prus contou uma história de heroísmo em busca da liberdade.

A jovem pernambucana de 15 anos, Maria Clementina da Cruz, solicitou ao seu irmão que entregasse na redação do Jornal das Senhoras dois artigos que refletiam sobre a emancipação das mulheres.[18]Panorama também remeteu duas colaborações ao periódico, sendo um conto e um artigo sobre as “Vantagens de ler”: “A leitura, meus amigos!... sabeis vós bem o que é a leitura?! é de todas as artes a que menos custa e a que mais rende” (Panorama, 31/07/1853, p. 246).

A articulista que assinava com nome de flor, Papoula, mostrou-se uma grande narradora de histórias, afinal, das seis publicações veiculadas no Jornal das Senhoras, cinco eram histórias com temas variados – fofocas na aldeia, casamento e parentesco, charlatão, viúva e marido infiel, educação das crianças – e uma tratava-se de comentários sobre “A estação dos bailes”: “A estação corre ligeira como um sonho de felicidade, como o clarão de uma aurora boreal que brilha e desaparece, como um amor de namorado, como um sorriso de poeta, [...]” (Papoula, 22/05/1853, p. 166). Paula de L. deixou como registro uma extensa poesia sobre “A menina vaidosa”, da qual transcrevo um trecho: “Hoje penso e com razão,/ Que uma menina vaidosa/ Jamais pode ser ditosa,/ Quer solteira, quer casada:/ Quase sempre é pouco amada.” (Paula de L., 06/06/1852, p. 180). Já Paulina de L. teve como especialidade escrever charadas – ao todo foram 6 publicadas – como a seguinte: “Fui para o Cristo traição,/ Sou o regalo da gente./ Quem há aí tão sisuda/ Que não gosta de me dar?/ Gentes, o melhor de tudo/ Nestas coisas é – calar” (Paulina de L., 29/07/1855, p. 400).[19]

Em vez de utilizar pseudônimos, algumas mulheres escolheram uma maneira diferente de se identificar. A poesia intitulada “Saudade” foi assinada Pela jovem cearense - B.P.. A poesia de despedida à falecida D. Francisca Cândida da Silva foi escrita por Uma sua amiga. “Que terrível sofrer não tem meu peito!/ Que agonia terrível não tolera!/ Minha alma perturbada desespera;/ Meu coração de dor está desfeito!” (Uma sua amiga, 05/12/1852, p. 183). Esses versos fazem parte do soneto escrito Por uma infeliz. Identifiquei uma charada formulada Por uma jovem. Finalmente, versos para louvar o ano de 1852 foram escritos Por uma jovem de 15 anos.

Ritinha se inseriu no Jornal das Senhoras escrevendo para a seção de mais destaque do periódico: “Modas”. A nova colaboradora escreveu para substituir Cristina, que precisou tirar uma licença temporária. Ciente de sua responsabilidade, Ritinha se apresentou às leitoras da seguinte maneira:

Com 16 anos de idade, e sem o traquejo do jornalismo, eu reconheço a minha insuficiência para substituir dignamente a vossa engraçada e espirituosa Cristina.

Não tenho talentos, nem grandes conhecimentos desta matéria; mas se os esforços de uma boa vontade bastarem para apresentar-vos todas as semanas algumas linhas que possais ler, eu vos afirmo, que as tereis sempre escritas com o desejo de fazer-vos o menos sensível a falta de nossa amiga (Ritinha, 08/01/1854, p. 9).

Ritinha colaborou com o periódico do dia 8 de janeiro a 30 de abril de 1854, totalizando 16 artigos publicados. Nesse período, ela refletiu sobre a moda como ciência e arte; analisou a moda carioca; comentou sobre a importância dos banhos para a higiene; narrou uma reunião de amigas que simularam uma assembleia para debater a moda; ressaltou a importância de se vestir adequadamente para cada ocasião; analisou diversos figurinos; defendeu a importância da moda; refletiu sobre música; e narrou impressões de um baile.

