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PERIFERIA EM FOCO: diálogos entre jovens pretos e a escola
PERIPHERY IN FOCUS: dialogues between young blacks and the school
PERIFERIA EN FOCO: Diálogos entre jóvenes pretos e a escola
Revista Espaço do Currículo
Universidade Federal da Paraíba, Brasil
ISSN: 1983-1579
Periodicidade: Cuatrimestral
vol. 16, núm. 2, 2023
Recepção: 10 Julho 2023
Aprovação: 26 Julho 2023

Resumo: O presente artigo tem como principal temática as reflexões de estudantes de uma escola que oferta os anos finais do ensino fundamental e que atende aos alunos moradores de uma favela de um bairro da periferia carioca. A maior parte do corpo discente é formada por estudantes pretos e pardos, que durante muito tempo não enxergaram a escola enquanto território. Na narrativa que segue, traremos os debates insurgentes que se deram entre discente e alunos de uma das turmas da escola sobre racismo e discriminação racial e as ideias acerca de hierarquias entre os grupos humanos, tendo o branco caucasiano como padrão e os demais grupos étnicos como negros e indígenas posições subalternas. Nesse contexto, esse artigo tem como principal temática, analisar os desdobramentos da supervalorização da estética de matriz europeia na identidade de estudantes de escolas públicas do estado do Rio de Janeiro, situadas nas periferias da região metropolitana do estado. Assim, temas como negritude, periferia, estética e juventude permearam os relatos dos estudantes e revelaram um processo educativo que reinventa não apenas o pertencimento e a ocupação do espaçotempo da escola pelos estudantes, como também a perenidade das lutas antirracistas no Brasil. A reflexão que segue contribui para produção de ações mais horizontalizadas e para uma ecologia dos saberes que emerge das práticas que vêm permitindo o reencantamento do mundo por essa comunidade interpretativa.
Palavras-chave: Horizontalidade, Negritude, Escola, Juventude.
Abstract: The present article has as its main theme the reflections of students of a school that offers the final years of fundamental education and that attends to some residents of a favela in a suburb of Rio de Janeiro. The majority of the student body is made up of black and brown students, who for a long time did not encompass the school as a territory. In the narrative that follows, we will bring the insurgent debates that took place between students and students of one of the school classes about racism and racial discrimination and the ideas about hierarchies among human groups, with the white Caucasian as standard and the other ethnic groups as blacks and indigenous subaltern positions. In this context, this article has as its main theme, to analyze the developments of the overvaluation of the aesthetics of European matrix in the identity of students of public schools of the state of Rio de Janeiro, located in the peripheries of the metropolitan region of the state. Likewise, themes such as blackness, periphery, aesthetics and youth will permeate the stories of the students and will reveal an educational process that reinvents not only its belonging to the occupation of the space of the school by the students, but also the continuity of the anti-racist struggles in Brazil. The reflection that follows contributed to the production of more horizontalized actions and to an ecology of two knowledges that emerge from the practices that we see allowing the re-enchantment of the world by this interpretative community.
Keywords: Horizontality, Blackness, Youth, School.
Resumen: Este artículo tiene como tema principal las reflexiones de alumnos de una escuela que ofrece los últimos años de la enseñanza primaria y que atiende a alumnos que viven en una favela de un barrio de la periferia de Río de Janeiro. La mayor parte del estudiantado está formado por estudiantes negros y pardos, que durante mucho tiempo no vieron la escuela como un territorio. En la narrativa que sigue, traeremos a colación los debates insurgentes que tuvieron lugar entre alumnos y alumnos en una de las clases de la escuela sobre el racismo y la discriminación racial y las ideas sobre jerarquías entre grupos humanos, con los blancos caucásicos como estándar y otros grupos étnicos. como posiciones subordinadas de negros e indígenas. En ese contexto, el tema principal de este artículo es analizar las consecuencias de la sobrevaloración de la estética europea en la identidad de los estudiantes de escuelas públicas del estado de Río de Janeiro, ubicadas en la periferia de la región metropolitana del estado. Así, temas como la negritud, la periferia, la estética y la juventud permearon los relatos de los estudiantes y revelaron un proceso educativo que reinventa no sólo la pertenencia y ocupación del espacio y del tiempo escolar por parte de los estudiantes, sino también la perennidad de las luchas antirracistas en Brasil. La reflexión que sigue contribuye a la producción de acciones más horizontales ya una ecología de saberes que emergen de las prácticas que han permitido a esta comunidad interpretativa reencantar el mundo.
