

Demanda Contínua
O PENSAMENTO FREIREANO NA DÉCADA DE 1950 SOBRE O “DESENVOLVIMENTO ESTÉTICO DA ALUNA-PROFESSORA”
FREIRE'S THINKING IN THE 1950S ON THE “AESTHETIC DEVELOPMENT OF THE STUDENT-TEACHER”
EL PENSAMIENTO DE FREIRE EN LOS AÑOS CINCUENTA SOBRE EL “DESARROLLO ESTÉTICO DEL ESTUDIANTE-MAESTRO”
Revista Espaço do Currículo
Universidade Federal da Paraíba, Brasil
ISSN: 1983-1579
Periodicidade: Cuatrimestral
vol. 18, núm. 1, e68490, 2025
Recepção: 31 Outubro 2023
Aprovação: 08 Maio 2024

Resumo: Esta escrita consiste em apresentar o pensamento freireano no início do seu itinerário educacional em Recife, seus colaboradores e algumas das suas contribuições. Traz parte do resultado de uma pesquisa, que buscou fazer um levantamento dos registros na década de 1950, de Paulo Freire, em Recife. Para tanto, detemo-nos no Livro de Atas da Escolinha de Arte do Recife. Como resultado obtivemos dados da participação de Paulo Freire como membro da Direção da Escolinha de Arte do Recife. Com estes documentos foi possível consolidar as ideias de Paulo Freire, contidas numa carta de 1958, que retrata seu comprometimento com o currículo e com a formação estética nos projetos da Escolinha de Arte do Recife. Desta forma, acreditamos que os resultados são relevantes para compreender, tanto sua contribuição para a história do ensino da arte, quanto o lugar da estética na sua concepção de educação.
Palavras-chave: arte, educação, estética.
Abstract: This writing consists of presenting Freire's thought at the beginning of his educational itinerary in Recife, his collaborators and some of their contributions. It brings part of the results of a research, which sought to survey the records in the 1950s, of Paulo Freire, in Recife. To do so, we look at the Book of Minutes of the Escolinha de Arte do Recife. As a result, we obtained data on Paulo Freire's participation as a member of the Board of the Escolinha de Arte do Recife. With these documents it was possible to consolidate Paulo Freire's ideas contained in a 1958 letter, which portrays his commitment to the curriculum and aesthetic training in the projects of the Escolinha de Arte do Recife. In this way, we believe that the results are relevant to understand both its contribution to the history of art teaching and the place of aesthetics in its conception of education.
Keywords: art, education, aesthetics.
Resumen: Este escrito consiste en presentar el pensamiento de Freire al inicio de su itinerario educativo en Recife, sus colaboradores y algunos de sus aportes. Trae parte de los resultados de una investigación que buscó relevar los registros de la década de 1950, de Paulo Freire, en Recife. Para ello, consultamos el Libro de Actas de la Escolinha de Arte do Recife. Como resultado, obtuvimos datos sobre la participación de Paulo Freire como miembro del Consejo de la Escolinha de Arte do Recife. Con estos documentos fue posible consolidar las ideas de Paulo Freire contenidas en una carta de 1958, que retrata su compromiso con el currículo y la formación estética en los proyectos de la Escolinha de Arte do Recife. De esta manera, creemos que los resultados son relevantes para comprender tanto su contribución a la enseñanza de la historia del arte como el lugar de la estética en su concepción de la educación.
Palabras clave: arte, educación, estética.
Introdução
Recife, capital de Pernambuco, estado brasileiro, na década de 1950, foi um importante ponto de encontro para educadores, intelectuais, artistas, estudantes, psicólogos, que colaboraram definitivamente para várias mudanças. Recife era uma cidade com pouco mais de 600.000 habitantes, considerada a terceira cidade brasileira na época, e a mais importante da Região Nordeste Azevedo; Silva; Penteado; Cretella; Sangiorgi (1959, p. 136). Lembramos que nesse período esta região era constituída pelos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Piauí. Bahia e Sergipe pertenciam à Região Leste com os estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais.
