Dossiê
Recepção: 25 Maio 2021
Aprovação: 30 Maio 2021

Resumo: O presente estudo explorou no discurso da Pedagogia Waldorf a possibilidade de uma educação voltada para o futuro do ser humano, baseado na própria propositura, que é a de capacitar o sujeito para o enfrentamento dos desafios do mundo contemporâneo, integrando ciência e arte por meio de atividades educativas, práticas artísticas e artesanais, harmonizando as forças do pensar, sentir e fazer. O objetivo deste estudo foi o de verificar a relação entre o interesse despertado pelas atividades artísticas e artesanais em relação à formação de atitudes individuais que expressem criatividade, organização e colaboração, em um grupo de alunos matriculados no período da manhã no Ensino Fundamental I regular em uma cidade pequena do interior paulista que no contra turno escolar, frequentam um projeto educacional, com base nessa orientação pedagógica. Como referencial teórico, apoiamo-nos em Rudolf Steiner (2005;2015), Schiller(1990), Lanz (1990,2003,2005), Hahn (2007) e Walter Benjamin (2014).
Palavras-chave: Atividades Artísticas, Artesanato, Pedagogia Waldorf.
Abstract: The present study sought in the Waldorf Pedagogy discourse the possibility of an education focused on the future of the human being, based on its proposition, which is to enable the subject to face the challenges of the contemporary world, integrating science and art, through of educational activities, artistic and craft practices, harmonizing the forces of thinking, feeling and doing. The objective of this research was to verify the relationship between the interest aroused by artistic and craft activities in relation to the formation of individual attitudes that express creativity, organization and collaboration, in a group of students enrolled in regular Elementary School in a small town in the interior paulista, and that after school, participate in an educational project, based on this pedagogical orientation. As a theoretical framework, we rely on Rudolf Steiner (2005,2015), Schiller (1990), Lanz (1990,2003,2005), Hahn (2007), and Walter Benjamin(2014).
Keywords: Artistic Activities, Craftsmanship, Waldorf Pedagogy.
Résumé: La présente étude a cherché dans le discours de la Pédagogie Waldorf la possibilité d'une éducation centrée sur l'avenir de l'être humain, basée sur sa proposition, qui est de permettre au sujet de faire face aux défis du monde contemporain, intégrant la science et l'art, à travers des activités éducatives, pratiques artistiques et artisanales, harmonisant les forces de penser, de sentir et de faire. L'objectif de cette recherche était de vérifier la relation entre l'intérêt suscité par les activités artistiques et artisanales par rapport à la formation d'attitudes individuelles qui expriment la créativité, l'organisation et la collaboration, dans un groupe d'élèves inscrits à l'école primaire ordinaire d'une petite ville de l'intérieur de São Paulo, et qu'après l'école, participe à un projet éducatif, basé sur cette orientation pédagogique. Comme cadre théorique, nous nous appuyons sur Rudolf Steiner (2005,2015), Schiller(1990), Lanz(1990,2003,2005), Hahn (2007)et Walter Benjamin(2014)
Mots clés: Activités artistiques, Artisanat, Pédagogie Waldorf.
1 INTRODUÇÃO
No discurso da Pedagogia Waldorf encontramos uma maneira para compreendera educação como um eixo estratégico para a promoção do desenvolvimento humano e social, integrando arte e ciência, fortalecendo, a capacidade de enfrentamento dos desafios que ameaçam o sujeito no seu desenvolvimento integral. De acordo com o seu criador, Rudolf Steiner (2015), o homem ao nascer é portador de um potencial de predisposições e capacidades que ao longo da vida lutam por se desenvolver.
Essas potencialidades individuais requerem estímulo, devendo ser favorecidas por meio de uma educação ajustada às necessidades do desenvolvimento e do aprendizado humano. Com essa finalidade, a Pedagogia Waldorf criou uma metodologia própria, a qual por meio do ensino das artes e das vivencias de cada um, objetiva tornar o homem livre da exploração, do poder e da manipulação presente em um mundo meramente materialista.
