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Escrita colaborativa e ensino: um mapeamento de publicações acadêmicas pós-BNCC e pós-pandemia
Revista de Estudos e Pesquisas sobre Ensino Tecnológico, vol. 10, e235424, 2024
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas

Artigos Científicos

Revista de Estudos e Pesquisas sobre Ensino Tecnológico
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Brasil
ISSN-e: 2446-774X
Periodicidade: Frecuencia continua
vol. 10, e235424, 2024

Recepção: 02 Fevereiro 2024

Aprovação: 12 Junho 2024

Publicado: 05 Julho 2024

Resumo: Seguindo o propósito de entender como a escrita colaborativa vem sendo compreendida e estudada no meio acadêmico nacional contemporâneo, este trabalho traz um excerto de um mapeamento de publicações sobre o tema nos portais da Capes, entre os anos de 2019 e 2023. O recorte temporal se definiu em função da publicação da BNCC e da instituição da pandemia de Covid-19, eventos significativos que impactaram as práticas de ensino e aprendizagem da língua portuguesa em contexto brasileiro. Por se tratar de uma metapesquisa de natureza bibliográfica, o percurso metodológico esteve centrado na definição de termos de busca e de critérios para a seleção de trabalhos representativos das categorias analíticas criadas. Em vista da diversidade de perspectivas teórico-metodológicas em que o tratamento da escrita colaborativa é ancorado, tanto nas produções investigadas quanto nos trabalhos anteriores com os quais dialogam, os dados foram categorizados em três grandes eixos temáticos. As análises aqui apresentadas incidem, pois, sobre artigos, dissertações e teses ilustrativos da abordagem acadêmica da escrita colaborativa em termos dos seguintes aspectos: processos de desenvolvimento, recursos para realização e aplicações práticas. Os resultados alcançados pelo mapeamento destacam tendências nas pesquisas sobre escrita colaborativa, voltadas sobretudo para a discussão desses aspectos e impulsionadas pelo uso de tecnologias digitais no ensino de língua portuguesa.

Palavras-chave: escrita colaborativa, produção de textos, BNCC, pandemia.

Abstract: In order to comprehend how collaborative writing has been understood and studied in the contemporary national academic environment, this paper provides an excerpt from a mapping on the subject in Capes portals between 2019 and 2023. The time span was defined due to the publication of the BNCC and the surge of the Covid-19 pandemic, significant events that impacted Portuguese language teaching and learning practices in Brazil. As this is a bibliographic meta-research, the methodological path was centered on defining search terms and criteria for selecting publications that were representative of the analytical categories created. In view of the diversity of theoretical-methodological perspectives in which the treatment of collaborative writing is anchored, both in the productions investigated and in the previous ones with which they dialogue, the data were categorized into three main thematic axes. The analyses presented here focus on articles, theses, and dissertations that illustrate the academic approaches to collaborative writing in terms of the following aspects: development processes, resources for implementation, and practical applications. The results obtained from the mapping highlight trends in research on collaborative writing, primarily focused on discussing these aspects and driven by the use of digital technologies in Portuguese language teaching.

Keywords: collaborative writing, text production, BNCC, pandemic.

Resumen: Siguiendo el propósito de entender cómo se ha comprendido y estudiado la escritura colaborativa en el medio académico nacional contemporáneo, este trabajo presenta un extracto de un mapeo de publicaciones sobre el tema en los portales de la Capes, entre los años 2019 y 2023. El recorte temporal se definió en función de la publicación de la BNCC y la institución de la pandemia de Covid-19, eventos significativos que impactaron las prácticas de enseñanza y aprendizaje del idioma portugués en el contexto brasileño. Al tratarse de una metainvestigación de naturaleza bibliográfica, el enfoque metodológico se centró en la definición de términos de búsqueda y criterios para la selección de trabajos representativos de las categorías analíticas creadas. Dada la diversidad de perspectivas teórico-metodológicas en las que se basa el tratamiento de la escritura colaborativa, tanto en las producciones investigadas como en los trabajos anteriores con los que dialogan, los datos se categorizaron en tres grandes ejes temáticos. Los análisis aquí presentados inciden, por lo tanto, en artículos y tesis de maestría y doctorado ilustrativas del enfoque académico de la escritura colaborativa en términos de los siguientes aspectos: procesos de desarrollo, recursos para realización y aplicaciones prácticas. Los resultados obtenidos del mapeo resaltan tendencias en la investigación sobre escritura colaborativa, centradas principalmente en discutir estos aspectos y impulsadas por el uso de tecnologías digitales en la enseñanza del idioma portugués.

Palabras clave: escritura colaborativa, producción textual, BNCC, pandemia.

Escrita colaborativa e ensino: um mapeamento de publicações acadêmicas pós-BNCC e pós-pandemia

Resumo

Seguindo o propósito de entender como a escrita colaborativa vem sendo compreendida e estudada no meio acadêmico nacional contemporâneo, este trabalho traz um excerto de um mapeamento de publicações sobre o tema nos portais da Capes, entre os anos de 2019 e 2023. O recorte temporal se definiu em função da publicação da BNCC e da instituição da pandemia de Covid-19, eventos significativos que impactaram as práticas de ensino e aprendizagem da língua portuguesa em contexto brasileiro. Por se tratar de uma metapesquisa de natureza bibliográfica, o percurso metodológico esteve centrado na definição de termos de busca e de critérios para a seleção de trabalhos representativos das categorias analíticas criadas. Em vista da diversidade de perspectivas teórico-metodológicas em que o tratamento da escrita colaborativa é ancorado, tanto nas produções investigadas quanto nos trabalhos anteriores com os quais dialogam, os dados foram categorizados em três grandes eixos temáticos. As análises aqui apresentadas incidem, pois, sobre artigos, dissertações e teses ilustrativos da abordagem acadêmica da escrita colaborativa em termos dos seguintes aspectos: processos de desenvolvimento, recursos para realização e aplicações práticas. Os resultados alcançados pelo mapeamento destacam tendências nas pesquisas sobre escrita colaborativa, voltadas sobretudo para a discussão desses aspectos e impulsionadas pelo uso de tecnologias digitais no ensino de língua portuguesa.

