

Os caminhos do turismo comunitário: participação sustentável na construção de territorialidades e cultura na comunidade indígena Jenipapo Kanindé em Aquiraz-Ceará
The paths of community tourism: sustainable participation in the construction of territorialities and culture in the Jenipapo Kanindé indigenous community in Aquiraz-Ceará
Revista Presença Geográfica
Fundação Universidade Federal de Rondônia, Brasil
ISSN-e: 2446-6646
Periodicidade: Frecuencia continua
vol. 12, núm. 1, 2025
Recepção: 07 Novembro 2024
Aprovação: 27 Dezembro 2024
Resumo: O Estado do Ceará dispõe de uma diversidade de paisagens, de populações e, por conseguinte de manifestações culturais. Sua história está ligada à da população que lhe reside. O Jenipapo Kanindé é composto de singularidades que perpassam suas territorialidades e cultura pelo reconhecimento e fortalecimento de seu protagonismo diante do turismo comunitário e suas práticas. Diante deste panorama, propõem-se analisar a participação comunitária da comunidade indígena Jenipapo Kanindé como agente construtor de territorialidades e cultura. Para complementar o objetivo geral, foram traçados os objetivos da pesquisa, a saber: 1) Investigar como as decisões relacionadas ao turismo sustentável no povo indígena Jenipapo Kanindé refletem os valores culturais e práticas tradicionais da comunidade, 2) Identificar como as redes de confiança e cooperação da comunidade Jenipapo Kanindé impacta nas práticas de territorialidades, 3) Descrever os desafios existentes pela comunidade Jenipapo Kanindé na mobilização e organização para promover a participação comunitária no turismo sustentável. Com a finalidade de ampliar a investigação, utiliza-se como procedimento metodológico um levantamento bibliográfico baseado em pensamentos de autores que abordam esse tema. Portanto, buscando maior entendimento sobre a temática, aconselha-se que os próximos estudos se articulem como luta pelo desenvolvimento sustentável, tornando-se protagonismo das comunidades em desenvolvimento de suas territorialidades e cultura fortalecendo as provocações de um turismo comunitário em diferentes circunstâncias.
Palavras-chave: Turismo Comunitário, Territorialidades, Cultura, Jenipapo Kanindé.
Abstract: The state of Ceará has a diversity of landscapes, populations and, consequently, cultural manifestations. Its history is linked to that of the population that lives there. The Jenipapo Kanindé are made up of singularities that permeate their territorialities and culture through the recognition and strengthening of their leading role in community tourism and its practices. Given this panorama, we propose to analyze the community participation of the Jenipapo Kanindé indigenous community as an agent in the construction of territories and culture. To complement the general objective, the research objectives were outlined, namely: 1) To investigate how decisions related to sustainable tourism among the Jenipapo Kanindé indigenous people reflect the cultural values and traditional practices of the community, 2) To identify how the trust and cooperation networks of the Jenipapo Kanindé community impact territorial practices, 3) To describe the challenges faced by the Jenipapo Kanindé community in mobilizing and organizing to promote community participation in sustainable tourism. In order to expand the investigation, a bibliographic survey based on the thoughts of authors who address this topic is used as a methodological procedure. Therefore, seeking a greater understanding of the topic, it is recommended that future studies be articulated as a fight for sustainable development, making communities play a leading role in developing their territories and culture, strengthening the provocations of community tourism in different circumstances.
Keywords: Community Tourism, Territorialities, Culture, Jenipapo Kanindé.
INTRODUÇÃO
O Ceará tem em sua narrativa vários conflitos produzidos pela posse e exploração de seu território por operadores econômicos internos e externos. Isto levou a um extenso período de omissão, silenciamento e negligência com os povos originários em decorrência de uma política fundamentada em interesses por terra.
As contestações advindas do modelo capitalista afetam diretamente o modo como se realiza o turismo em geral. Tal modelo convencional prima por uma forma segregadora, que extermina paisagens e, na maior parte das vezes, esquece-se de contemplar as singularidades das comunidades locais.
Na tentativa de ir ao sentido contrário desse turismo tradicional, surge o turismo comunitário, cujo propósito em muitos países visa o eixo local para o global sendo produzido pelas comunidades locais proporcionando troca de vivências entre residentes e turistas, além de pautar-se no enaltecimento dos recursos naturais, do território e das práticas culturais.