Para Targelia Albuquerque (2021, p. 83), “os tempos fundantes da formação de Paulo Freire como educador-professor são (re)escritos em muitas cenas da sua vida” e a autora continua: “de sua história-memória no Recife, Pernambuco, Nordeste e dentro e fora do país” (Albuquerque, 2021, p. 83-84). E nos apropriamos deste pensamento para a nossa escrita, acrescentando a esses tempos fundantes a vivência do pernambucano Paulo Freire, que, nascido em 1921, com a pernambucana, nascida em 1916, Elza Freire, a potiguar Noêmia Varela, nascida em 1917 e a carioca Ana Mae Barbosa, em 1936.
E podemos observar, com os resultados da nossa pesquisa, que foi extremamente importante essa vivência dos quatro em Recife, na década de 1950, pois reuniu ideias e pessoas engajadas em realizar projetos inovadores, fundar espaços educativos e com coerência com a práxis.
Paulo Freire e Elza Freire nasceram em Pernambuco, como já mencionado. Noêmia Varela e Ana Mae Barbosa não, sendo que ambas foram morar em Recife ainda na infância. Noêmia Varela nasceu na cidade de Macau, no Rio Grande do Norte e Ana Mae Barbosa nasceu no Rio de Janeiro. A cidade do Recife foi local de encontro deles, proporcionando uma rede de fazeressaberes (Alves, 2001).
Geralmente, não encontramos na formação acadêmica no Campo da Arte ou no Campo da Educação menção sobre Paulo Freire, como um dos fundadores da Escolinha de Arte do Recife, sua contribuição para a história do ensino da arte, seu cuidado com a formação estética dos educadores e educandos.
No entanto, inúmeras vezes Paulo Freire falou de arte e de estética como princípios da sua concepção de educação. Em Cartas à Guiné-Bissau: registros de uma experiência em processo, obra publicada em 1977, ele escreveu: “o educador é um político e um artista” (Freire, 2011, p. 45). Não se trata de uma consideração incidental na sua obra, gostaríamos de reafirmar. Em Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, que publicou em 1996, um ano antes da sua morte, ele disse:
Quando vivemos a autenticidade exigida pela prática de ensinar-aprender, participamos de uma experiência total, diretiva, política, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que a boniteza deve achar-se de mãos dadas com a decência e com a seriedade (Freire, 2015, p. 26, grifo nosso).
Como uma “experiência total”, a prática da educação é também estética, observa Paulo Freire. São poucos os leitores e mesmo intérpretes da sua obra, que atentam para o significado que Paulo Freire atribuía à estética e à arte na sua concepção de educação. Um estudo que demanda novas investigações sobre a sua trajetória de educador e exegese da sua obra. Pretendemos aqui, então, contribuir para o tema, destacando sua presença na Escolinha de Arte do Recife, ainda no início do seu itinerário na educação.
Desta forma, inicialmente nos remetemos a um dos raros documentos de domínio público, que menciona a contribuição de Paulo Freire para a Escolinha de Arte do Recife. É uma carta que Noêmia Varela escreve para Augusto Rodrigues, em 1958, com o testemunho de várias contribuições de Paulo Freire para a Escolinha de Arte do Recife (Brasil, 1980, p. 76-78). Começamos com este trecho da carta:
Paulo deseja defender nosso projeto frente ao julgamento do M. de Educação. Sugeriu também que o curso poderia ter uma parte introdutória – série de conferências sobre a realidade brasileira no plano da educação de base, levantamento de problemas críticos da educação entre nós, fundamentação filosófica ligada à arte e educação, como também à indústria e ao desenvolvimento econômico. Lembrou que o próprio Anísio Teixeira poderia integrar essa equipe de conferencistas, bem como outros elementos do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais e outras instituições (Brasil, 1980, p. 77-78).
Aqui mencionamos também declarações de Ana Mae Barbosa (1996), que foram fundamentais para a pesquisa, como no artigo Paulo Freire e a Arte-Educação para um livro organizado por Moacir Gadotti, quando cita Paulo Freire e sua participação na Escolinha de Arte do Recife. Ana Mae Barbosa afirma que Paulo Freire escreveu pouco sobre artes, mas deixou trilhas para seguirmos (Barbosa, 2020).