Rudolf Steiner (1861-1925) formou-se em engenharia na Escola Politécnica de Viena e obteve seu doutorado em Filosofia na Universidade de Rostock, na Alemanha, com a tese Verdade e Ciência. Após a sua formatura foi convidado a editar as obras científicas de Goethe(1749-1832), tendo acesso por meio desse trabalho às cartas escritas por Schiller (1759 -1805). Todo esse estudo acabou por influenciar as ideias presentes na filosofia de Steiner que, em 1893, escreve sua obra fundamental, considerada como um tratado em busca da liberdade de ação de cada ser humano.
Foram as ideias filosóficas presentes na Antroposofia, que deram origem a Pedagogia Waldorf.Os princípios dessa filosofia fundamentaram outras áreas de atuação humana e, na educação, ela se expressou por meio dessa pedagogia mediante o enfoque artístico, visando desenvolver o uso da imaginação e criatividade de seus alunos. Steiner ao falecer, deixou um grande acervo, sendo que ainda muitas obras não se encontram traduzidas em nosso país.
Comenta Hahn (2007)que, o processo de criação da Pedagogia Waldorf ocorreu durante uma das palestras de Steiner aos funcionários da fábrica de cigarros Waldorf Astoria, na qual os operários o questionaram sobre a possibilidade de ensinar sua teoria às crianças e jovens, uma vez que, para eles, operários, era difícil compreender aquelas ideias, pois não tinham tido uma educação que lhes tivesse proporcionado o entendimento necessário para poderem colocá-las em prática.
Steiner aceitou organizar então uma escola baseada na sua cosmovisão do ser humano. Ao aceitar o convite ele impôs como condição necessária que a escola fosse aberta a todos que se interessassem em cursá-la, o que lhe rendeu a denominação de Escola Waldorf Livre. Nesse momento, sentindo-se motivado para a abertura da escola, nos quatorze dias que se seguiram, ele realizou a capacitação dos professores, ministrando palestras e respondendo aos seus questionamentos.
De acordo com Bos (1986) após o fim da Primeira Guerra, Rudolf Steiner percebeu que correntes como o Iluminismo[3] e o Positivismo[4], exaltando somente a razão, estavam levando o mundo ao colapso, por serem concepções incoerentes com a constituição humana. A racionalidade preponderante à época não mais solucionava os conflitos sociais e econômicos. Assim, em uma tentativa de mostrar o seu ponto de vista, ele começou a ministrar palestras e a difundir seus conceitos antroposóficos pautados em sua obra, Os Pontos Centrais da Questão Social, partindo da revalorização dos ideais da Revolução Francesa Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que aplicados a cada um dos setores da sociedade, possibilitariam a transformação do homem e daquela situação vigente.
Dentro dessa linha de raciocínio, seus estudos sobre a Trimembração Socialatingiram também, a constituição humana trimembrada em corpo, alma e espírito, o que se torna naturalmente um caminho para o autoconhecimento do ser a partir das forças integradas da vontade, do sentimento e do pensamento, que devem ser desenvolvidas em épocas próprias, as quais ele denominou de setênios.
Dito isso, a Pedagogia Waldorf organiza-se em períodos de sete anos, para desenvolver com seus alunos as práticas pedagógicas pertinentes a cada uma dessas etapas. O primeiro setênio, corresponde à Educação Infantil e nele se trabalha com as forças da vontade. No segundo setênio, correspondente ao Ensino Fundamental, procura-se desenvolver as forças do sentimento e no terceiro setênio, referente ao Ensino Médio, as forças do pensar.
