Recepção: 08 Agosto 2023
Aprovação: 16 Outubro 2024
Resumo: Este artigo propõe um estudo de base teórica que projeta o conceito de Bem Viver e Ubuntu para os povos afro-ameríndios no campo da Geografia Cultural. Debate a semelhança das perspectivas dos grupos coletivos afro e indígenas que serão o fio condutor para a proposta de ampliação do entendimento sobre o Bem Viver e Ubuntu com foco na territorialidade ancestral. O artigo procura responder a problemática: de que forma o pensamento afrodiaspórico e ameríndio pode contribuir com suas vivências de Bem Viver e Ubuntu para pensar as noções de territorialidade? Lança mão de revisão bibliográfica sobre o conceito de Bem Viver e também Ubuntu, assim como de trabalhos autorais, livros, teses e dissertações de autores africanos e indígenas que tratam de suas visões de mundo, com foco nas territorialidades. É possível que os quadros teóricos hegemônicos da Geografia de filiação eurocêntrica engessem, em alguma medida, a possibilidade de pensar outras cosmovisões, porque as primeiras noções tratam de apenas um tipo de natureza humana. O Antropoceno sofre de uma crise epistêmica, pois os povos afro-ameríndios a cada momento ocupam espaços de debate e projetam suas filosofias no enfrentamento ao modelo capitalista ocidental e suas fronteiras epistêmicas com base nas variações da natureza humana. Tal pensamento ocidental tem levado o planeta a metabolizar a natureza em mercadoria, reduzindo a vida na terra a um modelo civilizatório. As populações que habitam a Abya Yala, ao contrário, com alguma variação, têm suas relações com suas espacialidades historicamente baseadas na biointeração da espécie humana com seu ambiente natural e, portanto, definem seus modos de vida em diálogo com os seres visíveis e invisíveis em um processo colaborativo, onde a Natureza tem suas humanidades, no plural.
Palavras-chave: Bem Viver, Ubuntu, Territorialidades.
Abstract: This article proposes a theoretically based study that projects the concept of Good Living and Ubuntu for Afro-Amerindian peoples in the field of Cultural Geography. It discusses the similarity of the perspectives of Afro and indigenous collective groups that will be the common thread for the proposal to expand the understanding of Good Living and Ubuntu with a focus on ancestral territoriality. The article seeks to answer the problem: how can Afro-diaspora and Amerindian thought contribute with their experiences of Good Living and Ubuntu to think about notions of territoriality? It uses a bibliographical review on the concept of Good Living and also Ubuntu, as well as authorial works, books, theses, and dissertations by African and indigenous authors who deal with their worldviews, with a focus on territorialities. It is possible that the hegemonic theoretical frameworks of Eurocentric Geography impede, to some extent, the possibility of thinking about other worldviews, because the first notions deal with only one type of human nature. The Anthropocene suffers from an epistemic crisis, as Afro-Amerindian peoples constantly occupy spaces for debate and project their philosophies in confronting the Western capitalist model and its epistemic borders based on variations in human nature. Such Western thinking has led the planet to metabolize nature into merchandise, reducing life on earth to a civilization model. The populations that inhabit Abya Yala, on the contrary, with some variation, have their relationships with their specialities historically based on the biointeraction of the human species with their natural environment and, therefore, define their ways of life in dialogue with the visible and invisible beings in a collaborative process, where Nature has its humanities, in the plural.
Keywords: Good Living, Ubuntu, Territorialities.
