MÉTODO PROJETUAL “A CAIXA”: ELABORAÇÃO E APLICAÇÃO

LUCAS DA ROSA
Puc-Rio, Brasil
VALDECIR BABINSKI JÚNIOR
Universidade do Estado de Santa Catarina, Udesc, Brasil

Revista de Ensino em Artes, Moda e Design

Universidade do Estado de Santa Catarina, Brasil

ISSN: 2594-4630

Periodicidade: Bimestral

vol. 4, núm. 1, 2020

modaesociedade@gmail.com



Resumo: O presente artigo tem como objetivo relatar a elaboração e a aplicação do método projetual “A Caixa”. Esse estudo classifica-se como pesquisa aplicada, des- critiva, qualitativa e participativa, resultado de uma pesquisa de campo e laboratorial. Para a coleta de dados foram utilizados levantamento bibliográfico e entrevistas infor- mais. O surgimento do método projetual ocorreu no contexto do Programa de Exten- são Moda e Economia Criativa (PEMEC) que, por sua vez, é vinculado à Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). O método projetual foi aplicado no Curso de Extensão Fuxico na Moda, ofertado pelo PEMEC em 2018, com o objetivo de poten- cializar o papel de integrantes da Associação Companhia do Fuxico, de Florianópolis (SC), enquanto cocriadores de moda. Os resultados alcançados apontam para o cres- cimento do interesse das comunidades acadêmica e externa pela prática extensionis- ta relatada, o que pode estar relacionado ao método projetual aplicado pela equipe do PEMEC. Contudo, acredita-se que o método cumpra apenas parcialmente o objetivo a que se propõe, uma vez que não há evidência clara de como a comunidade artesã se insere enquanto cocriadora de moda no método projetual “A Caixa”.

Palavras-chave: Método projetual, Extensão Universitária, Comunidade Artesã.

Abstract: This article aims to report the elaboration and application of the project method “The Box”. This study is classified as applied, descriptive, qualitative and par- ticipatory research, resulting from field and laboratory research. For data collection, bibliographic surveys were used, as well as informal interviews. The emergence of the project method occurred in the context of the Fashion and Creative Economy Exten- sion Program (PEMEC), which, in turn, is linked to the Universidade do Estado de San- ta Catarina (Udesc). The project method was applied in the Fuxico na Moda Extension Course, offered by PEMEC in 2018, with the objective of enhancing the role of mem- bers of the Associação Companhia do Fuxico, from Florianópolis (SC, BR), as fashion co-creators. The results achieved point to the growing interest of the academic and external communities regarding the reported extension practice, which may be related to the project method applied by the PEMEC team. However, it is believed that the method only partially fulfills its intended purpose, as there is no clear evidence of how the artisan community fits in as a fashion co-creator in the “The Box” project method.

Keywords: Project Method, University Extension, Artisan Community.

Resumen: Este artículo tiene como objetivo informar la elaboración y aplicación del 132 método de proyecto “La Caja”.. Este estudio se clasifica como investigación aplicada, descriptiva, cualitativa y participativa, resultante de la investigación de campo y labo- ratorio. Para la recolección de datos, se utilizaron encuestas bibliográficas, así como entrevistas informales. La aparición del método de proyecto se produjo en el contex- to del Programa de Extensión Moda e Economia Criativa (PEMEC), que, a su vez, está vinculado a la Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). El método de proyecto se aplicó en el curso de extensión Fuxico na Moda, ofrecido por PEMEC en 2018, con el objetivo de mejorar el papel de los miembros de Associação Companhia do Fuxico, de Florianópolis (SC, BR), como co-creadores de moda. Los resultados obtenidos apuntan al creciente interés de las comunidades académicas y externas con respecto a la práctica de extensión informada, que puede estar relacionada con el método de diseño aplicado por el equipo de PEMEC. Sin embargo, se cree que el método solo cumple parcialmente su propósito previsto, ya que no hay evidencia clara de cómo la comunidad artesanal encaja como cocreador de moda en el método de proyecto “La Caja”.

Palabras clave: Método de diseño, Extensión Universitaria, Comunidad artesanal.