Pedagogicamente, nenhuma dessas fases deve ser antecipada, respeitando-se assim o percurso de tempo para o desenvolvimento das atividades próprias de cada um. Assim, podemos entender que, o objetivo da Pedagogia Waldorf é o desenvolvimento de sujeitos equilibrados nos seus aspectos físicos, psíquico e sociais que possam com confiança dar sentido e direção às suas vidas, pela busca da compreensão dos fatos, fenômenos e ideias que caracterizam o ser humano, utilizando-se da integração entre ciência, arte e espiritualidade.
Em Schiller (1990) encontramos a explicação sobre o princípio lúdico e os efeitos de sua aplicação na educação integral do ser humano. O autor explica que diante da experiência da arte e do belo, o gosto refinado do homem pode alcançar a disposição do impulso lúdico, que é uma força de vontade estética atuando em harmonia com o exercício da moral, capaz de purificar os sentimentos humanos e construir o caráter, possibilitando o equilíbrio entre as forças sensíveis e racionais no desenvolvimento da ética no ser humano.
Esse mesmo impulso lúdico foi evidenciado por Benjamin (2014) na criança, que, por meio da imitação, constrói uma forma de ela se libertar da realidade do mundo não só pelo brinquedo, mas pela experiência, a mágica e a fantasia. A imitação está em estado de potência na brincadeira e não, no brinquedo, ou seja, na experiência, porque brincar não é somente imitar, mas identificar-se, compreender o que se está vivendo no momento, “a criança quer puxar alguma coisa e isso se transforma em cavalo, quer brincar com areia e se transforma em pedreiro, quer se esconder e se transforma em bandido ou policial”(Benjamin, 2014, p. 93).
Dessa forma, a faculdade mimética superando a imitação apresenta-se nos jogos infantis como uma nova relação com as coisas no processo de conhecimento do mundo. Encontramos em Benjamim (2014),os subsídios orientadores para a análise das atividades artísticas e artesanais como promotoras de uma educação que almeja a formação de cidadãos criativos e conscientes.
Para Schiller (1990), nenhum impulso deve ser reprimido, mas sim, elevado à sua convivência por meio do impulso lúdico, caracterizado pela livre manifestação da espontaneidade, junto com a recepção do mundo e sua realização na criação pelo fruirestético. Somente a educação possibilita esse estado de estesia capaz de sanar o desequilíbrio entre o que ele denominou- impulso sensível e impulso racional.
É diante da experiência da arte e do belo que o gosto refinado do homem pode alcançar essa disposição do impulso lúdico, uma força de vontade estética atuando em harmonia com o exercício da moral, capaz de purificar os sentimentos humanos e construir o caráter que possibilita o equilíbrio entre as forças sensíveis e racionais no desenvolvimento da ética no ser humano.
Em 1945, com o final da Guerra, deu-se a reconstrução do movimento Waldorf e a sua rápida expansão pelo mundo, viabilizada por uma relação direta com o processo de conscientização sobre a missão da educação e das escolas, em conjunto com o trabalho dos pais, responsáveis e educadores. Assim, comenta Salles (2010), as escolas Waldorf se formaram por meio de iniciativas autônomas, como escolas comunitárias, criadas por iniciativa de um grupo de pais, professores, e futuros pais, quejuntos, formam um grupo de estudo sobre a Pedagogia e a Antroposofia, e neste processo coletivo acabam por amadurecer o impulso de criação de uma nova escola.

A Pedagogia Waldorf se coloca no caminho do aprimoramento do lado artístico, sensível, criativo e imaginativo do ser humano, proporcionando aos seus alunos uma vivência mais próxima da natureza, acreditando que essas condições são imprescindíveis para o preparo da vida no mundo real. Dessa forma, sua metodologia é organizada de modo a promover equilibradamente a alternância entre a atividade mais intelectualizada e as atividades práticas ou artísticas.
