Recepção: 09 Agosto 2025
Aprovação: 25 Outubro 2025
Resumo: No distrito de Alter-do-Chão, Santarém-Pará é intenso o movimento nesse espaço por meio do turismo e por conta disso, o governo municipal tem desenvolvido ações para ampliar a demanda de turistas. Assim, as principais iniciativas do poder público têm sido para segmentos socioculturais que atingem um turismo de massa e abre mão de investimentos nos mais diversos segmentos possíveis, assim como na diversidade cultural, mantendo e lançando à margem da divulgação expressões culturais de grupos humanos tradicionais e originários. A pesquisa reflete sobre a visibilidade de Alter-do-Chão para compreender o seu dinamismo cotidiano apoiado nas práticas culturais seculares, econômicas com destaque para o papel da atividade turística e seus impactos positivos e negativos. Essa situação é explícita quando se compara a ênfase dada ao Çairé, que é uma manifestação cultural conhecida até fora do Brasil, e que recebe grande aporte de capital do governo municipal, enquanto que o Festival Borari, um festejo que mantém as raízes mais profundas das origens e de representação da formação sociocultural dos moradores. Dessa forma, uma das fortes consequências do turismo é a mudança no modo de vida tradicional, pois os moradores viram sua relação espacial ser modificada sem seu consentimento quando da “escolha” do Çairé como foco do fortalecimento e divulgação turística – desta forma, relação com os rios, mas sobretudo com o Tapajós, fonte de alimento, de transporte e das relações de vida, foram modicadas, acarretando, ainda, com a produção agrícola alimentar afetando principalmente a agricultura familiar da subsistência de milhares de famílias.
Palavras-chave: Turismo, Cultura Popular, Cultura de Massa.
Resumen: En el distrito de Alter-do-Chão, Santarém – Pará es intenso el movimiento en este espacio a través del turismo y debido a esto, el gobierno municipal ha desarrollado acciones para aumentar la demanda de turistas. Así, las principales iniciativas de los poderes públicos han sido para segmentos socioculturales que llegan al turismo de masas y renuncian a inversiones en los más diversos segmentos posibles, así como en diversidad cultural, manteniendo y lanzando al margen de la difusión, expresiones culturales de grupos humanos tradicionales y originarios. La investigación reflexiona sobre la visibilidad de Alter-do-Chão para comprender su dinamismo cotidiano basado en prácticas culturales seculares, económicas, con énfasis en el papel de la actividad turística y sus impactos positivos y negativos. Esta situación es explícita cuando se compara el énfasis dado al Çairé, que es una manifestación cultural conocida incluso fuera de Brasil, y que recibe una gran contribución de capital del gobierno municipal, mientras que el Festival Borari, un festival que mantiene las raíces más profundas de los orígenes y la representación de la formación sociocultural de los residentes. Así, una de las fuertes consecuencias del turismo es el cambio en el modo de vida tradicional, porque los residentes vieron cómo se modificaban su relación espacial sin su consentimiento cuando la "elección" de Çairé como foco de fortalecimiento y difusión del turismo – de esta manera, relación con los ríos, pero especialmente con el Tapajós, fuente de alimentos, transporte y relaciones de vida, se modificaron, acarreando, aún, con la producción agrícola alimentar afectando principalmente a la agricultura familiar de subsistencia de miles de familias.
Palabras clave: Turismo, Cultura popular, Cultura de Masa.
Abstract: In the district of Alter-do-Chão, Santarém-Pará, there is an intense movement in this space through tourism and because of this, the municipal government has developed actions to increase the demand of tourists. Thus, the main initiatives of the public authorities have been for socio-cultural segments that reach mass tourism and give up investments in the most diverse possible segments, as well as in cultural diversity, maintaining and launching on the margins of the dissemination cultural expressions of traditional and original human groups. The research reflects on the visibility of Alter-do-Chão to understand its daily dynamism supported by secular and economic cultural practices, with emphasis on the role of tourist activity and its positive and negative impacts. This situation is explicit when comparing the emphasis given to Çairé, which is a cultural manifestation known even outside Brazil, and which receives a large capital contribution from the municipal government, while the Borari Festival, a celebration that maintains the deepest roots of the origins and representation of the sociocultural formation of the residents. Thus, one of the strong consequences of tourism is the change in the traditional way of life, as the residents saw their spatial relationship modified without their consent when the Çairé was "chosen" as the focus of strengthening and disseminating tourism – in this way, a relationship with the rivers, but above all with the Tapajós, a source of food, transport and life relations, were modified, also resulting in agricultural food production affecting mainly family agriculture for the subsistence of thousands of families.
