Entrevistas

A CONSTRUÇÃO DO COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS CURRICULARES: ENTREVISTA COM A PROFESSORA MARIA ZULEIDE DA COSTA PEREIRA

THE CONSTRUCTION OF THE INTERNATIONAL COLLOQUIUM ON CURRICULAR POLICIES: INTERVIEW WITH PROFESSOR MARIA ZULEIDE DA COSTA PEREIRA

LA CONSTRUCCIÓN DEL COLOQUIO INTERNACIONAL SOBRE POLÍTICAS CURRICULARES: ENTREVISTA A LA PROFESORA MARIA ZULEIDE DA COSTA PEREIRA

Maria Zuleide da Costa Pereira 1
Universidade Federal da Paraíba, Brasil
Gessica Mayara de Oliveira Souza 2
Universidade Federal da Paraíba, Brasil

Revista Espaço do Currículo

Universidade Federal da Paraíba, Brasil

ISSN: 1983-1579

Periodicidade: Cuatrimestral

vol. 18, núm. 1, e73653, 2025

rec@ce.ufpb.br

Recepção: 26 Março 2025

Aprovação: 07 Abril 2025



DOI: https://doi.org/10.15687/rec.v18i1.73653

Resumo: Nesta conversa, a professora Maria Zuleide compartilha a trajetória da criação do Colóquio Internacional de Políticas Curriculares, evento realizado na Universidade Federal da Paraíba, atualmente em sua décima primeira edição. A professora Zuleide revela as motivações, desafios e contribuições desse evento acadêmico, que se consolidou como um importante espaço de debate e reflexão sobre o campo das políticas curriculares. Além disso, destaca a importância da pesquisa e da colaboração de um grupo de pesquisa na construção de um evento que reúne especialistas e pesquisadores de diversas partes do mundo.

Palavras-chave: Colóquio Internacional de Políticas Curriculares, Currículo, Educação, Produção do Conhecimento.

Abstract: In this conversation, Professor Maria Zuleide shares the history of the creation of the International Colloquium on Policies and Curricular, an event held at the Federal University of Paraíba, currently in its eleventh edition. Professor Zuleide reveals the motivations, challenges, and contributions of this academic event, which has become an important space for debate and reflection on curriculum and educational policies. Furthermore, she emphasizes the importance of research and the collaboration of a research group in the development of an event that brings together experts and researchers from various parts of the world.

Keywords: International Colloquium on Curricular Policies, Curriculum, Education, Knowledge Production.

Resumen: En esta conversación, la profesora María Zuleide comparte la trayectoria de la creación del Coloquio Internacional sobre Políticas Curriculares, evento realizado en la Universidad Federal de Paraíba, actualmente en su undécima edición. La profesora Zuleide revela las motivaciones, desafíos y contribuciones de este evento académico, que se ha consolidado como un importante espacio de debate y reflexión sobre el currículo y las políticas educativas. Además, destaca la importancia de la investigación y la colaboración de un grupo de investigación en la construcción de un evento que reúne a expertos e investigadores de diversas partes del mundo.

Palabras clave: Coloquio Internacional sobre Políticas Curriculares, Currículo, Educación, Producción del Conocimiento.

Introdução

O Colóquio Internacional de Políticas Curriculares (CIPPC) vem se destacando ao longo dos anos como um evento de grande relevância no campo dos estudos sobre Políticas Curriculares. Reunindo pesquisadores e profissionais da educação de todo o país, o evento foi idealizado e criado pela professora Maria Zuleide da Costa Pereira com o objetivo de promover debates sobre os diversos temas que envolvem o currículo e as políticas curriculares. Com abrangência desde a Educação Básica ao Ensino Superior, em suas diferentes modalidades e esferas, o Colóquio aborda temáticas variadas, fomentando discussões e contribuindo para a troca de experiências e a produção de conhecimento.

Nesta entrevista, a professora Maria Zuleide compartilha um pouco da história da criação do Colóquio, explicando que o evento surgiu da necessidade de proporcionar um espaço para discussões profundas sobre as políticas educacionais e suas implicações no campo do Currículo.