Desta forma, fomos nos rastros dessas informações para responder ao que nos propusemos diante do objetivo da nossa pesquisa[1]: buscar registros sobre a formação das ideias de Paulo Freire no Campo da Arte e da estética na Educação, a partir do acervo da Escolinha de Arte do Recife. Essa escrita, então, traz parte do resultado desta pesquisa.
Nesta direção, escolhemos a epígrafe, que foi pinçada do livro Medo e Ousadia, quando Paulo Freire conta sobre um relato na década de 1980, de um homem que foi alfabetizado pelo Método Paulo Freire e se tornou professor na sua comunidade. Ele foi preso, por trabalhar com o mesmo método que o alfabetizou. E, na terceira vez em que foi preso, o delegado lhe perguntou: “Por que você não esquece Paulo Freire?” (Freire; Shor, 1986, p. 44). Não esquecer Paulo Freire nos obriga a pesquisar sua obra e descobrir novos elementos que nos ajudem a entender, do modo mais amplo possível, sua concepção de educação, dando relevo também a temas ainda pouco explorados sobre a sua biografia intelectual.
E apresentamos esta escrita com o primeiro tópico “Paulo Freire”; focamos principalmente no “primeiro Paulo Freire”, depois passamos para contextualizar como surgiram, no Brasil e em outros países, as “Escolinhas de Arte” e no terceiro “O Acervo da Escolinha de Arte do Recife” e seus registros.
Paulo Freire
Paulo Freire cursou o Ensino Médio no Colégio Oswaldo Cruz, em Recife, considerado como um dos melhores de Pernambuco. Ele conseguiu estudar nessa escola como bolsista, já que, após a morte do seu pai, a família Freire passou por muitas dificuldades e foi morar em Jaboatão, entre 1932 e 1941 (Freire, P.; Freire, A., 2021). Apesar de o município ser limítrofe com o de Recife (PE), a cidade, naquele período, não contava com os equipamentos da capital.
Nesse mesmo colégio, Paulo Freire foi professor de Língua Portuguesa. Além de Paulo Freire, estudaram no Colégio Oswaldo Cruz com Ariano Suassuna e Francisco Brennand[2], que retomaremos no decorrer desta escrita.
Durante o período em que Paulo Freire lecionou no Colégio Oswaldo Cruz, ele também atuou como professor particular de Língua Portuguesa (Freire, P.; Freire, A., 2021). Desta forma, conheceu Elza Oliveira[3], dando aula particular em sua casa (Spigolon, 2009)[4]. Eles se casaram em 1944. Elza Freire era formada pela Escola Normal de Pernambuco. E trabalhou com métodos para alfabetizar através da arte com Paulo Freire e Miriam Didier (Barbosa, 2021).
A partir das experiências anteriores, Elza Freire e Paulo Freire organizaram um Curso Preparatório, por volta de 1955 (Barbosa, 2017); Paulo Freire como professor de Língua Portuguesa e Noêmia Varela, professora de Arte. Nesse Curso Preparatório, uma das alunas deles foi Ana Mae Tavares Barbosa. Para Ana Mae Barbosa foi fundamental conhecer Paulo Freire, pois influenciou nas escolhas da jovem estudante e para sua aproximação com o ensino de arte.
Paulo Freire cursou a Faculdade de Direito entre 1943 e 1947. Foi convidado em 1947 para o cargo na Divisão de Educação e Cultura do Serviço Social da Indústria (SESI), e, em 1954, assumiu o cargo de diretor-superintendente regional do SESI, em Pernambuco. Encontramos nesse período vários experimentos, como os Círculos de Pais e Professores. Tratava-se de reuniões, em que os temas eram escolhidos com antecedência pelos participantes. Em comum observamos que esses experimentos ajudaram Paulo Freire a conhecer o universo do trabalhador e incorporar à sua proposta pedagógica (Haddad, 2019).
Educação e Atualidade Brasileira, tese escrita por Paulo Freire para o concurso da Faculdade de Belas Artes do Recife, para o cargo de professor de História e Filosofia da Educação, é publicada no ano de 1959.
Nos estudos feitos podemos também observar que, nos vários períodos, não só no “primeiro Paulo Freire”, vamos encontrar a questão estética como algo inseparável da prática educativa. Para ele, a educação, sendo transformadora, é também criadora e constitutiva de formas, por isso “estética”. A questão estética seria então anterior concepção de Paulo Freire sobre a existência humana, segundo seus estudos.