1 INTRODUÇÃO

No ano de 2018, o Curso de Extensão Fuxico na Moda, vinculado à Univer- sidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), foi ofertado pelo Programa de Extensão Moda e Economia Criativa (PEMEC) à comunidade artesã da Associação Companhia do Fuxico, localizada na cidade de Florianópolis (SC), sob coordenação e orientação do professor Doutor Lucas da Rosa — docente do quadro efetivo do Departamento de Moda (DMO) e do Programa de Pós-Graduação em Design de Vestuário e Moda (PPGModa) da instituição. Foram ofertadas 20 vagas para a comunidade e a equipe do PEMEC contava com cinco discentes bolsistas e voluntários, entre eles Emanueli Reinert Dalsasso, Letícia Pavan Botelho e Isabela Bronaut, bolsistas estudantes do curso de graduação em moda, e Valdecir Babinski Júnior, voluntário no programa e mestrando da turma regular de 2018 do PPGModa.

Além de vinculado ao DMO, o PEMEC encontrava-se atrelado à Direção de Extensão do Centro de Artes (Ceart) e à Reitoria de Extensão, Cultura e Comunidade (Proex) da Udesc. Ademais do apoio institucional, o Programa de Extensão também possuía parceria com a Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes (FCF- FC) (BABINSKI JÚNIOR et al., 2019a; 2019b).

Este artigo tem, como objetivo, portanto, relatar a elaboração e a aplicação do método projetual “A caixa” no contexto do curso ofertado à comunidade, apresentando, também, no decorrer do texto, o Programa de Extensão e o método nele utilizado.

2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Segundo a classificação de Gil (2008), com base no relato da experiência de uma prática extensionista, é possível compreender este artigo enquanto: (i) quali- tativo, quando perspectivada sua abordagem ao problema selecionado; (ii) aplicado, quanto à sua finalidade; (iii) descritivo, quanto aos seus objetivos; (iv) de campo e la- boratorial, no tangente ao local de realização e aplicação da pesquisa; e enquanto (v) pesquisa participativa, segundo os procedimentos técnicos nele empregados.

A coleta de dados deu-se por meio de levantamento bibliográfico e de en- trevistas realizadas com integrantes da Associação Companhia do Fuxico participan- tes do Curso de Extensão Fuxico na Moda. Os autores utilizados no levantamento bibliográfico foram escolhidos de maneira narrativa e não sistemática, de acordo com a afinidade com o tema, a exemplo dos estudos de Maciel (2007; 2008; 2012).

Foram entrevistadas quatro pessoas1, de modo informal e não estruturado. A equipe do PEMEC e os autores deste artigo optaram pela coleta informal por acre- ditarem que a formalidade acadêmica poderia produzir interferência nos resultados almejados. Dessa forma, acreditava-se ser possível criar um relacionamento de con- fiança que minimizaria desconfortos aos sujeitos da pesquisa. As entrevistas ocorre- ram no dia 24 de novembro de 2018, nas dependências do Centro de Artes (Ceart) da Udesc, na ocasião da exposição final do Curso de Extensão.

Adiante, será relatado com maior afinco o contexto no qual foi elaborado o método projetual “A Caixa”, criado para sanar as demandas da equipe do PEMEC e da comunidade artesã em questão.

3 MÉTODO PROJETUAL “A CAIXA”: ELABORAÇÃO

Muitos são os métodos projetuais passíveis de serem utilizados no desen- volvimento de produtos de moda. Para Maciel (2007; 2008; 2012), Cordeiro (2012) e Horn, Meye e Ribeiro (2013), entre os principais autores de propostas metodológicas que figuram usualmente na moda estão Bonsiepe (1975; 1984), C. Jones (1976), Mu- nari (1983), Slack, Chambers e Harland (1999), Dreyfuss (2003), Montemezzo (2003),

Keller (2004), Iida (2005), Martins (2005), S. Jones (2005), Bürdek (2006), Rozenfeld

et al. (2006), Sorger e Udale (2007), Treptow (2007), Brown (2010), Baxter (2011), Löbach (2011) e Mozota (2011). Somam-se a esses, autores como Sanches (2017),

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1 O baixo número de entrevistas deu-se mediante o não planejamento do estudo. O registro do método e a produção de seu texto acadêmico foi posterior à finalização do Curso de Extensão. Portanto, os autores não haviam preparado ou coletado en- trevistadas para além daquelas realizadas no dia da exposição final dos trabalhos

realizados no curso.

que fornece uma perspectiva metodológica acadêmica voltada para o desenho de pro- jetos, Merino (2014; 2016) e Teixeira (2018), que se debruçam sobre a Gestão Visual de Projetos para denotar sua utilização nos mais diversos campos do conhecimento.

Para Rüthschilling e Anicet (2014), tradicionalmente, os métodos projetuais no campo da moda seguem a sequência do planejamento e do desenvolvimento de uma coleção de vestuário. Na visão das autoras, esses métodos projetuais possuem como fases: (i) pesquisa e análise; (ii) síntese; (iii) seleção; (iv) manufatura; e (v) dis- tribuição. A descrição de cada fase é apresentada no Quadro 1 a seguir.

