A hemerobia da floresta sagrada de Morrungulo (Moçambique)

The hemerobia of the sacred forest of Morrungulo (Mozambique)

La hemerobia del sagrado bosque de Morrungulo (Mozambique)

L'hémériobie de la forêt sacrée de Morrungulo (Mozambique)

Iolanda Virgílio Moisés Alberto
Instituto de Formação de Professores de Manga, Mozambique

Revista Presença Geográfica

Fundação Universidade Federal de Rondônia, Brasil

ISSN-e: 2446-6646

Periodicidade: Frecuencia continua

vol. 13, núm. 1, 2026

rpgeo@unir.br

Recepção: 01 Abril 2025

Aprovação: 10 Fevereiro 2026



Resumo: Para se avaliar o grau de alterações da FLORESTA SAGRADA DE MORRUNGULO influenciadas pela ação antrópica, foi aplicada a interpretação e análise na base da Hemerobia de Jalas atribuindo ao mesmo significado de dominação e/ou alteração das paisagens instituindo quatro graus hemerobióticos, do mais preservado ao mais antropizado: a-hemerobiótico, oligo-hemerobiótico, meso-hemerobiótico, eu-hemerobótico. Esta análise enquadra-se na abordagem teórica denominada Teoria Geral dos Sistemas (TGS), inclusive o estudo de Hemerobia interligou as transformações dos espaços desde os tempos remotos até atualidade, condicionado por fatores humanos e naturais. O presente artigo analisa a dinâmica de paisagem da floresta sagrada de Morrungulo, que representa um potencial ecológico e cultural útil para a comunidade local através da promoção dos serviços ecossistêmicos. A pesquisa é de natureza exploratória e abordagem qualitativa. Como procedimentos metodológicos utilizou-se pesquisa bibliográfica e documental e, técnica de observação sistemática. Aplicada a metodologia, o estudo conclui que quando introduziram as igrejas nesta região houve a conversão da população e da família responsável pelas cerimónias tradicionais para a religião do livro, consequentemente a desvalorização dos mitos, lendas e crenças da comunidade que permitiam a conservação e preservação da floresta. Dentre fatores socioeconômicos destacam-se a destruição da floresta para aquisição do combustível lenhoso para a venda, construção de instâncias turísticas e a prática da agriculta nas áreas da floresta, para o consumo doméstico e o corte de estacas para a construção e venda.

Palavras-chave: Hemerobia, Floresta sagrada, Mitos e lendas, Atividades antrópicas.

Abstract: To assess the degree of changes in SACRED FOREST OF MORRUNGULO influenced by human action, interpretation and analysis were applied based on Jalas' hemerobia, attributing the same meaning of domination and/or alteration of landscapes, establishing four hemerobiotic degrees, from the most preserved to the most anthropized: a-hemerobiotic, oligo-hemerobiotic, meso-hemerobiotic, eu-hemerobiotic. This analysis is part of the theoretical approach called General Sistems Theory (TGS), including the study of hemerobia interconnected the transformations of spaces from ancient times to the present, conditioned by human and natural factors. This article analyzes the landscape dynamics of the sacred forest of Morrungulo, which represents a useful ecological and cultural potential for the local community through the promotion of ecosystem services. The research is exploratory in nature and has a qualitative approach. Bibliographical and documentary research and systematic observation techniques were used as methodological procedures. Applying the methodology, the study concludes that when churches were introduced in this region there was a conversion of the population and the family responsible for traditional ceremonies to the religion of the book, consequently the devaluation of the myths, legends and beliefs of the community that allowed the conservation and preservation of the forest. Among socio-economic factors, the destruction of the forest to acquire wood fuel for sale, the construction of tourist facilities and the practice of agriculture in forest areas for domestic consumption and the cutting of stakes for construction and sale stand out.

Keywords: Hemerobia, Sacred forest, Myths and legends, Anthropogenic activities.