No texto Conscientização e alfabetização: uma nova visão do processo (Freire, 1963), Paulo Freire amplia os conceitos da tese, aplicados à metodologia de alfabetização (Haddad, 2019). Com a circulação dessas ideias, logo os resultados começam a surgir.
Mas antes gostaríamos de ressaltar o uso da leitura da imagem na metodologia proposta, pois Paulo Freire pôde observar os resultados positivos nos seus experimentos ao utilizar cartazes, desenhos, fotografias e slides. Nesse período, principalmente, a experiência de Elza Freire com alfabetização infantil foi essencial; ela já utilizava a imagem para alfabetizar crianças. E como ela relatou: “Na hora, fazíamos o desenho e escrevíamos também a palavra. Ainda não tínhamos a fase do debate, a gente conversava e de acordo com as palavras que eles iam soltando e repetindo, a gente fazia a palavra geradora” (Freire, 2001, p. 348).
Anos depois, em Educação como prática da liberdade podemos verificar com detalhes como ficou a proposta. Aqui destacamos as fases: levantamento do universo vocabular dos grupos com quem se trabalhará; escolha das palavras, selecionadas do universo vocabular pesquisado; criação de situações existenciais típicas do grupo com quem se vai trabalhar; elaboração de fichas roteiros, jamais como prescrição rígida a que os coordenadores devam obedecer e seguir; fichas com a decomposição das famílias fonêmicas correspondentes aos vocábulos geradores (Freire, 2020).
Os desenhos iniciais se transformaram em Fichas de Culturas, uma “perfeita integração entre educação e arte” (Freire, 2020, p. 144). Nos apêndices do livro encontramos imagens das Fichas de Cultura, feitas a pedido de Paulo Freire para Vicente de Abreu, artista mineiro. Vicente de Abreu, assim como Paulo Freire, esteve no exílio (Freire, 2020). Esse pedido foi feito após as imagens criadas pelo artista pernambucano, Francisco Brennand, terem sido tomadas no período da Ditadura Militar.
As Fichas de Cultura criadas por Francisco Brennand foram recuperadas anos depois: “Freire astutamente microfilmou as obras de arte, salvaguardando-as da fúria da ditadura” (Azevedo, 2014, p. 104). Este fato ressalta nossa dificuldade em encontrar, para nossa pesquisa, registros sobre a presença de Paulo Freire, nas décadas de 1950 e 1960, na Escolinha de Arte do Recife.
Nos anos 1960, antes do Golpe Militar, a metodologia de Paulo Freire foi reconhecida, principalmente com o resultado obtido na proposta realizada em Angicos, cidade do Rio Grande do Norte. Paulo Freire foi convidado para liderar, então, um projeto de alfabetização a nível nacional, o Programa Nacional de Alfabetização (PNA), com a meta de alfabetizar cinco milhões de pessoas (Haddad, 2019), projeto que foi interrompido devido ao Golpe Militar.
As escolinhas de arte
E retomando duas décadas, ao final de 1940, um marco para a educação e para a arte foi o surgimento das Escolinhas de Arte, em 1948, no Rio de Janeiro, com a fundação da Escolinha de Arte do Brasil.
Alguns fatos antecederam sua fundação, como uma exposição de desenho e pinturas de crianças inglesas (Rodrigues, 2019), que foi realizada no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro. Em depoimento, décadas depois, Augusto Rodrigues evidencia sobre a exposição das crianças inglesas: “Era uma mensagem de confiança no futuro do homem, ameaçado naquela ocasião pelo nazifascismo. O que me impressionou muito nos trabalhos expostos foi a beleza da mensagem da criança livre” (Rodrigues, 2019, p. 91). Liberdade que Augusto Rodrigues não vivenciara, na sua infância e juventude, nas escolas onde estudou (Rodrigues, 2019).
Em maio de 1945, comemorava-se o fim da Segunda Guerra Mundial. Em seguida, a queda do Estado Novo, em outubro de 1945, conduzindo o Brasil para liberdade de pensamento e expressão, entre outras campanhas a da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Zoladz, 2008).
