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AFROINFÂNCIA: ENTRE O COTIDIANO DA ESCOLA E AS REDES SOCIAIS
AFROINFANCY: BETWEEN EVERYDAY LIFE AT SCHOOL AND SOCIAL MEDIA
AFROINFANCIA: ENTRE LA VIDA COTIDIANA EN LA ESCUELA Y LAS REDES SOCIALE
Revista Espaço do Currículo
Universidade Federal da Paraíba, Brasil
ISSN: 1983-1579
Periodicidade: Cuatrimestral
vol. 17, núm. 2, e70508, 2024
Recepção: 16 Junho 2024
Aprovação: 06 Julho 2024

Resumo: O presente artigo narra a experiência do projeto Afroinfância, que se fundamenta nas ideias de Molefi Kete Asante sobre o paradigma da afrocentricidade. O projeto Afroinfância busca reescrever a narrativa da história da África e se aproximar das tecnologias africanas de educação. Por meio das redes sociais, o projeto desafia as práticas curriculares tradicionais e influencia a formação de professores, incentivando-os a repensarem suas abordagens educativas para melhor atender às necessidades das crianças negras. Assim, o artigo busca apresentar as narrativas de professoras que, em contato com o projeto, refletem sobre processos educativos incorporando princípios curriculares fundamentados no paradigma afrocêntrico, principalmente na Educação Infantil. O Afroinfância destaca a importância de uma educação que não apenas identifique o racismo, mas também valorize as contribuições africanas para a humanidade e, consequentemente, o pensar e fazer educação. Em suma, o Afroinfância posiciona-se como um espaço formativo virtual importante para repensar e promover fissuras dentro do currículo da Educação Infantil, partindo das experiências africanas e afro-diaspóricas para construir um outro modelo de educação, não hegemônico.
Palavras-chave: afrocentricidade, educação infantil, currículo, redes sociais, narrativas.
Abstract: The paper presents the Afroinfância [Afrochildhood] project, which is grounded in Molefi Kete Asante’s ideas in line with the Afrocentricity paradigm. The Afroinfância project seeks to rewrite the narrative of African history and to embrace African educational technologies. Through social media, the project challenges traditional curriculum practices and influences teacher training, encouraging teachers to rethink their educational approaches to better meet the needs of black children. Thus, this paper aims to present the narratives of teachers who, as a result of the project, reflect on their educational processes by incorporating curriculum principles structured by the Afrocentric paradigm, particularly in Early Childhood Education. Afroinfância highlights the importance of an education that not only identifies racism but also values African contributions to humanity and, consequently, to how education is conceived and practiced. In sum, Afroinfância positions itself as an important virtual formative space to rethink and promote ruptures within the Early Childhood Education curriculum, with African and Afro-diasporic experiences as the core components of another, non-hegemonic educational model.
Keywords: afrocentricity, early childhood education, curriculum, social media, narratives.
Resumen: El presente artículo narra la experiencia del proyecto Afroinfancia, que se fundamenta en las ideas de Molefi Kete Asante sobre el paradigma de la afrocentricidad. El proyecto Afroinfancia busca reescribir la narrativa de la historia de África y acercarse a las tecnologías africanas de educación. A través de las redes sociales, el proyecto desafía las prácticas curriculares tradicionales e influye en la formación de profesores, incentivándolos a repensar sus enfoques educativos para mejor atender las necesidades de los niños negros. Así, el artículo presenta las narrativas de profesoras que, en contacto con el proyecto, reflexionan sobre procesos educativos incorporando principios curriculares fundamentados en el paradigma afrocentrista, principalmente en la Educación Infantil. Afroinfancia destaca la importancia de una educación que no solo identifique el racismo, sino que también valore las contribuciones africanas a la humanidad y, consecuentemente, el pensamiento y la práctica educativa. En suma, Afroinfancia se posiciona como un espacio formativo virtual importante para repensar y promover fisuras dentro del currículo de la Educación Infantil, centrando las experiencias africanas y afro-diaspóricas para construir otro modelo de educación, no hegemónico.
Palabras clave: afrocentricidad, educación infantil, currículo, redes sociales, narrativas.
Notas iniciais
Frequentemente, discussões sobre o currículo escolar e as questões relacionadas à criança negra nas escolas brasileiras limitam-se ao debate racial e suas problemáticas. Essas questões são abordadas sob a perspectiva do racismo, da colonização e da escravização, o que pode impactar negativamente a experiência educacional das (os) professoras (es) em formação e, consequentemente, das crianças negras. Desse modo, é necessário refletir sobre alternativas que rompam com a hegemonia branca e promovam uma concepção curricular diferente da posta. Nesse sentido, as redes sociais têm se tornado um espaço fértil para o compartilhamento de experiências educacionais mais diversas.
O presente artigo busca apresentar a experiência do projeto de pesquisa-formação Afroinfância, que está ancorado no paradigma afrocêntrico de educação. O projeto visa a refletir sobre as práticas escolares a partir da centralidade africana e promover mudanças dentro e fora das escolas, utilizando o Instagram como uma tecnologia educacional de longo alcance. Essa plataforma atinge milhares de professoras(es) que buscam nesse espaço um aporte teórico e metodológico para suplantar a carência no entendimento acerca da educação das relações raciais.