Resumen: Para evaluar el grado de câmbios en el BOSQUE SAGRADO DEL MORRUNGULO influenciados por la acción humana, se aplico innterpretación y análisis basados en la hemerobia de Jalas, atribuyéndole el mismo significafo de dominación y/o alteración de los paisajes, estableciendo cuatro grados hemeroibióticos, desde el más conservada hasta el más antropizado:a-hemerobiótico, oligo-hemerbióticos, meso-hemerobiotico, eu-hemerobiótico. Este análisis se enmarca en el enfoque teórico denominado Teoría General de Sistemas (TGS), que incluve el estúdio de la hemerobia interconectada com las transformaciones de los espacios desde la antiguedad hasta la actualidade, condicionadas por factores humanos y naturales. Este artículo analiza la dinámica paisagística del bosque sagrado de Morrunguli, el cual representa un potencial ecológico y cultural útil para la comunidade local a través de la promoción de servicios ecosistémicos. La investigación es de carácter explora exploratório y tiene un enfoque cualitativo. Como procedimentos metodológicos se utilizaron técnicas de investigación bibliográfica y documental y observación sistemática. Aplicando la metodologia el studio concluye que cuando se introdujeron las iglesias en esta región hubo una conversión de la población y la família responsble de las ceremonias tradicionales a la religión del libro, condecuentemente la devaluación de los mitos, leyendas y creencias de la comunidade que permitió la conservación y preservación del bosque. Entre los factores socioeconómicos destacan la destrcción del bosque para adquiris leňa para la venra, la construcción de instalaciones turísticas y la práctica de la agricultura en zonas forestales para consumo interno y el corte de estacas para la construcción y venta.

Palabras clave: Hemerobia, Bosque sagrado, Mitos y leyendas, Actividades antropogénicas.

Résumé: Pour évaluer le degré de changements dans la FORÊT SACRÉ DE MORRUNGULO influencés par l'action humaine, une interprétation et une analyse ont été appliquées sur la base de L'hémérobie de Jalas, attribuant le même sens de domination et/ou d'altération des paysages, établissant quatre degrés hémérobiotiques, du plus preserve au plus anthropisé: a- hémérobiotiques, eu-hémérobiotiques. Cette analyse s'inscrit dans l'approche théorique appelée Théorie Générale des Systèmes (TGS), incluant l'étude des hémérobies interconnectées aux transformations des espaces de l'Antiquité à nos jours conditionnées par des facteurs humains et naturels. Cet article analyse la dynamique paysagère de la forêt sacrée de Morrungulo, qui represente un potentiel écologique et culturel utile pour la communauté locale à travers la promotion des services écosystémiques. La recherche est de nature exploratoire et adopte une approche qualitative. Des recherche bibliographiques et documentaires et des techniques d'observation systématique ont été utilisées comme procédures méthodologie, l'étude conclut que lorsque les églises ont été introduites dans cette région, il y a eu une conversion de la population et de la famille responsable des cérémonies traditionnelles à la religion du livre, par consequente la dévalorisation des mythes, legendes et croyances de la communauté qui permis la conservation et la préservation de la forêt. Parmi les facteurs sócio-économiques, on distingue la destruction de la forêt pour acquérir du bois de chauffage à vendre, la construction d'installations touristiques et la pratique de l'agriculture dans les zones forestières pour la consommation domestique et la coupe des pieux pour la construction et la vente.

Mots clés: Hémérobie, Forêt sacrée, Mythes et legendes, Activités anthropiques.

INTRODUÇÃO

No povoado de Morrungulo, distrito de Massinga, Província de Inhambane, existe uma floresta sagrada com multiplicidades de ambientes geológicos, paisagens, minerais, fósseis, solos e outros depósitos superficiais que congregam uma geodiversidade, biodiversidade e sociodiversidade específica. Há bastante tempo, senão séculos que teve o carácter sagrado, e consequentemente um lugar preservado devido às diversas restrições impostas pela tradição local no usufruto de determinados serviços de provisão que ela presta.

A floresta era uma forma que a ancestralidade tinha encontrado de preservar as espécies vegetais e faunísticas. O valor deste espaço para essas comunidades não era somente de garantir a conservação das plantas localmente valiosas para a cura de várias doenças, e para alimentação, mais também tinha o valor sociocultural. É nesta floresta sagrada que esta comunidade vem realizando os cultos, preces de evocação aos seus antepassados, daí a designação desta como sagrada. O poder tradicional esteve presente no dia a dia da comunidade, buscando aspirações, a sorte, a bonança nos rituais orientados neste espaço ecológico.