Em janeiro de 1854, o Jornal das Senhoras publicou uma tradução que Thereza fez de uma história inserida na obra Les femmes, de autoria de Alphonse Karr,[20] a qual reflete sobre generosidade e lealdade. Uma assinante enviou uma carta para a redação no intuito de elogiar a coragem e inteligência da primeira redatora:

[...] Se eu fosse ilustrada como vós sois, apresentar-me-ia para coadjuvar a vossa empresa, não por que disso carecêsseis, mas para mostrar-me grata a quem tão dignamente pugna pelos direitos da emancipação da mulher. Posto não tenha o prazer de conhecer-vos, senhora, desejo obsequiar-vos de algum modo, e se o permitirdes, enviar-vos-ei alguns artigos traduzidos ou extraídos de vários autores, a cuja leitura me tenho dado (Uma assinante, 08/02/1852, p. 44).

Conforme anunciado na correspondência, a assinante enviou um texto extraído, o qual refletia sobre a amizade. No mês seguinte, mais uma vez a assinante colaborou com o Jornal das Senhoras, noticiando que uma jovem pernambucana de 18 anos, surda e muda, havia aprendido piano com o professor Sr. Joseph Fachinetti e que, em breve, ela seria alfabetizada pelo mestre.

Violante Atabalipa Ximenes de Bivar e Velasco veiculou 19 publicações em que se identificou, as quais se limitaram ao período em que ela estava na chefia da redação do Jornal das Senhoras – de 04 de julho de 1852 a 31 de maio de 1853. Mais da metade dos textos de Violante Atabalipa diziam respeito às atividades da redação, assim, precisou escrever sobre: a mudança de chefia da redação; correspondências; assinaturas; os objetivos do periódico; atrasos na publicação de figurinos; nova colaboradora; sacrifícios feitos para manter a qualidade do periódico; materiais não publicados devido à falta de espaço; balanço e perspectivas das atividades no Jornal das Senhoras. Além dos mencionados assuntos, a segunda redatora refletiu sobre: atitude caridosa exercida por um médico; a vida de Jesus; e o falecimento de D. Maria Amélia, irmã do Imperador. Violante Atabalipa também realizou traduções de textos em inglês e francês, versando sobre: a atriz Rosina Stoltz; as vantagens da religião cristã; a importante função do sacerdote; a virgindade, a decência e beleza feminina; o matrimônio, a maternidade, a benevolência e santidade feminina.

Viscondessa da... foi uma frequente colaboradora do Jornal das Senhoras, tendo registrado sua assinatura nas páginas do periódico de dezembro de 1852 a dezembro de 1854. A Viscondessa, que não revelara seu nome, mostrou-se uma grande leitora de temas variados. Dos 42 textos enviados para publicação, apenas 15 eram de sua autoria, os demais foram extraídos e/ou traduzidos. Seguem alguns assuntos tratados pela Viscondessa da...: vingança; ginástica; criações de Deus; caridade; casamento; mulheres na medicina e educação. Sobre o último tema, a colaboradora afirmou: “[...] educação – meio único por que é possível mudar os costumes de um povo.” (Viscondessa da..., 28/08/1853, p. 280).

Viscondessa de... também foi uma colaboradora, porém, menos assídua. Ela extraiu e traduziu obras, as quais discutiam sobre o amor, a alforria e a festa de São João. Nos textos autorais, a Viscondessa de... refletiu sobre a amizade, exaltou o trabalho das irmãs de caridade, explicou o que se tratava a festa do corpo de Deus e refletiu sobre o futuro. Em sua última produção, a colaboradora argumentou: “A maior fortuna que podemos ter, é ignorar o nosso destino. É ser duas vezes desgraçado e conhecer com antecedência o mal que nos deve sobrevir; e impossível será deixar de abandonar à dor e à tristeza, dias sobre os quais nenhum direito ainda podemos ter” (Viscondessa de..., 26/06/1853, p. 171).

Findo aqui o registro dos perfis letrados das mulheres que deixaram seus pensamentos e registro da sua existência no Jornal das Senhoras.