O projeto Afroinfância também resulta de um conceito em desenvolvimento na diáspora brasileira, o qual visa a refletir sobre a infância negra, a partir do paradigma afrocêntrico sistematizado por Molefi Kete Asante (1988). De acordo com Asante, a afrocentricidade pode ser entendida como um processo de recentralização da pessoa africana a partir da agência e localização centradas em valores e princípios africanos, uma vez que estiveram à margem da sua própria história.Nesse sentido, o projeto visa fomentar conexões entre as professoras(es) que atuam dentro das escolas de modo comprometido com uma outra narrativa sobre África, educação, crianças negras e currículo.
Quase diariamente, professoras (es) compartilham experiências oriundas das fragilidades existentes na educação básica em paralelo ao trabalho de educação acerca das relações raciais, como narra a professora Malí[1], a respeito da ausência de formação para professoras (es)s: “Até então, eu não havia realizado nenhuma formação na graduação ou em serviço sobre as questões étnico-raciais, as leis 10.639/03 e 11.645 só ouvia falar superficialmente”. Já a narrativa da professora Zeferina expõe a fragilidade da escola em relação ao entendimento dos elementos culturais negros e seus significados: “Trabalhei em uma creche e uma das professoras falou: ‘Aquela bonequinha que eu chamo de boneca de vodu?’” – fazendo referência à boneca Abayomi.
Observamos que, mesmo com a Lei 10.639/03, que busca integrar a temática História e Cultura Africana e Afro-Brasileira no currículo oficial da rede de ensino, a realidade em muitas escolas ainda é bem diferente. Há uma ausência de conteúdos ligados à cultura afro-brasileira e à história dos povos africanos no período anterior ao sistema escravocrata (Silva, 2001).
Parece que o continente africano não existiu antes da colonização e da escravização, já que grande parte dos conhecimentos transmitidos nas escolas sobre os povos e culturas africanas estão relacionados aos danos produzidos pela escravidão, em vez de destacar as ricas contribuições africanas para a humanidade antes e após esses embargos históricos. Alternativamente, mesmo quando a instituição afirma trabalhar com projetos relacionados à história e cultura africana, eles são reduzidos apenas a momentos pontuais, como o 13 de maio, de forma bastante equivocada, e o mês de novembro – por conta das comemorações do Dia da Consciência Negra. Nesses eventos, a presença africana é enfatizada principalmente em áreas como dança, culinária e vestuário, ou a discussão limita-se à temática do racismo. Como narra a professora Okinka: “Realizamos uma atividade no mês de novembro com as crianças e, em todas as áreas que trabalhamos, a problemática do racismo foi a principal: racismo na religião, racismo nas ciências, racismo na escola? Onde estão as contribuições africanas?”
Para Asante (2009), o paradigma afrocêntrico emerge como um processo de conscientização política de um povo historicamente marginalizado em termos de educação, arte, ciência e economia. Operar sob uma lógica afrocêntrica na educação exige mais do que a simples identificação e problematização do racismo nas escolas. Nesse sentido, o Afroinfância objetiva promover a valorização das narrativas africanas e afro-diaspóricas na infância e preencher uma lacuna existente na educação básica brasileira, especialmente na Educação Infantil, ao refletir a experiência africana e afrodiaspórica dentro das escolas.
Desse modo, a educação afrocêntrica não se restringe a inserção de conteúdos ou fatos históricos relacionados à África no currículo (Watson-Vandiver; Wiggan, 2021); de modo mais abrangente, propõe-se a pensar sobre as bases que sustentam a educação brasileira, as quais geralmente estão alicerçadas em estruturas hegemônicas.
Assim, nos colocamos diante das questões que fundamentam este recorte de pesquisaformação: o que narra o projeto Afroinfância sobre o currículo em movimento e as cosmopercepções na infância? Como o Projeto Afroinfância situa-se entre a escola e as redes sociais no processo de formação docente? O que narram as (os) professoras (es) sobre a sua relação com o projeto AfroInfância? Esta pesquisaformação fundamenta-se em uma experiência circular ancestral que integra outros espaços formativos encontrados também nas redes sociais. Tem por base a perspectiva da pesquisa narrativa, em que os relatos de experiências pedagógicas são fundamentais para compreender o processo de construção da proposta de investigação.
Abordagem afrocêntrica e concepção de currículo
A abordagem afrocêntrica de educação e a sua concepção curricular representam um movimento que busca redefinir os paradigmas tradicionais de educação, os quais historicamente têm sido centrados em uma base hegemônica eurocêntrica. Este movimento visa a recentrar as experiências africanas e afro-diaspóricas dentro da cultura escolar, indo além de um simples planejamento pedagógico ou da adição de fatos e histórias africanas ao currículo.
O paradigma afrocêntrico, que serve de base para a Educação Afrocêntrica, foi elaborado por Molefi Kete Asante (2009, p. 93), um intelectual africano nascido na diáspora norte-americana. Segundo o autor, a Educação Afrocêntrica pode ser definida como “um tipo de pensamento, prática e perspectiva que reconhece os africanos como sujeitos e agentes de fenômenos que moldam sua própria imagem cultural e agem conforme seus próprios interesses humanos”.