A professora destaca os desafios enfrentados ao longo da organização dos colóquios anteriores e como esses desafios a motivaram a continuar promovendo espaços de reflexão e análise crítica das Políticas Curriculares. Para ela, o evento representa uma oportunidade de reunir diferentes perspectivas acadêmicas, contribuindo para o avanço das pesquisas na área e para a transformação das práticas sociais e educativas.

A trajetória da professora Maria Zuleide e sua contribuição para o Colóquio refletem seu compromisso contínuo com o desenvolvimento da educação no Brasil. Seus esforços buscam compreender melhor as dinâmicas das políticas curriculares e suas consequências no cenário brasileiro. Ao longo de sua carreira acadêmica, Maria Zuleide consolidou-se como uma referência na área da educação, com especial atenção para o campo do Currículo. Sua dedicação à pesquisa e ao ensino tem influenciado diversas gerações de alunos e profissionais da área.

Entrevistadora: Como surgiu a ideia do Colóquio Internacional de Políticas Curriculares? O que motivou sua criação?

Maria Zuleide: Bom, na verdade, o que surgiu primeiro foi a necessidade que eu senti de estar inserida em um grupo de pesquisa. Na época, a CAPES estava exigindo que todos os professores, pesquisadores e doutores tivessem seu próprio grupo de pesquisa. Eu tinha acabado de chegar com uma tese de doutorado que falava sobre o ensino das mulheres provenientes do ensino técnico, mais especificamente sobre como elas se inseriam no mercado de trabalho. No primeiro ano em que cheguei, encontrei apenas um grupo de pesquisa que falava sobre gênero, que era o grupo de pesquisa da Maria Eulina. Quando entrei nesse grupo, começamos a debater questões de gênero, violência de gênero, mulheres na política, além das questões de poder.

Eu tinha estudado muito sobre isso durante o doutorado e passei um ano no grupo do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Ação sobre Mulher e Relações de Sexo e Gênero (NIPAM), participando de um evento internacional organizado pela Maria Eulina, que me parece ter ocorrido em 2001. No entanto, eu sentia uma insatisfação, eu poderia chamar de insatisfação acadêmica. Percebi que o currículo no Centro de Educação não tinha uma orientação teórica clara. Inclusive, quando participei do concurso público para professora, muitas pessoas estavam estudando a teorização de um autor americano, não me lembro agora o nome dele, que abordava as teorias do Currículo. Para mim, era uma perspectiva mais conservadora, mais tradicional. Então, resolvi fazer algo necessário aqui no Centro de Educação: fundar um grupo. Já que eu havia feito o concurso para Currículo e Programas, na época era esse o nome, decidi criar um grupo.

Como eu já estava participando de alguns eventos internacionais no Rio Grande do Sul, já como professora, fiquei interessada na perspectiva trabalhada no Sul do país. Era uma abordagem pós-estruturalista, pós-crítica, que ampliava as discussões sobre currículo, indo além da questão do currículo emancipatório. Lá, discutiam a necessidade de trabalhar o currículo incluindo questões como gênero, identidade cultural e raça, conforme está no próprio livro de Tomás Tadeu da Silva. E também a questão do poder, que foi um tema muito forte. O currículo buscava se desvincular das amarras do tradicionalismo e do conservadorismo, que não era nem o neoconservadorismo, mas sim o conservadorismo de um currículo reprodutivista e regulatório.

Naquela época, não havia pesquisa, tese ou informações vinculadas à área de currículo nessa perspectiva. O que eu fiz? Fundar um grupo. Mas, antes de fundá-lo, chamei um grupo de professores do Centro de Educação: o professor Afonso, a Eliete Santiago, todos os professores, chamei a Arlete, a Rita, a Glória, que também bebiam da fonte teórica do currículo. Chamei todo mundo e organizei uma mesa redonda para discutirmos o currículo com o nome: “Currículo, Questões de Poder, Identidade”. Após essa reunião, fundei o Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Curriculares. No início, muita gente participou; mas depois nem todos abraçaram a causa do campo curricular, nem as políticas curriculares, como eu tinha necessidade de abraçar; porque eu estava muito cansada da hegemonia do campo curricular do Sul e Sudeste do país. A gente tinha que ir lá, trazer as teorias de lá, tudo acontecia no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro. Era um eixo centralizado.