Keywords: Tourism, Popular Culture, Mass Culture.
INTRODUÇÃO
As pessoas estão constantemente em movimento, na perspectiva de mover-se sobre o espaço geográfico, a história da humanidade acontece por meio deste movimentar-se, assim como pelos processos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização, mas a questão do turismo tem gerado uma intensa movimentação das pessoas para conhecerem diversas partes atrativas do mundo, e isso ocorre também no território brasileiro, que possui áreas turísticas geradoras de renda, trabalho e riqueza, mesmo que as infraestruturas e o número de turistas seja ainda pequeno, em comparação com outros destinos no mundo.
Nesta perspectiva, busca-se entender o papel da mercadorização da cultura em Alter-do-Chão, sobretudo no que concerne com a relação com o Festival Borari e, as motivações que compreendem a luta e resistência do Festival Borari frente o Çairé, considerando que este último capta a ampla maioria dos investimentos relacionados ao turismo municipal.
No mapa turístico “autorizado” de Santarém, as informações são engolidas pela escala, ou seja, é quase impossível verificar as possibilidades apresentadas para os turistas que vistam o município e, em tal escala, mesmo o tendo em mãos, a pessoa possui dificuldade de se mover entre os possíveis atrativos apresentados, mas este problema não cabe apenas para Santarém, há uma grande dificuldade na produção cartográfica para turistas, mas ele serve para que se possa, no caso aqui, ter uma ideia das possibilidade apresentadas e uma espacialização mínima local/regional, inclusive, os aspectos culturais ficam quase que suprimidos no mesmo.
O estudo sobre a resistência do Festival Borari diante do poder do capital que envolve a atividade econômica do turismo em Alter-do-Chão, permitirá compreender como o território apropriado pelas populações tradicionais e originárias se materializa nas relações endógenas e exógenas, assim como nas relações e discursos que perpassam pela afinidade entre a sociedade e a natureza.
Assim, a relevância deste estudo para a ciência geográfica se destaca, sobretudo, na dimensão espacial e territorial, onde a assimilação de grupos sociais distintos na Amazônia ocasionam a formação de territorialidades seculares que são colocadas em risco por meio da entrada do capital turístico que visa, principalmente fortalecer alguns segmentos culturais em detrimento de outros que estão no conjunto formativo geral da localidade em tela. O trabalho de pesquisa visa, ainda, estabelecer os contextos marcantes das transformações sociais, políticas, ambientais e culturais onde estão inseridos.
Por meio da ciência geográfica é buscada a compreensão dos diferentes significados e usos do território pelos moradores e turistas na Amazônia, além das dinâmicas sociais e territoriais, especialmente na região de Alter-do-Chão, como centro principal de atração turística no município de Santarém, buscando compreender e gerar discussões no contexto regional amazônico.
Por fim, se faz necessário ampliar o debate e diálogo acadêmico nas análises e discussões acerca da desterritorialização e mercadorização da cultura da Amazônia como produto turístico, assim como as lutas e desafios que permeiam a resistência da população tradicional, tanto no passado como no presente.
O ÂMBITO DO TURISMO NO DISTRITO DE ALTER-DO-CHÃO, SANTARÉM-PA: FESTA DO ÇAIRÉ E FESTIVAL BORARI
Os principais estudos, já de longa data, apontam que a ocupação da Amazônia se deu ao longo de seus principais rios, e neste processo, se estabeleceram as comunidades ribeirinhas que podem também ser classificadas como tradicionais (NASCIMENTO, 1996).
Dessa forma, as ações do turismo também seguem a dinâmica do ciclo das águas para estabelecer suas ações, porém vem desconsiderando o processo formador do modo de vida dessas comunidades que são influenciadas pela estreita relação com a natureza, seus recursos e o conhecimento milenar, herdado dos povos originários amazônicos, quando se trata dos ciclos de vida ligados aos ciclos das águas (DIEGUES, 1993).
O conceito de território refere-se a um espaço onde são arquitetadas identidades, lembranças e interações sociais que são determinadas pelo coletivo. Dessa forma, a representação e alegorias se fazem presente no território como assinala Diegues (1993):
Além do espaço de reprodução econômica, das relações sociais, o território é também o lócus das representações e do imaginário mitológico dessas sociedades tradicionais. A íntima relação do homem com seu meio, sua dependência maior em relação ao mundo natural, comparada ao do homem urbano - industrial faz com que os ciclos da natureza sejam associados a explicações míticas ou religiosas. (p. 84).