Quadro 1 – Métodos projetuais tradicionais em design e moda

Fase Atividades Pesquisa e Aná- lise Pesquisa de mercado. Tendências e outras fontes de pesquisa. Desenvolvimento do conceito (processo criati- vo). Design. Parcela de inovação. Síntese Criação dos moldes e pilotagem. Criação das peças-piloto. Ajustes e definições das peças-piloto. Seleção Edição da coleção. Montagem do mostruário para compradores. Manufatura Produção das roupas encomendadas. Produção interna ou terceirizada. Distribuição Expedição e envio para lojas. Retorno de informações para o designer. Importar tabla

Fonte: adaptado a partir de Rüthschilling e Anicet (2014, p. 1049)

Com base no Quadro 1, é possível perceber que os métodos projetuais empregados para o desenvolvimento de produtos de moda seguem a sequência lógi- ca do planejamento de uma coleção de vestuário. Entre tais métodos, Maciel (2007) destaca a proposta de Montemezzo (2003) que, por sua vez, delimita seis grandes fases metodológicas: (i) planejamento; (ii) especificação do projeto; (iii) geração de alternativas; (iv) avaliação e elaboração; (v) realização; e (vi) produção. O Quadro 2, a seguir, apresenta as fases e as atividades previstas para cada uma delas.

Quadro 2 – Resumo do método projetual de Montemezzo (2003)

Fases Atividades Planejamento Observar o mercado e descobrir oportunidades. Analisar as expectativas e o histórico comercial da empresa. Elaborar ideias para produtos e identificar o pro- blema de design. Definir estratégias de marketing, de desenvolvi- mento, de produção, de distribuição e de vendas. Definir um cronograma. Especificação do projeto Analisar e definir o problema de design. Sintetizar o universo do consumidor (universo físi- co e psicológico). Realizar pesquisas de tendências e de conteúdos de moda. Delimitar o projeto e seu objetivo. Geração de al- ternativas Gerar alternativas de solução para o problema de design por meio de esboços, desenhos e estudos de desenvolvimento. Definir a configuração da coleção, os materiais a serem empregados e as tecnologias envolvidas. Avaliação e ela- boração Eleger as melhores alternativas. Detalhar a configuração por meio de desenhos técnicos. Desenvolver fichas técnicas, modelagens e protó- tipos. Realizar testes ergonômicos e de usabilidade. Realizar, se necessário, correções e adequações. Realização Avaliar técnica e comercialmente as soluções. Corrigir e adequar o projeto e/ou os produtos, se necessário. Graduar a modelagem das peças de vestuário. Confeccionar as fichas técnicas definitivas e as peças-piloto, mediante aprovação técnica e co- mercial. Adquirir matéria prima para a confecção da cole- ção. Orientar os setores de produção e de vendas so- bre a coleção. Definir as embalagens e o material de divulgação da coleção. Produção Lançar os novos produtos da coleção. Importar tabla

Fonte: Montenezzo (2003) adaptado por Maciel (2007)

O Quadro 2, adaptado a partir da visão de Maciel (2007) sobre o método projetual de Montemezzo (2003), corrobora o exposto no Quadro 1: o planejamento de coleção de vestuário apresenta-se como a linha guia para a sequência metodológi- ca. Nesse sentido, Maciel (2007; 2008; 2012), Cordeiro (2012) e Horn, Meye e Ribeiro (2013) indicam que, em muitos casos, os métodos projetuais utilizados no desenvolvi- mento de produtos de moda advém de áreas como o design, a engenharia de produ- ção e a administração – a exemplo, respectivamente, de Brown (2010), de Rozenfeld et al. (2006) e de Slack, Chambers e Harland (1999) – e, notadamente, são adaptados para o contexto manufatureiro da indústria têxtil e de confecção. No decorrer de tal adaptação, Montemezzo (2003) e Maciel (2007; 2012) acreditam que possam ser ge- radas lacunas com relação aos métodos projetuais, em especial quando o intuito foge à produção industrial.

Os autores deste artigo depararam-se com as lacunas supracitadas ao rea- lizarem uma busca2 por métodos projetuais que intentem a inserção de comunida- des artesãs na elaboração de produtos de moda. No âmbito do trabalho artesão na moda, Barberena e Schulte (2012) assinalam que há carência de métodos projetuais voltados para valorização das comunidades e que existem evidências de que são ne- gligenciadas suas potencialidades. As autoras citam, ainda, que essas comunidades são, em muitos casos, vistas apenas como mão de obra ou como fonte de inspiração para designers e estilistas estrangeiros, que as consideram somente como portadoras de caráter folclórico e exótico.

