Impactos socioeconômicos do turismo sustentável em comunidades locais: uma revisão sistemática da literatura sobre Canoa Quebrada-CE

Socioeconomic impacts of sustainable tourism in local communities: a systematic literature review on Canoa Quebrada-CE

Joaquim José da Silva Xavier
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, Brasil
Susana Dantas Coelho
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, Brasil
Antonio Cavalcante de Almeida
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, Brasil
Júlio César Ferreira Lima
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, Brasil

Revista Presença Geográfica

Fundação Universidade Federal de Rondônia, Brasil

ISSN-e: 2446-6646

Periodicidade: Frecuencia continua

vol. 12, núm. 2, 2025

rpgeo@unir.br

Recepção: 21 Outubro 2025

Aprovação: 28 Novembro 2025



Resumo: Este artigo apresenta uma revisão sistemática da literatura (RSL) sobre os impactos socioeconômicos do turismo sustentável em comunidades locais, com foco em Canoa Quebrada, no município de Aracati, Ceará. A análise envolveu cinco estudos realizados em diferentes áreas do município, como o Quilombo do Cumbe, a ARIE da Vila do Estevão e a própria Canoa Quebrada-CE. Os resultados indicam que o turismo sustentável pode gerar benefícios como criação de empregos, aumento de renda, melhoria da infraestrutura e fortalecimento da identidade cultural. No entanto, também surgem desafios, como a pressão sobre os recursos naturais, descaracterização cultural e tensões sociais. A pesquisa enfatiza a necessidade de estratégias de turismo adaptadas às especificidades locais e voltadas à sustentabilidade socioambiental. Conclui-se que a gestão inclusiva e a preservação cultural e ambiental são essenciais para que o turismo sustentável seja efetivamente um motor de desenvolvimento socioeconômico. Recomenda-se a ampliação de estudos sobre o tema.

Palavras-chave: Turismo sustentável, Canoa Quebrada, Impactos Socioeconômicos.

Abstract: This article presents a Systematic Literature Review (SLR) on the socioeconomic impacts of sustainable tourism in local communities, focusing on Canoa Quebrada, Aracati, Ceará. The analysis is based on five studies that explore different areas within the municipality, including the Quilombo do Cumbe, the ARIE of Vila do Estevão, and Canoa Quebrada-CE itself. The findings show that sustainable tourism can generate significant benefits, such as job creation, income growth, infrastructure improvement, and cultural identity strengthening. However, challenges include pressure on natural resources, cultural degradation, and social tensions. The research emphasizes the need for tourism strategies tailored to each community’s specifics, prioritizing socio-environmental sustainability. The study concludes that sustainable tourism can drive socioeconomic development if management practices are inclusive and focus on cultural and environmental preservation. Future research should examine these dynamics in other regions, expanding the understanding of sustainable tourism's implications in different contexts.

Keywords: Sustainable tourism, Canoa Quebrada, Socioeconomic Impacts.

INTRODUÇÃO

O estado do Ceará, situado na Região Nordeste do Brasil, abrange uma área aproximada de 148.920 quilômetros quadrados, correspondendo a 9,5% do território nordestino e 1,7% da extensão total do país. Composto por 184 municípios, apresenta uma população estimada em 8,45 milhões de habitantes. O Ceará limita-se a oeste com o estado do Piauí, a leste com o Rio Grande do Norte, a sudeste com a Paraíba e ao sul com Pernambuco, sendo delimitado ao norte pelo Oceano Atlântico (SILVA, 2019). Suas características geográficas e climáticas conferem-lhe um alto potencial para o desenvolvimento de diversas modalidades de turismo.

Conforme descrito por Coriolano e Vasconcelos (2014), o estado do Ceará apresenta um clima tropical com características favoráveis ao turismo, marcado por duas estações principais, temperaturas médias de 28°C atenuadas pelos ventos alísios e uma incidência anual de aproximadamente 2.800 horas de sol. Além disso, sua diversidade geomorfológica e a presença de espaços geográficos ainda pouco explorados ampliam as possibilidades para diferentes segmentos turísticos, incluindo sol e praia, turismo serrano, sertanejo, rural, de aventura, de eventos e ecoturismo. Nesse contexto, as condições naturais e climáticas do Ceará favorecem uma ampla oferta de atividades turísticas, consolidando o estado como um destino atrativo para turistas nacionais e internacionais.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022), um dos municípios do estado, Aracati, possui uma área territorial de 1.227,197 km² e uma população residente de 75.113 habitantes. Nesse município, localiza-se a praia de Canoa Quebrada, objeto de estudo desta pesquisa. Situada a 160 km de Fortaleza, capital do Ceará, o acesso a essa praia ocorre por meio da rodovia CE-040.