Resumen: Este artículo propone un estudio de base teórica que proyecta el concepto de Buen Vivir y Ubuntu para los pueblos afroamericanos en el campo de la Geografía Cultural. Se discute la similitud de las perspectivas de colectivos afro e indígenas que serán el hilo conductor de la propuesta de ampliar la comprensión del Buen Vivir y Ubuntu con un enfoque de territorialidad ancestral. El artículo busca responder al problema: ¿cómo puede el pensamiento afrodiaspórico y amerindio contribuir con sus experiencias del Buen Vivir y Ubuntu a pensar nociones de territorialidad? Se utiliza una revisión bibliográfica sobre el concepto de Buen Vivir y también Ubuntu, así como obras de autor, libros, tesis y disertaciones de autores africanos e indígenas que abordan sus cosmovisiones, con enfoque en las territorialidades. Es posible que los marcos teóricos hegemónicos de la Geografía eurocéntrica impidan, en cierta medida, la posibilidad de pensar otras visiones del mundo, porque las primeras nociones abordan un solo tipo de naturaleza humana. El Antropoceno sufre una crisis epistémica, ya que los pueblos afroamericanos ocupan constantemente espacios de debate y proyectan sus filosofías para confrontar el modelo capitalista occidental y sus fronteras epistémicas basadas en variaciones en la naturaleza humana. Este pensamiento occidental ha llevado al planeta a metabolizar la naturaleza para convertirla en mercancía, reduciendo la vida en la Tierra a un modelo de civilización. Las poblaciones que habitan Abya Yala, por el contrario, con alguna variación, tienen sus relaciones con sus espacialidades históricamente basadas en la biointeracción de la especie humana con su entorno natural y, por tanto, definen sus modos de vida en diálogo con lo visible y lo invisible. seres en un proceso colaborativo, donde la Naturaleza tiene sus humanidades, en plural.
Palabras clave: Buen Vivir, Ubuntu, Territorialidades.
INTRODUÇÃO
As narrativas de um modelo de sociedade hegemônica, capitalista e universalizante, que tem sua origem na vida dita moderna, na qual a espécie humana rompe seu elo com o seu entorno natural, seu ambiente, tenta impor-se como verdade, por meio de um processo histórico provenientes do pensamento eurocêntrico, reforçado pelo estabelecimento e reprodução da ciência moderna. Entretanto, ressalta-se que todas as cosmologias são históricas. E se as visões de mundo dos povos tradicionais ou originários são, muitas vezes, desconsideradas nesse processo, é porque o anacronismo histórico eurocêntrico dominou a ciência dita válida, ditando quais epistemologias deveriam ser consideradas no mundo moderno.
Moreira (2007) faz uma crítica ao Ocidente que tem na cultura de raiz judaico-cristã da Antiguidade a transformação do espaço em um dado abstrato, longe da teluricidade existencial, característica dos povos ásio-afro-ameríndios. O autor (MOREIRA, 2007) assinala que, por isso, o homem moderno não se vê tendo raiz nos espaços, uma vez que enxerga o espaço nos objetos espaciais e identifica seu cotidiano com eles. O mal-estar geográfico é portanto, “[...] um mal-estar determinado pelo modo de ser-estar-espacial criado pela cultura no Ocidente, onde o homem está, mas não é espaço” (MOREIRA, 2007, p.133).
Tal perspectiva positivista sobre o espaço, enquanto dado abstrato, vai de encontro com as epistemologias dos povos afro-ameríndios. Tem-se uma crise de cosmologia, que pode ser compreendida com a possibilidade do estudo de dois elementos que dizem respeito aos povos afro-ameríndios: a ontologia e a percepção ambiental. O Sumak Kawsay ou Bem-Viver, é considerado um princípio ético-moral e relacional entre a espécie humana e seu ambiente, que nos foi legado pelos povos andinos e que vem sendo estudado em suas variações entre outros povos e coletivos humanos na compreensão de outras formas de ver o mundo. Pelo Bem Viver é possível perceber o quanto os povos autóctones e tradicionais desenvolvem uma relação de complementaridade com a terra, tomando consciência de que são parte dela e de que são provenientes dela.
O Antropoceno, mais especificamente, o Capitaloceno[4], ao contrário, tenta impor o pensamento de que a espécie humana deve ser a dominante do planeta, ou seja, situada no pico da pirâmide de controle das demais espécies, sem contestação, pois tem na racionalidade seu maior escudo. Entretanto, foi na exploração de outros territórios e na dominação dos grupos coletivos, por meio das tecnologias disponíveis no período colonial, que os países europeus desumanizaram os corpos negros e indígenas dos continentes colonizados para invadir, escravizar e tomar seus territórios. Ao contrário, para os povos autóctones e tradicionais a racionalidade convive em diálogo com a teluricidade, com as emoções e o afeto ao território. Tal fenômeno é a concretização da experiência Bem Viver, que é pré-moderna, portanto, é anterior aos conceitos e modo de vida trazidos pela modernidade.
