Entrevistas
Entrevista com Mãe Meninazinha de Oxum
Recepção: 20 Novembro 2020
Aprovação: 02 Fevereiro 2021

A primeira entrevista desta edição número 4 da Revista Fim do Mundo é com Maria do Nascimento, conhecida como Mãe Meninazinha de Oxum. Nascida em 1937, possui uma longa trajetória de lutas que se expressam em um papel social relevante no Estado do Rio de Janeiro. Sua história, forjada na luta contra racismo e a intolerância religiosa, em favor da democracia e dos direitos humanos, instiga o descortinamento de um processo histórico determinante para a construção do Brasil.
Mãe Meninazinha é também conselheira da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro), que valoriza e potencializa o saber dos terreiros em relação à saúde, e protagonizou a Campanha “Liberte o Nosso Sagrado”, que teve como objetivo resgatar os objetos sagrados de religiões de matriz africana ‘apropriados’ pela Polícia do Estado. Isto porque, mesmo com o “fim da escravidão” as religiões de matriz africana passaram por mais de um século de perseguição, sequestro e destruição de objetos sagrados. Da Primeira República à Era Vargas (1889-1945), a criminalização dessas religiões estava vigente no Código Penal, determinando um processo de violência institucionalizada que se perpetua até hoje na forma de perseguição extraoficial de grupos armados.
As peças apreendidas entre 1889 e 1945 foram armazenadas como prova de delito e nomeadas pejorativamente de “Coleção Magia Negra”. Mas em Setembro de 2020, a campanha “Liberte o Nosso Sagrado” teve sucesso e finalmente as inúmeras peças foram retiradas do antigo prédio Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) – órgão de repressão do Estado Novo e da Ditadura Militar – e levadas ao Museu da República, renomeadas como Acervo Sagrado Afro-Brasileiro. Essa vitória, segundo Meninazinha de Oxum, faz reexistir uma parte de nossa história, e como expôs Luiz Antônio Simas no documentário “Liberte Nosso Sagrado”, esse resgate, essa responsabilidade histórica, nos possibilita: conhecer mais nossa história, quem somos como cultura, assim como os saberes, formas de elaboração da vida, maneiras de ver o mundo, experiências esteticamente sofisticadas; acessar um legado crucial não só para o Brasil, para comunidade, mas para a humanidade.
Em 1968, Mãe Meninazinha de Oxum inaugurou a Sociedade Civil e Religiosa do Ilê Omolu Oxum na Marambaia, em Nova Iguaçu (baixada fluminense), e, em 1972, a comunidade-terreiro foi transferida para o bairro de São Matheus, em São João do Meriti. Sua casa desenvolve um papel social importante na comunidade e contribui para registros documentais e um acervo que possibilita o acesso ao legado da cultura afro-brasileira. Ao longo dos anos a casa desenvolveu inúmeros projetos em prol do desenvolvimento social, cultural, econômico e político da região. Projetos tais como: criação de um consultório médico; atendimento jurídico e psicológico; exibição de filmes e debates sobre relações raciais e de gênero, culturas afro-brasileiras, religião, meio-ambiente e outros; curso de yorubá; oficinas de arte; distribuição de cestas básicas, entre outros. Além disso, em 1997, criaram um núcleo de pesquisa e documentação sobre sociedade e cultura afro-brasileiras — Museu Memorial Iyá Davina - o primeiro centro de preservação de memória em São João do Meriti, com o propósito de preservar e reconstruir a memória histórica das religiões afro-brasileiras, ou seja, de uma parte da história da cultura e formação da sociedade brasileira.
O Ilê Omolu Oxum é uma continuidade da Casa Grande de Mesquita[3], que foi uma das primeiras comunidades de terreiro de candomblé do Rio de Janeiro no final do século XIX. Funcionou, primeiramente, no bairro da Saúde, na região conhecida como Pequena África – nomeada por Heitor dos Prazeres - no Rio de Janeiro. No período das grandes reformas naquela região, da construção de uma cidade nova - como projeto de construção da Avenida Presidente Vargas – muitas famílias foram expropriadas e o candomblé foi cada vez mais empurrado para o subúrbio. Assim a Casa Grande de Mesquita foi transferida inicialmente para o bairro Bento Ribeiro e posteriormente para Mesquita, tornando-se a primeira comunidade de terreiro de candomblé na Baixada Fluminense, em 1937.