Como identificado ao longo desta análise dos perfis letrados das mulheres de imprensa, a omissão do nome de nascimento foi prática recorrente entre as mulheres da década de 1850, no Brasil. Assim sendo, corroboro Virgínia Woolf: “De fato, eu me arriscaria a supor que Anônimo, que escreveu tantos poemas sem assiná-los, foi muitas vezes uma mulher.” (Woolf, s/d, p. 62). Parafraseando a escritora, suponho que “Anônimo”, que escreveu tantos poemas, peças de teatro, artigos, contos e romances, sem assiná-los, foi muitas vezes uma/muitas mulher(es). O anonimato foi elemento corriqueiro na imprensa oitocentista carioca, fato que impede a atribuição do devido reconhecimento que deveria ser legado às articulistas, além de dificultar a análise da construção de ideias autorais nas páginas impressas. Apesar desse obstáculo, neste artigo houve um esforço de rastrear as colaboradoras que deixaram indícios no Jornal das Senhoras, com o intuito de perceber a participação delas na viabilidade de manutenção do impresso e nas propostas de emancipação das mulheres veiculadas no Rio de Janeiro. Como apresentado, as mulheres se expressaram sobre temas muito variados e com abordagens bem peculiares. Sendo assim, ressalto que mesmo aquelas que não refletiram sobre a emancipação das mulheres, estavam agindo de maneira ousada. Afinal, o fato de pegar na pena, expressar suas ideias e enviar um texto para ser veiculado na esfera pública era um ato de coragem para a época.

É instigante observar o alto número de textos extraídos e traduções publicadas pelas mulheres. Este fato revela o quão seleto e privilegiado era o grupo de mulheres que colaborava com o impresso, o qual tinha acesso a uma esmerada educação e a um universo de livros, revistas e jornais invejáveis. Além disso, constato que enviar obras extraídas ou traduzidas era uma maneira de colaborar com o periódico sem expressar diretamente suas ideias, sendo utilizada como estratégia de inserção no espaço público de maneira gradual. Esta técnica era uma forma de superar a insegurança da própria escrita revelada por inúmeras colaboradoras do periódico analisado.

A expressão de Cristina, a articulista do Jornal das Senhoras, “Trabalhei como uma mulher! Incansável...” define muito bem o teor das fontes que subsidiaram a minha reflexão. Como esclarecido anteriormente, o periódico analisado é fruto de empreendimento de indivíduos do gênero feminino. Em geral, o acesso aos textos de autoria das proprietárias/redatoras foi mais fácil. Entretanto, o nível de dificuldade aumentou quando caminhei no sentido de identificar as colaboradoras. É explícita a ousadia das fundadoras de periódicos feministas naqueles meados do século XIX, em sociedade patriarcal como a do Rio de Janeiro. No caso das colaboradoras — mesmo que houvesse um claro desejo de participar e uma nítida identificação com aquelas ideias lançadas na esfera pública –, pelo que as fontes indicam, havia receio na exposição de suas afinidades com a emancipação, que seria revelada por meio da assinatura dos textos.

De forma convergente, Norma Telles constatou que “no caso brasileiro, tanto o senso comum como a ciência do século XIX, afirmavam que a mulher não pensa, ou não deve cansar sua cabecinha com problemas políticos ou filosóficos” (Telles, 2012, p. 62). Além disso, as perspectivas estéticas daquele momento defendiam que “a criação cultural era um dom exclusivamente masculino”, logo, “escrever, ler e pensar não só eram estranhos ao seu universo como podiam ser inimigos das características femininas” (Telles, 2012, p. 61).

Tais estereótipos forjados a respeito das mulheres acabaram por inibir parte delas a se expressar. Lamento por não poder nomear e (re)conhecer cada autora que contribuiu formulando questões e propondo mudanças.

