Entrevistas

Entrevista com José Afonso do Nascimento

Frank Marcon

Revista TOMO

Universidade Federal de Sergipe, Brasil

ISSN-e: 1517-4549

Periodicidad: Semestral

núm. 32, 2018

revistatomo@gmail.com



DOI: https://doi.org/10.21669/tomo.v0i32.8846

Entrevista com José Afonso do Nascimento

Esta entrevista foi realizada com José Afonso do Nascimento, no dia 10 de fevereiro de 2018, em Aracaju. O entrevistado foi co- ordenador do Núcleo de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (NPPCS) e o primeiro editor da Revista TOMO, em 1998, também sendo o responsável pela edição do segundo número. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal de Ser- gipe (1976) e mestrado em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (1981) e em Estudos Políticos pela Universidade de Montpelier I, França (1982). Atualmente é professor efetivo no departamento de Direito da Universidade Federal de Sergipe.

FM - Nos fale um pouco de você, sua biografia, formação e trajetória na UFS.

JAN - Eu sou de Salgado, interior aqui do Estado. Nasci em 02 de agosto de 1954. Sou filho, sobrinho e neto de ferroviários da Leste Brasileiro. Afrodescendente e descendente de indígenas e portugueses. Fiz escola pública secundária. Me formei em Direi to, pela UFS, em 1976, pratiquei advocacia por um ano e depois fui realizar o mestrado em Direito em Florianópolis, em 1978. Lá fiquei até 1981 e tive a chance de participar do nascedouro do que mais tarde vai ser chamado Direito Alternativo, no Brasil. A partir daí minha formação teve uma transformação, amplian- do para outras áreas do conhecimento social e ficou mais inter- disciplinar, porque essa é uma característica deste movimento. Quando terminei o mestrado, a Capes me deu uma bolsa para realizar o doutorado em Direito, com Michel Miaille, sobre Te- oria do Estado e sob a perspectiva marxista. Não conclui e fui para o Rio de Janeiro em 1986 e lá passei dois anos. No magisté- rio trabalhei dois anos na PUC-RJ, na UFRJ e em uma faculdade metodista. A seguir, fui para os Estados Unidos, pois minha ex-mulher é cidadã americana e conseguiu emprego em Chicago, nós já tínhamos dois filhos e fomos para lá. Dei um curso em uma faculdade e atuei como professor substituto em uma escola secundária. Achei que aquilo não era meio de vida, voltei para Sergipe e fui contratado pela faculdade de Direito, na UFS, como professor visitante. Fiquei como professor no Direito. O Reitor naquela época era Alencar Filho. Em 1995, eu me efetivei atra- vés de concurso público. Nesse período já funcionava o NPPCS, que acho que era coordenado por Tadeu Rebouças. Quem me convidou para entrar no NPPCS foi Josué Modesto dos Passos Subrinho. Ibarê Dantas, que ensinava essa disciplina Teoria do Estado, tinha se aposentado e foi então que eu e Zé Maria assu- mimos. A direção do NPPCS ficava no prédio do CCSA, no andar de cima, e tinha um auditório que era utilizado para fazer reu- niões. A diretora era a Lica, uma professora do Serviço Social, que me disse que estava largando a direção e me perguntou se eu aceitaria assumir. Eu estava chegando, cheio de energia, e eu disse que se não houvesse nenhum interessado eu poderia me candidatar. Conversei com o colegiado e não havia interessados. No dia da eleição apareceu a professora Joelina Menezes e disse que também era candidata, o que foi um mal-estar... Então, o co legiado decidiu que aquele que perdesse deveria ficar como vice do outro. Transcorrida a eleição, eu fiquei como coordenador e ela como vice. A partir daí começamos a pensar em uma revista, acho que fui eu quem tive a ideia, não lembro ao certo. Em uma das reuniões do conselho para discutir o assunto, Ponciano Be- zerra foi quem sugeriu o nome Tomo. Alguém indicou um desig- ner gráfico, para fazermos capa e tal. Ah, antes disso, eu já tinha feito um curso que foi oferecido pela Reitoria, ministrado por um pessoal do Paraná, que veio explicar como fazer uma revista científica.

FM – E como era o NPPCS na época?