Palavras-chave: escrita colaborativa; produção de textos; BNCC; pandemia.

Collaborative writing and teaching: a mapping of academic publications post-BNCC and post-pandemic

Abstract

In order to comprehend how collaborative writing has been understood and studied in the contemporary national academic environment, this paper provides an excerpt from a mapping on the subject in Capes portals between 2019 and 2023. The time span was defined due to the publication of the BNCC and the surge of the Covid-19 pandemic, significant events that impacted Portuguese language teaching and learning practices in Brazil. As this is a bibliographic meta-research, the methodological path was centered on defining search terms and criteria for selecting publications that were representative of the analytical categories created. In view of the diversity of theoretical-methodological perspectives in which the treatment of collaborative writing is anchored, both in the productions investigated and in the previous ones with which they dialogue, the data were categorized into three main thematic axes. The analyses presented here focus on articles, theses, and dissertations that illustrate the academic approaches to collaborative writing in terms of the following aspects: development processes, resources for implementation, and practical applications. The results obtained from the mapping highlight trends in research on collaborative writing, primarily focused on discussing these aspects and driven by the use of digital technologies in Portuguese language teaching.

Keywords: collaborative writing; text production; BNCC; pandemic.

Escritura colaborativa y enseñanza: un mapeo de publicaciones académicas post-BNCC y post-pandemia

Resumen

Siguiendo el propósito de entender cómo se ha comprendido y estudiado la escritura colaborativa en el medio académico nacional contemporáneo, este trabajo presenta un extracto de un mapeo de publicaciones sobre el tema en los portales de la Capes, entre los años 2019 y 2023. El recorte temporal se definió en función de la publicación de la BNCC y la institución de la pandemia de Covid-19, eventos significativos que impactaron las prácticas de enseñanza y aprendizaje del idioma portugués en el contexto brasileño. Al tratarse de una metainvestigación de naturaleza bibliográfica, el enfoque metodológico se centró en la definición de términos de búsqueda y criterios para la selección de trabajos representativos de las categorías analíticas creadas. Dada la diversidad de perspectivas teórico-metodológicas en las que se basa el tratamiento de la escritura colaborativa, tanto en las producciones investigadas como en los trabajos anteriores con los que dialogan, los datos se categorizaron en tres grandes ejes temáticos. Los análisis aquí presentados inciden, por lo tanto, en artículos y tesis de maestría y doctorado ilustrativas del enfoque académico de la escritura colaborativa en términos de los siguientes aspectos: procesos de desarrollo, recursos para realización y aplicaciones prácticas. Los resultados obtenidos del mapeo resaltan tendencias en la investigación sobre escritura colaborativa, centradas principalmente en discutir estos aspectos y impulsadas por el uso de tecnologías digitales en la enseñanza del idioma portugués.

Palabras clave: escritura colaborativa; producción textual; BNCC; pandemia.

Introdução

O trabalho colaborativo desempenha um papel crucial na sobrevivência e evolução da espécie humana ao longo da história, promovendo solidariedade e compartilhamento. A cooperação em atividades, como caça e proteção, fortaleceu laços sociais, enquanto a agricultura exigiu esforços conjuntos para produção de alimentos. A especialização levou à divisão do trabalho, impulsionando sociedades mais interdependentes no comércio, ciência e inovação. Na contemporaneidade, a colaboração global, facilitada pela conectividade digital, tornou-se crucial para enfrentar desafios como mudanças climáticas e pandemias, como a de Covid-19.

No âmbito corporativo, há reconhecimento de que dinâmicas colaborativas oferecem benefícios significativos para as organizações, impulsionando desenvolvimento contínuo, por promoverem habilidades consideradas fundamentais para o sucesso profissional em ambientes cada vez mais interconectados (Colen; Petelin, 2004). No contexto educacional, influenciada por mudanças na compreensão do processo de aprendizagem e pelo surgimento de teorias pedagógicas, como o construtivismo piagetiano e o socioconstrutivismo vigotskyano, a escola vem transitando para um modelo mais centrado no protagonismo do aluno, envolvido cada vez mais em experiências práticas e interativas, incluindo atividades colaborativas (Moran, 2018).

Ademais, o reconhecimento da importância das habilidades demandadas pelo século XXI, como pensamento crítico, criatividade e comunicação, levou à visão do trabalho em grupo como uma maneira eficaz de desenvolvê-las (Lankshear; Knobel, 2007). A partir disso, o avanço da tecnologia digital facilitou a colaboração entre alunos, mesmo fora do ambiente físico da sala de aula, com ferramentas on-line e plataformas de edição textual conjunta que ampliaram oportunidades de trabalho em grupo, de modo ativo e flexível.

É nessa conjuntura que emerge a chamada “escrita colaborativa”, modalidade comunicativa que despertou maior interesse nos últimos anos, especialmente por pesquisadores do campo educacional. Entender como essa forma de comunicação tem sido concebida e investigada academicamente foi a ação de maior amplitude desenvolvida sob o escopo do projeto de pesquisa no qual este artigo tem origem[1].

A investigação inicial do projeto pretendia verificar como esse fenômeno vinha sendo compreendido e estudado no meio acadêmico nacional, especialmente a partir de 2004 (data da publicação da taxonomia sobre escrita colaborativa proposta por Lowry, Curtis e Lowry), abrangendo as publicações divulgadas até 2018, ano anterior ao início do estudo (Ruiz et al., no prelo). Porém, a identificação de novos eventos geradores de publicações – a homologação da versão final da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a pandemia instaurada pela disseminação do SARS-CoV-2 – motivou a continuidade da pesquisa, incluindo o período entre 2019 e 2023.

