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Pandemia x pandemônio: o cotidiano da periferia no noticiário
Ada Cristina Machado Silveira; Camila Hartmann; Bruno Kegler
Ada Cristina Machado Silveira; Camila Hartmann; Bruno Kegler
Pandemia x pandemônio: o cotidiano da periferia no noticiário
Revista TOMO, núm. 38, 2021
Universidade Federal de Sergipe
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Resumo: Assume-se no artigo que a cobertura do cotidiano da periferia brasileira poderá ganhar uma dimensão ainda não explorada com o surgimento da pandemia de Covid-19. Enfrentada concomitantemente à polarização política brasileira, a emergência sanitária permitiu à oposição cunhar a noção de pandemônio como denominação aplicável a divergências na política pública de combate à pandemia. A materialização da periferia metropolitana, tratada como o lugar simbólico dos mais pobres, se articula às condições narrativas e discursivas instauradas pela ordem da noticiabilidade, responsável por expressar as condições de trato dos acontecimentos. A análise empírica de matérias jornalísticas veiculadas on-line que exploram o (não) enfrentamento da pandemia na periferia brasileira junto ao estudo de postagens em plataformas de mídia social expõem resultados que decalcam o imaginário de caos aplicável à noticiabilidade da periferia metropolitana em capas de revistas do período 1994-2014 para a situação atual.

Palavras-chave: Periferia, Noticiabilidade, Pandemônio, Pandemia, Covid-19.

Abstract: It is assumed in the article that the daily coverage of the Brazilian periphery may gain a dimension that has not yet been explored with the emergence of the Covid-19 pandemic. Faced with the Brazilian political polarization, the health emergency allowed the opposition to coin the notion of pandemonium as a term applicable to differences in public policy to combat the pandemic. The materialization of the metropolitan periphery, treated as the symbolic place of the poorest, is linked to the narrative and discursive conditions established by the order of news, responsible for expressing the conditions for dealing with events. The empirical analysis of journalistic articles published online that explore the (non) confrontation of the pandemic in the Brazilian periphery together with the study of posts on social media platforms exposes results that decalulate the imaginary of chaos applicable to the news of the metropolitan periphery in magazine covers from 1994- 2014 period for the current situation.

Keywords: Periphery, News, Pandemonium, Pandemic, Covid-19.

Resumen: Se supone que la cobertura de la vida cotidiana en la periferia brasileña puede adquirir una dimensión que aún no ha sido explorada con el surgimiento de la pandemia Covid-19. Enfrentada concomitantemente a la polarización política brasileña, la emergencia sanitaria permitió a la oposición acuñar la noción de pandemonio como término aplicable a las diferencias en la política pública para combatir la pandemia. La materialización de la periferia metropolitana, tratada como el lugar simbólico de los más pobres, está ligada a las condiciones narrativas y discursivas establecidas por la orden de las noticias, encargadas de expresar las condiciones de afrontamiento de los hechos. El análisis empírico de artículos periodísticos publicados online que exploran el (no) enfrentamiento de la pandemia en la periferia brasileña junto con el estudio de publicaciones en plataformas de redes sociales expone resultados que descalifican el imaginario de caos aplicable a las noticias de la periferia metropolitana en portadas de revistas del período de 1994 a 2014 para la situación actual.

Palabras clave: Periferia, Noticias, Pandemonio, Pandemia , Covid-19.

Carátula del artículo

Dossiê: Cidade, Mídias, Memória e Cotidiano em Tempos de Pandemia

Pandemia x pandemônio: o cotidiano da periferia no noticiário

Ada Cristina Machado Silveira
UFSM, Brasil
Camila Hartmann
UFSM, Brasil
Bruno Kegler
UFSM, Brasil
Revista TOMO
Universidade Federal de Sergipe, Brasil
ISSN-e: 1517-4549
Periodicidade: Semestral
núm. 38, 2021

Recepção: 30 Julho 2020

Aprovação: 30 Outubro 2020


Introdução

O presente texto assume que a cobertura do cotidiano da periferia brasileira poderá ganhar uma dimensão ainda não explorada com a emergência sanitária de 2020.

Até o dia 4 de julho de 2020 o novo coronavírus havia feito 523.011 vítimas no mundo. Os casos batiam a marca de quase 11 milhões. No Brasil, o total de casos confirmados chegou a 1.496.858; as mortes já se aproximam de 62 mil (World Health Organization, 2020). A parcela populacional mais vulnerável do Brasil é a que mais tem sofrido com a pandemia. Embora seja considerado democrático no contágio, dada sua fluidez e, especialmente, nossa ignorância no tema, o novo coronavírus não o é na produção de mortes. Dificuldades no acesso a serviços de saúde, o abastecimento de água intermitente, a falta de saneamento básico e as moradias aglomeradas são alguns dos fatores que tornam os grupos periféricos mais suscetíveis ao contágio. As medidas preventivas recomendadas para conter a pandemia, como praticar o distanciamento social, lavar as mãos frequentemente e usar álcool gel, são em sua maioria dificultosas, quando não impraticáveis, para muitos moradores de bairros periféricos.

As condições estruturais da desigualdade no Brasil manifestam-se em números expressivos. Um estudo realizado em São Paulo mostrava em junho de 2020 que por volta de 16% da população residente em regiões mais pobres da cidade já havia contraído o vírus; a porcentagem representava mais que o dobro do observado nos bairros mais ricos, onde cerca de 6,5% das pessoas teria sido infectada (Menon, 2020). A edição do Mapa Social do Coronavírus, levantamento feito pelo Observa- tório de Favelas, evidenciava que a estabilização e declínio na curva de contágio, observados em algumas áreas mais nobres do Rio de Janeiro (RJ), não estavam acontecendo na periferia. Os bairros aquinhoados de Botafogo e Barra da Tijuca apresentavam no dia 1º de junho taxas de letalidade da Covid-19 girando próximas de 7%; os números chegaram a 41,6% nos bairros periféricos da Maré, Cidade de Deus e Rocinha (Souto, 2020). Já em Salvador (BA) o número de casos cresceu 1.200% na periferia: em 22 de maio havia 458 infectados registrados nos dez maiores bairros da periferia da cidade; em 1º de julho este número saltou para 5.949 (Pitombo, 2020). A situação se repetia no Distrito Federal: no primeiro boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde que apontou o recorte da infecção por região, em 26 de março, o Plano Piloto constava da maior parte de casos, com 50 moradores diagnosticados com o vírus; um morador de Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, teve resultado positivo. Ceilândia alcançaria em julho de 2020 o maior número de infectados, quase duas vezes maior que o do Plano Piloto de Brasília (DF) (Rios, 2020).