Palabras clave: Horizontalidad, Negrura, Juventud, Escuela.
1 INTRODUÇÃO
Passados mais de cem anos desde que os discursos médicos, que tinham na escola de Medicina da Bahia seu centro de produção, inundaram a sociedade brasileira com ideias ditas cientificas acerca de hierarquias entre os grupos humanos, tendo o branco caucasiano como padrão e os demais grupos étnicos como negros e indígenas em posições subalternas a esses, assistimos mais uma vez a retórica médica, em nome de um padrão de beleza que também tem suas bases no ideal europeu, subalternizar corpos indígenas e africanos. Multiplicam-se procedimentos conhecidos como harmonizações faciais e cirurgias plásticas que se propõe “suavizar” características em prol do padrão previamente estabelecido.
Nesse contexto, esse artigo tem como principal temática, analisar os desdobramentos da supervalorização da estética de matriz europeia na identidade de estudantes de uma escola publica da cidade do Rio de Janeiro que atende majoritariamente estudantes negros de uma comunidade carioca. Intentamos verificar como o cotidiano desses sujeitos é afetado por tais ideias e as táticas de resistência que se dão frente aos padrões impostos tendo em vista que embora estejam diante de uma série de desvantagens impostas pela a sociedade onde o racismo conforme proposto por Almeida(2019) estrutura todas as relações, os jovens da comunidade em questão são herdeiros de um passado de lutas ancestrais que desafiam cotidianamente as desigualdades sociais ratificadas pela branquitude[1] e que nos permitem vislumbrar relações sociais mais justas que contribuam efetivamente para a superação do desencanto conforme Weber(2006) na medida em que as hierarquias entre os grupos humanos e a desqualificação das heranças africanas são responsáveis por parte significativa do sofrimento de uma infinidade de povos e grupos sociais.
A passagem do século XIX para o século XX assistiu o recrudescimento do cientificismo e do racismo científico. Ciência e escolas de medicina da época como a do Recife, da qual Nina Rodrigues era um de seus maiores representantes, atestavam a superioridade do branco europeu em detrimento dos demais grupos raciais como negros e indígenas. A construção do ideal de cidadão brasileiro que acompanhou a proclamação da república, mostrou-se inundada por tais equívocos e despautérios.
Ciências sociais como a história, sociologia e a psicologia apresentam nos dias de hoje, diversos trabalhos e pesquisas que apontam para desdobramentos do racialismo científico no pensamento racial brasileiro da mesma forma que destacam a preponderância dos diversos movimentos negros na luta pela desconstrução da discriminação racial no Brasil.
A despeito dessas lutas, a segunda década do século XXI mostra, mais uma vez, discursos médicos que apontam para padrões e estereótipos que também estão calcados no norte europeu e insistem em desconsiderar a diversidade brasileira, marcada pelas ascendências indígenas e africanas.
Multiplicam-se procedimentos como as conhecidas “harmonizações faciais” que descaracterizam traços étnicos, e as cirurgias plásticas que têm por objetivo intervir em traços fenotípicos. Acompanhando as redes sociais de um cirurgião proeminente do Rio de Janeiro, encontramos uma postagem que trata da plástica em diversos narizes étnicos como o asiático e o negro. Sobre o nariz de ascendência africana, é descrita a necessidade de “suavizar” os traços.
Da mesma forma, após movimentos marcados pela valorização de cabelos crespos e cacheados que se fortaleceram principalmente durante a pandemia da SarsCovid19 cujo ápice aconteceu no ano de 2021, jornais como a folha de São Paulo[2] estampam manchetes como a que apresenta o título: “Mulheres negras voltam a alisar o cabelo”, na reportagem, é descrito que a busca por praticidade é o principal fator para o retorno à alisantes químicos e que embora as “cacheadas” também estejam retomando a prática, são as mulheres negras as que mais tornam a recorrer a tais procedimentos.
As constatações nos levam a refletir sobre os desdobramentos do padrão branco e da branquitude na população não branca. Solidificando pensamentos de desajuste, incompletude e não adequação, típicos de uma sociedade onde o racismo é estrutural conforme descrito anteriormente.
