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Fenomenologia e Geografia: a imaginação dinâmica de Bachelard em tempos de redes sociais
Phenomenology and Geography: Bachelard's dynamic imagination in times of social networks
Revista Presença Geográfica, vol.. 08, núm. 01, 2021
Fundação Universidade Federal de Rondônia

Revista Presença Geográfica
Fundação Universidade Federal de Rondônia, Brasil
ISSN-e: 2446-6646
Periodicidade: Frecuencia continua
vol. 08, núm. 01, 2021

Recepção: 28 Maio 2021

Aprovação: 18 Agosto 2021

Resumo: Esse artigo visa refletir sobre a potencialidade da imaginação frente a novas realidades sociais permeadas pelo excesso de informações e tecnologias caracterizadas em especial pelas redes sociais. Tratamos aqui de imaginação sob uma ótica bachelardiana, onde imaginação é movimento e núcleo propulsor de criatividade, inteligência e sensibilidade, ou seja, instância poética. Estaria a imaginação sendo prejudicada pelo excesso e efemeridade linguística das redes sociais? Para responder a essa pergunta adentramos nos conceitos bachelardianos de devaneio e imaginação da matéria e dinâmica. Considerando ainda abordagens das geografias humanista e cultural, em especial através do geógrafo francês Eric Dardel, perguntamos que relações podem ser estabelecidas entre imaginação e geografia. E, por fim, apontamos aspectos que consideramos relevantes dessa abordagem com vistas à uma geografia fenomenológica.

Palavras-chave: Bachelard, Eric Dardel, fenomenologia, geografia, imaginação dinâmica.

Abstract: This article aims to reflect on the potential of the imagination in the face of new social realities permeated by the excess of information and technologies represented especially by social networks. Here we deal with imagination from a Bachelardian perspective, where imagination is movement and the driving force of creativity, intelligence and sensitivity, that is, a poetic instance. Could imagination be hampered by the linguistic excess and ephemerality of social networks? To answer this question, we get into the Bachelardian concepts of daydreaming and imagination of matter and dynamics. Also considering approaches from the humanist and cultural geographies, especially through the French geographer Eric Dardel, we question what relationships can be established between imagination and geography. And, finally, we point out aspects that we consider relevant to this approach with a view to a phenomenological geography.

Keywords: Bachelard, Eric Dardel, phenomenology, geography, dynamic imagination.

INTRODUÇÃO

Bachelard é um desafio, sua filosofia é aberta, menos preocupada com a construção de métodos fixos e mais disposta a mostrar que epistemologicamente estamos sempre em movimento, descobrindo, criando, aprendendo. Um autor que inicialmente estudou matemática, física e química e se tornou um filósofo da ciência – primeiro professor de epistemologia da Sorbonne – torna-se um pensador extremamente versátil e respeitado, capaz de discutir com profundidade tanto aspectos fundamentais da ciência cartesiana quanto questões poéticas e metafísicas.

Os historiadores e estudiosos de Bachelard o classificam sob dois aspectos: o Bachelard diurno e o Bachelard noturno[1]. O diurno é o filósofo da história da ciência e da epistemologia; o noturno é o filósofo da alma e da subjetividade humana, da imaginação e da fenomenologia.

Em vistas de desenvolver sua filosofia da imaginação, Bachelard adentra na relação íntima que existe entre o ser humano e os elementos primordiais do planeta: terra, água, fogo e ar. Nesse sentido, a geografia fenomenológica de Eric Dardel se aproxima da filosofia bachelardiana. Dardel nos ensina que a relação do ser humano com a Terra é íntima, profunda, em suas palavras: “visceral”. Não é uma metáfora, nem fictícia, é fisiológica e maternal. Os mares e os rios, campos e estradas, portos e cidades, eles não estão simplesmente lá como símbolos ou metáforas; eles nos abraçam, ativam nossas memórias e percepções, movimentam a nossa vida psíquica e sentimental. Ideias e lugares, espaços e pensamentos são amantes velados, forças pujantes que se retroalimentam.

Na verdade, o processo pelo qual sentimos e pensamos é complexo, nele se misturam imagens, palavras e percepções. Sem o mundo material por base como construiríamos o mundo dos pensamentos, das palavras e das ideias? A linguagem é uma extensão das coisas, e as coisas alimentam a visão, o toque e a imaginação; fertilizando assim as palavras.

Bachelard é um filósofo que vai a fundo na relação do imaginário com o real. “De fato, a maneira pela qual escapamos do real designa claramente a nossa realidade íntima. Um ser privado da função do irreal é um neurótico, tanto como o ser privado da função do real.” (BACHELARD, 2001, p. 7) Em Bachelard real e imaginário não são instâncias separadas, mas que se retroalimentam. De certa forma, a ideia bachelardiana é a de que quem não sabe sonhar não sabe percorrer todas as possibilidades do “real”. Quem de nós sabe sonhar em sua plenitude? Sonhar aqui não é o sonho do sono, mas o sonho da possibilidade e abertura das múltiplas viagens do pensamento. O que seria da ciência sem o pensamento livre, aberto e questionador? “O sonho não é um produto da vida acordada. É o estado subjetivo fundamental.” (BACHELARD, 2001, p. 101)

Lembremos que Bachelard antes de ser o filósofo do imaginário e dos sonhos, do devaneio e da poética, iniciou o seu percurso acadêmico como professor de matemática. Contudo, ele definitivamente nunca se limitou aos modelos cartesianos. Sempre lutou por uma razão aberta capaz de se autoquestionar e autorrenovar. Com uma forte inclinação para a literatura e linguagem poética, ele desenvolveu uma filosofia da imaginação que culminou em uma fenomenológica do espaço que percorre, em especial, o mundo psicológico e sua relação com os elementos: terra e água, fogo e ar. Os títulos de algumas de suas obras são bem sugestivos sobre a natureza do seu trabalho: A psicanálise do fogo, A água e os sonhos, O ar e os sonhos, A terra e os devaneios da vontade, A poética do espaço, A poética do devaneio, A chama de uma vela...