O pensamento colonial alimenta até hoje o neocolonialismo e vice-versa, sobretudo, voltado contra os países de populações afro-ameríndias. Os povos afro-ameríndios tem promovido pela literatura a desestabilização de uma epistemologia predominantemente branca, filiada ao humanismo racista europeu, enfrentando privilégios epistêmicos da branquitude, assim como as pretensões discursivas da cisgeneridade, que dominam a vida acadêmica e política com seus mecanismos de hipervisibilização da reprodução de regimes subalternizantes e enquadrando grupos coletivos como os outros, que vivem sem os mesmos privilégios e sem a chance de protagonizar suas histórias como sujeitos.
O enfretamento epistêmico tem promovido a afrocentralidade no debate étnico-racial, que com sua orixalidade, circularidade e tamboralidade agrega a perspectiva indígena, o feminismo negro, os grupos coletivos de pequena escala, dentre outros que fortalecem a cultura brasileira em um processo interseccional. No contexto da Abya Yala (PORTO-GONÇALVES, 2006; 2009) tem-se um Brasil de cosmologias contra-hegemônicas, de culturas afrodiaspóricas, de rodas de samba e capoeira, de arte, músicas e festividades populares. É, portanto, ao mesmo tempo: uma defesa ontológica e uma construção semiótica da imagem positiva da africanidade e da indianidade do Bem Viver.
MUNDO EXPERIENCIADO: O BEM VIVER NA ABYA YALA
No campo do pensamento indígena, este artigo traz breves reflexões de dois pensadores que tem projetado suas cosmologias e sua filosofia reversa sobre o planeta e a importâncias das conexões com a Natureza. Para Ailton Krenak, liderança do povo Krenak, habitante da região do vale do rio Doce, em Minas Gerais, a destruição das florestas, dos rios, das paisagens e das pessoas revela a crise desta humanidade que os modernos acreditam, portanto, para ele, esta ideia é uma fabulação descolada da realidade concreta. “O sujeito coletivo pertence ao lugar, é o oposto político do lugar que pertence ao indivíduo. [...] O lugar transcende a Natureza em sua percepção como recurso e alcança a dimensão da existência como o sagrado” (KRENAK, 2018, p. 2). Sobre sua crítica ao modelo civilizatório da modernidade, assinala ele que:
Esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos. Os únicos núcleos que ainda consideram que precisam se manter agarrados nessa Terra são aqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do planeta, nas margens dos rios, nas beiras dos oceanos, na África, na Ásia ou na América (KRENAK, 2020a, p. 6).
Krenak (2020b), neste sentido, aponta que a ideia de Bem Viver se constitui, muitas vezes, na difícil experiência de manter um equilíbrio entre o que a espécie humana pode obter da vida, da natureza, e o que é possível devolver. Por isso, exige um ethos, um posicionamento individual e coletivo, que tem sua complexidade, na medida que exige um balanço sensível destas duas variáveis. Ele considera que o Bem Viver se difere da ideia ocidental de bem-estar ao considerar-se a perspectiva indígena sobre o processo ontológico relacional com a terra, uma vez que a convivencialidade dos povos orignários não permite simplesmente consumir a Terra para sentir-se bem.
O Buen Vivir, o Sumak Kausai, esse ser humano, subordinado a uma ecologia planetária, nós também, nosso corpo, assim como todos os outros seres, ele está dentro dessa ecologia ou dessa vasta biosfera do Planeta como um elemento de equilíbrio e regulador. Nós não somos alguém que age de fora. Nós somos corpos que estão dentro dessa biosfera do Planeta Terra. É maravilhoso, porque, ao mesmo tempo em que somos dentro desse organismo, nós podemos pensar junto com ele, ouvir dele, aprender com ele (KRENAK, 2020b, p. 14).
Já para Davi Kopenawa Yanomami (KOPENAWA; ALBERT, 2015) a Urihi que é a terra-floresta, possui vida, tem humanidade e fertilidade. “[...] a floresta é a carne e a pele de nossa terra, que é o dorso do antigo céu Hutukara caído no primeiro tempo” (KOPENAWA, ALBERT, 2015, p. 357); a paisagem é percebida e experienciada. Os espíritos Xapiri, deidades da cosmologia Yanomami, vivem no espaço híperfísico, acessado pelos sobre-humanos, os xamãs, que os convidam a dançar sobre espelhos, uma dança cósmica que celebra a vida em dois mundos que se tornam um.