Outro fato também teria sido a interferência de adultos nos desenhos das crianças brasileiras, resultando na recusa, em 1948, para a Exposição de Arte Infantil, que aconteceu em Milão. A exposição contou com desenhos das crianças de vários países (Brasil, 1980).
De forma sintetizada, expomos acontecimentos que contribuíram para a fundação da primeira Escolinha de Arte, em 1948, no Rio de Janeiro, denominada Escolinha de Arte do Brasil (EAB), pelo artista pernambucano Augusto Rodrigues, a artista americana Margaret Spencer e a artista e professora gaúcha Lúcia Alencastro Valentim.
Noêmia Varela conheceu a Escolinha de Arte do Brasil quando ainda cursava o último ano de Pedagogia na Faculdade de Recife (Brasil, 1978). Ela, junto com outros alunos, visitou as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. E nessa visita sugeriram para Noêmia Varela conhecer as atividades da Escolinha de Arte do Brasil. E assim encontrou Augusto Rodrigues e pôde conferir o que ele falava sobre Herbert Read na teoria e na prática, observando o resultado nos trabalhos das crianças.
Herbert Read, em 1943, lançou o livro Educação pela Arte. Sua metodologia ficou conhecida com a terminologia “Educação através da Arte” (Frange, 2007). Sobre esse livro Nise da Silveira comenta que ele foi traduzido em várias línguas e que Herbert Read apresentou suas ideias nas várias conferências que fez por vários países (Silveira, 2009). Nesse texto, que faz parte da edição do jornal Arte & Educação, tem uma foto de Herbert Read visitando, em 1953, no Rio de Janeiro, a Escolinha de Arte do Brasil.
A Escolinha de Arte do Brasil influenciou o ensino da arte infantil, com várias propostas, como a livre expressão. Foi também um centro de formação inicial e continuada para educadores e educadoras, promovendo vários cursos e intercâmbios, com exposições, palestras entre artistas e visitantes.
Na carta escrita por Noêmia Varela para Augusto Rodrigues, em outro trecho (Brasil, 1980), Paulo Freire sinaliza sobre a importância da criação e da estética nos cursos para as alunas-professoras e que faz parte do título desta escrita:
Quanto às matérias do curso, a opinião de Paulo foi bem clara: além da parte criadora, do desenvolvimento estético da aluna-professora, focalizar as matérias de cultura geral (antropologia cultural, psicologia, história da arte, filosofia da arte, princípios didáticos fundamentais à educação artística) (Brasil, 1980, p. 78).
Entre as faces da Escolinha, o Movimento Escolinhas de Arte (MEA) foi uma das ações positivas, uma consequência do resultado obtido na Escolinha de Arte do Brasil, no Rio de Janeiro. Logo, contou com aproximadamente 140 Escolinhas no Brasil e ainda no Paraguai, Argentina e em Portugal. Nesse período, a formação de professores para o Ensino de Arte foi realizada através dos cursos de formação inicial e continuada[5] (Silva, 2015), oferecidos pelo MEA, principalmente para os que atuavam na Ensino Fundamental Anos Finais.
A Escolinha de Arte do Recife fez parte do MEA, e foi uma das primeiras escolinhas a serem fundadas, em 1953, a partir de um curso coordenado por Noêmia Varela, promovido pela Divisão Extensão Cultural (DECA). Estes dados foram encontrados no Diário Oficial de Pernambuco, de março do mesmo ano. Augusto Rodrigues foi convidado responsável pelo curso de arte. No próximo tópico apresentaremos mais detalhes com base nos arquivos da própria Escolinha de Arte do Recife.
O acervo da escolinha de arte do Recife
Durante as visitas feitas à Escolinha de Arte do Recife tivemos acesso à Pasta de Fotografias, Livro de Atas, Livro de Funcionários, Estatuto da Escolinha de Arte do Recife, Pasta com Fichas de Estudantes, Trabalhos dos Estudantes, Biblioteca Ana Mae Barbosa, além de contarmos com a colaboração da atual Direção da Escolinha de Arte do Recife, com Everson Silva, Zenaide Ramos, Maisa Silva e Auvaneide Carvalho. A Escolinha de Arte do Recife conta com mais de 7.500 peças (Carvalho; Silva, E.; Silva, M., 2017), entre documentos e objetos.