A justificativa para esse novo recorte temporal reside no fato de que compreender como a BNCC (Brasil, 2018) e a pandemia afetaram a produção científica sobre escrita colaborativa, objeto de estudo do grupo, é primordial para que possamos discutir o alcance do documento legal na prática docente e as transformações no âmbito da educação linguística decorrentes do momento histórico vivido. Afinal, o documento orienta a formação para o uso de “ferramentas de escrita colaborativa” (Brasil, 2018, p. 187), e a pandemia, evento de ordem global declarado em 2020, levou à instauração do ensino remoto emergencial (ERE), com a intensificação das práticas de ensino mediadas por tecnologias digitais. Daí surgiu o questionamento: como esse fato tem sido investigado academicamente? Este artigo apresenta, pois, os resultados da fase mais recente da pesquisa de mapeamento de publicações sobre escrita colaborativa realizada no contexto do referido projeto, considerando, inicialmente, as articulações teóricas apresentadas na sequência.

Pesquisas sobre escrita colaborativa: articulações teóricas

O tema da “escrita colaborativa” (EC) espraia-se em abordagens teóricas conduzidas sob múltiplas perspectivas, dada, sobretudo, a possibilidade de ancoragem dos estudos em diferentes aspectos dessa prática de linguagem, tais como os modos como é desenvolvida, os recursos pelos quais é realizada e as situações em que se manifesta. Diante disso, esta seção explora o diálogo entre pressupostos teóricos que versam sobre tais aspectos, considerados basilares para a categorização das publicações[2], a saber: (i) os processos da EC; (ii) as tecnologias para a EC; e (iii) os contextos e aplicações da EC.

Processos de escrita colaborativa

Assumindo como ponto de partida a taxonomia proposta por Lowry, Curtis e Lowry (2004), a EC é aqui entendida como “[...] um processo interativo e social que envolve uma equipe focada em um mesmo objetivo e a qual negocia, coordena e se comunica durante a criação de um documento comum” (Lowry; Curtis; Lowry, 2004, p. 73-74, tradução nossa). Esse processo, anteriormente considerado um simples ato de composição, engloba uma série de atividades pré e pós-tarefa. Tais atividades compreendem estratégias de escrita, formas de controle de documentos, definição de papéis e modos de atuação dos participantes.

Lowry, Curtis e Lowry (2004) identificam quatro estratégias principais de EC: (i) escrita de autor único (um integrante escreve sozinho); (ii) escrita sequencial única (todos escrevem, um após o outro); (iii) escrita paralela (todos escrevem ao mesmo tempo); (iv) e escrita reativa (todos escrevem, intervindo na escrita uns dos outros). A seleção entre essas estratégias é determinada por variáveis como tamanho do grupo, disponibilidade de tempo, complexidade da tarefa, ferramentas disponíveis e competências dos membros. Porém, na análise dos autores, a diversidade estratégica também pode gerar resultados diferenciados, alguns dos quais podem, por um lado, colaborar para a efetividade da tarefa (consistência estilística, facilidade de organização, melhor aproveitamento de capacidades individuais e promoção de consenso, por exemplo) e, por outro, comprometer o desempenho da equipe (tais como enviesamento da produção pelas concepções de um só integrante, excesso ou redundância de informações e ausência de unidade redacional).

As atividades inerentes à EC se estendem por três fases distintas, de acordo com Lowry, Curtis e Lowry (2004): pré-escrita, execução da tarefa e pós-escrita. Essas fases incluem planejamento, seleção de ferramentas, definição de objetivos, elaboração de rascunhos, revisão, edição e avaliação final do documento. Atividades transversais, como socialização, pesquisa, comunicação, negociação e coordenação, desempenham papéis de suporte, fundamentais para o desenvolvimento eficaz do processo de EC.

Os autores também abordam o controle dos documentos na EC, destacando quatro modelos, que definem como as responsabilidades são distribuídas entre os participantes: (i) centralizado (um integrante gerencia todo o processo); (ii) de retransmissão (o gerenciamento passa de um integrante para outro); (iii) independente (cada integrante gerencia sua parte); e (iv) compartilhado (todos moderam o processo). Essa distribuição é crucial para o gerenciamento eficiente do projeto e para garantir que todos os membros contribuam de acordo com suas habilidades e responsabilidades.

Além disso, os papéis dentro da EC são diversificados, incluindo líder, facilitador, consultor, escritor, revisor e editor, cada um com suas responsabilidades específicas. A alocação adequada desses papéis é vital para otimizar os resultados do projeto, assegurando que cada participante possa contribuir efetivamente com suas competências. Portanto, a escolha adequada das estratégias de EC, juntamente com a clara definição de atividades, controle documental e distribuição de papéis, emerge como um fator decisivo para o sucesso de projetos colaborativos, promovendo não apenas a eficiência, mas também a coesão do grupo no alcance dos objetivos.

Lowry, Curtis e Lowry (2004) destacam que os modos de atuação na EC são definidos pela proximidade física dos participantes e pela sincronicidade de suas escritas, podendo estes estar juntos ou separados, e escrever simultaneamente ou em momentos distintos. Essas dinâmicas influenciam significativamente a “consciência de grupo”, crucial para o êxito da EC. A efetividade desses processos, a nosso ver, depende, em certa medida, dos recursos mobilizados nas práticas contemporâneas de EC, que envolvem plataformas digitais, editores de texto e aplicativos de escrita, com destaque para ferramentas específicas, como as que serão discutidas a seguir.