Admite-se também a polarização política vigente no Brasil detectada especialmente pelas eleições presidenciais de 2018 e que permitiu que a oposição cunhasse a noção de pandemônio como denominação aplicável às divergências na política pública de combate à pandemia, manifestas através da incompatibilidade da conduta governamental, personificada especialmente pelo Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, diante do momento caótico de restrições e proliferação de crises em nível mundial. O ex-ministro da Saúde de Dilma Rousseff (2011-2014) e Deputado Federal Alexandre Padilha (PT-SP) aciona o termo ao declarar: “É a maior tragédia humana que o Brasil já viu, e o Brasil vive a pandemia e o pandemônio, que é o Presidente Jair Bolsonaro” (UOL, 2020, On-line).

A realidade da pandemia tem forçado a inauguração de formas diversas de sociabilidade, trabalho, acesso à cultura e ao lazer. A cidade polifônica aludida por Massimo Canevacci parece estar mais manifesta do que nunca. A relação de mútua afetação da cidade e de seus espectadores, o “[...] coro que canta com uma multiplicidade de vozes autônomas que se cruzam, relacionam-se, sobrepõem-se umas às outras, isolam-se ou se contrastam [...]” (Canevacci, 2004, p. 17), já não se manifesta apenas no espaço urbano; transcende a realidade material, emanando também da virtualidade – o que se potencializa num contexto em que a orientação é manter o distanciamento social. As plataformas de mídia social apresentam-se, assim, como protagonistas do debate público, potencialmente polarizado e midiatizado.

O artigo está estruturado pelo estudo da noticiabilidade, realizado pelo grupo de pesquisa Comunicação, identidades e fronteiras, articulado à análise empírica de matérias jornalísticas veiculadas on-line que exploram o (não) enfrentamento ao novo coronavírus na periferia brasileira e postagens em plataformas de mídia social que põem de manifesto a construção do pandemônio. A problemática está assim sumarizada: como se materializa a construção do pandemônio a partir da noticiabilidade estabelecida em torno da pandemia na periferia? A abordagem do noticiário é tensionada com a visibilidade positivada que foi conferida aos grupos periféricos quando do aumento de seu poder de compra (Hartmann, 2019). O objetivo aqui posto, por conseguinte, é o de compreender como se decalca o imaginário de caos aplicável à noticiabilidade da periferia metropolitana em capas de revistas do período de 1994 a 2014 para a situação atual, permitindo a alusão ao pandemônio. Antes disso, aprofunda-se a ordem da noticiabilidade e suas consequências na cobertura noticiosa.

Periferia e noticiabilidade

Para estudar a cobertura noticiosa considera-se a noção de noticiabilidade, a qual “[...] resulta da compreensão de uma ordem noticiosa que reproduz a percepção de uma dada ordem social” (Hartmann; Silveira, 2018, p. 202). A ordem da noticiabilidade “[...] expressa as condições de trato dos acontecimentos; ela é fruto da convivência social, de crenças religiosas e laicas, do exercício do poder e do exercício da resistência” (Hartmann; Silveira, 2018, p. 202). Comparecem, assim, condições para a construção de situações de comunicação que definem elementos do jornalismo corporativo com os compromissos sociais da cobertura noticiosa.

Daí ser importante reconhecer o lugar específico que a periferia passou a deter com a ascensão da “nova classe média” (Neri, 2010; Souza, J., 2010; Brasil, 2012; 2014; Alvarenga, 2014) e seu atual deterioro. O momento histórico de tal ascensão é por muitos marcado pela estabilização econômica proporcionada pelo Plano Real e, posteriormente, por políticas implementadas pelos governos do Partido dos Trabalhadores, interrompidas com a deposição de Dilma Rousseff em 2016. O período de 1994 a 2014 marca, portanto, duas décadas de consolidação do que a cobertura noticiosa denominou de “país da periferia”, tergiversando entre ambivalência e liminaridade das condições da população periférica (Silveira; Schwartz; Guimarães, 2016).

Entende-se que, após a interrupção das políticas públicas destinadas aos menos favorecidos economicamente e com a expansão da pandemia causada pela Covid-19, a cobertura noticiosa do cotidiano brasileiro vê-se profundamente alterada nos valo- res que a norteavam.

O anseio de atuação político-normativa do Jornalismo na reorganização das relações sociais materializa-se na ordem da noticiabilidade estabelecida. Analogamente à ordem do discurso, nos termos foucaultianos (Foucault, 1996), a noticiabilidade também é própria de um período específico, possui uma função reguladora, normativa, e põe em funcionamento procedimentos de organização do real. Deste modo, o jornalismo “[...] assume, ainda que parcialmente, o papel legislativo de discriminar para a sociedade e o papel judiciário de emitir juízos, através de sua ação ordenadora a partir de um discurso situado [...]” (Silveira, 2016, p. 39).

A eficácia social dos relatos jornalísticos mostra-se na medida em que são instituídos como um repositório de saber coletivo sobre a realidade. Elaborando e fazendo circular representações e reflexões identitárias, promovendo distintas discursividades sobre os indivíduos e correntemente jogando com estereótipos, depreende-se que o jornalismo mobiliza uma atualização das identidades social e discursiva (Charaudeau, 2006).

Antonio Fausto Neto concebe o jornalismo como um território estratégico em que não só é possível vitrinizar a realidade, mas de onde se torna possível seu engendramento. O discurso jornalístico, posto numa tal condição, constitui-se em uma voz que não faz, simplesmente, “[...] o reclame das coisas, mas uma voz que se impõe às coisas e que a anuncia seus próprios semantizadores” (Fausto Neto, 1994, p. 160, grifo do autor). Responde, assim, à construção de uma verdade que, longe de ser neutra, é obrigatoriamente invadida pelas marcas dos enunciadores deixadas nos discursos (Fausto Neto, 1993, p. 4).

Retomando a Foucault, convém ressaltar que as produções de verdades não podem ser dissociadas dos mecanismos de poder. O poder induz as produções de verdades que, por sua vez, possuem efeitos de poder. E cada sociedade possui uma “política geral” de verdade que inclui os tipos de discurso acolhidos e que funcionam como verdadeiros, as instâncias e os mecanismos que distinguem os enunciados verdadeiros dos falsos, os procedimentos estimados para a obtenção da verdade e, outrossim, o estatuto de quem determina o que funciona como verdadeiro (Foucault, 1979, p. 12).

Haveria, ademais, “[...] regras de uma ‘polícia’ discursiva que devemos reativar em cada um de nossos discursos” (Foucault, 1996, p. 35). Tal polícia ata o jornalismo a um imaginário burocratizado de violência e criminalidade que instiga medo e segrega a sociedade. A cobertura noticiosa de zonas periféricas (metropolitanas e fronteiriças) evidencia uma contradição, assim sintetizada a partir de diversas análises empíricas de revistas semanais e jornais brasileiros:

As condições permeáveis das fronteiras internacionais brasileiras, a amplitude de seus 16 mil quilômetros, a existência de comunidades transfronteiriças e o caráter marcadamente pacífico dessa convivência contrastam com o noticiário marcado por cenas de violência e crimes de descaminho, de um lado, e caos e ausência de Estado, de outro, ou seja, problemas de segurança pública e problemas de segurança nacional (Silveira, 2016, p. 28).