Sobre a origem do nome “Canoa Quebrada”, Leal (2012) afirma:

[...] o nome de Canoa se deve ao fato do “acidente ocorrido em 1650 com a embarcação do navegador português Capitão Aires da Cunha que, ao chegar de Portugal, bateu num rochedo e quase naufragou, vindo desembarcar emergencialmente nesta enseada” [...]. O nome de Canoa Quebrada derivou, portanto, do que os trabalhadores de Aracati, que ainda não conheciam outras embarcações, além de canoas e jangadas, diziam: “vamos quebrar a canoa”, dando origem ao nome Canoa Quebrada no ano de 1650 (2012, p. 39).

Conforme observado no excerto anterior, a origem do nome “Canoa Quebrada” está intrinsecamente ligada à história e à cultura local, contribuindo para a compreensão da região e ressaltando a relevância da preservação dessas narrativas como parte do patrimônio cultural. Além disso, Canoa Quebrada tem sido cenário de diversas produções audiovisuais nacionais, como Final Feliz (1982), Malhação (2009) e O Melhor Amigo (2013), além da produção internacional Bela Donna (1997), o que ampliou significativamente a visibilidade da região no contexto nacional e global.

Sobre a temática do turismo sustentável, esta vem sendo amplamente debatida na literatura devido aos seus potenciais benefícios econômicos, sociais e ambientais. Wöhlke (2007) destaca que o desenvolvimento sustentável no setor turístico se apresenta como uma alternativa ao turismo convencional, pois busca minimizar impactos negativos sobre as culturas, economias e ecossistemas das comunidades receptoras, ao mesmo tempo em que promove políticas voltadas à cidadania, à ética social e à preservação ambiental.

Na perspectiva de Coriolano e Vasconcelos (2014), o turismo e o meio ambiente são indissociáveis, uma vez que a atividade turística se concretiza por meio da interação dos viajantes com os territórios, paisagens e espaços turísticos. Embora frequentemente associado a impactos ambientais negativos, o turismo também pode desempenhar um papel na conservação dos ecossistemas, desde que produtores e consumidores assumam a responsabilidade pela proteção e preservação dos recursos naturais essenciais à própria atividade.

Ainda segundo os autores, a trajetória do turismo em comunidades litorâneas do Nordeste brasileiro revela um histórico de abusos econômicos e especulação fundiária, resultando em impactos socioculturais que questionam o respeito do setor às identidades culturais locais.

Para Yang et al. (2023), o turismo é uma das indústrias mais dinâmicas e inovadoras do mundo. O planejamento e o desenvolvimento responsável do turismo exigem o equilíbrio entre as demandas ambientais, econômicas e sociais da sociedade. Nesse contexto, o turismo sustentável se destaca como um modelo capaz de ampliar a satisfação dos visitantes e gerar benefícios ambientais e sociais. Ademais, os desafios ambientais enfrentados por destinos turísticos populares reforçam a importância do turismo sustentável como um elemento essencial do desenvolvimento sustentável.

Em síntese, o Ceará, com suas características geográficas e climáticas privilegiadas, se apresenta como um destino turístico com grande potencial, não apenas por suas belezas naturais, mas também pela riqueza cultural e histórica que permeia suas localidades, como a Praia de Canoa Quebrada.

O desenvolvimento do turismo sustentável, com foco na preservação ambiental e no respeito às identidades culturais locais, é fundamental para garantir que o crescimento do setor beneficie tanto a economia quanto as comunidades receptoras. A promoção de práticas turísticas responsáveis é, portanto, uma estratégia essencial para o equilíbrio entre os interesses econômicos, sociais e ambientais, visando a sustentabilidade a longo prazo da região e o fortalecimento de suas tradições e recursos naturais.

Embora haja uma vasta literatura sobre turismo sustentável, são poucos os estudos que se concentram especificamente nos impactos socioeconômicos em comunidades locais, como a de Canoa Quebrada e esta pesquisa busca preencher essa lacuna, oferecendo uma análise dos benefícios e desafios envolvidos.

Este estudo se propõe a contribuir para a compreensão dos efeitos do turismo sustentável em comunidades locais, fornecendo perspectivas para gestores de turismo e formuladores de políticas públicas. Focando na praia de Canoa Quebrada, esta pesquisa pretende destacar os benefícios e oportunidades que podem impulsionar o desenvolvimento turístico e a participação comunitária sob uma perspectiva socioeconômica, oferecendo um modelo que pode ser replicado em outras regiões.

