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Entre imagens e palavras – nomenclaturas e representações como janelas históricas e culturais

Between text and image - nomenclatures and representations as historical and cultural windows

Tra testo e immagine - nomenclature e rappresentazioni come finestre storiche e culturali

Soraya Aparecida Álvares COPPOLA¹ 1
Universidade Federal de Minas Gerais , Brasil
Maryelle Joelma CORDEIRO² 2
Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil

Revista de Ensino em Artes, Moda e Design

Universidade do Estado de Santa Catarina, Brasil

ISSN: 2594-4630

Periodicidade: Bimestral

vol. 5, núm. 3, Esp., 2021

modaesociedade@gmail.com

Recepção: 30 Abril 2021

Aprovação: 05 Agosto 2021

Publicado: 08 Setembro 2021



DOI: https://doi.org/10.5965/25944630532021066

Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution 4.0 Internacional, que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.

Resumo: O presente artigo propõe apresentar uma reflexão concernente à relação entre imagem e palavra e suas múltiplas consequências observadas ao longo do percurso histórico, artístico e cultural desde o Renascimento, através das nomenclaturas dos vestuários. A cidade será o palco para a permanência de muitas lexias construídas ao longo de várias histórias e que serão registradas nos dicionários a partir do século XVII, em diferentes regiões da atual Europa. Através do levantamento de um volume de nomenclaturas que envolvem o universo sociocultural em torno aos vestuários, aos materiais têxteis e ao saber fazer, verifica-se, no período tratado, a construção de uma área específica de conhecimento: a Moda. A metodologia aborda o estudo de diferentes imagens das artes, bem como de textos antigos e contemporâneos quanto à história da Moda e a história das imagens, na qual os textos costuram sentidos mais amplos através da intermidialidade entre palavras e representações. As terminologias estudadas foram lexicograficamente definidas e organizadas em três núcleos principais: moda, espaço/tempo e sociedade. Entre as palavras e as imagens, encontramos um mundo material cuja representação iconográfica carrega sentidos mais amplos, criando janelas históricas e culturais que permitem à contemporaneidade se efetivar como espectadores do passado, como receptores de memórias.

Palavras-chave: Nomenclatura, Ornamento, Iconologia.

Abstract: This article proposes to present a reflection concerning the relationship between the image and the word and its multiple consequences observed throughout the historical, artistic and cultural journey since the Renaissance, through the nomenclatures of the garments. The city will be the stage for the permanence of many voices built over several stories and which will be registered in dictionaries from the 17th century onwards, in different regions of current Europe. Through the survey of a volume of nomenclatures that involve the socio-cultural universe surrounding garments, textile materials and know-how, the construction of a specific area of ​​knowledge is verified in the treated period: Fashion. The methodology addresses the study of different images of the arts, as well as ancient and contemporary texts regarding the history of Fashion and the history of images, where texts sew broader meanings through the intermidiality between words and representations. The terminologies studied were lexicographically defined and organized into three main groups: fashion, space / time and society. Between words and images, we find a material world whose iconographic representation carries broader meanings, creating historical and cultural windows that allow contemporaneity to become effective as spectators of the past, as recipients of memories.

Keywords: Nomenclature, Ornament, Iconology.

Sommario: Questo articolo si propone di presentare una riflessione sul rapporto tra immagine e parola e sulle sue molteplici conseguenze osservate lungo il percorso storico, artistico e culturale sin dal Rinascimento attraverso le nomenclature delle vesti/capi. La città sarà il palcoscenico per la permanenza di molte voci costruite lungo la storia e che saranno registrate nei dizionari del XVII secolo, in diverse regioni dell'Europa odierna. Attraverso l'indagine di un volume di nomenclature che coinvolgono l'universo socioculturale che circonda indumenti, materiali tessili e know-how, si verifica nel periodo analisato la costruzione di una specifica area di conoscenza: la Moda. La metodologia si rivolge allo studio di diverse immagini delle arti, nonché di testi antichi e contemporanei riguardanti la storia della Moda e la storia delle immagini, dove i testi cuciono significati più ampi attraverso l'intermedialità tra parole e rappresentazioni. Le terminologie studiate sono state definite lessicograficamente e organizzate in tre gruppi principali: moda, spazio / tempo e società. Tra parole e immagini troviamo un mondo materiale, la cui rappresentazione iconografica assume significati più ampi, creando finestre storiche e culturali che permettono alla contemporaneità di diventare effettiva come spettatrice del passato, come destinataria di memorie.

Parole: Nomenclatura, Ornamento, Iconologia.

1 INTRODUÇÃO

O tema deste artigo é o estudo da relação que se estabelece entre texto e imagem e seus desdobramentos na passagem da Idade Média ao Renascimento até o século XVII, período de formação da cidade e consolidação dos vernáculos, considerando a sociedade, a cultura, a economia e a arte no espaço geográfico e político italiano. A proposta objetiva o levantamento de nomenclaturas em textos contemporâneos e de época, na língua italiana,referentes ao ornamento têxtil, à Moda e ao vestuário, bem como a pesquisa de suas representações visuais produzidas no período histórico abordado. Sua justificativa se apresenta pela singularidade da abordagem de textos de grande importância para a História da Arte sob uma nova perspectiva: a história dos objetos culturais desenvolvidos no âmbito da ornamentação e do vestuário.

Não existe um método específico e único de se estudar os objetos têxteis, mas uma diversidade de metodologias oriundas das diferentes áreas de conhecimento que começaram a dar atenção a estes objetos e seus materiais, desde o século XIX, quando foram vistos como materiais constitutivos das áreas da Arqueologia, da Antropologia, das Ciências Naturais, da História da Arte, da História Cultural, da Filosofia, da Sociologia, dos Estudos Literários, da História Social e da Econômica, entre outras.

Nesta pesquisa, ainda em desenvolvimento, a metodologia se apresenta como desafio primordial, uma vez que se deve enfrentar o processo de abordagem do estudo de textos oriundos de obras em língua estrangeira (medieval e renascentista). Este desafio se amplifica quando a intenção é trabalhar com alunos de diferentes áreas da graduação.