JAN - O NPPCS era um curso de especialização em Ciências Sociais, a maioria dos professores era mestre em diferentes áreas e um ou outro era Doutor. Lembro que o Zé Maria era... Alguns estavam fa- zendo e outros chegando com doutorado. Tivemos vários alunos que hoje estão por aí, continuaram o mestrado ou doutorado em outras universidades e alguns sei que mais tarde fizeram aqui.

FM – E do corpo docente atual, quem já era professor na época?

JAN - Acho que só a Tania Elias Magno. Acho que renovou completamente, a maioria entrou depois, chegou uma turma mais qualificada, com mais titulação, os outros foram saindo, é nor- mal, faz parte da renovação.

FM - E a Tomo, você disse que a ideia do nome foi do Poncia no, mas a ideia da revista se deu como?

JAN - A ideia acho que foi minha, pelo menos a do primeiro volume, do primeiro número sobre as Ciências Sociais em Sergipe. Eu lembro que eu tinha lido um artigo do Ibarê Dantas sobre a Ciência Política em Sergipe e eu disse, olha já cabe um artigo aqui. Assim como se a gente tentasse em um primeiro núme ro dar conta de quem tinha sido pioneiro nas Ciências Sociais em Sergipe. E a antropóloga Beatriz Góis Dantas, que é o grande nome da antropologia em Sergipe, embora tivesse lá atrás Felte Bezerra. E o professor Manuel Cabral Machado, que era consi- derado um dos pioneiros no ensino da Sociologia aqui, embora lá atrás tivesse Florentino Menezes, considerado o fundador da sociologia sergipana. Aí, eu disse, olha, dá para fazer esse ne- gócio aqui. Então, a gente pegou o artigo do Ibarê Dantas, que concordou que fosse publicado. Eu pedi a vários professores de antropologia e história para fazermos perguntas para a profes- sora Beatriz Góis Dantas para publicarmos uma entrevista com ela. E o professor Manuel Cabral Machado, eu o conhecia por ter sido aluno dele e fiz uma entrevista com ele. Ele tinha sido pro- fessor no curso de Direito, na UFS. Esse foi o centro do primeiro número [acessível no site da revista]. A apresentação quem fez fui eu e não me lembro mais dos outros artigos...

FM – O grupo justificou o nome Tomo?

JAN - Isto eu não lembro, mas nós estávamos em uma reunião para discutir o nome, vários nomes foram colocados, e o Pon- ciano sugeriu... Até a turma brincou, “tomo uma”, “tomo duas”, “tomo três”... [risos]. Aí, ficou. O segundo número, eu acho que ti- nha um americano aqui que fazia uma comparação entre a socie- dade civil nos EUA e em Santa Catarina, eu tinha um artigo meu sobre teoria do estado e quem fez a apresentação deste segundo número foi Ponciano, para eu não ficar escrevendo e também fa- zendo a apresentação no mesmo número... Ah, depois aconteceu o seguinte, quando eu estava lá, o Reitor José Fernandes Lima me convidou para ser Pró-Reitor de Assuntos Estudantis e o res- to do mandato foi terminado por Joelina, em seguida quem fez o terceiro número foi Tânia Magno. Como é praxe, ela assumiu e modificou todo o formato da revista. É isso.

FM – Como foi o processo para escolher a equipe, montar a estrutura e financiar a revista? E como foi o apoio da UFS?

JAN - Foi fácil, porque mesmo na época em que eu não estava na reitoria, eu já editava uma revista de Direito e eu já conhecia a Adilma Menezes e o pessoal do CEAV, além disto, o reitor dava apoio. Então, foi fácil. Eu não lembro como era feita a seleção, mas lembro que o professor Zé Maria participava muito, e acho que Ponciano também.

FM – Você lembra qual a tiragem impressa e o objetivo pelo qual ela foi criada?

JAN - Não lembro da tiragem. Os objetivos eram facilitar um espa- ço de publicação para o corpo docente e facilitar a transformação do curso de especialização em curso de mestrado. Eu lembro que fui uma vez à Capes, e por duas vezes à Anpocs, dentro desta ideia. Ou seja, o objetivo também era a afirmação e a visibilidade do cur- so perante à Capes, no sentido de avançar com o mestrado.

FM – A Capes deu algum apoio financeiro a revista?

JAN - Não, foi tudo custeado pela reitoria. Agora, como recurso humano, vale mencionar que a Adilma foi muito importante na parte de diagramação e editoração, pelo conhecimento que ela já tinha acumulado fazendo livros e outras revistas.