A população indígena estudada reconhece-se como o Jenipapo Kanindé, localizados na Terra Indígena Lagoa da Encantada no município de Aquiraz-Ceará com cerca de mil setecentos e trinta e quatro hectares de superfície demarcada, logo, rodeado pelas paisagens que integram “[...] componentes geoambientais, ecodinâmicos e culturais que se encontram atualmente à margem do fluxo turístico” (MAGALHÃES; SILVA, 2010, p.12).
Conjuntamente, como um fenômeno complexo, a temática deste estudo visa à participação sustentável da comunidade indígena Jenipapo Kanindé na tomada de decisões sobre o turismo comunitário a partir de suas dinâmicas de territorialidades e cultura.
É necessário apresentar a escala temporal e espacial, portanto, a investigação do objeto de estudo institui-se na participação sustentável da comunidade indígena Jenipapo Kanindé em Aquiraz-Ceará na tomada de decisões sobre o turismo sustentável quanto às suas territorialidades e cultura fundamentada nas referências bibliográficas sobre o assunto nos últimos vinte e cinco anos.
Acredita-se que este artigo contribuirá com os estudos e pesquisas realizadas sobre a interação de grupos étnicos e visitantes em pequenas localidades, onde os múltiplos fluxos culturais e territoriais movimentam-se concomitantemente.
Portanto, esta pesquisa pode se tornar relevante para o preenchimento de lacunas existentes na literatura acadêmica, relacionada à compreensão específica de como esses fenômenos operam na comunidade indígena investigada, especialmente em contextos sustentáveis de turismo comunitário.
Correlacionando essas ideias com o tema já delineado buscou-se problematizar o estudo por meio da pergunta: qual é o impacto da participação sustentável na tomada de decisões do turismo comunitário da comunidade indígena Jenipapo Kanindé na formação de territorialidades e práticas culturais?
Alicerçado nessas informações estruturamos o objetivo geral visando analisar a participação sustentável da comunidade indígena Jenipapo Kanindé por meio do turismo comunitário como agente construtor de territorialidades e cultura.
Com base em Cruz (2009), o turismo é tido como um vetor produtor de espaço, além de ser, acima de tudo, uma atividade econômica com acréscimo de prática social ocorrida em espaços socialmente e historicamente produzidos.
Este funcionamento de turismo massivo caracteriza-se pela privatização de lucros em um curto período de tempo, objetivando a descaracterização das comunidades locais e prejuízos ambientais de médio e longo prazo.
É plausível salientar que as discussões que aqui serão problematizadas fazem referência a uma leitura do turismo comunitário a partir das suas relações com o território criando laços de territorialidades e ações culturais contrapondo as relações de poder existentes no chamado turismo de massa no qual os empreendimentos se utilizam como meio afirmativo de poder para adentrar nessas localidades.
Para fundamentar a problematização e o objetivo geral deste trabalho, apresentam-se os objetivos da pesquisa: investigar como as decisões relacionadas ao turismo sustentável no povo indígena Jenipapo Kanindé refletem os valores culturais e práticas tradicionais da comunidade, identificar como as redes de confiança e cooperação da comunidade Jenipapo Kanindé impactam nas práticas de territorialidades, descrever os desafios existentes pela comunidade Jenipapo Kanindé na mobilização e organização para promover a participação comunitária no turismo sustentável.
Como proposta de verificar a participação da comunidade indígena Jenipapo Kanindé e suas práticas no turismo comunitário requerendo um empenho que percorre o entendimento de diferentes pensamentos das áreas de conhecimento e que ampliam as concepções sobre este fenômeno.
O turismo comunitário surge como uma alternativa decolonial[1] que visa caracterizar o protagonismo da população local valorizando suas territorialidades e cultura. Maldonado (2009) afirma que os indígenas por serem povos que carregam culturalmente consigo valores e significados históricos possuem particularidades com a valorização de seus patrimônios culturais e também naturais de seus territórios.
É plausível entender que o termo cultura carrega a concepção de influenciar positivamente as condutas de um determinado grupo de acordo com suas atitudes próprias e espacialidades, frisadas por características simbólicas relacionadas a celebrações, fé, hospitalidade, modo de vida e até mesmo protestos de afirmações territoriais.
