ARTIGOS CIENTÍFICOS
Recepção: 25 Maio 2022
Aprovação: 20 Dezembro 2022
Publicado: 01 Janeiro 2023

Resumo: Uma aula e seis estudantes de um curso de Licenciatura em Matemática e um professor e um doutorando e um desafio (discutir Ética) e … O desafio foi lançado pelos estudantes, trazendo com ele outro: como fazê-lo? Escolhemos o (des)caminho da literatura. Para tal, inventamos três situações fictícias e convidamos os estudantes a fazerem um exercício de pensamento considerando a Ética enquanto campo da Filosofia. Durante as discussões, alguns temas atravessaram a discussão: punição, avaliação, relações familiares, amizade, aborto, legalidade e ilegalidade, classe, gênero, raça, moral, dentre outros. A partir da gravação e transcrição da aula, que foi realizada virtualmente, escrevemos um conto. Inspirados nos estudantes, lançamos um desafio a você que está lendo este artigo: como tens mobilizado a Ética em sua vida?
Palavras-chave: Ética, Ficção, Experimentação, Formação, Militância.
Abstract: One class and six students of a Mathematics Licentiate course and a teacher and a PhD student and a challenge (discussing Ethics) and …. The challenge was launched by the students, bringing with it another: how to do it? We chose the (mis)path of literature. To this end, we invented three fictitious situations and invited students to do a thinking exercise considering Ethics as a field of Philosophy. During the discussions, some topics crossed the discussion: punishment, evaluation, family relationships, friendship, abortion, legality and illegality, class, gender, race, morals, among others. From the recording and transcription of the class, which was held virtually, we wrote a story. Inspired by the students, we launch a challenge to you who are reading this article: how have you mobilized Ethics in your life?
Keywords: Ethic, Fiction, Experimentation, Formation, Militancy.
Resumen: Una clase y seis alumnos de la Licenciatura en Matemáticas y un profesor y un doctorando y un reto (hablar de Ética) y… El reto lo lanzaron los estudiantes, trayendo consigo otro: ¿cómo hacerlo? Elegimos el camino de la literatura. Para tal, inventamos tres situaciones ficticias e invitamos a los estudiantes a realizar un ejercicio de pensamiento considerando la Ética como un campo de la Filosofía. Durante las discusiones, algunos temas cruzaron la discusión: castigo, evaluación, relaciones familiares, amistad, aborto, legalidad e ilegalidad, clase, género, raza, moral, entre otros. A partir de la grabación y transcripción de la clase, que se realizó de manera virtual, escribimos una cuento. Inspirados por los estudiantes, lanzamos un reto para ti que estás leyendo este artículo: ¿cómo has movilizado la Ética en tu vida?
Palabras clave: Ética, Ficción, Experimentación, Formación, Militancia.
PRIMEIRAS PALAVRAS
“A ética é em primeiro lugar a problemática dos outros, a preocupação que temos com sua existência, com sua presença, com seus desejos, com suas esperanças, com sua dignidade e com sua liberdade.” (DROIT, 2012, p. 38)
A Ética, enquanto campo da Filosofia, é temática recorrente no trabalho de muitas autoras e autores, das mais variadas escolas e expressões do pensamento. A complexidade da existência humana e não humana pode ser apontada como impulsionador de tal recorrência. Para este artigo, pensamos a Ética na companhia de Roger-Pol Droit (2012), a partir de seu livro que, como o subtítulo indica, trata-se de uma porta de entrada nos estudos da temática em foco.
Um dos impulsionadores que nos movimentou a realizar esse primeiro movimento de pensar sobre Ética é uma pesquisa de doutorado em andamento, sob responsabilidade dos autores deste texto. Durante a produção de dados, realizada em uma disciplina de Prática de Ensino de um curso de Licenciatura em Matemática de uma universidade pública, convidamos os estudantes a elencar temáticas sociais para serem discutidas durante a disciplina.
Para tanto, os estudantes elencaram algumas temáticas e, dentre elas, havia uma: Ética. Em um primeiro momento, ficamos um pouco receosos, mas a empolgação falou mais alto. A questão que ficou foi: como discutir Ética com os estudantes? De muitas maneiras! Escolhemos uma: a partir da literatura. Para Jean-Paul Sartre (2019), a literatura pode ser
[...] uma subjetividade que se entrega sob a aparência de objetividade, um discurso tão curiosamente engendrado que equivale ao silêncio; um pensamento que se contesta a si mesmo, uma Razão que é apenas a máscara da loucura, um Eterno que dá a entender que é apenas um momento de História, um momento histórico que, pelos aspectos ocultos que revela, remete de súbito ao homem eterno; um perpétuo ensinamento, mas que se dá contra a vontade expressa daqueles que ensinam. (SARTRE, 2019, p. 28)
A literatura está presente em nossa pesquisa desde o início e não seria diferente na produção de dados. A partir dos primeiros rabiscos, tentamos colocar em movimento uma formação de professoras e professores impulsionada pela ficção. Essa possibilidade de formação, que está sendo desenvolvida na tese, apresenta uma limitação, expressa nas palavras de Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995):
Em suma, não se deve jamais confrontar palavras e coisas supostamente correspondentes, nem significantes e significados supostamente conformes, mas sim formalizações distintas em estado de equilíbrio instável ou pressuposição recíproca. ‘Não adianta dizer o que se vê; o que se vê não habita jamais o que se diz’. (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 83)
Essa limitação se dá pela força da diferença, ou seja, a situação “fictícia” usada na formação de professoras e professores nunca será exatamente a situação “real”, apenas uma aproximação. Porém, essa aproximação possibilita o exercício do pensamento e justamente por isso ela é potente.
A relação entre Ética e literatura se deu pela criação de três situações "fictícias" relacionadas ao contexto educacional, que levantam questões que muitas vezes são marginalizadas em tal contexto e fora dele. Algumas questões relacionadas as três situações fictícias são: punição, avaliação, relações familiares, amizade, aborto, legalidade e ilegalidade, classe, gênero, raça, moral, etc.