Diante do exposto, este estudo tem como objetivo realizar uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL), que, segundo Kitchenham (2004), é um método utilizado para identificar, avaliar e interpretar os resultados de pesquisas existentes sobre um ou mais temas, áreas ou fenômenos específicos. Neste caso, a RSL será conduzida com o propósito de obter um panorama atualizado sobre Canoa Quebrada, destacando os impactos socioeconômicos do turismo sustentável em comunidades locais.

Especificamente, o estudo visa identificar e analisar os benefícios e desafios do turismo sustentável na região, respondendo à questão: como o turismo sustentável impacta nas comunidades locais de Canoa Quebrada e de que forma contribui para o seu desenvolvimento socioeconômico?

Para compreender melhor os efeitos e desafios do turismo sustentável em Canoa Quebrada, a próxima seção detalhará os procedimentos metodológicos adotados nesta investigação.

METODOLOGIA

A presente pesquisa foi conduzida por meio de uma revisão sistemática da literatura (RSL), com o objetivo de analisar as evidências sobre os impactos socioeconômicos do turismo sustentável nas comunidades locais de Canoa Quebrada, identificando seus principais benefícios e desafios. De acordo com Galvão e Ricarte (2020), a RSL é uma metodologia rigorosa que segue protocolos detalhados e reprodutíveis para a análise de documentos, avaliando sua eficácia em contextos específicos e identificando as limitações dos estudos por meio de procedimentos claros de busca, seleção e critérios de inclusão e exclusão.

Com base nesse conceito, a pesquisa foi estruturada nas seguintes etapas: (1) formulação da pergunta central; (2) busca na literatura; (3) seleção criteriosa dos estudos; (4) análise e síntese dos dados. Para facilitar a compreensão do processo de seleção, apresenta-se um diagrama de fluxo, que detalha as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos artigos na RSL (Figura 1).

Diagrama de fluxo: filtros utilizados no processo de triagem dos estudos
Figura 1
Diagrama de fluxo: filtros utilizados no processo de triagem dos estudos
Fonte: Elaboração dos autores (2024)

A escolha das bases de dados Google Acadêmico e da plataforma da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) foi fundamentada na ampla cobertura de artigos acadêmicos e na credibilidade das fontes indexadas. O Google Acadêmico é bastante utilizado em pesquisas acadêmicas devido à sua abrangência e facilidade de acesso a uma grande diversidade de estudos. Por sua vez, a plataforma CAPES se destaca pela rigorosa curadoria e pelo acesso a periódicos científicos de alta relevância no Brasil, assegurando a qualidade dos estudos selecionados.

A estratégia de busca foi elaborada utilizando operadores booleanos[1] e uma combinação específica de palavras-chave, como "Turismo Sustentável", "Ceará", "impactos" e "Canoa Quebrada". As buscas foram realizadas nas bases de dados Google Acadêmico e CAPES, adaptando-se os termos conforme a sintaxe de cada plataforma, garantindo assim a recuperação de artigos pertinentes.

Inicialmente, a pergunta de pesquisa foi reformulada para torná-la mais específica: “Como o turismo sustentável influencia as comunidades locais de Canoa Quebrada e de que maneira contribui para seu desenvolvimento socioeconômico?” Essa reformulação teve como propósito orientar a análise e discussão dos resultados de maneira mais focalizada, permitindo uma avaliação mais precisa dos impactos socioeconômicos do turismo sustentável nessa comunidade.

Durante a fase de triagem, os estudos recuperados foram avaliados em três etapas: (1) leitura dos títulos para triagem inicial; (2) análise dos resumos para verificar a relevância com relação à pergunta de pesquisa; (3) leitura completa dos artigos selecionados para aplicação dos critérios de inclusão e exclusão. Cada uma dessas etapas foi conduzida por dois revisores independentes para garantir a imparcialidade, sendo as discordâncias resolvidas por um terceiro revisor.

Os critérios de inclusão e exclusão foram estabelecidos com o objetivo de garantir a relevância e a qualidade dos estudos selecionados. Foram incluídos estudos empíricos e teóricos que abordaram os impactos socioeconômicos do turismo sustentável em Canoa Quebrada, com foco nas comunidades locais situadas no município de Aracati, Ceará.

Foram considerados estudos publicados em português entre 2013 e 2023, desde que apresentassem dados completos e acessíveis. Foram excluídos editoriais, comentários, revisões narrativas sem dados empíricos, resumos de conferências, monografias e trabalhos de conclusão de curso, além de estudos que não abordassem especificamente os impactos socioeconômicos do turismo sustentável em Canoa Quebrada.

Na fase de seleção, os estudos identificados na busca inicial foram analisados quanto aos títulos, palavras-chave e resumos, sendo aqueles que atendiam aos critérios da pesquisa organizados e tabulados, enquanto os que não atendiam a esses critérios foram descartados. Estudos sem revisão por pares ou que não atendiam aos critérios metodológicos mínimos, além de aqueles publicados em idiomas diferentes do português, também foram excluídos.