Nesses espaços próximos aos rios, as pessoas desenvolvem suas atividades de subsistência em decorrência do comportamento desses recursos, nesses casos a prática da pesca surge como principal fonte de alimento de renda, porém em determinadas épocasdo ano, o nível dos rios oscila e em decorrência disso as pessoas se deslocam para áreas mais altas.
A realidade local das famílias na Amazônia geralmente tem como atividade econômica para subsistência a pesca, porém esta pesquisa detém-se em observar a contribuição que realiza essa atividade para produção familiar. Dessa forma, o presente estudo se faz necessário justamente para entender a contribuição dos moradores nas várias relações que ocorrem dentro da região, nas vivências do dia-a-dia, na organização do espaço, bem como, na percepção das mesmas diante do lugar em que vivem.
As conformações pelas quais os povos foram submetidos ao longo de todo o processo de colonização, se consideramos apenas o período da reocupação a partir da chega dos portugueses, em particular, da região Amazônica, paralelamente, foi acompanhada pelas resistências dos povos originários em muitas de suas dimensões sociais, culturais, políticas e espirituais, hoje, esse contexto geopolítico e cultural, forma territórios que comportam múltiplas territorialidades contraditórias e antagônicas.
Haesbaert (1999) afirma que:
O território, relacionalmente falando, ou seja, enquanto mediação espacial do poder resulta da interação diferenciada entre as múltiplas dimensões desse poder, desde sua natureza mais estritamente política até seu caráter mais propriamente simbólico, passando pelas relações dentro do chamado poder econômico, indissociáveis da esfera jurídico-política (p. 93).
Os povos que outrora haviam sido invisibilizados, hoje fazem a "viagem da volta" (OLIVEIRA, 2010, p. 22), organizando-se em movimentos sociais, para afirmarem-se etnicamente e para defenderem suas formas de reprodução cultural, econômica e socioambiental nos seus próprios territórios. A categoria território, enquanto instrumento de análise para a realidade, pode ser conduzida pela abordagem teórica de “campo de forças” de Bourdieu (2007) e pelas relações sociais de poder, como bem trabalhou Raffestin (1993) ao definir o “território” a partir de uma concepção dialética e marxista, concebendo uma estrutura de território numa analogia de tessitura/redes/nós e destacando os elementos que compõem as escalas de poder, além de apontar como atributo central as relações sociais de poder.
Nas últimas décadas, tem cabido ao capital turístico uma gama de interferências socioeconômicas e culturais na Amazônia, e não tem sido diferente em Alter do Chão. O turismo é uma atividade interdisciplinar que está relacionada a numerosas definições, desde sua concepção mercadológica, filosófica, psicológica e ainda poética. De acordo com Acerenza (2002, p. 39): “a partir do ponto de vista técnico, podem existir, e em realidade existem, várias definições sobre o turismo, cada uma delas apropriada a diferentes propósitos”.
Ainda que pareça confundir a já extensa abrangência do turismo, todas as definições vêm contribuir para diversificação de novos produtos turísticos que, buscam atender as necessidades de cada público. Afirma Paiva (1995, p. 21), na produção e comercialização dos serviços turísticos a supremacia da visão mercadológica chega a segmentar o turismo em diversos tipos, estabelecendo esforços mercadológicos específicos a cada clientela a ser atingida.
O turismo como matéria de estudos universitários começou a interessar no período compreendido entre as duas guerras mundiais. Durante esse período, economistas europeus começaram a publicar os primeiros trabalhos, destacando a chamada Escola de Berlim (FUSTER, 1978, p.30). Em 1929, a “escola berlinesa” apresentou diversas definições que apresentavam o turismo como relação entre pessoas que se afastam temporariamente de seu lugar fixo de residência, por motivo de prazer relacionado ao corpo, espírito ou profissão, com os naturais do local visitado.
O roteiro pode estabelecer as diretrizes para desencadear a posterior circulação turística, seguindo determinados trajetos, criando fluxos e possibilitando um aproveitamento racional dos atrativos a visitar (BAHL, 2004, p.31-32). Os elementos inerentes aos roteiros turísticos são: sincronização, espaço-tempo, bens e serviços.