A Casa Grande de Mesquita tem relevância histórica, pois, também representava os vínculos entre lideres religiosos, famílias baianas e famílias tradicionais cariocas (que muitas vezes frequentavam a casa de forma sigilosa[4] (Error 1: La referencia debe estar ligada) (Error 2: El tipo de referencia es un elemento obligatorio) (Error 3: No existe una URL relacionada)) no início do século passado, fator determinante para a criação do samba. Nesse período, com João Alabá, pai de Santo, e com o terreiro localizado na Pequena África, as tias baianas - em sua maioria Iyalorixás do candomblé que deixaram a Bahia no final do século XIX e início do XX, muitas vezes perseguidas, e assim, também levaram o samba de roda ao Rio de Janeiro – tiveram funções relevantes na Casa, entre elas estão: Tia Ciata[5], Tia Amélia (mãe de Donga), Tia Preciliana (mãe de João da Bahiana), Iyá Davina e outras.
Iyá Davina, avó de Mãe Meninazinha de Oxum, teve um papel político e social relevante em seu período. Filha de Santo de Pai Procópio[6] de Salvador, chega ao Rio de Janeiro no inicio da década de 1920, se liga ao terreiro de João Alabá e fixa residencia também no Bairro da Saúde, onde ela ajudava muitos conterrâneos que chegavam na cidade com hospedagem provisória e obtenção de emprego. Sua casa ficou conhecida como Consulado Baiano. Iyá Davina foi a última iyalorixá da Casa Grande de Mesquita e após seu falecimento, sua neta, Meninazinha de Oxum, deu prosseguimento a seu legado com o Ilê Omolu Oxum, em 1967.
Esta é uma versão brevíssima da história de Mãe Meninazinha de Oxum, que para nós é uma memória viva. Por fim, dificilmente conseguiríamos descrever o quão gratificante e instrutiva foi a conversa com Mãe Meninazinha de Oxum, e, entre tantas qualidades, vale destacar a sua imensa simpatia, humildade, sabedoria, simplicidade, sofisticação e carinho conosco desde o primeiro contato ao telefone até a visita que fizemos para tirar a fotografia. Com isto, de todo aprendizado, conversa, que tivemos, segue a parte que foi a entrevista.
Nós enfrentamos essas perseguições e essas dificuldades sempre! Desde os tempos de criança eu já observava como era com minha avó e minhas tias. Lá onde eu me fiz Santo nunca teve invasão policial, mas sim, sempre teve preconceito, o preconceito vem de muito tempo. Minha avó, minhas tias, o povo daquela época enfrentaram muita dificuldade e comigo não foi diferente. Quando abri a Casa em Marambaia, em Nova Iguaçu, também não foi diferente, nós tivemos sim alguns problemas, era um lugarzinho pequeno, tinha poucos vizinhos, mas um ou dois se incomodavam, outros não, outros eram amigos. Com certeza incomodou duas ou três famílias, o candomblé sempre incomodou algumas pessoas, mas depois ficou tudo bem, graças a Deus chegamos até aqui [em São João do Meriti]. Aqui também não foi diferente, quando nós viemos para cá também enfrentamos uma situação difícil, quando eu cheguei com o Candomblé teve quem dissesse: “ah! mas não vai ficar mesmo!”, e eu disse: Meu Deus! Eu não vim aqui pra competir com ninguém, vim aqui pra abrir uma casa de Orixá, pra cultuar aos Orixás, cumprir minha missão, a missão que os Orixás me deram, então como “não vai ficar”? Mas depois, graças a Deus, essa coisa negativa passou, nós ficamos e aqueles que se incomodaram entenderam o motivo da minha chegada aqui e hoje eu sou muito respeitada por todos, pelos meus vizinhos todos, sempre amigos. E isso é muito bom, graças a Deus e aos Deuses, né?!