O valor sagrado desta floresta era garantido pelos mitos e lendas. O mito é entendido tanto no sentido de ficção ou de ilusão, como no sentido de tradição sagrada, revelação primordial. Ele surge a partir da necessidade da existência de uma explicação sobre a origem e o desenrolar dos acontecimentos, suas funções e finalidade, os poderes do divino sobre a natureza e os homens (AMORIM, 2022).

A lenda é definida como sendo uma narrativa transmitida oralmente pelas pessoas, visando explicar acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais, misturando fatos, com imaginários ou fantasiosos, e que vão se modificando através do imaginário popular (BAYARD, S/d). As lendas são, assim, histórias bem contadas, que revelam jeitos diferentes de compreender o mundo. É um mundo encantado, em que a chuva nasce da bondade do animal, nossos esquecimentos e confusões são travessuras e um menininho danado, cobras podem nos proteger ou prejudicar, monstros guardam as florestas. JALAS (1955) é o propositor do termo Hemerobia e atribui ao mesmo o significado de dominação e/ou alteração das paisagens assim institui quatro graus hemerobióticos, do mais preservado ao mais antropizado: a-hemerobiótico; oligo-hemerobiótico; meso-hemerobiótico; eu-hemerobótico.

O interesse pela pesquisa surge por termos constatado a partir da observação empírica e quotidiana que a floresta está a desaparecer, o que mostra que a população local já não acredita mais no aspecto sagrado da floresta. Portanto, estudar esta floresta é relevante devido aos serviços ecossistêmicos que desempenha para aquela comunidade, incluindo a sua localização estratégica numa área geográfica de demanda turística que pode ser um potencial para incentivar o turismo ecológico, devolvendo todos os ecossistemas que estão se degradando. Além de que esta pesquisa poderá servir de suporte teórico para estudos subsequentes e para elaboração de projetos de desenvolvimento sustentável comunitário.

O artigo estruturalmente apresenta metodologia, referencial teórico, discussão de resultados, considerações finais e referências bibliográfica.

METODOLOGIA

Em relação ao procedimento metodológico, a pesquisa é bibliográfica e estudo de caso. O primeiro foi usado para obter informações preliminares sobre a Hemerobia e seus fatores. Por outro lado, este foi utilizado para buscar teorias que sustentam o tema. O segundo ajudou ao trazer dados mais detalhados do problema através da exploração, descrição e explicação abrangente dos mitos e lendas da Hemerobia da floresta sagrada de Morrungulo.

A pesquisa quanto a abordagem é fenomenológica, pois, possibilitou buscar a interpretação dos fenómenos narrados pelos residentes do povoado de Morrungulo, através da consciência do sujeito formulado com base em suas experiências.

O objeto da abordagem fenomenológica é o próprio fenómeno tal como se apresenta à consciência, ou seja, o que aparece, e não o que pensa ou se afirmar a seu respeito. Tudo, pois, tem que ser estudado tal como é para o sujeito, sem interferência de qualquer regra (GIL, 2019).

A técnica de observação usou-se para a captura de imagens do satélite através do Google Earth Proo 1.3.34.11 e fez-se o georreferenciamento, que culminou com a delimitação do espaço geográfico, e depois a captura das imagens para aferir o grau da transformação da floresta sagrada de Morrungulo. As entrevistas foram dirigidas aos líderes locais (tradicionais e comunitário) e anciãos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A floresta sagrada de Morrungulo é tida desde muito pela população local como lugar de interesse cultural e de provisão dos ecossistemas, mas esta vem sofrendo Hemerobia motivado por fatores socioculturais e económicos. Esta floresta localiza-se no povoado do mesmo nome situado na localidade de Rovene, no posto administrativo de Massinga, limitando-se ao norte pelo povoado de Chiguelane, Sul povoado de Fagine, a este pelo Oceano Índico e a Oeste povoado de Lino (Figura 1).