Tecnologias para a escrita colaborativa

As ferramentas digitais, incluindo Google Docs, wikis, WhatsApp . Wattpad, tornaram-se recursos de grande valia para a EC, possibilitando criação, edição e compartilhamento de conteúdo em tempo real, atuando como espaços de conhecimento para comunidades de prática (Cattafi; Metzner, 2007). O Google Docs se destaca por permitir cooperação simultânea, apoiando oficinas de escrita digital e edição colaborativa (Bottentuit Junior; Lisbôa; Coutinho, 2011; Sharp, 2009), enquanto favorece a aprendizagem centrada no aluno através da colaboração e da revisão baseadas em feedback(Oxnevad, 2012). As wikis, por sua vez, permitem a múltiplos usuários compartilhar e modificar conhecimento, refletindo a dinâmica da EC (Wolfe, 2005). Essas ferramentas promovem uma abordagem crítica e flexível à escrita, tornando-se valiosas para a educação devido à sua diversidade e acessibilidade, facilitando o desenvolvimento, a complementação ou a revisão de informações de maneira colaborativa.

Os aplicativos de mensagens, particularmente o WhatsApp, emergiram como ferramentas significativas na promoção da EC no âmbito educacional, oferecendo uma alternativa dinâmica aos métodos tradicionais. Segundo Ruiz (2022), o WhatsApp, apesar de oferecer desafios como a gestão de conteúdo, pode enriquecer o processo de aprendizagem da EC quando usado com objetivos educacionais claros. A integração de estratégias metodológicas se faz necessária para aproveitar seu potencial plenamente.

Paralelamente, o Wattpad apresenta-se como um recurso complementar, estabelecendo um espaço para expressão literária e colaboração textual. Essa plataforma facilita a publicação e a interação literária, promovendo uma dinâmica educacional inovadora por meio da troca de feedback entre leitores e escritores, conforme destacado por Costa, Coelho e Tavares (2020) e Bold (2018). Assim, o Wattpad e o WhatsApppodem representar importantes instrumentos pedagógicos que, apesar de suas especificidades, contribuem conjuntamente para a evolução das práticas de ensino de EC, ressaltando a importância da adaptabilidade tecnológica na educação contemporânea.

Entretanto, no contexto educacional, é crucial considerar aspectos críticos relacionados ao uso de ferramentas digitais na produção colaborativa de textos pelos aprendizes. A questão da privacidade e da segurança se destaca em plataformas públicas, nas quais há o risco de exposição dos dados pessoais dos alunos. Outros desafios incluem a dependência de conectividade, que impacta a eficiência dessas ferramentas, e a necessidade de gestão e supervisão eficazes para o professor lidar com comportamentos inapropriados no ambiente on-line. Avaliar as contribuições individuais em contextos colaborativos também se mostra desafiador, demandando um planejamento docente meticuloso, para garantir um equilíbrio na avaliação entre trabalhos coletivos e individuais.

Na próxima seção, exploramos os contextos e as aplicações da EC, destacando as facetas e potencialidades dessa modalidade de comunicação.

Contextos e aplicações da escrita colaborativa

Lowry, Curtis e Lowry (2004) exploram a aplicabilidade da EC em variados contextos institucionais, como indústria, academia e governos, evidenciando sua relevância em diversas esferas da atividade humana. A EC é destacada pelos autores por sua capacidade de fomentar aprendizagem, socialização, geração de ideias inovadoras, emergência de perspectivas diversas, equilíbrio de argumentos, coprodução de conhecimento e desenvolvimento de habilidades escritas. A modalidade também é valorizada pela produção de textos de alta qualidade e pelo fortalecimento de laços interpessoais.

Especificamente no âmbito corporativo, a EC é ressaltada pelos autores devido à prevalência do trabalho em grupo, com a globalização e a Internet expandindo as possibilidades de colaboração. Essa modalidade de escrita é destacada nas interações profissionais, em que o compartilhamento de descobertas e a negociação de significados ocorrem. Tarefas que envolvem criatividade, como a elaboração de roteiros e novos projetos, também se beneficiam da EC, especialmente quando suportada por tecnologias digitais.

Outro campo de atividade humana em que a EC é utilizada amplamente é a esfera escolar, por estimular o pensamento crítico e a negociação de ideias entre alunos. Barroso e Coutinho (2009) afirmam que a prática da EC na educação promove a interação e a reflexão crítica, posicionando-a como uma estratégia didática eficaz para o desenvolvimento textual coletivo. Por meio da EC, alunos combinam conhecimentos, habilidades e perspectivas distintas, enriquecendo o processo de aprendizagem e facilitando soluções inovadoras para problemas comuns (Horton et al., 1991 apud Ruiz, 2021). Tal abordagem não somente melhora a qualidade dos textos produzidos, mas também prepara os alunos para futuros desafios, promovendo habilidades essenciais, como trabalho em equipe, respeito por opiniões diversas e capacidade de resolução de problemas.

A EC apresenta um valor educacional equivalente na esfera acadêmica, sendo aplicada tanto na formação inicial profissional em várias áreas quanto no aprendizado de gêneros escritos acadêmicos e técnicos, além da produção científica colaborativa resultando em artigos publicados por pesquisadores – este artigo é um exemplo disso. Esse processo representa uma forma de aprendizagem da escrita que pode incorporar ou não recursos digitais para sua facilitação. Na educação, é fundamental considerar a EC como um meio de fomentar a autoria coletiva, envolvendo tanto alunos quanto professores, sendo que estes últimos atuam como mediadores e coautores da produção escrita. Tal prática promove o engajamento dos participantes em atividades de EC, significativas no âmbito acadêmico (Pinheiro, 2011).

Dado que nosso interesse primordial incide sobre o contexto escolar de uso da EC, apresentamos, a seguir, a metodologia da nossa investigação.

Percurso metodológico do mapeamento de pesquisas

Considerando que este artigo apresenta um mapeamento de pesquisas nacionais sobre escrita colaborativa de 2019 a 2023, enfocamos, nesta seção, a caracterização da investigação, a coleta de dados e os procedimentos de análise.