Para os Yanomami existem duas floresas, uma de dimensão física e outra vista apenas pelos xamãs, hiperfísica, cuja fertilidade deve ser cultivada e defendida por todos os seres, pois estes são originários dessa vitalidade ancestral. Os Xapiri habitam o peito do céu em casas distribuídas e classificadas por espíritos que representam animais e fenômenos da Natureza e são eles os seres que determinam a caminhada dos humanos sobre a terra, trazendo a cura e a saúde da floresta. É inconcebível a ideia de destruição de matas e rios da Urihi, uma vez que compõe espaços sacralizados do povo Yanomami.
Esse breve conjunto de afirmações e propostas teóricas reforçam o entendimento de que o conhecimento tem bases profundas nas relações sociais, políticas, territoriais, socio-colaborativas desses grupos coletivos. O sistema-mundo moderno colonial (RATTS, 2020) não compreende estas relações porque rompem o elo entre os seres humanos e destes com a própria Natureza, desumanizando-a e autorizando o próprio homem a apropriar-se de forma violenta destes espaços. Estes autores - mulheres, negras, negros, indígenas - têm traduzido suas impressões deste mundo fora da visão colonialista, por meio de leituras críticas e proposições originais e contundentes indo ao encontro de modelos e formas de viver e existir no mundo.
UBUNTU NA COSMOVISÃO DE NEGO BISPO
Os conceitos da Filosofia Ubuntu têm sido cada vez mais aprofundados e desenvolvidos por intelectuais, movimentos negro-africanos de modo a expressar o caráter igualitário e original de seus modos de vida e visão de mundo. Em geral, as primeiras definições escritas em línguas ocidentais dos conceitos de ubuntu foram realizados por intelectuais negro-africanos. Na atualidade, já encontramos outros intelectuais que pesquisam sobre ubuntu, inclusive intelectuais brasileiro como Nei Lopes e Renato Nogueira. Ubuntu é uma filosofia de origem africana cujo objetivo é o coletivo, a aliança, o relacionamento das pessoas umas com as outras e com suas ancestralidades. Desse modo, a filosofia do ubuntu é percebida principalmente pela força da ancestralidade que se repete no movimento diaspórico e se territorializa em novas terras, em novos espaços. Herdeiro desse modo de vida são os quilombos que existem nas suas diversidades e singularidades, sobretudo em relação às diferenças espaciais e naturais.
Segundo afirma o sociólogo Bas’ilele Malomalo, da República Democrática do Gongo, que a origem do ubuntu está na nossa constituição antropológica. Como assim? Segundo o sociólogo pelo fato de a África ser o berço da humanidade e das civilizações, bem cedo nossos ancestrais humanos desenvolveram a consciência ecológica, entendida como pertencimento aos três mundos apontados pelos deuses e antepassados, dos humanos e da natureza (MALOMALO, 2014, p. 95). O ubuntu possui em sua estrutura ontológica e semântica um contínuo vir-a-ser sendo, que se reproduz numa abertura e numa flexibilidade que se organiza a partir do equilíbrio e da harmonia entre indivíduos e natureza.
Nesse sentido, o conceito de “desenvolvimento” está na contramão de um modelo de desenvolvimento que considera a terra e a natureza apenas como fonte de matéria-prima para a produção de mercadorias de rápido consumo e descarte. Sobre isso, Nego Bispo, lavrador, escritor, poeta, filósofo, historiador, ensaísta, traz para o debate intelectual uma nova lucidez advinda de quem planta aquilo que come, cuida da roça e cria cabras e ainda goza do convívio gerado pelo rico circuito das festas e eventos das comunidades rurais da sua região. Bispo se opõe a palavra “desenvolvimento”, que foi disseminada largamente pelo colonizador, com a ideologia de ser preciso para se desenvolver ter que se des-envolver com o ambiente, ou seja, não se envolver com a natureza e criar um distanciamento desta para alcançar progresso. No entanto, o ubuntu na cosmovisão africanas e, Nego Bispo está neste circuito da ancestralidade, entende que enquanto humanos não estamos separados da natureza, isto é, somos parte dela.