Comecei a estudar e a dar aula para os meus alunos a partir dessa perspectiva pós-estruturalista, pós-crítica, que tem raízes na teoria crítica de Marx. Não é a teoria crítica dele, mas os princípios e pressupostos marxistas, principalmente, a questão do poder. Comecei a estudar, a trabalhar com o grupo e a desenvolver nossos trabalhos no campo curricular, que estão todos aí, nas teses, dissertações e artigos.

Junto com a Eulina, organizamos o primeiro Seminário Internacional de Gênero. Mas, como eu tinha criado o grupo, sentei com a professora Elisa Pereira e com a Maria Eulina, e nós montamos o Colóquio: com o meu conhecimento e o da Elisa sobre os principais teóricos nacionais e com o conhecimento da Eulina sobre os teóricos internacionais. Nós três sentamos, e todos concordaram em fazer o evento. Começamos do zero. Até o data show e essas coisas, tudo foi alugado para a realização do evento.

No primeiro evento, eu, a professora Elisa e a professora Eulina queríamos que o evento ampliasse de forma significativa as temáticas para que mais pessoas pudessem se inserir. No começo, o nome era “Currículo e Contemporaneidade”; depois, ampliamos para “Currículo, Contemporaneidade e Poder”, “Currículo, Contemporaneidade e as Relações de Gênero”. Tivemos cerca de 25 grupos de trabalho. Se você pegar os anais do primeiro Colóquio, verá que organizamos uns 25 grupos. Nós coordenamos, não fui só eu que coordenei, nós coordenamos juntas: eu, Maria Eulina e Elisa Pereira. Mas foi um trabalho árduo, como formiga carregando a comida nas costas para o formigueiro. O formigueiro era o grupo que acreditava na ideia que apresentávamos. Fizemos esse primeiro evento em 2002 e decidimos que seria sempre no feriado de 15 de novembro porque não havia eventos nessa época no Brasil, e as pessoas poderiam participar.

No primeiro evento, convidamos universidades de todo o Brasil porque não queríamos fazer uma seleção de algumas pessoas que discutiam currículo. Queríamos ampliar as discussões sobre currículo no Brasil, abrindo oportunidades para outros estados que também tinham interesse em estudar currículo e não sabiam por onde começar. O evento foi um sucesso e aconteceu nos 25 anos do Centro de Educação. Segundo as informações que recebi, tivemos 1.200 participantes de todo o Brasil. E tivemos os expoentes das discussões curriculares do Brasil. Contamos com Marisa Mojave, Alfredo Veiga Neto, que discutiam currículo. Internacionalmente, trouxemos as pesquisadoras da Inglaterra que discutiam gênero. Convidamos a Bahia porque o Roberto Macedo tinha uma discussão importante sobre Currículo e ele aborda isso no seu livro.

No final, lembro que saiu o livro Currículo e Contemporaneidade: Questões Emergentes. Esse livro repercutiu no Brasil entre os curriculistas, e começamos a receber convites para participar de outros eventos no Sul do país. Lembro que o Silvio Galo esteve aqui falando sobre currículo, e eu falei sobre currículo e autopoiese, que era uma categoria que eu estava estudando a partir de Maturana e Varela. Eu discutia isso com muita solidão acadêmica, pois éramos eu e meus alunos, e não havia muitos professores que acreditavam no grupo.

O Colóquio passou a ser o evento acadêmico que as pessoas aguardavam com grande expectativa. Era um momento de troca acadêmica, onde se apresentavam teses, TCCs, e conheciam outras pessoas, com muitas apresentações em grupos. E trouxemos de cada campo uma pessoa.

Entrevistadora: Quais desafios marcaram a organização da primeira edição?

Maria Zuleide: Na primeira edição, o desafio foi trazer pesquisadores renomados para a Paraíba, que ainda era muito desconhecida no campo curricular como um objeto de estudo desse campo. Não só a Paraíba, mas também cidades do interior do estado. Fizemos uma grande divulgação no interior com parcerias de sindicatos de professores. Levamos cartazes e folders. Chegamos a produzir uma média de 5 mil folders e mais de 200 cartazes.