Nos estudos de Ética, o conceito de moral (apresentado nas próximas páginas) é recorrente e imprescindível. Poderíamos até dizer, grosso modo, que a Ética é a reflexão sobre a moral. Um dos nossos objetivos durante a aula, na qual se deu a discussão sobre Ética, era convidar os estudantes a problematizar algumas questões morais (as falas dos estudantes estão em itálico). Com este artigo, estendemos esse convite a você através do conto a seguir.
“A VIDA É TÊNUE, TÊNUE”[3]
Hoje à tarde Matheus falei com Matheus por chamada de vídeo. Obviamente eu já sabia o motivo da ligação: sua produção de dados. Acho que é assim que fala, mas não tenho certeza, só conheci o que era mestrado quando ele chegou animado alguns anos atrás me contando que iria prestar o processo seletivo de um.
Na ligação, Matheus disse que ele e Carlos, seu orientador, estavam sem saber como discutir ética com os estudantes da graduação. Levantamos algumas possibilidades, mas nenhuma o agradou. Até que pensei em uma: “se vocês querem discutir essa tal de ética, porque vocês não inventam situações?”. Quando disse isso, Matheus ficou tão empolgado que parecia que ele iria pegar um ônibus e vir me abraçar em forma de agradecimento. Acho que nesse momento, a aula está começando.
— Boa noite, pessoal — cumprimenta Matheus. — Hoje trabalharemos a temática da Ética, a partir de uma sugestão da Valéria. Ah, Carlos, Valéria é a “Carla”, ela está no celular da filha.
— É que você está gravando, eu já iria fazer uma piada. Sabe aquele meme: “professor, quantas faltas eu posso ter no semestre?”. Ele responde: “quem é você?” — brinca Carlos.
— Acho que eu sei qual é[4] — disse Valéria rindo.
— Eu preparei uma pequena apresentação para relembrarmos os conceitos básicos de ética e moral. A ideia é que durante a aula a gente discuta algumas situações considerando a Ética, enquanto área da Filosofia. Espero que vocês tenham visto o vídeo e lido o texto que enviamos. Bom, vou apresentar a minha tela — disse Matheus.






— Se vocês fossem professora ou professor de André e Gustavo, como vocês lidariam com essa situação? — pergunta Matheus.
Antes de alguma resposta dos alunos, Carlos intervém:
— Antes da gente continuar... acho que ficou rápido a apresentação da moral e da Ética. Elas se confundem muitas vezes, não é mesmo? A moral acaba sendo um código quase que imposto pra gente pra viver em sociedade. Existem vários códigos morais, questões morais que nos são impostas. Mentir, por exemplo, é algo moralmente errado. Uma outra coisa, ser honesto, a qualquer custo, é algo moralmente desejado. Por mais que você prejudique alguém, ou se prejudique, deve ser honesto ou honesta. Isso é uma questão moral. Muitos de nós já mentimos para evitar um castigo mais severo de nossos pais ou mentimos em outra situação para evitar o sofrimento. Ao fazermos isso, infringimos a moral, fomos imorais. Mas, você, em um certo movimento de reflexão, muitas vezes inconscientemente, acabou mobilizando a Ética.
— Muito bacana sua fala, Carlos. Acho que se aproxima da concepção utilitarista de Ética, na qual afirma que a ação vai ser certa ou errada de acordo com a consequência. Com certeza a moral muitas vezes acaba sendo confundida com a Ética. Como vimos no vídeo, os códigos de ética das profissões, por exemplo, poderiam ser chamados de códigos morais. Voltando para a primeira situação, como vocês agiriam? — pergunta Matheus.
— A gente vai dar um tempinho para eles pensarem, Matheus?
— Isso mesmo, Carlos.
Valéria levanta a mão pelo recurso do Meet.
— Pode falar, Valéria.
— Eu... meu modo de pensar é que eu falaria para os pais. Ele teve quatro meses de castigo para estudar, não precisa colar, então... eu sou uma mãe rígida na escola, cobro muito dos meus filhos, acho que... tudo consegue, como que fala... se dedica você consegue. Acho que a cola simplesmente é um... eu acho que a pessoa que passa a cola acha que está ajudando... eu acho que ela não tem consciência que está prejudicando mais ainda... então a minha opinião como professora eu contaria para os pais, não sou a favor de cola na escola, nem como aluno nem como professor.
— Muito obrigado pela sua colocação, Valéria. Vamos pensar juntos — sugere Matheus. — Na sua fala você defende que se a pessoa estuda, se dedica, ela consegue. Será que isso é sempre verdade? Vamos fazer uma busca rápida no Google agora… pronto, achei uma notícia do Portal Geledés que afirma que o desemprego entre mestras, mestres, doutoras e doutores é de 25%. Ou seja, mesmo que você tenha uma alta formação, nem sempre é garantida uma estabilidade. Por outro lado, eu entendo o aspecto negativo da cola que você aponta, ela só ajuda momentaneamente e cria uma certa dependência. Mais alguém gostaria de compartilhar o seu posicionamento?
Jelyeny levanta a mão.
— Fique à vontade, Jelyeny.
— Boa noite, pessoal. Então, o meu posicionamento como professora, eu chamaria os dois alunos para estar conversando sobre o acontecido e “taria” dando a ideia deles em um período que não houvesse aula, o colega que passou a cola ajudar o outro amiguinho a estudar pra que não precisasse acontecer novamente o ocorrido e logicamente eu comunicaria aos pais porque da mesma forma que um aluno estuda para tirar nota, o coleguinha deveria ter feito o mesmo e comunicaria a direção da escola sobre o ocorrido e a situação do aluno.
— Muito obrigado, Jelyeny. É uma estratégia interessante pautar-se no diálogo e instigar a cooperação entre os estudantes. Lembrei da minha época de escola na qual eu ajudava os meus colegas com as atividades de Matemática. Além de estar ajudando o outro, é um bom exercício de aprendizagem para quem ensina. Eu particularmente via pouco disso na escola que estudei. Fiquei pensando que práticas como essa podem ajudar a desconstruir a ideia de que existe um “salvador da pátria”, que na escola está encarnado na figura do professor e da professora. Essa descentralização do poder do professor e da professora pode reforçar a descentralização do poder na sociedade e convidar os estudantes à cooperação futuramente. Muito utópico? Mais alguém? — pergunta Matheus.