Na fase final, foi realizada uma leitura detalhada e análise crítica dos estudos selecionados, com o objetivo de identificar suas principais contribuições para a pesquisa. Foram especialmente avaliados os métodos utilizados, os resultados alcançados e as conclusões apresentadas, com o intuito de extrair informações que subsidiaram a síntese dos dados.

Todos os estudos incluídos passaram por uma avaliação rigorosa da qualidade metodológica, levando em consideração a clareza da pergunta de pesquisa, a robustez metodológica, a validade dos dados apresentados e a relevância para a pergunta central da revisão. Apenas os estudos que cumpriram os critérios mínimos de qualidade foram incorporados na síntese final.

REFERENCIAL TEÓRICO

Diversos estudiosos têm apresentado definições variadas de sustentabilidade, cada uma destacando diferentes aspectos essenciais do conceito. Segundo Wackermann (2008), não há uma definição única, padronizada e homogênea de sustentabilidade; em vez disso, o termo engloba uma diversidade de interpretações que abordam a temática sob diferentes perspectivas.

Para Veiga (2019), a sustentabilidade constitui um novo valor e, devido à ausência de bases científicas consolidadas, deve ser analisada com cautela. O autor enfatiza que se trata de um conceito polissêmico, moldado pelas posições de governos, empresários, movimentos sociais e organismos internacionais, inserindo-se em um campo de disputa de forças.

Cavalcanti (2012) argumenta que a sustentabilidade não deve ser confundida com independência ou isolamento, mas sim compreendida como um princípio de interdependência global, no qual os indivíduos estão conectados por relações de dependência, incluindo a intergeracional. Essa interconexão impõe compromissos baseados na responsabilidade compartilhada.

Boff (2017), por sua vez, adota uma abordagem sistêmica, destacando que a sustentabilidade deve considerar a participação equitativa de todos os níveis – local, regional, nacional e global –, garantindo que custos e benefícios sejam distribuídos de maneira proporcional e solidária.

Coriolano e Vasconcelos (2014) explicam que o conceito de sustentabilidade foi introduzido no cenário internacional em 1972, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo. Esse evento representou a primeira iniciativa global coordenada para abordar de forma abrangente as questões ambientais, propondo soluções para os desafios existentes e estabelecendo diretrizes para enfrentá-los. Os autores também destacam que, em abril de 1995, a ONU organizou a Primeira Conferência sobre Turismo Sustentável, realizada em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, reforçando a importância da temática no setor turístico.

O crescente reconhecimento da sustentabilidade na sociedade contemporânea reflete sua relevância no planejamento e na gestão ambiental. Capra (2003) sugere que a construção de comunidades humanas sustentáveis deve se basear nos princípios dos ecossistemas naturais, que operam como modelos de sustentabilidade. Essa perspectiva ressalta a necessidade de aprender com a natureza para desenvolver práticas que promovam o equilíbrio entre o desenvolvimento humano e a preservação ambiental.

Com a crescente importância da sustentabilidade, torna-se fundamental examinar como o setor turístico se adapta e responde a esses desafios. Coriolano e Vasconcelos (2014) destacam que o turismo é um fenômeno relativamente recente, surgido na modernidade como uma atividade produtiva vinculada à lógica da acumulação capitalista, desempenhando um papel estratégico na resposta às crises globais do capital.

McCool e Bosak (2016) afirmam que o conceito de turismo sustentável, tal como é compreendido atualmente, emergiu no final do século XX, impulsionado pela expansão das atividades turísticas e pela crescente conscientização sobre seus impactos sociais e ambientais. Além disso, sua consolidação foi influenciada por iniciativas de agências governamentais, não governamentais e intergovernamentais voltadas à promoção do desenvolvimento econômico em países emergentes.

Coriolano e Vasconcelos (2014) explicam que:

O turismo, como atividade econômica, usa e se apropria dos ambientes naturais e produzidos pelo trabalho para transformá-los em espaço de lazer e consumo, gerando impactos positivos e negativos, que podem ser discutidos como uma questão de (in) sustentabilidade social e ambiental (2014, p. 317).

Esse contexto evidencia a dualidade inerente ao turismo: embora possa impulsionar o desenvolvimento econômico e gerar benefícios sociais, sua má gestão pode resultar em impactos ambientais e socioculturais negativos. Dessa forma, a sustentabilidade no turismo exige uma abordagem estratégica e equilibrada, pautada na mitigação de impactos adversos e na maximização dos benefícios para as comunidades receptoras e o meio ambiente. Nesse sentido, Coriolano e Vasconcelos (2014) esclarecem:

Desde meados do século XX, verifica-se o fortalecimento da consciência ambiental (incluindo o social e o político) de grupos que se solidarizam com pessoas de todo o mundo, exigindo mudanças comportamentais, produção ecologicamente correta, responsabilidade social das empresas e modelos alternativos de turismo (2014, p. 321).