Seguindo os conceitos metodológicos de Paiva (2019), a pesquisa é categorizada como básica, com o propósito de gerar novos conhecimentos não aplicados imediatamente em contextos empíricos. Trata-se de um estudo teórico e secundário, focado na revisão de literatura acadêmica existente. A abordagem adotada é quali-quantitativa, permitindo a análise interpretativa de dados estatísticos. O objetivo central é desenvolver uma pesquisa descritiva, visando à descrição e à avaliação sistemática das informações disponíveis sobre o tema, o que a classifica como uma pesquisa bibliográfica em termos de métodos ou procedimentos utilizados.

Este estudo configura-se, ainda, como uma metapesquisa, tal como descrito por Paiva (2019), analisando pesquisas sobre EC. Essa abordagem permite a investigação de temas, teorias e métodos utilizados nas pesquisas, destacando a complexidade do mapeamento realizado sobre EC.

Para a coleta de dados, foram empregados descritores específicos, em linha com os princípios da bibliometria, essenciais para definir os conceitos-chave a serem explorados, conforme apontado por Treinta et al. (2014). A pesquisa se valeu dos recursos disponibilizados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), especificamente o Portal de Periódicos, para artigos, e o Catálogo de Teses & Dissertações, para trabalhos de conclusão de curso de pós-graduação stricto sensu.

Conforme o Quadro 1, apresentado a seguir, o procedimento de busca foi dividido em duas etapas: inicialmente, focando no descritor “escrita colaborativa” e, posteriormente, ampliando para sinônimos do termo, a fim de assegurar a captura extensiva e precisa das publicações pertinentes à EC.

Quadro 1 – Descritores mobilizados na busca de dados

Quadro 1
Descritores mobilizados na busca de dados

Fonte: Dados da pesquisa (2023).

Fonte: Dados da pesquisa (2023).

O delineamento das publicações selecionadas para as análises se deu a partir de um processo de refinamento dos dados coletados, que envolveu: (i) a leitura de metadados dos trabalhos (títulos, resumos, palavras-chave); (ii) a exclusão de trabalhos não aderentes aos objetivos da pesquisas (prioritariamente, aqueles não vinculados à abordagem da EC); e (iii) a exclusão de trabalhos que, embora vinculados ao tema, concentravam-se no âmbito do ensino de línguas estrangeiras ou advinham de fontes internacionais. O Quadro 2, a seguir, apresenta o volume de dados a que se chegou após esse refinamento:

Quadro 2 – Quantitativo de produções localizadas

Quadro 2
Quantitativo de produções localizadas

Fonte: Dados da pesquisa (2023).

Fonte: Dados da pesquisa (2023).

Conforme evidenciado, uma análise preliminar aponta para uma ligeira prevalência de publicações do tipo dissertação, com uma maior concentração no ano de 2019. A partir dessa base de dados, foram definidos critérios específicos para a análise dos trabalhos, que passamos a identificar na sequência.

Uma vez feito o levantamento das produções acadêmicas, como parte integrante dos procedimentos de análise, teve início um processo de categorização, com a identificação de noções potencialmente discutidas academicamente ao se tratar de EC. Tais aspectos compuseram campos semânticos, cujo agrupamento deu origem a eixos temáticos específicos, conforme o Quadro 3:

Quadro 3 – Campos semânticos e eixos temáticos correspondentes

Quadro 3
Campos semânticos e eixos temáticos correspondentes

Fonte: Dados da pesquisa (2023)

Fonte: Dados da pesquisa (2023).

Com os três eixos de análise definidos, os metadados dos trabalhos foram, mais uma vez, revisitados e explorados, de modo que pudesse ser feita a distribuição categorial. Num processo de dupla verificação, com a validação do enquadramento executada em pares pelos pesquisadores, chegamos à configuração final dos trabalhos passíveis de análise, conforme o Quadro 4, apresentado na sequência:

Quadro 4 – Distribuição das produções por tipo e por eixo temático

Quadro 4
Distribuição das produções por tipo e por eixo temático

Fonte: Dados da pesquisa (2023).

Fonte: Dados da pesquisa (2023).

A análise apresentada na próxima seção é parte da leitura desses trabalhos, revelando o teor da recente produção nacional sobre o tema da EC.

Pesquisas sobre escrita colaborativa de 2019 a 2023

A partir do mapeamento realizado, com base nos pressupostos teóricos discutidos e no percurso metodológico delineado, nesta seção, apresentamos os aspectos essenciais de três textos considerados representativos de cada eixo – um artigo, uma dissertação e uma tese –, selecionados com base no maior grau de aderência aos campos semânticos definidos no processo de busca (conforme Quadro 3).

Investigações sobre Processos de EC

No exame do Eixo 1 do mapeamento, sobre os processos para realização da EC, destacam-se investigações focadas nas atividades conjuntas de escrita e na interação entre os participantes. Três representantes desse agrupamento são: o artigo de Paiva (2020); a dissertação de Prado (2019); e a tese de Moreira (2020).

Em sua produção, Paiva (2020) tem o objetivo de verificar, considerando conceitos advindos da Linguística Textual, se e como ocorre a manutenção do tópico discursivo na produção colaborativa de resenhas por estudantes do Ensino Médio profissionalizante. Para isso, retomando reflexões de estudos como os de Lowry, Curtis e Lowry (2004), o autor compreende a EC como uma atividade que articula características específicas, como a “construção de consenso”, a “autoria conjunta” e a “colaboração dos parceiros durante todo o processo de escrita” (Paiva, 2020, p. 16). Assim, segundo ele, é possível avaliar a prática da EC sob uma perspectiva sociointerativa, em diálogo com os pressupostos bakhtinianos, atrelados à natureza dialógica das práticas sociais mediadas pela linguagem.