— Ninguém, mais? — pergunta Carlos.
— Calma que eu estou pensando aqui, pessoal — disse Flávio.
— Ah “tá”, desculpa, Flávio.
Nesse momento Rani comenta:
— Eu acho que uma situação deveria ser entender o porquê esse aluno, o André no caso, não está aprendendo, não tinha aprendido antes, depois quatro meses não continua aprendendo... a ideia da Jelyeny é boa, de colocar “pra” estudar junto. Ele está passando cola... mas de qualquer forma é errado e deve ser informado sim aos pais do ocorrido que ambos estavam fazendo, acho que é isso.
Após a resposta de Rani, Matheus diz:
— Obrigado, Rani. Você pegou pesado agora, heim. Invocou teorias da aprendizagem quando você propõe entendermos o porquê de André não estar aprendendo. Falar de aprendizagem é sempre muito difícil. Na verdade, muitas vezes ela é deixada de lado e quem assume o protagonismo é o ensino. Primeiro, que não dá pra medir a aprendizagem. Acho que nesse caso, seguindo a ideia de Rani, seria interessante ter uma postura investigativa. O diálogo acolhedor com esse estudante seria uma boa pedida.
Flávio pede a palavra:
— Eu não sei cara, estou terminando de pensar... é o seguinte cara, os pais do André são muito rígidos né e assim... ele ficou quatro meses de castigo porque ele tirou uma nota baixa em Matemática. Se ele for punido novamente... imagina assim, uma criança em fase de desenvolvimento... porque assim, qual foi o castigo dele... ele ficou sem brincar com outras crianças, ele ficou sem comer chocolate. A gente na verdade não tem muita informação sobre como foi esse castigo. E assim, eu penso que às vezes o professor não tem que pensar sozinho. Às vezes a gente poderia recorrer, por exemplo, a conversar com a coordenação da escola... envolver outras pessoas também “pra” gente conseguir mais informações sobre o contexto familiar. A gente tem de levar em consideração o contexto familiar de ambos, enfim, condições psíquicas do André, do Gustavo... pensar né, eles são amigos... será que os pais do André não proibiria ele de não ser mais amigo do Gustavo e assim, as vezes isso vai atrapalhar ele porque ele não vai ter amiguinho... ele está em fase de desenvolvimento e a amizade é algo importante na vida. Então assim, o punitivismo... a gente acaba entrando, às vezes, numa questão de punitivismo, tipo assim, eu vou contar para os pais de todo mundo e eu quero mais é que o André e o Gustavo sejam punidos mesmo, quer dizer, a gente não está refletindo sobre o problema levando em consideração todos os fatores que deveriam ser levados em consideração, que é uma avaliação geral, de contexto. Então assim, só com essa informação não tem muito como a gente tomar uma decisão. Caberia a gente buscar mais informações “pra” gente ter uma panorama mais completo, buscar auxílio da escola, alguma coordenação, alguém que possa auxiliar, pra gente pensar melhor sobre esse problema antes de tomar alguma decisão. Acho que a minha resposta é uma não resposta.
— Obrigado, Flávio. Concordo com suas colocações — responde Matheus, que continua. — Vou focar em uma delas, dado o nosso tempo. É muito verdade quando você afirma que as professoras e professores não precisam pensar sozinhos. Acho que essa sua afirmação dialoga com a ideia de trabalho coletivo, ação coletiva. A ação individual muitas vezes acaba produzindo em nós a sensação de limitação. Discutir com os pares pode elucidar uma decisão, visto que podemos deixar passar despercebido algum fator importante. Fora que existem profissionais qualificados que podem somar diante dos nossos impasses e problemas. Bom, acho que falta a Gabriela, caso ela queira compartilhar o posicionamento dela.
— Então, eu “tô meia” calada porque eu concordo com a resposta da Jelyeny também. Tipo... achei bem no ponto... esse negócio de colar a gente teria que ver um pouco mais a fundo o porquê... é uma questão bem séria. É isso.
— Obrigado, Gabriela. Matheus, o que você está pensando? Discutir caso a caso ou fazer uma discussão geral no final? — pergunta Carlos.
— Acho que a gente poderia fazer uma discussão caso a caso. E você, Carlos, o que você faria?
— Eu iria dar zero para os dois — brinca Carlos. — Eu mesmo já iria punir os dois alunos, iria dar uma suspensão de 15 dias.
— Coitado do André, heim.
— Estou brincando — responde Carlos, que continua. — Me surpreendeu as respostas, na minha cabeça seriam diferentes. Com exceção de Flávio, vocês tiveram uma postura moralmente correta, quer dizer, é errado colar, eles colaram, mesmo que tenha uma intervenção escolar, vão avisar os pais. Não foi levado em consideração nas respostas algumas coisas, por exemplo, por que é errado colar? Quem que inventou que é errado colar? Outra coisa, por que decorar alguma coisa e passar para a folha é certo e colar é errado? Vou além, e estou aqui mesmo como advogado do diabo, vamos imaginar que ao invés de André ter pego a cola de Gustavo ele estivesse com o caderno embaixo da mesa e a partir das anotações do caderno ele conseguisse fazer a prova... é considerado cola. Isso que ele fez que é se virar com um conteúdo que ele tinha e fazer a prova é considerado errado, mas decorar o resultado que deve ser colocado na prova é certo. Ficou pontual a discussão, mas quase em toda questão moral há possibilidade de discussão como essa. Uma outra coisa, por que o estudante cola? Ele cola porque o modelo de avaliação proposto dá essa possibilidade. Se ele tivesse que produzir ao invés de reproduzir, ele não teria condições de colar. Não tem de onde copiar algo que ele tem que produzir. Vocês percebem que a questão moral está imbricada em coisas que a gente entende como ideais. Uma outra coisa, e aí vou chegar lá no Flávio, se por exemplo, olha que absurdo, se ao invés do aluno ter ficado sem chocolate, que é o que o Flávio sugeriu, ele tivesse apanhado durante quatro meses, qual seria nossa resposta? Quando você pensa que algo está certo, você está em cima de premissas consideradas verdades impostas. Para Nietzsche, as verdades foram criadas em algum momento da sociedade e perderam seu contexto, mas ainda são tidas como verdades. “Colar é errado”, isso é uma verdade despida do seu contexto, da sua historicidade. Não importa se o estudante vai ficar de castigo, é considerado errado. Eu fiquei meio motivado com a discussão, vamos lá. Eu falei muito. Corta meu microfone quando for assim, Matheus.
