

Reseñas
Resenha: Por terra e território: caminhos da revolução dos povos do Brasil
Párrafos Geográficos
Universidad Nacional de la Patagonia San Juan Bosco, Argentina
ISSN: 1853-9424
ISSN-e: 1666-5783
Periodicidade: Semestral
vol. 2, núm. 22, 2023
Recepção: 15 Junho 2023
Aprovação: 20 Setembro 2023
Breve apresentação-reflexão do livro com ênfase na questão de o(u)tras economias por Autor
O sistema econômico que queremos superar ainda existe. A boa tradição da reflexão econômica diz que a nova forma de produzir e viver nasce da velha quando esta ainda pulsa. Ou seja, o que estamos propondo aqui não deve esperar o fim do capitalismo para ser iniciado. Comecemos, desde já, nossa jornada de luta contra o capitalismo. Mais do que isso, a gestação da nova sociedade conviverá com a anterior em conflito, em luta. E isso significa ler bem nossos povos e sua relação com esse sistema em vigor. Por isto, não podemos virar as costas para o trabalho e a geração de renda em nossas comunidades, dentro de nossas famílias e, sobretudo, para nossa juventude, eternamente assediada pelo consumismo do capital. Sem gerar renda, não teremos recursos para financiar nossas lutas, mas também as famílias que buscam renda vão migrar para outros espaços produtivos, ainda que não possuam soberania alimentar, pela ilusão do consumo (p. 69-70).
O parágrafo acima dialoga diretamente com a proposta temática do presente dossiê da revista Párrafos Geográficos e inicia o capítulo “Caminhar para o Trabalho e a Renda” do livro “Por terra e território: caminhos da revolução dos povos do Brasil” de Mestre Joelson Ferreira e Erahsto Felício. Não trata-se de um livro explícito ou sobretudo de outras economias, porém mostra a importância que as o(u)tras economias têm em qualquer programa de transformação radical da sociedade, neste caso um programa de formulação popular, desde abaixo, e a partir dos povos em suas lutas.
A Teia dos Povos, uma articulação de povos e territórios que surge no Brasil mais de uma década atrás nos estados do Maranhão e da Bahia. Nos últimos anos essa Teia vem se tecendo em cada vez mais estados como Roraima, Pernambuco, Ceará, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, tendo em Mestre Joelson, um dos autores do livro, uma de suas grandes lideranças e fontes de inspiração. E no livro “Por terra e território”, Mestre Joelson junto a Erahsto Felício, desenha uma proposta da construção de uma aliança indígena, preta e popular. O que caracteriza a proposta é sua proximidade com práticas concretas dos povos em seus territórios, onde o local e o agora estão diretamente conectados com, e integram, o extra-local e o médio e longo prazo de uma grande jornada que se direciona “contra o racismo, o capitalismo e o patriarcado” (p. 30). A integração de escalas espaço-temporais se dá através de uma diferenciação entre a jornada em si, caminhadas e passos: “O que chamamos de jornada é o devir mais amplo, o grande projeto, o objetivo mais amplo. As caminhadas são as etapas necessárias para percorrer essa jornada. Há ainda os passos, que são as tarefas necessárias para lograr êxito em cada caminhada” (p. 30, grifos no original).
“(…) os princípios desta nossa Jornada são terra e território.” Nisso, os autores consideram água, sementes e soberania alimentar fundamentais para construir a autonomia. Estabelecido esse ponto de partida, o livro tem seu foco na apresentação dos caminhares que compõem a grande jornada. Interessante aqui um jogo entre conceitos, onde a soberania é desvinculada de seu significado original que a atrela ao Estado-Nação (na tríade clássica “Estado soberano – território (nacional) – sociedade/povo”) e com isso é liberta de sua herança moderno-colonial. Os caminhares aqui se constroem para conquistar soberanias no plural, soberanias essas pelas quais se luta nos territórios também no plural, ambos desvinculados da figura do Estado. O território e a possibilidade de ter soberania sobre o mesmo assim é devolvida aos povos completando a pluralização daquilo que a colonização cimentou em singulares repressores: A tríade “Estado soberano – território – povo” é transformada em “soberanias – territórios – povos”.