Essa sincronização ocorre a partir da combinação de fatores vinculados ao espaço geográfico a ser abrangido ou percorrido e, no caso de Santarém-Alter do Chão, há que se considerar toda uma logística para que o turista possa aproveitar o que lhe é oferecido como produto; aos tempos de duração dos deslocamentos e o necessário em cada destinação, bem como ao disponível pelos potenciais participantes para usufruto de uma programação turística; ao tipo de atrativos a serem visitados e aos serviços associados (transporte, hospedagem, alimentação, entre outros) (BAHL, 2004, p.32).
O ser humano busca facilidades para a realização de seus deslocamentos, gerando um processo de escolhas e seleção de localidades oriundas de anseios diversos, proporciona maior aproveitamento na decisão do viajar (BAHL, 2004, p. 33). A viagem constitui-se num ato de liberdade intrínseca que, ao realizá-la, propicia renovações e maturidade, dimensionamento mais conteúdo do mudo.
Cresce na medida em que assimila novos elementos dos povos visitados. Participa de um cotidiano desconhecido, que apresenta manifestações diversas, soma de toda uma cultura, manifestada através das artes, do folclore, da gastronomia, do artesanato, do comércio e da indústria, dos contatos humanos e materiais, do comportamento em geral da localidade (SARTOR, 1977, p. 29 citado por BAHL 2004, p. 33).
Segundo Miguel Bahl (2004, p. 35), um roteiro turístico bem idealizado é uma maneira de reunir diversos elementos que apresentam os mais diversos aspectos de uma região ou localidade e, é neste contexto que Santarém-Alter do Chão buscam planejar seus produtos turísticos, envolvendo desde a cidade-sede até os rios e comunidades interioranas e suas festas, mas no caso, o Çairé, pois as demais seguem quase que invisibilizadas no conjunto dos produtos turísticos ofertados, a exemplo do Festival Borari.
Uma das grandes preocupações do planejamento de um roteiro, já na sua fase de elaboração, é relacionada ao tipo de clientela a que se dirigirão os programas, ou de quem vai usufruí-los, tanto em termos de camada social como de faixa etária. Por meio dos roteiros turísticos, pode-se trabalhar uma gama muito ampla de atividades ligadas ao planejamento turístico espacial (BAHL, 2004 p. 91) e, no caso de Santarém-Alter do Chão, o planejamento ofertado de roteiros turísticos, suprime possibilidades, a exemplo do Festival Borari, assim como outras representações culturais municipais. Tem-se a oportunidade de se desenvolver uma série de produtos que atinjam âmbitos diferentes, desde os roteiros que possuem uma vinculação espacial local, até aqueles que podem abarcar aspectos mais macros, associados a ofertar roteiros de cunho mais amplo.
Os roteiros nacionais locais, baseando-se na divisão administrativa do Brasil em municípios, estados e regiões, são os que utilizam os recursos intrínsecos de cada localidade: estrutura urbana, acesso, circulação, serviços e os elementos de interesse turístico (monumentos, igrejas, museus etc.), localizados na área de um município.
Quando o rol de atrativos está confinado ao núcleo urbano, os roteiros podem denominar- se centrais (urbanos) ou periféricos, estão mais associados à particularidade de se utilizar o entorno dos núcleos urbanos das cidades, inseridos na área dos municípios (BAHL, 2004 p. 91) e, esses preceitos apresentados aqui estão disponíveis em Santarém, com maior ou menor ênfase ou possibilidade/ disponibilidade.
Para o turista que usufruirá os roteiros, as vantagens aparecem quando da seleção do que é oferecido: os locais que despertam o seu interesse; o financiamento das despesas; uma previsão de permanência ordenada; comodidades de locomoção, alojamentos, refeições e passeios incluídos ou a serem feitos durante a estada em determinado local o que, possibilita que numa viagem posterior, tendo selecionado um dos locais para retorno, volte com algum conhecimento anterior sobre ele (BAHL, 2004, p.33), e Santarém oferece numerosas possibilidades de retorno, para além das praias de rios, para além do Çairé, há possibilidades tais como o Festival Borari, desde que este esteja contido na divulgação das possibilidades turísticas municipais, pois nem sempre cabe ao turista descobri, mas cabe ao poder público e o setor de turismo, incluir e divulgar (FRAGA, 2002).