A pesquisa de Paiva (2020) mobiliza dados decorrentes da aplicação de um projeto de EC com os alunos de Ensino Médio, a partir do qual são produzidas resenhas de filmes e livros por meio da ferramenta digital wiki. As análises do autor destacam os desafios de os participantes da tarefa de EC construírem um texto em que sejam identificadas marcas de articulação, de continuidade e de progressão textuais. Nesse sentido, para ele, seria um erro a aplicação de processos de autoria individual numa prática colaborativa, o que exige de um integrante atenção redobrada em relação ao que foi previamente produzido por seu(s) parceiro(s):

Ele precisa (i) identificar o tópico e segmentos tópicos do texto, que foi iniciado por outros integrantes; (ii) pensar como suas contribuições entrariam na esteira do texto em andamento [...] e (iii) criar a articulação entre os enunciados de suas contribuições e os enunciados das contribuições dos parceiros de grupo, bem como a articulação entre os segmentos do texto. (Paiva, 2020, p. 23)

Prado (2019), por sua vez, busca investigar, sob o aporte teórico da Crítica Genética, como acontece a chamada “escrita conjunta” (tida como sinônimo de “escrita colaborativa”) no processo de construção de resenhas por estudantes universitários. A ênfase da investigação da autora reside, sobretudo, nas estratégias de negociação dos participantes, de modo a verificar, na interação para a prática da EC, o grau de influência de cada um nas escolhas para o texto ou, até mesmo, o destaque maior de um sujeito em detrimento de outro. Para isso, com base em transcrições dos percursos interacionais e, também, das diferentes versões dos textos produzidos, comparam-se as atuações de duas duplas de estudantes, uma do curso de Ciências da Computação e outra da graduação em Letras Vernáculas, avaliando-se aspectos como: extensão do texto em face do tempo de produção, conhecimentos prévios em relação ao gênero e índices de negociação, entre outros.

O contraste estabelecido por Prado (2019) entre os sujeitos analisados permite verificar que a negociação afeta diretamente o resultado da prática de EC. Segundo a autora, mesmo que um dos participantes apresente uma atitude relativamente mais dominante (típica de líder), como é possível constatar na interação dos estudantes de Letras, é a contribuição negociada entre as partes que permite a efetivação da escrita conjunta. No caso específico das duplas analisadas, conforme conclusões apresentadas, “houve intensa atividade responsiva”, o que permite a percepção de que “os sujeitos orientaram toda a enunciação, influenciando e sendo influenciados em suas escolhas” (Prado, 2019, p. 141).

Por fim, na produção de Moreira (2020), o objetivo contempla a proposta de compreender, na interação entre estudantes do Ensino Médio, o processo de construção colaborativa de textos com o auxílio da ferramenta digital Google Docs. Partindo de um percurso teórico atrelado à transformação das práticas de escrita devido ao desenvolvimento das tecnologias digitais, o que acarretou, em decorrência, a necessidade de novos multiletramentos, a autora destaca os processos de EC como meios para o desenvolvimento da (multi)autoria, em consonância com pressupostos defendidos pela BNCC (Brasil, 2018).

A partir de dados coletados no acesso ao recurso do “histórico de versões”, disponível na ferramenta Google Docs, a pesquisadora avalia aspectos como: (i) tipo de processo colaborativo (funções dos integrantes das equipes, formas de controle dos documentos e estratégias de escrita); (ii) recursos colaborativos empregados (inserção de comentários e uso do chat); e (iii) tipo de operação de edição dos textos (supressão, inserção, substituição e deslocamento de segmentos). As análises de Moreira (2020) apontam, desse modo, para o destaque de produções assíncronas, de forma centralizada (com definição de um líder), com maior recorrência aos comentários para a interação e com maior aplicação da adição e da substituição como estratégias de edição.

Conforme conclui Moreira (2020, p. 93), “[...] a escrita [colaborativa] depende de muitas condições, inclusive (e principalmente) das tecnológicas”. Assim, é essencial que se verifiquem as produções que contemplam a EC com ênfase nos recursos tecnológicos/digitais mobilizados para sua efetivação, como mostra a seção seguinte.

Investigações sobre Tecnologias para EC

A análise da produção científica sobre EC e tecnologias, no Eixo 2, destaca atividades de produção textual em plataformas e ferramentas digitais. Esses estudos ressaltam a integração dessas tecnologias nos processos de escrita coletiva, abordando implicações pedagógicas e socioculturais. Três trabalhos representam esse espectro: o artigo de Pierezan e Castela (2020); a dissertação de Rosa (2021); e a tese de Silva (2022).

O artigo de Pierezan e Castela (2020) avalia a eficácia do Google Docs para incentivar a colaboração entre alunos de Ensino Médio no processo de produção textual. Enfatizando como a EC pode potencializar a produção do gênero discursivo “comentário on-line”, as autoras constatam que essa prática estimula tanto a conexão de ideias quanto a aprendizagem mútua. Inicialmente, foi implementada uma estratégia reativa de escrita, conforme definido por Lowry, Curtis e Lowry (2004), em que os alunos escreviam simultaneamente, respondendo às edições e alterações feitas pelos colegas. Na reescrita do texto, adotou-se outra estratégia, a sequencial (Lowry; Curtis; Lowry, 2004), marcada por uma dinâmica em que um membro do grupo começava a escrever o texto, seguido pelas contribuições dos demais.

As atividades colaborativas ocorreram de forma síncrona e assíncrona, principalmente a distância. Os estudantes desempenharam papéis de escritor, editor e líder (Lowry; Curtis; Lowry, 2004), com participação ativa de todos, evidenciada pelo histórico de versões na plataforma. As produções alinharam-se às características do gênero, demonstrando a eficaz incorporação das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) pelos alunos, como imagens, hiperlinks e vídeos. A prática comprovou que a EC através do Google Docs promove aprendizados mútuos, contribuições individuais e construção coletiva de conhecimento. Dessa forma, evidencia-se que os multiletramentos, aliados às práticas colaborativas de escrita, representam uma potencialidade benéfica para a aprendizagem da elaboração textual, embora existam obstáculos significativos a serem superados, como: limitação no acesso à internet e aos dispositivos tecnológicos, utilização de aplicativos externos ao ambiente escolar, bem como desafios inerentes à organização e à participação efetiva em atividades grupais dos aprendizes.

