Identidade, cultura e fronteira: reflexões sobre os processos identitários em Oiapoque a partir de análise bibliográfica e observações do inventário turístico de valores culturais

Identidad, cultura y frontera: reflexiones sobre los procesos identitarios en Oiapoque basadas en el análisis bibliográfico y las observaciones del inventario turístico de valores culturales

Maria Eduarda da Silva Negrão
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amapá, Brasil
Rachel Dourado da Silva
Instituto Federal de Ciências e Tecnologia do Amapá, Brasil

Revista Presença Geográfica

Fundação Universidade Federal de Rondônia, Brasil

ISSN-e: 2446-6646

Periodicidade: Frecuencia continua

vol. 12, núm. 2, 2025

rpgeo@unir.br

Recepção: 30 Novembro 2025

Aprovação: 20 Dezembro 2025



Resumo: Este artigo examina os processos de construção identitária e cultural no município de Oiapoque, situado na fronteira entre Brasil e Guiana Francesa. A análise articula referenciais teóricos e observações produzidas durante o Inventário Turístico de Valores Culturais realizado no território. Com base em uma abordagem qualitativa e em uma revisão bibliográfica apoiada em autores como Stuart Hall, José Luiz dos Santos, Néstor García Canclini, Homi Bhabha e Daniela Kern, compreende-se a identidade como um processo relacional, mutável e especialmente evidenciado em espaços fronteiriços. Os dados do inventário – manifestações culturais, paisagens simbólicas, bens materiais e imateriais – são mobilizados como exemplos concretos para mostrar como hibridismo, pertencimento e memória se expressam no cotidiano dos moradores de Oiapoque. Observa-se que o município constitui um cenário privilegiado para compreender identidades híbridas e dinâmicas de multiculturalidade, ressaltando a importância da valorização cultural no fortalecimento de políticas patrimoniais e turísticas.

Palavras-chave: Identidade cultural, Fronteira, Oiapoque, Hibridismo, Patrimônio cultural.

Palabras clave: Identidad cultural, Límite, Oiapoque, Hibridismo, Patrimonio cultural

INTRODUÇÃO

Discutir identidade e cultura em contextos de fronteira implica reconhecer que ambas são construções históricas, simbólicas e sociais. A partir de Stuart Hall (2006), compreende-se que a identidade não é fixa nem concluída; ela se constitui no movimento das relações sociais e nas diferenças que surgem quando os sujeitos se encontram, negociam sentidos e se reposicionam no mundo. Essa dinâmica torna-se ainda mais visível em territórios como Oiapoque, no extremo norte brasileiro, onde o contato permanente com a Guiana Francesa produz encontros, tensões e recomposições contínuas.

O estudo dialoga igualmente com reflexões sobre cultura, como as de José Luiz dos Santos (1987), para quem a cultura corresponde às formas pelas quais um grupo elabora sentidos para a vida coletiva, produzindo referências comuns que orientam suas práticas e modos de interpretar o cotidiano. Soma-se a isso o debate sobre hibridismo cultural, presente em autores como Néstor García Canclini (2008) e Daniela Kern (2004), esta última ao destacar as rupturas, continuidades e recombinações simbólicas que atravessam sociedades marcadas pela mistura e pela circulação de ideias, objetos e pessoas.

As observações produzidas no Inventário Turístico de Valores Culturais de Oiapoque evidenciam a concretude desses processos: tradições, objetos, festas, religiosidades, práticas sociais e saberes ancestrais revelam como a identidade local é tecida e atualizada cotidianamente. Ao articular referencial teórico e evidências empíricas do inventário, este artigo busca compreender como as identidades se constroem e se expressam em um território fronteiriço e multicultural.

Identidade Social e Cultural: Uma Construção em Movimento

A identidade cultural, como propõe Hall (2006), constitui-se como uma produção discursiva em constante negociação. Essa perspectiva dialoga com as reflexões de José Luiz dos Santos (1987), para quem a cultura corresponde às formas pelas quais grupos sociais atribuem sentido ao mundo e reconhecem-se enquanto coletividade. Trata-se, portanto, de um processo vivo, que se atualiza conforme sujeitos e grupos se relacionam, estabelecem fronteiras simbólicas e produzem referências comuns.

No Oiapoque, essa dinâmica torna-se particularmente evidente na convivência entre múltiplos grupos: povos indígenas Palikur-Arukwayene, Galibi-Marworno, Galibi Kali’na e Karipuna; comunidades quilombolas; ribeirinhas; populações urbanas e migrantes de diversas regiões do Brasil. Soma-se a isso o fluxo transfronteiriço cotidiano: trabalhadores que atravessam para a Guiana Francesa, guianenses que visitam o Oiapoque para lazer ou compras, e circulações que intensificam trocas culturais, econômicas e simbólicas.