Neste cenário, a pesquisa a qual esse artigo refere-se preocupa-se em pensar possíveis desdobramentos do padrão de beleza baseado no norte europeu em jovens da periferia que estudam em uma escola pública que atende alunos de uma favela da cidade do Rio de Janeiro. A pesquisa contou com 17 jovens com idades entre 13 e 17 anos que participam de uma iniciativa que tem por objetivo a correção de distorção série/idade. Segundo apuramos junto a uma das professoras da turma, os alunos selecionados apresentam defasagem série/idade e necessitam concluir o processo de alfabetização. No final da proposta, isto é, em 2 anos, avançam do primeiro segmento do ensino fundamental para o ensino médio.
Diante da realidade que se apresenta atravessada por condicionantes, conceitos e informações que a todo tempo reforçam o pacto da branquitude que segundo Bento (2022) trata-se do acordo tácito entre herdeiros brancos, de transferir as próximas gerações um legado de vantagens que são tidas como se fossem mérito, contribuindo para a manutenção de seu privilégio. Negar o direito básico a alfabetização significa a manutenção de uma herança de desigualdades e ao acesso aos bens sociais e econômicos produzidos pela sociedade. A periferia preta analfabeta certamente favorece a hegemonia da elite branca.
Dentre outros arquétipos, a superioridade daqueles de fenótipo próximo ao europeu, é uma das armas utilizadas nesse processo de manutenção do “pacto da branquitude” conforme proposto pela autora, influenciando inclusive na forma como os não brancos compreendem a si mesmos, relegando seu grupo a um lugar de “supremacia social”. Paradigmas que sustentam uma sociedade que defende o mérito, desconsiderando o impacto das diferentes trajetórias dos grupos como o acesso à saúde, educação e moradia conforme proposto pela autora.
Sendo a infância e a adolescência categorias transitórias e fundamentais no processo de construção de identidade dos sujeitos, questionamos as consequências de um processo de socialização em lugares onde “racismo estrutural” e pacto da “branquitude” são reais e ainda desconhecidos por muitos, principalmente por aqueles que sofrem cotidianamente seus desdobramentos. Vale também ressaltar o fato de que as famílias das crianças e jovens que participaram da proposta também tiveram de lidar com processos civilizatórios excludentes e psicologicamente adoecedores.
Consumidores das diversas mídias sociais, a todo tempo os jovens que frequentam a escola pesquisada recebem informações acerca de um ideal de beleza, de família, de cultura que relegam e segregam os que não comungam do padrão estabelecido pelo pacto da branquitude sem acessar a forma como as verdades, gostos e desejos são socialmente construídos e historicamente perpetuados inclusive pela chamada “indústria da beleza” e por muitos sujeitos que estão a seu serviço e contribuem para a disseminação de tais padrões.
Ao refletir sobre os processos de socialização de crianças e adolescentes, também é preponderante entender como a escola brasileira pode perpetuar ou contribuir para o questionamento do pacto da branquitude. Forjada a partir da construção da república brasileira e ainda com reminiscências do modelo francês da década de 1960, a escola brasileira por muito tempo insistiu num currículo excludente, que privilegiava o conhecimento de matriz europeia e ratificava, ainda que tacitamente a hierarquia entre os grupos.
Estudos e pesquisas revelam que embora o acesso à educação tenha aumentado significativamente, a população negra ainda apresenta menos anos de escolaridade e que os meninos pretos são os que em maior número evadem da escola. Mais o uma vez o discurso da meritocracia é posto em prática e a despeito de todo capital simbólico conforme Bourdieu(1975) manipulado por essas instituições, desqualificando aqueles que carregam outras heranças culturais e simbólicas. Desta forma, recai sobre o indivíduo a responsabilidade de alcançar determinados parâmetros sem que o mesmo sequer tenha a chance de discutir a herança de desvantagens com as quais precisa lidar cotidianamente.
2 ESTUDANTES E A PROPOSTA
Dos 17 estudantes que participaram da pesquisa, 15 declaram-se negros, isso é, pretos ou pardos conforme as categorias estabelecidas pelo IBGE e 2 brancos. O quantitativo de alunos que participaram da iniciativa nos leva a refletir sobre a educação que é oferecida a população negra conforme discorremos acima. D’Villa(2001) nos informa sobre o papel da escola na política de branqueamento que se deu na primeira metade do século XX , escola essa que durante parte considerável de sua história dedicou-se a uniformizar as diferenças, desvalorizando a cultura e a história de matriz africana, e consequentemente, afastando de seus quadros muitos estudantes negros.