No entanto, Rosa e Babinski Júnior (2019) ressaltam a existência de re- ferências sobre o trabalho artesanal nos achados metodológicos de autores da área do design e da moda quando no contexto da sustentabilidade, tais como Fletcher e Grose (2011), Rüthschilling e Anicet (2014), Gwilt (2014), Schulte (2015), Manzini e Vezzoli (2016) e Camargo e Rüthschilling (2016). Apesar de consultados os autores supracitados, ainda que de modo superficial, Rosa e Babinski Júnior (2019, p. 6) afir- mam que, no contexto do Curso de Extensão Fuxico na Moda, “[...] não se encontrou método projetual em que comunidades artesãs fossem consideradas, factualmente, cocriadoras de produtos de moda, em tempo hábil para o início das aulas do curso.”

Portanto, Rosa e Babinski Júnior (2019) elaboraram um escopo do método projetual a ser empregado no curso em questão: o método deveria abranger as po- tencialidades e o saber artesão de que já dispunham os integrantes da Associação Companhia do Fuxico, bem como suas competências e histórias de vida que, por sua

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2 A busca realizada pelos autores ocorreu de modo informal, randômica e não-sistêmi- ca, com consulta ao corpo docente da Udesc e ao endereço eletrônico de buscadores automáticos. Não foram contempladas bases de dados, tampouco grupos de pesqui- sa, centros de pesquisa ou universidades, em específico.

vez, poderiam ser canalizadas para o desenvolvimento de produtos de moda.

Desse modo, por intermédio de reuniões constantes com a equipe do PE- MEC, foi elaborado o método projetual “A Caixa”. As experiências profissionais e aca- dêmicas da equipe foram de grande auxílio no momento da construção do método, em especial, o relato da experiência do professor Doutor Lucas da Rosa no trabalho com a plataforma Santa Catarina Moda e Cultura (SCMC) — Criada em 2005, a plataforma SCMC desenvolve projetos anuais que integram indústria, comunidade e academia no intuito de promover inovação e conexão no estado de Santa Catarina.

Segundo Rosa et al. (2019, p. 3), o método recebeu o título de “A Caixa” para representar, simbolicamente, “[...] um baú de referências, um repositório físico de memórias relacionadas ao tema proposto”. No caso do Curso de Extensão Fuxico na Moda, o tema proposto era “Infância Negra: relações de afeto”. O tema foi escolhido pela equipe do PEMEC para abarcar a proposta da exposição final, que ocorreu na Semana da Consciência Negra, nas dependências do Ceart, de 20 até 29 de novem- bro de 2018 (SANTA CATARINA, 2018).

Rosa e Babinski Júnior (2019) afirmam que o método projetual criado apre- sentava duas fases fundamentais: (i) a construção de uma caixa, a critério do partici- pante do curso; e (ii) a transformação do conteúdo da caixa em um produto para a ex- posição. Conforme ilustra o Quadro 3, para cada fase, os autores criaram atividades que os participantes do curso deveriam cumprir.

Quadro 3 – Fases e atividades previstas no método projetual “A Caixa”

Fases Atividades solicitadas aos participantes 1. Constru- ção da Cai- xa 1.1 Trazer uma caixa física ou baú com objetos pes- soais conectados com o tema proposto, respeitando possíveis interpretações individuais. 1.2 Estabelecer, a partir dos objetos apresentados e narrados, o produto que se pretende desenvolver para a exposição final do Curso de Extensão. 1.3 Apresentar referências sobre seu envolvimento pessoal com a arte do fuxico e o que o inspira em sua criação. 1.4 Definir um subtema para guiar o conceito do produ- to a ser desenvolvido com base preferencialmente em sua história de vida. Importar tabla

2. Da Caixa para a ex- posição 2.1 Registrar em um caderno (book de coleção) o sub- tema escolhido e o conceito norteador para o desen- volvimento do produto, bem como inspirações e infor- mações pertinentes, tais como esboços, desenhos, esquemas, imagens, cartelas de cores, de aviamentos e de materiais a serem utilizados na confecção do pro- duto. 2.2 Materializar o produto seguindo as diretrizes regis- tradas no caderno. 2.3 Apresentar o produto na exposição final juntamente com a turma. Importar tabla

Fonte: Rosa et al. (2019, p. 3)

Rosa et al. (2019) destacam que a criação do Quadro 3 ocorreu posterior- mente à aplicação do método no Curso de Extensão Fuxico na Moda – o que implica dizer que o método foi registrado a posteriori de seu emprego. À época do curso, foi esquematizada uma representação gráfica das fases do método. Com base em tal representação, desenvolveu-se a Figura 1, mostrada a seguir.