O fortalecimento da consciência ambiental tem promovido uma transformação substancial nas práticas turísticas. Nesse cenário, o turismo sustentável surge como uma resposta essencial e contemporânea aos desafios decorrentes do modelo convencional de turismo, reforçando a necessidade de um desenvolvimento integrado e equilibrado, capaz de conciliar crescimento econômico, preservação ambiental e valorização sociocultural.

Turismo sustentável nas comunidades locais em Canoa Quebrada

Nas discussões sobre as áreas litorâneas, é fundamental enfatizar as comunidades tradicionais, que predominam nessas regiões, exceto nas grandes metrópoles costeiras. Essas comunidades, que já passaram ou passarão por diversas transformações, são impactadas diretamente pelo turismo, outras atividades econômicas locais, ou pelo processo de industrialização e urbanização das cidades.

Segundo Goes Urano et al. (2015), as comunidades tradicionais preservam modos de vida antigos, mantendo costumes transmitidos de geração em geração e caracterizando-se por uma relação harmoniosa com a natureza, uso sustentável dos recursos naturais, práticas econômicas de subsistência com baixa acumulação de capital, forte unidade familiar e simbologias ligadas à caça, pesca e atividades extrativistas.

Com o desenvolvimento tecnológico e a globalização, essas populações são pressionadas a adaptar-se para se encaixar na sociedade moderna (GOES URANO et al., 2015). Araújo e Moura (2014) destacam que o crescimento do turismo na zona costeira, influenciado pelo capitalismo globalizado, resulta em mudanças significativas na natureza e nas comunidades locais, frequentemente levando à perda do patrimônio natural e causando impactos socioculturais. Qualquer proposta de desenvolvimento sustentável que ignore os interesses das populações locais terá dificuldades em alcançar plenamente seus objetivos, visto que a sustentabilidade cultural é um componente essencial desse processo (ARAÚJO; MOURA, 2014).

Desde a década de 1980, a demanda turística na região Nordeste aumentou rapidamente, inicialmente focada nas capitais e, de forma incipiente, nas áreas litorâneas adjacentes devido à concentração de infraestrutura viária e meios de hospedagem (ARAÚJO; MOURA, 2014). Conforme Lima (2002), a evolução da demanda turística pode ser dividida em quatro fases: a ocupação de áreas costeiras por comunidades tradicionais até o final da década de 1960; a construção dos primeiros grandes hotéis a partir da década de 1970; a expansão do turismo para municípios como Canoa Quebrada e Cumbuco durante a década de 1980; e, finalmente, o processo de urbanização turística e incorporação do litoral cearense à economia nacional e internacional do final da década de 1980 ao início da década de 1990.

Como mencionam Mendes, Quintiliano e Coriolano (2014), durante a segunda fase, a construção dos chamados paraísos turísticos cearenses ainda não havia começado, e os espaços só foram considerados turísticos anos depois. Na terceira fase, houve urbanização do litoral, com implantação de segundas residências e empreendimentos turísticos, além de infraestrutura provida pelo Estado, marcada por conflitos envolvendo grileiros, especuladores imobiliários, empresários e comunidades tradicionais (MENDES; QUINTILIANO; CORIOLANO, 2014).

A praia de Canoa Quebrada se destacou por suas paisagens naturais e herança cultural, atraindo turistas desde a década de 1960. A interação entre o turismo e a comunidade local moldou a identidade e a economia da região, levantando questões sobre os impactos sociais desse desenvolvimento.

O processo de desenvolvimento do turismo em Canoa Quebrada ocorreu em três momentos: no final da década de 1970, a comunidade foi descoberta por jovens viajantes, iniciando as primeiras iniciativas de hospedagem nas casas dos pescadores. Com o aumento dos visitantes, houve valorização da terra, levando à especulação imobiliária e disputas internas e externas, causando conflitos e revolta local. Nesse período, surgiram os primeiros estabelecimentos de hospedagem e alimentação para turistas (SIQUEIRA, 2013).

Na década de 1990, Canoa Quebrada se consolidou como destino turístico, com aumento do fluxo de turistas e crescimento de hotéis, pousadas, restaurantes e infraestrutura básica, estimulados por investimentos públicos e privados. Esse período foi marcado por especulação imobiliária, construções desordenadas e impactos sociais, econômicos e ambientais na comunidade.