Seriam os alunos do projeto excluídos do sistema de educação brasileiro? O que dizer sobre a autoestima de um jovem que chega aos 17 anos sem dominar o código e completar o processo de leitura e da escrita?
Embora ainda estejam desenvolvendo habilidades relativas ao domínio do código, os estudantes acessam regularmente diversas redes sociais e têm nos conteúdos fornecidos por essas mídias, importante fonte de acesso ao conhecimento, construção de conceitos e entretenimento.
As táticas utilizadas pelos estudantes para acessar as redes e mídias sociais a despeito de um processo de alfabetização em andamento, ratificam a ideia de que humanos são capazes de aprender e que a escola precisa mobilizar as ferramentas adequadas para facilitar o processo de aprendizagem, dentre elas, a valorização cultural do capital dos alunos como proposto anteriormente.
A comunidade onde a maioria dos alunos reside não conta com aparelhos como cinema, teatro e fica distante da maior atração da cidade do Rio de Janeiro: seu conjunto de praias. O bairro da zona norte tem nos transportes um problema crônico, dificultando a mobilidade dos estudantes e suas famílias.
Todavia, a partir dos relatos dos estudantes foi possível perceber a riqueza cultural que emana do espaço, como o baile funk e os tradicionais grupos que se preparam durante todo ano para as conhecidas “quadrilhas” que se apresentam nos meses de junho e julho. Mobilizados por essa tradição, os alunos da escola organizaram-se e encenaram um número musical deslumbrante no evento junino organizado pela escola.
O grupo investigado tem em comum larga experiência nas duas escolas que atendem os moradores da comunidade e um “histórico de insucesso e baixo aproveitamento” de acordo com os parâmetros propostos pelas unidades, a despeito de uma infinidade de saberes e tradições que esses sujeitos mobilizam a todo tempo. Estigmas como violentos, desatentos, indisciplinados ou pouco esforçados são comuns, além da frequência à sala da diretora quando os conflitos que se dão na sala de aula excedem as possibilidades de solução por parte dos professores ou agentes educadores.
Diante dos encontros e desencontros que marcam a trajetória estudantil desses estudantes, nos propomos a refletir sobre a forma como os alunos percebem e elaboram o racismo e o padrão de beleza imposto. Sendo assim, foi proposto uma atividade em que após a exibição do curta metragem “Lápis Cor da Pele”[3], de uma apresentação com diversas propagandas que circulam nas redes sociais e da postagem do cirurgião plástico que tratavam da adequação dos diversos tipos de narizes que era descritos como “étnicos” por carregarem marcas fenotípicas de determinados grupos.
No decorrer da atividade, aplicada por uma das professoras da turma, chamou a atenção da regente a dificuldade dos alunos para lidar com as questões que foram apresentadas após a exibição das mídias e do debate. Segundo a docente, os estudantes demonstraram muitos entraves para interpretar as questões. Chamou sua atenção o fato de que muitos deles pareciam não identificar racismo na sociedade. A professora nos relatou que para seus alunos, tudo parece “normal”.
Em conjunto, levantamos a hipótese de que a negar pode ser uma das táticas encontradas pelos meninos para lidar com suas dores num ambiente escolar que historicamente os excluiu de seus processos. Dos 17 alunos que participaram da pesquisa, 13 informaram nunca ter vivenciado ou souberam de pessoas próximas em situação de racismo e discriminação racial.
A primeira hipótese que nos salta aos olhos durante nossa atividades e debates é a de que os meninos precisam de instrumentos para lidar com o racismo e a discriminação racial, todavia, o avançar dos relatos descortina formas orgânicas e bastante interessantes de lidar com a realidade, além da eclosão de muitos caminhos para a transformação social, ratificando a ideia de que a luta antirracista, iniciada desde os primeiros contatos entre europeus e escravizados, renova-se a cada dia e que esses adolescentes também são herdeiros das lutas de nossos ancestrais.