Bachelard nos mostra, portanto, que cada palavra pode ser uma porta para a abertura de um novo mundo. Mas nos mostra também que cada palavra nasce de uma imagem e essas, por sua vez, especialmente quando carregadas de força poética, têm ressonância nos elementos mais profundos oriundos do seio do próprio planeta.

Mas que lentidão de meditação precisaríamos adquirir para viver a poesia interior da palavra, a imensidão interior de uma palavra. Todas as grandes palavras, todas as palavras convocadas para a grandeza por um poeta, são chaves do universo, do duplo universo do Cosmos e das profundezas da alma humana. (BACHELARD, 1993, p. 203)

Bachelard é um dos poucos filósofos que convida o leitor à meditação, que ensina que existem níveis de percepção criativa além dos estados objetivos de racionalidade. Aqui não há nada de religioso ou místico, mas de mental e transcendental, “a imensidão interior de uma palavra”. Uma palavra pode despertar uma imagem, um teor psíquico, uma memória. Uma palavra não é só uma palavra, mas a possibilidade de uma experiência. “Pela simples lembrança, longe das imensidões do mar e da planície, podemos, na meditação, renovar em nós mesmos as ressonâncias dessa contemplação da grandeza.” (BACHELARD, 1993, p. 189)

É nesse sentido que caminha a fenomenologia bachelardiana, entender que a psique humana se alimenta da materialidade do próprio planeta. As matérias básicas: terra, água, fogo e ar, as quais já no séc. V a.C. Empédocles de Agrigento considerava as raízes da realidade, nos dão uma força psíquica fundamental. O ar nos expande, as forças psíquicas de liberdade e ascensão estão todas ligadas ao ar. O fogo nos aquece, nos conforta com o seu calor moderado ou nos destrói com a sua chama incontrolável; todo o psiquismo do desejo e do sexo se relaciona ao fogo. A água nos sacia, toda a ideia de pureza e maternidade é ligada a imagem de uma água limpa, todo psiquismo do sentimento e da melancolia é ligado à água. A terra nos dá o suporte para a vida, nos dá o alimento, nos dá a textura, o toque e a profundidade; todo o sentimento de segurança e estabilidade é ligado ao psiquismo da terra.

Dito isso, percebemos que em Bachelard a imaginação é uma força muito profunda. Não é apenas um abstrato ou um irreal, mas é algo vivo, condição sine qua non da própria sinestesia humana, amarrada ao psíquico e inclusive ao fisiológico. A imaginação se nutre dos elementos primitivos fundamentais; por isso imaginação material, tema esse trabalhado no livro “A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria”.

Além disso, a imaginação não é apenas passiva, não mora apenas no olhar; ela pode ser também ativa, construtora; assim ela se transforma na imaginação das mãos, na imaginação que molda, cria e que se movimenta: a imaginação dinâmica.

Na ordem da imaginação dinâmica, todas as formas são providas de um movimento: não se pode imaginar uma esfera sem fazê-la girar, uma flecha sem fazê-la voar [...] Como toda esfera, o enorme globo da Terra tem para a imaginação dinâmica a delicada mobilidade da rotação. (BACHELARD, 2001, p. 46-7)

A imaginação dinâmica é a imaginação capaz de construir movimentos, ou seja, não se trata apenas de imagens fixas (formas), mas de situações mentais articuladas dentro de contextos psíquicos específicos, poderíamos até mesmo falar em “paisagens mentais”. Considerando esse poder da imaginação da matéria e dinâmica – poder esse que nos dá muito mais sensibilidade e percepção – podemos nos perguntar sobre que relações podem ser estabelecidas entre imaginação e geografia. E ainda, se realmente estamos utilizando todo o potencial imaginativo que temos considerando a efemeridade e agitação pós-moderna em que vivemos.

Imagens fixas e imagens móveis: desafios nas redes sociais

Vivemos um momento histórico-social em que tudo se fragmenta numa velocidade muito rápida, tempos líquidos como diria o pensador e sociólogo Zygmunt Bauman (2000). As tecnologias mudaram e com elas as maneiras de se perceber o mundo em diversas áreas: cultural, ambiental, política, ética, estética... as informações são muitas e efêmeras. Há toda uma lógica comercial feita para encantar, captar e, poderíamos mesmo dizer, prender. A exposição nas redes sociais cresce, e o tempo gasto com elas aumenta substancialmente. Por quê? Narcisismo? Que tipo de necessidade, de vontade nos faz ficar tão ligados, tão magnetizados por essas redes?

Muitas pessoas sentem dificuldades de diminuir o tempo gasto em redes sociais. Muitas inclusive afirmam perceber que o excesso do uso dessas redes não lhes faz bem (DEL CASTILLO, 2014). A questão que colocamos aqui é se essas redes sociais estariam, de alguma maneira, inibindo a capacidade imaginante inerente ao próprio cerne da força psíquica humana[2]. Para responder essa questão convém entender o funcionamento e potencialidade da imaginação dinâmica e, ao mesmo tempo, o funcionamento do pensamento conduzido pelo fluxo das imagens oriundas do mundo das redes sociais. Outro ponto importante se refere ao devaneio, esse instante de desprendimento e abertura onde possibilidades imaginativas surgem de maneira totalmente nova.