Os elementos identificados no Inventário Turístico de Valores Culturais, como o tacacá tradicional; o artesanato indígena; o marabaixo e as técnicas de pesca, tornam visível essa convivência plural. Em vez de homogeneizar práticas, o território acolhe diferenças que coexistem e se influenciam, gerando formas de pertencimento que são, ao mesmo tempo, locais e transnacionais. Assim, no Oiapoque, as identidades se constroem na medida em que grupos e sujeitos compartilham o cotidiano, ajustam práticas e reelaboram seus modos de pertencer ao território.

Fronteira e Hibridismo: Contribuições de Bhabha, Canclini e Kern

Homi Bhabha (2013) compreende a fronteira como um espaço intermediário, um “entre-lugar” em que diferentes referências culturais se confrontam, se tensionam e se transformam, produzindo sentidos novos que não pertencem integralmente a nenhum dos lados. Essa concepção dialoga com Canclini (2008), para quem a experiência latino-americana é marcada por cruzamentos constantes que reconfiguram tradições, modos de vida e formas de estar no mundo. Kern (2004) amplia esse debate ao mostrar que tais misturas não são exclusividade do presente: elas integram a própria lógica histórica das sociedades em interação, constituindo-se como processos contínuos de reelaboração simbólica.

A realidade oiapoquense confirma essas reflexões. No inventário cultural, o marabaixo aparece coexistindo com rituais católicos, cantos indígenas, práticas francesas e expressões urbanas contemporâneas, compondo um cenário de superposições e ressignificações. A paisagem da cidade também comunica essa dinâmica: o Monumento “Aqui Começa o Brasil”, o Museu Kuahí, o Mercado Municipal, a orla e o intenso fluxo diário de trabalhadores entre os dois países revelam um território no qual referências culturais se interpenetram de maneira permanente.

Esses elementos evidenciam que Oiapoque se configura como um espaço paradigmático do hibridismo cultural, onde a fronteira deixa de ser concebida como limite para tornar-se lugar de circulação, encontro e reinvenção.

Cultura, Memória e Pertencimento no Território Oiapoquense

A cultura opera como um sistema simbólico que organiza percepções, práticas, afetos, memórias e modos de estar no mundo. Como enfatiza Ailton Krenak (2020), cultura não se reduz a expressões formais, bens materiais ou manifestações espetacularizadas; ela se expressa sobretudo nos modos de viver, nas formas de se relacionar com as pessoas, com a natureza e com o território. Essa compreensão é particularmente pertinente em regiões amazônicas e fronteiriças, como Oiapoque, onde o cotidiano é atravessado por múltiplas cosmologias, tradições e experiências históricas.

No município, as dimensões culturais e identitárias tornam-se perceptíveis tanto em bens materiais quanto em práticas imateriais observadas durante o Inventário Turístico de Valores Culturais. O Museu Kuahí, por exemplo, configura-se como muito mais que um espaço expositivo: atua como dispositivo de salvaguarda da memória indígena e como lugar de afirmação histórica e política dos povos Palikur-Arukwayene, Galibi-Marworno, Galibi Kali’na e Karipuna. Suas coleções e narrativas revelam não apenas objetos culturais, mas modos de vida, tecnologias ancestrais, histórias de resistência e uma profunda relação com o território.

As técnicas tradicionais de pesca, entre outras práticas, presentes sobretudo em comunidades ribeirinhas e aldeias, evidenciam a forma como saberes são transmitidos entre gerações. Não se trata apenas de atividades econômicas, mas de conhecimentos ecológicos complexos, vinculados ao ciclo do rio Oiapoque (Figura 1), aos ventos, às fases da lua e aos modos de manejo da floresta. Esses saberes constituem um patrimônio vivo que estrutura o pertencimento local e reforça vínculos comunitários.

Rio Oiapoque
Figura 1
Rio Oiapoque
Silva, R. D. da, fevereiro 2025

A culinária tradicional, como o tacacá registrado no inventário, também opera como marcador identitário fundamental. Além de remeter a ingredientes amazônicos, sua preparação convoca memórias afetivas, redes de sociabilidade e práticas cotidianas de convivência. Comer tacacá na feira, na praça ou nos pontos tradicionais da cidade não é apenas um ato alimentar; trata-se de um gesto cultural que expressa pertencimento, encontro e continuidade.