De acordo com Wagner e Mikessel (2000) a cultura é resultado das representações de suas crenças, superstições, usos, costumes, língua, religião, que faz as pessoas entabular conversas, criar modos de vida, construir suas casas, seus jardins, suas estradas, suas lavouras, seu cotidiano.
Consequência espontânea do indivíduo e/ou comunidade com o meio ressaltando suas significações por meio das relações sociais e culturais resultado de suas práticas e vivências.
Observamos que a territorialidade possui uma correlação entre comunidade e espaço, conseguindo ser vista em sua funcionalidade conjecturando a diversidade construída pelo grupo indígena. Com isso, Andrade (2004) informa que no território, estando sujeito à sua gestão, como, ao mesmo tempo, encontra-se o processo subjetivo de conscientização da população de fazer parte de um território. Essas particularidades se expressam como forma de resistência e poder ao qual a comunidade cria e recria o território a seu modo formando territorialidades de existência e conservação, possibilitando, propiciando e afirmando sua identidade neste ambiente.
A inserção da comunidade na estruturação, organização e planejamento das atividades turísticas permite compreender o destaque desses indivíduos frente à tomada de decisões e boas práticas de gestão, caracterizando assim um dos preceitos do turismo comunitário.
A prática deste tipo de turismo tem sobreposto a valorização de seus patrimônios ambientais e culturais pertinentes aos seus territórios se tornando uma significativa atividade complementar para o desenvolvimento da comunidade.
É pertinente destacar que as discussões aqui propostas são um modo de investigar como o Turismo pode fazer a leitura desta comunidade indígena a partir de suas relações sociais com o turismo comunitário na construção de territorialidades e cultura.
O embasamento teórico alicerçado neste trabalho consiste na utilização de conceitos base para o delineamento da investigação temática. Os autores aqui mencionados são: para turismo comunitário, Coriolano (2003), Lustosa (2012), Maldonado (2009) e Rodrigues (2006), para cultura, Claval (2007), Gomes e Vieira Neto (2009),Maldonado (2009), Sansone (2012) e Wagner e Mikessel (2000), para territorialidades, Andrade (2004), Bomtempo (2011), Candiotto e Santos (2009), Haesbaert (2007), Mondardo (2022) e Sack (2013).
É a partir deles que este nosso estudo científico vai obter formato por meio das conceituações de turismo comunitário, cultura e territorialidades.
Para construção desta pesquisa foi utilizado uma etapa de investigação metodológica: o levantamento bibliográfico. Enquanto aporte teórico foi utilizado os conceitos de turismo comunitário, territorialidades e cultura que auxiliaram na construção do artigo.
Para tanto, faz-se primordial a minuciosa seleção de livros, artigos, monografias, dissertações, teses e demais matérias acadêmicas tanto do Turismo como de outras áreas. A consulta dessas matérias ocorreu de forma digital por meio de sites como o Repositório Institucional da Universidade Estadual do Ceará – UECE, Repositório Institucional da Universidade Federal do Ceará – UFC e Institucional do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Ceará - IFCE. Além de periódicos científicos por meio da plataforma CAPES e Google Acadêmico.
Este artigo está estruturado em três tópicos. Inicialmente faz-se uma apresentação contextualizada dos conceitos principais: turismo comunitário, territorialidades e cultura e suas nuances na comunidade indígena Jenipapo Kanindé. Em seguida, aborda-se a articulação metodológica que permeia o estudo. Por fim, são apresentadas as conclusões que conseguimos articular justificado na fundamentação teórica.
Portanto, ao aprofundar teoricamente as discussões sobre esta temática, o turismo comunitário manifesta não ser apenas inovador e anti-hegemônico e decolonial, mas também como uma atividade essencial à conservação e protagonismo desta comunidade e o enaltecimento de suas territorialidades e cultura como elementos importantes para este estudo.