O grande desafio foi mostrar que a Paraíba entende, deseja mostrar e compartilhar estudos e teorias sobre o campo do currículo, e que tem um viés teórico a ser desenvolvido. Esse foi o maior desafio. E, de fato, muita gente veio para a Paraíba. Reservamos hotéis e pousadas e recebemos muitas pessoas.

Uma coisa importante é que o evento ocorre a cada dois anos devido à força de trabalho necessária e à solidão acadêmica de reunir pessoas para prepará-lo. Eu pude contar com meus alunos, que acreditavam em mim e me davam apoio. O evento se fortaleceu, se ampliou e seguiu em frente graças ao grupo, pela força de trabalho do grupo que me ajudou.

Entrevistadora: Ao longo dos anos, como percebeu a transformação do evento? Houve mudanças significativas?

Maria Zuleide: Eu acho isso muito positivo, extremamente positivo. Fico muito feliz e posso dizer que sou uma das professoras da UFPB que deixou um grupo de pesquisa em andamento, um grupo já na fase adulta, na UFPB, caminhando e refletindo. Quando vi o último evento que o grupo coordenou, fiquei felicíssima. Mas, fico realmente feliz com o avanço e também com os ganhos, como a inserção de vários alunos, não só na Universidade Federal da Paraíba, mas também em outros campi, como no campus de Monteiro, onde está o Rafael; em Areia, onde está a Ângela Albino, que estão ocupando espaço em outros locais.

Entrevistadora: Como tem sido a participação de diferentes públicos no Colóquio? O que tem chamado sua atenção nesse aspecto?

Maria Zuleide: Eu acho que a academia, juntamente com a evolução das leis constitucionais e das leis avulsas, que surgiram para garantir o reconhecimento de cada indivíduo dentro da sociedade, o reconhecimento de todas as diferenças e diversidades, e toda essa amplitude de participação no Colóquio, reflete o fato de que, hoje, existe uma maior abertura democrática dentro da universidade e também um coletivo que está se ajudando mutuamente.

Não é um evento de outrem. O evento é da universidade. Precisamos pensar que o evento é da universidade. Acredito que toda essa compartimentalização dos setores da universidade deveria acabar. É o Centro de Educação com suas diversas áreas, e não apenas o departamento. Precisamos produzir um trabalho coletivo onde todos se sintam contemplados de forma coletiva. Contemplados coletivamente não só na organização e no planejamento, mas na produção do conhecimento. Eu acredito nisso. Acho que, no momento atual, em que estamos lutando pela democracia, a universidade percebe que não pode deixar de lado determinados grupos de cidadãos e cidadãs, pois, se o fizer, ela se enfraquecerá politicamente e na sociedade, pois esses cidadãos fazem parte da sociedade e não podem ser excluídos.

Acredito que hoje o evento oferece espaço para todas as diferenças. A universidade se abriu mais aos diferentes grupos reconhecidos na sociedade, que precisam desse espaço para dialogar sobre seus temas e causas. Isso fortalece o grupo também. Quando o grupo se vê em uma causa, ele a encara com responsabilidade, olhando para isso como algo que lhe pertence também, lutando e ajudando na luta.

Entrevistadora: Quais questões ou debates recentes, no campo das políticas e práticas curriculares, têm aparecido com mais força no evento?

Maria Zuleide: São os debates que tentam, posso dizer assim, desconstruir as narrativas neoconservadoras, que têm aparecido. O grupo tem se fortalecido e resistido; resistido e também combatido. O grupo tem sido combativo contra essas posições ideológicas absolutas que buscam fazer com que seu pensamento neoconservador prevaleça. Embora o campo do currículo tenha avançado, ele precisa caminhar mais e mais, de mãos dadas com a democracia, com o espaço aberto a todos os tipos de grupos sociais, a todas as raças, a todas as religiões. Caso contrário, o campo do currículo não irá longe e não conseguirá combater essas narrativas neoconservadoras que trazem questões preocupantes para o campo. Por exemplo: o currículo normatizado nacionalmente. Além de ser normatizado, o currículo é impresso, ele precisa ser seguido. Parece que a gente avança e recua. Eu não posso dizer que avançamos completamente. Nós avançamos e recuamos porque ainda estamos, na minha concepção, dentro de um currículo tradicional, um currículo conservador que está em conflito com os anseios e necessidades dos diferentes grupos da sociedade. Ele está em conflito.