Mapa da localização da floresta sagrada de Morrungulo
Figura 1
Mapa da localização da floresta sagrada de Morrungulo
Fonte: Autores (2021)

De acordo com SITOIE (2016), a floresta sagrada de Morrungulo enquadra-se em uma área de clima tropical húmido, onde nos meses de novembro a março são chuvosos, as temperaturas médias mensais variam entre 27ºc e 29ºc. Nos outros meses as temperaturas médias mensais variam entre 18ºc e 20ºc. Os meses de agosto, setembro e outubro são secos com precipitação inferior a 30 mm. De novembro a março, registam-se os índices pluviométricos superiores a 75 mm. O período de abril, maio, junho e julho é caracterizado por frio, colocando o município no grupo A da classificação de Koppen, e no W de Thornthwaite.

Em termos fitogeográficos esta floresta enquadra-se no mosaico regional de Zanzibar-Inhambane, cuja característica peculiar é florestas abertas e fechadas e abertas de miombo. Em Morrungulo não existe floresta primária por ter sofrido processo de conversão existindo a secundária em fragmentos do tipo bosque. Foi neste bosque que se realizou o estudo utilizando a técnica de Hemerobia com vista analisar a totalidade dos efeitos das ações humanas sobre a paisagem. A classificação foi realizada tendo em conta a tabela 1.

Tabela 1
Definição dos graus de Hemerobia
Grau de HemerobiaDescrição
MínimoÁreas de unidades de conservação, áreas de preservação permanente e fragmentos florestais.
Muito baixoÁreas com silvicultura e áreas de lazer.
BaixoÁreas com mata devastada devido à interferência antrópica (geralmente áreas abandonadas), vegetações rasteiras e arbustos.
MédioÁreas utilizadas para agricultura, pecuária e solo exposto e áreas preparadas para futuras construções civis.
AltoÁreas com construções civis de pequeno porte (casas) e construções espaçadas, ambas com jardins ou presença de arbustos e herbáceas.
Muito altoÁreas com calçadas, asfalto, centros comerciais, construções civis e públicas de médio e grande porte (prédios), podendo conter jardins, arbustos e árvores espalhadas.
MáximoÁreas industriais e usinas hidrelétricas
Fonte: Adaptado a partir de NUCCI (2010)

A floresta sagrada é definida como sendo porção de terra coberta por uma vegetação arbórea em que estão guardados no interior algo cultural para a comunidade. Nela podem estar enterrados os antepassados que tiveram grande importância na comunidade e que por este motivo servem de locais de profanação, onde a comunidade se comunica com os seus ancestrais através de orações invocativas em pedido de um bem para as suas vidas (BARROS, 2014).

[...] os rituais que vinham sendo realizados na floresta sagrada de Morrungulo eram de invocar os espíritos dos antepassados da família Nhamúshua, tida como dona da mesma (Líder tradicional, Comunicação verbal).

O ideal da unidade de todos os parentes do povoado se reafirmava no princípio de que o bem-estar “wutomi” só se pode alcançar por via dos antepassados da família Nhamúshua. Portanto, esses antepassados eram tidos como os responsáveis pela chuva, boas colheitas, saúde na comunidade, paz, entre outras bênçãos, daí as preces dirigidas para estes, nesta floresta sagrada.

A vegetação da floresta sagrada de Morrungulo é caracterizada por plantas nativas, com espécies para a extração de combustível lenhoso (carvão e lenha), laca-lacas e outras de grande porte como messassa, monzo, chanfuta e sândalo onde se extraí estacas para construção de casas de habitação e espécies medicinais. A tabela 2 abaixo ilustra as diferentes espécies e sua utilidade.