— Que isso, não vou te censurar como certas pessoas desse país não — “brinca” Matheus. — Foi muito legal ouvir a opinião de vocês. Uma ideia que eu tive quando pensei nessa situação é tentar verificar se realmente iriam condenar moralmente o ato da cola e esquecer do posicionamento dos pais do estudante. Esse era um ponto que eu pensei em trazer para a discussão com vocês. É interessante problematizar a questão da cola, mas também as outras morais que estão por trás do comportamento humano, considerando o contexto educacional. Eu não sei se vocês já tiveram contato, mas existe um tipo de avaliação que é feita com cola. Já tem alguns autores que discutem isso. Essa discussão busca, dentre outras coisas, tencionar a moral. Isso pode ser um posicionamento ético. O Carlos está doido pra falar. Fique a vontade cara.
— É que você está gravando, eu não posso falar muita coisa.
— Fique tranquilo, cara, depois a gente faz um filtro.
— Enquanto coordenador do curso, você nem imagina o que os professores reclamam pra mim. Prova em casa... têm estudantes que são casados...
— Eles não compartilham a resposta um do outro, jamais.
— Não sei de nada.
— Mais alguém gostaria de fazer um comentário antes de irmos para a segunda situação?
— Pois é, eu “tô”... eu jantei agora... eu estou chegando, “tô” esquentando ainda... é isso, tem muita coisa “pra” gente pensar — disse Flávio, que continua. — Vamos frase por frase. A questão da amizade entre André e Gustavo, a questão dos pais... será que às vezes a gente não teria que denunciar esses pais no conselho tutelar? A questão da avaliação, da prova... por exemplo, o Gustavo passou cola “pro” André... presume-se que o Carlos tem algum conhecimento a mais do que o Matheus em Matemática... será que eles não poderiam colaborar um com o outro, aproveitar essa amizade e a partir dela estimular a aprendizagem. Refletir a questão da avaliação, só vale prova? Aí os números te definem, se você tirou 10 você é um bom aluno... tudo que importa é a prova, passar de ano... nunca é o percurso, uma finalidade maior... e a gente está sempre adiando né. Tem bastante coisa aqui que dá “pra” gente pensar.
— Com certeza...
— Ou...
— Desculpa, Carlos, pode falar.
— Eu só ia encher o saco do Flávio... O Flávio hoje está totalmente moralista, você viu? “Onde já se viu essa pouca vergonha, tem que avisar para os pais…”. Agora ele quer chamar o conselho tutelar...
— O conselho tutelar faz um trabalho também com as famílias — Flávio se defende.
— “Tô” brincando com você, Flávio.
— Você tocou em um ponto importante, Flávio. Uma possibilidade seria justamente isso, fazer um trabalho com os pais. Porque como você disse na sua fala anterior, a nossa primeira atitude é punir, punir, punir. E se, por exemplo, a escola fizesse uma parceria com um centro de psicologia. É interessante não ir pelo caminho mais fácil, ir por um caminho diferente do caminho da punição.
— Só “pra” gente pensar né, acho que vai desviar um pouquinho... Eu sempre falo assim, se alguém quisesse me dar o cargo de ministro da educação, se me dissesse que eu tenho liberdade para fazer o que eu quiser na educação, eu não teria um modelo ideal de escola na minha cabeça. Na minha visão isso é ótimo, se você tem um modelo ideal, você está esquecendo de muitas coisas. Mas, existem propostas, grosso modo, as escolas com gestão democrática, que é uma possibilidade para a escola. A escola, historicamente, é uma extensão das famílias, uma extensão da comunidade... Às vezes os pais não têm o conhecimento que os filhos e filhas precisam, aí surge a figura das professoras e professores. Vamos imaginar uma sociedade pequena, é necessário de um lugar para que as pessoas estudem, para que os conhecimentos sejam divulgados. Talvez, considerando a situação, seria necessário uma intervenção da própria escola. O que ajudou esses quatro meses de castigo? O meu ponto é que dá “pra” conversar isso na escola. Trazer essa questão para discussão é melhor do que penalizar o aluno.
— Eu pensei em algo, mas esqueci — disse Flávio.
— Sem problema, Flávio. Quando você lembrar, fique à vontade para compartilhar. Bom, acho que poderíamos ir para a segunda situação. Lembrou? — indaga Matheus.
— Então, até esse ambiente familiar, o clima dentro de casa, essa questão de muita expectativa em cima da criança, cobrança, muita pressão... às vezes até isso está prejudicando o desempenho escolar dessa criança... ele não vai bem aí vai punir mais, isso vai gerar mais efeitos psicológicos negativos para a criança... ela vai ficar mais pressionada, acuada, enfim, isso vai prejudicar o desempenho. É tipo achar... antigamente né, a gente educa com a palmada, você pega a palmatória, a régua, aí se você não decorar a tabuada, você apanha né. Olha, primeiro de tudo você vai ficar com medo, você não vai pensar em tabuada. Então assim... os pais estão tentando seguir uma lógica né, que também foram ensinados assim, de punição, na verdade é isso que está prejudicando a criança. Então é isso, valeria buscar intervenções, da própria escola, da coordenação, se for uma coisa mais grave, um conselho tutelar — conclui Flávio rindo.
— Acho que a gente pode entrar na segunda situação. Eu vou compartilhar a minha tela, vou fazer a leitura com vocês e teremos alguns minutos para pensar sobre ela — disse Matheus.

— E aí pessoal, quem gostaria de começar? Quase me esqueci, esse dado apresentado pela professora é um dado real... pode falar Flávio — disse Matheus.