Pois bem, as imagens das redes sociais são imagens carregadas de cores e virtualidades, poderíamos mesmo dizer esteticamente exageradas; são bonitas e convidativas, claro; mas é importante entender: são imagens prontas. Não que a mente criativa não possa trabalhar com imagens oriundas das redes sociais de forma dinâmica, é claro que sim. Mas a imaginação dinâmica não é jamais uma espectadora passiva, ela é ativa, pois sua própria essência é o movimento. Contudo, muitas das imagens virtuais das redes sociais são articuladas no sentido do espectador passivo, e não do ser imaginante. Imagens já tão formatadas pela cultura que se tornam excessivamente simples, ou simplistas. A exemplo dessa questão Bachelard observa que “A imagem aprendida nos livros, vigiada e criticada pelos professores, bloqueia a imaginação.” (2001, p. 12)

A efemeridade dessas imagens, o fluxo amontoado delas não incentiva o sujeito a formar conexões profundas com elas ao ponto de se tornar um ser imaginante, ou seja, de projetar o seu poder de modelador e transformador de imagens. A imagem, se não estiver vinculada a forças profundas do ser, de maneira geral, será simplesmente uma forma; o poder de movimento e transformação nesse caso não está na imagem, mas no imaginar.

Temos visto modelos metodológicos baseados no que chamam de pirâmide de aprendizagem afirmando que (de forma bem quantitativa e, portanto, um tanto estranha) aprendemos apenas 10% quando lemos; 20% quando ouvimos e vemos (por exemplo, vídeos); 50% quando discutimos com outros; 75% quando fazemos e 90% quando ensinamos aos outros.

Claro que não negamos que discutir, demonstrar e ensinar nos coloca em situações que são excelentes ao aprendizado. Mas o que questionamos é que essa afirmação de que “só aprendemos 10% ao ler” simplesmente desconhece ou desconsidera completamente o poder imaginante do leitor. O leitor que tem um poder imaginante (e, diga-se de passagem, esse não é nenhum poder fora do comum, todos o temos em menor ou maior grau) não será de maneira alguma um leitor passivo, um mero espectador. Pelo contrário, ele dialogará com o texto, criará pontes com outros textos e ideias, outras formas e possibilidades. É assim que se forma o pensamento imaginante, imaginante significa aqui amplo, diversificado, novo, criativo, aberto. Ele se forma pelas múltiplas portas que se abrem por sua própria capacidade de se conectar e transformar, multiplicar e dividir. A falta de conhecimento do funcionamento desse tipo de pensamento é que faz nascerem afirmações tão pobres como essa, de que aprendemos somente 10% ao ler. Se assim fosse, esse seria, a nosso ver, um péssimo leitor. Poderíamos, a título de comparação, dizer que um bom leitor que tenha lido um livro tem mais argumentos que um mau leitor que tenha lido 10, 15 ou 20.

As imagens das redes sociais são muitas, mas sem ramificações profundas, sem raízes; isso porque elas chegam antes aos olhos do que ao coração. Em Bachelard o imaginar não é apenas visual, ele se produz por um movimento do pensamento e da linguagem, movimento esse íntimo, profundo; feito de toques, sensações, olfatos, memórias, experiências. Rompe-se aqui com a lógica ocidental-cartesiana que privilegia o olhar, a imaginação bachelardiana não é ficção ou abstração, é força espiritual em movimento, é energia psíquica viva e ativa. Não estamos falando do observador passivo que privilegia os olhos, estamos falando do trabalhador ativo que constrói com as mãos e com o sentimento.

Nas redes sociais como diria o sociólogo Zygmunt Bauman (2000, 2004) nos conectamos e desconectamos muito facilmente, é tudo muito rápido e fluido. As coisas vêm e vão de forma tão rápida que não temos tempo de experienciar o fenômeno; não mergulhamos, apenas experimentamos a superfície. Na superfície não esforçamos o fôlego, não desenvolvemos a capacidade pulmonar. O pulmão na medicina chinesa é o órgão do elemento ar, o elemento do movimento e da liberdade na filosofia bachelardiana; o elemento primordial da imaginação dinâmica.

Talvez seja uma boa metáfora afirmar que nas redes sociais já não temos mais fôlego, nos tornamos preguiçosos. Já não pensamos de forma a devanear, evocar paisagens mentais, viajar pelo pensamento. E por isso não refletimos, por isso não filosofamos. Apenas repetimos, reproduzimos, imitamos, mas quase não criamos. Estamos dormindo, mas não sonhamos. Lembrando a forma poética da linguagem Bachelardiana poderíamos dizer: como é triste um sono sem sonhos.

Nós entramos nos chats e temos “camaradas” que conversam conosco. Os camaradas, como bem sabe todo viciado em chat, vêm e vão, entram e saem do circuito – mas sempre há na linha alguns deles se coçando para inundar o silêncio com “mensagens”. No relacionamento “camarada/camarada”, não são as mensagens em si, mas seu ir e vir, sua circulação, que constitui a mensagem – não importa o conteúdo. Nós pertencemos ao fluxo constante de palavras e sentenças inconclusas (abreviadas, truncadas para acelerar a circulação). Pertencemos à conversa, não àquilo sobre o que se conversa. (BAUMAN, 2004, p. 52)

Segundo Bauman, criamos através das redes sociais uma linguagem truncada, fragmentada; ansiosa por natureza e impaciente pela própria estrutura na qual se fundamenta. Queremos as notícias e mensagens o mais compactas possível; acreditamos que quanto mais sintetizadas forem mais ganharemos tempo. Mas por outro lado, por paradoxal que seja, o efeito é contrário, já não temos tempo (ou não nos damos o tempo) de entender o conteúdo psíquico das mensagens e fazer as conexões mentais necessárias para criar processos mentais criativos e imaginativos.

A imaginação da matéria e imaginação dinâmica

Bachelard nos ensina que “uma matéria fielmente contemplada produz sonhos.” (1997, p. 55) No livro “A água e os sonhos” o filósofo trata sobre a íntima relação que existe entre o homem e a matéria. Bachelard vai fundo nessa relação, transcendendo a clássica dicotomia sujeito e objeto, ou, objetividade e subjetividade.