Essa abordagem cristaliza o imaginário de pandemônio. Não se poderia antecipar, ao estudar a cobertura noticiosa dos últimos quase 30 anos, que um real pandemônio se apresentaria como o governo Bolsonaro na pandemia. Parece figurar-se aí uma justa- posição de imaginários a partir da partícula grega “pan”.

Pandemia, pandemônio, pânico

Originado do prefixo grego pan, adicionado a daimon (demônio),o termo pandemônio popularizou-se através do inglês pandemonium, habitação dos diabos todos. Pandemonium também denomina a capital imaginária de um mundo infernal, lugar de ruídos, reunião tumultuosa, reunião de indivíduos que promovem desordens e fazem mal aos outros, tumulto, desordem, babel, balbúrdia, conluio de pessoas para armar desordens. Pandemonium pode designar tanto o lugar imaginário onde se realizam assembleias dos demônios, ou ser referência à gritaria e confusão.

Já pandemia refere-se à doença que ataca ao mesmo tempo a um grande número de pessoas, na mesma região ou em distintas regiões. Na situação atual, a pandemia decorre da contaminação pelo vírus SARS-Cov-2.

Na mitologia grega, o deus pastor Pan, habitante da Arcádia, era portador de um corpo peludo, com pernas e cornos de cabra. A devoção dos pastores a Pan decorreu de sua proteção na batalha de Maratona, decidida contra os persas1. Pânico, Pandora, pantera, pandemia e pandemônio são palavras que retêm em seu radical a natureza envolvente de Pan, como força poderosa que agrega imagens também no jornalismo por força de uso da linguagem.

Habitualmente, a periferia metropolitana é tratada como o lugar simbólico dos mais pobres; uma narrativa que assim se manifestava em um passado imediato: “ela particulariza no ambiente de favela os valores estabelecidos para certos espaços urbanos marcados pela segregação e pobreza, havendo ganhado no discurso jornalístico um lócus privilegiado e visível” (Silveira et al., 2016, p. 109). Materializando a distância da periferia para com o cotidiano da prática profissional jornalística, a arraigada tendência da cultura política brasileira de desprezo ao periférico seria assim discursivamente reproduzida no noticiário (Silveira, 2016, p. 33-4).

A periferia metropolitana como espaço social possui designações distintas. Sua identidade social conta com diversas denominações – classe C, nova classe média, grupos periféricos – as quais registram a variedade de abordagens que as estudam. Por força da hegemonia midiática do Sudeste brasileiro, o noticiário de referência as designa por favelas ou comunidades, denominações que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) definiria como aglomerados subnormais e que passaram a comparecer ao noticiário habilitando novas pautas para coberturas jornalísticas antes desestimadas pelos conflitos de classe e visão elitista dos problemas sociais, atentos ao lucro fácil de apelo comercial.

As definições que comumente se atribuem à periferia, na esteira do apontado por Guaciara B. de Freitas (2008, p. 2), a caracterizam desde uma perspectiva relacional, um espaço contraposto a outro (tomado como centro). Daí atestar-se que no senso comum, cujo discurso reverbera e se conforma também no campo midiático, a periferia constitui-se no conjunto de espaços pobres vistos como excluídos em sua relação com o espaço urbano, “[...] o depósito daquilo que o centro não quis” (Souza, G., 2012, p. 118).

A segregação estaria relacionada a um processo histórico de de- marcação territorial do qual teriam se originado os agrupamen- tos periféricos. Consoante sumariza Ingrid Lisboa (2007, p. 45), ao longo do decurso de urbanização e industrialização das cida- des, ao valorizar determinados territórios, o mercado imobiliá- rio favoreceu a criação de nichos descentralizados, periféricos, que foram sendo ocupados por migrantes. Como bem lembram Denise Paim e colaboradores (2015, On-line), para mais da de- sigualdade manifesta no espaço urbano, a disparidade releva-se também no plano simbólico, compreendendo a distância “ [...] do acesso à informação, da vida cívica, dos recursos políticos, sociais, econômicos, e dos padrões idealizados pelos modos de ser chancelados pelos movimentos culturais majoritários”.

A prática continuada de tal jornalismo seria corresponsável pela polarização da sociedade. Da perspectiva da análise da situação de comunicação ele teria desestimado o autorreconhecimento de comunidades periféricas na cobertura noticiosa. De outra parte, também os conteúdos científicos foram negligenciados, evidenciando o preconceito com a cultura letrada e sua incapacidade de atentar à complexidade que sua compreensão requer. A hipótese da impossibilidade de sustentação da polifasia cognitiva, a qual seria capaz de amparar a coexistência de diferentes tipos de racionalidade (Viana; Morigi, 2018). A derrota da polifasia cognitiva seria um dos pilares do ambiente de polarização política e do franco consumo de notícias falsas. A crise noticiosa fortaleceu o discurso de ódio, tomado como valor de base nas disputas narrativas da atualidade vigente nas mídias sociais.

Convém comentar que a conceituação que aponta a periferia para além do agrupamento de locais geograficamente excluídos nas cidades alude para a metáfora de Jürgen Habermas (1997) acerca do confronto da estrutura de poder dos grupos que controlam o aparelho do Estado e as grandes corporações do merca- do, obstaculizando com barreiras o ingresso de temas e reivindicações da periferia, que seria constituída por todos os indivíduos posicionados de forma contrafactual à ideologia dominante das elites. Ademais do conjunto de habitantes da periferia geográfica e/ou de classe, nesta perspectiva, a periferia compreenderia um grupo formado por integrantes de movimentos sociais, artistas, estudantes, professores, intelectuais, profissionais radicais e todos aqueles que se portam contracorrentemente ao centro de poder (Habermas, 1997, p. 115).

A cobertura noticiosa da periferia brasileira

Em conformidade ao já delineado, o padrão de noticiabilidade em acordo à perspectiva dominante, vigente quase univocamente em um passado imediato, conferia aos acontecimentos ocorridos nos espaços periféricos um enquadramento distanciado. A abordagem da periferia no jornalismo, assim sendo, estava relacionada à falta de condições básicas de saneamento, desordem, pobreza e violência; um local marcado pela proliferação do crime organizado em torno do tráfico armamentício e de drogas, ademais de outras contravenções legais (Silveira, 2009).