Nesse sentido, para Ani (2019, p. 02), “o maior desafio enfrentado pelas pessoas de descendência africana deslocadas de nossa base em nossa pátria-mãe é a fragmentação social, desconexão e confusão axiológica ou de valores”. No entanto, a mesma autora afirma que, partindo da força espiritual dos antepassados, as pessoas africanas/negras têm encontrado na comunidade formas de educar seus filhos, ensinando-lhes seus valores. Sobonfu Somé (2003), ao narrar as experiências dos povos Dagara sobre relacionamentos dentro da comunidade, complementa essa colocação ao afirmar que as crianças são vistas como seres espirituais com um propósito, e a comunidade deve ajudar essas almas a se lembrarem de seu destino e a cumpri-lo, nutrindo-as espiritualmente com ensinamentos tradicionais.
Tanto Ani (2019) quanto Somé (2003) lembram-nos da relevância da criança dentro das comunidades africanas e da importância de nutri-las para que se fortaleçam diante da vida. Por isso, é necessário considerar a adoção de um currículo afrocêntrico quando falamos em escolarização. Nesse sentido, Nogueira explica que:
Uma proposta de educação afrocentrada deve estar assentada em fundamentos apoiados na história dos povos africanos, numa linha filosófica africana, em investigações sociológicas que analisem as sociedades africanas e afrodiaspóricas, e numa psicologia afrocentrada. (Nogueira, 2010, p. 6).
A africanização do currículo da educação infantil vai além de um único campo de experiência, buscando integrar diversos aspectos da cultura africana e afro-diaspórica. Uma abordagem afrocêntrica inspira-se em movimentos já existentes, como a integração dos princípios da Kwanzaa[2] no currículo escolar. Escolas como a Creche Escola Maria Gregória dos Santos[3], localizada no bairro da Mangueira, em Salvador, e instituições afrocêntricas nos Estados Unidos, como a Marcus Garvey School, adotam a celebração afro-diaspórica como uma proposta possível para a construção de um currículo afrocêntrico. Valores como ujamaa (economia cooperativa), ujima (trabalho coletivo e responsabilidade), umoja (unidade), kujichagulia (autodeterminação), nia (propósito), kuumba (criatividade) e imani (fé), que fazem parte dessa celebração, se relacionam com o cotidiano das escolas de base afrocêntrica.
A exemplo disso, o princípio de umoja na Educação Infantil afrocêntrica destaca a importância da unidade africana, envolvendo as famílias na escola e recriando a lógica de aldeia em um ambiente institucional. Por outro lado, o princípio de imani pode ser incorporado ao currículo por meio de experiências que conectam a criança à sua essência, fortalecendo sua autoestima e identidade em um mundo que muitas vezes desvaloriza os valores africanos. A integração desses princípios no currículo reflete a centralidade africana de forma contínua, não apenas pontualmente. Essa abordagem visa a enriquecer a Educação Infantil com valores e tradições que fortalecem a comunidade negra e a sua construção identitária negra.
Assim, de acordo com Watson-Vandiver e Wiggan (2021), uma das características da Educação Afrocêntrica é o reconhecimento da Pedagogia do Patrimônio, a partir da qual busca-se resgatar tudo o que foi perdido durante o processo de Maafa – danos da diáspora africana. Como em um movimento do pássaro Sankofa, é fundamental voltar ao passado e resgatar tudo o que foi deixado para trás antes do estado de Maafa, uma vez que o continente africano era altamente funcional e desenvolvido em diversos aspectos, como na filosofia, tecnologia, cultura e espiritualidade, que eram intrínsecos ao cotidiano.
Ao contrário do que muitos pensam, a educação afrocêntrica não é funcionalmente uma réplica da educação eurocêntrica com núcleo deslocado, mas sim, também, uma resposta à hegemonia branca nas escolas. Ela não exclui outras visões e formas de existência, ao contrário da hegemonia branca, que historicamente marginalizou outras concepções de humanidade. Por sua vez, a educação afrocêntrica visa a recentrar as experiências africanas e afro-diaspóricas no currículo, valorizando não apenas aspectos históricos, mas também a comunidade e a história individual de cada criança, suas demandas e necessidades emocionais, físicas e espirituais.
Esse tipo de educação representa uma ruptura com a hegemonia branca, ao priorizar a centralidade africana – centralidade que está relacionada com a localização psicológica do sujeito (Nogueira, 2010) – no currículo e valorizar o sujeito enquanto ser espiritual com uma ancestralidade poderosa. Nessa abordagem, a competitividade cede lugar à unidade, e a valorização da herança ancestral africana é essencial para fortalecer a identidade e autoestima das crianças negras. Em suma, a educação afrocêntrica vai além de simplesmente aprender sobre a África: é um compromisso com o resgate e valorização das raízes africanas e afro-diaspóricas, promovendo uma educação comprometida com o futuro da comunidade.