O professor está em conflito com a ideologia que ele comunga e com a ideologia que as políticas de currículo conservadoras e neoconservadoras tentam usar para regular a escola, a educação, o ensino, a sala de aula, os livros. O conflito do professor tem sido muito grande. Isso tem sido um grande desafio e tem deixado os professores recuados em relação ao seu direito, exaustos; exaustos nessa caminhada que ora avança, ora recua, mas esse é o caminhar da história.

A história é assim: tem avanços e recuos. E o campo curricular não poderia ser diferente. Então, não podemos dizer agora que, com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), está tudo maravilhoso, que todo mundo tem seu livrinho e sabe o que vai estudar. E os outros, que não acompanham o que está na BNCC? que não vão atingir aqueles objetivos? que precisam de um método diferente, de um conteúdo diferente, de um livro diferente? Como ficam essas pessoas? Vão ficar excluídas da escola? Se a escola é inclusiva, o currículo também deve ser inclusivo e democrático. Tem que ser inclusivo e democrático; porque inclusivo e democrático não quer dizer independente, pois não existe independência. Quando você está dentro de uma política curricular do Brasil, você não é independente, você é regulado. Porém, essa regulação precisa ser adequada; ela não pode ultrapassar os direitos dos cidadãos, das cidadãs e dos diferentes grupos sociais no acesso e permanência na escola.

Observo que, em várias passagens dos eventos anteriores, falamos muito sobre isso: sobre a escola inclusiva, os diferentes grupos sociais que precisam ter espaço na sociedade, as questões emergentes de raça e etnia. E os professores que lutam por um currículo, inclusive democrático, precisam trabalhar essas questões dentro da sala de aula, embora muitas vezes sejam oprimidos em seu papel de educador.

Entrevistadora: No cenário atual das políticas educacionais, que papel o Colóquio tem desempenhado?

Maria Zuleide: Não podemos deixar que o Colóquio morra, pois ele se constitui como uma arena democrática de debate sobre essas políticas curriculares que estão agora sendo efetivadas, às vezes contra a nossa vontade, e prejudicando o acesso e permanência dos alunos na escola. Então, eu penso que o Colóquio é uma arena de debates.

Quando existe uma arena de debates fortalecida, com compromisso político e a certeza de que a democracia é o melhor caminho, acontecerá que os participantes buscarão mecanismos dentro da própria arena de debates, procurando uma série de estratégias para que esse debate e essas narrativas tenham menos repercussão. E o Colóquio, estando dentro de uma universidade pública democrática e acessível a todos, constitui um espaço de fortalecimento com um potencial significativo para trabalhar contra o pensamento de extrema direita, permitindo que as minorias também possam discutir.

O Colóquio não pode morrer por causa disso, pois ele é uma luz no fim do túnel. Uma luz que, embora o cenário seja frágil, traz consigo um vento que uiva e segura um pouco essas energias negativas que buscam promover a exclusão e uma limpeza étnica, bem como as desigualdades sociais. Este espaço vocês não devem perder nunca. Ele pode não contar com vinte pesquisadores trabalhando para sua realização, mas, se tiver dez, fará a diferença, pois outros dez, em outros lugares, também farão a diferença. São demandas não tão próximas, geograficamente afastadas, mas unidas por um objetivo único, que é pensar uma educação voltada para os diferentes grupos sociais, onde a desigualdade econômica, em termos de estrutura física das escolas e de currículo, seja superada para todos.

Que a universidade não seja para um grupo seleto, mas que seja pública, com igualdade, para todos. E esse “todos” só será alcançado se houver esses pequenos grupos estabelecendo um movimento de resistência para que as políticas neoconservadoras não destruam tudo.