Ainda no escopo dos estudos realizados no grupo de Pesquisa Comunicação, identidades e fronteiras, assevera-se que a cobertura jornalística nacional sobre a periferia se caracterizava por enquadrar os acontecimentos como alarmes de incêndio ou dispositivos panópticos, com o propósito de alertar continuamente a comunidade nacional para os perigos destas áreas. Além disso, as pesquisas apontam a prevalência de uma condição ambivalente no noticiário sobre a periferia, na medida em que, ao alertar a população sobre os perigos das regiões periféricas, os veículos o faziam sob o prisma das autoridades estatais e policiais, ignorando as manifestações oriundas do grupo social marginalizado (Silveira, 2009; 2016; Silveira et al., 2016; Silveira; Guimarães, 2016; Silveira; Schwartz; Guimarães, 2016).

A análise da cobertura em revistas semanais de circulação nacional permitiu constatar a característica da mesmidade na representação da identidade social da periferia, caracterizando um imaginário congelado no tempo (Silveira, 2016, p. 26). Neste sentido, por muitos anos, percebeu-se a propagação do mesmo tratamento para distintas favelas, vilas ou comunidades, enquadrando-as como um local alternativo que pode ser semelhante a outros e, ainda assim, segregado do restante da sociedade. Os marcadores para narrar a periferia, como apontam Paim e colaboradores (2012, p. 30), por longo tempo, demarcavam-na apenas como “[...] um lugar de exclusão, dominado pelas carências, violências, pelo tráfico de drogas, criminalidade e pobreza”.

A abordagem cristalizada no noticiário começa a se modificar na virada do século XX para o XXI, quando ocorreu a ressignificação simbólica da periferia, fenômeno atribuído ao controle da inflação e à retomada do crescimento econômico no País. Desde então, a cobertura não se pauta apenas na falta de recursos que recairia sobre o grupo. A construção midiática de uma outra face das classes populares, focada em seu potencial de consumo devido ao incremento de renda, tornou-se fator determinante para o reconhecimento da visibilidade e o status de maior “respeitabilidade midiática” de suas iniciativas culturais (Paim et al., 2012, p. 42).

A periferia passa a ser mostrada também a partir do cotidiano de seus moradores e a cobertura jornalística vai atuar no sentido de apontar aspectos positivados acerca de seus modos de vida. O processo de midiatização da periferia põe de manifesto, então, uma “[...] nova possibilidade de ver e pensar esse lugar”, consolidando o que Paim e colaboradores (2012, p. 30) concebem como um novo ethos de periferia, uma nova maneira de referir e representar os acontecimentos aí imbricados, caracterizada pela minimização da violência, exclusão e preconceito. Os espaços periféricos vieram a se tornar, desta forma, objeto de nova visibilidade: “a busca por novos produtos midiáticos levou os olhares dos produtores de televisão, rádio e jornais a fixarem a atenção nas criações que estavam acontecendo longe dos centros urbanos” (Paim et al., 2015, On-line).

Depreende-se, assim, que o fenômeno de emergência de um novo grupo social no Brasil proporcionou uma guinada no tema da visibilidade dos habitantes de espaços periféricos. Sua identidade social passou a ser exibida em relação ao que, ao final do segundo governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, foi reconhecido como a ascensão da “nova classe média” (Neri, 2010; Souza, J., 2010; Brasil, 2012; 2014; Alvarenga, 2014).

Em que pese as dificuldades dos institutos de pesquisa no que se refere a estabelecer características demarcatórias do fenômeno referido de ampliação de renda da camada média da população brasileira, considera-se que ele foi impulsionado pela política econômica adotada nos idos de 1990 e que concedia maior acesso aos parcelamentos e ao crédito. A nova classe social que viria a emergir constitui-se de uma população pobre e de pouca expectativa no futuro que, com a melhor distribuição de renda, o aumento do salário mínimo e as medidas governamentais de redução da pobreza, atingiu um patamar superior de consumo, tornando-se foco de diversas empresas que buscaram adequar-se para atender a uma emergente parcela de consumidores.

Em 2014, a pesquisa Faces da classe média apontava a classe emergente, a nova classe C ou nova classe média – que, por definição, comporta famílias com renda mensal per capita entre R$ 320 e R$ 1.120 –, como a mais numerosa do Brasil, correspondente a 54% da população total. O estudo posiciona a classe média brasileira no G20 do consumo mundial: se fosse um país, ela seria o 12º em população e o 18º em consumo (Alvarenga, 2014). Justamente este foi noticiado como o referido anterior- mente “país da periferia”.

Um relatório divulgado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência atesta que uma combinação de crescimento com equidade resultou no ingresso de 44,7 milhões de brasileiros na nova classe média de 2003 a 2013 (Brasil, 2014, p. 7). Esse novo segmento seria formado por um “[...] grupo reconhecidamente heterogêneo que resultou das múltiplas mudanças sociais ocorridas recentemente no país [...]” (Brasil, 2012, p. 11).

Conforme assinala Marcelo Neri (2010, p. 86), a nova classe média brasileira teria se tornado dominante em termos populacionais e política e economicamente: “[...] não só inclui o eleitor mediano, aquele que decide o segundo turno de uma eleição, mas ela poderia sozinha decidir um pleito majoritário. A classe C é também dominante do ponto de vista econômico, pois concentra mais 46,2% do poder de compra dos brasileiros em 2009 [...]”. A relevância do grupo é sinalada por Jessé Souza (2010) em pesquisa empírica. Os resultados levam-no a designar o fenômeno como a discussão política, econômica e social mais significativa dos derradeiros anos, o que justificaria o grande interesse que o grupo vem despertando.

Configurou-se, dessa maneira, um cenário que alterou as representações midiáticas das camadas mais empobrecidas da população em suas relações com o consumo. Despontou para as em- presas de mídia a possibilidade de desfrutar de novos benefícios econômicos advindos da expansão de seu universo de leitores para os grupos periféricos, outrora estigmatizados pela noticiabilidade modélica.

A análise de um corpus de capas de revistas semanais de circulação nacional (Veja, Carta Capital, Época e IstoÉ) detida no período entre 1994 e 2014 permitiu constatar uma mudança na noticiabilidade praticada pelos enunciadores das revistas que, frente ao contexto de mudanças socioeconômicas em voga, operam um deslocamento de sentidos sobre uma realidade que se torna palatável para o desfecho do consumo jornalístico (Hartmann, 2019).

A abordagem positivada em torno das classes populares foi se esvaindo à medida que se consolidou um cenário econômico desfavorável. Grosso modo, não fazendo mais parte de uma par- cela consumidora emergente, a periferia volta a ser noticiada desde um viés negativo e excludente. Já se tinha, portanto, e novamente, uma abordagem pejorativa dos espaços e grupos periféricos. A chegada da pandemia na periferia reforça os estigmas já consolidados. A narrativa de vulnerabilidade torna-se recorrente no noticiário, como demonstram os exemplos elencados à continuação.