Detemo-nos no Livro de Atas, do período de 1953 a 1959. Nesse período, a Diretoria era escolhida para o biênio. Sendo assim, analisamos as Atas de 1953, 1955, 1957, 1959. Fizemos a escolha desse período devido à função exercida por Paulo Freire e pela carta escrita em 1958, por Noêmia Varela.
A Ata da Assembleia da Fundação da Escolinha de Arte do Recife ocorreu na Escola Ulisses Pernambucano, em Recife, e teve como propósito a fundação da Escolinha de Arte do Recife, a aprovação do Estatuto, a eleição e a posse da Diretoria.
Augusto Rodrigues estava presente nessa Assembleia e ressaltou o apoio dos educadores do Recife para a fundação da Escolinha de Arte local, descrito logo no início da Ata, de acordo com os objetivos do próprio Movimento Escolinhas de Arte (MEA). Assim como foi feita uma referência ao trabalho de Augusto Rodrigues, como grande entusiasta da arte infantil, como o norte do movimento.
O Estatuto da Escolinha de Arte do Recife foi aprovado, destacamos aqui: Art.1º “É criada a sociedade civil, com sede e foro no Recife, de duração indeterminada, sem fins lucrativos e com a denominação Escolinha de Arte do Recife”. E o Art. 2º que “tem como finalidade, promover atividades artísticas e recreativas visando: ao desenvolvimento da criança, sobretudo ao seu desenvolvimento estético” e continua “e ao seu ajustamento emocional e social; e à integração da arte no processo educativo como princípio unificador da educação”.
Além da Ata da Assembleia, encontramos o Estatuto da Escolinha de Arte do Recife no Diário Oficial de Pernambuco[6], intitulado Extrato dos Estatutos da Escolinha de Arte do Recife, publicado em agosto de 1954. A publicação no formato 16 x 11,5 cm se encontra no Acervo da Biblioteca, sendo essa uma edição contendo as reformulações feitas no ano de 1971. Na última página do Estatuto da Escolinha de Arte do Recife encontramos o Histórico com todos os registros do primeiro estatuto, 1953 e o de 1971.
Quanto à eleição e posse da Direção da Assembleia da Fundação (1953), foi eleito para Presidente Abelardo Borges Rodrigues, e Vice-Presidente Jorge Abrantes dos Santos. A professora Noêmia de Araújo Varela, eleita Diretora Técnica, exerceu este cargo quase que ininterruptamente durante vários anos. Numa entrevista, ela contou que todo ano tentava deixar o cargo da Diretoria, mas não aceitavam e que mesmo distante (período que permaneceu na Escolinha de Arte do Brasil, Rio de Janeiro) contribuiu para o trabalho da Escolinha de Arte do Recife, revendo o planejamento e fazendo assessoria (Brasil, 1978, p. 420)[7].
Ainda nessa entrevista informa sobre o Curso de Atividades Artísticas para Professores, que iniciou na Escolinha de Arte do Recife, em 1954. O primeiro Curso para Professores teve como objetivo apresentar “a importância da arte no processo educativo” (Brasil, 1978, p. 422). E ainda cita os nomes de Francisco Brennand, Câmara Cascudo, Hermilo Borba Filho, Ariano Suassuna, entre outros, para realizar cursos e conferências.
A segunda Assembleia ocorreu na própria Escolinha de Arte do Recife[8]. A Escolinha de Arte do Recife funciona, até hoje, nesse mesmo endereço. De acordo com a professora Noêmia Varela (1978), quem encontrou o chalé para alugar foi Hermilo Borba Filho, teatrólogo e um dos fundadores da Escolinha de Arte do Recife. O local tem muitas memórias; antes mesmo de virar Escolinha, contam que os escravos utilizavam o local como esconderijo para fuga para o Ceará; o local é conhecido como “zona histórica de Pernambuco” (Varela, 1978, p. 412). Nessa mesma casa, Augusto Rodrigues teria sido alfabetizado.