A tentativa de inserir crianças em um modelo pedagógico eurocêntrico compromete a compreensão cultural e a identidade das crianças negras. Muitas vezes, elas constroem sua identidade através de “espelhos quebrados”, refletindo imagens fragmentadas e distorcidas. Para atender a criança negra em toda a sua potência criativa e oferecer-lhe um espelho ancestral e autêntico, buscamos, dentro do projeto Afroinfância, centralizá-las e conectá-las nos seguintes eixos curriculares: corpo/movimento, artes/mitologia, ancestralidade/natureza e oralidade/literatura.
Em cada um desses eixos, por meio de reflexões e experiências afrocêntricas, buscamos ampliar o horizonte da criança, permitindo que ela explore diferentes formas de vivenciar a vida a partir de uma cosmopercepção africana. Isso envolve não apenas a conexão com as artes visuais e as expressões corporais, mas também o aprendizado das tradições relacionadas às folhas, ervas e banhos, além da valorização e conexão com os ancestrais. É por meio dessa imersão completa na cultura e nas tradições africanas que a criança pode desenvolver uma compreensão mais profunda de si mesma e do mundo ao seu redor.
Projeto afroinfância: fissuras curriculares dentro e fora da escola[4]
Em 2015, quando iniciei minha atuação como professora de Educação Infantil em uma creche localizada em um município da região metropolitana de Salvador, em um ambiente predominantemente negro, tornou-se evidente a lacuna entre a teoria e a prática educacional no que tange à implementação da Lei 10.639/03. A escola, em sua fragilidade, não conseguia promover adequadamente a educação das relações raciais; as contribuições africanas continuavam a ser subestimadas, resultando em currículos escolares que apresentavam um entendimento superficial e distorcido da legislação; havia falta de materiais didáticos apropriados e pouca disposição política para pensar a infância negra e suas esferas psicológicas, emocionais e físicas.
Assim, realizei um trabalho simultaneamente individual e coletivo de escuta e observação das crianças e da dinâmica da creche no que concerne ao fazer pedagógico. Meu objetivo era entender as principais demandas emergentes naquele espaço. Com base nisso, desenvolvi o projeto Representatividade Negra na Educação Infantil: Artes, Mídia e Literatura. O objetivo central do projeto era promover a construção da identidade e autoestima das crianças negras na Educação Infantil através da representatividade positiva nas artes, mídia e literatura, integrando referências africanas e afro-diaspóricas no currículo escolar. O projeto visava a criar um ambiente de aprendizagem afirmativo, onde as crianças pudessem reconhecer e valorizar suas origens culturais, desenvolvendo autoconceitos positivos e um senso de pertencimento a uma comunidade rica em herança cultural, espiritual e filosófica.
Desse modo, construí um acervo literário que destacava a centralidade das narrativas africanas e afro-diaspóricas, rico em protagonismo negro e histórias que potencializavam as crianças negras e fortaleciam sua autoestima. Anteriormente, a maioria das histórias que compunham a estante da biblioteca consistia nos clássicos contos de fadas, como Branca de Neve, Rapunzel e Cinderela, que não traziam nenhum tipo de representação negra ou abordavam a história negra a partir de narrativas desumanizadoras ou marginalizadas.
Lembro-me com nitidez que, ao apresentar às crianças algumas literaturas negras, como o livro Tanto, Tanto de Trish Cooke, que narra a história de uma família negra reunida esperando a chegada do pai para uma surpresa de aniversário, observei uma resistência. O livro, bastante colorido e repleto de elementos da cultura negra, não foi suficiente para atender às demandas de crianças acostumadas a literaturas que não narravam experiências negras. Elas rejeitaram a história, rindo e apontando que não havia beleza nos personagens por serem negros.
Um sentimento de impotência tomou conta de mim naquele momento. Senti como o racismo estava forjando a subjetividade daquelas crianças, fazendo-as acreditar que ser negro estava atrelado a algo de menor valor. Com frequência, nos encontros pedagógicos, narrava tais situações que ocorriam na sala de aula e falava da importância do trabalho em torno da Lei 10.639/03 na educação infantil. No entanto, repetidamente ouvia de colegas professoras que era difícil falar de racismo e escravidão com crianças tão pequenas. Estávamos diante de dois cenários problemáticos: crianças que não se reconheciam enquanto negras devido à ausência de estímulos que incentivassem a construção identitária negra na escola e professoras com dificuldade de entender e trabalhar a história e cultura africana nas escolas – e mesmo de atinar que essa temática não poderia ser reduzida à problemática do racismo, da colonização e da escravização. É justamente nesse contexto que nasce o projeto Afroinfância.
Com milhares de seguidores, o projeto atualmente alcança educadores da educação básica de diferentes regiões do Brasil. Muitos (as) desses (as) profissionais inspiram-se nos conteúdos produzidos e nas atividades de formação promovidas pelo projeto para fundamentar suas práticas pedagógicas e seus modos de habitar a docência. Acreditamos no poder da educação afrocêntrica como estratégia de emancipação da comunidade negra.
Afroinfância: principais ações
O projeto busca ancorar-se no paradigma afrocêntrico de educação para repensar currículos, metodologias e epistemologias. Entendemos que desenvolver um projeto cujas bases estejam alicerçadas em epistemologias africanas não é tarefa fácil, especialmente em um contexto historicamente tensionado pelo racismo; todavia, é altamente possível quando entendemos a necessidade de afrocentrar a educação.