O desenho, a pintura em aquarela, a música, o canto, o teatro, a modelagem em argila, a arte da fala e os trabalhos manuais, assim como o tricô, o crochê, a costura, a marcenaria, a culinária, a educação física e a jardinagem são trabalhados no cotidiano escolar de forma bastante articulada com os conteúdos formais e com as demandas psicoemocionais do aluno, respeitando cada fase de seu desenvolvimento, para que assim ele possa vivenciar oaprendizado de forma significativa.
Dentro da Pedagogia Waldorf, a criatividade ao ser estimuladas pelas atividades artísticas e artesanais, desperta nas crianças seu pensar livre, o que possibilita o desenvolvimento de sua individualidade de maneira autônoma e responsável.

Esta é uma atividade divertida que todos gostam, principalmente as crianças no primeiro setênio (4-7anos). Normalmente eles tendem a imitar uma voluntária em seus movimentos na cozinha, colocando os ingredientes e amassando a massa do pão e das bolachinhas. Depois da massa pronta é só oferecer as forminhas para modelar a massa e decorar as bolachinhas que a alegria estampa no rosto dos pequenos aprendizes, fazendo olhinhos, boca e inventando histórias e criando um teatrinho na mesa, tendo como protagonista as bolachas de todos os colegas.


Dentro dessa concepção, o corpo é educado por meio de atividades práticas que, de acordo com Lanz (2003), fortalecem o caráter da criança, pois desenvolvem sua força, criando nela características ou impulsos, como, a disposição para enfrentar dificuldades e a perseverança, em continuar ou recomeçar.
Para Steiner (2005), a aceleração e o adiantamento do ensino formal não permitem o amadurecimento das vivências e experiências, favorecendo o acúmulo de informações e o hábito da superficialidade, uma vez que se passa a exigir sempre mais novidades, sem o entendimento e aprofundamento dos conteúdos.
As emoções são trabalhadas por meio da arte. São dadas, por meio da expressão artística, oportunidades para o refinamento da sensibilidade e a harmonização de conflitos na área afetiva e social. Quanto ao pensar, a mente precisa ser educada por meio da transmissão do conhecimento de forma balanceada e adequada à idade do aluno (LANZ, 2003.) Essa metodologia de ensino afasta a ideia de aceleração ou antecipação de aprendizado.
2 A IMPORTÂNCIA DAS ARTES E DOS TRABALHOS MANUAIS
A metodologia da Pedagogia Waldorf com a introdução das artes e dos trabalhos manuais objetiva estimular a imaginação e a concentração do aluno, além de desenvolver sua autoconfiança, destreza física, sensibilidade em relação a si e ao meio, e o equilíbrio mental que vai se operando por meio de um pensar criativo e um olhar crítico.
Desta forma, ela está totalmente imersa na arte em todos os seus conteúdos curriculares e não apenas como um aspecto independente do conhecimento humano. Ao examinarmos o currículo de cada setênio, podemos observar que essas atividades são realizadas pelos alunos desde os primeiros anos não apenas com o intuito de se ensinar habilidades específicas ou uma profissão. Pelo contrário, o objetivo é que a criança desenvolva múltiplas habilidades fugindo do caráter da especialização e com a possibilidade de se criar sujeitos que mais tarde possam enfrentar os caminhos escolhidos. Com efeito, para Lanz
Disso resulta a importância das matérias artísticas, que apelam ao sentimento e à ação do aluno: ele tem de fazer algo com as mãos ou outras partes do corpo, tem de criar algo que seja resultado de sua fantasia, usando a vontade, a perseverança, a coordenação psicomotora, o senso estético. Por isso essas matérias têm alto valor pedagógico e terapêutico, quando exercitadas com regularidade. (2003, p.135)
O fazer artístico da criança confere a ela uma metodologia e um aprendizado que serão essenciais à sua vida futura, sendo importante tanto para meninos como para meninas, uma vez que não existe qualquer distinção de gênero relacionadaàspráticas artísticas e pedagógicas, propostas pelas escolas Waldorf, que encontra nessas atividades uma forma de promoção das relações interpessoais de ajuda, autonomia individual e grupal, aprendizagens importantes para o seu desenvolvimento atual e futuro (ROMANELLI, 2008).