TURISMO SUSTENTÁVEL COMO FORTALECIMENTO DE TERRITORIALIDADES E CULTURA NA COMUNIDADE INDÍGENA JENIPAPO KANINDÉ
Abordaremos o embasamento teórico que será disposto enquanto contribuição para o entendimento dos conceitos de turismo comunitário, cultura e territorialidades que servem de suporte para o delineamento da pesquisa em relação à comunidade indígena Jenipapo Kanindé que reside no município de Aquiraz, no Estado do Ceará.
A ação desempenhada pelo turismo comunitário tem cada vez mais interessados as comunidades tradicionais e produzido um combustível importante para o empoderamento de ideias e vivências, fornecendo uma nova fonte de renda complementar as atividades de subsistência.
Além do mais, essa forma de turismo também desenvolve e prioriza as características paisagísticas e culturais da localidade, oferecendo experiências e novos achados colocando os atores locais como protagonistas desta atividade.
É válido afirmar que, na construção de um modelo turístico diferenciado encontra-se o turismo comunitário que se apoia na administração feita pela união das pessoas por um interesse em comum (cooperativismo) considerando a importância da cultura, paisagem e território local visando o protagonismo e os benefícios dessa atividade turística.
Coriolano (2003) destaca que o turismo comunitário requer o envolvimento de todos na criação de um processo participativo na execução das atividades turísticas, tendo como perspectiva a melhoria da qualidade de vida da comunidade, valorização da cultura e do território.
Essa dimensão humana e cultural se encontra presente no povoado indígena Jenipapo Kanindé com o propósito de estimular o diálogo participativo entre visitantes e moradores locais na perspectiva de troca de conhecimentos e modo de vida.
Na anuência do turismo comunitário por esta população o conhecimento sustenta-se na “proposta humanista [...] que expressa o território [...] como abrigo e recurso, presente de simbologia, onde predominam as relações de poder local [...]” (RODRIGUES, 2006, p. 306).
Os preceitos essenciais do turismo comunitário se propõem a assegurar a valorização sociocultural do modo de vida, conservação do meio ambiente e fortalecimento das territorialidades. Esta forma de turismo dentro do território indígena aqui afirmado firma-se segundo Lustosa (2012) como um meio de ir contra um turismo economicista que nega a existência dos povos indígenas, e se firmar como um turismo comunitário que afirma a existência dessa população.
A localidade Lagoa Encantada tem sua importância para a população Jenipapo Kanindé por sua relevância sociocultural, pois, proporciona a continuação dos mitos, tradições, histórias e folclore popular. Sendo esses encantamentos e narrativas pertencentes também ao turismo comunitário deste povo.
De acordo com Gomes e Vieira Neto (2009) a atuação de sujeitos outrora marginalizados e as possibilidades de (re)escrita da história, tornam esses lugares privilegiados no conjunto de lutas dos povos indígenas.
Essas trajetórias e memórias se constituem como práticas culturais difundidas entre a comunidade trazendo reflexões acerca dos conhecimentos e resistências do grupo. Podendo ser perpassadas para os turistas que desejam conhecer com mais profundidade a história e herança cultural deste território indígena.
Deste modo, a cultura também pode ser pensada como “lócus de luta política pela afirmação da diversidade” (SANSONE, 2012, p. 08), ordenado e administrado pelos indígenas servindo de iniciativa e estímulo para que o Estado possa dar mais assistência por meio de políticas públicas e realização de ações culturais para alavancar ainda mais o turismo comunitário.
Nesse sentido, a concepção de cultura nos refere sob as particularidades referentes à dimensão simbólica da conduta e atitude do indivíduo. Claval (2007) salienta que cultura era definida como o conjunto de utensílios know how[2] que permite os homens se apropriarem do meio.
As manifestações culturais existentes na comunidade Jenipapo Kanindé mediante seus utensílios, adereços, vestimentas, lugares como a casa de farinha, a escola, o museu, a Lagoa Encantada e suas trilhas são materialidades concretizadas pelo turismo comunitário que possuem o objetivo de demonstrar pelo meio que vivem suas interações e laços sociais construindo entre moradores locais e turistas.
A cultura dentro desta comunidade é resultado de consequências espontâneas com o meio, ressaltando suas significações, simbolismos e vivências por meio das relações que são transformadas em bens culturais.