Ao identificar o labor feminino na imprensa dos anos 1850, o propósito não foi buscar dados biográficos das mulheres. O objetivo foi traçar um perfil letrado, ou seja, compreender como as mulheres deixaram suas presenças registradas através da produção escrita. Entretanto, busquei informações em livros e dicionários sobre as protagonistas identificadas. Infelizmente, constatei que os registros sobre a vida das mulheres de imprensa são mínimos. Identifiquei informações pontuais sobre a redatora Gervazia Nunezia[21] e sobre Violante Atabalipa. No universo analisado, Joanna Paula Manso foi a mulher com mais informações biográficas disponíveis. Em contrapartida, é preocupante o apagamento das vidas das colaboradoras dos periódicos na memória social brasileira e também na historiografia. Mesmo sobre aquelas mulheres que ousaram assinar o nome completo nas publicações, não foi possível encontrar mais registros sobre suas vivências.

Pesquisadoras como Constância Lima Duarte, com grande experiência em estudos sobre as mulheres de letras do século XIX, chegam a conclusões semelhantes às constatadas neste artigo. Neste sentido, corroboro sua assertiva a seguir:

Foram, portanto, razões históricas e ideológicas as responsáveis por jogar no limbo do esquecimento as primeiras produções intelectuais das mulheres, bem como sua participação nas lutas sociais. E o apagamento de seus nomes teve como consequência um grave dano ao acervo cultural brasileiro e à identidade feminina, provocando verdadeira amnésia social e desconhecimento generalizado da história de nossa opressão e resistência (Duarte, 2022, p. 16).

No âmbito desse cenário ainda repleto de questões em aberto e muitos caminhos a serem desbravados, espero que esse mapeamento das assinaturas, gêneros textuais e expressões da escrita das mulheres na imprensa carioca, na primeira metade dos anos 1850, contribua para repensar a contribuição das mulheres no universo intelectual brasileiro, colocando em cena o labor e as importantes atuações femininas no espaço público.