A partir de 2000, Canoa Quebrada passou por um terceiro momento de desenvolvimento, com novos hotéis, pousadas, bares e restaurantes, e um projeto de requalificação que trouxe infraestrutura básica, transformando a vila de pescadores em um dos principais destinos turísticos do Ceará, resultando em melhorias na infraestrutura, aumento do poder de compra e capacidade laboral (SIQUEIRA, 2013).

Assim, o Turismo de Base Comunitária tem ganhado destaque na academia, na mídia e, gradualmente, no setor público, especialmente na América Latina, por estruturar e comercializar produtos turísticos localmente, gerando benefícios socioeconômicos significativos para as comunidades receptoras e servindo como exemplo de desenvolvimento local sustentável (BARTHOLO, 2011). Coriolano (2003) define o turismo comunitário como aquele desenvolvido pelos próprios moradores, que se tornam os articuladores da cadeia produtiva, garantindo que a renda e o lucro permaneçam na comunidade, contribuindo para melhorar a qualidade de vida.

Nessa perspectiva, percebe-se que nas últimas décadas, o turismo tem sido um tema central, no entanto, é essencial buscar um equilíbrio entre o desenvolvimento econômico proporcionado pelo turismo e a preservação ambiental, o que reflete no turismo sustentável, que visa minimizar os impactos negativos e promover benefícios econômicos e sociais para as comunidades locais.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Nesta seção, são apresentados e discutidos os resultados da Revisão Sistemática da Literatura (RSL) sobre os impactos socioeconômicos do turismo sustentável em comunidades locais de Canoa Quebrada, destacando os principais benefícios e desafios dessa prática. Os achados mais relevantes são discutidos em relação às implicações para o desenvolvimento sustentável da região, além de serem comparados com a literatura existente. Também são abordadas as limitações dos estudos analisados.

A partir das fontes de dados utilizadas, foram inicialmente identificados 179 estudos no Google Acadêmico e nenhum na plataforma CAPES. Após uma triagem inicial, considerando apenas estudos em português e publicados entre 2013 e 2023, o número de artigos foi reduzido para 102 no Google Acadêmico. Em seguida, realizou-se uma nova seleção por título e resumo, excluindo 95 estudos que não focavam no turismo sustentável em Canoa Quebrada. Como resultado, restaram sete (07) estudos, todos provenientes da base Google Acadêmico, sendo: quatro (04) artigos científicos, duas (02) dissertações de mestrado e uma (01) tese de doutorado.

Embora os estudos não revisados por pares tenham sido excluídos desta RSL, foram incluídas duas (02) dissertações de mestrado e uma (01) tese de doutorado devido à sua natureza acadêmica. Tais produções passam por um rigoroso processo de orientação e avaliação, o que assegura a qualidade e relevância das contribuições para o campo de estudo.

Após a leitura completa dos sete (07) estudos, foram aplicados os critérios de exclusão, resultando na remoção de dois (02) artigos que não passaram pela revisão por pares. Dessa forma, foram incluídos na síntese qualitativa desta pesquisa cinco (05) trabalhos, todos oriundos da base de dados do Google Acadêmico.

O Quadro 1 apresenta os cinco (05) estudos selecionados para a RSL sobre os impactos socioeconômicos do turismo sustentável em Canoa Quebrada. Este quadro contém informações sobre o ano de publicação, os autores, o título da publicação e a classificação de cada estudo.

Quadro 1
Síntese dos trabalhos selecionados (ano de publicação, autor/es, título e classificação)
IDAnoAutor (es)Título da publicaçãoClassificação
E12013SILVA, L. G. de M.A vila do Estevão e a dinâmica do turismo em Canoa Quebrada – Aracati (Ceará): cultura, território e atividades econômicasTese de Doutorado
E22016LINHARES, T. C.Canoa Quebrada: de aldeia de pescador a núcleo indutor de turismo no CearáDissertação de Mestrado
E32016TAKAHASHI, S.Estratégia da gestão turística de base comunitária em unidade de conservação: ARIE da Vila do Estevão, Aracati-CEDissertação de Mestrado
E42021OLIVEIRA, A. A. N.; DIÓGENES, C. M.; ALMEIDA, D. M. F. deLazer e protagonismo social: uma experiência de turismo comunitário no nordeste brasileiroArtigo Científico
E52022SANTOS, A. A. dos; SAYAGO, D. A. V.; MILLER, F. de S.; GOLETS, A.Turismo comunitário como estratégia de resistência territorial na comunidade do Cumbe, Ceará, BrasilArtigo Científico
Fonte: Elaboração dos autores (2024)

Para a análise, as pesquisas foram codificadas com a letra 'E', seguida de uma numeração sequencial de um (01) dígito. Essas pesquisas foram agrupadas em ordem cronológica de publicação e organizadas de acordo com o(s) autor(es), o título da publicação e a classificação, sendo posteriormente inseridas no Quadro 1, que apresenta a lista completa das pesquisas codificadas dessa maneira. Entre os estudos analisados, observou-se a seguinte distribuição: uma (01) tese de doutorado, duas (02) dissertações de mestrado e dois (02) artigos científicos.