Para Bachelard, as matérias fundamentais, primordiais ou primitivas, ou seja, o ar, a água, a terra e o fogo inspiram o nível de imaginação mais profunda do ser humano. Essas matérias não são simplesmente “matérias”, elas são substâncias originais que alimentam a nossa força mental e emocional. É nesse sentido que o bachelardismo nos apresenta uma fenomenologia profunda, os elementos transcendem a simples materialidade e se tornam uma espécie de ponte entre o ser e o mundo. Eles fazem parte do humano no sentido de que lhe permitem sentir e entender o mundo e a si mesmo.

Nesse livro em especial, um dos intuitos de Bachelard é dar uma contribuição à literatura e à poesia. Segundo o autor, – numa linguagem que nos conduz a investigar o teor semântico das palavras – as verdadeiras imagens poéticas brotam do inconsciente do ser; esse inconsciente está ligado por um magnetismo natural aos elementos do planeta. O ser e o mundo – esse par ontológico – encontrado em outras abordagens fenomenológicas, na linguagem poético-filosófica bachelardiana se transforma nos elementos materiais e na imaginação poética. Todos nós temos a capacidade da imaginação poética, essa é uma imaginação aberta, que tem por característica um silêncio sensível, uma sensibilidade ativa capaz de absorver, criar, interpretar, mover... Nesse sentido, as verdadeiras poesias e obras, as que nos comovem, que tocam realmente em nossa alma, são aquelas que de uma forma ou de outra buscam sua força em algum desses elementos materiais.

Para defender essa tese, Bachelard percorre diversos autores e demonstra a força onírica de suas produções. Assim, o sonho, o devaneio e a poesia são pontes de encontro com o lado “noturno” da alma, com o inconsciente do ser. A realidade da força psíquica dos elementos se revela nessas produções literárias e artísticas. Por isso Bachelard fala em “imaginação da matéria”, o que ele quer dizer não é que a matéria “tenha” uma imaginação, mas que ela propicia um substrato fundamental ao sentido imaginante do ser. Sob esse olhar, a objetividade positivista dos elementos se transmuta em uma subjetividade significante, altamente abrangente e, ainda por cima, profundamente real sob o ponto de vista psicoemocional.

Imagem e devaneio são duas palavras importantes para a compreensão das reflexões bachelardianas. A imagem em Bachelard não é simplesmente ou, exclusivamente visual, tanto é que Bachelard fala em “imagens visuais”[3], o que nos mostra que, sob a ótica desse autor, é verídica a existência de imagens não necessariamente visuais.

Sendo assim, o que é então uma imagem? Ela é um nome dado para referir-se a um nível específico de concentração do pensamento. Um nódulo, uma condensação de forças psíquicas capaz de fazer brotar um algo específico, no caso: uma imagem. Bachelard compara, por exemplo, a imagem a uma árvore, que precisa ao mesmo tempo de terra e ar, ou seja, forma e substância.

Mas convém reforçar que não existe um só tipo de imagem. Temos por exemplo as imagens apreendidas nos bancos escolares, já sacralizadas e cristalizadas pela cultura; e temos as imagens primitivas, imagens provenientes dos elementos materiais e que tem ressonâncias diretas com o âmago do ser. Dito de outra forma: imagens formais e imagens poéticas.

Bachelard fala em um “complexo de cultura”, ou seja, conhecimentos, “imagens” apreendidas nos bancos escolares; algo comum, de fácil entendimento e de pouca profundidade. Diferente da poesia que nasce do verdadeiro devaneio e que se nutre das substâncias fundamentais oriundas da imaginação da matéria (terra, água, fogo e ar). Há, portanto, um complexo de cultura – amplificado pelas redes sociais – que propaga, muitas vezes, imagens superficiais; que tem como propriedade muito mais a forma do que o conteúdo. E há um mundo das imagens primordiais, a “imaginação da matéria” que alimenta os traços mais íntimos do ser, seja em que tempo ou em que espaço for.

Portanto, podemos concluir que a categoria “imagem” em Bachelard é uma força do pensamento. Já a imagem poética especificamente, é uma força viva e vivificante proveniente do encontro de uma psique que sonha com uma matéria que nutri e alimenta.

O tema da imaginação é central na análise da obra bachelardiana, porque é através dele que entenderemos como Bachelard desenvolve a sua fenomenologia. Em outras palavras, a imaginação é um fenômeno próprio da concepção fenomenológica de Bachelard. Em seu livro “A poética do espaço”, no capítulo “O ninho”, Bachelard utiliza um exemplo esclarecedor para explicar a função da fenomenologia:

É uma nova oportunidade de desfazer um mal-entendido sobre a função principal da fenomenologia filosófica. A tarefa dessa fenomenologia não é descrever os ninhos encontrados na natureza, tarefa positiva reservada ao ornitólogo. A fenomenologia filosófica do ninho começaria se pudéssemos elucidar o interesse que sentimos ao folhear um álbum de ninhos ou, mais radicalmente ainda, se pudéssemos reviver a ingênua admiração com que outrora descobríamos um ninho. Essa admiração não se desgasta. Descobrir um ninho leva-nos de volta à nossa infância, a uma infância. A infância que deveríamos ter tido. (1993, p. 106)

Há, portanto, uma diferença entre catalogar e vivenciar. Sobre o exemplo dos “ninhos”, veja como é suave e sutil a ideia de recordar da criança que encontra um ninho, os seus sentimentos, as suas emoções e expectativas. Falamos aqui da capacidade de sentirmos em profundidade os “pequenos”, ou grandes, momentos. O adulto ao deixar a infância perde muito do encantamento com a vida, este relegado a segundo plano como coisas pueris. A fenomenologia, a qual não busca apenas o fato, mas também o sentido do fato; não se dá ao luxo de descartar o valor dessas percepções: temperos e cores da experiência.