Depois a casa vizinha ao chalé foi comprada com o valor arrecadado de um Leilão de Obras de Arte e a Escolinha de Arte do Recife passou a ter sede própria, em 1961 (Silva; Santos; Azevedo, 2013).
Em 24 de março de 1955, aconteceu a Assembleia Geral e teve como objetivo apresentar o relatório do biênio (1953-1955), o balanço e parecer do Conselho Fiscal. Após a aprovação, foi apresentada a chapa da nova Diretoria (1955-1957) e aceita por aclamação, sendo eleito para Presidente Abelardo Borges Rodrigues, e Vice-Presidente Jorge Abrantes dos Santos.
Entre outros cargos da Direção, destacamos aqui o de Assistente Técnico (1955-1957), com os nomes de Aloisio Magalhães, Francisco Brennand e Reynaldo d’Aquino Fonseca. E os do Conselho Consultivo, pois é quando encontramos pela primeira vez o nome de Paulo Freire no primeiro Livro de Ata da Escolinha de Arte do Recife, da seguinte forma:
Para o Conselho Consultivo foram indicados os nomes seguintes para preencher as vagas existentes – João Alfredo, Murilo Guimarães, Sebastião de Holanda Cavalcanti, Valdo Antônio Barbosa da Rocha e Maria de Lourdes Guimarães Ribeiro, Paulo Freire e Fernando Cesar de Andrade. Empossada a nova Diretoria pela presidente da Assembleia (Escolinha de Arte do Recife, Livros de Atas, [s.d.], p. 4).
Na primeira Ata, não encontramos os nomes dos membros do Conselho Consultivo do período (1953-1955), apenas esclarece no Art. 10° que ao Conselho Consultivo caberá trabalhos técnicos, científicos e gerais, mas não identifica quem ocupou esses cargos, diferentemente dos assistentes técnicos (1953-1955).
Em 1957, a Assembleia Geral foi realizada na Escolinha de Arte do Recife, com o propósito de discutir o relatório (1955-1957), exame e aprovação do balanço do período e eleição da Direção para o biênio 1957-1959. Após a aprovação do relatório e balanço, foi por aclamação eleita a Diretoria, mantendo-se o presidente e vice.
Em Ata, foi informado que não houve mudanças no Conselho Consultivo, desta forma manteve Paulo Freire como membro da diretoria no período de 1957-1959, assim como os nomes de João Alfredo, Murilo Guimarães, Sebastião de Holanda Cavalcanti, Valdo Antônio Barbosa da Rocha, Maria de Lourdes Guimarães Ribeiro e Fernando Cesar de Andrade. Logo após esta informação, foi empossada a nova diretoria, e sugerido o aumento do quadro de sócios da Escolinha de Arte do Recife, com o propósito de intensificar os projetos no campo do desenvolvimento estético da criança, do adolescente e do adulto.
Nesse momento, retomamos as sugestões de Paulo Freire, que foram apresentadas na carta citada, na Introdução desta escrita. Na carta, Paulo Freire apresenta seu interesse em defender o projeto da Escolinha de Arte do Recife no Ministério da Educação, sugere cursos e cita Anísio Teixeira como um dos possíveis palestrantes.
E ainda sinaliza a importância das matérias de cultura geral, fundamentais para a Educação Artística, sendo documentos que registram a participação de Paulo Freire na Escolinha de Arte do Recife.
Aqui designamos de Quarta Assembleia, a Assembleia Geral que ocorreu na Escolinha de Arte do Recife, em abril de 1959, que teve como objetivos o relatório, o exame e a aprovação do balanço do biênio 1957-1959, e a eleição da Direção. Foi aprovado por aclamação o Presidente Abelardo Borges Rodrigues, e Vice-Presidente Jorge Abrantes dos Santos. Logo adiante surge o nome Paulo R. Neves Freire, desta vez, no cargo de suplente do Conselho Fiscal[9]. Nessa Ata, de 1959, constam vinte nomes no Conselho Consultivo, incluindo Gilberto Freire, Francisco Brennand, Aloísio Magalhães, Lula Cardoso Ayres, entre as mulheres Maria Elisa Viégas de Medeiros, Maria de Lourdes Wandereley, Célia Osório de Andrade, entre outros.