Notícias falsas e a prática social da noticiabilidade

O cenário da pandemia é sobremaneira favorável à desinformação. Uma pesquisa realizada por Avaaz aponta que 94% dos brasileiros com internet receberam pelo menos uma fake News sobre o novo coronavírus. Sete em cada dez pessoas acreditaram no conteúdo (Rede Globo, 2020a). É aí que o jornalismo “aparece como um elemento legitimador da informação veiculada (Patrício, 2020, On-line). O fenômeno das notícias falsas expõe a crise de legitimidade da atividade jornalística corporativa, afetando práticas reificadas da noticiabilidade de orientação comercial. Selecionando os fatos dignos de alcançar o interesse público e a eles conferindo efeitos de sentido, o jornalismo exerce o seu poder, uma prática desmascarada com as mídias sociais. O agravamento da crise, estabelecido pelo aparecimento de opções do lado das audiências, se vê aprofundado com o fenômeno da opa- cidade dos algoritmos no jornalismo de plataforma.

Dito isso, cabe salientar que a expressão plataformas de mídia social é aqui adotada em alusão a todo conjunto de software, aplicativos, websites, sistemas, bancos de dados, dentre outras aplicações que servem como lugar para conectividade e interação on-line entre usuários, bem como seus produtos e serviços e as empresas por eles responsáveis. Google, Facebook, Instagram, Reddit, Tumblr, Pinterest, Twitter, Snapchat podem ser tomados como exemplos de plataformas (Hartmann; Fanfa; Silveira, 2020).

Considera-se que está em curso um processo de midiatização da sociedade. Stig Hjarvard (2014) argumenta que a midiatização se torna um conceito-chave para tensionar a relação da mídia com a sociedade e a cultura. O engendramento social, as formas de vida e as interações interpessoais se veem complexamente alteradas com a propagação e convergência de novos protocolos sociotécnicos. Parte fundamental desta conjuntura são as plataformas, “uma arquitetura digital programável desenhada para organizar interações entre usuários – não apenas usuários finais, mas também corporações e instituições públicas” (Van Dijck; Poell; De Waal, 2018, p. 4, tradução nossa)2.

Como uma mediação social exercida profissionalmente em condições de midiatização (Silveira, 2015), o jornalismo parece se colocar numa nova posição no bojo da luta simbólica em torno do poder, da qual faz parte a contar de seu surgimento. Empresas jornalísticas têm postulado sua preocupação com o impacto social de suas produções, aludindo uma pretensa responsabilidade social. A mídia de referência alega ser responsável pelo referido jornalismo profissional. Tal expressão, assinala Edgard Patrício (2020, On-line), cria “uma polarização com qualquer outro jornalismo que não seja profissional” – as iniciativas de jornalismo independente ou alternativo, por exemplo. Trata-se de uma expressão utilizada pela mídia de referência com vistas a promover-se em tempos de crise, como um slogan promocional.

A denominação mídia de referência designa o que até um passado recente era conhecido como imprensa de referência, incluindo o conjunto de jornais diários e de revistas semanais que pretendiam ter circulação na amplitude do território brasileiro. Diante dessa impossibilidade concreta e, mais adiante, com a consolidação da sociedade midiatizada, os conteúdos divulga- dos na imprensa de referência vieram a definir a programação noticiosa de televisão e de rádio. Por conseguinte, o caráter referencial da mídia estabeleceu-se por sua capacidade de impacto na ordem noticiosa, antes que por indicadores de tiragem, audiência e circulação (Silveira; Hartmann; Schwartz, 2020).

A pandemia da Covid-19 animou a emergência do que se tem chamado de uma tripla crise: sanitária, econômica e política.

Descortinando as mazelas da desigualdade profunda que afeta a milhões de brasileiros, expondo a incompetência institucio- nal, o novo coronavírus deu abertura a uma chaga que histo- ricamente se tentou velar. Desacreditada em grande parte das instituições, a população parece reconsiderar a qualidade do jornalismo dito profissional. Há uma suposta revalorização da atividade jornalística, correlata, como aponta Roseli Figaro (2020, On-line), a “necessidade da informação como um bem fundamental para a vida do cidadão”, especialmente ante a dis- seminação de notícias falsas.

Entendidas como “histórias sobre fatos inventados ou propositalmente alterados para fins políticos” (Dourado; Gomes, 2019, p. 1), as notícias falsas circulam especialmente com o suporte técnico de plataformas on-line. Elas ganham impulso num contexto em que “há cada vez mais reivindicações de verdade e há cada vez mais mentiras no que se refere a histórias políticas” (Dourado; Gomes, 2019, p. 2). Tendo-se em vista que verdade ou falsidade se relacionam com a possibilidade de que narrativas factuais expressem ou não os fatos a que se referem, há, como pré-condicionante, a necessidade de abdicar da verdade, originando-se um novo horizonte cognitivo que tensiona debates considerados já superados pela ciência.

A disseminação de notícias falsas está, assim, alicerçada na desqualificação de instituições dotadas de credibilidade para arbitrar sobre o conhecimento socialmente aceito acerca dos fatos, tais como as universidades e o jornalismo corporativo. Paradoxal e estrategicamente, ademais, no horizonte das notícias falsas há relatos camuflados de notícias, respaldados justamente pela autoridade e pela credibilidade do jornalismo, que desvirtuam os fatos, sobretudo em plataformas on-line. Emerge no debate a necessidade de criar distinções:

Então, o que torna as notícias falsas em falsas notícias? Se notícias se referem a uma descrição precisa de um evento real (Kershner, 2005), o que significa notícias falsas? As notícias são supostamente - e normalmente - baseadas na verdade, o que torna o termo “notícias falsas” um oxímoro. A palavra “falso” é frequentemente usada de forma inter- cambiável com palavras como cópia, falsificação, falsificação e inautenticidade (Andrea, 2016). O Oxford Dictionary define “fake” como um adjetivo que significa “não genuíno; imitação ou falsificação “. Um estudo sobre a detecção de sites falsos distinguiu dois tipos: “sites falsificados” [spoof sites], que imitam sites existentes, e “sites inventados” [concocted sites], que são “sites enganosos que buscam aparecer como entidades comerciais legítimas e únicas” (Abbasi et al. 2010, p. 437). Um estudo sobre revisões on-line falsas também especificou o papel da intenção na definição do que é falso. O estudo definiu avaliações falsas “como análises enganosas fornecidas com a intenção de enganar os consumidores em suas decisões de compra, geralmente por revisores com pouca ou nenhuma experiência real com os produtos ou serviços que estão sendo revisados” (Zhang et al. 2016, p. 457) (Tandoc Jr.; Lim; Ling, 2018, p. 4, tradução nossa)3.