Durante a pandemia, vimos um crescimento exponencial em nossa rede social. A incerteza dos novos contextos escolares e a necessidade de adaptar a educação de crianças pequenas ao ambiente doméstico e remoto trouxeram milhares de novos seguidores, preocupados com a educação de suas crianças. Em resposta a essa demanda, promovemos uma série de lives diárias no Instagram, vídeos no Youtube e encontros on-line pelo Google Meet, focados em contação de histórias, formações pedagógicas, rodas de conversa e oficinas baseadas na centralidade africana.
Em 2022, realizamos uma oficina de História na Cabaça em parceria com o SESC-BA e, mesmo em meio à pandemia, cerca de 20 crianças receberam em casa kits de materiais artísticos contendo uma cabaça, pincel, tintas, papel e gizes cor de pele Amora, para participar da oficina de forma remota. Foi um momento rico, em que toda a família pôde estar envolvida na atividade, com histórias muito criativas surgindo a partir dessa ação e dessa metodologia recém-criada. As crianças customizaram cabaças e puderam retirar delas as suas histórias construídas a partir de narrativas muito criativas. Ainda em 2022, realizamos duas edições do curso Educação Infantil em Base Afrocêntrica.
A História na Cabaça é uma metodologia criada para compartilhar histórias de forma oral, utilizando a cabaça como instrumento de mediação entre o público e as narrativas. Escolhemos a cabaça por se tratar de um fruto sagrado em diferentes contextos africanos e afro-diaspóricos; por exemplo, em Guiné-Bissau, país que escolhemos retratar, a cabaça assume diferentes performances, ora como utensílios domésticos, ora como instrumentos musicais, além da sua relação com a espiritualidade.
Ainda em 2022, realizamos duas edições do curso Educação Infantil em Perspectiva Africana, cujo objetivo foi oferecer subsídios teóricos e metodológicos no campo da educação das relações étnico-raciais para profissionais atuantes na Educação Infantil. Abordamos aspectos culturais, filosóficos, éticos e estéticos africanos e afro-diaspóricos, alinhados à perspectiva afrocêntrica. Cerca de 60 pessoas, entre famílias e professoras, participaram do curso, que aconteceu de forma totalmente virtual e foi dividido em 3 módulos: Brincadeiras Africanas, Máscaras de inspiração Africana e Literatura Infantil Afrocêntrica.
No módulo 1, discutimos Brincadeiras Africanas e exploramos valores civilizatórios africanos como música, memória, circularidade, religiosidade, ancestralidade, oralidade e ludicidade. Refletimos sobre como esses valores podem ser vividos em sala de aula, considerando a localidade, cultura, hábitos e aspectos relacionais africanos. Já no módulo 2, Máscaras de Inspiração Africana, discutimos o papel social e espiritual das máscaras nas comunidades africanas, pois elas conectam o ser humano ao sagrado. A oficina refletiu sobre a arte no contexto africano como processos de cosmopercepção, deslocando as narrativas eurocêntricas e incorporando essas experiências ao currículo da Educação Infantil. Produzimos máscaras a partir de materiais recicláveis e naturais, como papelão, folhas e sementes.
No módulo 3, refletimos sobre a Literatura Infantil Afrocêntrica e enfatizamos a importância da literatura negra afrocêntrica, exaltando a agência africana/negra. Deixamos de lado as narrativas centradas em estereótipos como a presença do conflito racial, narrativas centradas unicamente na estética feminina, ilustrações caricatas ou narrativas de dor ligadas à problemática do racismo e concentramo-nos em celebrar narrativas de potencialização da nossa história que estão ligadas a diferentes gêneros literários, tais como contos, biografias, poemas e quadrinhos, visto que há uma diversidade de boas obras escritas por pessoas negras.
A literatura infantil afrocêntrica também é central para nosso trabalho. Foi com grande expectativa que lançamos em 2022 nosso primeiro livro, Plantando com Malik. O livro, escrito por mim e pela agrônoma Paulyene Nogueira e ilustrado por Maurício Teixeira, narra a história de Malik, um menino negro que aprende a plantar com seu avô Matsimela, que vive em Moçambique. A escolha de narrar a história de um menino negro deveu-se à escassez de livros que trazem figuras masculinas negras como protagonistas, especialmente quando o racismo não é a pauta central. Malik representa todas as pessoas negras nascidas na diáspora, enquanto o vovô Matsimela simboliza nossas raízes africanas, em um movimento Sankofa, que nos incentiva a aprender o que nos foi retirado com a colonização.
Mais recentemente, junto com o Coletivo Liga do Dendê, lançamos a coletânea Liga do Dendê: Contos para Erê. Estreamos com o conto “Mancani e a Cabaça Encantada”, um conto ambientado em Guiné-Bissau, onde a permanência de uma criança na terra dependia de um ritual realizado em uma cabaça encantada. A cabaça, mais uma vez, é nosso elemento central, revelando-se como objeto sagrado que representa a fertilidade e o útero da mulher.