Tabela 2
Espécies vegetais usadas para fins medicinais
Nome vernacular Nome científico Uso
XitchimbatchimbaneStictocardia laxifloraEpilepsia
TxisikiraneAcalyphaspTrata acne
KalhuaneTabernaemontanaelegansQueimaduras
HangulaEucleanantalensisCárie dentária
XitimanziluaniChamaesyceinaesquilateraDores de vista
TsovayakhuatiAnnonasenegalensisAsma e dores do peito
TchanjawuaUvaniaspTuberculose
ThethenhaPhyllantusreticulatusHemorroida e feridas
SessaneAbrusprecatoriusFeridas e estômago
Aloe veraDoenças gastrointestinais
MagolomotsiDicerocaryumsenecioidesEpilepsia e estômago
Kovanhi Comelina bengalensi Trata cólicas
Fonte: Autores (2021)

Ilustração de algumas plantas medicinais da Floresta Sagrada de Morrungulo
Figura 2
Ilustração de algumas plantas medicinais da Floresta Sagrada de Morrungulo
Fonte: Autores (2021)(A) Kakluane(tabernaemontanaelegans).(B) Nembenembe(sennapetrsiana).

Ilustração de algumas plantas medicinais da Floresta Sagrada de Morrungulo
Figura 3
Ilustração de algumas plantas medicinais da Floresta Sagrada de Morrungulo
Fonte: Autores (2021)(C) Sessane (Abrusprecatorius).(D) Magolomotsi (Dicerocaryumsenecioides)

Tabela 3
Espécies para obtenção do material de construção e combustível lenhoso
Nome vernacular Nome científico Uso
BalatangatiBridelia catártica Estacas
TxifungaZiziphus mucronata Estacas e cordas
TsondzoCordyla africana Estacas, cordas e laca-lacas
MessassaBrachystegia spicifomis Estacas e lenha
NhatchacaneCommiphora neglata Cordas, laca-lacas e estacas
TsondzoCordyla africanaLenha para venda e familiar
LhalaStrycnos spninosaLenha para uso familiar
NtitiArtabotrys brachypetalusLenha para uso familiar
Fonte: Autores (2021)

Das plantas apresentadas nas tabelas acima algumas extinguiram na base do nível da Hemerobia, como é o caso de txisikirane; Xitimanziluani; Tchanjawua; Messassa; Ntiti.

Mitos e crenças que conservavam e preservavam a floresta sagrada de Morrungulo

Em Morrungulo há uma crença de que o espírito de Nhamúshua e seus descendentes sepultados na floresta sagrada continuam vivos e velam pela comunidade local até a atualidade, por isso toda a comunidade via a floresta como de interesse cultural comunitário. Ainda se acreditava que os frutos daquela floresta devem ser consumidos dentro da mesma. Era proibido urinar, defecar, namorar, abrir campos de cultivo, construir casa, fazer queimadas, caçar qualquer tipo de animal, tirar frutos para venda, apascentar gado, abrir caminhos ou entrar na floresta com bebidas alcoólicas além das necessárias para a cerimónia.

[...] desde cedo era interdita a entrada de qualquer pessoa na floresta, sem que se faça a comunicação aos antepassados, pois, acreditava-se que se ouvia vozes que criava distúrbio mental para o infrator, perdendo-se pela mata. Caso alguém quisesse cortar estacas não era interdita, mas devia deixar na floresta a primeira estaca por si cortada. Para o corte da lenha acontecia o mesmo, o primeiro molho tinha que deixar na floresta. Esta era uma das formas que se acreditava ser de agradecimento aos antepassados que protegem a floresta (AN, 2021, Comunicação pessoal).

[...] a transgressão de qualquer uma das proibições referidas acreditava-se que uma cobra grande era vista na floresta que corria com os infratores. Acreditava-se que eles podiam permanecer dentro da floresta, por não conseguir achar o caminho para saída ou por permanecer estático imediatamente após o início ao ato proibido até que o ancião responsável pela floresta realize uma cerimónia denominada Kupalha de modo a que tudo volte à normalidade (AN, 2021, C.p).

Esses e outros mitos mantinham a biodiversidade na floresta sagrada de Morrungulo até o período que passaram a serem desvalorizados devido o aparecimento da religião de livro que fez com que muitos se convertessem abandoando as práticas culturais que preservavam a floresta.

Existem várias pesquisas que comprovam que os níveis de biodiversidade são frequentemente muito mais elevados nestes lugares, devido à proteção que lhes é conferida em função do seu carácter sagrado, do que nas áreas ao seu redor, onde os habitats foram significativamente modificados por vários tipos de uso da terra (WILD & MACLEOD, 2008).