Uma dificuldade para nosso estudo de jornalismo em língua portuguesa decorre de uma diferença com a língua inglesa que possui dois termos para referir-se à desinformação: misinformation e disinformation e, habitualmente, traduzimos a ambas pelo mesmo termo de desinformação, embora a primeira possa ser traduzida precisamente por mal-informado e, a segunda, por desinformado (no sentido de deformação).

Conforme Tandoc, Lim e Ling (2018), o termo misinformation pode referir-se ao “compartilhamento inadvertido de informações falsas” (situação a), enquanto o termo disinformation se refere ao “desenvolvimento e compartilhamento deliberado de informações conhecidas por falsas” (situação b). Portanto, na situação a (mal-informado) há um relativo desconhecimento da gravidade do compartilhamento da notícia falsa e na situação b (desinformado ou deformador) há o desejo assumido de disseminá-las.

Outra dificuldade com a literatura científica decorre de que igualmente em inglês há distinção entre fake News (notícia falsa) e false News (notícia falsa), uma precisão que ainda não foi incorporada no debate praticado no Brasil e em língua portuguesa.

Nessa perspectiva, inseridas no horizonte dos problemas da política democrática, as notícias falsas devem ser vistas como sintoma de um fenômeno orquestrado que se inicia com o ataque à credibilidade das instituições credenciadas a definir o que é verdadeiro e o que aconteceu, culminando na “admissão de uma epistemologia tribal de que verdade e falsidade são relativas aos interesses da nossa tribo” (Dourado, Gomes, 2019, p. 24). Além e aquém do jornalismo, estão entre os propagadores de relatos pretensamente verdadeiros, mas efetivamente falsos, personalidades públicas, da arte ou da política, por exemplo, que o fazem deliberadamente para distorcer a realidade e com isto obter ou promover ganho eleitoral ou a adesão às suas ideias, por mais estranhas, ou, no limite, pandemoníacas que possam parecer ou resultar.

A pandemia na periferia e a construção do pandemônio

Estudar postagens veiculadas em plataformas de mídia social implica reconhecer o lugar central, já aludido, que tais plataformas ocupam no debate público hodiernamente. Acolhe-se o argumento, defendido por Van Dijck, Poell e De Waal (2018), de que a coletividade, os valores e espaços públicos vêm sendo minados em prol da consolidação de uma intensa conectividade privada. Contornando as instituições, as grandes empresas de plataformas – convém destacar as integrantes do chamado “Big Five”: Alphabet-Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft (Van Dijck; Poell; De Waal, 2018, p. 4) – servir-se-iam de modelos de negócio e coleta, distribuição e armazenamento de dados bloqueados ao controle democrático.

Isso torna-se potencialmente perigoso quando grande parte dos serviços (públicos e privados) hoje ofertados depende de infra- estruturas técnicas e digitais fornecidas por empresas de plataformas. E o jornalismo não escapa à regra. A plataformização da atividade jornalística é correlata à complexidade da situação comunicativa articulada pelo processo de midiatização, na qual os atores e instituições que conformam o campo midiático operam mediante constantes reconfigurações de práticas, normativas e estruturas. Tais questões são relevantes ao se analisar matérias jornalísticas veiculadas on-line.

Em seu mais recente livro, García Canclini alude para a preva- lência das aplicações digitais sobre as instituições, enfatizando o enfraquecimento destas durante a crise neoliberal. As desigualdades crônicas do capitalismo aprofundar-se-iam mediante o uso neoliberal das tecnologias, haja vista que as oportunidades para “[...] horizontalizar a comunicação, ampliar a distribuição de bens culturais e incentivar a participação cidadã em decisões públicas” (García Canclini, 2020, p. 13, tradução nossa)4 teriam sido negligenciadas durante o processo de convergência digital multimídia, conduzido quase que integralmente por grandes empresas. Tem-se um cenário propício à “descidadania” (desciudadanización), em que “nossas opiniões e comportamentos, capturados por algoritmos, estão subordinados a corporações globalizadas. O espaço público se torna opaco e distante” (García Canclini, 2020, p. 10, tradução nossa)5.

Van Dijck (2019, On-line) sumariza que “a plataformização da sociedade refere-se à inextricável relação entre plataformas online e estruturas societais”. A partir dos dados produzidos durante a interação do usuário com a plataforma, os algoritmos realizam a personalização de preferências, desejos e necessidades individuais, através da comparação de padrões históricos de da- dos, individuais ou agregados. É um processo de análise preditiva, que consiste em antecipar escolhas e tendências, sugerindo o caminho para a continuidade da interação. No Facebook, por exemplo, a comparação entre as linhas do tempo de diferentes usuários pode revelar a representação de realidades opostas para o mesmo fato.

A mercantilização desses dados pode servir à proliferação de relatos falseados sobre os fatos, as notícias falsas (Dourado; Go- mes, 2019), e à desinformação, operando-se numa lógica quantitativa de visibilidade e de relevância que colidem com os valores públicos que regem a prática jornalística. Ilumina-se, em especial, a possibilidade de inflar a visibilidade e assim distorcer a relevância de um tema ou a hegemonia de uma opinião, apoiando-se na criação de perfis falsos e na ação de robôs.

É ilustrativa, nesse sentido, a ordem judicial emitida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 24 de julho de 2020, derivada de ação conduzida pelo ministro Alexandre de Moraes e que derrubou contas ligadas a apoiadores do Presidente Jair Messias Bolsonaro em plataformas como Facebook e Twitter. A decisão é integrante de ação emitida pelo mesmo ministro dois meses antes, quando da ordenação de busca e apreensão contra os acusa- dos de propagarem relatos falseados sobre os ministros do STF6. Entre os atingidos pela decisão, estão Roberto Jefferson (PTB) e os empresários Luciano Hang (Havan) e Otávio Fakhoury.

Nessa lógica, pode-se compreender que, muito distante de mecanismos neutros e restritos à funcionalidade da plataforma, há uma ação opaca de definidores das regras do jogo, processo que conduz à reflexão sobre como a (in) compreensão dos fatos influencia cenários eleitorais e impacta sobre o próprio sistema democrático, como um todo. Ou, no caso em tela, como podem potencializar os efeitos da desinformação no combate à pandemia.

Diante desses aspectos, compreende-se porque, no ecossistema das plataformas, Van Dijck, Poell e De Waal (2018) sinalizam para o tensionamento da concretização da função do jornalismo de porta-voz do interesse público, conflito que reside na relação entre, de um lado, a independência jornalística e a cobertura abrangente da notícia e, de outro, o processo de produção e distribuição de conteúdo orientado por dados. Assim, os padrões tecnológicos e os modelos econômicos passam a concorrer para moldar os valores da atividade jornalística.

Porém, ademais da questão operacional que relaciona linha editorial e interesses econômicos da chamada “cultura de cliques” do jornalismo de plataforma, permanece desatendida a questão da presença, representatividade e interesses dos mais vulneráveis e o jornalismo em mutação.