— Cara, eu acho que a gente tem que aprofundar o assunto. Eu joguei no Google aqui e achei... eu lembrava desse dado aí... deixa eu colar o link aqui, como de costume eu tenho as abinhas... já está nas mensagens pessoal, “pra” todo mundo... descendo um pouquinho, vai estar lá os oito dados do aborto. A primeira informação é essa que você passou, mas tem o item 4 e tal... não teria como ser diferente né: “as mulheres que abortam são em geral casadas, já tem filhos e 88% se declaram católicas, evangélicas, protestantes ou espíritas”... quer dizer, a mulher que aborta não é um ente que desce de marte, ela tá inserida dentro do nosso contexto, ela é uma mulher real, ela é preta, branca, tem religião, ela não tem, alguma coisa a gente tem de informação sobre ela. Então, essa questão da religião... “pra” gente pensar o seguinte, a questão do aborto não é só uma questão da religião da pessoa, se a pessoa gosta ou não de criança, alguma coisa nesse sentido, quer dizer, são pessoas que já tem filhos, não tem condições, acho que seria o caso de aprofundar o debate sobre o aborto e, novamente, buscar auxílio de outros colegas. Por exemplo, as vezes tentar trabalhar essa questão junto a professora ou professor de Biologia, pra gente conseguir entender a questão da concepção, de até quanto tempo é possível fazer o aborto, então assim, acho que seria o caso de aprofundar o debate, trazer mais informações né, trabalhar em conjunto com outros colegas da área de Biologia, de Química, as vezes também, compreender quimicamente como isso funciona, é um debate que não pode ser atravancado, as mulheres estão morrendo, então assim, independente de religião ou qualquer coisa, então não tem como parar o debate né, a questão religiosa sempre vai entrar nesse tema... eu falei de falar junto a professora de Biologia, de Química, mas por exemplo... é que não sobrou né, eles cortaram tudo, professor de sociologia tem na escola hoje em dia? Agora é reforma de Ensino Médio, reforma de não sei o que... mas se sobrou algum professor de humanidades, trabalhar conjuntamente, porque a questão do aborto ela vem no sentido da regulação dos corpos das mulheres e isso está muito ligado a questão do nosso modo de produção capitalista, pra reprodução... aumentar o número de proletários... tem esse sentido muito ligado ao capitalismo. Às vezes no momento da aula você não vai conseguir dar uma resposta imediata, mas você consegue trabalhar isso ao longo do tempo... elaborar um projeto com as outras áreas, trazer esse tema depois, já mais maduro, mais trabalhado. Seria por aí.
— Eu acho que você tocou em um ponto muito importante Flávio, desenvolver um projeto com outras professoras e professores pode ser uma possibilidade interessante. Seria uma forma de colocar em xeque a moral que está por trás da fala desse aluno e que com certeza pode estar por trás da fala de outros estudantes. Não que a gente vai apontar o que é certo ou errado, a ideia é o convite ao pensamento. Também é interessante levar essa discussão adiante, não ficar só naquele instante. E aí galera, mais alguém quer compartilhar um posicionamento ou reflexão sobre a situação? Fique à vontade para falar, Valéria — disse Matheus.
— Eu acho como professora, se fosse um aluno meu, teria todo um trabalho para ser feito com o aluno. Aconteceu um caso com a minha filha, que a professora de Educação Física namora uma mulher e ela tem piercing na região genital... na hora da educação física a bola bateu nela e ela comentou e essa discussão foi para a escola toda, pras mães todas dessas alunas... então assim, o assunto aborto é um assunto... eu acho de... tem que ter um extremo cuidado pra ser falado... porque você não sabe a situação da mãe que abortou ou da mãe que quer fazer um aborto... que nem o Flávio comentou... eu não acho... na pesquisa pode ter esse resultado... mas eu acho assim... você não ter o apoio da pessoa do seu lado... não que isso acontece comigo... porque eu criei dois filhos sozinha, não tenho necessidade de ter apoio de homem nenhum para falar se eu vou ou não ter meus filhos. Mas eu acho assim, tem tudo um contexto, tem tudo... o que aconteceu para surgir aquele aborto? Eu não posso dizer que eu sou contra ou a favor do aborto... em situações eu sou a favor, em outras eu não sou a favor... então eu acho assim, é um assunto extremamente delicado de ser falado, eu teria o maior cuidado para falar com meu aluno... porque poderia... um assunto talvez... poderia ter acontecido como esse caso que aconteceu na escola.
— Muito obrigado, Valéria — agradece a Matheus, que continua. — Eu concordo com você, acho que qualquer assunto que vamos tratar na escola temos que ter cuidado, realizar um planejamento minucioso. Em relação a situação, a professora compartilhou um dado estatístico que diz que a cada dois dias uma mulher morre devido a aborto inseguro. Não temos uma lei que garante o aborto seguro, ou seja, a mulher não tem a liberdade de escolher. Mas é fato que elas estão abortando. Quem deve decidir continuar com a gravidez ou não é a própria pessoa grávida.
— É um assunto difícil — pontua Carlos. — Do ponto de vista das leis, o aborto é proibido, acho que tem três casos em que são permitidos... quando há risco de vida para a mulher, causado pela gravidez, quando a gravidez é resultante de um estupro e se o feto for anencefálico.... Do ponto de vista dos costumes cristãos também é considerado errado... independente disso as mulheres estão abortando, entende... tem muita coisa que é proibida, é crime, e as pessoas fazem... isso inclusive cai na discussão de moral e Ética. É uma questão de saúde pública, independentemente da legalidade e da moralidade elas estão abortando. Não é o meu lugar de fala, mas se eu fosse mulher... não é porque eu defendo o aborto que eu queira abortar, entende... uma coisa é você defender o aborto, outra coisa é você querer abortar. Você não é obrigada ou obrigado, no caso dos homens trans, a abortar. Vou dar um outro exemplo, eu sou totalmente a favor da legalização das drogas, mas nunca usei e não tenho vontade de usar. Pode falar, Flávio — disse Carlos.
— O aluno parte da premissa que é crime. Então assim, como vai dando “pra” gente encaixar debates paralelos... um novelo de fio... uma coisa vai puxando a outra. Porque dá “pra” gente discutir a ética das leis e da justiça. A escravidão, a colonização era tudo legalizado... assim, não dá “pra” gente tirar parâmetro de ética das leis. Daria “pra” gente discutir isso, quem faz as leis? Quem ocupa o trono do poder são homens, brancos, cristãos, heterossexual, cis normativo, então assim, a gente vai usar a régua deles, de quem domina... de um tema dá “pra” gente discutir a ética de outros aspectos... do ponto de vista da lei, as leis são justas? Quem faz as leis? Quem tem o poder de mudar as regras do jogo?