Assim, a construção metodológica é o eixo condutor da pesquisa, devido ao caráter multidisciplinar entre as áreas de Letras, Artes e Ciências Humanas, buscando aplicar práticas da linguística, da intermidialidade e da iconologia, conduzidas pela seleção vocabular e estudo iconológico/iconográfico de representações visuais. As lexias,registradas nos textos estudados,vêm sendo identificados, conceituados e pesquisados iconograficamente junto às pinturas e esculturas produzidas no mesmo período histórico.

A referida prática levou em consideração que as denominações dos objetos desenvolvidos ao longo da história sofreram diversas variações locais, principalmente aquelas relacionadas ao ornamento, vestuário e técnicas têxteis. Dependendo da técnica, um mesmo processo pode registrar, em um único espaço geográfico, variações de acordo com as diretrizes estabelecidas, diferenciando sua nomenclatura, inclusive, de cidade em cidade. No caso das rendas, por exemplo, as variações possíveis na execução da técnica determinam nomenclaturas diferentes, podendo estar relacionadas aos pontos e modos de fazer, bem como ao material, às formas iconográficas, às aplicações junto ao objeto ornamental (vestuário ou decoração), às origens etc.

O tema quanto às nomenclaturas vem sendo tratado há muitas décadas, por diferentes profissionais e acadêmicos, e esta abordagem permitiu que a história dos objetos da Moda e da ornamentação pudesse ser acompanhada, uma vez que as denominações carregam valores culturais e históricos locais, regionais, nacionais ou internacionais.

Na segunda metade do século XX, algumas iniciativas começaram a ser desenvolvidas em diferentes países, incentivando a aquisição de coleções, a abertura de exposições de acervos têxteis ao público, bem como a publicação de informações e estudos específicos. O primeiro grande desafio foi, no entanto, superar a discussão em torno da dificuldade de definição de diferentes vocábulos, como apresentado por ValerieCumming (2004), que nos coloca um significativo resumo bibliográfico de especialistas e historiadores que enfrentaram esta empreitada.

A importância do tema proposto pode ser verificada junto a diferentes expoentes teóricos considerados na atualidade. Tratar a história do ornamento e da Moda é acompanhar a criação dos objetos e do desejo de possuí-los, bem como dos rituais que no entorno destes foram desenvolvidos. O processo de verificação da história é o que diferencia esta proposta, pois sua construção vem sendo feita através dos textos das literaturas da época e as imagens produzidas naquele período, buscando a relação que estas duas áreas podem nos apresentar na construção de suas inter-relações.

Quanto ao texto, Peter Burke (2010, p. 31), por exemplo, nos apresenta a importância da História Social da Linguagem, principalmente a partir do período moderno, não como uma história da linguística, mas como um “mapeamento de atitudes em relação à língua, ou de mudanças de atitude, reveladas em lugares-comuns ou em ideias que, aos poucos, foram se tornando corriqueiras na época”.

O interesse quanto à lexicografia e sua organização é um tema de significativa importância na história da humanidade. Entre os séculos XIII e XVII, podemos acompanhar a definição das bases ocidentais, uma vez que o referido período coincide com o desenvolvimento dos vernáculos modernos. Associar as duas questões é acompanhar a análise histórica do surgimento das nomenclaturas, associada às condições econômicas, culturais e sociais dos diferentes períodos.

Diversas áreas estarão aqui dialogando, construindo o caminho possível para a análise pretendida. O levantamento, a catalogação e a definição lexicográfica de termos selecionados para esta pesquisa foram agrupados em relação a três núcleos de classificação: Moda, Espaço/Tempo e Sociedade. Estes núcleos receberam diferentes subdivisões, de acordo com os grupos de verbetes, e cada uma delas vem sendo observada em relação a outros núcleos. Assim, a Moda abarcará todas as lexias ligadas ao vestuário e seus ornamentos; o Espaço/Tempo nos mostrará onde estas lexias se manifestam, circulam e apresentam/representam em um determinado período da história; e a Sociedade nos indicará o espaço geográfico, econômico, cultural, artístico, político e religioso em que a manifestação se efetiva.

Buscamos as interfaces verificadas nos levantamentos propostos, estabelecendo relações estudadas dentro do tema das intermidialidades que, segundo Rajewsky (2012), faz referência às relações entre duas ou mais mídias, envolvendo todo tipo de interação, ocorrendo nas fronteiras destes encontros.

2 ENTRE A PALAVRA E A IMAGEM

A relação entre o texto e a imagem é um tema recorrente na história da sociedade e é tratada desde a Antiguidade, mas foi na Idade Média que diferentes discursos colocaram em movimento a reflexão quanto à sua efetivação e a consideração do papel de cada um destes polos. Teóricos das artes, filósofos, sociólogos, teólogos, entre outros, vêm contribuindo para a reflexão quanto às formas, funções, sentidos e usos das imagens, dentre os quais podemos destacar Alois Riegl, Aby Warburg, Ernest Gombrich, ErvinPanofsky, Jacques Le Goff, Jean-Claude Schmitt, Jérôme Baschet, Jean-Claude Bonne, Hans Belting, Peter Burke, Pierre Bourdieu, Henry Courbin, entre outros.

Muitos discursos[3] quanto às representações visuais foram desenvolvidos desde o final da Antiguidade Clássica, mas sem serem precedidos por cânones oficiais que legalizassem a prática de desenvolvimento das artes em geral. No entanto, prevalecerá o pensamento concebido na sua interpretação como “bíblia dos iletrados”[4] e que retifica, na hermenêutica medieval, como muitos acreditam, o primado do texto sobre a imagem. “Mas por que os olhos são a via mais fácil para compreender? Porque o que um discurso descreve, uma presença viva mostra”[5]. (BNF Lat 2077, fol. 162v apud PEREIRA, 2016, p.131)

A relação mais remota entre imagem e palavra, segundo René Guénon (1973), se encontra no seu sentido metafísico, junto à arte sagrada, à arte tradicional, no simbolismo da cruz, abordado pelo autor a partir da doutrina hindu, mas conduzindo-a de forma livre por se tratar de um símbolo comum a todas as tradições, como símbolo de síntese interna. Destaca-se seu texto referente ao simbolismo da tecelagem, no qual analisa os termos tecido, fio, urdidura e trama, bem como suas correlações com a constituição ou formação dos Livros Sagrados[6] e seus sentidos metafísicos em diferentes tradições orientais, como mito original.