Análise da cobertura noticiosa da pandemia e pandemônio

A semiótica material apresenta-se como uma abordagem metodológica profícua para observar as novas relações propostas pelo jornalismo de plataforma. Ainda que avance em direção às materialidades, ao que é tangível pelos sentidos, coaduna com premissas tradicionais da semiótica. Um indicativo dessa adjacência é a influência do clássico Greimas no trabalho de Latour (2012), projetado a partir de uma perspectiva mais alargada. Akrich e Latour (1992, p. 259, tradução nossa) explicitam o avanço ao apresentarem seu conceito de semiótica: “[...] é o estudo da construção de ordens ou da construção de caminhos e pode ser aplicada a configurações, máquinas, corpos e linguagens de programação, assim como a textos [...]”7.

As pesquisas acerca da semiótica material vinculam-se intrinsecamente ao desenvolvimento da teoria ator-rede (TAR), que pode ser entendida como uma abordagem daquela. Nas palavras de Law (2009, p. 141, tradução nossa), enquanto “[...] uma família díspar de ferramentas da semiótica material, sensibilidades e métodos de análise que tratam tudo no mundo social e natural como um efeito gerado continuamente das redes de relações em que estão localizados”8, a TAR descreve “[...] a promulgação de relações material e discursivamente heterogêneas que produzem e reorganizam todos os tipos de atores [...]”9, englobando objetos, máquinas, seres humanos, animais, organizações, ideias e arranjos geográficos.

Isso posto, exemplifica-se a narrativa de vulnerabilidade presente na noticiabilidade sobre a periferia durante a pandemia. Cabe destacar que a narrativa é recorrente não apenas em matérias que versam sobre o caos que se instauraria nos espaços periféricos, como também naquelas que tratam de iniciativas das classes populares para conter o contágio do novo coronavírus.

A matéria “Coronavírus: 92% das mães nas favelas dizem que faltará comida após um mês de isolamento, aponta pesquisa” (Guimarães, 2020) baseia-se em dados de uma pesquisa realizada pelo Data Favela e pelo Instituto Locomotiva com mulheres maiores de 16 anos, com filhos, moradoras de 260 favelas em todos os estados brasileiros. O destaque, como consta na manchete, é para o percentual de entrevistadas que afirmam a possibilidade de suas famílias passarem fome diante da manutenção do isolamento social a longo prazo. O texto destaca que a divulgação da pesquisa integra uma campanha para arrecadar recursos a serem distribuídos para mães das favelas em todo o País e questiona a postura do poder público em não implementar um plano nacional específico para prevenção e combate à pandemia nos espaços periféricos.

Observa-se, nesse sentido, que a percepção negativa da realidade da pandemia se incrementa ao passo que a parcela entrevistada é pobre e feminina. Uma pesquisa Datafolha publicada no dia 29 de junho aponta que 47% dos brasileiros têm muito medo de contrair o novo coronavírus. A proporção de pessoas que afirma ter muito medo é maior entre os mais pobres (51% contra 36% entre os mais ricos), mulheres (53% contra 41% dos homens), e moradores da região Nordeste (52%) (G1, 2020).

A matéria “‘Somos excluídos’: prevenção ao corona ‘esquece’ favelas sem saneamento” (Ferreira, 2020) destaca os problemas enfrentados por moradores das favelas cariocas de Acari e do Complexo do Alemão no combate à pandemia, especialmente pela falta de saneamento básico. O texto traz citações de representantes das favelas e de um médico infectologista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ademais, aponta dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, do IBGE, e de outra realizada pelo Instituto Trata Brasil; ambas retratam a precariedade do saneamento no município do Rio de Janeiro.

A matéria “Favela de São Paulo vira exemplo em ações contra o coronavírus” (Rede Globo, 2020b) enaltece ações desenvolvidas em Paraisópolis para conter o avanço do novo coronavírus. A rede dos presidentes de rua, formada pelos moradores, tornou-se responsável por monitorar as infecções e verificar aquelas pessoas que perderam sua renda por conta da pandemia. Segundo a matéria, é a partir de doações, vaquinhas pela internet e do voluntariado que a comunidade tenta driblar a crise.

Os exemplos analisados dão a ver a construção de um padrão noticioso em que a vulnerabilidade periférica é representada desde um viés excludente. Ocorreria uma responsabilização do outro que não tem condições de enfrentar o coronavírus. A noticiabilidade em acordo à perspectiva dominante tem como referencial a classe média das capitais brasileiras que em sua maioria contorna a pandemia. O periférico segue sendo estigmatizado.

Diante disso, postagens em plataformas de mídia social entregam a emergência do pandemônio. Dentre os materiais que vêm sendo produzidos e veiculados, percebeu-se a recorrência de publicações que mostram linhas do tempo. Comumente, as linhas articulam declarações de Bolsonaro com a progressão temporal e a evolução do número de mortes e de casos no Brasil. A seguir, elencam-se alguns exemplos.

A figura 1 foi postada no Twitter por George Marques, jornalista e especialista em Comunicação Política, que compartilha em suas redes os bastidores do Congresso Nacional.


Figura 1
Twitter, 29/4/2020.

A figura 2 foi veiculada no Facebook por Matheus Albino, economista e doutorando em Demografia pela Universidade Estadual de Campinas.


Figura 2
Facebook, 29/4/2020.

A figura 3 é uma postagem do Senador Humberto Costa (PT) no Facebook.


Figura 3
Facebook, 8/5/2020.

A figura 4 foi veiculada no Facebook por Julio De Carvalho Ponce, um perito criminal, bioquímico e farmacêutico.


Figura 4
Facebook, 2/6/2020.

A figura 5 é uma postagem da GaúchaZH, um portal de notícias mantido pelo Grupo RBS, no Instagram.


Figura 5
Instagram, 7/7/2020.

Como indicam os exemplos, as linhas do tempo sugerem uma escalada de incremento de problemas em dimensões diversas, como fome, saúde, pobreza e desemprego, materializando a construção do pandemônio. Outras postagens corroboram tal construção; demonstra-se na sequência.

A figura 6 é uma postagem do The Intercept Brasil no Instagram, agência de notícias que se mantém através de financiamento coletivo e que tem se destacado nas mídias sociais pelo trabalho investigativo desenvolvido. Explicitando o posicionamento da agência sobre a conduta de Bolsonaro frente à pandemia, a postagem anuncia que o discurso irresponsável do Presidente teria se disseminado na periferia carioca, que estaria contra as medidas de prevenção do vírus.


Figura 6
Instagram, 26/3/2020.

A figura 7 é uma postagem do Deputado Federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) no Instagram que agrupa várias fotos com manchetes de jornais internacionais tradicionais que criticam o posicionamento do Presidente brasileiro durante a pandemia. Na legenda, Freixo assevera: “Bolsonaro é um risco para o planeta e quem diz isso não é a oposição, é o mundo inteiro”.