Para Salles (2010), nas citadas escolas, são ensinadas duas linguagens artísticas: a plástico-pictórica e a poético-musical. Essas linguagens apresentam sentidos distintos, enquanto a plástico-pictórica trabalha mais no aspecto da individualização do homem, a poético-musical trabalha na socialização, e assim ambas se completam. Quando o aluno pinta ou esculpe é sua vontade individual que está sendo trabalhada, e quando ele representa ou canta junto com seus colegas é sua sociabilidade que trilha o caminho por meio da arte. Quando os alunos praticam quaisquer das atividades artísticas, toda sua corporalidade está envolvida nisto, desenvolvendo, pois, nestas práticas a sua vontade e disposição para o agir. “Não há melhor treinamento da vontade do que exercitar alguma coisa repetidas vezes com alegria, justamente quando há dificuldades e obstáculos a serem ultrapassados” (CARLGREN; KLINGBORG, 2005, p. 45).

A música propicia uma vivência de liberdade e alegria, transformando movimentos instintivos em conscientes e controlados, exercitando a persistência e a paciência. Para Steiner (2003), ao se ler uma partitura ocorre a integração do pensar e sentir, favorecendo o equilíbrio e vitalizando pela ação, a interpretação musical. Nessa atividade, é desenvolvida a memória melódica que prepara a mente para uma coerência no pensamento lógico. Ainda de acordo com o pensamento do autor(2003), uma melodia possui uma estrutura que consiste em sequências e repetições, tendo começo, meio e fim e, nesse processo, a criança aprende a entrar em harmonia com o ambiente, sem perder o seu próprio caminho, adquirindo segurança nas relações com o grupo.
A musicalização é uma atividade intrinsecamente associada à experiência humana que favorece a socialização, ajudando a criança a aprender a trabalhar de forma colaborativa e a participar no grupo. Nessa perspectiva, a música contribui com a ideia de equilíbrio e da expansão dos sentidos, enquanto organiza a expressão, os sentimentos e as emoções.

Os ensinamentos práticos dessa pedagogia também estão ligados ao desempenho das tarefas manuais. Os alunos são incentivados a participarem de oficinas criativas onde a importância da educação artística e das manualidades é dada através do ensino de atividades práticas.
Para Steiner (2014), os trabalhos manuais têm um valor educativo elevado porque a coordenação mãos-olhos mantém o cérebro em grande atividade. De acordo com Romanelli (2008), a função dos trabalhos manuais está direcionada ao amadurecimento dos sentidos em relação ao espaço e ao movimento, destinando-se a desenvolver a motricidade e o conhecimento de atividades diferenciadas que a humanidade inventou como expressão estética e utilitária, o que torna seu aprendizado relevante do ponto de vista cultural, social e antropológico.
Na Educação Infantil, as crianças participam das aulas de trabalhos manuais, iniciando o aprendizado desde cedo, com bordado livre e tricô de dedos. No primeiro ano, trabalham o tricô com agulhas, depois no decorrer dos anos, aprendem o crochê, bordado em ponto cruz, costura, tear, macramê, confecção de peças e/ou pequenos consertos de objetos de madeira até os Anos Finais do Ensino Fundamental.
Steiner (2014) descreve essas atividades como importantes para a motricidade e o funcionamento cerebral, o tricô permite às crianças o desenvolvimento da motricidade-fina em ambas as mãos, sendo que só depois de dois anos, já no terceiro ano, é que a criança deveria passar a realizar também atividades de croché. Dessa forma, a criança aprende a utilizar as duas mãos para só depois sensibilizar apenas uma das mãos, aquela a que melhor se adaptar. Assim, ambas atividades são desenvolvidas de acordo com a evolução da própria criança, permitindo uma coordenação manual e o desenvolvimento do sentido estético.