Figura 1 – Método projetual “A Caixa”.
Figura 1 – Método projetual “A Caixa”.
Figura 1 – Método projetual “A Caixa”.
Fonte: Rosa e Babinski Júnior (2019, p. 8)

Ao representar as fases e atividades do método criado pela equipe do PE- MEC, a Figura 1 pode ser compreendida como Representação Gráfica de Síntese (RGS), definida por Padovani (2012, p. 143) enquanto “[...] artefatos visíveis bidimen- sionais estáticos criados com o objetivo de complementar a informação escrita em textos acadêmico-científicos”. Para a autora, as RGS se caracterizam pelo emprego dos modos de representação esquemático e pictórico, que são simplificados e utiliza- dos em conjunto com textos resumidos na forma de rótulos ou de legendas. Segundo Bueno e Padovani (2016), uma RGS pode apresentar um composto de imagens, pa- lavras, formas, ícones, diagramas, mapas e outros elementos gráficos e/ou textuais.

Assim, o método projetual “A Caixa”, ilustrado por meio de uma RGS (ver Figura 1), foi elaborado com a intenção de abarcar as potencialidades e o saber ar- tesão de integrantes da Associação Companhia do Fuxico e teve como subsídios experiências acadêmicas e professionais da equipe do PEMEC. A seguir, relata-se a aplicação do método no Curso de Extensão Fuxico na Moda no decorrer de 2018.

4 MÉTODO PROJETUAL “A CAIXA”: APLICAÇÃO

O método projetual “A Caixa” foi aplicado pela equipe do PEMEC no Curso de Extensão Fuxico na Moda, ofertado em 2018 exclusivamente para os integrantes da Associação Companhia do Fuxico, que contou com a coordenação do professor Doutor Lucas da Rosa. Antes do início das aulas, reuniram-se membros da comuni- dade artesã e do PEMEC para apresentação do plano de ensino, do conteúdo a ser desenvolvido, da carga horária e da proposta da exposição final do curso (BABINSKI JÚNIOR et al., 2019b).

Segundo Rosa e Babinski Júnior (2019), o plano de ensino do curso encon- trava-se dividido entre dois módulos, sendo o primeiro voltado para o estudo de cores, formas, tecidos e silhuetas, e o segundo relacionado ao desenvolvimento de produto de moda e à pesquisa de tendências. Em ambos os módulos foram empregadas abor- dagens expositivas e, também, exercícios práticos com foco no próprio saber fazer artesão – utilizado, então, como caminho para a compreensão de conceitos como círculo cromático e harmonia de cores (Figura 2).

Figura 2 – Aula de teoria da cor, Curso de Extensão Fuxico na Moda 2018.
Figura 2 – Aula de teoria da cor, Curso de Extensão Fuxico na Moda 2018.
Figura 2 – Aula de teoria da cor, Curso de Extensão Fuxico na Moda 2018.
Fonte: elaborado pelos autores com base no acervo do PEMEC (2018)

Além da aula de teoria da cor (Figura 2), ocorreram quatro outros encontros no primeiro módulo do curso, que recebeu o título de “Conhecendo cores e Materiais”. No segundo módulo do curso, “Entendendo tendências e desenvolvendo produto de moda”, foram realizados seis encontros, sendo o segundo e o terceiro encontros utili- zados para apresentação do método projetual “A Caixa”, conforme é possível obser- var no Quadro 4, a seguir.

Quadro 4 – Encontros do Curso de Extensão Fuxico na Moda em 2018

Módulo 1: Conhecendo co- res e materiais Módulo 2: Entendendo tendências e desenvolvendo produto de moda Data Tema Data Tema 05/05/2018 Teoria da cor 11/08/2018 Desenvolvimento de produto de moda e pesquisa de tendên- cias 19/05/2018 Tendências de cor 25/08/2018 Apresentação do méto- do projetual “A Caixa” e orientações indivi- duais 02/06/2018 Formas e si- lhuetas 15/09/2018 16/06/2018 Fios e fibras 29/09/2018 Caderno (book de co- leção) 30/06/2018 Tecidos e avia- mentos 27/10/2018 Finalização e apresen- tação de produto de moda 01/07 a 10/08/2018 Recesso esco- lar 24/11/2018 Exposição final Importar tabla

Fonte: Rosa et al. (2019, p. 4)

Conforme o Quadro 4, o curso culminou na exposição final dos produtos desenvolvidos pelos participantes. A escolha do tema “Infância Negra: relações de afeto” para a exposição foi articulada à aplicação do método projetual de modo que, além da consonância com o local e a data da exposição, houvesse, também, o acolhi- mento da história de vida de cada participante do curso.