Não, a minha avó quem morou na Saúde, era uma casa muito grande. As pessoas que vinham de Salvador para o Rio e tinham dificuldades para encontrar uma casa iam direto pra casa dela, e a casa ficou conhecida pelo nome de Consulado baiano, porque a grande maioria dos baianos que vinham procurava-a, ela acolhia e dali as pessoas já saiam com seu emprego. Ela acolheu muita gente nesse consulado baiano. Eu não, sou carioca nascida no bairro de Ramos, depois a primeira casa que eu abri foi numa localidade chamada Marambaia em Nova Iguaçu, para o lado de Tinguá, ali fiquei 5 anos, mas depois os Orixás disseram que não era mais para dar prosseguimento lá, aliás quando eu fui pra lá já sabia que não ficaria por muito tempo, aí nós viemos para São João, São Mateus, compramos um terreno, nos instalamos aqui e graças a Deus está tudo muito bem.
Nossa força e resistência vêm dos nossos Orixás, dos nossos ancestrais. Nós mesmos somos muito resistentes, e quando de fato entramos numa briga não é para perder. Nós estamos aqui resistindo esses anos todos graças a nossa fé. Nossa religião tão sofrida, tão combatida até pouco tempo atrás, hoje já é reconhecida, tanto, que nós estamos aqui conversando sobre isso. Nossa religião chegou à mídia, à sua revista, à televisão, a programas de televisão. Então graças a nossa fé, nós conseguimos resistir.
Eu acho que hoje somos menos perseguidos, mas a perseguição ainda não acabou. Há pouco tempo em Nova Iguaçu, com uns irmãos nossos - porque não importa a vertente de matriz africana, para mim somos todos da mesma religião, portanto, somos irmãos -, um grupo de fanáticos adentraram o terreiro, agrediram a Ialorixá e os Filhos de Santo que estavam na casa, quebraram tudo, destruíram tudo. E, a gente não vê, não sei se o poder público, tomar providências com relação a isso. Nós temos direito de culto, nós temos direito de professar a nossa religião, então tem que ter algum órgão que faça parar com isso. O povo tem que respeitar o outro, porque o Candomblé respeita todas as outras religiões e nem todas as religiões respeitam o Candomblé. Dizem que a gente cultua demônio e outras coisas, e não é nada disso. Demônio não entra no Candomblé, no Candomblé não tem demônio, se existe demônio é de outro segmento, não do nosso. Nós cultuamos os nossos Orixás que são elementos da natureza, como por exemplo, Mãe Oxum, que é água. Me explique como que a Natureza tem demônio? A gente não conhece esse elemento, nós não cultuamos o que não conhecemos, isso é de outro segmento com certeza. As pessoas precisam se conscientizar disso e respeitar, não tem que tolerar, tem que respeitar.
A África está muito presente no Brasil, o candomblé vem da África, e a nossa prática dá seguimento a essa origem. O Candomblé está muito dentro de mim, e eu muito dentro do Candomblé. Eu amo ser de Candomblé, eu amo os Orixás, eu amo muito, porque eu fui nascida e criada dentro de Candomblé, minha avó era de Candomblé, minha mãe era de Candomblé, meus irmãos e irmãs, todo mundo de Candomblé. Nasci e me criei dentro do Candomblé, nasci no dia 18 de agosto de 1937, tenho 83 anos. Fiz Santo, como sempre se falava antigamente, no dia 10 julho de 1960. Essa foi a minha trajetória, acompanhando a minha avó, acompanhando meu povo, aprendendo com a minha avó, aprendendo em Mesquita onde eu fiz Santo, aprendendo a cantar, aprendendo a dançar para o Orixá, a cozinhar para o Orixá, e isso me faz muito bem. O que aprendi com a minha avó e com as outras pessoas que frequentavam a sua Casa, e nesta as coisas funcionavam coletivamente. Como na religião tem várias pessoas, e a gente aprende com todos, desde criança que aprendo, mas eu não sei tudo também né, não sei tudo, ainda falta muita coisa pra aprender. Mas graças a Deus, eu sou uma pessoa feliz, como pessoa, como filha de Santo, como Ialorixá, como Mãe de Santo, com os meus filhos. E eu não digo filhos de Santo, porque eu não tenho filhos de Santo, eu tenho meus filhos que eu pari, todos saíram daqui [do coração] são todos meus filhos, foi o Santo que trouxe, foi Orixá que trouxe, mas são todos meus filhos, eu amo todos os meus filhos. Eu normalmente não demonstro, mas eu amo meus filhos, eu sou feliz. Como falamos a pouco “a felicidade é uma responsabilidade ancestral”.