Embora ainda estejam completando o processo de alfabetização, quando questionados, todos destacaram o acesso a redes sociais com destaque ao Facebook,” Tic Tock”,” Youtube” e “Whatsapp” e TV . Dentre os estudantes, 13 relataram não se sentir representados pelos veículos de mídia que acessam.
“Eu não me vejo porque só tem branco”
“Eu não me vejo, percebo pessoas brancas com cabelos lisos” .
“Quase nunca vejo pessoas negras na televisão”
“Eu não me sinto representado porque eu sou negro e na televisão só aparece gente branca e não é só na televisão.
“Não, só aparecem pessoas brancas para mim”
Quando questionados sobre como negros e indígenas são vistos nos veículos por eles acessados, destacaram-se respostas como:
“Os negros sempre aparecem como alguém ruim”
“Assaltante, ladrão”
“Assassino, assaltante e estuprador”
“Ladrão, dono da favela”
“Eu acho que gente negra não merece ser tratada assim, tipo, só como escravos. Por que ninguém merece isso.”
“Negros aparecendo roubando nos jornais”
O grupo de estudantes que participou da pesquisa demonstrou bastante desconforto ao rememorar a forma como a população não branca é retratada pelas mídias que acompanham diariamente. Percebem o caráter pejorativo dos estereótipos elencados e são críticos ao concluir que se trata de um grande equívoco, constatações que revelam a forma como esses sujeitos percebem a realidade, categorizam e são críticos em suas análises. Contudo, as assertivas contrastam com a questão seguinte onde a grande maioria, 14 dos 17 respondentes afirmou não ter presenciado ou vivido situações de racismo e discriminação racial, assim como como suas colocações para a professora que conduzia a pesquisa onde foram contundentes em dizer que as cenas que apareciam no vídeo que discutia racismo e discriminação racial apresentavam apenas situações cotidianas e normais.
A criticidade dos alunos frente a forma como negros e indígenas são representados pelas mídias que acessam e a paradoxal normalização de situações que podem no remeter a racismo e discriminação são dados importantes para refletir sobre como os jovens investigados vivenciam e lidam com o racismo estrutural e de que forma a escola pode contribuir para a mudança a partir do investimento em um currículo que possibilite o desenvolvimento de uma educação antirracista.
O estranhamento e a criticidade são elementos construídos pelos meninos ao longo de suas vidas, e das lutas que presenciam no cotidiano. Os estudantes chamaram atenção para a falta de equidade na forma como negros e não negros são não só representados pelas mídias, como percebidos pela sociedade. O posicionamento dos estudantes da escola coaduna com a postura de muitos adolescentes e jovens brasileiros seguem utilizando as mídias sociais para denunciar o desrespeito à diferença a partir de uma linguagem que é própria da atualidade.
Por outro lado, a normalização pode denunciar a frequência com a qual os estudantes da pesquisa vivenciam tais questões. “Não enxergar racismo” pode sinalizar a necessidade de proteger-se de uma violência que é insistente e cotidiana. Criticidade e normalização podem configurar o ponto de partida para um trabalho pedagógico que potencialize a percepção dos meninos e meninas e os instrumentalize para a transformação social.
Salientamos também que um dos fios condutores do debate proposto para os jovens, foi a prática ocidental de intervenções que tem por objetivo modificar características fenotípicas como os narizes tendo por objetivo o padrão europeu. Inclusive, foram exibidas postagens de um cirurgião que se diz “especialista no tratamento de narizes étnicos” conforme relatamos acima. Após os debates, os estudantes foram questionados se já cogitaram mudar algo no próprio corpo. Diante da questão, surgiram algumas colocações sobre os cabelos crespos, enquanto outros foram enfáticos na negativa às mudanças dos traços fenotípicos.
“Sim, eu mudaria meu cabelo porque eu quero liso.”
“Meu cabelo porque ele é quebrado”
“Eu mudaria meu cabelo porque o cabelo enrolado é muito brabo”
“Eu não mudaria nada!”
“Eu não faria isso com o meu corpo porque eu gosto de mim assim”
“Não mudaria nada”
“Não porque eu gosto do meu corpo mesmo assim”
Nilma Lino Gomes (2002) é uma das pioneiras nas discussões sobre o quanto manifestações de racismo são dirigidas ao corpo negro e têm como foco o ataque aos cabelos crespos. Cabelos assumem o papel de metáfora do corpo negro e, a ele muitas vezes são dispensadas palavras pejorativas que atingem toda nossa ancestralidade africana. Chama atenção o fato de que jovens, na passagem da adolescência para a vida adulta tragam consigo assertivas doloridas e bastante significativas sobre o racismo dispensado aos seus corpos. Por outro lado, parte do grupo, discorreu sobre o processo de valorização de seus traços fenotípicos o que descortina frutos do movimento antirracista que primam pela valorização dos corpos negros com ênfase no autoamor, autocuidado e no respeito a diferença.