— Flávio, só “pra” comentar uma outra coisa que eu acho que tem a ver com o que você falou... quase que a gente pode falar que a lei é “A moral”. A lei é a moral institucionalizada. Se a gente for pensar pelas ideias de Foucault, existem discursos... uma regra moral é um discurso social e esse discurso é formado pelos enunciados, enunciados escritos e não escritos. A lei seria um dos enunciados que formam uma regra moral. Existem outros enunciados. Em relação ao aborto, existe o enunciado da lei, o da igreja, o familiar e outros.
— Eu fiquei pensando também que as leis, que Flávio e Carlos comentaram, se aproximam da ética kantiana, porque ele pensa a ética como busca por universais, como algo que pode ser aplicado a todos e todas. Antes de prosseguirmos, eu gostaria de fazer uma indicação do livro “Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil”, de Sueli Carneiro. No livro tem um capítulo intitulado “Gênero” no qual ela escreve sobre aborto. A autora cita dois posicionamentos sobre o aborto que são de revirar o olho. Vou compartilhar um deles com vocês. A autora escreve o seguinte nas páginas 131 e 132: “A descriminalização do aborto, uma bandeira histórica do movimento feminista nacional, encontrou nova e perversa tradução de política pública na voz do [então] governador do estado do Rio de Janeiro (...). O governador defende a legalização do aborto como forma de prevenção e contenção da violência, por considerar que a fertilidade das mulheres das favelas cariocas as torna ‘fábricas de produzir marginais’. Uma reivindicação histórica dos movimentos de efetivação dos direitos reprodutivos das mulheres e de reconhecimento do aborto como questão de saúde pública sobre a qual o Estado não pode se omitir é pervertida em proposta de política pública eivada de ideologia eugenista destinada a interrupção do nascimento de seres humanos considerados potenciais marginais. No lugar do respeito ao direito das mulheres de decidir sobre a própria concepção, coloca-se como diferença radical de perspectiva a indução ao aborto, pelo Estado, como ‘linha auxiliar’ no combate à violência.” Esse posicionamento sem fundamento e antiético do então governador é só um dos muitos que atrapalham o movimento das mulheres citado pela autora. Eu e Carlos recomendamos essa leitura e que ela seja porta de entrada para o aprofundamento do debate. Podemos ir para a terceira situação?
— Acho que sim — disse Carlos.


— E aí, pessoal, o que vocês fariam?... pode falar Flávio disse Matheus.
— Não sei nem o que falar cara, esse é o problema... acho que chorar primeiro né... acho que agora sim a gente pode chamar o conselho tutelar né — brinca Flávio. — Você vê assim... a pessoa tem as asas cortadas... uma impossibilidade de perspectiva, de futuro, de decidir sua própria vida... um componente grave disso... porque assim, você pode falar “você pode fazer sim, mulher pode fazer o que ela quiser, lugar de mulher é onde ela quiser”, mas e a consequência disso, ela vai ser expulsa de casa? Ela vai “pra” onde? Ela vai ter acolhimento? Ela vai ter abrigo? Uma casa de alguém “pra” ir? Então assim, eu acho que individualmente a gente não vai conseguir resolver essa questão, a gente não vai dar conta, acho que a gente não tem competência pra isso, a gente não tem meios, a gente professor de Matemática, mas a pessoa tem que ter a possibilidade de fazer escolhas sobre a própria vida, acho que deve ter alguma intervenção, não pode também ser deixado de lado né, mas eu acho que a gente não tem habilitação pra isso, novamente, seria o caso da gente buscar ajuda para mediar essa situação, com a escola, com a coordenação, com o conselho tutelar, “pra” gente poder ajudar essa aluna da forma que a gente puder, “pra” que não chegue a esse ponto de perder a aula de uma coisa que ela não tem nem perspectiva de que ela vai poder dar prosseguimento com aquilo, com os estudos.
— É tenso mesmo, Flávio, eu congelaria se eu ouvisse isso, eu iria ficar em choque. Eu já ouvi de uma amiga minha que a mãe dela já passou por isso, isso é muito mais frequente do que a gente imagina. A visão do pai da aluna da situação é uma visão enraizada no imaginário de muitos homens. A gente vai se deparar com ela durante o exercício da profissão e na vida. Ao meu ver deveria ser feito um trabalho com esse pai e, no contexto educacional, com os estudantes homens.. Alguém mais gostaria de compartilhar o seu posicionamento?... Fique à vontade, Gesley — disse Matheus.
— Boa noite, pessoal, estão me ouvindo?
— Sim.
— Esse tema aí me fez lembrar, né Carlos, que temos quase a mesma idade, me fez lembrar de quando eu era “mulecão”, principalmente de final de semana quando reunia a família, naquele almoção de domingão, a minha mãe, minhas tias passavam essa situação, minha mãe tem quinta série, ensino fundamental, porque, pensamento ignorante do meu finado vô, “mulher é pra ficar em casa, lavando, cozinhando”, minha mãe fala até hoje, com a maturidade que ela tem hoje, que ela teria revidado, que teria um futuro melhor, minha mãe teve uma criação de sítio, ela passou por diversas dificuldades, até fome eu e meus irmãos já passou, pra vocês terem uma ideia. Meu pai teve quarta série do primário, passou muitas dificuldades.
— Obrigado, Gesley. Nossas avós, nossas mães passaram por situações tristes, muito cruéis. Minha mãe já passou por cada situação que não tenho nem vontade de falar. Acho que eu vou repetir o que eu disse antes: isso mostra o quanto temos que discutir, também, masculinidades. Acho que a gente pode levar essa temática “pras” nossas aulas... fique à vontade Valéria — disse Matheus.