Os tecidos possuem um simbolismo fundamental uma vez que o mundo é explicado, em todas as culturas tradicionais, materializado através do encontro de tramas e urdiduras, no qual as tramas, horizontais “simbolizam (...) a matéria (...) relações causais racionalmente controláveis e quantitativamente definidas” enquanto as urdiduras, “as linhas verticais correspondem às formae, às essências qualitativas das coisas”. (BURCKHARDT, 2004, p.97).

Em Biderman (1998) podemos ver que

A palavra assume (...) nos mitos de cada cultura uma força transcendental; nela deitam raízes os entes e os acontecimentos. Por ser mágica, cabalística, sagrada, a palavra tende a constituir uma realidade dotada de poder. Os mitos falam dos segredos e das essências escondidas na palavra instituidora do universo. O homem primitivo acredita que o nome não é arbitrário, mas existe um vínculo de essência entre o nome e a coisa ou objeto que ele designa. Assim sendo, não separa a palavra do referente que ela nomeia. (BIDERMAN, 1998, p.81-82)

A autora nos coloca que nas diferentes tradições culturais “a linguagem surge com a palavra instituidora que abre ao ser o espaço para ele se manifestar.” (BIDERMAN, 1998, p.84).

O estudo das imagens vem ganhando espaço considerável junto à historiografia, consequência imediata das influências das diversas gerações da École des Annales, da História Nova e da Nova História Cultural, surgidas nas décadas de 1920, 1970 e 1980 respectivamente. Como fonte concreta, as imagens se apresentam como janelas para o estudo do passado, independente do período histórico a que pertencem e da área que as contempla. A sua associação à documentação escrita permite ampliar os diálogos e suas abordagens em diferentes temas e perspectivas.

Como tema da História da Arte, novos caminhos vêm sendo abertos por diferentes teóricos, revisitando teorias anteriores e iluminando as possibilidades de olharmos e recebermos as imagens, uma vez que o grande desafio é a sua apreensão, em sua complexidade e riqueza.

Dentre tantos caminhos possíveis, abordaremos esta relação através dos conceitos sobre a imagem propostos pelos historiadores Hans Belting, JéromeBaschet, Jean-Claude Bonne e Jean-Claude Schmitt. Uma vez que a reflexão do tema, por sua amplitude e riqueza, se estende além do permitido, “definir é abreviar”[7] e os conceitos permitirão perceber as complexas relações entre estas duas linguagens, textuais e imagéticas, construídas ao longo da Idade Média e no período moderno.

A imagem, apresentada de forma figurativa e narrativa, será aqui estudada em relação ao contexto social, político, econômico ou religioso que a apresenta, ou seja, o meio em que ela se revela: a cultura à qual pertence. E conforme Gombrich (2012) observa, temos que reconhecer a força da ação cooperativa na sociedade, pois é este aspecto na existência humana que nos permite falar de evolução, pois há limites no individual.

Diante disso, muitas questões podem ser colocadas: como abordar os textos de época? E as imagens? De onde devemos partir para abordar a imagem (do texto, do conceito, da etimologia, da nomenclatura?) e qual forma devemos adotar (Tratadística, Narrativa, Dicionário ou Enciclopédia)? A partir da descrição da imagem é formado um outro texto, uma Ekphrasis[8]. Nesse sentido, devemos pensar em como construí-lo? Como abordar as infinitas possibilidades de sentidos? É na análise prática entre palavras e imagens que estas relações se apresentarão, esclarecendo alguns pontos, mas apresentando novos questionamentos.

Nossa ênfase se encontra na observação das associações possíveis entre as imagens com estruturas textuais da mesma época. Não trataremos aqui de uma análise iconológica/iconográfica específica de cada obra levantada. Assim, analisaremos as imagens tendo o pensamento de Belting (2010, p. XXIII), que observa que em suas representações são criadas diferentes relações e rituais, exercendo “uma função na transferência de poder [e dando] corpo às demandas públicas das comunidades”.

O pensamento do historiador alemão será nosso eixo norteador, tratando imagem num novo e amplo campo de sua função[9], a partir do Renascimento, sem desconsiderar o seu alto grau de funcionalidade[10] desenvolvido na Antiguidade e na Idade Média, relacionado, sempre, ao sagrado e à religião.

A questão é inicialmente de ordem metodológica e parte da definição de Imagem, cujo termo, segundo Belting (2010, p.XXIII) “abrange o significado muito amplo, ou muito estreito, que pode ser atribuído à palavra arte”, criando diferentes possibilidades de abordagens.

O conceito de imagem que nos conduz, conhecidos os problemas relacionados a toda denominação possível e utilizada pela historiografia[11], engloba especificidades que podem ser bem representadas pela denominação colocada por Baschet (1996) “imagem-objeto”, visto que muitas vezes as imagens não são puras representações, mas estão aderidas a formas, a espaços, a objetos que tenham uma função, uma utilização. Segundo o mesmo autor (1996, p.11), “a expressão tem a vantagem de recobrir os dois casos distintos, a imagem constitui por si só um objeto, dando lugar a várias utilizações”.

Trataremos a materialidade das nomenclaturas e suas imagens a partir do conceito de ornamentação, como linguagem visual, que segundo Bonne (2009, p.45) trabalha no interior da imagem, organizando seu funcionamento, sendo um modo de honrar a imagem ou o objeto ao qual ele é inserido, “conceder decus, ou seja, a honra devida a algo por meio de uma beleza honorífica – e não superficial”. Para o mesmo autor:

O vocabulário do latim medieval possui dois termos próximos – decor e decus– que esclarecem perfeitamente esta conjunção. (...) Em latim, decor designa o que é belo juntamente com a ideia de que essa beleza deve convir (em latim decet) esteticamente ao objeto ou à pessoa em questão, para estar de acordo com a dignidade de sua função ou de seu estatuto – dignidade que conota o termo decus. (...) Quanto às palavras da família de ornare, tais como ornatus e ornamentus, elas também não remetem à ideia de uma decoração superficial e secundária, mas, conforme o sentido do latim clássico, elas designam o equipamento que permite a uma coisa cumprir plenamente sua função. (BONNE, 2009, p.44)

Partiremos da distinção feita por Bonne (2009) quanto à questão da ornamentação nas imagens, entre o ‘ornamento’, aquilo que decora, que tem função estética[12], que está na superfície, sem interpretação direta e o ‘ornamental’, que agrega valores na dinâmica da imagem, se relacionando à construção de sentido da imagem, não permanecendo somente na camada decorativa. Este recurso possibilitou a “transversalidade que conferiu a ela [imagem] uma verdadeira dimensão antropológica.” (BONNE, 2009, p. 207).