Estes aspectos culturais produzem visibilidades latentes para a população Jenipapo Kanindé e viabilizam o modo de vida e sua relação com o meio ambiente. “[...] todo o conjunto de valores, crenças, conhecimentos, práticas, técnicas, habilidades instrumentos e artefatos, lugares e representações, terras e territórios, assim como todos os tipos de manifestações tangíveis e intangíveis existentes em um povo” (MALDONADO, 2009, p.29). O turismo comunitário utiliza-se desta dinâmica para evidenciar e comprovar que esta atividade pode ser sustentável, mas também, um fator econômico quando se encontra em concordância com os vínculos culturais e as territorialidades.
A subjetivação e conscientização da comunidade pelo seu território vivido concebe a estruturação de territorialidades. Ademais, “[...] é o meio pelo qual o espaço e a sociedade estão inter-relacionados” (SACK, 2013, p. 63). Essa correlação pode ser compreendida de acordo com sua dinamicidade, considerando as práticas pluralistas que o Jenipapo Kanindé possui na construção de suas territorialidades.
Haesbaert (2007) afirma que a territorialidade se firma como formas de propriedade de um território que são ao mesmo tempo uma relação com a natureza e uma relação entre os homens. Esta asseveração pode demonstrar as relações dialéticas da comunidade indígena investigada, pois, associa-se com as várias atividades, papeis e comportamentos que o grupo originário faz para tornar aquele espaço como formador de territorialidades.
Portanto, na utilização do turismo comunitário o indígena Jenipapo Kanindé resgatam suas territorialidades e perpassam para os visitantes, firmando cada vez mais suas identidades e ancestralidades. Assim sendo, “territorialidade está ligada ao cotidiano e ao lugar, influenciada por aspectos culturais, políticos, econômicos e ambientais dos indivíduos e grupos sociais” (CANDIOTTO e SANTOS, 2009, p. 322).
Esta conjuntura traz essas territorialidades turísticas como meios de enfrentamento e posicionamento ao turismo massivo e maciço acreditando no turismo comunitário como forma de conscientizar, identificar e protagonizar a cultura da população indígena aqui evidenciada. Servido também para que a própria comunidade possa se posicionar discursivamente frente a este mundo globalizado.
O processo imaterial de pertencer encontra-se na territorialidade uma forma de comprovar que aquele território faz parte da sua comunidade. Para Sposito e Saquet (2016) a territorialidade corresponde à face vivida do poder e do território.
As estruturas do turismo convencional cearense tentam a todo custo adentrar no território Jenipapo Kanindé com o sentido de deslegitimar sua vivência e pertencimento. É nesta área em discussão e reflexão crítica, segundo Mondardo (2022) que estes indígenas leem a construção de suas territorialidades como arma de luta e sobrevivência catalisadora de práticas adotadas para firmar sua existência.
Esses recursos políticos se encontram disponíveis pelas comunidades, povos e movimentos sociais que pautam estes temas e demandas políticas dentro da esfera pública, conforme explicita Yúdice (2006).
As trilhas ecológicas se destacam como pontos de territorialidade, mas, também como parte da integração do turismo comunitário que possui a finalidade de vivenciar essas paisagens a partir da prática e vivência com os visitantes fazendo um resgate histórico-cultural.
A formação de associações também merece destaque para a composição de suas territorialidades. O Conselho Indígena Jenipapo Kanindé possui o compromisso de organizar a comunidade internamente e de programar e realizar as atividades, o Grupo de Jovens Jenipapo Kanindé tem como premissa a continuidade da cultura e identidade e a socialização com as demais etnias do Ceará e a Associação das Mulheres Indígenas Jenipapo Kanindé tem a responsabilidade de integrar e fortalecer as questões de gênero nesta população.
Nesta perspectiva, a construção social e cultural das territorialidades perpassa por vários locais de resistência cultural dentro da comunidade indígena, entre eles: dança do toré, celebrações religiosas, percurso de trilhas, museu indígena Jenipapo Kanindé, casa de farinha, escola indígena, casa da cacique, associações e o terreiro sagrado onde ocorre a festa do Marco Vivo[3]. Lugares de resistência social, cultural e política.
As territorialidades referem-se às formas e construções de um grupo social dentro de um território com o propósito de compreender as vivências e existências produzidas ali. “[...] este caminho, a priori delineado, leva em consideração a diversidade de formas, funções, processos, interações e agentes que definem as mudanças e permanências do uso do território no tempo histórico” (BOMTEMPO, 2011, p. 48).