— A gente fala assim: “fiquei sem palavras”. Acho que é um absurdo tão grande você ver uma coisa dessa escrita... meu pai era muito rígido, eu falo assim, eu nasci e morei em outra época... quando fala assim, “em que época você nasceu”, eu nasci antigamente, porque eu fui criada tão diferente do que as crianças são criadas hoje, eu fui criada totalmente diferente, eu não podia brincar com meninos, eu não podia falar ou estudar com meninos, então era muito limitada a minha socialização, então, sobre a questão de escola, graças a deus, meu pai sempre falava “tem que estudar, tem que conseguir suas coisas”, isso eu não posso reclamar nunca do meu pai, sobre estudo, então quando eu ouvi isso, se eu fosse professora dessa aluna, eu tentaria de toda maneira... se fosse vontade dela, se ela quisesse fazer o ENEM, eu buscaria um meio de ajudar ela, porque as mulheres foram criadas tão submissas, porque as vezes, tipo assim... não é porque não queira fazer, ela foi ensinada, a cultura dela é daquela maneira, às vezes pela maneira de ser criada... tem vários tipos de mulheres... tanto que quando meu pai morreu minha mãe... meu pai já vai fazer 21 anos que morreu, minha mãe não casou novamente, ela não tem vontade de ter um marido, acho que ela foi criada tão submissa que depois que ela conseguiu a liberdade dela, ela não tem a necessidade de dar satisfação para qualquer homem que seja... então acho assim, na hora que eu vi esse texto eu fiquei sem palavras... eu tentaria ajudar essa aluna... que ela tivesse um estudo, que ela conseguisse... se for o sonho dela se formar, eu faria o possível... eu tentaria conversar o pai... é bem complicado uma pessoa com uma criação dessa, de não deixar a filha fazer faculdade. Eu tentaria no meu modo ajudar.
— Eu gostaria de pontuar que parece que há uma inversão da moral e da ética nessa terceira situação — disse Carlos, que continua — Nas duas primeiras, tínhamos morais muito fortes e muito seguidas socialmente, já na terceira situação, que foi sugerida pela Aurora, o mérito é todo dela, é uma moral enfraquecida. As morais podem sofrer esse tipo de enfraquecimento com o passar dos anos. Ainda bem. As leis que afirmam a igualdade entre as pessoas, por exemplo, ajudam a enfraquecer a moral por trás de discursos machistas em torno do posicionamento do pai da aluna da situação analisada. Isso mostra como a linearidade e a universalidade nem sempre se aplicam nas relações humanas. Apesar do fortalecimento de grupos reacionários nos últimos tempos, que buscam reacender morais enfraquecidas, tenho a esperança de que daqui alguns anos não ouviremos relatos de casos como esse. Mas é preciso trabalho para tal.
Flávio pede a palavra:
— Pra gente pensar levando em consideração as classes sociais... por exemplo, a questão do aborto... teve a revolução proletária na Rússia em 1917... depois tem um período de guerra civil... mas em 1920 foi legalizado o aborto... então a Rússia, então União Soviética, foi o primeiro país do mundo a legalizar o aborto sob qualquer circunstância. Era o interesse das mulheres proletárias, essa vontade pode se efetivar... por exemplo, quando começou o capitalismo, antigamente, nos primórdios, trabalhavam crianças, mulheres e homens nas fábricas, 16 horas por dia, sem segurança nenhuma, aí a gente poderia pensar assim “era a moral da época, eles não se importavam em trabalhar 16 horas”, quando na verdade não, se dependesse da vontade dos trabalhadores isso não aconteceria... isso vai sendo conquistado... a jornada de 8 horas, redução da jornada de trabalho, mais segurança... então assim, os trabalhadores vão se organizando, conquistando os direitos. No caso da Rússia, teve a revolução, as mulheres puderam colocar suas pautas, aí já não era mais só a pauta do homem branco, capitalista. Então assim, às vezes a gente relaciona muito a uma questão de época, quando na verdade dadas certas condições de desumanização, de exploração, de opressão, na verdade isso acaba acontecendo de uma forma desigual, porque um tem o poder para impor essas condições precárias e a outra classe ainda não tem condições de reagir, de mudar essa situação, mas não porque é uma moral dessa classe oprimida, é porque eles não têm condições de colocarem suas demandas e efetivarem o que eles gostariam que fosse. Nós oprimidos temos nossa moral e a burguesia tem a deles. A gente vive esse tempo com essa moral... a gente vive essa época dentro dessas determinações de classe, dessas relações de poder.
— Você foi cirúrgico, Flávio — disse Matheus, que finalizou. — Realmente não podemos considerar as morais como questões de época e simplesmente aceitá-las. É preciso de Ética e posicionamento crítico, senão caímos na armadilha perigosa da neutralidade, mesmo tratando-se de um olhar para a História. Pessoal, eu e Carlos gostaríamos de varar a noite discutindo Ética e moral com vocês, mas muitos de nós vamos acordar cedo amanhã. As políticas públicas de auxílio estudantil têm que melhorar muito para tal. Na próxima aula discutiremos racismo estrutural. Até mais.
PALAVRAS DE ENCERRAMENTO
Nossa intenção política com o presente artigo foi apresentar algumas possibilidades de discussões sobre Ética e moral junto a uma turma de licenciandas e licenciandos em Matemática e a um movimento de formação de professoras e professores impulsionado pela literatura, pela inventividade e pela problematização.
Durante a aula, os colaboradores da pesquisa apresentaram direta e indiretamente algumas concepções de ética e moral intimamente relacionadas com suas vidas e suas visões de mundo. Essas concepções, em particular as relacionadas à Ética, mostram nitidamente como tal conceito é aberto e está em constante construção.
Para além disso, era também nosso objetivo na produção de dados discutir como as moralidades estão presentes em nossas vidas e como somos “automaticamente” levados a obedecer sem refletir suas consequências para nós mesmos e aos outros, e também sem compreender se o que é moralmente correto é algo que nos satisfaz e está alinhado a nossos valores.