Ou ainda, dialogando sobre a roteirização turística, conforme Ignarra (1999, citado por BAHL, 2004, p. 35):
atrativos turísticos naturais [montanhas; planalto e planícies; costas ou litoral; terras insulares; hidrografia; pântanos; fontes hidrotermais e/ou termais; parques e reservas de fauna e flora; grutas/cavernas/furnas; áreas de caça e pesca] e culturais [monumentos; sítios; instituições e estabelecimentos de pesquisa e lazer; manifestações; usos e tradições populares; realizações técnicas e cientificas, contemporâneas e acontecimentos programados]; serviços turísticos [meios de hospedagem; alimentação; agenciamento; transporte turístico; locação de veículos e equipamentos; eventos; espaços de eventos; entretenimentos; informações turísticas; passeios e comércio turístico]; serviços de segurança; serviços de informação; serviços de comunicações; serviços de apoio e automobilísticos e comércio turístico] e infraestrutura básica acessos; saneamento; energia; comunicações; vias urbanas de circulação; abastecimento de gás; controle de poluição e [Capacitação de recursos humanos].
Desta forma, deve haver também a preocupação em se estabelecer roteiros direcionados, pois a interatividade dos vários aspectos que interferem na elaboração de roteiros é bastante ampla. O exercício da criatividade na área de Turismo é uma exigência, principalmente na elaboração de roteiros turísticos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O ponto máximo do turismo em Alter-do-Chão se dá no mês de setembro, período em que ocorre o Çairé, um festejo de cunho popular que atrai todos os anos milhares de turistas que buscam ver e vivenciar a experiência desse festejo, tão divulgado no Brasil e no exterior – sendo um dos principais festivais folclóricos religiosos do Brasil, o Çairé (ou Sairé), se caracteriza como uma festa que também é uma manifestação que mistura elementos religiosos e profanos, proveniente de origens indígenas e lusitanas.
O Festival do Çairé é considerado o melhor para as vendas e turismo na região e a pequena vila chega a receber mais de 25 mil pessoas durante o período da festa (VIAGENS E ROTAS – DESTINO, 2021). No período do festejo, o distrito se envolve completamente com as atividades programadas, é um momento em que os estabelecimentos, tais como hotéis, pousadas e restaurantes, aproveitam para obter maiores rendimentos, com destaque apelativo voltado para os turistas.
Em contrapartida, o Festival Borari que acontece em julho, desde 1990, não tem uma ampla divulgação, muitos menos recebe recursos financeiros vultuosos para sua realização, a exemplo do Çairé. Dessa forma, os moradores e demais interessados por meio de recursos próprios se unem e assim concretização esse festejo popular, pois é feito por meio de iniciativa popular indígena – o Festival Borari, conforme consta do calendário de eventos da SETUR-PA (2021) é um evento tipicamente indígena onde o povo Borari mostra seus costumes e tradições por meio de danças e rituais; é neste festival onde o povo mostra a sua identidade para que as gerações futuras continue esse processo de valorizar esse costume e tradição.
Quando existe maior investimento em um evento cultural em detrimento ao outro, sempre haverá exclusão e esta questão fica nítida ao se observar o papel do estado no planejamento, investimento e divulgação dos eventos aqui elencados – o Çairé e o Festival Borari -, pois minimamente há um apelo maior de turista para o vento mais famoso e mais divulgado, gerando, também, a massificação do Çairé e a manutenção da originalidade do Festival Borari. Percebe-se, ainda, que o Festival Borari ultrapassa o papel turístico, sendo um evento com cunho mais popular local/regional, se tornando fator de resistência da cultura indígena Borari que busca coexistência cultural no conjunto da diversidade formadora de Santarém.
Por fim, não se descarta a situação vivenciada em Alter do Chão a partir do tipo de planejamento turístico empregado, ou seja, o processo de desterritorialização gerado nas últimas década de planejamento turístico para aquela região tem como ação direta a desestruturação da cultura tradicional cabocla, assim como a indígena, mas isto não tem sido diferente em outras regiões da Amazônica que busca gerar renda, trabalho e riqueza a partir da atividade turística.
Mas é preciso avançar, apontar as possibilidades que envolvem outras possibilidades turísticas que ajudem na manutenção da população tradicional e originária nos seus territórios de origem, pois há toda uma gama de turistas, sobretudo estrangeiros que busca autenticidade, criatividade e originalidade no produto oferecido, ou seja, são turistas que se afastam cada vez mais dos turismo de massa e buscam territórios conservados na sua essência – que Santarém-Alter do Chão, se reencontrem com sua história, com sua geografia e com sua autenticidade, a exemplo do que é apresentado no Festival Borari.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Referências
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