Fenomenologia é, portanto, o estudo de um encontro, da relação do ser que vive com o que é vivido. É o interesse por avaliar seriamente a percepção de uma experiência profunda, profunda aqui não quer dizer complexa ou pomposa; mas significante, mesmo que simples, mesmo que singela, mas verdadeira para quem vive.

A base fenomenológica de Bachelard nasce, inicialmente, de uma filosofia da imaginação; essa muito ligada à uma relação profunda com os elementos materiais. É nesse sentido, que a Terra pode ser nossa mãe, o planeta nossa casa, a água um condutor, o ar é expansão, o fogo transformação. Perceber e entender essa ressonância do planeta em nós não deixa também de estar na base do que seria uma geografia fenomenológica. Mas como despertar e viver essa percepção de uma familiaridade tão grande com a materialidade terrestre? O devaneio pode despertar essa percepção e entendimento, assim como o sonho ou a poesia.

Aberturas geográficas: o devaneio

O espaço geográfico é diferente do espaço geométrico, essa é uma tese defendida por Dardel. O que quer dizer isso? Significa que temos aí ontologias diferentes: enquanto o espaço geométrico é pautado na mensuração, sendo um espaço neutro e quantificável; o espaço geográfico é um existencial fundado na relação entre o ser e a Terra. Nesse sentido, a Geografia – enquanto ontologia – transcende o status de disciplina científica e se apresenta, ela mesma, como característica humana de habitar a Terra.

Ora, se a essência da Geografia não é apenas neutra e pragmática, mas também subjetiva e poética, como captar toda essa dimensão imagética e sonora, odorífera e emocional que surge no âmago da experiência terrestre? Se tenho na Geografia uma ontologia que só me pode ser explicada por caminhos fenomenológicos, o devaneio surge, então, como uma possibilidade de abertura para descobertas e investigações sobre a natureza do espaço.

Sobre o devaneio, podemos considerar que ele é uma espécie de “pensamento” aberto, um estado espiritual de abertura para novos pensamentos e percepções. É uma espécie de “sonhar acordado”, é se permitir ser invadido por pensamentos de uma forma livre, sem censuras e sem esquemas lógicos ou preconcebidos.

É interessante observar que ele acontece em um momento de transição entre a lógica diurna e o sono noturno; é um instante de “não atenção” e de relaxamento, mas ao mesmo tempo de entendimento (mesmo que esse entendimento se dê em um nível diferente de consciência). Ninguém devaneia tenso, ninguém devaneia preocupado com o futuro; seria extremamente difícil, talvez impossível, para alguém em um momento de estresse devanear. Talvez por isso, nos dias de hoje, o devaneio torna-se algo cada vez mais raro. A sociedade do cansaço[4], como bem definiu Han (2019), a qual nos coloca como escravos da eficiência, não nos permite parar ou relaxar. Não é só o patrão que nos cobra, nós estamos sendo treinados a sermos cobradores compulsivos de nós mesmos.

Já o devaneio nasce do instante, é um momento sem amarras e sem defesas, o ser ali está aberto – muitas coisas podem acontecer. Não deixa de ser um viajar. Nesse estado as imagens poéticas, oníricas, inconscientes ou íntimas podem surgir. Ao surgir, justamente por serem íntimas ou primordiais, elas vivificam o ser, lhe fortalecem; dando-lhe ideias, prospectivas, propósitos... imaginação. Sempre que o lado noturno da alma fala, esferas superiores do pensamento são magnetizadas.

O devaneio, portanto, abre possibilidades para surgir algo novo: pensamentos, sentimentos, sensações, intuições... pelo devaneio “portas” são abertas. Na diferença entre prosa e poesia encontramos justamente a liberdade do devanear. Para além do sono e da vigília há uma possibilidade, um intervalo, uma fresta, uma rota de fuga dessa lógica frenética do relógio que insistentemente nos aprisiona: o devaneio.

O que seria habitar a Terra sem a capacidade do devaneio? Quanto perderíamos da nossa capacidade de contemplar as belezas: os campos e os rios, as obras de arte e arquiteturas, sem essa capacidade humana tão sutil de se perder por um momento em si mesmo e na paisagem. O devaneio nos transporta para além ao mesmo tempo que nos faz adentrarmos em nós mesmos. É, portanto, uma chave para conhecermos dimensões subjetivas da nossa íntima relação com a Terra.

Em busca de uma fenomenologia geográfica: a imaginação dinâmica

A história da Geografia é longa, enquanto conhecimento formal inicia-se com os gregos associada à Astronomia, depois terá profundas ligações com a Cartografia (CLAVAL, 2006). Na modernidade ramifica-se em diferentes escolas e correntes: geografia teorética ou positivista, geografia crítica ou social, geografia humanista e geografia cultural. (GOMES, 2007) Muitos debates foram e são travados entre essas correntes, mas alguns autores consideram que a Geografia é plural, havendo, portanto, espaço para todas as perspectivas (AMORIM FILHO, 2007).

Seja como for, a argumentação mais peremptória é a de que o fenômeno humano não pode ser abarcado apenas pela visão da ciência “dura”, racionalista. O ser humano não é apenas razão e pragmatismo, mas também emoção e poesia. Edgar Morin (1997) argumenta que a existência humana é um misto de prosa e poesia. Segundo ele o ser humano tem duas maneiras de habitar a Terra: de maneira prosaica e de maneira poética. Prosa e poesia aqui, não se referem exclusivamente ao aspecto literário, vai muito além dele, refere-se a tipos de qualidade de existência, a maneiras de perceber, entender e agir.

Essa temática é pertinente em Geografia justamente porque essa ciência trata das maneiras em que o ser humano habita a Terra. As relações que se estabelecem entre os seres humanos e seus espaços, os tipos e significados dessas relações. O espaço influencia o homem ao mesmo tempo em que o homem molda o espaço, temos aqui uma relação retroalimentar e dialética. Terra e homem são dois polos de uma mesma ontologia. Nesse sentido, entender as formas prosaica e poética de habitar a Terra é um passo interessante para compreender a dimensão fenomenológica da Geografia.