Neste viés, é preciso evidenciar o reconhecimento enquanto comunidade indígena Jenipapo Kanindé compreendido por intermédio de sua economia, relação social, aspectos culturais e conflitos e poder frente aos agentes econômicos.
Para chegar-se a esta temática utilizamos as ideias que permeiam a população indígena investigada, ilustrado na figura 1 a seguir.

Buscamos mediante a tríade conceitual: turismo comunitário, cultura e territorialidades investigar esta atividade que foi adotada pela comunidade indígena Jenipapo Kanindé como forma de sustentação a temática. Demonstrando que as três ideias organizam-se entre si para promover uma forma de turismo que seja engajada em dar destaque à comunidade local.
Ressaltamos que o turismo comunitário traz independência para a comunidade local propiciando um enaltecimento da sua cultura e salientando suas territorialidades. Indo na contramão do turismo de massa, esta atividade busca colaborar no protagonismo sociocultural e político deste povo com a finalidade de alicerçar os múltiplos conhecimentos e práticas sustentáveis que possam perpetuar e que sejam duradouras para futuras gerações.
METODOLOGIA
Este estudo sustenta-se na elaboração de uma metodologia que percorre a análise crítica da temática investigada. É possível verificar mediante a sintetização e agregação dos conceitos desta pesquisa sua estruturação sistemática para fazer-se compreender a ideia de autores (as) aqui contextualizados.
Segundo Dencker (2016), a metodologia é a maneira de realizar a busca do conhecimento, e que engloba tudo o que fazemos para adquirir o conhecimento desejado, de maneira racional e eficiente.
Nesse contexto, as considerações teóricas que foram traçadas nesta investigação procura identificar, debater e argumentar sobre a participação sustentável da comunidade indígena Jenipapo Kanindé por meio do turismo comunitário e suas construções de territorialidades e cultura.
Bastos Alves (2001) declara que a metodologia da pesquisa aplicada ao turismo herda conceitos oriundos das Ciências Humanas e torna-se necessária para a compreensão de fenômenos socioculturais que terão sujeitos inseridos no processo e em contextos específicos.
A partir de literatos (as) do assunto abordado tencionamos delinear um escopo teórico-científico baseado na pesquisa bibliográfica por meio de uma seleção criteriosa de acordo com os conceitos principais.
Para ajudar no entendimento da análise, da técnica e da seleção dos estudos, aponta-se a figura 2 a seguir que detalha a construção e procedimento metodológico utilizado com base nas suas fundamentais concepções.

Este procedimento propicia um vasto alcance de informações, por essa razão, devemos selecionar e compreender as leituras por intermédio de monografias, dissertações, teses, artigos, livros, relatórios técnicos, manuais, periódicos e compêndios recorrentes aos conceitos utilizados.
Neste âmbito, a pesquisa bibliográfica procura oferecer ao pesquisador uma bagagem teórica diversificada, colaborando para expandir o conhecimento e fazer da investigação uma ferramenta rica sobre a temática, corroborando de modo teórico com o material examinado. Desta forma, faz com que o cientista, além de amplificar suas competências, torna-se um leitor na procura de informações.
Souza (2001) enfatiza que todo e qualquer trabalho acadêmico requer um conhecimento sobre os livros, artigos, periódicos de modo impresso, eletrônico, entre outros, sendo imprescindível um processo metodológico, certo caminho a seguir.
A pesquisa bibliográfica aborda este processo sistemático trazendo o levantamento de referências teóricas já existentes propiciando adquirir conhecimento sobre o que já foi abordado, investigado e compreendido sobre o tema.
Portanto, faz-se necessário a utilização deste procedimento teórico, pois, “abrange toda bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo, desde as publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas, monografias, teses, material cartográfico” (MARCONI e LAKATOS, 2008, p. 57). Agregando ao embasamento teórico estudos e conceitos propícios a este trabalho.
Para a investigação, foram usados enquanto contribuição os conceitos de turismo comunitário, territorialidade e cultura, que contribuíram na construção do artigo. A consulta desses materiais foi executada de forma digital buscando pesquisas sobre a temática nos últimos vinte e cinco anos.