O acervo fotográfico de Seu José (Figura 2), referência incontornável da memória visual do município, revela a importância das narrativas imagéticas na construção da história local. Suas fotografias, que vão de eventos religiosos a cenas cotidianas, de paisagens urbanas a transformações espaciais, funcionam como documentos de memória social. Elas não apenas registram o passado: orientam modos de perceber o presente e contribuem para que a comunidade reconheça a si mesma enquanto coletivo histórico.

acervo fotográfico de Seu José
Figura 2
acervo fotográfico de Seu José
Negrão, M. E. S., março 2025

As manifestações religiosas, como a Festa de Nossa Senhora das Graças e a Festa de São Benedito, expressam a permanência de tradições que articulam fé, identidade coletiva e ocupação simbólica do espaço urbano. Em Oiapoque, essas celebrações reúnem grupos diversos e evidenciam como o sagrado também se torna espaço de encontro entre culturas distintas, reforçando vínculos comunitários e modos de convivência.

As paisagens simbólicas – o rio Oiapoque, a orla, a ponte binacional e o Monumento “Aqui Começa o Brasil” – também representam marcos fundamentais de memória e pertencimento. O rio, em particular, atua como eixo central da vida social, econômica e cultural. É estrada, meio de sobrevivência, espaço de espiritualidade e fronteira simbólica que simultaneamente separa e conecta, estruturando práticas cotidianas e imaginários territoriais.

Esses elementos revelam que o pertencimento se ancora tanto na ancestralidade quanto nas experiências contemporâneas. Mesmo em um território marcado por intensas trocas culturais, migrações, trânsitos e influências externas, as práticas culturais observadas preservam o fio da continuidade, articulando passado e presente. Assim, a identidade oiapoquense se configura como uma rede tecida por memórias compartilhadas, vínculos territoriais e modos específicos de habitar a fronteira.

MÉTODO E TÉCNICAS

Procedimentos Metodológicos e Orientação Epistemológica

A pesquisa desenvolvida possui natureza qualitativa e fundamenta-se na análise bibliográfica sobre identidade cultural, fronteiras, processos de hibridização e práticas simbólicas. A esse referencial teórico somam-se as observações oriundas do Inventário Turístico de Valores Culturais de Oiapoque, utilizado aqui como fonte empírica complementar. O inventário não é tratado como relatório técnico, mas como uma lente interpretativa capaz de aproximar teoria e território, permitindo observar como os conceitos discutidos pelos autores se materializam no cotidiano oiapoquense.

Embora o estudo não adote uma metodologia fenomenológica clássica – uma vez que não foram realizadas entrevistas, narrativas de vida ou procedimentos formais de redução, ele se inspira na orientação epistemológica da fenomenologia, sobretudo nas contribuições de Edmund Husserl, mediadas por Edith Stein (2007, 2018). Essa inspiração manifesta-se na forma como o inventário foi mobilizado: privilegiando descrições cuidadosas dos fenômenos culturais, suspendendo pré-conceitos e buscando compreender o significado das práticas observadas em seu contexto vivido.

O direcionamento fenomenológico presente em Husserl (2006) sugere que o pesquisador descreva, antes de explicar, aquilo que se apresenta na experiência, evitando impor categorias externas às realidades observadas. Stein (2018), por sua vez, enfatiza que compreender o mundo cultural requer disponibilidade para perceber como o outro vive e expressa seus valores – perspectiva fundamental para interpretar práticas em um território como Oiapoque.

Dessa forma, a metodologia adotada articula análise bibliográfica, observações descritivas do inventário e uma orientação fenomenológica entendida como atitude investigativa. Essa combinação permite interpretar identidades, práticas e paisagens culturais de Oiapoque não como dados isolados, mas como expressões dinâmicas de pertencimento, memória e hibridismo em um território de fronteira.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Análise Integrada dos Processos Identitários em Contexto Fronteiriço

A análise integrada entre os aportes teóricos e os elementos empíricos do Inventário Turístico de Valores Culturais evidencia que a identidade em Oiapoque é resultado de um tecido sociocultural continuamente refeito. A convivência entre tradições indígenas, afro-amapaenses, amazônicas, caribenhas, francesas e brasileiras mostra que a fronteira opera como espaço de encontros, deslocamentos e negociações cotidianas, confirmando a leitura de Homi Bhabha (2013) sobre a produção de identidades no “entre-lugar”. Assim, Oiapoque não pode ser compreendido como zona de separação, mas como território de trânsito e criação, onde diferentes referências culturais se encontram e se transformam, produzindo novos sentidos de pertencimento.