A síntese dos resultados foi conduzida por meio de uma abordagem narrativa, integrando os achados dos estudos selecionados com base nos temas emergentes e nas perguntas de pesquisa previamente definidas. A análise comparativa dos dados extraídos possibilitou a identificação de padrões e divergências entre os estudos, proporcionando uma visão abrangente sobre os impactos do turismo sustentável nas comunidades locais de Canoa Quebrada.

A revisão sistemática realizada evidencia a relevância do turismo de base comunitária como um mecanismo eficaz para promover o desenvolvimento socioeconômico sustentável e a preservação cultural nas comunidades tradicionais. A partir da análise dos estudos incluídos (E1, E2, E3, E4 e E5), emergiram quatro categorias temáticas principais: desenvolvimento socioeconômico, preservação cultural, desafios ambientais e impactos sociais.

No que tange ao desenvolvimento socioeconômico, os estudos revisados indicam que o turismo comunitário desempenha um papel essencial no fortalecimento das economias locais. Os estudos E1, E2 e E3 destacam a geração de renda e a criação de empregos diretos e indiretos, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida das comunidades envolvidas. O estudo E1 revela que a autogestão no Quilombo do Cumbe permitiu à comunidade controlar os benefícios econômicos derivados do turismo, alinhando-se às discussões de Coriolano (2014) sobre a importância do protagonismo local na gestão de iniciativas turísticas.

Contudo, o estudo E5 alerta para o risco de concentração dos benefícios econômicos em mãos de poucos quando a gestão comunitária não é devidamente estruturada, reforçando a necessidade de políticas públicas que assegurem a distribuição equitativa dos lucros. Esses achados estão em consonância com as perspectivas de Araújo e Moura (2014), que apontam o turismo comunitário como uma alternativa ao turismo massificado, promovendo uma redistribuição mais justa dos benefícios e fortalecendo a autonomia das comunidades receptoras.

A preservação cultural foi uma outra categoria frequentemente mencionada nos estudos analisados. E1 e E3 destacam como práticas tradicionais, como a pesca e o artesanato, foram ressignificadas por meio do turismo comunitário, permitindo a preservação e transmissão dessas práticas para as novas gerações. O estudo E2 enfatiza que o turismo comunitário pode atuar como uma estratégia de resistência territorial, auxiliando na manutenção da integridade cultural da comunidade frente a pressões externas, como a especulação imobiliária e grandes empreendimentos.

Conforme discutido por Bartholo (2011), a preservação cultural é uma dimensão essencial do turismo de base comunitária, pois permite que as comunidades resistam à homogeneização cultural promovida pelo turismo de massa, ao mesmo tempo em que valorizam e compartilham suas tradições de forma autêntica com os turistas. Nesse sentido, os estudos E1 e E4 evidenciam que o turismo comunitário reforça a identidade coletiva das comunidades, promovendo uma troca intercultural significativa com os turistas.

Os desafios ambientais, amplamente discutidos em E1, E2 e E5, indicam que o turismo comunitário também desempenha um papel relevante na preservação dos ecossistemas locais. No Quilombo do Cumbe, por exemplo, a carcinicultura e os empreendimentos de energia eólica geraram pressão sobre os recursos naturais, como os manguezais, levando a comunidade a utilizar o turismo como uma ferramenta para proteger o meio ambiente. O estudo E3 reforça que, ao promover práticas de turismo ambientalmente responsáveis, as comunidades podem mitigar os impactos ambientais e fortalecer a conservação dos recursos naturais. Esses achados corroboram com as discussões de Irving (2018), que destaca a importância de integrar a sustentabilidade ambiental nas práticas de turismo comunitário, garantindo que o desenvolvimento econômico não ocorra à custa da degradação ambiental. Neste contexto, o turismo se torna uma ferramenta não apenas de preservação, mas também de conscientização ambiental para os turistas.

A análise dos estudos revela que o turismo comunitário tem um impacto social significativo nas comunidades estudadas. E1 e E3 destacam o fortalecimento dos laços sociais e da coesão comunitária, enquanto E2 e E4 apontam para a inclusão social promovida pelo turismo, com a participação ativa dos moradores na gestão e operação das atividades turísticas. No entanto, o estudo E5 alerta para o risco de desigualdade social caso a gestão do turismo não seja adequadamente organizada.