Enquanto o prosaico é a nossa vida regida pelo relógio, pelos compromissos e obrigações: pagar contas, consertar um carro, levar um filho à escola... uma série de coisas que fazemos e que de uma maneira ou de outra se tornam atividades “mecânicas”, atividades para a sobrevivência. O poético nasce da sensibilidade do instante. Não existe o poético desconectado do agora, e também não existe o poético alheio e indiferente; o poético é sempre “sincero”. Portanto, o estado poético de existência, seja ele de longa ou curta duração, é sempre um mergulho na percepção profunda da experiência qualitativa.

Um bom filme que se assiste e que te faz “entrar” na história, um vinho que se bebe sem pressa, um culto religioso onde o devoto ao sair se sente com “a alma leve”, um encontro com a pessoa amada ou com os entes queridos... Todos os momentos em que nos entregamos ao instante e que de alguma maneira esquecemos as preocupações: a dança, a festa, a música, a arte, o amor... todas essas vivências que nos transcendem podem ser chamadas de poéticas.

Dito isso, passemos a uma breve análise da obra de Eric Dardel. O geógrafo francês tinha interesse por diversos temas: filosofia, artes, história, poesia... era um pesquisador de refinada sensibilidade quanto a percepção das experiências proporcionadas pela natureza[5]. Nesse sentido, ele escreve a sua principal obra: O homem e a terra: natureza da realidade geográfica, publicada em 1952. Neste livro, Dardel propõe nada menos do que uma abordagem fenomenológica para a geografia. Ele fala que a experiência humana no planeta, a Terra, é carregada de sentidos e possui uma profundidade ontológica que não pode ser descartada. Publicada em um momento histórico de empolgação com as abordagens possibilistas na geografia, o livro de Dardel passa praticamente despercebido da comunidade geográfiaca. É na década de 70 que geógrafos da geografia humanista vão redescobri-lo, com destaque especial a Edward Relph, o qual publica um significativo artigo intitulado: As bases fenomenológicas da Geografia. Paul Claval reconhece a importância da contribuição de Dardel, segundo ele:

Dardel enfocou uma ideia central: a geografia tinha de explorar o sentido da presença humana na superfície da Terra. [...] Os geógrafos franceses dos anos cinquenta ignoraram completamente o livro de Eric Dardel. Ele foi redescoberto no começo dos anos setenta pelo geógrafo canadense Edward Relph, e influiu muito na nova corrente da geografia humanista, nos países de língua inglesa. (CLAVAL, 2002: 156-7)

Fica claro que a visão geográfica de Eric Dardel divergia das concepções positivistas dominantes na época. Dardel já trabalhava uma geografia que buscava significados e que valorizava aspectos subjetivos da natureza humana na construção de suas paisagens e lugares. A abordagem unicamente cartesiana e o espaço geométrico não eram suficientes para ele. “O espaço puro do geógrafo não é o espaço abstrato do geômetra: é o azul do céu, fronteira entre o visível e o invisível [...] Esse espaço material não é, de forma alguma, uma “coisa” indiferente, fechado sobre ele mesmo, de que se dispõe ou que se pode descartar.” (DARDEL, 2011, p. 8)

Eric Dardel (1899-1967) é contemporâneo do também francês Gaston Bachelard (1884-1962). Ao ler a obra dardeliana não é difícil perceber traços da influência do “filósofo dos elementos”[6]. Dardel chega a citar diretamente Bachelard: “A experiência telúrica coloca em jogo ao mesmo tempo, como nos mostra bem Bachelard, uma estética do sólido ou do pastoso e uma certa forma da vontade ou do sonho” (2011, p. 15). Mas, mais importante do que a citação direta, é a consonância de ideias entre os dois autores. Dardel acolhe em sua abordagem geográfica a dimensão bachelardiana de uma realidade fenomenológica da experiência terrena. Segundo Dardel:

A geografia não é, de início, um conhecimento [acadêmico]; a realidade geográfica não é, então, um “objeto”; o espaço geográfico não é um espaço em branco a ser preenchido a seguir com colorido. A ciência geográfica pressupõe que o mundo seja conhecido geograficamente, que o homem se sinta e se saiba ligado à Terra como ser chamado a se realizar em sua condição terrestre. [...] A cor, o modelado, os odores do solo, o arranjo vegetal se misturam com as lembranças, com todos os estados afetivos, com as ideias, mesmo com aquelas que acreditamos serem as mais independentes. Mas essa realidade não toma forma senão em uma irrealidade (irréalité) que a ultrapassa e a simboliza. Sua “objetividade” se estabelece em uma subjetividade, que não é pura fantasia. (2011, p. 33-4)

“A cor, o modelado, os odores do solo, o arranjo vegetal se misturam com as lembranças, com todos os estados afetivos, com as ideias [...]” Observem que aqui, os traços da experiência corporal, ou seja, todo o processo sinestésico com o mundo físico, se misturam com componentes dos atos mentais e espirituais propostos pela fenomenologia: percepções e memória, imaginação e análise são alguns dos atos que se articulam mediante a construção de sentidos na experiência corporal. Dardel entende isso claramente, e argumenta a favor de uma compreensão dessa dinâmica no seio da ciência geográfica. A esses complexos e profundos processos da relação dos indivíduos com a Terra, Dardel denomina: geograficidade (géographicité).

Nesse sentido, Dardel defende que essa subjetividade humana não é pura “fantasia”, e mais ainda, que a subjetividade faz parte da dinâmica dialética da própria objetividade, e vice-versa. Na verdade, em síntese não é diferente do que Bachelard propõe, mas com terminologias e propostas diferentes. Bachelard nos convida a refletir que a Terra em seus elementos primitivos alimenta a nossa imaginação, em outras palavras, o nosso pensamento, criatividade, ideias. A nossa relação com a Terra é física, mas também mental e emocional.