3 O TEXTO: NOMENCLATURAS CONSTRUÍDAS PELA HISTÓRIA

Segundo Burke (2010, p. 17 e 19), “a linguagem é sempre um indicador sensível – embora não um simples reflexo – da mudança cultural”, por isso, o autor a aborda como uma história social da língua, enquanto discute a “função da língua na expressão ou construção de uma variedade de relacionamentos sociais”, de diferentes ordens, inclusive culturais.

A história da linguagem é tema acadêmico de grande peso há vários séculos e não há um consenso sobre a sua origem ou sua idade. De acordo com Biderman (1998), a língua é comumente entendida como o conjunto de palavras e expressões disponíveis para toda uma comunidade linguística. É a ferramenta pela qual cada grupo representa o mundo, expressa seus pensamentos e relata suas experiências. Desse modo, percebe-se que a relação existente entre língua, cultura e sociedade é um fato indiscutível.

Saussure (2006, p. 16)[13] propôs que a língua é um fato social, pois é um sistema convencional que é adquirido pelos falantes quando vivem em sociedade, apresentando “um lado individual e um lado social, sendo impossível conceber um sem o outro.” Como fato social é, por consequência, um fato cultural e como instituição social, é um instrumento capaz de divulgar a cultura e a ideologia de um povo. É parte fundamental do patrimônio cultural de cada comunidade, refletindo crenças e costumes na sua utilização.

Tendo estas premissas, é importante ainda esclarecer os percursos definidos quanto às fontes abordadas. Propor a abordagem do tema confrontando dicionários diversos, inclusive em diferentes línguas, não nos permitiria alcançar o objetivo pretendido da pesquisa. Era necessário pesquisar o sentido da língua em sua cultura, na época em que os termos foram cunhados. Para isso, foi proposto que as lexiasque comporiam o corpus da pesquisa deveriam ser retiradas de textos que tratassem da história e da cultura de uma sociedade específica, dentro do recorte temporal definido, tendo como base uma bibliografia contemporânea e que essas focassem em um tipo específico de vestuário.

A língua italiana foi escolhida por dois motivos: por ser a língua do espaço geográfico e social onde a modernidade é pensada, discutida e construída no Renascimento; porque a cultura italiana produziu grande número de obras textuais e visuais no qual é possível verificar as questões relativas aos textos e às imagens, em uma nova função da imagem[14].

As nomenclaturas do Vestuário, assim como o próprio termo Moda, se desenvolvem ao longo da história. No cenário urbano italiano, desde o século XIV, é possível encontrar várias literaturas na língua vulgar[15], de autores anônimos ou reconhecidos, que relatam o cenário sociocultural do cotidiano, em que a conversão do discurso aos costumes e à moral, dentro do pensamento humanista, é o fio da narrativa, tendo como protagonista os ornamentos, ou seja, tecidos e sua tridimensionalidade em movimento, que velam e desvelam o público e o privado, simbologia de análise da dimensão dos comportamentos e condução da alma, que entre pessoal e política reconduz a si e à cidade a resplandecência uma vez conhecida entre os antigos.

É importante verificar nos relatos dos ornamentos têxteis cotidianos, seja em seu esplendor ou decadência, em sua forma ou uso, enaltecendo ou denegrindo, segundo os códigos de comportamentos desejáveis, em textos de diversas naturezas de autoria da esfera política, econômica, cultural e religiosa, que estes são testemunhos de como os tecidos circulavam e tinham neste ambiente de crescente vida urbana uma grande importância como linguagem visual hierárquica, narrativa e retórica, que associada à moral e costume, poderia ser vista como nobreza ou luxúria, espelho de encantamento ou degradação da alma humana, que no espaço público refletia a moral da cidade.

Alguns exemplos se destacam, por seus autores, por seus personagens ou por suas histórias e aqui são rememoradas em uma cronologia que tem por objetivo testemunhar o eixo do tema, ou seja, a construção de um discurso moral em que os costumes vêm sendo modificados pelos habitus, pela aparência codificada através dos ornamentos. Na crônica biográfica anônima (1313-1354) de Nicola di Lorenzo, conhecido como Cola di Rienzo, tribuno e senador de Roma, os vestuários e ornamentos têxteis são descritos em qualidades e verificam-se a denúncias de importantes mudanças na tradição da época com a influência de estrangeiros que circulavam pela península.

O mesmo tema é relatado quanto à Florença, Milão, Gênova e Veneza, por Giovanni Villani[16] (c. 1276-1348) na obra Cronica;por GalvanoFiamma (1283-1344) em La cronaca estravagantee por Franco Sacchetti[17] (1332-1400) em IlTrecentonovelle. Os textos, de caráter universal, entrelaçam os fatos de cada cidade a outras regiões e reinos, num ambiente de descrição social e dos comportamentos da vida cotidiana, além da história dos personagens ilustres e de ensinamento moral.

Giovanni Boccaccio (1313-1375), exemplo mais notável da época, em sua obra novelesca,Demulieribusclaris, também testemunha os modos estrangeiros pelo modo de comportamento, com objetivo moral, descrevendo virtudes e defeitos, nos quais os ornamentos têxteis eram protagonistas singulares.

O século XV produz semelhante literatura, destacando-se Baldassarre Castiglione[18] (1478-1529), que será o codificador de um comportamento na Corte, o Decoro, em sua obra Il libro delcortegiano, num sentido específico do Antigo (modelo aplicado ao momento histórico renascentista), fazendo da Itália o espelho em que toda a Europa medieval se fará refletir, e Leon Battista Alberti (1401-1472) que efetivará um diálogo entre uma mentalidade moderna e burguesa que confronta a tradição aristocrática, ligada ao passado, oferecendo uma visão humanista da vida social da época, de caráter moral em suas obras I libri della famiglia e OpuscoliMorali.