Fatores da Hemerobia da floresta sagrada de Morrungulo

Os fatores que contribuem na Hemerobia da floresta são de carácter cultural e económico. Para o primeiro caso destaca-se a conversão da comunidade do povoado de Morrungulo à religião de livro que foi-se implantando ao longo do tempo conforme mostra a tabela 4, que tem contribuído para a desacreditação das crenças, mitos e lendas que preservavam ao longo do tempo, em torno da sacralidade da floresta[1]. Esta situação levou também a olharem a floresta como um recurso a ser aproveitado sem tabus, esgotando assim o conhecimento tradicional de gestão comunitária de recurso naturais conforme afirmou o Líder comunitário.

Tabela 4
Cronologia de implantação das igrejas cristas no povoado de Morrungulo
Nome da IgrejaPeríodo de implantação
Metodista UnidaPrincípios da década de 1990
CatólicaMeados da década de 1990
ZionePrincípios da década de 2000
Velho ApostoloPrincípios da década de 2000
Fonte: Autores (2021)

Estas igrejas por natureza não incentivam o culto dos antepassados. Portanto, a família Nhamúshua, representante da floresta converteu-se logo no princípio de 2000 à religião do livro, passando a crente da igreja Zione.

Os fatores de carácter económico são aqueles que resultam da atividade antrópica para a satisfação das necessidades (figura 4).

Atividades desenvolvidas na floresta de Morrungulo
Figura 4
Atividades desenvolvidas na floresta de Morrungulo
Fonte: Adaptado partir das entrevistas do trabalho do campo (2021)

Do gráfico referente às atividades desenvolvidas na floresta sagrada constatamos através do universo das pessoas entrevistadas que a agricultura e a construção de instâncias turísticas representam principais atividades que contribuem para Hemerobia.

A obtenção de plantas para o uso medicinal e ainda a busca do combustível lenhoso tornam-se também atividades de riscos para a própria floresta de Morrungulo. Somadas todas estas atividades que são desenvolvidas na área de estudo os seus efeitos influenciam na Hemerobia do ecossistema florestal.

O abate indiscriminado das árvores para obtenção de material de construção e o uso do fogo (figura 5) como umas das técnicas usadas na atividade de agricultura na área da floresta tornam-se fatores de maior risco para a manutenção da floresta.

Uma parte da floresta aberta para a obtenção do material de construção
Figura 5
Uma parte da floresta aberta para a obtenção do material de construção
Fonte: Autores (2021)

O derrube de árvores nas florestas reduz em primeiro lugar cobertura vegetal e em segundo lugar a biodiversidade.

Agricultura com recurso ao fogo
Figura 6
Agricultura com recurso ao fogo
Fonte: Autores (2021)

O corte de lenha para a comercialização é uma ação mais significativa porque recai sobre as pequenas manchas florestais dispersas pela paisagem e que albergam pequenas populações, para além de construírem o lugar onde os animais que se estabeleceram na floresta podem satisfazer outras necessidades como a alimentação e a reprodução.

Para além da exploração dos recursos vegetais em si, em muitos casos, o comércio de lenha implica queimadas com todos os efeitos acima referidos. Apesar das queimadas possam ser benéficas enquanto instrumentos de maneio de áreas florestais, devem ser evitadas pois, dependendo do tipo de floresta, podem ter consequências negativas tais como redução do carbono orgânico do solo, redução da biomassa microbiana e redução das taxas de mineralização do nitrogénio (WANG, ZHONG E WANG, 2012).

Observa-se que esta atividade tem efeitos negativos porque não é feita apenas para o uso familiar, mas também para comercialização o que implica cortar lenha em grandes quantidades tendo em conta que não há restrição na floresta. Esta situação pode ser explicada pela desvalorização das crenças por parte da comunidade estudada.

O estudo de FERRÃO (2010) realça que a atividade de corte da lenha enquadra-se nos mecanismos de deterioração da biodiversidade ou empobrecimento biótico pois com a remoção total de algumas espécies vegetais o sol começa a incidir diretamente para o solo e provoca o deslocamento e ou a morte de alguns microrganismos.

A figura 7 ilustra uma das instâncias turísticas implantadas na área da floresta sagrada de Morrungulo.