Os caminhares apresentados e discutidos, de forma breve e compreensível, com base em e visando a prática vivida e práticas vivenciadas, em seguida são os “Caminhares para…”: … a soberania hídrica/ … a soberania alimentar/ … o Trabalho e a Renda / … a Soberania Pedagógica / … a Soberania Energética / … a Autodefesa”. Completa-se o instigante livro com discussões da política dos cuidados, da luta das mulheres, da construção da aliança preta, indígena e popular, uma luta também contra o imperialismo e o papel fundamental que nessas lutas têm a ancestralidade e espiritualidade dos povos.
O “Caminhar para o Trabalho e a Renda”, como destaquei inicialmente, nisso faz jus à importância das o(u)tras economias para a luta por um mundo com futuro. Joelson e Erahsto destacam nisso a importância do trabalho:
“É o trabalho que gera riqueza a homens e mulheres. Não é a terra por si. A ideia de que deter a posse da terra gera riqueza é uma alienação perversa que visa impedir nossos povos de desenvolverem sua produção ao ponto de competir com os capitalistas de nossas regiões. E não estamos dizendo que a terra não possui suas próprias riquezas, porém retirá-las e não tratar de trabalhar a terra é um assalto ao bioma. Para que a riqueza tenha sustentabilidade, é preciso poder cultivá-la sempre e com respeito ao ritmo e às necessidades da terra” (p. 71).
O trabalho porém é outro trabalho, não aquele explorado(r), que objetiva as relações com outros seres, com natureza e suas riquezas:
“Nós queremos construir um mundo de festa, trabalho e pão. Para isso, não há dúvidas quanto à necessidade urgente de criticar a concepção de trabalho alienado que vivemos – essa que gera riqueza para outros e que, em muitos casos, nos adoece, nos afasta de nossa família, de nossos amores. Mais que uma crítica, é preciso forjar uma concepção outra de trabalho. Quando visitamos um terreiro de candomblé no momento em que estão se preparando para uma festa, ou quando participamos de uma farinhada tupinambá, percebemos que os povos conseguem fazer uma integração entre o trabalho coletivo, o universo simbólico-espiritual e a alegria de fazer parte daquele lugar. Em ambos os casos o trabalho não é pouco pesado, contudo o sorriso no rosto e a satisfação da companhia entre os seus é algo poderoso. Este é o horizonte: criar uma concepção de trabalho que abarque a educação, que promova a convivência, o ócio e outro tempo que não o do relógio industrial” (p. 71).
As o(u)tras economias nisso ganham abrangência e alcance ao conectarem diferentes territórios e o que neles é gerado pelo trabalho de quem neles vive como transformam-se em importante nexo entre territórios e também aqueles no livro considerados “sujeitos em luta, porém desterritorializados” (p. 23), mas que não por isso não podem se conectar com os territórios-rede de tecitura dessa Teia que transborda os limites impostos pelo capital às nossas vidas, apoiar territórios em luta e funcionar como elos da Teia):
... é fundamental que possamos construir uma economia interna aos territórios, de modo que os recursos obtidos fora da comunidade não sejam completamente absorvidos pelo sistema capitalista. Estamos falando de construir um fluxo autônomo de riqueza dentro dos e entre os territórios rebeldes (p. 73).
Aqui experiências ensinam que todas as etapas entre produção, processamento, transporte, venda e revenda dos frutos do trabalho precisam estar longe das mãos de proprietários-patrões-capitalistas no sentido em
que os mercados de nossas comunidades nos pertençam, que a logística responsável por escoar nossos produtos nos pertença, que os comércios nas cidades que vendem nossos produtos sejam de nossa articulação. Dessa forma, ampliaremos nossos postos de trabalho e manteremos, nas mãos de nossa gente, a renda gerada em cada etapa da cadeia produtiva (p.73).
É nessas linhas, destacadas aqui em relação a um dos diversos temas importantes do livro, o das o(u)tras economias, que “Por terra e território” apresenta-se como leitura indispensável para todes que continuem trabalhando, lutando, se organizando, refletindo e praticando sem deixar de sonhar com um mundo com futuro, futuro esse apenas imaginável se nele caibam muitos mundos.
Maré/Rio
de Janeiro, 30 de agosto de 2023
Agradecimentos
Agradeço a Camila Reis Tomaz pela revisão do texto.
Informação adicional
Datos bibliográficos de la obra reseñada:: Mais sobre o livro na página da Teia dos Povos: https://teiadospovos.org/por-terra-e-territorio-primeiras-palavras/