No século seguinte, Tommaso Rinuccini (1596-1682), pupilo de Galileu Galilei e diplomata florentino, redige um texto, Le usanzefiorentinedelsecolo XVII, publicado em 1863, no qual conta muitas histórias de Florença e do luxo que ali circulava e conduzia aos jogos sociais, políticos e espirituais da época. Agostino Lampugnani (1586-166?), monge beneditino, faz duas publicações em Milão, Della Carrozza da Nolono ano de 1649, e em 1650Della carrozza di ritorno, ovveroDell'esamedelvestire e costumi alla moda, obras historicamente importantes, pois são apontadas como as primeiras publicações onde aparece o termo Moda (lexia registrada pela primeira vez na Itália em 1691 no Vocabolario Degli Accademici Della Crusca[19]). De grande importância junto à publicação Della Crusca são as obras de Giorgio Vasari (1550), Vida de artistas e de Filippo Baldinucci (1681), Vocabolario Toscano dell'ArtedelDisegno, de onde o léxico histórico-artístico della Crusca foi retirado.

No século XVIII, pode-se destacar Giuseppe Parini (1729-1799), expoente do Iluminismo e do Neoclassicismo italiano, filho de mercador de tecidos, que, de forma irônica descreve em Il Mattinoos costumes da aristocracia milanesa decadente.

Giacomo Leopardi (1798-1837), no século XIX, em LoZibaldone e OperetteMorali nos apresenta sua observação atenta da realidade e da subjetividade humana, numa reflexão da vida moderna do século XIX. Nessa estrada bibliográfica, fechamos a análise do tema com a obra Cosimo I e la sua legge suntuária del 1562de Carlo Carnesecchi[20] (1902) na qual o autor discorre sobre as Leis Suntuárias de 1562, que no cotidiano profano reúne os ditames legais presentes desde a antiguidade e que do século XIII ao XVI será organizado e atualizado ao novo estado histórico: o moderno.

4 AS IMAGENS VISUAIS E A ELABORAÇÃO DO GLOSSÁRIO

Dos textos levantados, a pesquisa partiu da obra contemporânea A Capo Coperto. Storie di donne e di veli[21], da italiana Maria Giuseppina Muzzarelli[22], publicada em 2016. O texto foi traduzido entre 2019-2020 no intuito de ser uma das bases históricas para o estudo dos objetos têxteis da Moda e do ornamento. Trata-se da história do uso do véu pelas mulheres do Ocidente. Quando hoje falamos de mulheres veladas, logo pensamos nas tradições muçulmanas, mas muitos desconhecem que a prescrição do véu é questão cultural que liga o Oriente ao Ocidente, através da permanência da tradição em relação às questões entre o sagrado e o profano, o privado e o público.

Através das imagens e dos registros históricos sobre moda e vida social, a pesquisadoraitaliana reconstrói a narrativa daquele que, por muitos séculos, foi um elemento das tradições ligadas à vida social da mulher, à moda e aos costumes e, por isso mesmo, Muzzarelli (2016, p.7) acredita que “desde sempre é objeto ambivalente, aliás ambíguo: cobre, esconde, protege, mas também alude, adorna, atrai”.

Organizada em doze capítulos, a obra apresenta um panorama sobre as origens da história do véu, tratando da religião cristã e do uso na Idade Média. Além disso, aborda a utilização de chapéus e outros acessórios para a cabeça, bem como as regras ditadas para a confecção e utilização apropriada dos acessórios, discutindo a questão junto a estudos iconográficos que representam as vestes de cabeça das mulheres na história do Ocidente. Discorre sobre a proibição imposta às prostitutas de usar véus e toucas, bem como o direito das mulheres “honestas” de rasgá-los, dando ênfase aos tipos de véus utilizados especificamente no século XVI. Investiga sobre os véus das noivas dos antigos gregos e romanos até os nossos dias, assim como sobre os véus prescritos às viúvas e religiosas. Aborda de forma surpreendente a história das mulheres fabricantes e criadoras de véus, penteados e ornamentos, bem como relata a história do discurso de poder masculino atrás da imposição às mulheres da obrigação de utilizar o véu ou outras coberturas para a cabeça, fechando a abordagem do tema com o lenço de cabeça.

Através do percurso apresentado na obra de Muzzarelli (2016) foi possível verificar a importância que uma tipologia do vestuário assumiu na história da sociedade e os papéis representados pela moda na cultura e nos valores de cada época, por meio da narração da evolução da tradição feminina de se cobrir a cabeça e suas implicações sociais através dos séculos.

De cada capítulo foram selecionadas as lexiasreferentes às esferas dos núcleos: Moda, Espaço/Tempo e Sociedade, considerando-se que cada capítulo trata de uma especificidade do tema, o que amplia cada uma destas esferas consecutivamente ao longo da obra. A tabela, a seguir, mostra a quantificação daslexias presentes na obra de Muzzarelli(2016).

Tabela 1
Quantificação das lexias da obra de Muzzarelli (2016)
Moda Espaço/Tempo Sociedade
Introdução 28 25 26
Capitulo 1 2 9 19
Capitulo 2 20 11 26
Capitulo 3 23 19 38
Capitulo 4 12 4 15
Capitulo 5 17 9 9
Capitulo 6 17 12 28
Capitulo 7 26 19 22
Capitulo 8 11 12 27
Capitulo 9 15 18 5
Capitulo 10 29 32 15
Capitulo 11 5 7 20
Capitulo 12 21 12 4
Total 226 189 254
COPPOLA; CORDEIRO; GOMES; 2020, p.25

Verificamos que ao longo dos textos estudados, as nomenclaturas conduzem à construção da história. Ao mesmo tempo que a descrevem, descrevem a si mesmas, podendo ser verificadas em suas variações visuais através das imagens. Nesse sentido, após a formação do quadro de lexias referentes aos objetos de cada período, buscou-se as suas representações, observando acuradamente as descrições das imagens em suas fichas catalográficas originais, dispostas nos principais museus do mundo.

A Itália do Renascimento foi uma das pioneiras a explorar as interações entre os meios das artes, do princípio ut picturapoesisdivulgado através dos modelos romanos de Horácio, Cícero, Quintiliano, entre outros, amplamente discutidos na Idade Média e continuados em diferentes tratados publicados no Renascimento, como a obra Della Pittura de Leon Battista Alberti.

Selecionadas as lexias, deveríamos partir para a elaboração do glossário e para a seleção das imagens das artes correlatas aos conceitos, mas antes disso, abordamos dentro da história da arte, como a relação entre texto e imagem foi tratada a partir do Renascimento.