Uma residência turística implantada na área da floresta Sagrada
Figura 7
Uma residência turística implantada na área da floresta Sagrada
Fonte: Autores (2021)

A tabela 5 mostra as atividades que ocupam a área de estudo e o grau de Hemerobia que representam.

Tabela 5
Principais atividades que ocupam a área da floresta e o grau de Hemerobia
Tipo de atividadeÁrea aproximada que ocupaGrau de Hemerobia
Instância turística3 ha - correspondente à 3 instância.ALTO
Machambas3 ha -correspondente à 13 machambas.MÉDIO
Residências2,5ha-correspondente à 9 casas /palhotas.ALTO
Fonte: Autores (2021)

Tendo em conta que a floresta inicialmente correspondia cerca de 12 ha, com a ocupação de grande parte da sua área por estas atividades restava cerca de 3,5 h. Porém, a área remanescente foi sendo devastada por outras atividades como, de corte de lenha; corte de estacas para a construção de instâncias turísticas[2] e residências da população aí estalada, restando apenas uma área aproximadamente de 1ha.

Medidas para a restauração e preservação da floresta sagrada de Morrungulo

A primeira medida proposta seria de aplicação de métodos de restauração ativa e passiva da vegetação da floresta. A segunda medida será de aplicação da legislação relacionada com a conservação dos ecossistemas florestais para garantir a ação conjunta sobre a floresta sagrada; A terceira medida será de aproveitamento da floresta sagrada para o turismo ecológico.

A Regeneração ou restauração ativa é entendida por BARBOSA e IANTAS (2019) como sendo aquela que consiste na introdução de espécies nativas, utilizando técnicas de plantio de mudas ou semeadura direta. Para o caso da floresta sagrada de Morrungulo a regeneração ativa será aplicável nas áreas de prática da agricultura, onde grandes partes das espécies nativas já não existem, ou seja, estão em extinção.

Inicialmente propõem-se a criação de um comité de gestão comunitária naquele povoado, composto por líder tradicional e comunitário local, técnicos do Serviços Distritais de Atividades Económica (SDAE) ligados a área de floresta e fauna bravia (FFB), representantes da Universidade Save-Massinga, particularmente dos cursos de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável das Comunidades e de Biologia. Será este comité responsável pela identificação das áreas da floresta degradadas pela agricultura, e delimitação delas.

O comité mencionado teria como ações concretas: repovoamento das espécies nativas através da técnica de plantio de mudas e de lançamento de algumas sementes; promover e realizar atividades de investigação.

A regeneração passiva também conhecida por condução da regeneração natural, é tida por BARBOSA e IANTAS (2019) como um método de restauração utilizado para áreas que apresentam um alto potencial de regeneração natural. Nesse método não há a introdução de novas espécies na área, mas sim, a adopção de técnicas que facilitam a sobrevivência e a propagação das espécies naturalmente regenerados.

Aplicação das leis para a regeneração dos ecossistemas florestais, como segunda medida, atribui maior responsabilidade aos técnicos do SDAE na aplicação da legislação relacionada com a conservação dos ecossistemas florestais em Moçambique. Sobre a proteção das florestas e fauna bravia o país possui a Lei n° 10/99, de 12 de julho, que estabelece as normas básicas de proteção, conservação e utilização sustentável dos recursos florestais e faunísticos no quadro de uma gestão integrada, para o desenvolvimento económico e social.

Para o caso da floresta sagrada de Morrungulo, os técnicos do SDAE, deverão aproveitar o primeiro princípio da lei que estabelece “Domínio público do Estado - os recursos florestais e faunísticos existentes no território nacional são propriedade do Estado” para persuadir a comunidade local que aquela floresta é um bem comum por isso, deve ser protegida.

Ainda chamar atenção para à ação conjunta entre a comunidade local e os órgãos de Estado, na conservação, gestão e utilização dos recursos florestais e faunísticos de forma sustentável. Isto é, sendo a aquisição da lenha em árvores secas, que segundo RIBEIRO et al. (2005), só pode ser cortada se estiver num estado em que a própria natureza já a colocou à disposição.