Outra forma de nos conectarmos ao nosso público é o e-book Literatura, Brincadeira e Experimentações Afrocentradas para Crianças de 0-3 anos, lançado pelo Afroinfância. Neste manual afrocentrado, buscamos incorporar práticas do continente africano e dos povos africanos em diáspora por meio de atividades sensoriais para a Educação Infantil, com crianças de 0 a 3 anos. As brincadeiras foram experimentadas por uma criança de 1 ano e 9 meses, e registradas como um diário de bordo – Malik, que ama brincar e nos proporcionou tardes de risos e experiências lúdicas. Nosso objetivo é que nossas crianças pequenas tenham acesso desde cedo ao legado filosófico, educativo e artístico de matriz africana, a fim de desenvolver sua autonomia, segurança e autoestima.
Adicionalmente, temos um forte diálogo com mães, pais e professoras interessadas em romper com os discursos eurocêntricos sobre educação e formas de educar as crianças negras. Mais de 1.000 textos já foram compartilhados na página, propondo orientações e reflexões importantes sobre educação e afrocentricidade, e dezenas de materiais são disponibilizados gratuitamente para o nosso público, como o jogo Omuluwabi, relacionado com a Educação Infantil nigeriana por meio de tradições orais e filosofemas, tais como provérbios, poemas, canções, cantigas populares e enigmas. É por meio da literatura oral que as famílias iorubás educam as crianças para se tornarem Omuluwabi. Traduzindo, Omuluwabi significa “Omo ti o ni iwa 'bi eni ti a ko ti o si gba eko”, ou seja, uma pessoa que se comporta como alguém que é devidamente bem nutrido e que vive pelos preceitos da educação que recebeu. Assim, criamos um jogo com 30 cartas com afirmações, provérbios e orientações para ajudar as famílias a encorajarem as crianças ao longo do seu desenvolvimento.
Com proposta similar, a Caixinha da Autoestima foi criada em 2021 para fortalecer a autoestima das nossas crianças: as 32 Cartas da Autoestima Afroinfância giram em torno de temas que aproximam a criança da sua família, desenvolvem a sua autonomia, a sensibilidade artística, intensificam as relações com a natureza a partir do contato com a terra e estreitam os laços com os(as) mais velhos(as). As cartas contêm informações como “Wazediwa ndenge!” (que significa “Parabéns, criança” em kimbundu), “E káale!” (“Boa noite” em iorubá) e “Asante sana” (“Muito obrigada” em kiswahili), aproximando a criança das línguas africanas originais. Já afirmações como: “Olhe-se no espelho e fale as seguintes frases: ‘Eu sou forte! Eu sou inteligente! Eu sou bonito(a)! Eu sou capaz’...” lembram a criança das suas potencialidades e características físicas. O objetivo é nutrir a autoestima das crianças negras partindo de referências positivas africanas e afro-diaspóricas.
As cartas da Autoestima Afroinfância são sobre retorno às nossas origens africanas, reverência e valorização da identidade negra, tencionando que a criança, ao se olhar no espelho, não se veja através de um espelho quebrado que nega a sua existência e genialidade, e sim organize-se com base num espelho autêntico, que reflita imagens positivas de quem ela é: um espelho ancestral.
Das redes sociais para a sala de aula: por outros currículos em movimento
Por meio das redes sociais, o projeto Afroinfância tem promovido fissuras curriculares com reflexos na formação de professoras (es), principalmente as (os) atuantes na Educação Infantil das redes públicas e privadas do país. Com frequência recebemos relatos de experiências de docentes sobre seu contato inicial com as discussões promovidas pelo Afroifância. Geralmente movidas (os) por uma inquietação política e afetiva frente ao tensionamento racial, ou partindo do entendimento da urgência em pensar as infâncias negras, muitas professoras e professores buscam no Afroinfância formas de refletir e agir diante das demandas emergentes. Isso faz com que elas (es) reavaliem suas práticas, adotando outras concepções de educação que contemplem as especificidades das crianças negras. Como narra a professora Macani, da região Norte do país:
[...] atuo como professora há 25 anos na educação infantil e no ensino fundamental, sempre tive a ideia de que não existia racismo nas turmas de educação infantil. acreditava e orientava as crianças a crerem que todas as pessoas são iguais. Comecei a pesquisar sobre a racismo, busquei autores que falassem sobre as infâncias negras e quais referências positivas eu poderia trazer para as crianças, foi uma busca incessante por autores que falam sobre as infâncias negras de um ângulo de proximidade de pertença entre teoria e prática, que pudessem me ajudar a fortalecer a infância das minhas crianças negras principalmente as crianças de peles pretas que são as que mais sofrem com o racismo. Nessa busca eu participei da jornada formativa promovida pelo instituto alana, no chão da escola ‘educação antirracista’ quando eu tive o primeiro contato com a professora pesquisadora Carol Adesewa do Afroinfância que falou sobre as infâncias das crianças pretas com muita afetividade [...] (Macani, Perfil Instagram Afroinfância, 2024)
A professora Mancani relata que ao longo de sua trajetória docente sempre reforçou a ideia de que todas as crianças são iguais. Assim, sua forma de pensar a infância estava condicionada a um modelo curricular universal, que não considerava as diferentes formas de pensamento, humanidade e cosmopercepções. Ao refletir sobre os impactos desse pensamento na vida das crianças negras, ela buscou aprofundar-se na perspectiva africana de educação, que difere significativamente das práticas curriculares aprendidas na sua formação inicial.