Nesse contexto de interação e de aprendizagem, pudemos observar meninos e meninas sentados lado a lado, na aula de trabalhos manuais, fazendo tricô e crochê. O fato de essa prática pedagógica ser tratada como um aprendizado natural para todos nos faz perceber um certo entusiasmo nos meninos ao aprender a tricotar meias e também a remendá-las, o que deve reverberar nas concepções deles com relação aos trabalhos domésticos, fato esse que não agride a sua dignidade masculina (STEINER, 2014). Tais atividades manuais possuem imenso valor para o desenvolvimento sadio da criança, uma vez que possibilitam sua participação na criação de cada etapa, visualizando todo o processo com começo, meio e fim.

Essa técnica também proporciona ao aluno o contato com o mundo real, pois ao fiar, tecer, modelar transforma a matéria e reconhece sua capacidade de produzir algo. Outra finalidade reside justamente na compreensão do trabalho alheio, além do respeito ao trabalho manual e do estímulo ao desenvolvimento, de um gosto seguro por aquilo que é bem feito, uma vez que as obras produzidas não devem ser apenas decorativas, mas integradas pela forma e pela funcionalidade, no mundo real (LANZ, 2003).
Depois, podemos reconduzir o artístico de volta ao artesanal, de modo que as crianças aprendam a fazer ferramentas simples, utensílios domésticos comuns, e também, a utilizar de maneira correta ferramentas para trabalhos de carpintaria e marcenaria, projetando e construindo brinquedos como animais, bonecos e casas de bonecas. O entusiasmo de todos os deixa felizes em compartilhar o que fizeram por terem um caráter de utilização cotidiana. Vemos, nisto, como é efetivamente formado de um lado, o sentido para o prático e, de outro, o sentido para a arte (STEINER, 2014, p. 237).
Schiller (1990) comenta que, o sentimento educado pela beleza refina os costumes e propicia a clareza do entendimento, a vivacidade do sentimento e a dignidade na conduta, demonstrando certa organização interna refletida na manifestação desses comportamentos.
No quarto ano escolar se aprende a costurar, executando pequenas bolsas para trabalhos manuais, que podem ser bordadas ou pintadas depois. A partir desta fase, as crianças aprendem a fazer as peças individuais que compõem o seu vestuário. No quinto ano, os alunos são iniciados na tricotagem de meia e de luvas. Para isso, eles desenham ou pintam por si mesmos os respectivos esboços.

Entre o sexto e o sétimo ano os alunos costuram à mão, uma camisa ou outra peça de vestuário decorada segundo esboços próprios. Os meninos aprendem a produzir seus calções de ginástica e camisas. No oitavo ano é acrescentada a costura à máquina. Além disto, é proporcionado o conhecimento de tecidos e, por fim, são exercitados o cerzir e o remendar. Ainda no oitavo ano, os adolescentes se dedicam ao longo do ano a confeccionar todo o figurino e cenário da peça de teatro que é apresentada no segundo semestre, que é o momento em que culmina todo o processo que envolve as amplas habilidades aprendidas durante toda a vida escolar nesta pedagogia (CARLGREN; KLINGBORG, 2005).
Ainda conforme prevê a Sociedade Antroposófica, no nono e décimos anos escolares, os alunos são ensinados a projetar coerentemente trabalhos artesanais idealizados para fins determinados como almofadas, pastas, mantas, e executam seus projetos. A isso, são acrescentados trabalhos com ráfia, cestas, redes de dormir, chapéus, vestidos etc. Também exercitam a pintura em aquarela em cartazes e capas de livros.
3 ENTRE A EXPERIÊNCIA E A BRINCADEIRA
Vivenciamos uma época na qual o mundo se volta exclusivamente para o tecnológico, enquanto as atividades humanas estão sendo substituídas cada vez mais por máquinas como consequência desse processo, as mãos têm sido aprisionadas pelos toques nos computadores, impedidas de desenvolver seu potencial de trabalho e de criação.