Partindo da visão do Nego bispo, é possível confluir o ubuntu com outras perspectivas porque ela tem na sua base filosófica uma relação que nós esquecemos, o viver em uma comunidade. O bem viver com as pessoas que estão ao nosso lado, sentindo-se bem com elas, pois para o ubuntu não existe um eu que pensa individual, mas um nós que coexiste para vivermos em comunidade, em coletividade, assim o ubuntu é concretizado quando há um equilíbrio comunitário que a base é o nós em uma ética de participação integral com o outro. Um olhar descuidado e apressado pode achar que a compreensão de ubuntu seja algo apenas teorizado ou contado por alguém mais velho que narra uma vivência, porém é ensinado e aprendido na vivência cotidiana, uma episteme prática na relação com o mundo e com o outro, que é observada e praticada junto, se aprende com o outro que é sua referência de mundo. Mas também há os momentos discursivos, da contação das histórias vividas e aprendidas das pessoas mais antigas; aquelas que já se tornaram nossas ancestrais. Há todo um sentido de vida, bem como dos modos e costumes de vida, dos conhecimentos e saberes, que são transmitidos por meio da vivência cotidiana, como conta Nego Bispo sobre quando seu tio Norberto o chamou para trabalhar:
[...] quando tinha aproximadamente uns 10 anos de idade[...], um dos meus grandes mestres tio Norberto convidou pra trabalhar a primeira atividade que ele me ensinou foi arar a terra com bois; foi eu e meu irmão. Meu tio Noberto nos ensinou e depois entregou os dois bois e disse: “tudo que vocês ganharem será dividido em partes iguais: metade para vocês dois e metade para os dois bois”, quem administrava a parte dos dois bois era meu tio; começamos a arar a terra em novembro e algumas pessoas pagavam em dinheiro e outras que não pagavam em nada; procuramos o tio Norberto e não entendemos o que estava acontecendo porque estava trabalhando sem receber. Tio Norberto perguntou quantos anos eu tinha e eu respondi que tinha 10. Ele disse tenho mais anos que você, sempre fiz assim e, então, o jeito tá certo. [...] No mês de janeiro fomos arar a nossa terra depois que todo mundo tinha plantado é que fomos arar a nossa. E, aí foi que entendi a cena quando dissemos: “vamos fazer os traços culturais da nossa roça” marcamos o dia. Quando chegamos lá a roça estava cheia de todo aquele povo que não nos pagou foi ajudar a cuidar da nossa roça. Mas isso, tio Norberto não contou isso. Daí quando fomos colher todo mundo novamente. No final das contas todo mundo produziu alimento o suficiente para comer, se alimentar até a próxima safra” (BISPO, 2021).
Por essa citação, se explicita o ser ubuntu pela experiência de Bispo quando seu tio, seu mestre, lhe ensina pela vivência das relações comunitárias o sentido de estar junto e de se fazer as coisas junto sem que haja o sentimento de individualismo e de expropriar da terra, do outro, dos animais. Chama atenção como o ubuntu se faz presente quando seu tio Norberto afirma que do trabalho sairá o sustento de Bispo e de seu irmão como também dos dois bois que estão envolvidos no ato de arar. Não há uma exploração dos bois, mas se estabelece uma relação de parceria. Não há um des-envolver há um envolver-se de todos que participam na ação colaborativa, pois não é homem que guia os bois que são os mais importantes na atividade do arar e que houvesse uma divisão nós (humanos) e eles (bois). Uma outra coisa que destacamos é que o importante não é em primeiro lugar o lucro, mas como todos podem ter alimentos e estar numa mesma linha de igualdade no arar da terra e do que essa terra pode dar respeitando seu ciclo de plantação e colheita. Ainda afirma Bispo: “Assim, a melhor maneira de guardar o peixe é nas águas. E a melhor maneira de guardar os produtos de todas as nossas expressões produtivas é distribuindo entre a vizinhança, ou seja, como tudo que fazemos é produto da energia orgânica esse produto deve ser reintegrado a essa mesma energia” (BISPO, 2015, p. 85).
Outra coisa que destacamos da citação de Bispo é a partilha do saber de tio Norberto em não ficar aprisionada para si mesmo, como detentor de um conhecimento. O tio chama, codivide seu conhecimento, dar as condições para realização do trabalho, confia o cuidado dos animais e da terra, motiva para que alcancem êxito e aprendam com experiência do mais velho. O saber compartilhado de tio Norberto não é um saber mercadoria, hierarquizado, metrificado segundo um preço de mercado e alcançável apenas por quem pudesse comprar como impõe a sociedade capitalista ocidental que segrega as pessoas em grupos e classes. Há, portanto, ubuntu na vivência relatada por Bispo ao falar desse compartilhamento desse saber ancestral e dessa relação do humano com a natureza, cuja compreensão epistemológica que busca, na natureza, uma valorização e uma preservação da vida, uma vez que a comunidade depende e vive em confluência com a natureza. Enquanto epistemologia o ubuntu quebra o lugar do conhecimento em relação ao saber em termos metodológicos, pois subverte a ordem estabelecida da centralidade do homem em relação à natureza numa configuração hierarquizada entre cultura/natureza e sujeito/objeto.