Dessa forma, entendendo esta conexão como espaço no qual o movimento do devir se materializa e envolve intercâmbios, desenvolvemos nossas análises a partir das obras pictóricas da Idade Média ao século XVII, bem como as obras impressas HabitiAntichi(1590),de Cesare Vecellio, . Iconologiadel Cavaliere Cesare Ripa Perugino (edição de 1645).

Encontramos no século XVI, Cesare Vecellio(1521-1601), pintor e gravador, que através de texto e imagem recolheu representações de uma iconografia geográfica do vestuário antigo e moderno de muitas regiões, que na segunda edição, em 1598, acrescentou os costumes das Américas. Segundo estudiosos, sua obra foi vista por muitos, mas lida por poucos em decorrência do impacto que as imagens fizeram à sua época, visto o registro visual com tantos detalhes e riqueza de materiais diversos associados aos tecidos, ofuscava o texto catalográfico descritivo. Esta é uma referência basilar em nossa abordagem visual.

A relação entre texto e imagem será continuada no Renascimento e podemos observá-la na obra Iconologia de Cesare Ripa (1593)[23], cujo objetivo, declarado no Proemio ai lettori, foi o de ocupar-se: .Deixando, assim, de lado aquela imagem da qual se serve o Orador[24], (...) direi somente daquela que pertence aos pintores, na verdade, àqueles que por meio de cores ou de outra coisa visível possam representar qualquer coisa diferente dessa”(RIPA, 1593, s/p)[25].

Segundo o autor, as qualidades fundamentais que devem ter as figuras dos pintores são a ‘semelhança’ e a correspondência com o texto de onde trazem inspiração[26]:

(...) e a definição escrita, se bem se faz com poucas palavras, parece que deve ser esta em pintura, em imitação daquela, não é, no entanto, mal a observação de muitas coisas propostas, para que das muitas se possam eleger as poucas, que façam mais à propósito, ou tudo junto façam, uma composição que seja símile à descrição. (RIPA, 1593, s/p).

Em Ripa (1593), os conceitos são apresentados no início da obra por meio de oito tabelas que se dividem por assuntos: das coisas nobres; dos gestos, dos movimentos e posições do corpo humano; das coisas artificiais; das plantas; dos peixes; das cores; dos animais; das inscrições antigas e medalhas antigas. Organizada como em um dicionário, trata-se de uma bibliografia obrigatória, uma vez que os elementos paratextuais[27] da obra são continuamente confrontados e analisados em conformidade aos estudos iconológicos e iconográficos das obras de arte produzidas a partir do período moderno.

Enquanto a obra de Vecellio dá ênfase às imagens, apresentando um texto catalográfico específico, mas não menos importante, a obra de Ripa enfatiza a relação entre texto e imagem, em continuidade à Ekphrasis e se apresenta como marco de passagem da Idade Média ao Renascimento.

Ambas as obras representam a relação entre os valores antigos e os modernos, a prosperidade das cidades e a relação com o tema da boa governança através dos “tipos sociais”, no caso de Vecellio, e as iconologias no caso de Ripa, com as representações iconográficas das qualidades morais, em continuidade com a antiguidade, mas trazendo uma nova relação entre texto e imagem.

5 NOMENCLATURAS E REPRESENTAÇÕES COMO JANELAS HISTÓRICAS E CULTURAIS

Para tratarmos as nomenclaturas, foi elaboradoum quadro geral de lexias, agrupadas em campos lexicais e dispostas em grupos, seguindo-se para isso o critério semasiológico, que trata do nome ao conceito. Em seguida, iniciamos a definição lexicográfica dos termos selecionados em forma de verbete iconolexicográfico[28], ou seja, verbete em que a descrição linguística está associada à uma imagem. Os núcleos Sociedade e Espaço/Tempo permaneceram coesos enquanto o núcleo Moda foi sendo dividido segundo especificidades, por funcionalidade (aplicabilidade) ou especificidade.

O quadro 01, que apresenta a organização do glossário por campos lexicais, pode ser acionado em sua verticalidade ou horizontalidade, relacionando os núcleos ou os temas específicos, seja em função da coordenação das imagens em relação ao conceito, seja em relação a necessidade de ampliar os diálogos, trazendo novas imagens ou novos textos, podendo, assim, criar campos ampliados em uma metodologia de construção que pode ser aproximada aos Atlas Mnemosyne de Aby Warburg.

Além da organização dos glossários por lexia e imagem, segundo os núcleos específicos, as nomenclaturas foram pesquisadas nas obras de Vecellio (1590) e Ripa (1593), do texto à imagem e a partir das obras de arte, da imagem de época da sociedade ao texto, a qual é acompanhada de conceito e tradução (podendo ser acrescida pelo exercício de Ekphrasis, ou seja, da descrição da imagem).

Quadro 1
Organização do glossário por campos lexicais
SOCIEDADE ESPAÇO/ TEMPO PENTEADOS/ ORNAMENTOS TIPOS DE MATERIAL E TECIDOS
Identidade religiosa Siena X pizzo → renda
Humildade Florença scialle-fisciù fili d’oro → fios de ouro
Submissão Bolonha gorgiere → gorgeiras bisso → tecido fino e delicado
Identidade pessoal Veneza hennin seta
Privilégio França velo leggermente crespo stoffa
COPPOLA; CORDEIRO; GOMES; 2020, p.29

A figura 1 traz um exemplo de uma ficha iconolexicográfica de acordo com o tipo de material/tecido, sendo ilustrada com as lexias bisso e fili d’oro.

Exemplo do glossário iconolexicográfico
Figura 1
Exemplo do glossário iconolexicográfico
Arquivo das autoras. Apresentação da Comunicação no Colóquio de Moda 2020

Além destas duas metodologias, o glossário está sendo organizado também para a associação texto, imagem e execução de protótipos quanto às técnicas têxteis, junto ao qual outras bibliografias técnicas de época são chamadas a dialogar.

Na figura 2, o grupo Sociedade é exemplificado com o verbete Conversão, de Cesare Ripa Perugino.

Exemplo de ficha iconolexicográfica da obra de Ripa (1645)
Figura 2
Exemplo de ficha iconolexicográfica da obra de Ripa (1645)
RIPA, 1645

Já na figura 3,na ficha Penteados/Ornamentos,temos a descrição da lexiacuffia.