Os dados do inventário reforçam essa interpretação ao revelar práticas que convivem e se influenciam mutuamente: o marabaixo e suas matrizes afro-amapaenses; o artesanato indígena e suas tecnologias ancestrais; as festividades católicas, que reúnem públicos diversos; a culinária amazônica, marcada por saberes familiares e comunitários; os rituais de cura; e as trocas comerciais cotidianas com a Guiana Francesa. Essa coexistência não se configura como um mosaico perfeitamente harmonioso; ao contrário, ela é dinâmica, atravessada por adaptações, tensões, apagamentos e ressignificações, movimento que dialoga diretamente com Canclini (2008), ao apontar o hibridismo como traço constitutivo da modernidade latino-americana.

A descrição dos espaços urbanos e simbólicos – a orla do rio Oiapoque, o Monumento “Aqui Começa o Brasil”, o Museu Kuahí, o Mercado Municipal, demonstra que a cidade se constitui como paisagem identitária na qual memória, circulação e territorialidade se articulam. Esses espaços não representam culturas isoladas, mas condensam camadas históricas que revelam tanto ancestralidade quanto modernidade. Essa perspectiva aproxima-se de Hall (2006), ao ressaltar que identidades não são essências estáveis, mas processos em constante (re)construção, moldados por múltiplos referenciais e pelas condições históricas que se apresentam.

A presença de povos indígenas com trajetórias distintas, de migrantes brasileiros vindos de diversas regiões do país e de trabalhadores transfronteiriços evidencia que Oiapoque é um território multicultural em fluxo permanente. As práticas registradas no inventário demonstram como essa multiplicidade se concretiza na vida cotidiana: técnicas de pesca e cultivo que dialogam com o ciclo do rio; modos de preparo do tacacá que preservam memórias afetivas; narrativas visuais constituídas por fotógrafos locais; rituais religiosos e festas comunitárias que reforçam vínculos coletivos. Esses elementos mostram que a identidade não é fixa nem homogênea; ela é relacional, situada e vivida, compreensão central em Hall (2006) e que também se aproxima da atitude fenomenológica voltada ao mundo vivido.

Dessa maneira, a discussão revela que a fronteira de Oiapoque é produtora de identidades, e não mero limite geográfico. Trata-se de um espaço onde o cotidiano é atravessado por trocas culturais intensas, que produzem formas singulares de pertencimento e modos de vida ajustados às condições específicas de um território liminar. O inventário, ao trazer à superfície esses elementos, permite compreender como memória, cultura e identidade se articulam na materialidade da vida social, tornando visível a complexidade e a vitalidade do Oiapoque contemporâneo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As análises realizadas demonstram que Oiapoque constitui um espaço privilegiado para a compreensão dos processos identitários que emergem em territórios fronteiriços. Ao articular o referencial teórico com os dados empíricos do inventário cultural, tornou-se possível visualizar como pertencimento, memória e hibridismo se expressam nas práticas cotidianas da população, produzindo identidades plurais, situadas e permanentemente transformadas.

O estudo evidencia que a fronteira funciona menos como linha divisória e mais como dispositivo que impulsiona encontros, trocas e reinvenções culturais. Esses processos são continuamente reelaborados, influenciados pelos fluxos migratórios, pela convivência entre matrizes indígenas, afro-amapaenses e amazônicas, e pelo diálogo constante com a Guiana Francesa. A realidade oiapoquense confirma que os sentidos de pertencimento se formam de maneira flexível, em ajustes sucessivos, aproximando-se das reflexões de Hall (2006), Bhabha (2013) e Canclini (2008) sobre identidades produzidas em contextos de circulação, mistura e negociação cultural.

Outro aspecto relevante destacado pela pesquisa é a importância da valorização cultural como estratégia para fortalecer políticas públicas de turismo, educação patrimonial e gestão da memória local. O inventário, ao registrar bens, práticas e saberes, não apenas documenta elementos culturais, mas ilumina modos de vida que dão forma à identidade do município. Revela, assim, que a riqueza cultural de Oiapoque constitui um recurso simbólico e também potencialmente econômico, capaz de contribuir para iniciativas de desenvolvimento territorial e projetos de fortalecimento comunitário.

Conclui-se, portanto, que compreender as identidades de Oiapoque implica reconhecer a complexidade e a vitalidade de seu cenário fronteiriço. Cultura, memória e hibridismo apresentam-se como dimensões indissociáveis na constituição da experiência oiapoquense, articulando passado e presente, tradição e circulação, ancestralidade e reinvenção. Este artigo busca contribuir para esse debate ao demonstrar como esses elementos se entrelaçam na vida cotidiana, abrindo caminhos para investigações futuras que desejem aprofundar a relação entre território, mobilidade e modos de vida em regiões de fronteira.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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HALL, Stuart. A identidade cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Editora DP&A, 2006.

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