Na visão de Coriolano e Vasconcelos (2014), a gestão participativa é fundamental para garantir que o turismo seja uma força de inclusão social, ao invés de aprofundar desigualdades. A capacidade das comunidades de controlar os impactos sociais e distribuir os benefícios de forma equitativa é um dos principais desafios do turismo comunitário, especialmente em contextos de alta vulnerabilidade social.

Embora os estudos incluídos abordem diferentes aspectos do impacto do turismo sustentável em comunidades locais, observa-se uma lacuna significativa na literatura quanto à análise longitudinal dos impactos socioeconômicos. Futuros estudos poderiam adotar abordagens de longo prazo para avaliar como o turismo sustentável influencia as comunidades ao longo dos anos, especialmente em relação à sustentabilidade cultural e à preservação dos recursos naturais.

Além disso, é recomendável que futuras pesquisas investiguem como o turismo sustentável pode ser adaptado a diferentes tipos de comunidades e contextos geográficos, a fim de fornecer uma visão mais ampla sobre suas implicações socioeconômicas e culturais, extrapolando o contexto de Canoa Quebrada.

Os resultados deste estudo também indicam a necessidade de maior integração entre as práticas de turismo sustentável e as políticas públicas locais, um tema pouco abordado nos estudos incluídos, mas de vital importância para garantir a continuidade das práticas de turismo sustentável. A literatura existente, como a de Coriolano e Vasconcelos (2014), destaca a importância de políticas de gestão inclusivas e participativas, um aspecto que ainda carece de maior investigação empírica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo alcançou seu objetivo principal de identificar e analisar os impactos socioeconômicos do turismo sustentável em comunidades locais, com ênfase na região de Canoa Quebrada, no município de Aracati, Ceará. A partir da revisão sistemática da literatura (RSL), foi possível compreender de maneira ampla os benefícios, desafios e implicações dessa modalidade de turismo, contribuindo para o fortalecimento teórico e prático do tema no contexto brasileiro.

Os resultados demonstraram que o turismo sustentável, especialmente em sua vertente comunitária, tem potencial significativo para promover o desenvolvimento socioeconômico local. Entre os benefícios identificados, destacam-se a geração de empregos, o aumento da renda familiar, a melhoria da infraestrutura e o fortalecimento da identidade cultural das comunidades envolvidas. Alinhado a isso, os desafios apontados incluem a necessidade de gestão ambiental responsável, a mitigação de impactos culturais negativos e a promoção de uma distribuição mais equitativa dos benefícios econômicos. Tais achados evidenciam que o turismo sustentável só se consolida de fato quando é conduzido com participação ativa da comunidade e com políticas públicas que assegurem equilíbrio entre crescimento econômico, preservação ambiental e valorização sociocultural.

As contribuições desta pesquisa residem na ampliação do conhecimento sobre os efeitos do turismo sustentável em territórios litorâneos tradicionais, além de fornecer subsídios teóricos e práticos para gestores, formuladores de políticas e pesquisadores interessados na relação entre turismo, sustentabilidade e desenvolvimento comunitário. O estudo também reforça a importância da adoção de modelos de turismo de base comunitária como instrumentos de resistência territorial e de promoção da autonomia local.

Como recomendações, sugere-se que futuras investigações adotem abordagens longitudinais, que permitam observar a evolução dos impactos do turismo sustentável ao longo do tempo. Recomenda-se, ainda, a extensão dos estudos para outras comunidades do litoral nordestino e de diferentes contextos geográficos, de modo a comparar experiências e identificar fatores críticos de sucesso e de vulnerabilidade.

Do ponto de vista prático, recomenda-se que as políticas públicas e as estratégias de gestão turística incorporem processos participativos e de educação ambiental, garantindo que as comunidades locais sejam protagonistas do próprio desenvolvimento.

Conclui-se, portanto, que o turismo sustentável, quando planejado e executado de forma integrada, participativa e consciente, representa não apenas uma alternativa econômica viável, mas também um instrumento de fortalecimento social, cultural e ambiental. Em Canoa Quebrada, como em muitas outras localidades, a consolidação desse modelo depende do engajamento coletivo, do comprometimento ético dos gestores e do reconhecimento de que a sustentabilidade é um caminho contínuo de equilíbrio entre pessoas, economia e natureza.

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Notas

[1] Os operadores booleanos são usados para realizar buscas mais precisas em bancos de dados, motores de pesquisa (como o Google), ou até mesmo em programação e matemática. Eles combinam palavras-chave de uma maneira lógica para refinar os resultados de pesquisa ou lógica (HALL, 2020)
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