Em um contexto hegemônico, cada dia em sala de aula parece ser um confronto com a realidade: crianças que lutam para entender e aceitar sua própria identidade em um ambiente que não as reconhece plenamente e silencia suas principais questões identitárias (Cavalleiro, 1998); escassez de recursos e falta de formação adequada, que limitam as formas de ensinar das docentes que estão aprendendo a lidar com as demandas das crianças negras – demandas essas que foram negadas durante suas infâncias e permanecem majoritariamente ausentes dos currículos das instituições de ensino superior, onde as diretrizes étnico-raciais são pouco contempladas de forma contextualizada e integrada (De Godoy, 2017). Ao mesmo tempo, quando professores/as rompem com essa lógica, podem sofrer situações de interdição de sua prática, a exemplo, da dinâmica relatada pela professora Mahin, sobre a realização de uma oficina da Boneca Abayomi em sua turma:
Alguns anos atrás, uma mãe e uma avó foram até a delegacia para registrar uma denúncia contra mim, alegando que eu estava ensinando meus alunos a fazerem ‘vudu’. Minha sorte foi que o diretor da escola era amigo do delegado. Quando elas mencionaram o nome da escola, o delegado ligou para o diretor, que explicou a situação. Foi organizada uma reunião com a polícia na escola, e eu tive que dar uma aula para os pais (com muita indignação), para explicar o óbvio! Foi um desgaste, uma tristeza... Infelizmente, a falta de conhecimento misturado com o preconceito faz as pessoas criarem as piores situações! (Mahin, Perfil Instagram Afroinfância, 2024)
Após publicarmos um vídeo sobre a Boneca Abayomi e o preconceito com o qual é vista por se tratar de uma boneca confeccionada a partir de retalhos de tecido preto, a professora Mahin sentiu-se à vontade para compartilhar conosco a sua experiência ao apresentar a boneca para as crianças do grupo; nesse sentido, observamos que a professora necessitava de um espaço seguro para compartilhar as suas experiências de dor e indignação e que encontrou em um espaço afrocêntrico escuta e acolhimento.
Já para a professora Ayô, da região Nordeste, a chegada de crianças africanas na instituição em que trabalha despertou seu desejo de se aproximar das discussões em torno da educação afrocêntrica e do projeto Afroinfância.
Anteriormente ao período de quarentena, a escola em que desenvolvia práticas docentes não havia recebido crianças africanas como estudantes da instituição. Porém, mediante o processo de resguardo na pandemia, as famílias africanas de países lusófonos que vieram para o município em que trabalho através de programa institucional do governo federal, na perspectiva de estudar na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB), começaram a matricular seus filhos e filhas nas creches e escolas públicas da cidade. E foi através destas crianças que a necessidade de ampliar conhecimentos sobre a verdadeira história e culturas dos povos africanos no Brasil, é que fomos em busca de pesquisadores/as de uma educação afrocêntrica. (Ayô, Perfil Instagram Afroinfância, 2024)
De acordo com Madhubuti (1990) a educação afrocêntrica defende o direito e a responsabilidade de recentrar a educação nas suas próprias tradições, histórias e valores culturais. Através deste processo de recentramento, a educação afrocêntrica busca reproduzir e refinar o melhor das contribuições africanas para a humanidade. Note-se que essa educação é pensada para todas as pessoas africanas, do continente ou das suas diásporas. Porém, mesmo entendendo a importância de refletir sobre a educação afrocêntrica após a chegada das crianças do continente, a professora Ayô expandiu a sua perspectiva, compreendendo que a educação afrocêntrica é ampla e contempla, também, as crianças da diáspora africana, como apresentamos a seguir:
E foi neste momento que convidamos a professora Carol Adesewa para compartilhar conosco seus saberes e experiências de uma educação que inclui e agrega os diversos sujeitos, respeitando e valorizando suas pluralidades. O projeto Afroinfância nos apresentou possibilidades de vivências que fazem parte do cotidiano das crianças, não somente as crianças negras e sim toda a comunidade escolar, dessa forma, passamos a ampliar nossos horizontes para além de atividades que proporcionam a representatividade dos sujeitos e que viabilizam suas histórias de vida, dentro e fora do contexto educacional. Através do encontro formativo com a professora Carol, foi possível compreendermos que o processo de aceitação e de reconhecimento do ser negro/negra desde a educação infantil é elemento fundamental para nutrir ações coerentes aos modos de vidas das crianças pequenas. (Ayô, Perfil Instagram Afroinfância, 2024)
Na ocasião, em 2021, o Afroinfância foi convidado para participar de uma roda de conversa sobre educação afrocêntrica na instituição onde a professora Ayô trabalhava. Essa roda gerou reflexões sobre a concepção de criança orientada pelo Afroinfância, que se fundamenta no conceito Ubuntwana. De acordo com o professor Renato Nogueira (2020), para os povos Xhosa, a palavra Ubuntwana está relacionada ao conceito de infância. O termo é uma aglutinação de Ubuntu (humanidade) e Twana (afeto, paixão ou enamorado); nesse sentido, ubuntwana pode estar relacionado ao afeto pela humanidade. Desse modo, ser criança estaria relacionado com a filosofia Ubuntu, onde o amor a humanidade poderiam ser vividos de forma mais latente. A professora Ayô compreendeu que a educação afrocêntrica vai além da busca por representatividade e envolve considerar o conjunto de práticas escolares e traçar outros caminhos.