É importante destacar que a Associação Companhia do Fuxico é formada, majoritariamente, por mulheres negras. Desde sua criação em agosto de 2013, na ocasião do Fórum de Cultura, realizado no Palácio Cruz e Souza, sede do Museu His- tórico de Santa Catarina, a Associação Companhia do Fuxico – Cia do Fuxico, como é conhecida localmente – reúne artesãos com interesse em difundir e cultivar a técnica secular de fuxicar (FLORIANÓPOLIS, 2018).

Na oportunidade, que também marcou a comemoração da Semana do Fol- clore de Florianópolis (SC), estabeleceu-se a coordenação de Valdeonira Silva dos Anjos, figura fundamental na interação entre universidade e comunidade local (BA- BINSKI JÚNIOR et al., 2019b). Dona Valdeonira, como é carinhosamente tratada en- tre os membros da associação, é professora, historiadora, fundadora e membra desde 1988 do Movimento Mulheres Negras, de Florianópolis (SC). Em 2004, Dona Valdeo- nira, em conjunto com seu marido, Altamiro José dos Anjos (in memoriam) – conheci- do pela comunidade como Seu Dascuia – fundou o Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Dascuia, atual sede da Cia do Fuxico.

Segundo entrevistas informais realizadas com Dona Valdeonira e outros três membros da Cia do Fuxico, a arte de fuxicar advém de técnicas artesanais, cujas origens remetem às senzalas brasileiras. Os entrevistados relatam que, à época do surgimento do fuxico, era comum que mulheres negras recolhessem panos velhos e retalhos de tecidos de sinhás para cosê-los e, ao fazê-los, cochichar sobre o cotidiano da casa grande a qual sua família estava ligada. Relataram também que, atualmente, a técnica é utilizada para confeccionar artigos de decoração e de vestuário.

Para os entrevistados, fuxicar é tarefa de homens e mulheres, contudo, na associação, o fuxico é o trabalho de mulheres, predominantemente, idosas, que bus- cam no artesanato uma forma de aumentar a renda mensal de suas famílias. Quando questionados sobre a forma de captação do material necessário para a confecção de fuxicos e de seu custo, os entrevistados afirmaram que recortam retalhos de peças de vestuário danificadas e sem uso que seriam destinadas a aterros sanitários ou lixões. Entretanto, Dona Valdeonira citou que a associação recebe doações de tecidos pla- nos e de malhas de algumas empresas têxteis e de confecção da região. Os quatro

entrevistados apontaram como principais tecidos empregados no fuxico: chita, chitão,

tricoline e cetim.

No ano de 2018, por intermédio da FCFFC, a Cia do Fuxico foi convidada a participar de uma prática extensionista da Udesc. Depois de conversas iniciais com a equipe do PEMEC, a prática foi proposta no formato do Curso de Extensão Fuxico na Moda. Por sua vez, ao aplicar o método projetual “A Caixa”, a equipe não poderia deixar de valorizar a história da associação e de seus integrantes.

A partir da aplicação do método projetual, fuxiqueiras e fuxiqueiros pude- ram desenvolver subtemas e produtos individualmente, conforme suas respectivas histórias de vida. O Quadro 5 apresenta o subtema, a natureza do subtema (entendida como a fonte de inspiração do participante) e o produto desenvolvido por cada um. Rosa et al. (2019) informam que os nomes dos participantes foram substituídos por H, quando homem, e M, quando mulher, para assegurar a privacidade dos integrantes da Cia do Fuxico.

Quadro 5 – Produtos desenvolvidos pelos participantes do Curso de Extensão

Ref. Subtema Natureza do subtema Produto desenvolvido H1 Jogos olímpicos Memória da ju- ventude Toalha de mesa e cami- seta M1 Cores e Ima- gens Música Enfeites de mesa e de- coração H2 Exército Memória da ju- ventude Cortinas e almofadas M2 Mãos que se unem Memória da in- fância Porta-celular M3 Brincadeiras Bonecas de tecido M4 Mina de carvão Suporte para material de escritório M5 Mágica Negra Poesia autoral Itens de cama, mesa e banho M6 Brincadeiras Memória da in- fância Peças de vestuário M7 Festa de carna- val Memória da ju- ventude Bonecas fantasiadas M8 Meu despertar Memória da in- fância Peças de vestuário H3 Esplendores da fé Acessórios M9 A volta no tempo Decoração Importar tabla