Aqui não existe nada individualizado, as coisas acontecem em conjunto. É como diz o ditado, como diziam os antigos: uma andorinha não faz verão. Eu sozinha não saberia nada, não faria nada, eu preciso ter as pessoas, todos nós precisamos de pessoas pra nos ajudar. Sou Ialorixá sim, o que Omolu confiou a mim, mas tenho as minhas sobrinhas que me acompanham, os meus filhos todos que me acompanham, me ajudam. Tem coisas que eu não faço, se eu tiver uma dificuldade até por uma dorzinha nas costas, na coluna eu recorro a um filho a uma filha. Então, não tem porque ser única, tem que ter várias pessoas pra funcionar, é o coletivo.
[Risos] No Candomblé tem o Pai de Santo, como minha avó teve, meu pai Procópio, mas o Candomblé é matriarcal, não é patriarcal. Tem muitas mulheres na casa de candomblé, e suas funções são fundamentais. Nos terreiros de Candomblé, claro que precisamos dos homens, temos os ogãs, aqueles que tocam atabaque para nós dançarmos, eles nos ajudam no culto, no ritual, mas Candomblé é matriarcal! Tenho e tive amigos Pais de Santo maravilhosos, tanto como Pai de Santo, como religiosos, como amigos, mas a gente sabe que é fundamental o papel da mulher.
É através dos mais velhos para os mais novos, e como se fosse um aprendizado coletivo. A transmissão de saberes vem da Ialorixá, ou seja, vem dos mais velhos. De vez em quando eu sento e começo a conversar com os meus filhos transmitindo, ensinando, e é dessa forma, através da transmissão oral que se aprende e conhece um pouco da religião, do nosso sagrado. Não é pela internet, porque não foi assim comigo, nem no tempo da minha avó, eu aprendi com ela, e continuo aprendendo, pois enquanto eu viver continuarei a aprender e mesmo assim, morrerei sem saber tudo.
O terreiro é um lugar de acolhimento, o terreiro é um grande coração. Há pessoas que chegam com problemas que não necessariamente é para jogar ou para entrar para a religião, alguns chegam com problemas psicológicos ou alguma questão que estão passando em casa, algumas coisas negativas e a gente acolhe até mesmo com uma palavra. Muitas vezes a pessoa precisa apenas de uma palavra. É claro que nós podemos dar um banho de folhas para a pessoa se sentir mais tranquila, mas nós sentamos para conversar com ela, entendeu? O objetivo é tentar ajudar aquela pessoa, não é resolver o seu problema, é tentar ajudá-la, independente da religião.
A minha avó Iyá Davina. Aprendi muito com ela, não só com ela como também com minhas tias, na casa que eu me fiz Santo, onde tinha outras senhoras também, antigas, que sempre me ensinaram um pouquinho. Elas diziam: “venha cá, sente aqui”. E assim ensinavam alguma coisa. Dessa forma, eu ia sempre aprendendo. Agora eu não as tenho mais, mas estou sempre aprendendo com a vida, com as coisas que estão se passando. Nós sempre aprendemos um pouco, até dentro de casa mesmo com uma pessoa ou outra que chega, nós aprendemos.
O que nós aprendemos lá atrás é o que dá nosso caminho hoje no presente e no futuro. O que aprendi com a minha avó e com outros não foi só para aquele momento, foi importante no passado, continua sendo hoje e será futuramente. A memoria do sagrado, por exemplo, informa o presente, o passado e o futuro. E por isso, também, o esforço para resgatarmos parte do “Nosso Sagrado” e apresentá-los de forma didática para compreendermos o passado e fazer um futuro melhor.
O passado e o presente que nós estamos vivendo, o que estamos passando agora com essa pandemia, os Orixás já sabiam e nos avisaram de alguma forma. No inicio do ano, a gente costuma jogar para a casa e eles sempre mostram algo que vai acontecer e nos mostraram que o ano seria difícil (e continua sendo), e não mostraram só para mim, mas para outros pais de Santo, para o povo de Candomblé.
Nosso presente está relacionado ao passado e por isso, precisamos aprender sobre o passado, para entender o presente. E o futuro, infelizmente, teremos muitas perdas ainda. Mas sigo pedindo para os Orixás que nos livrem dessas perdas, que nos de caminho, saúde, que nos livre dessa situação que estamos vivendo.