Material suplementar
Referências bibliográficas
BARBOSA, Everton Vieira. “O protagonismo de Gervasia Nunézia Pires dos Santos Neves na direção do Jornal das Senhoras (1853-1855)”. Revista Caminhos da História, Montes Claros-MG, n. 30 v.1, jan./2025.
DUARTE, Constância Lima. Apresentação: Na contramão do memoricídio. In: DUARTE, Constância Lima (Org.). Memorial do memoricídio: escritoras brasileiras esquecidas pela história. Belo Horizonte: Editora Luas, 2022.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 3ª ed. Curitiba: Editora Positivo, 2004.
MARTINS, Ana Luiza. Imprensa em tempos de Império. In: MARTINS, Ana Luiza; LUCA, Tânia Regina de (Orgs.). História da imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2008.
MELLO, Juliana Oakim Bandeira de. O abastecimento de água da cidade do Rio de Janeiro durante o período joanino. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, nº 4, p. 159-167, 2010.
MUZART, Zahidé Lupinacci. Pedantes e bas-bleus: história de uma pesquisa. In: MUZART, Zahidé Lupinacci (Org.). Escritoras Brasileiras do Século XIX. 2ª ed. rev. Florianópolis: Editora Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2000.
SOUTO, Bárbara Figueiredo. Mulheres e ideias impressas: projetos feministas de emancipação em periódicos do Rio de Janeiro e Buenos Aires (1852-1855). Tese (Doutorado em História). Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte, 2019.
SOUTO, Bárbara Figueiredo. Mulheres e Imprensa no Século XIX: projetos feministas no Rio de Janeiro e em Buenos Aires. Belo Horizonte-MG: Editora Luas, 2022.
TELLES, Norma. Encantações: escritoras e imaginação literária no Brasil – século XIX. São Paulo: Intermeios, 2012.
WOOLF, Virgínia. Um teto todo seu. Trad. Vera Ribeiro. São Paulo: Círculo do Livro, s/d. [copyright 1928].
Notas
Notas
[1] Refiro-me à atuação das mulheres de elite, que tiveram acesso ao letramento, num contexto de altos índices de analfabetismo no Brasil. Para abordar a experiência e o labor das mulheres escravizadas e libertas seria preciso a análise de outras fontes e de outros arcabouços interpretativos.
[2] Constância Lima Duarte esclareceu que encontrou o conceito de memoricídio em obra de Fernando Baez. No entanto, a autora fez uma instigante apropriação para pensar a experiência das mulheres de letras no Brasil oitocentista, que corroboro neste trabalho.
[3] Exceções foram os primeiros números de 1852 e 1853, que saíram na quinta-feira e sábado, respectivamente, pois a redação fez questão de publicar no primeiro dia do ano.
[4] Fizemos a opção por atualizar a grafia dos nomes próprios e dos demais termos oitocentistas nas transcrições feitas neste artigo.
[5] Gervasia Nunézia anunciou que tinha assumido a chefia da redação do periódico na publicação do dia 12 de junho de 1853.
[6] Para verificar meu argumento sobre a existência de impressos feministas no Brasil e na Argentina, em meados do século XIX, ver minha tese de doutorado: (Souto, 2019).
[7] Este levantamento foi realizado durante a pesquisa do meu doutoramento e inserido como apêndice à tese, junto ao levantamento feito nos periódicos argentinos La Camelia e Album de Señoritas. Ver: (Souto, 2019, p. 255-290). Portanto, o artigo que aqui apresento trata-se de uma versão adaptada do mencionado apêndice.
[8] Destaquei as assinaturas em negrito, na primeira menção, com o intuito de facilitar a visualização.
[9] Trata-se de uma “modalidade de charada em que as letras da palavra insinuada pelo conceito, parcialmente combinadas, formam outras palavras que é preciso adivinhar para se chegar àquela.” Ver: (FERREIRA, 2004).
[10] A resposta da charada é “peitoril”.
[11] Ao todo, encontrei 24 textos com as seguintes assinaturas: “A redação do Jornal das Senhoras” e “As redatoras do Jornal das Senhoras”.
[12] No período em que Juana Paula Manso era redatora do Jornal das Senhoras, ela assinou 5 artigos e veiculou o romance “Misterios del Plata” em 23 partes. Após sua saída da redação, Juana Manso publicou mais três textos no periódico carioca.
[13] Violante Bivar e Velasco publicou textos assinados apenas durante o período em que estava na chefia da redação do periódico, somando 18 textos, além da tradução de um romance, publicado em 14 partes – a identificação da redatora em chefe enquanto tradutora só apareceu na última parte veiculada.
[14] Gervasia Neves assinou textos publicados no Jornal das Senhoras somente a partir do momento em que assumiu a chefia da redação. Durante o mencionado período, Gervasia Neves assinou 14 textos. Antes disso, enquanto colaboradora, usou pseudônimo, como mencionado no corpo do texto.
[15] A resposta da charada é “saracura”.
[16] Sistema de abastecimento de água que atendia ao perímetro urbano do Rio de Janeiro. Sobre a importância da implantação e aprimoramento de tais sistemas durante o século XIX, ver: (MELLO, 2010).
[17] A resposta da charada é “Jacaré”.
[18] Devido à relevância dos artigos desta colaboradora para a pauta da emancipação das mulheres, sugiro consultar a análise dos mesmos em minha tese ou livro (Souto, 2019), (Souto, 2022).
[19] A resposta da charada é “Magnólia”.
[20] Jean-Baptiste Alphonse Karr foi jornalista e romancista francês, que viveu entre 1808 e 1890. A obra Les femmes está disponível integralmente no site da Gallica. Disponível em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k2055281/f1.image. Acessado em 13 de agosto de 2018.
[21] Everton Vieira Barbosa encontrou e analisou informações importantes sobre esta redatora-chefe. Sugiro a leitura do artigo “O protagonismo de Gervasia Nunézia Pires dos Santos Neves na direção do Jornal das Senhoras (1853-1855), publicado neste Dossiê.
Autor notes
i Doutora em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). E-mail: barbara.souto@unimontes.br. ORCID iD: https://orcid.org/0000-0001-9344-0571.

Imagem 1
O Jornal das Senhoras, Rio de Janeiro, 01 de janeiro de 1852
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Disponível em: https://hemeroteca-pdf.bn.gov.br/700096/per700096_1852_00001.pdf. Acessado em 04 de outubro de 2024.
Tabela 1
Organização do Jornal das Senhoras

(Souto, 2019, p. 92).
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