Retrato de Laura Battiferri
Figura 3
Retrato de Laura Battiferri
Arquivo das autoras. Apresentação da Comunicação no Colóquio de Moda 2020

A associação entre texto, imagem e resgate de técnicas antigas pode ser visualizada a seguir,por meio da Figura 4.

Exemplo da associação entre texto, imagem e resgate de técnicas antigas
Figura 4
Exemplo da associação entre texto, imagem e resgate de técnicas antigas
VECELLIO (1590); RICCI (1918)

6 CONCLUSÃO

O tema do Ornamento vem ao longo dos séculos sendo abordado de modo fragmentado, criando tantas descontinuidades e leituras equivocadas de diferentes teorias, tomadas de forma descontextualizas de sua realidade, que o esvaziamento de sua recepção induz à maioria das pessoas a crer que são meros elementos descartáveis, pois como preenchimento estético não possuem razões válidas para serem mantidos. Mas a história é outra.

Poderíamos chamar à sua defesa, Alois Riegl, John Ruskin, Oleg Grabar, Titus Burckhardt, Ernest Gombrich, entre outros, para discutirmos a relação forma e função. No entanto, não podemos ignorar a historiografia contemporânea, que em uma continua revisão das análises historiográficas, na qual o conceito deve ser novamente chamado, para que através das nomenclaturas, das vozes, das lexias históricas, muito além de suas interpretações históricas, possam ‘reapresentar’ os sentidos específicos.

Assim, com o eixo enraizado na questão das imagens, cujo foco se atém aos materiais têxteis, o ornamento vem sendo estudado como objeto da História da Arte, na qual pode ser percebido como matéria e forma que amalgamam cultura e intenções, em que não somente o objeto é analisado, mas se transforma no ponto de partida para diversos diálogos.

Nesse processo, as terminologias são janelas que abrimos para outros lugares e períodos históricos, capazes de nos colocar como observadores estrangeiros de sociedades e espaços sociais para os quais necessitamos levantar seus sentidos culturais, para que sejamos capazes de propor uma leitura na qual texto e imagens são chamados ao diálogo intermidial.

O percurso metodológico vai do texto ao têxtil, tecendo percursos de análise do tema ornamentação e moda, no sentido original de ‘texěre’, tecer, mas que em Cícero podemos ver os sentidos de unir, fazer, escrever, compor. A referida construção metodológica amplia a abordagem histórica, pois dialoga com diferentes áreas, faz reflexões a partir de diferentes pontos de vistas, possibilitando a abertura de novos caminhos, novas pesquisas.

Finalmente, tanto a imagem quanto a palavra expressam mais do que nos é dado a perceber, nos chamando a abrir nosso olhar em diferentes perspectivas, para vermos de perto e de longe o mistério que elas velam com tanta fidelidade. Como reflexo de uma sociedade, se tornam um espaço de preservação da memória de um povo.[29]