Para Nei Lopes, defensor das causas sociais defende que conforme a boa herança africana, o indivíduo se situa no mundo não se afirmando contra o “outro” e contra aquilo que supostamente não lhe diz respeito, mas se percebendo como uma parte da Natureza, força ativa que estabeleceu e conserva na ordem natural de tudo o que existe (LOPES, 2021, p. 18). Por ser um lugar de acolhimento, o quilombo é um lugar de resistência e de modo de vida econômico contra colonial, por isso se tornou o inimigo declarado do estado colonial, sendo tratado a partir da força da lei do império escravagista brasileiro que procura reduzir, expropriar e extinguir corpos que com resiliência se propõem a uma outra lógica globalizante e colonizadora.
CONSIDERACÕES FINAIS
Ao chegarmos ao fim da escrita desse artigo é possível compreender como os modos de vida dos indígenas e afrodiaspóricos confluem como um rio cujas vivências de suas águas se encontram e oferecem biointeração com seu líquido de saberes e práticas ancestrais. Numa linguagem de Ailton Krenak há multitude no modo de pensar ameríndio ou como diz Nego Bispo há confluência dos saberes. Isso ocorre porque há uma relação cosmológica de confiança nos elementos da natureza, pois a árvore frutífera sempre dará frutos, a água sempre dará peixe, que a terra dará seus frutos, que o vento soprará e dará oxigênio. A cosmologia indígena e afrodiaspórica vive envolvida com o cosmos e este com eles. Nesse sentido, as necessidades criadas pelo capitalismo se opõem ao modo de vida desses grupos e criam o discurso do desenvolvimento, que na verdade é um des-envolver com o cosmos. Há um tirar da relação originária, natural e criar sentidos que afastam da relação cosmológica e que põe de um lado o humano e os não humanos, em que àqueles dominam sobre estes últimos.
Estes dois grupos ensinam o compartilhamento dos saberes sem troca. Esse ensinar não é na base da imposição, mas da possibilidade de criar outras formas de existência que não está fora de sua realidade como algo inalcançável. Esses saberes cujas filosofias são milenares estão bem próximas, no entanto, silenciadas ou abafadas pelo barulho dos discursos dos colonizadores. É necessário voltar aos ancestrais e retomar a comunhão com estes elementos que nos coloca no encontro com a terra, com o rio e etc. para repensar nossa relação de envolvimento. Esse retorno a ancestralidade pode levar a pensar como tem sido tratado o rio como lugar de vivência ancestral ou como depósito de detritos, de produtos químicos, de represamento; pode levar a pensar a terra como esta casa comum que habitamos, que só temos esta, ou como lugar em que apenas alguns dela usufruem em vista de fazer riqueza. Esse movimento em busca da ancestralidade que aprendemos com os indígenas e quilombolas pode levar a pensar isso que chamamos de Antropoceno e de desenvolvimento.
Nesse sentido, a Geografia Cultural pretende descrever como a filosofia do Ubuntu e do Bem Viver de povos que vivem em harmonia com a natureza, respectivamente como os quilombolas e os indígenas, sustentadas sobre uma convivência entre os seres humanos consigo mesmos e com a natureza a partir do seu reconhecimento e dos valores culturais herdados como uma alternativa contra colonial ao modo de ser colonial que se pratica no Brasil e no mundo. A filosofia ubuntu e o bem viver caracterizam-se por pensar a cultura e o modo de vida da comunidade. Ressignificar o olhar afro diaspórico quer dizer, valorizar o que somos, reconhecer o outro e, assim, ir de alcance à alteridade. Para nos aceitarmos e aceitar que o outro seja fonte de conhecimento e de vida e não ser alvo de desprezo e de medo, de desequilíbrio histórico. É muito importante a nossa história de vida, o reconhecimento e a valorização da cultura de um povo, de um lugar.
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Notas