FM – Ela continua conosco e é pessoa fundamental para a re- vista. Outra coisa, Afonso, e o contexto da época, da univer- sidade, como foi pensar a revista com o governo e a reitoria da época?

JAN – Nessa época é a de Lima [Reitor], o presidente era Fernan- do Henrique, tinha passado um quadro de reformas, privatiza- ção e muitas greves. Também houve mudanças no processo de escolha dos reitores e a partir daí a limitação de que para ser reitor tinha que ser doutor. Foi aí que Lima entrou. Ele fez uma administração bem dinâmica, visitava a Capes, o MEC, conversa- va com deputados e senadores para colocar emendas para uni- versidade, etc. Eu lembro que na gestão de Lima, por exemplo, foram criados cadernos para publicação científica por departa- mentos e houve um estímulo à criação de revistas. Por exemplo, eu, quando fui Pró-Reitor de Assuntos Estudantis, também editei a revista Cadernos dos Estudantes, que já existia, mas estava pa- rada. Lembro, por exemplo, que História, Direito e Serviço Social também tinham seus cadernos. A Tomo surge nesse contexto.

FM – Uma questão que me chama atenção é que a revista se manteve durante um bom tempo em sua versão impressa, buscando manter a periodicidade. Mas, por volta de 2007 tivemos que abandonar o projeto impresso e optar pela revista eletrônica, por conta dos custos e das dificuldades com recursos. Como era isso na sua época? Havia recursos específicos, era vontade pessoal, política institucional ou o governo tinha programas de financiamentos para isto?

JAN – Eu acho o seguinte, todo mundo gosta de publicar, mas ninguém gosta de carregar o fardo de fazer a revisão e de operar com todo o processo que é fazer a revista. As vezes tem uma equipe, mas muitas vezes o trabalho é solitário. Então, eu era o coordenador do NPPCS, portanto, membro do conselho de pós-graduação e também conhecia e tinha acesso ao pessoal da reitoria. Lima queria fazer a universidade maior, queria que ela tivesse destaque, que ela tivesse o que mostrar, então ele foi um apoiador da revista. Além disto, vale lembrar que o vice-reitor era Josué Modesto dos Passos Subrinho, que também era mem- bro do NPPCS. Acho que as boas relações que membros do grupo e eu tínhamos com a Reitoria também facilitaram as coisas.

FM – Então, esse teu trânsito em cargos administrativos na uni versidade, acabou facilitando o nascimento deste projeto?

JAN – Eu acho que sim. Zé Maria, eu acho que também estava com um cargo na Pró-reitoria de Pós-graduação. Então, tínha- mos os contatos que ajudaram na efetivação da revista. O apoio de Ibarê Dantas também foi muito importante, pelo prestígio que ele tinha na área.

FM – Para irmos finalizando Afonso, como você foi se desligando deste universo da revista e do programa?

JAN – O meu desligamento foi... Olha, quando aquilo começou era gente de muitas áreas disciplinares, mas eu acho que foi com minha ida para a reitoria, também com a chegada de novas pes- soas na universidade, os desligamentos começaram a ser automáticos. Alguns foram se desligando, ocupando outras funções, como eu, que fui para a reitoria, e aí, aos poucos, foi acontecendo meu desligamento do corpo docente e da revista. Também, em 1998, eu descobri que tinha uma doença neurodegenerativa e tive que me preocupar em sobreviver e tive que viajar muito. Então, foi assim, você vê como são as coisas, agora, nos últimos anos, comecei o doutorado lá [no PPGS], mas acabou que também não terminei...

FM – Muito obrigado pela entrevista Afonso. Para finalizar, eu gostaria também de registrar o nosso agradecimento à sua contribuição, por você ter sido uma das pessoas responsáveis pela criação da revista e pelos primeiros passos dados há vinte anos atrás, para que hoje nós possamos ter uma revista reconhecida nacionalmente e consolidada na área das Ciências Sociais. Um projeto que sabemos que não é fácil de sustentar a longo prazo, pois se enfrentam inúmeras dificuldades para manter a periodicidade e ao mesmo tempo buscar o aprimoramento da qualidade e da abrangência da revista. Começar é sempre um passo importante...

JAN - Obrigado.

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