Dardel afirma que a Geografia não é, de início, um conhecimento (em seu sentido científico e acadêmico) mas uma experiência. Justamente por isso a Geografia é, antes de mais nada, fenomenológica. Como diria o geógrafo humanista David Lowenthal (1982), toda pessoa tem algo de geógrafo. A geografia, em seu sentido ontológico, não é restrita aos bancos escolares. Ela nasce do olhar, do toque, do pensamento, da memória e da imaginação. A análise geográfica se desenvolve a partir da reflexão, mas a experiência geográfica nasce na profundidade do ser, na vivência, na relação entre o ser e a Terra.

Convém ressaltar que a proposta fenomenológica de Bachelard não visa estabelecer uma dicotomia entre real e imaginário, muito pelo contrário, segundo ele “o que queremos examinar nesta obra é na verdade a imanência do imaginário no real, é o trajeto contínuo do real ao imaginário.” (2001, p. 5) Ou seja, trabalhamos mediante a ótica de que real e imaginário são instâncias humanas que se retroalimentam. Partir do real ao imaginário e do imaginário ao real é o movimento vivido que nos permitirá entender as bases de uma geografia fenomenológica. Assim, o fenômeno psíquico não é “simplesmente subjetivo”, mas atrelado aos próprios processos da realidade. A vida não se passa apenas na materialidade, mas nos fluxos das percepções e interpretações do real. Geografia não é, portanto, nem apenas física nem apenas subjetiva, mas um misto, um híbrido; por isso, sem dúvidas, uma disciplina de relação.

Se essa íntima relação entre os seres humanos e a Terra, ou entre os seres humanos e seus espaços, está no cerne do que chamamos Geografia; é lícito nos debruçarmos com maior atenção sobre a natureza desses processos. Sendo assim, observamos que para sentirmos a influência orgânica e profunda de uma música, uma leitura ou uma paisagem, precisamos vivenciar essa experiência de forma fenomenológica. Nesse sentido, o conhecimento do funcionamento da imaginação dinâmica nos auxilia – enquanto geógrafos – a entender o funcionamento dos próprios processos das experiências espaciais.

A fenomenologia nos ensina que o fato é importante, mas, além do fato em si, nos alerta para a relevância epistemológica do sentido do fato. Portanto, não basta apenas observar o fenômeno de maneira fria e imparcial, precisamos também observar o que motiva o fenômeno; ou seja, que sentidos, narrativas e interpretações podem estar associadas à dinâmica própria do fenômeno.

Além disso, pela fenomenologia, também entendemos que tudo que observamos está ao mesmo tempo fora e dentro de nós. Ao observarmos algo com atenção (e isso aqui não é dito apenas sob a perspectiva da visão, mas também do tato, audição e outros) esse também passa a estar dentro de nós através dos mecanismos de percepção e entendimento, próprios da subjetividade psíquica e espiritual do sujeito.

Ou seja, o objeto em si está fora, mas o que eu entendo e apreendo do objeto está dentro. Dentro de quem? Dentro do sujeito que vivencia a experiência. Dentro dessa ótica, se queremos entender plenamente um objeto tal ou qual, não basta estudarmos somente ele, precisamos também estudar o sujeito que o apreende.

Portanto, defendemos que em uma pesquisa geográfica torna-se relevante investigar não apenas o objeto, mas também como o próprio pesquisador reage a este objeto; que dimensões do pesquisador fazem eco a esse objeto e quais o repelem. Não é apenas uma pesquisa sobre o Outro, é uma pesquisa sobre o Outro referente a mim e, aos outros. Não basta apenas investigar o objeto – ou o fenômeno – é preciso investigar a si próprio inserido em uma dinâmica contextualizada simultaneamente por subjetividades e objetividades.

Muitos dos problemas ligados a interpretações errôneas de fenômenos sociais estão relacionados a interpretações alheias aos aspectos subjetivos, ou seja, interpretações frias e, por vezes, unilaterais. Assim, compreender algo do poder da imaginação dinâmica nos processos fenomenológicos dá ao pesquisador subsídios para adentrar no fenômeno estudado de maneira mais ampla, profunda e íntima.

Outro ponto a ser reflexionado é sobre a questão da cultura. Se estudamos, por exemplo, sobre um fenômeno como o das fake news não podemos nos ater simplesmente aos fatos, ou seja, as fake news em si. É preciso investigar os sentidos por trás das fake news, o que as motiva, o porquê de sua existência; o porquê de um público que as acolhe e as propaga com tanta facilidade.

Nessa dinâmica pós-moderna, de um fluxo enorme e efêmero de informações, os processos de apreensão do que chamamos de “real” continuam acontecendo tanto de forma objetiva quanto subjetiva. E passam ainda por uma dinâmica historicamente nova que é a da espacialidade virtual. Virtual não é a antítese de real, os espaços virtuais são reais enquanto espaços de sociabilidades, propulsão de ideias, negócios, serviços... toda uma gama de atividades que se concretiza empiricamente. Contudo, como funciona a nossa apreensão e percepção nesse novo espaço de relações? Até onde podemos estabelecer uma geograficidade considerando as experiências espaciais na virtualidade?

O que sabemos, considerando as propostas bachelardianas, é que a mente precisa de um certo espaço para “devanear” e amadurecer suas ideias e percepções. O conceito de devaneio bachelardiano é, como dito acima, justamente isso: uma pausa no movimento frenético do fluxo de informações, a qual nos permitirá “relaxar”, e assim poder assimilar novas ideias que surgem não pelo pragmatismo do turbilhão social, mas pela sensibilidade nascida de uma espontaneidade mental.