A consulta de materiais acadêmicos ocorreu mediante uma pesquisa de gabinete (não utilizamos trabalho de campo, mas um significativo referencial para embasar a pesquisa) por meio do Repositório Institucional da Universidade Estadual do Ceará – UECE, Repositório Institucional da Universidade Federal do Ceará – UFC e Repositório Institucional do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Ceará - IFCE. Além de revistas acadêmicas e artigos em anais de eventos pela plataforma CAPES e Google Acadêmico que foram essenciais para nossa fundamentação teórica e compreensão de nossa temática.
Utilizando como conceito chave as palavras turismo de base comunitária e comunidade indígena encontramos no Repositório da UECE quatro trabalhos acadêmicos e um livro, mas nenhum referente à comunidade indígena. Consultamos o Repositório da UFC no qual se constatou sete trabalhos acadêmicos e nenhum relacionado à comunidade indígena. O Repositório do IFCE nos deparou com cinco trabalhos acadêmicos sendo dois compatíveis com a temática buscada.
Com uma relevância parcialmente considerável de trabalhos as duas plataformas acadêmicas utilizadas foram de extrema importância, pois foi a partir delas que conseguimos nos basear e discutir sobre o tema aqui proposto.
Uma crítica que propomos neste estudo relaciona-se as limitações desta análise bibliográfica, pois apesar de pesquisarmos nos últimos vinte e cinco anos é um tema pouco explorado nas áreas de Turismo e Geografia. É um assunto relativamente novo que os turismólogos e geógrafos trabalham, mas muito aquém quando se trata de terras indígenas.
Deste modo, o grande empenho metodológico a ser exercido é o de designar e planejar perspectivas futuras que possam trazer outras pesquisas e projetos para o turismo comunitário em comunidades indígenas no Ceará.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em face das leituras referentes à comunidade indígena Jenipapo Kanindé, compreendemos que a dinâmica turística está ligada à ação de vários agentes (comunidade, grandes empreendimentos e o próprio Estado) que operam de maneira discordante entre si com a finalidade de garantir seus interesses particulares.
Diante do que foi abordado na pesquisa, verifica-se que a trajetória deste povo é rodeada de desafios, lutas e dificuldades. Desta forma, o turismo comunitário junto a parcerias como a rede TUCUM possui a finalidade de fortalecer sua luta sociopolítica, condicionada a um contexto que por muitas vezes não é favorável às suas dinâmicas.
O turismo sustentável propõe o empoderamento e protagonismo da população junto a uma liderança e governabilidade feita por e para todos. Além de alicerçar ações de conservação e preservação ambiental, questões sociais, melhoria da infraestrutura da localidade, movimentação da economia local e complemento de renda e fortalecimento das práticas culturais e territoriais.
As políticas públicas advindas do Governo do Estado possibilitaram a construção da escola, posto de saúde e casa de farinha proporcionando condições da comunidade em criar laços culturais e de territorialidade firmando sua permanência e continuidade nesta localidade.
Entende-se no estudo que a territorialidade é a face vivida do território, onde os indivíduos executam tarefas habituais e criam relações sociais. Sendo assim, entendem-se como territorialidade indígena os espaços usados para a execução dessas atividades, atrelados ao turismo comunitário.
A cultura é entendida enquanto um bem hereditário, perpassado de geração para geração diariamente por meio de suas práticas levando em consideração as ações e laços de afetividade, manifestações, hábitos e costumes estabelecidos pela própria comunidade.
Este tipo de turismo é executado como economia alternativa e resistência a sociedade globalizada e massiva que se encontra atualmente. E mesmo como toda adversidade os Jenipapo Kanindé expressam a vontade de preservar e proteger suas terras, seus recursos naturais e suas raízes, histórias, crenças, costumes e práticas.
Acreditamos que este estudo são apontamentos do que este tipo de turismo pode beneficiar de forma positiva esta comunidade em específico. Destaca-se ainda que este artigo seja uma investigação preliminar a partir da pesquisa bibliográfica aqui exposta, pretendemos estabelecer um princípio para que pesquisas futuras possam utilizar de base e referência.
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Notas