Nesta perspectiva é necessário o estabelecimento de normas de uso de recursos desta floresta que incluam a restrição de corte total de espécies vegetais para o efeito assim como a emissão de licenças de exploração simples como está escrito no artigo 16 da lei de Floresta e Fauna Bravia (FFB) para pessoas que cortam lenha para a venda.

O corte seletivo de estacas, privilegiando as espécies mais abundantes; criação de uma zona tampão que servirá de transição entre a floresta e a área habitada. Relativamente ao terceiro princípio da lei, os técnicos do SDAE podem pautar pela educação ambiental a comunidade local e programar intercâmbio entre os comités de gestão das florestas sagradas.

O aproveitamento da floresta sagrada para o turismo ecológico seria terceira medida. Este tipo de turismo, segundo DIAS (2003) é uma atividade turística que utiliza, de forma sustentável o património natural e cultural, incentiva a sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista por meio da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações.

Portanto, a floresta sagrada seria um lugar de contacto com o ambiente natural, onde as pessoas iriam visitar para apreciar a paisagem constituída por uma diversidade faunística e de flora, e vivenciando também as práticas culturais daquele povoado. Para isso seria necessária a recuperação da sacralidade do local, visto que foi por esta razão que durante muito tempo tornou-a respeitada mantendo a mesma em estado natural. Deste modo, caberia ao governo do distrito fazer perceber as lideranças tradicionais que respondem pela floresta a necessidade de recuperar o valor cultural que vinham preservando sobre aquela, tendo em conta os benefícios que passariam a ter.

Um dos benefícios que se esperaria ter é os valores monetários que os visitantes pagariam a comunidade local em troca de sua estadia. O outro benefício é que a recuperação dos mitos ou crenças sobre a floresta pode voltar a resultar na queda frequente da precipitação que contribuirá para a boa produção agrícola.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Terminada a pesquisa que tinha como objetivo principal compreender os fatores da Hemerobia da floresta sagrada de Morrungulo, pode se concluir que fatores antrópicos são em grande medida responsáveis pela transformação do ecossistema deste lugar, a seguir os fatores culturais. Os primeiros têm a ver com a ocupação desordenada da área da floresta com instâncias turísticas; residências da população; prática de agricultura; corte de lenha para o uso doméstico e venda e corte de estacas para a construção de casas. Para o segundo caso à que destacar a conversão das comunidades do povoado de Morrungulo à religião de livro, o que contribuiu para a desacreditação das crenças, mitos e lendas que preservavam ao longo do tempo, em torno da sacralidade da floresta. Com esta realidade, a população local passou a olhar a floresta como um recurso a ser aproveitado sem tabus, esgotando assim o conhecimento tradicional de gestão comunitária de recurso naturais.

Foram aqui apresentadas algumas medidas para que a floresta sagrada de Morrungulo possa a ser restaurada e preservada. São elas, de aplicação de métodos de restauração ativa e passiva da vegetação da floresta; aplicação da legislação relacionada com a conservação dos ecossistemas florestais, para garantir a ação conjunta sobre a floresta sagrada e, de aproveitamento da floresta sagrada para o turismo ecológico. Estas não constituem únicas medidas, à que se pensar em outras que naturalmente poderão contribuir para o bem desta floresta.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BARBOSA, G. M. N. & IANTAS, R. Manual de restauração da vegetação nativa para adequação ambiental de imóveis rurais do Estado do Tocantes. Palmas-To: STCP, 2019.

BARROS, J. F. P. A floresta sagrada de Ossaim. O segredo das folhas. Editora Dallas, RJ, 2014.

DIAS, R. Turismo sustentável e meio ambiente. São Paulo: Atlas, 2003.

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Notas

[1] Por exemplo, um dos mitos é de que aquela floresta mantinha uma ligação entre os vivos e os mortos, desta forma, qualquer actividade por se realizar naquele povoado devia-se comunicar os antepassados que aí repousam, através do ritual de kupalha. Este valor cultural foi passando de geração em geração, mantendo-se assim o respeito pela floresta.
[2] Isto ocorre porque as instâncias turísticas aí construídas são com base de material misto
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