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Notas

1 Professora Doutora do Curso de Design de Moda da EBA-UFMG, conservadora e restauradora de bens culturais móveis (CECOR-EBA-UFMG); conservadora e restauradora têxtil (Palazzo Spinelli/Itália); Líder do Grupo de Pesquisa CNPQ “STUDIOLO” (UFMG) e membro do CIETA/Lyon.http://lattes.cnpq.br/5163162229554146; Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8285-4274 Email: socoppola@gmail.com.
2 Doutora em Estudos Linguísticos pela Faculdade de Letras da UFMG, licenciada em Letras português/italiano e mestre em Estudos Linguísticos pela mesma instituição, mestre em Didattica e promozione della lingua e cultura italiane a stranieri pela Università Ca’ Foscari di Venezia. http://lattes.cnpq.br/6566136189348312 ; Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4459-4675; Email: maryellecordeiro@gmail.com.
3 De acordo com Pereira (2016), podemos observar cinco tipos: de cunho teológico; de cunho prático, quanto à recepção das imagens; sobre os produtores e aqueles descritivos.
4 Questão baseada na carta de Gregório Magno ao bispo Serenus, especificamente tratada por BASCHET (1996, p.7-8).
5 Tratado sobre vícios e virtudes, manuscrito de Moissac, da primeira metade do século XI (BNF Lat 2077, fol. 162v apud PEREIRA, 2016, p.131).
6 O simbolismo da tecelagem não se aplica somente às escrituras tradicionais. Ele é empregado também para representar o mundo, ou mais exatamente o conjunto de todos os mundos, (...) de estados ou graus (...) que constituem a Existência universal. (GUÉNON, 1973, p.81).
7 Como colocado por BALZAC (2016, p.32).
8 Prática que remonta à Antiguidadecomo textos descritivos das imagens.
9 Questão, que segundo Baschet (1996), de acordo com o que aborda, possibilita diferentes percepções (conceitos, problemas e metodologias) por diferentes áreas de conhecimento, principalmente entre a História e a História da Arte.
10 O termo funcionalidade remete aqui à ‘função’ e não ao ‘funcionalismo’ no sentido durkheimiano “que tende a supor uma unidade funcional da sociedade, concebida segundo um modelo orgânico, onde cada elemento que compõe cumpre um papel preciso e necessário.” (BASCHET, 1996, p.9).
11 Como por exemplo, os conceitos Imagem, Obra de Arte, Ídolo, Representação e Objeto, cujos problemas na adequação das abordagens são considerados por Baschet (1996).
12 Devemos aqui considerar o pensamento de Eco, (2010), que considera a Idade Média um momento de dificuldade de compreensão do valor estético do ornamento (p.13). A beleza foi uma categoria fundamental nas lógicas de apresentação artísticas medievais, principalmente no processo de semantização da imagem. Assim, o ornamental abriu um sistema semântico através do qual o transcendente se apresenta, a imagem: é imago.
13 O autor é eixo teórico nesta pesquisa, partindo de seu pensamento que, além da língua e da linguística, considera a interpretação da língua, a história literária, a história dos costumes, a história das instituições, etc, como fontes significativas para a formação da história da linguagem. E quanto à abordagem da linguística, seu pensamento de ser necessário levar em consideração as diferentes manifestações da linguagem humana, primitivas ou civilizadas, arcaicas ou contemporâneas, e em cada período as consideradas clássicas ou decadentes.
14 A escolha do dialeto florentino é questão de significativa importância e fator decisivo por ser a Itália o palco da narrativa, por sua capacidade de divulgação e relato dos fatos correntes à época através da publicação de obras na língua corrente, e não grego ou os dialetos de cada cidade, que hoje são de extrema importância para o estudo do cotidiano e da criação de tantos costumes e objetos no renascimento.
15 A escolha do dialeto florentino é questão de significativa importância e fator decisivo por ser a Itália o palco da narrativa, por sua capacidade de divulgação e relato dos fatos correntes à época através da publicação de obras na língua corrente, e não grego ou os dialetos de cada cidade, que hoje são de extrema importância para o estudo do cotidiano e da criação de tantos costumes e objetos no renascimento.
16 Foi um mercador, banqueiro, diplomata e cronista italiano florentino, membro da Guilda de Calamari (Acabamento de Lã) no século XIV. Sua obra se encontra nos arquivos do Vaticano.
17 Filho de mercador florentino, deu continuidade à atividade da família, casado com Felice Strozzi, exerceu encargos políticos como representante de Florença no exterior.
18 Que da Itália segue para a corte da Espanha e de lá conduz as diretrizes de comportamento na corte, influenciando, decisivamente, a etiqueta que será adotada no Antigo Regime francês. Sua obra é sempre citada, seja diretamente ou através de lexias que fazem menção a áreas das artes, bem como da música e do vestuário, o que nos mostra como a questão do movimento e das obras musicais e danças, que também serão organizadas e conduzidas através do mesmo discurso, em muitos tratados à partir do XVI nas cortes europeias, principalmente as espanholas e francesas. Castiglione terá importância até o século, quando a burguesia se apropria de costumes da nobreza antiga reproduzidos nos modelos da família e dos eventos nos salões, conduzidos pela educação, onde os últimos Dandis terão significativo papel.
19 O Vocabolario Degli Accademici Della Crusca foi o primeiro vocabulário da língua italiana que surgiu em 1612.
20 Foi o primeiro arquivista do Arquivo de Estado de Florença em 1883 e sua obra é de significativa importância histórica.
21 A tradução e estudo do texto foi objeto do projeto. A tradução como base de pesquisa entre as áreas das artes e das letras (2019-2020).
22 É professora do Departamento de História, Culturas e Civilizações e do Departamento de Bens Culturais, lecionando História das Cidades; História e Patrimônio Cultural da Moda e História Medieval junto à Universidade de Bologna - UNIBo/IT.
23 A publicação de 1645 em Veneza é objeto de pesquisa do Grupo de Pesquisa Studiolode 2017 a 2020 realizamos a tradução dos três livros e no biênio 2021/2022 estaremos desenvolvendo análises comparativas entre diferentes publicações na língua italiana (1603/Roma, 1645/Veneza e 1764-67/Perugia), com o foco nos textos e nas imagens.
24 Através de Ripa podemos verificar uma nova direção quanto à relação entre imagens e palavras, diversa em relação às publicações anteriores.
25 Nesta nova direção, o autor visa tratar das imagens que devem ser direcionadas às obras de artes (novo status do fazer artístico a partir do Renascimento), àquelas que devem servir de inspiração aos que traçam a forma através de diferentes técnicas: arquitetura, pintura e escultura. Esta obra é de significativa importância para o estudo iconológico/iconográficos das artes a partir do Renascimento, e terá grande prestígio e validade mesmo após a crítica de Johann Joachim Winckelmann, no De L’Allégorie, no século XVIII. Seu estudo e análise deve ser feito de forma correlata a obras do período moderno, do XVI ao XIX, para que possamos verificar a pertinência do discurso, que parte da formação da cidade ao sujeito, em continuidade à instituição territorial da igreja: a catedral.
26 Verifica-se aqui a continuidade do pensamento hermenêutico medieval, no entanto não mais locado nas Escrituras sagradas, mas nos textos antigos e na literatura contemporânea. Neste sentido, não é possível a abordagem da obra de Ripa sem a sua correlação com as obras que o precederam (p.ex. as citadas na nota 33) e, principalmente, as do período moderno, do XVI ao XIX, para que possamos verificar a pertinência do discurso, que parte da formação da cidade ao sujeito, em continuidade à instituição territorial da igreja efetivada a partir do século XI, através da catedral e de seu entorno (a comunidade cristã).
27 Partindo do pensamento sobre as poéticas do visível de ARBEX (2006).
28 Nomenclatura desenvolvida para apresentar a forma associativa entre a palavra e a imagem, pela lexia extraída do corpus, seguida de sua tradução, definição e, enfim, por uma imagem a ela associada.
29 MARYELLLE JOELMA CORDEIRO. Possui graduação em Letras (modalidade: licenciatura dupla; habilitação: Português/Italiano) na Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, com experiência acadêmica na Università delSalento em Lecce, na Itália. É Mestre em Estudos Linguísticos pela Faculdade de Letras da UFMG. Possui doutorado em Estudos Linguísticos pela Faculdade de Letras da UFMG, com período de Doutorado Sanduíche no Atlas Linguístico Italiano e Atlas Toponímico do Piemonte Montano, ambos com sede na Università degli Studi di Torino, na Itália.Na Università degli Studi di Torino, durante o período do Doutorado Sanduíche, atuou como Cultrice della Materia no Dipartimento di Studi Umanistici. É mestre em Didattica e promozione della lingua e cultura Italiane a stranieri pela Università Ca Foscari di Venezia, em Veneza na Itália. Email: maryellecordeiro@gmail.com.

Autor notes

1 Professora Doutora do Curso de Design de Moda da EBA-UFMG, conservadora e restauradora de bens culturais móveis (CECOR-EBA-UFMG); conservadora e restauradora têxtil (Palazzo Spinelli/Itália); Líder do Grupo de Pesquisa CNPQ “STUDIOLO” (UFMG) e membro do CIETA/Lyon. Email: socoppola@gmail.com
2 Doutora em Estudos Linguísticos pela Faculdade de Letras da UFMG, licenciada em Letras português/italiano e mestre em Estudos Linguísticos pela mesma instituição, mestre em Didattica e promozione della lingua e cultura italiane a stranieri pela Università Ca’ Foscari di Venezia. Email: maryellecordeiro@gmail.com
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