Fonte: ROSA et al. (2019, p. 5)

É possível observar no Quadro 5 que os participantes do curso desenvol- veram produtos diversos. Rosa e Babinski Júnior (2019) acreditam que isso tenha resultado da liberdade do método projetual, que permitiu a cada um a materialização de produtos de interesse pessoal, com base em histórias, competências e referências individuais. Os autores citam, também, “que o interesse pessoal na confecção dos produtos motivou os participantes a exporem seus resultados na Semana da Cons- ciência Negra, em novembro de 2018” (ROSA; BABINSKI JÚNIOR, 2019, p. 9). Al- guns desses trabalhos são apresentados na Figura 3, a seguir.

Figura 3 – Trabalhos em exposição durante a Semana da Consciência Negra 2018.
Figura 3 – Trabalhos em exposição durante a Semana da Consciência Negra 2018.
Figura 3 – Trabalhos em exposição durante a Semana da Consciência Negra 2018.
Fonte: Rosa e Babinski Júnior (2019, p. 10)

A exposição final, conforme apresentada parcialmente na Figura 3, ocorreu nas dependências e instalações do Ceart, onde a comunidade acadêmica e o públi- co em geral puderam apreciar os produtos confeccionados pela comunidade artesã da Cia do Fuxico, representada no dia do evento – 24 de novembro de 2018 – por Dona Valdeonira. Em seu discurso de abertura, a fundadora da associação salientou a importância do Curso de Extensão para os participantes e o impacto que o método projetual produziu sobre suas histórias de vida, apresentadas e representadas pelos produtos ali expostos. Além de Dona Valdeonira, discursaram também autoridades da

Direção de Extensão do Ceart e do PEMEC (BABINSKI JÚNIOR et al., 2019a; 2019b; ROSA; BABINSKI JÚNIOR, 2019).

Segundo Rosa e Babinski Júnior (2019), o discurso da líder da Cia do Fu- xico foi corroborado, no ano seguinte (2019), por intermédio de um ofício de agradeci- mento entregue pela comunidade artesã ao coordenador do PEMEC, professor Dou- tor Lucas da Rosa, quando da aula inaugural da nova turma do Curso de Extensão Fuxico na Moda. O ofício reitera o reconhecimento do trabalho da equipe do PEMEC perante a comunidade que foi foco da prática extensionista. Ainda que não seja citado de modo explícito, julgam os autores deste artigo, com base no ofício, que o modo como a compreensão do curso passou de “restritivo e difícil” para “não difícil e porta- dor de aspecto cultural”, deu-se pelo emprego do método projetual.

Se é prematuro afirmar que a utilização do método projetual pode ter altera- do a compreensão da comunidade artesã sobre a prática extensionista, o mesmo não acontece com os números que demostram o crescimento do interesse pelo Curso de Extensão Fuxico na Moda e pelo PEMEC. Os autores deste artigo acreditam que, pelo sucesso obtido com o curso no ano de 2018, houve um aumento significativo em sua procura em 2019 por parte das comunidades acadêmica e externa, o que provocou a ampliação da oferta de vagas e da própria equipe do PEMEC. Rosa et al. (2019) citam a entrada de estudantes do bacharelado em moda da Udesc como voluntárias na equipe, a saber: Irina dos Santos Xavier, Mariana Gusmão Nogueira Kertesz Rath e Rafaela Bauler Theiss – um aumento de 60% em relação ao ano anterior.

O interesse das comunidades acadêmica e externa podem ser compreen- didos também pelos dados apresentados por Rosa e Babinski Júnior (2019, p. 11): “No ano de 2019, além de contar com o apoio voluntário de mais três estudantes, o PEMEC ampliou o total de vagas para o curso, de 20 para 40, das quais 16 foram reservadas para a Cia do Fuxico e 24 foram sorteadas para o público inscrito”. Os autores afirmam que até o dia 20 de junho de 2019 foram recebidas 150 inscrições eletrônicas para a nova edição do Curso de Extensão que, se comparadas com as inscrições da primeira edição, representam um crescimento de 650%.

Além das inscrições supracitadas, o PEMEC também recebeu novas ins- crições para o Curso de Extensão de Renda de Bilro. Ao total, 519 inscrições foram registradas – o que, para Rosa e Babinski Júnior (2019, p. 11), “sinaliza significativo reconhecimento ao trabalho desenvolvido pela equipe do programa”. Em comparação com o ano anterior, o número de inscrições recebidas nos dois cursos do programa cresceu, no somatório, 1.197,5%.