Os registros de Paulo Freire, no Livro de Atas, mantiveram-se desde a Assembleia Geral de 1955 até o período do seu exílio, em 1964. Antes do exílio Paulo Freire havia sido preso, por dois períodos, no Brasil. No exílio continuou colaborando, enviando material e orientação (Barbosa, 2017) para São Paulo, cidade em que Ana Mae Barbosa passou a morar. Maria Madalena Freire, filha de Paulo Freire, trabalhou com Ana Mae Barbosa em São Paulo, na década de 1970. Mas antes de São Paulo, os filhos de Paulo e Elza Freire (Azevedo, 2014) estudaram na Escolinha de Arte do Recife e foram alunos de Ana Mae Barbosa.
Fazem parte do Arquivo de Fotografia da Escolinha de Arte do Recife várias fotos desse período, com Ana Mae Barbosa na Escolinha de Arte do Recife. E no Arquivo de Trabalhos de Alunos um desenho, de 1954, de Maria Madalena Freire, a filha mais velha de Paulo e Elza Freire, dos cinco filhos.
Considerações finais
Há muito tempo, durante a pesquisa, procurávamos registrar a presença de Paulo Freire na Escolinha de Arte do Recife e não encontrávamos, até que o Livro de Atas nos trouxe a resposta. Documento oficial que possibilitou, não só afirmar, a presença de Paulo Freire na fundação da Escolinha de Arte do Recife, como divulgar as funções exercidas, o pensamento freireano e sua importância com seus colaboradores para a história da educação e da arte.
Diante dos registros, podemos afirmar que Paulo Freire atuou diretamente na Direção da Escolinha de Arte do Recife, como membro do Conselho Consultivo, pelo menos desde 1955 e como Suplente do Conselho Fiscal, a partir de 1959 até o seu exílio, em 1964. Muito material, durante essas décadas, pode ter desaparecido, diante da repressão vivida em períodos como da Ditadura Militar. E ter esses Arquivos na Escolinha de Arte do Recife foi fundamental para esta pesquisa e para outras que podem surgir.
Desta forma, cruzam-se as informações encontradas no Livro de Atas da Escolinha de Arte do Recife e a carta que Noêmia Varela encaminha para Augusto Rodrigues, em que Paulo Freire enfatiza a importância “da parte criadora” e o “desenvolvimento estético da aluna-professora” (Brasil, 1978, p. 78); foi possível, assim, consolidar as ideias de Paulo Freire no Campo da Arte e da estética na Educação.
A participação de Paulo Freire na fundação da Escolinha de Arte do Recife (Lima, 2014) já tinha sido confirmada por meio de uma entrevista da sua filha Maria Madalena Freire. Sua contribuição à educação e à arte pode ser ainda mais extensa do que sabemos até agora. Isto sem falar na influência de seus estudantes, como é o caso de Ana Mae Barbosa.
Ana Mae Barbosa foi estagiária e professora efetiva da Escolinha de Arte do Recife, período em que Paulo Freire estava atuando, antes do exílio. Nas últimas décadas, Ana Mae Barbosa se tornou reconhecida no Brasil e no exterior. Foi a primeira Doutora em Arte-Educação no Brasil (Barbosa, 2017). Também foi responsável pela formação de vários Programas de Pós-Graduação, orientando várias professoras e professores. Inclusive do Programa Associado de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal da Paraíba e Universidade Federal de Pernambuco (PPGAV UFPB/UFPE), da qual um dos autores desta escrita fez parte da primeira turma, em 2010.
Outra importante contribuição de Ana Mae Barbosa foi a Metodologia Triangular, inicialmente assim conhecida na década de 1980, no 14º Festival de Inverno de Campos de Jordão (SP). Nas últimas décadas, com toda flexibilidade para reinterpretações, a Abordagem Triangular tem como proposta integrar a produção, a leitura e a contextualização. Considerada um marco no ensino de arte, não poderia faltar nesta conclusão, pois tem sua gênese nos/dos/com os cotidianos (Alves, 2008) da Escolinha de Arte do Recife.
Referências
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Notas
Aristóteles de Paula Berino. Doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense. Docente na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/8079382084565252.
Autor notes