Sobre este aspecto, para Dautarin, estudante de Pedagogia da região Norte do país, a educação afrocêntrica é um caminho possível de implantar com as crianças da região em que mora; afirma também que o projeto Afroinfância despertou nele o desejo de enveredar pelos caminhos da Pedagogia:
[...] Seguindo pelos caminhos da Pedagogia, quanto mais acompanhava o Afroinfância, mais certeza eu tinha de que queria cursar Pedagogia. Então, fiz o vestibular e passei; hoje estou no 4º semestre. Quero muito realizar um trabalho que possa alcançar as crianças negras da minha região, seja trazendo-as até mim ou indo até elas com ações. Já pensei em uma proposta de biblioteca com ações nos finais de semana e também em fazer um trabalho pelo Instagram, dando um nome a esse projeto. Tudo isso são ideias. (Dautarin, Perfil Instagram Afroinfância, 2023)
A partir dos processos de fortalecimento pedagógicos construídos em partilha com o Afroinfância, o estudante de Pedagogia Dautarin entendeu que um projeto está intrinsecamente relacionado à continuidade e à reprodução do legado africano e afro-diaspórico. Desse modo, ele começou a idealizar a proposta utilizando as redes sociais como espaços de reconstrução curricular/pedagógica para as escolas que procuram estabelecer outro paradigma educacional para as crianças pretas.
Para Dandara, estudante de Pedagogia residente na região Nordeste do Brasil e em fase de conclusão do curso de pós-graduação, o projeto Afroinfância ajudou a repensar o sentido do seu projeto de Conclusão de Curso.
Eu sou contadora de histórias e estou no processo de escrita do meu TCC da pós-graduação em Narração Artística. Está sendo bem sofrido, sabe? Tinha como principal referência Memórias de Plantação, da Grada Kilomba, um livro incrível, mas que me causou muita dor pra ler. Fiquei remoendo minhas dificuldades de leitura e escrita com os relatos do livro, uma confusão... Até que pensei exatamente isso que você comenta nesse reel: por que começar tratando dos problemas, do racismo mesmo, e não da identidade das crianças? Dos afetos, dos carinhos? A princípio, a ideia era pinçar situações de racismo da minha própria vida para trilhar um caminho de escolha do meu repertório de histórias. Mas depois de muito matutar (e sofrer), pensei que teriam que ser situações de encontro comigo mesma, de autoestima, de descoberta de mim e da minha negritude, da minha ancestralidade. (Dandara, Perfil Instagram Afroinfância, 2023)
Nesse sentido, Dandara compreendeu que o principal marcador de um trabalho, visto por uma perspectiva afrocêntrica, é o agenciamento negro, que é a base do projeto. Uma pessoa negra, em qualquer lugar do mundo, será atravessada pelo racismo e provavelmente não deixará de enfrentá-lo. No entanto, dentro da afrocentricidade, há o entendimento de que a centralidade africana — saber quem se é e o que se pretende fazer ou ser — é crucial para romper com as narrativas que desumanizam as pessoas negras.
O caminho se faz andando…
O Afroinfância destaca-se como um espaço virtual importante para repensar e promover fissuras no currículo da Educação Infantil, priorizando as experiências africanas e afro-diaspóricas, com o objetivo de criar um modelo educacional mais diverso. Sob uma abordagem afrocêntrica, diversas estratégias curriculares e metodológicas têm sido desenvolvidas, principalmente na Educação Infantil, que é o foco principal de nosso interesse.
Através das histórias compartilhadas por professoras (es), percebemos que o projeto, inicialmente despretensioso em seus objetivos de inspirar uma reflexão sobre práticas educativas, tornou-se, ao longo de seus sete anos de existência, um espaço formativo transformador e acolhedor. Ele não apenas inspira, mas também é enriquecido pelas diversas trocas de conhecimento e experiências compartilhadas, resultando em novas abordagens para a educação das crianças negras na diáspora brasileira, que vão além do debate restrito ao racismo.
Nos relatos diários que recebemos das professoras e professores participantes de nosso projeto, é evidente o quanto esses profissionais estão comprometidos com a educação das crianças negras e como eles se recusam a se conformar com um currículo predominantemente branco imposto de cima para baixo. Elas (es) buscam ativamente espaços autônomos de formação para trocar experiências, compartilhar conhecimentos e produzir novas formas de pensar sobre a educação.
Dessa forma, professoras (es) garantem que a roda da transformação continue girando, mobilizando outros profissionais da educação que, assim como elas (es), acreditam no potencial transformador da educação. Elas (es) apropriam-se do conhecimento e agenciam suas próprias formas de reflexão, propondo e promovendo rupturas no currículo dentro e fora da escola. Essas rupturas não apenas destacam o potencial e a genialidade das crianças negras, mas também beneficiam toda a comunidade escolar, ao buscar uma educação não hegemônica e impositiva que valorize o coletivo sobre o individualismo.
Referências
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Notas
Autor notes