Entrevistadora: Há algum momento ao longo dessa trajetória que considera especialmente marcante?

Maria Zuleide: São muitos momentos especiais, Géssica. Na minha trajetória como coordenadora do Colóquio, foram muitos momentos especiais, muitos mesmo. Uma das coisas que posso destacar aqui é a credibilidade que os alunos depositaram em mim no início. No começo dos meus trabalhos, o que prevaleceu foi a credibilidade. Alunos que acreditaram em mim, alunos que não faltavam. E, hoje, ver muitos dos meus alunos sentados em mesas de debates com as lideranças educacionais e políticas curriculares, nos centros acadêmicos, nas universidades, nas escolas públicas, é um momento, como você falou, um momento marcante. São momentos marcantes.

Momentos marcantes também foram as trocas de conhecimento entre alunos e professores. Por exemplo, o Rafael, a Angélica, você. O grupo todo me dava energia para ir cada vez mais fundo na minha produção teórica. Eu acho que foram essas trocas de conhecimento que se tornaram momentos marcantes. Cada dia de reunião, cada dia de evento, cada dia de uma excursão. Então, foram muitos momentos. Um momento maravilhoso foi quando fui para a Universidade Federal de Minas Gerais com dezessete alunas. Eu sempre viajei sozinha para divulgar o campo do currículo no Brasil. Outro momento marcante foi durante a pandemia, quando, acredito, a Ana Claudia estava no comando, e houve o evento online. Esse também foi um momento marcante.

Entrevistadora: Para finalizar, o que gostaria de compartilhar com aqueles que acompanharam e contribuíram para essa história?

Maria Zuleide: Eu quero dizer a todos que estiveram ao meu lado na caminhada do campo curricular, do GEPPC e da Universidade Federal da Paraíba: muito obrigada! Obrigada por nossas mãos dadas e por estarmos fazendo algo pela nossa universidade, pela nossa escola, pelas nossas crianças. Vocês farão muito mais, e eu vou ver isso na verdade, já estou vendo vocês fazendo essas questões.

Então, eu só quero dizer para o grupo que me acompanhou e que agora está caminhando de mãos dadas com outras pessoas: muito obrigada! Vocês foram generosos comigo, não largaram a minha mão nas várias vezes que eu caí quando o desafio era muito grande; e vocês disseram: “Não, professora, vamos, eu ajudo”. Eu tive um grupo que foi generoso academicamente, me ajudando em tudo, nos desafios da burocracia, no planejamento, na avaliação, no desafio das relações humanas. Existe uma amizade no grupo. Eu fico muito feliz ao ver o grupo caminhando. Para mim, é como uma luz que vai se movendo de acordo com a sua energia. Hoje, vocês têm uma grande força, mais parcerias, mais apoio; e a professora Ana Claudia vai dar um apoio muito grande para as pesquisas do grupo e para o evento.

E outra coisa: não esqueçam a humildade teórica, não se esqueçam de compartilhar. O Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Curriculares não pode esquecer que ele não veio para tratar de privilégios, mas para tratar das demandas coletivas necessárias.

Notas

SOBRE O/AS AUTOR/AS Maria Zuleide da Costa Pereira. Doutora em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba. Docente da Universidade Federal da Paraíba. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/3059827819739498

Gessica Mayara de Oliveira Souza. Mestre em Educação pela Universidade Federal da Paraíba. Doutoranda em Educação pela Universidade Federal da Paraíba. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/9189851355631369

Como citar PEREIRA, Maria Zuleide da Costa; SOUZA, Gessica Mayara de Oliveira. A CONSTRUÇÃO DO COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS CURRICULARES: entrevista com a professora Maria Zuleide da Costa Pereira. Revista Espaço Currículo, v. 18, n. 1, e73653, 2025. DOI: 10.15687/rec.v18i1.73653.

Autor notes

1 Doutora em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba. Docente da Universidade Federal da Paraíba.
2 Mestre em Educação pela Universidade Federal da Paraíba. Doutoranda em Educação pela Universidade Federal da Paraíba.
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