A imaginação dinâmica é, portanto, uma das características da experiência fenomenológica; característica essa que possivelmente não tem no campo efêmero das redes sociais sua melhor matriz de funcionamento. Jean-Marc Besse, filósofo francês interessado na epistemologia da Geografia, falando sobre a proposta dardeliana em um artigo intitulado “Geografia e existência a partir da obra de Eric Dardel”, afirma que:

Com efeito, no momento em que o progresso tecnocientífico nos permite percorrer a Terra em todos os sentidos e agenciá-la, a humanidade perdeu a inteligência nativa com a Terra que era, nos diz Dardel, sua vocação primordial. A ciência objetiva os fenômenos terrestres, mas ao destacá-los do instante em que emergem do horizonte concreto do mundo, nesse momento ela perde o significado vívido sob o olhar. (BESSE, 2011, p. 123)

É ilustrativo falar na perca da inteligência nativa com Terra. Os povos autóctones – a exemplo dos ribeirinhos na região amazônica e dos povos indígenas – nos mostram essa inteligência. Segundo Dardel, e também Bachelard, somos inevitavelmente ligados a Terra; a Terra nos alimenta de variadas formas, tanto físicas quanto espirituais. Os meios tecnológicos não nos dão as sinestésicas vivências face-a-face que as paisagens nos proporcionam. O cheiro e o tato, os sons e as sensações, a poética e o devaneio, não devem ser negligenciados nas análises das experiências humanas do espaço.

Considerações finais

Entender, enquanto pesquisador, as diferenças dos atos de percepção, memória, imaginação, análise, atenção entre outros, nos capacita para investigarmos melhor as dinâmicas espaciais considerando suas dimensões objetivas e subjetivas.

Nesse contexto, diante de fenômenos sociais, políticos, ambientais e culturais tão complexos, que mecanismos de apreensão psicológica e emocional temos diante de espacialidades tão abrangentes (inclusive espacialidades virtuais)? As contradições espaciais do nosso tempo são um fato. As possíveis interpretações, posturas e ações frente a essas contradições são outros fatos. Ou seja, não devemos pensar apenas no fenômeno em si, mas no sentido e no significado do olhar em relação ao fenômeno.

A percepção dos fenômenos perpassa por uma dimensão subjetiva e espiritual da imaginação. Ou seja, a problemática não deve estar centrada apenas em identificar os fatos em si, mas também em entender o sentido dos fatos, ou poeticamente falando, o sentido “por trás dos fatos”, o sentido subjacente aos fatos. Como a imaginação molda e constrói será também como entendemos e criamos a realidade que nos rodeia. Saber imaginar talvez seja saber criar realidades mais viáveis, possibilidades mais efetivas. E por que essas possibilidades não poderiam ser mais humanas, mais gentis e mais poéticas? Acreditamos que uma geografia fenomenológica poderia ser um conhecimento útil no que tange o arcabouço necessário para entendermos melhor algumas das contradições das espacialidades do tempo presente.

REFERÊNCIAS

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Notas

[1] Vincent Bontems, filósofo francês estudioso de Bachelard, nos lembra que: “O dia e a noite” é uma expressão que se entende metaforicamente como a oposição radical de uma coisa e de seu contrário, mas que designa cientificamente a alternância de fases complementares da rotação terrestre. Dito de outra forma, ela conjuga em si mesma a interpretação poética e a significação objetiva, e sugere uma “dupla leitura”. Metaforicamente, a noite compreende essas horas escuras que escapam à consciência racional, uma substância obscura. Se, ao contrário, a referimos à rotação do planeta, ela não é mais que uma fase do ritmo universal da consciência, na qual dominam tanto o espírito científico, fortemente socializado, quanto o devaneio solitário; é preciso medir seu contraste para extrair novas variáveis do dinamismo do espírito. (2017, p. 126)
[2] “Podemos acrescentar que o problema não são as redes sociais mas sim o uso que se faz destas, um axioma tão universal que serviria para inúmeras questões e situações. [...] Os escritos de Carr (2013) acerca dos malefícios das novas tecnologias deviam ser recordados. Alteram-se esquemas básicos na forma de pensar, no vocabulário, na concentração, entre muitos outros, passando a ser muito mais superficiais.” (CASTILLO, 2014 p. 203)
[3] “Mesmo que imagens visuais surgissem da imaginação e dessem uma forma “aos membros do adversário”, seria preciso reconhecer que essas imagens visuais vêm em segundo lugar, em subordem, pela necessidade de exprimir para o leitor uma imagem essencialmente dinâmica que é primordial e direta, que deriva, portanto, da imaginação dinâmica, da imaginação de um movimento corajoso.” (1997, p. 174)
[4] “A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, [como bem definiu Michel Foucault] mas uma sociedade do desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos de obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos. [...] A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados.” (HAN, 2019)
[5] “A reflexão de Eric Dardel se opõe a redução da geografia a uma “simples” disciplina científica. A diversidade de seus interesses, que conduzem Dardel a prestar atenção às produções “positivas” da geografia, mas também às problemáticas mais recentes da filosofia, da história das religiões, assim como dos problemas éticos de seu tempo, a da leitura assídua de poetas, o convidariam sobretudo a ver a geografia do ponto de vista geral de uma reflexão sobre as atitudes humanas no mundo. A geografia viria então a ilustrar, de maneira decisiva, o fato de que um certo número de elementos da existência humana não pode ser objetivado pela ciência, e, consequentemente, exige um outro tipo de abordagem. (BESSE, 2011, p. 112)
[6] Bachelard é também conhecido no meio filosófico como o “filósofo dos elementos”, isso porque ele trabalhou em desenvolver uma filosofia da imaginação que teve como tema o que ele chamou de “os elementos primordiais”: terra, água, fogo e ar. Aqui temos caracterizado, justamente, o Bachelard noturno, em contraste dialético ao Bachelard diurno: o filósofo das ciências”.


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