Somos perpassados por diversas moralidades, em alguns casos só conseguimos nos despir depois de muito tempo de autocuidado e, em muitos outros casos, nunca são percebidas, isso quer dizer que muitas vezes nossas decisões são motivadas por questões morais sem nem mesmo nos darmos conta disso. No entanto, muito diferente desse caso, há o sujeito moralista, que age dentro das moralidades para que tenha reconhecimento nos diversos ambientes que atua, tais como, trabalho, igreja, partido político, escola, clube etc. A intenção do moralista é limitar, restringir, podar quem é que seja para obter indivíduos medianos, sem criatividade, sem repertório, tristes e sem possibilidades de fazer brotar a diferença (TRINDADE, 2016). Vale lembrar da provocação feita por Foucault (1990, p. 25):
Em todo caso, a questão que quero colocar é a seguinte: como foi possível que nossa sociedade, a sociedade ocidental em geral, tenha concebido o poder de uma maneira tão restritiva, tão pobre, tão negativa? Por que concebemos sempre o poder como regra e proibição, por que esse privilégio? Evidentemente podemos dizer que isso se deve à influência de Kant, ideia segundo a qual, em última instância, a lei moral, o “ você não deve”, a oposição “deve/não deve”, é no fundo a matriz da regulação de toda a conduta humana.
Por outro lado, a Ética, enquanto campo da Filosofia e postura política, surge como ferramenta para questionar as moralidades e possibilitar uma vida que problematiza a si e o mundo, que visita lembranças e práticas passadas, que inventa outros caminhos, que busca disseminar vida ao invés da morte, que é acolhedora, que se preocupa efetivamente com o outro (DROIT, 2012), uma vida como obra de arte.
Durante a produção de dados, em particular na aula que inspirou a construção do conto acima, assistimos singelos movimentos de reflexão ética de si e sobre temas que atravessam muitos cotidianos escolares, que, quem sabe, podem inspirar as futuras professoras e os futuros professores que participaram da mesma e quem lê a inventarem aulas de Matemática outras, aulas que faíscam revolução.
Adentrando as palavras finais deste artigo, destacamos que o conto acima integrará uma tese que faz uso da literatura para discutir militância. Mas por que trabalhar com literatura ao invés de se apoiar em estéticas e escritas já estabelecidas? Porque demos vazão ao desejo, ao que nos movimenta, ao que nos afeta.
Trabalhar com literatura na Educação Matemática anuncia modos outros de produzir e divulgar pesquisas, bem como dialoga com o movimento pós-estruturalista, que por sua vez reforça a crítica à supervalorização do saber dito “científico”, a modelos que insistem em monopolizar os modos de se fazer pesquisa, a afirmação de “saberes oficiais”, ao reconhecimento por meio de uma dita objetividade e universalidade, pois, neste contexto, muitos conhecimentos são levados a categoria de marginais, não “oficializados” e alguns acabam desaparecendo, sendo extinguidos (RODRIGUES, 2017; GALLO, 2006).
A mobilização da literatura possibilita ao pesquisador experimentar e inventar e ser livre e criar mundos e “criar de si próprio um ser” (LISPECTOR, 1998, p. 45) e “andar na escuridão completa à procura de nós mesmos” (LISPECTOR, 1998, p. 45) e... Clarice Lispector nos ajuda a expressar o que queremos quanto mobilizamos a literatura em nossos trabalhos:
Mas bem sei o que quero aqui: quero o inconcluso. Quero a profunda desordem orgânica que, no entanto, dá a pressentir uma ordem subjacente. A grande potência da potencialidade. Estas minhas frases balbuciadas são feitas na hora mesma em que estão sendo escritas e crepitam de tão novas e ainda verdes. Elas são o já. Quero a experiência de uma falta de construção. Embora este meu texto seja todo atravessado de ponta a ponta por um frágil fio condutor — qual? o do mergulho na matéria da palavra? o da paixão? Fio luxurioso, sopro que aquece o decorrer das sílabas. A vida mal e mal me escapa embora me venha a certeza de que a vida é outra e tem um estilo oculto. (LISPECTOR, 1998, p. 27)
Discutir temáticas sociais como Ética, por exemplo, com estudantes da graduação foi uma de nossas práticas de militância (RISSO; RODRIGUES, 2020) até o momento, mas as possibilidades de considerar o aspecto político em nossas ações diárias são muitas. E a literatura pode contribuir para tal. E quanto a você, caro(a) leitor(a), como tens se relacionado com a literatura? E com a Ética? Que mundos tens criado?
Agradecimentos
Agradecemos grandemente aos estudantes que participaram da pesquisa.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
REFERÊNCIAS
CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia, vol. 1. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
DROIT, Roger-Pol. Ética: uma primeira conversa. Tradução de Anália Correia Rios. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
FOUCAULT, Michel. Las redes del poder. In: FERRER, Christian (Comp.). El Lenguage Libertário (vol. 1). Montevideo: Editorial Nordan-Comunidad, 1990.
GALLO, Sílvio. Modernidade/pós-modernidade: tensões e repercussões na produção de conhecimento em educação. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 32, n. 3, p. 551-565, Dec. 2006. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/ep/a/MvmtfSMScW6MmJxZsqsPrzy/?lang=pt>;. Acesso em: 23 mar. 2022.
LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
RISSO, João Paulo; RODRIGUES, Thiago Donda. Desterritorializando a aula de Matemática: o que pode um professor militante no âmbito de uma educação matemática menor? Boletim Online de Educação Matemática, v. 8, p. 216-231, 2020. Disponível em: < https://doi.org/10.5965/2357724X08172020216 >. Acesso em: 23 mar. 2022.
RODRIGUES, Thiago Donda. Etnomatemática e Filosofia da Diferença: Possíveis Diálogos. Journal of Mathematics and Culture, v. 11, n. 01, p. 01-12. 2017. Disponível em: <journalofmathematicsandculture.files.wordpress.com/2017/09/volum e11_number1_article-1.pdf >. Acesso em: 23 mar. 2022.
SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? São Paulo: Editora Ática, 2004.
TRINDADE, Rafael. Ética e Moral. Razão Inadequada, 2016. Disponível em < https://razaoinadequada.com/2016/04/20/etica-e-moral/#:~:text=A%20%C3%89tica%20depende%20dessa%20sutilezase%20criam%20em%20cada%20encontro.>. Acesso em: 23 mar. 2022
Notas
Ligação alternative
https://www.revistasbemsp.com.br/index.php/REMat-SP/article/view/18 (pdf)