A dissertação de Rosa (2021) enfatiza o desenvolvimento de um projeto pedagógico baseado no uso da plataforma wiki. Destinado a alunos do 9º ano do Ensino Fundamental II, o projeto visava empregar a wiki como um recurso inovador para aprimorar as competências leitoras e escritoras dos estudantes, promovendo simultaneamente o letramento digital e os multiletramentos, integrando tecnologias digitais ao processo educativo. A pesquisa destaca a relevância da wiki como ferramenta dinâmica e interativa na criação e edição de textos, estimulando um ambiente de aprendizado ativo e participativo.

O estudo também enfatiza a necessidade de um planejamento cuidadoso na atribuição de papéis explícitos aos alunos, para assegurar o sucesso da EC e a eficácia da comunicação digital. Em suma, demonstra que a utilização da plataforma wiki no contexto educacional pode inspirar professores a adotar métodos de ensino mais interativos e colaborativos, contribuindo significativamente para o desenvolvimento das habilidades digitais e escritas dos estudantes, além de promover uma experiência de aprendizado mais significativa e envolvente.

No que concerne à tese de Silva (2022), o objetivo principal centra-se em investigar os elementos multirreferenciais nas narrativas ficcionais criadas por jovens na plataforma on-line Wattpad. O estudo busca compreender como esses espaços digitais têm-se estabelecido como ambientes colaborativos no contexto da cibercultura, emergindo como relevantes para a interação entre jovens. Utilizando uma metodologia de pesquisa qualitativa e netnográfica, baseada na corrente epistemológica da Ecologia dos Meios, o percurso metodológico inclui a seleção de narrativas ficcionais on-line, com foco particular no gênero fanfic.

A pesquisa revela que os jovens estão engajados na criação de novas formas de produção textual e consumo de histórias ficcionais no meio digital, caracterizando-se pela incorporação de elementos multirreferenciais, conectivismo, intertextualidade transmídia e letramentos digitais. Essas práticas são assimiladas como intermodais, fomentando um ambiente propício à colaboração, à produção de significados e à discussão de temas envolvendo marcadores sociais de diferença. O estudo contribui significativamente para a compreensão de como as narrativas digitais colaborativas podem gerar novos saberes, incentivar o debate crítico e expandir o entendimento sobre diversos temas.

Além disso, a pesquisa enfatiza a importância de se continuar investigando, refletindo e debatendo sobre as práticas de leitura e escrita potencializadas pelas TDIC. Os resultados fornecem uma base sólida para se entender a relação entre jovens e práticas de leitura e escrita digitais, usadas para desafiar, perturbar e transformar perspectivas em um mundo cada vez mais interconectado. A plataforma Wattpad, atuando como um vasto repositório on-line de histórias, representa um espaço fértil para tais interações e criações, contribuindo, via educação, para o enriquecimento dos repertórios culturais juvenis na contemporaneidade. As análises debatidas a seguir enfatizam tais contextos de aplicação da EC.

Investigações sobre Contextos e Aplicações da EC

A análise da produção científica sobre EC no Eixo 3 evidencia um foco em situações de ensino e aprendizagem. Um único estudo explora a EC em trabalho criativo, especificamente na escrita de roteiros de séries. Os demais se concentram nos seguintes contextos: formação de professores, Ensino Superior e Educação Básica. Aspectos como mediação pedagógica, uso de tecnologias e metodologias ativas na EC, além de práticas em díades de alunos em fase de alfabetização, são examinados. Destacam-se três trabalhos: o artigo de Costa Filho e Silva (2022); a dissertação de Falcão (2021); e a tese de Cavalcante (2022).

O estudo de Costa Filho e Silva (2022), por exemplo, analisa o impacto da pandemia na educação superior e o uso de tecnologias digitais para produção e correção de textos em um curso de Letras. Os autores utilizam entrevistas semiestruturadas com docentes e discentes para investigar as adaptações às práticas de letramento durante o ensino remoto, evidenciando a pesquisa narrativa como abordagem para compreender as experiências dos participantes.

Os autores identificam que as principais (re)contextualizações das práticas de letramento, devido ao ensino remoto, estavam atreladas à mediação por tecnologias digitais, impactando diretamente a produção textual colaborativa dos alunos. O planejamento e a execução da escrita adaptaram-se a esses novos meios de comunicação. Embora as percepções dos participantes indicassem aprendizados significativos e resultados satisfatórios nas produções textuais, emergiram dificuldades ligadas à ausência de contato presencial e à formação de vínculos interpessoais no ambiente educacional.

Os autores apontam que a experiência com EC, o emprego de plataformas digitais e a adoção de estratégias pedagógicas inovadoras, como a correção de textos on-line, foram elementos valorizados por professores e alunos. Tais práticas demonstraram ser eficazes na manutenção do engajamento com as atividades de escrita, considerando tanto o contexto institucional quanto o desafiador período sócio-histórico, revelando a capacidade de adaptação e o comprometimento dos envolvidos com o processo educativo em circunstâncias atípicas.

Falcão (2021), por sua vez, foca no ensino da cultura digital e no uso de mídias conforme preconiza a BNCC (Brasil, 2018), visando desenvolver atividades para estruturar narrativas transmídia na educação de Língua Portuguesa. Essa iniciativa busca formar cidadãos críticos através da aplicação prática com alunos do 9º ano, analisando sua participação na criação de narrativas. Ancorada na Pedagogia dos Multiletramentos do Grupo de Nova Londres (1996), a metodologia adotada é a pesquisa-ação participativa. Considerando a prevalência das mídias digitais entre estudantes e a expansão de suas funções durante a pandemia de Covid-19, Falcão (2021) destaca a importância de integrar novas tecnologias, como smartphones, a ferramentas mais tradicionais, incentivando o desenvolvimento de competências linguísticas e a reflexão crítica dos alunos sobre suas realidades.