Figura 7
Instagram, 29/4/2020.

A figura 8 é uma postagem da revista Cult no Instagram que trata da pauta paralela do governo durante a pandemia. A legenda cita acobertamentos do Presidente e seus ministros, que estariam se aproveitando deste momento para realizar suas próprias pautas. Enquanto isso, “as vítimas que lutem”, diz a legenda.


Figura 8
Instagram, 25/5/2020.

A figura 9 é uma postagem do jornal digital Poder360 no Twitter que traz uma foto de Bolsonaro segurando uma caixa de medica- mento, a cloroquina, e apontando-a para uma ema. A foto repercutiu nas redes de mídia social, gerando polêmica e ressignificada especialmente desde a ironia ou o deboche.


Figura 9
Twitter, 23/7/2020.

Considerações finais

O presente texto está sendo finalizado num momento estimado como de escalada da pandemia no mundo e ainda em ascensão da curva de ocorrências no Brasil. O Presidente Bolsonaro, detrator tanto da ciência como do senso comum, teria sido convertido no noticiário internacional no dirigente máximo de um mundo infernal. Na análise aqui realizada, as linhas do tempo estudadas, assim como a profusa circulação de notícias falsas fazem referência à gritaria e à confusão produzida. Uma questão da chamada do dossiê para o qual produziu-se o presente texto e que pode ser respondida neste momento refere-se às narrativas sobre a pandemia que circularam e circulam nas mídias sociais.

O tensionamento da abordagem noticiosa sobre a periferia no que tange aos desdobramentos da pandemia nos espaços periféricos evidencia a experiência jornalística com narrativas estigmatizadas de vulnerabilidade. Conforme documentou-se, a guinada na visibilidade noticiosa conferiu status (momentâneo) à ascendente “nova classe média”. A análise permite expor as contradições estabelecidas no que já se havia insinuado como uma virada na noticiabilidade, em que as classes populares passavam de objeto da notícia à condição de leitores, dado o incremento de seu poder aquisitivo. A crise econômica dos últimos anos sepultaria tal projeto e a mídia de referência, a par de diversos outros modelos de mídia corporativa de menor expressão econômica, enfrentaria uma dramática crise de legitimidade pela emergência do fenômeno das notícias falsas. Um conjunto de aspectos que expõe a fragilidade de uma ordem noticiosa embasada numa perspectiva distanciada da ampla maioria da população brasileira e corresponsável pelas limitações cognitivas apostas ao debate público.

Uma série de fatores responde sobre consequências pandemoníacas do governo federal. O fenômeno das fake News e a promoção de atitudes de negacionismo certamente adensam a complexa e dramática condição dos brasileiros na pandemia de Covid-19. As altas taxas de contágio brasileiras fazem de sua população um cenário justificável como laboratório para teste de vacinas. Um elemento do pandemônio ainda não considerado, assim como a polêmica em torno da prescrição da cloroquina e outras medicações para tratamento da doença.

Depois do exposto, cabe indagar se o Brasil, sob o comando do “Capitão Cloroquina”, personagem imaginário que se presta aos mais hilários exercícios de charge pelo planeta, poderá reinventar-se e renovar o projeto de nação.

Material suplementar
Referências
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Wolrd Health Organization. Coronavirus disease (COVID-19). Situation Report – 166, Genebra, 4 jul. 2020.
Notas
Notas
1 Conforme um dicionário de simbologia, a atribuição do significado do nome do deus pastor Pan a “tudo” em grego, e, por extensão, em muitos outros idiomas dele origina- dos em figura de natureza abrangente, provém da devoção dos pastores. A mitologia registra que os pastores acreditavam que Pan amava tanto sua soneca no calor do dia que ninguém se atreveria a interrompê-la, pois um furioso Pan poderia aparecer e, de repente, sua aparição encheria o agressor de um terror paralisante. Diz-se que esse teria sido o destino dos persas na batalha de Maratona, daí decorrendo o templo erguido em honra de Pan, na Acrópole, como expressão da sua gratidão. A flauta Pan que ele tocava também é chamada de sirene – assim chamada a ninfa Syrinx que iludiu seus avanços amorosos ao se transformar em uma cama de junco. A fim de ouvir sua preciosa voz, Pan formou a flauta a partir dos simples talos desses juncos (Biedermann, 1992, p. 252-3).
2 No original: “An online ‘platform’ is a programmable digital architecture designed to organize interactions between users – not just end users but also corporate entities and public bodies”.
3 No original: “So what makes fake news fake? If news refers to an accurate account of a real event (Kershner, 2005), what does fake news mean? News is supposedly —and normatively— based on truth, which makes the term “fake news” an oxymoron. The word “fake” is often used interchangeably with words such as copy, forgery, counterfeit, and inauthentic (Andrea, 2016). The Oxford Dictionary defines “fake” as an adjective which means “not genuine; imitation or counterfeit.” A study about detecting fake web- sites distinguished two types: “spoof sites,” which imitate existing websites, and “con- cocted sites,” which are “deceptive websites attempting to appear as unique, legitimate commercial entities” (Abbasi et al. 2010, p. 437). A study about fake online reviews also specified the role of intention in defining what is fake. The study defined fake reviews “as deceptive reviews provided with an intention to mislead consumers in their purchase decision making, often by reviewers with little or no actual experience with the products or services being reviewed” (Zhang et al., 2016, p. 457)”.
4 No original: “[…] horizontalizar la comunicación, extender la distribución de los bienes culturales y propiciar la participación ciudadana en las decisiones públicas”.
5 No original: “Nuestras opiniones y comportamientos, capturados por algoritmos, quedan subordinados a corporaciones globalizadas. El espacio público se vuelve opaco y lejano”.
6 Disponível em: bit.ly/39OFj3K. Acesso em: 30 jul. 2020.
7 No original: “[...] is the study of order building or path building and may be applied to settings, machines, bodies, and programming languages as well as texts [...]”.
8 No original: “[...] is a disparate family of material-semiotic tools, sensibilities, and methods of analysis that treat everything in the social and natural worlds as a continu- ously generated effect of the webs of relations within which they are located”.
9 No original: “[...] the enactment of materially and discursively heterogeneous relations

that produce and reshuffle all kinds of actors [...]”.


Figura 1
Twitter, 29/4/2020.

Figura 2
Facebook, 29/4/2020.

Figura 3
Facebook, 8/5/2020.

Figura 4
Facebook, 2/6/2020.

Figura 5
Instagram, 7/7/2020.

Figura 6
Instagram, 26/3/2020.

Figura 7
Instagram, 29/4/2020.

Figura 8
Instagram, 25/5/2020.

Figura 9
Twitter, 23/7/2020.
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