Minha filha, eu não sei. Pois esse racismo religioso que nós estamos falando já vem de muito tempo e ainda estamos na luta. Melhorou? Melhorou muito, mas eu acho que o racismo como um todo é uma doença, eu acredito que seja uma doença, pois ninguém nasce racista, a pessoa ‘adquire’ com o tempo e aí se prejudica. Para nós graças a Deus está melhorando, mas ainda existe, e o quê nós temos que fazer é nos unir pra lutar contra esta doença mostrando ao povo o quê é o Candomblé, o quê é a Umbanda pra eles conhecerem. Tudo bem que para respeitar não precisa conhecer, mas justificam falando que acontece o preconceito porque não conhecem. Deveriam respeitar mesmo sem conhecer, mas não é assim que funciona, então nós apresentamos. Mas deixo claro que não precisa nos seguir, mas tem que nos respeitar sim. E só conseguiremos que esse racismo acabe através de muita união. Isso não cabe só às pessoas de religiões de matriz africana.
Sobre a liberação dos objetos religiosos, devo aos Orixàs, a Omulu, por eu lutar pelo sagrado, luta que durou trinta anos e finalmente tivemos essa vitória. Finalmente, o nosso sagrado foi devolvido a quem de direito, ao povo. Acho que minha missão aqui foi esta. Uma luta que não foi só minha, mas sim nossa. Foi uma conquista de todos nós! Novamente, “uma andorinha não faz verão”. Eu sozinha não conseguiria de jeito nenhum.
Toda a campanha “Liberte o nosso sagrado”, todas as pessoas que participaram, foi primordial nesse projeto, por isso e por outros que eu digo que sou feliz. Está vendo, porque eu digo que sou feliz? A vitória não é minha, é uma vitória das religiões. De todas as religiões que foram agredidas, todas que foram desacreditadas, com todo o sofrimento do passado e que tem até hoje. Então nós todos juntos lutamos para que esse passado vergonhoso fique só no passado.
Minha avó dizia, adoro repetir o que ela falava, “Nossas coisas que estão nas mãos da polícia”, e foi com base nessas palavras que eu entrei nessa briga. Eu disse “vamos conseguir” e “conseguimos”. Todos nós brasileiros, aqueles do candomblé, os da umbanda, os evangélicos, os católicos, ateus... todos ganharam a possibilidade de conhecer e reconhecer parte de nossa história. A vitória é das religiões de matriz africana, mas também é nossa, porque isso faz parte da história do Brasil.
Passado muito triste e massacrante. Muita gente presa, muitas Ialorixás, Babalorixás foram presos, muitos apanharam, foram agredidos fisicamente, agredidos na sua fé. Pois a partir do momento que pegaram todo o sagrado para levar à polícia, eles foram agredidos na fé.
Mas hoje estamos sendo reconhecidos, haja vista estamos aqui conversando sobre esse assunto. Agradeço muito, a Deus, aos Orixás, a minha avó, ao omolu, por terem me dado esse direito de estar aqui, lutando, brigando se tiver que brigar, por eles e para revitalizar e mostrar a riqueza da nossa cultura. Estamos juntos nessa luta. E temos muita luta pela frente.
Eu acredito que só através da união conseguimos mudar as coisas e precisamos nos unir. O candomblé nos ensina união, é uma religião, mas também é uma cultura. Aconselho que as pessoas estudem mais nossa cultura, que venham conhecer, aprender com responsabilidade e respeito acima de tudo, para assim conversar com base sobre a religião e sobre a cultura do candomblé como realmente é. Que as pessoas respeitem como religião e aprendam como cultura.
O candomblé só ajuda a gente se conectar com a natureza, porque o Candomblé é Natureza, os nossos Orixás são os elementos da natureza. Se acabamos com a natureza, acabamos com os Orixás. Como por exemplo, as matas devastadas e queimadas, as emissões de gases do efeito estufa, tudo isso está agredindo a natureza e nos afeta também. A gente entende a gravidade dessa agressão com o meio ambiente, pois lidamos diretamente com a natureza, porque lidamos diretamente com os Orixás. |FiM|
Rio de Janeiro, novembro de 2020
Doutoranda em Economia pela Universidade Federal Fluminense - UFF, Mestre em Economia pela UNESP. Diretora Regional da ECOECO – núcleo Sudeste, pesquisadora do IBEC, do Núcleo de Estudos em Economia e Sociedade Brasileira (NEB) e do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento – FINDE.