Falcão (2021) aborda a narrativa transmídia, definida por Jenkins (2009) como uma história distribuída por múltiplas plataformas de mídia, onde cada parte contribui de forma única ao conjunto. Sua proposta pedagógica inclui atividades diversificadas: leituras de contos, criação de minicontos, elaboração coletiva de mapas mentais, roteiros audiovisuais, produção e edição de vídeos, além de histórias em quadrinhos. O uso do WhatsAppfacilitou as interações fora da sala de aula. Embora não se refira explicitamente à EC, Falcão (2021) realça o trabalho colaborativo como um esforço conjunto em direção a um objetivo comum.

Os resultados indicam que a implementação de narrativas transmídia responde aos objetivos da BNCC (Brasil, 2018), promovendo competências de multiletramentos e enriquecendo o ensino de Língua Portuguesa através de práticas leitoras e produtoras de textos multimodais. A integração com textos narrativos e mídias digitais, segundo a autora, não só aumentou a motivação dos alunos como também favoreceu a expressão de suas vozes autorais, evidenciando o potencial pedagógico dessa abordagem na formação crítica e criativa dos estudantes.

Cavalcante (2022) investiga a produção textual colaborativa em uma disciplina do curso técnico em Eletroeletrônica, implementada durante o ensino remoto. Utilizando a pesquisa-ação colaborativa como metodologia, a pesquisa baseia-se em estudos sobre tipos e sequências textuais, gêneros textuais/discursivos e EC. A EC foi realizada através do compartilhamento de tela entre a pesquisadora e díades de alunos do 4º ano, sendo a experiência didática considerada positiva. Os estudantes produziram textos com descrições técnicas e processos de funcionamento de equipamentos, atendendo às demandas do curso.

Durante a análise das interações na EC, Cavalcante (2022) identificou, em seu estudo, categorias como antecipação, revisão, rasura e consciência metalinguística, entre outros aspectos. A pesquisa revela que a EC não apenas favorece a produção textual na área técnica, mas também enriquece o processo de aprendizagem, promovendo um compartilhamento efetivo de conhecimentos e habilidades de escrita entre os participantes.

A partir desse percurso de análises, apresentamos, na sequência, nossas reflexões conclusivas.

Considerações finais

Entender como o fenômeno da EC vem sendo compreendido e estudado no meio acadêmico nacional contemporâneo transcende os limites deste estudo, restrito às bases de dados e ao período temporal selecionados. As análises realizadas permitem, no entanto, identificar tendências nas pesquisas sobre EC, enfocando três aspectos: processos, tecnologias e aplicações. Esses elementos interagem, evidenciando a complexidade da produção colaborativa de textos, tanto para a pesquisa científica quanto para a metodologia de ensino.

Paralelamente, as pesquisas aqui categorizadas nos oferecem algumas pistas relativamente aos possíveis impactos que a BNCC (Brasil, 2018) e a pandemia podem ter tido nas práticas contemporâneas de ensino e aprendizagem da Língua Portuguesa. Dois deles parecem se destacar: a intensificação do uso de tecnologia digital e o aumento de práticas de EC no trabalho com a produção textual escolar.

Convém reconhecer que, muito antes da eclosão da pandemia, a tecnologia digital já caminhava pela rota transformadora da educação, impulsionada por estudos que, conectados às mudanças sociais impostas pelas diferentes gerações da Web, apontavam seus benefícios e desafios. É nesse cenário que surge a BNCC, com a proposta de atualizar orientações curriculares. No coração de sua proposta, o documento já requisitava, previamente à pandemia, o uso da tecnologia digital na educação escolar, preconizando, para o currículo, a “necessária assunção dos multiletramentos” (Brasil, 2018, p. 487) e dos novos letramentos.

As relações entre TDIC e educação foram, pois, apenas intensificadas pelo evento pandêmico, que impulsionou mudanças disruptivas em padrões há muito tempo enraizados em nosso cotidiano, permitindo que a EC produzida com mediação de ferramentas digitais emergisse com maior vigor nas práticas escolares. Os trabalhos reunidos sobre o Eixo 2 atestam essa incorporação tecnológica corriqueira às práticas educativas em que a EC comparece e mostram como é fundamental entender mais profundamente a relação entre EC e tecnologia.

Além disso, vale frisar que é na esteira desse crescimento exacerbado do uso de tecnologia digital no campo educacional que tem brotado um incremento de práticas escolares de produção textual de caráter colaborativo; sintomáticos desse fato são os trabalhos afiliados ao Eixo 3 descrito nas análises.

Esse aumento das práticas colaborativas escolares de escrita, mais notável a partir do ensino remoto, pode, igualmente, ser inferido pelo interesse dos trabalhos aqui reunidos sob o Eixo 1, ao investigarem a natureza processual dessa forma linguageira. Fato estimulante é que tal interesse vem-nos revelar questões importantes para a dinâmica do trabalho pedagógico com a EC.

Embora já tenhamos percorrido um significativo período desde a promulgação da BNCC e a experiência da pandemia de Covid 19, sabemos que, em se tratando de educação, há sempre espaço para cultivarmos a paciência pedagógica no tocante ao conhecido hiato entre as mudanças desejadas e as mudanças possíveis. Portanto, muito resta, ainda, construir em termos de pesquisa acadêmica no âmbito da modalidade de EC. O desafio que ora se coloca é o de encontrar caminhos para investigações que contribuam para que, não apenas os alunos aprendam a trabalhar e a escrever de forma conjunta, mas, principalmente, os professores aprendam a atuar como mediadores na aprendizagem de uma escrita colaborativa e, sobretudo, socialmente significativa.

Referências

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