Críticos, bem-informados e vivos! A juventude periférica descortina outras possibilidades para pensar e agir no mundo. Juventude que apesar dos desencontros, inadequações e insucessos ainda acredita na parceria com a escola e cotidianamente inunda a mesma com seus corpos, saberes e possibilidades. Aprender com os meninos e meninas é o caminho viável para a renovação do sistema educacional e para o sucesso de uma educação que precisa ser antirracista.
Para finalizar nossas análises, voltamos ao movimento cultural que parte da comunidade, que inunda o cotidiano dos alunos que se organizam e vibram com as quadrilhas. Na festa promovida pela instituição, presentearam a todos com uma dança junina que unia ao ritmo do São João, o samba e o funk que eclodem na favela como descrevemos no início do texto. Corpos negros que em sincronia encantaram todos os presentes e de uma forma muito particular demonstraram o quanto entendem de matemática, linguagens e ciências biológicas. Os meninos encerraram o evento com o poema da aluna Juliane, um convite a luta e um clamor por uma educação antirracista.
Minha
terra
Minha terra é na favela
O medo mora aqui
Todo dia chega notícia
Que morreu alguém ali
Nossas casas perfuradas
Pelas bala que atingiu
Corações atordoados de medo
da polícia surgiu
poesia de uma estudante

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A hegemonia do padrão civilizatório europeu espalhou a desesperança em diversas partes do mundo. Em nome de uma pretensa superioridade de grupos caucasianos, um número incontável de sujeitos teve sua humanidade questionada e sofreu toda sorte de violência que o homem é capaz de propagar.
No Brasil, as desigualdades raciais foram responsáveis pela morte de milhões de indígenas e descendentes de africanos que aqui foram escravizados. Ao longo da história do Brasil, a reprodução de toda sorte de racismo foi responsável pela exclusão da maior parte da população de direitos sociais e econômicos e da possibilidade de superação da pobreza.
Contudo, as ciências sociais hoje descortinam a potência da luta antirracista no Brasil que teve inícios nos primeiros encontros provocados pelo processo de invasão do território e da diáspora de africanos pelas américas. Dentre os muitos avanços, destacamos a consolidação da luta por uma educação que prima pela valorização da diversidade e a perenidade desses enfrentamentos através das gerações. A atualidade assiste o grito da juventude que clama pela valorização da diferença e pela superação das desigualdades raciais.
Historicamente, a desigualdade educacional entre brancos e não brancos acirrou a herança de desvantagens que separou esses grupos ao longo da História do Brasil. Pesquisas recentes ainda constam que a população negra apresenta menos anos de escolaridade e que os meninos negros são os que mais evadem do sistema escolar brasileiro.
Nesse cenário, o grupo de jovens que participou da pesquisa pode configurar uma metáfora das desvantagens educacionais herdadas pela população negra; ou seja, jovens entre 13 e 17 anos que ainda não completaram o processo de alfabetização. Todavia, o grupo de estudantes mostram-se insurgente na medida em que permanecem no sistema escolar, demonstram percepção significativa da realidade social e caminham firmes na valorização de suas estéticas.
Embora racismo e discriminação racial sejam tão intensos a ponto de serem normalizados, o movimento de resistência e reinvenção dos jovens da periferia apontam para outras possibilidades de percepção de mundo, de valorização de si e do outro da mesma forma em que sinalizam com seus corpos, saberes e cultura para a ressignificação da educação brasileira.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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BENTO, Cida. O pacto da branquitude. Companhia das Letras, São Paulo, 2022.
BOURDIU, Pierre., PASSERON, J.C. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975.
FANON, Frantz. Pele Negra. Máscara Brancas. Rio de Janeiro: Ed. Fator, 1983
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Ed. 17. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1987.
HASENBALG, Carlos. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito capitalista. São Paulo: Cia das letras, 2006.
Notas