Percebendo que as forças criativas e construtivas não mais se expressam por meio das mãos humanas, apoiamo-nos em (Schiller, 1990) que recupera a ideia de que a beleza é o caminho para que o homem não se distancie do seu propósito, no qual muitas vezes ele se perde pela rudeza ou pela perversão
Assim, as atividades artísticas e artesanais tornam-se um exercício de grande valor para o ensino e aprendizagem das crianças na nossa sociedade, visto que, a técnica prevalece em nossa cultura e os valores, são medidos pelo conhecimento ou pela produção.
Sob esse ponto de vista, tais atividades desenvolvem o caminho do equilíbrio para o desenvolvimento da personalidade, que, conforme defende Schiller (1990), o indivíduo assim educado não mais se localizaria nos extremos da ação excessivamente passional ou da exacerbação racionalista. Para o autor, o sentimento educado pela beleza refina os costumes e propicia a clareza do entendimento, a vivacidade do sentimento e a dignidade na conduta, demonstrando certa organização interna refletida na manifestação desses comportamentos.
Walter Benjamin foi contemporâneo de Rudolf Steiner, e suas ideias sobre o brinquedo, a brincadeira e o brincar possibilitaram reflexões sobre um mundo permeado pela técnica. Ambos viveram a mesma época, local e contexto social enfatizando a importância da formação do ser humano integral. Todo indivíduo atuante aspira pela totalidade, e o valor do desempenho individual reside precisamente nessa totalidade; ou seja, no fato de que a essência total e indivisível de um ser humano possa ganhar expressão. Mas a realização socialmente fundamentada, tal como hoje a encontramos, não contém a totalidade, é algo inteiramente fragmentado e derivado (BENJAMIN, 2014, p.35).
Benjamin (2014), foi um crítico do ensino onde predominava a informação à formação; o ensino voltado à profissionalização, a mecanização, no lugar da criação; o espírito burocrático do dever ao invés do espírito de pesquisa. Afirmava encontrar nos artistas e nas crianças a inspiração para o entendimento do mundo. “A falsificação do espírito criador em espírito profissional, que vemos ação por toda parte, apossou-se por inteiro da universidade e a isolou da vida intelectual criativa e não enquadrada no funcionalismo público”. (BENJAMIN, 2014, p.39)
Seu conceito de experiência tem como ideia central a busca pela experiência verdadeira, a vivência do real. Por meio dessa visão soube dimensionar a importância da ludicidade, do brincar) e dos jogos, que permitem a pura intuição da fantasia, como a bolha de sabão e as aquarelas, a construção dos brinquedos de madeira, chamando a atenção para os modelos industrializados, que representavam o universo e a transmissão cultural com valores do adulto, de mercadoria e consumo.
Steiner (2005) percebia que as experiências vividas pelos alunos influenciavam diretamente no seu desenvolvimento e aprendizagem.
Para a criança, o brincar era tão importante e sério, como é o trabalho para o adulto. Ao brincar, a criança vai adquirindo experiências e vivências com as quais vai aprendendo a se encontrar no seu meio ambiente, sendo que pelo brincar a criança reconhece o mundo e a si mesma, desenvolvendo a capacidade de relacionamento social.

Dessa forma, ao analisar a história cultural dos brinquedos, Benjamim (2014) enfatizou que foi a partir do século XIX que os brinquedos artesanais foram sendo, paulatinamente, substituídos pelos industrializados, ponderando, contudo, que quem escolhe os brinquedos é a criança e que muitas vezes acaba promovendo alguma mudança na sua função. Para o autor, a criança escolhe seus brinquedos, não raramente, entre os objetos mais insignificantes para os adultos, que olhando desse ponto de vista, elas escrevem a sua história artística por meio de uma produção a partir de resíduos do mundo social (externo).