Apesar de o crescimento das inscrições no curso, os autores do artigo en- tendem ser difícil afirmar a relação entre a procura pelo curso com a utilização do

método projetual “A Caixa”. Além disso, os autores entendem, também, que o objetivo a que se propôs o método, tornar a comunidade artesã cocriadora de moda, é alcan- çado apenas parcialmente. Isso ocorre em função de não haver trecho específico no método, fase ou atividade na qual a comunidade se insere, factualmente, como cocriadora.

O método projetual “A Caixa” pôde auxiliar o trabalho da equipe do PEMEC e da comunidade artesã no Curso de Extensão Fuxico na Moda, no entanto, por seu caráter genérico e, logo, não específico, não foi possível afirmar que este tenha cum- prido com o objetivo proposto. Nesse sentido, novos estudos podem, por exemplo, aumentar o número de fases para abarcar atividades próprias ao saber fazer artesão ou redistribuir as atividades com ênfase nas competências individuais de cada parti- cipante.

Assim, a aplicação do método projetual “A Caixa” culminou no desenvolvi- mento de cortinas, almofadas, objetos de decoração, portas-celular, bonecas de te- cido, suportes para material de escritório, peças de vestuário, acessórios e itens de cama, mesa e banho. Cada produto confeccionado esteve imbuído da história de vida de quem o materializou. Os integrantes puderam empregar valores individuais, refe- rências da infância e competências particulares para materializar interesses pessoais.

5 CONCLUSÃO

Os autores deste artigo acreditam ter alcançado o objetivo proposto: relatar a elaboração e a aplicação do método projetual “A Caixa” no contexto Curso de Ex- tensão Fuxico na Moda. O método, criado a partir de experiências acadêmicas e pro- fissionais da equipe do Programa de Extensão Moda e Economia Criativa, permeou o curso ofertado para a Associação Companhia do Fuxico, de Florianópolis (SC), no ano de 2018.

O relato feito de forma descritiva empregou figuras e Representação Gráfi- ca de Síntese (RGS) para denotar o método e sua aplicação no curso. Os resultados colhidos indicam que há grande possibilidade de criação de produtos, que vão de cortinas, almofadas e objetos de decoração até peças de vestuário, acessórios e itens de cama, mesa e banho.

Vale ressaltar que o método projetual “A Caixa” apresenta caráter genérico, sendo constituído de fases e atividades que permitem a valorização da história de vida de seus usuários, a saber: (i) reunir em uma caixa objetos pessoais; (ii) estabe- lecer um produto a ser desenvolvido, a partir dos objetos pessoais selecionados; (iii) apresentar referências e inspirações; (iv) definir um subtema; (v) registrar tudo em um

caderno; (vi) materializar o produto a partir dos registros; e, por fim, (vii) apresentar o produto. Isto torna possível aplicá-lo como abordagem metodológica em práticas extensionistas, como a descrita neste artigo, entretanto, ainda há lacunas em seu uso para com comunidades artesãs.

Após procederem o relato da aplicação do método, os autores verificaram que não há evidência clara de como a comunidade artesã é inserida no processo de cocriação de moda, tampouco a própria cocriação de moda é elucidada com afinco no método. Para estudos futuros, sugere-se o aprofundamento da exploração de méto- dos projetuais focados na criação ou na cocriação de moda.

Indica-se, também, a investigação de métodos projetuais com foco no arte- sanato e no saber fazer artesão. Quanto ao método projetual “A Caixa”, recomenda-se o estudo de métricas para verificar objetivamente o impacto do método no desenvolvi- mento de produtos pela comunidade artesã a qual vier a se objetivar – além do acrés- cimo de fases e atividades que visem à valorização dos participantes.

Por fim, os autores deste artigo agradecem ao Departamento de Moda (DMO) e ao Programa de Pós-Graduação em Design de Vestuário e Moda (PPGMo- da) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Agradecem, também, à Direção de Extensão do Centro de Artes (Ceart) e à Pró-Reitoria de Extensão, Cul- tura e Comunidade (Proex) da Udesc; à Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes (FCFFC); aos estudantes bolsistas e voluntários envolvidos no programa; e ao convite dos editores desta revista, na oportunidade da apresentação desta prática extensionista na 15ª edição do Colóquio de Moda e no 14º Fórum das Escolas de Moda Dorotéia Baduy Pires, realizados em Porto Alegre (RS), entre os dias 01 e 04 de setembro de 2019.

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