Steiner (2015) também comentava que a industrialização prejudicava a capacidade intelectual e criativa das crianças, pois os brinquedos faziam a ação que elas poderiam imaginar, ficando dessa forma, presas nos movimentos próprios do objeto. A intenção era que o sujeito transformasse a sociedade, da mesma maneira como a criança se entrega ao brinquedo e, igualmente se espera, no futuro, com o estudo e o trabalho. A aproximação entre a arte e o artesanato decorreu do fato de que na antiguidade ambos tinham o mesmo significado porque tinham origem em habilidades manuais e não industriais. Nessas práticas, o artista e o artesão produziam sozinhos e por inteiro uma obra que exprimisse seus talentos por meio de suas habilidades.
Esses objetos devem ter por função, segundo Benjamin(2014), despertar a fantasia infantil, e é essa fantasia que proporcionará a continuidade da feitura e do acabamento do objeto, conforme as necessidades e uso da imaginação. Por isso ressaltamos que, não é o brinquedo quem determina a brincadeira. A criança ao brincar, ressignifica o mundo e as coisas do mundo para atender aos seus propósitos. “A criança quer puxar alguma coisa e isso se torna um cavalo, quer brincar com areia e torna-se padeiro, quer esconder-se e torna-se bandido ou guarda”(BENJAMIN, 2014, p. 93).
Portanto, podemos compreender, que tais atividades estariam permitindo às crianças a aquisição de um conhecimento por meio de uma ação, queatravés do exercício da vontadeautoeducam-se durante esse processo.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do grande desafio educacional que vem sendo evidenciado a cada dia em nosso país, pesquisar uma proposta pedagógica que objetiva atender as necessidades físicas, emocionais e espirituais do indivíduo, sobretudo na infância, pode se apresentar como uma alternativa viável, à medida que suscita questionamentos e reflexões sobre a formação integral do ser humano por meio de atividades artísticas e artesanais.
Este estudo intentou fomentar o debate sobre o papel da arte e dos trabalhos manuais na formação do aluno, entendendo que é possível refazer o vínculo da arte com o conhecimento, perdido com o uso acentuado da técnica e da mecanização, subtraindo do ser humano o desenvolvimento da sensibilidade, imaginação e criatividade. Do equilíbrio proposto entre razão e emoção, fornecido por essas atividades para a formação dos alunos, buscou-se analisar dentro das faculdades psíquicas do fazer, sentir e pensar, o objetivo de cada atividade proposta.
Colaborando com esse entendimento, nas aulas de aquarela observamos que a voluntáriado projeto só entregava a folha para a pintura depois que todo o material estivesse sobre a mesa, o que estimulava as crianças a se organizarem previamente, uma vez que essa era uma prática corrente nessa aula, e, como eles gostavam muito dessa atividade, procuravam se organizar rapidamente, e sem surpresas, aguardavam pela distribuição da folha de pintura.
Na costura buscavam cores de linhas que fossem parecidas com o tecido e ficavam atentos para que os pontos não saíssem diferentes, uma vez que encontravam na uniformidade deles a beleza que admiravam no trabalho, mesmo que fosse um simples alinhavo, a ser desmanchado depois. Constatamos a partir disso, que essas atividades desenvolviam nos alunos atitudes de perseverança e asseio, capricho, que acabavam por atuar no seu senso estético, resultando na vontade do aluno em fazer o seu melhor.
A metodologia de ensino Waldorf entende por fim, que o que importa não é o produto final das atividades que os alunos realizam, mas sim o processo que vivenciam, sendo que é por meio dele que os alunos vão formando seu aprendizado para a vida.
Todas essas práticas pedagógicas estão presentes em nosso cotidiano reveladas por uma rede de criatividade, afeto e transformação, ressignificando a produção e o trabalho ancestral relacionadas em um processo contínuo entre o pensar e o fazer no qual são predominantes, as manualidades [5].
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Notas

